No sistema atual, poder e riqueza são inseparáveis

Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o poder dos ricos.

Entrevistado na CNN dos Estados Unidos a respeito dos movimentos Black Lives Matter, Cornell West, professor de filosofia em Harvard, não deixou a bola cair. Diante do constrangimento dos entrevistadores despachou “de prima”: “Acho que a raiva dos manifestantes é impulsionada pelo indiciamento moral das elites. Tem a ver com o poder de Wall Street e os crimes de Wall Street. Os mercados financeiros praticam saques legalizados há muito tempo, com altos níveis de desigualdade de riqueza fluindo de lá”. Mais adiante, o filósofo chutou o balde: “A história americana é um fracasso”.

Ao longo da entrevista, West diz que a sociedade norte-americana e seu capitalismo de “vencedores” escancaram a incapacidade de entregar o que prometem à maioria dos cidadãos. Negros e brancos, jovens e mais velhos, se juntam nas ruas para rejeitar os métodos das polícias e as opressões do sistema. A celebração do sucesso colide com a exclusão social, o desemprego estrutural promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários tromba com a igualdade de oportunidades.

A busca pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem-aquinhoados se esboroam nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seu desígnio, atolada no pântano da sociedade de massa governado por poderes invisíveis.

Em seu novo livro, System, o ex-secretário do Trabalho Robert Reich investiga as relações entre o poder e a riqueza.

Para compreender a natureza do poder, diz Reich, é preciso entender o papel da riqueza. “No sistema que temos agora, poder e riqueza são inseparáveis. Grande riqueza flui de grande poder, grande poder depende de grande riqueza. Riqueza e poder tornaram-se um e o mesmo. Não pretendo que essas realidades subjacentes tornem as pessoas mais cínicas ou resignadas. Muito ao contrário, o primeiro passo para mudar o sistema é entendê-lo. Se não podemos compreender, ficamos presos a falsidades convencionais e falsas escolhas, incapazes de imaginar novas possibilidades. Compreender o sistema como ele é vai nos capacitar a mudá-lo para melhor.”

Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o poder dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do crédito. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete uma fração crescente de sua renda nas encrencas do endividamento. Já mencionei nesta coluna o estudo patrocinado pelas universidades de Indiana e da Califórnia, Too Little Too Late. O estudo registra o crescimento exponencial do número de aposentados que recorrem à falência pessoal (bankrupcy). Os motivos não são difíceis de decifrar: redução no valor das pensões, despesas médicas sem cobertura pública, endividamento elevado e credores implacáveis.

No mundo em que mandam os mercados da riqueza, os vencedores e perdedores dividem-se em duas categorias sociais: na cúspide, os detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza gozam de “tempo livre” e do “consumo de luxo”. Na base, os dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência.

O poeta e crítico literário Anis Shivani invadiu o terreno da crítica social para escrever um texto admirável a respeito das peripécias do neoliberalismo. É um engano, diz ele, imaginar que o neoliberalismo é o retorno ao liberalismo clássico. O neoliberalismo pressupõe um Estado forte, operando exclusivamente em benefício dos ricos e poderosos, sem qualquer pretensão de neutralidade e universalidade. “Em vez de reivindicarem a proteção social como um direito legítimo, os cidadãos sentem-se culpados, vexados e deprimidos por sua dependência dos programas governamentais.”

Os cidadãos estão assombrados pelos fantasmas econômicos das “tecnocracias sem rosto”, como disse o ator Michael Caine ao defender a saída do Reino Unido da União Europeia. Os governantes, acuados pelos favores e poderes da alta finança, tratam de cortar os direitos sociais e econômicos de seus cidadãos, enquanto proclamam a eficiência dos mercados.

Sob o pretexto de enfrentar o corporativismo e a resistência dos “direitos adquiridos”, os serviçais da globalização propõem o retorno aos padrões primitivos nas relações entre as forças do capital e as debilidades do trabalho. Advogam o encolhimento do sistema de proteção social criado para impedir a desgraça dos mais fracos, o sofrimento do homem comum atormentado pelas ameaças da precarização e do desamparo na saúde e na doença.

 

Fonte: Carta Capital

 

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