Até quando senhores generais?

Absolutamente deprimente e constrangedora a cena dos generais ministros perfilados lado a lado com lunáticos como Weintraub, Ernesto Araújo, Damares e outros, ouvindo e colocando a imagem das Forças Armadas em apoio a um pronunciamento de defesa do indefensável pelo Presidente da República. Mais deprimente e constrangedor tais militares estarem se prestando a expor a imagem da instituição em apoio a um governo insano.

Quatro generais alinhados na primeira fila com Bolsonaro l Foto: Carolina Antunes/PR

Admitam os generais ou não, como admitiu o próprio Bolsonaro em certa solenidade após a posse, o general Vilas Boas havia contribuído para sua eleição. Vilas Boas, durante o período eleitoral, era nada mais nada menos que o Comandante do Exército o que, na prática, transformou a instituição em avalista da candidatura do Capitão.

Eleito, mais e mais generais, coronéis, almirantes, comandantes, da ativa e da reserva, aos poucos foram assumindo cargos no governo. O gabinete de crise, coordenado pelo ministro Braga Netto, da Casa Civil, que supostamente deveria coordenar as ações governamentais de enfrentamento à crise epidêmica, tem se prestado, de fato, a cuidar das crises políticas criadas pelo Presidente.

Os desatinos de Bolsonaro são de tal ordem que nenhuma ação concreta de enfrentamento à crise sanitária e social foi adotada e aquelas que precariamente foram acionadas, como a ajuda social, enfrenta sérios problemas de implementação e provoca enormes filas nas postas das agências da Caixa Econômica e Receita Federal, aumentando os riscos de contaminação nas camadas mais populares.

 

Depois de semanas de embate e provocações públicas, Bolsonaro exonerou Mandetta e colocou em seu lugar Nelson Teich. Em sua posse, o ministro afirmou que sua atuação à frente da pasta seguiria três eixos: informação, infraestrutura e um plano de saída do isolamento social. Na primeira entrevista coletiva, cinco dias depois, tão somente repetiu que sua atuação se estrutura em três eixos:  informação, infraestrutura e um plano de saída do isolamento social. Obviamente o ministro deve estar se preparando para o enfrentamento de uma possível próxima epidemia, pois pelo seu passo de tartaruga (ou cumprimento da missão de não fazer nada), quando tiver organizado este tripé, a Covid19 já terá matado milhares de brasileiros e brasileiras e o sistema de saúde estará destruído. Os ares que tenta passar de quem pensa estrategicamente, nada mais parecem do que uma cortina de fumaça para encobrir a inação.

Na mesma coletiva, Braga Netto se presta ao ridículo de jogar mais uma cortina de fumaça. Apresentou o powerpoint de um suposto programa econômico de retomada da economia para o pós crise econômica e epidêmica, sem sequer saber a dimensão que a crise tomará. Era quase que um “olha, vejam como estamos preocupados com o futuro”. Mas a pergunta que fica: é de que maneira se atravessará a crise, que mal está começando? A verdade é que o plano Pró-Brasil não merece nenhuma análise, pois não passa de um powerpoint para distrair a atenção pública quanto à inação do governo diante das crises epidêmica e econômica. Ou seja, o gabinete que Braga Netto coordena é, na verdade, o da crise de incompetência do governo.

Mas o papel vexaminoso a que os ministros com patente têm se prestado não se resume a isso.  A cada desatino do insano Capitão, lá correm os generais para enquadrá-lo e quando a situação lhes parece sob controle, no dia seguinte um novo desatino é lançado, de proporções ainda mais desastrosas. Há três meses vemos esta cena se repetir a cada semana.

 

Após dias de provocações e troca de farpas com seu próprio ministro da Saúde,  exonerou Mandetta, e lá foram os militares cumprir o papel de bombeiros e até que obtiveram bom resultado pois, não conseguindo controlar o insano, provavelmente convenceram o ex-ministro da Saúde não sair atirando.

Mal deu posse ao novo ministro e já cometeu um novo desatino. Em pleno Dia do Exército, Bolsonaro participou de ato em frente do Quartel General da instituição, que pedia golpe militar, fechamento do Congresso e do STF. 

E o que aconteceu?

 

Novamente lá foram correndo os generais ministros contemporizar e enquadrar o maluco.  No dia seguinte, com o rabo entre as pernas, tentou minimizar sua participação na manifestação dizendo que não apoiava golpe. Fez até ceninha em frente ao Alvorada bradando contra um apoiador que pedia o fechamento do STF: “eu não admito isto na frente da minha casa”.

Mas a insanidade da participação nos atos golpistas teve consequências. O próprio Aras, que até então estava mais para “Procurado” do que Procurador Geral da República, apareceu e pediu ao STF investigação sobre os responsáveis pela convocação e financiamento das manifestações.

Se já existia incômodo por parte de Bolsonaro em relação a outras investigações em curso que envolvem possíveis crimes praticados por seus filhos e talvez o próprio, a nova frente aberta pela PGR poderia chegar rapidamente à família e ao núcleo demente do ministério. Imediatamente Bolsonaro exigiu de Moro, novamente, a troca do Diretor Geral da PF no claro intento de tentar controlar tais investigações. Moro se demite e sai atirando, escancarando as motivações do Presidente.

 

Mais uma vez, os ministros de patente vão lá querer bancar os bombeiros e desta vez inclusive se prestando ao papel de papagaios de pirata em um pronunciamento ridículo do Capitão.

Por mais que alguns oficiais afirmem que as Forças Armadas são uma instituição permanente e de estado, e não de governo, e que os generais e oficiais que aceitaram cargos o fizeram em nome próprio e não como representante das Forças Armadas, não há como dissociar as coisas. Tal dissociação só seria possível se, em especial os oficiais da ativa, houvessem pedido desligamento da corporação para assumir tais cargos. Ao se manterem na ativa ou na reserva, inevitavelmente estão envolvendo a instituição com o governo.

Ainda que alguns afirmem que a popularidade de Bolsonaro cai lentamente, há fatores decisivos que se deve levar em conta. O primeiro é que o agravamento da crise epidêmica e econômica é inevitável e só está no começo e todas as atitudes do insano são no sentido de agravá-la. O outro fator é que parcela dos eleitores que votaram em Bolsonaro, o fizeram por um sentimento antipetista e não por idolatrarem o maluco. Hoje, com todos os desdobramentos das insanidades do Capitão, cresce um sentimento antibolsonaro que talvez já seja maior que o antipetismo. 

As denúncias apresentadas por Moro, em seu pronunciamento de despedida como ministro, são graves. Os indícios de práticas criminosas dos filhos de Bolsonaro são fortes e por mais que ele venha a intervir na Polícia Federal, inevitavelmente virão à tona, desmascarando a família de estranhas relações com milicianos. E quanto mais o Capitão se vê encurralado, mais insanidades coloca em prática.

 

A verdade é que politicamente Bolsonaro está totalmente isolado. Está pendurado na brocha e só não cai porque os ministros generais o estão segurando. Portanto, a pergunta que fica é: senhores generais, até quando os senhores continuarão sendo os avalistas da insanidade? Até quando continuarão no governo, envolvendo o nome das Forças Armadas com esta insanidade?

 

Vermelho


 

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