Movimento "Coletes Amarelos" sacode a França

Mais uma vez, surgem grandes manifestações contra políticas de direita no país
Por Osvaldo Bertolino

 
  
 
O movimento “Coletes Amarelos” que sacode a França tem singularidades e ao mesmo semelhanças com o histórico de lutas dos trabalhadores daquele país. Os protestos já duram quase um mês, bloqueando estradas e portos, uma mobilização que já reuniu mais de 300 mil pessoas. O nome vem dos coletes obrigatórios nos veículos para serem usados como prevenção em caso de acidentes automobilísticos. 

Segundo o noticiário francês, o movimento não surgiu em partidos e ou sindicatos; foi organizado pelas redes sociais e começou com uma petição online contra aumentos do imposto nos combustíveis na forma uma taxa para supostamente desestimular o uso de carros e combater a poluição para depois se estender contra a alta do custo de vida em geral. A petição reuniu milhões de assinaturas em poucos dias e saiu das redes sociais para se transformar em manifestações físicas. 

O fundo da questão é a política econômica do presidente Emmanuel Macron, eleito sem apoio dos partidos políticos tradicionais, um representante do sistema financeiro internacional e, segundo dizem, do inteiro agrado do governo alemão. Sua imagem saiu bastante arranhada com o caso de Alexandre Benalla, seu ex-assessor de segurança flagrado batendo em um jovem durante a manifestação do 1° de maio. E piorou com suas políticas de austeridade para beneficiar o grande capital, em especial as “reformas fiscais” que suprimiram o imposto sobre as fortunas. O movimento “Coletes Amarelos” já pede a destituição de Emmanuel Macron, que ostenta uma taxa de aprovação de 32% e a de reprovação de 68%.

Tradição de lutas

Os trabalhadores franceses são exemplo de como as manifestações populares podem frear as “reformas” neoliberais. Um caso clássico se iniciou em 1988, quando um primeiro-ministro vaticinou que a “reforma” da previdência poderia derrubar vários governos. E derrubou. Michel Rocard, então primeiro-ministro do governo socialista de François Mitterrand, já antecipava as dificuldades à frente das tentativas reformistas. ''A reforma das aposentadorias tem poder para derrubar vários primeiros-ministros'', afirmou. 

Seu vaticínio se confirmou em 1995, quando o premiê de direita Alain Juppé decidiu encarar o problema. O chefe de governo não resistiu no cargo depois de um inesquecível dezembro de greves e intensas manifestações populares, as maiores realizadas no país desde maio de 1968. Com a queda de Juppé, a questão foi para a geladeira — e lá ficou até que o presidente Jacques Chirac foi reeleito.

A “reforma” da previdência, já encaminhada pela maioria dos vizinhos europeus na década de 1990, virou a grande prioridade de seu governo. Chirac quis aproveitar a maioria parlamentar para mexer num vespeiro capaz de fazer o termômetro social atingir as mais elevadas temperaturas. Foi exatamente o que se viu: milhões de trabalhadores protestaram em mais de uma centena de cidades francesas, e numerosas paralisações foram decretadas, principalmente nos serviços de transporte público (trens, ônibus e metrô) e da educação, superando todas as expectativas iniciais. 

A insistência do governo, aliada a um amplo trabalho de propaganda enganosa, não arrefeceu a resistência. ''As ruas não governam o país'', reagiu o primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin. Governavam: Raffarin, atingido pela derrota do governo no referendo sobre a Constituição da União Europeia em maio de 2005, foi substituído por Dominique de Villepin e a “reforma” da previdência voltou para a gaveta.

 
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