FMI pede a países que não revertam reformas adotadas após a crise global

Em relatório, Fundo reconhece que nova estrutura de mercado surgiu uma década após a crise

 

Danielle Brant
NOVA YORK
 
 

Uma década após a pior crise financeira global desde a grande depressão de 1929, o FMI (Fundo Monetário Internacional) diz que os países devem resistir aos clamores para reverter as reformas regulatórias adotadas para impedir que os mercados enfrentem uma nova recessão.

O apelo ocorre a partir do diagnóstico de que a estrutura dos mercados está mais robusta do que a de dez anos atrás, mas talvez ainda não seja forte o suficiente para enfrentar alguns contratempos que o Fundo vislumbra no horizonte.

No relatório “Uma década após a crise financeira global: estamos mais seguros?”, o Fundo reconhece que uma nova estrutura de mercado surgiu uma década após a crise.

Mas avalia que o novo ambiente institucional ainda precisa ser testado sob condições mais adversas para que sua resistência seja confirmada. Segundo o FMI, isso melhorará a habilidade do sistema financeiro de absorver um choque adverso, em vez de propagá-lo.

Sem um teste que confirme a solidez da estrutura criada, os governos deveriam manter, e não desmontar, o arcabouço regulatório pós-crise, defende o Fundo. Nos EUA, algumas regras foram revertidas para dar mais flexibilidade a instituições financeiras de menor porte.

“Conforme nuvens se juntam no horizonte, é crucial para países no mundo completarem e implementarem a agenda de reforma regulatória global e resistirem ao chamado de reverter reformas”, diz Tobias Adrian, conselheiro financeiro do FMI, no prefácio do relatório.

Entre as nuvens identificadas, estão uma recuperação econômica mundial heterogênea e que contribuiu para o aumento da desigualdade global, alimentando medidas focadas apenas no cenário doméstico, o que gerou maior incerteza política.

Como resultado dessa desigualdade na retomada, tensões comerciais afloraram, e uma escalada adicional pode afetar o sentimento do mercado e prejudicar significativamente o crescimento global, diz o FMI. O organismo advertiu para a diminuição do apoio ao multilateralismo, “um caminho perigoso que pode minar a confiança na habilidade dos políticos de responder a futuras crises.”

Esse cenário torna ainda mais vulneráveis economias emergentes, ainda afetadas pela combinação de aumento de juros nos EUA, um dólar mais forte e a intensificação das disputas comerciais que levam à retirada de capital de mercados emergentes.

Até agora, o apetite global por risco mascarou os desafios que os emergentes poderiam enfrentar se as condições financeiras no mundo piorarem agudamente, diz o Fundo.

A análise de fluxo de capital do FMI sugere que, com uma probabilidade de 5%, as economias emergentes (com exceção da China) poderiam enfrentar saídas de capital de US$ 100 bilhões no médio prazo, ou mais ainda num período de quatro trimestres (0,6% do PIB somado deles), semelhante em magnitude à crise financeira global.

Em emergentes como o Brasil, a qualidade de crédito permanece uma preocupação à estabilidade financeira. No setor corporativo desses mercados, a fatia de dívida de empresas cujo gasto com juros supera os ganhos está maior do que em outras regiões.

Diante desse contexto maior, os reguladores deveriam permanecer atentos a novos riscos, incluindo possíveis ameaças à estabilidade financeira provocadas pela cibersegurança, tecnologia financeira e outras atividades fora do perímetro de regulação prudencial.

O Fundo indica que os riscos de curto prazo à estabilidade financeira aumentaram modestamente, enquanto os riscos de médio prazo permanecem elevados por causa de vulnerabilidades financeiras persistentes ligadas aos níveis altos de endividamento, entre outros fatores.

Olhando para a frente, uma escalada adicional de tensões comerciais, assim como o aumento dos riscos geopolíticos e da incerteza política nas principais economias poderiam levar a uma piora inesperada no sentimento de risco.

Isso levaria a uma correção ampla em mercados de capitais globais e a um aperto agudo nas condições financeiras globais.

 

Fonte: Folha de S.Paulo, 11 de outubro de 12018.,

 

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