Estudo mostra que robôs elevam o PIB e geram emprego

Os robôs talvez roubem nossos empregos, mas há indícios cada vez mais firmes de que os trabalhadores têm tudo a ganhar com a presença deles. Quanto mais robôs um país tem, maior é seu PIB (Produto Interno Bruto) e mais ricos, em média, seus cidadãos. 

Os países que resistem à automação ficam para trás na criação de riqueza e de empregos. Isso pode parecer insano dado o medo de que computadores, robôs e inteligência artificial eliminem metade dos empregos humanos nos próximos 20 anos

Também parece arriscado, da perspectiva dos executivos de primeiro escalão, porque nem todos os robôs são adequados a todos os trabalhos. Robôs subutilizados custam mais caro do que uma força de trabalho humana que atenda à demanda sazonal.

Para a economia como um todo, a automação causa alta nos preços dos bens e serviços. Os seres humanos se provaram inventivos sobre como gastar qualquer dinheiro adicional que obtenham, o que resulta em novos negócios —e mais empregos.

Relatório recém-lançado pela Fundação de Inovação e Tecnologia da Informação (Itif, na sigla em inglês) argumenta que os Estados Unidos estão ficando para trás na adoção de robôs. 

Um novo índice compilado pela organização, um dos principais institutos de pesquisa sobre ciência e tecnologia, compara o ritmo de adoção de robôs industriais em diferentes países e pondera os resultados levando em conta o salário médio dos trabalhadores nesses países e setores. 

A Itif constatou que os Estados Unidos adotam robôs em ritmo bem inferior ao “esperado”. A China, por outro lado, tem ritmo tão superior ao de todos os demais países que, em uma década, pode ser líder em adoção no planeta, pelo critério de comparação com a média salarial dos trabalhadores.

Quando surgiu o computador digital, na Segunda Guerra Mundial, quem teria predito que, em 2022, a América do Norte teria 265 mil mais postos de trabalho na área de segurança da computação? 

Há quem argumente que não existe precedente histórico para a atual onda de inovação. Uma dessas pessoas é Kai-Fu Lee, ex-presidente das operações chinesas do Google. 

Lee acredita que ela terá efeitos tão fortes quanto os da chegada da eletricidade ou do vapor, mas acontecerá muito mais rápido.

automação toma muitas formas, mas os robôs são um foco útil, porque substituem os trabalhadores de baixa capacitação, na indústria e em outros trabalhos braçais. 

Um estudo recente sobre a adoção de robôs em 17 países constatou que seu uso ampliado respondia por 0,36% do aumento no índice de produtividade por hora de trabalho.

O número pode parecer baixo, mas representa substanciais 15% do crescimento total da produtividade. Não surpreende que a adoção de robôs também tenha ajudado a reduzir os preços dos produtos que eles ajudam a produzir.

Isso levou algumas pessoas, especialmente nos EUA, a apelar por uma aceleração no ritmo de adoção de robôs.

“Ou você adota a automação ou verá empregos transferidos ao exterior para países que o fazem”, disse Robert Atkinson, fundador e presidente da Itif.

No geral, os EUA ocupam a sétima posição mundial quanto à relação entre número de robôs e número de trabalhadores industriais, mas esse indicador se traduz em apenas dois robôs para cada cem operários. Na Coreia do Sul, a relação é sete para cem.

Há diversos motivos para que as empresas americanas não empreguem maior número de robôs, diz Daron Acemoglu, professor de economia no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Uma delas é que o país não enfrenta as mesmas pressões demográficas que a Alemanha e o Japão. A escassez de trabalhadores e os altos salários levaram esses países a tomar a liderança no uso de robôs. 

A Itif estabeleceu uma correlação entre a adoção de robôs e o crescimento do PIB, mas a maneira pela qual esse aumento de riqueza é distribuído depende de como o país adota essas tecnologias, dz Irmgard Nübler, economista sênior da OIT (Organização Internacional do Trabalho), em Genebra.

Ela diz que a adoção da automação passa por duas fases iniciais: deslocamento de trabalhadores e depois crescimento do emprego.

Nübler acredita que a desigualdade recorde vista nos EUA em 2018 indique que estamos no ponto de inflexão entre essas duas fases. Sem políticas em vigor para enfrentar esses impactos, a desigualdade surgida na primeira fase pode persistir.

A última vez que vimos uma transição tecnológica como essa foi nas décadas de 1920 e 1930, quando a eletricidade e em seguida o automóvel criaram uma terceira revolução industrial. 

O que surgiu em seguida foram “novas instituições e novos movimentos sociais”, ela diz, à medida que a sociedade se ajustava às mudanças na natureza do trabalho.

Um resultado foi o “movimento do ensino secundário”, quando a educação de segundo grau se tornou tanto gratuita quanto compulsória e preparou toda uma geração de americanos para deixar o trabalho rural e se tornar trabalhadora industrial, de escritório e de serviços. A era também viu a ascensão dos sindicatos e a introdução da previdência social.

A onda atual de robotização pode exigir planejamento econômico, algo que desagrada aos Estados Unidos desde a onda de desregulamentação econômica da década de 1970, argumenta John Spoehr, diretor do Instituto de Transformação Industrial da Austrália.

A expansão da rede de segurança social nos EUA, para enfrentar perturbações de curto prazo, resultou em propostas de toda espécie. 

Bill Gates, o filantropo e cofundador da Microsoft, sugeriu que haja um imposto sobre os robôs. Muita gente no Vale do Silício favorece um esquema de renda básica universal. 

Stockton, na Califórnia, será a primeira cidade a tentar uma medida do tipo —um pagamento mensal de US$ 500 (R$ 1.850), sem nenhum pré-requisito, para seus cidadãos mais pobres.

Uma coisa que podemos fazer nesse meio-tempo, argumenta Acemoglu, é o que ensinamos aos estudantes, ainda que estejamos começando a pensar em qual seria o equivalente do movimento do ensino secundário, na era da inteligência artificial, big data e robótica.

“Não muita gente está pensando sobre as capacitações de que vamos necessitar no futuro”, diz.

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci

 

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