Pedro Doria: O fim dos sindicatos?

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Quando a fábrica deixa de existir como principal potência econômica, há algo maior do que um novo estágio do que existia antes

por Pedro Doria

A diferença foi de dois para um – ninguém esperava tanto. Há duas semanas, os 1.800 empregados de um centro de armazenamento da Amazon, no Alabama, votaram numa proporção de dois para um contra a ideia de formar um sindicato para defender seus interesses.

O próprio novo presidente americano, Joe Biden, havia gravado um vídeo em defesa de sindicatos – a campanha foi imensa. “Não foi Wall Street que criou a América”, ele disse. “Foi a classe média. E sindicatos criaram a grande classe média.” Talvez.

Mas os empregados não quiseram. Para a maioria, o salário base de US$ 15 a hora é o maior que já haviam recebido, o sólido seguro de saúde é um dos mais completos da região e, em sua maioria jovens, os trabalhadores tiveram dificuldade de enxergar num sindicato alguma vantagem. Não é, para o sindicalismo, uma derrota pequena.

A Amazon é hoje o segundo maior empregador americano e nunca uma campanha por sindicalização foi tão intensa.

Ainda assim, não deu em nada. Hoje é Primeiro de Maio, Dia do Trabalho em um bom naco do mundo. A transformação do trabalho – assim como das relações trabalhistas – não é um assunto novo cá no Meio. Mas é também um tema com muitos ângulos.

A derrota do sindicalismo americano no Alabama mostra a intersecção de alguns deles. A transição de um modelo econômico baseado na manufatura para um de serviços. O fim da Era Industrial e o início da Digital. E, sim, o declínio dos sindicatos.

Dois parágrafos de números ajudam a explicar o fenômeno – só dois parágrafos.

Em 1985, 30% dos trabalhadores em países da OCDE eram sindicalizados. Hoje, apenas 16%. Nos EUA, sede da Amazon, 35% da força de trabalho era sindicalizada em 1954. Hoje, 10,8%. Este é um fenômeno mundial e recente – os números brasileiros mostram. No auge das greves do ABCD, na entrada da década de 1980, 32% dos trabalhadores eram sindicalizados. Em 2012, 16,2%.

Quando 2018 entrava, 14,4%. No discurso, líderes sindicais atribuem a queda à mudança de legislação no governo Temer que suspendeu a contribuição sindical obrigatória – um valor descontado automaticamente dos contracheques para financiar os organismos.

De fato, a queda não foi pequena. De 2017 para 2018, a arrecadação nacional despencou de R$ 3,64 bilhões para R$ 500 milhões anuais. Mas há um descompasso entre os números e o argumento: a maior queda de afiliados já havia ocorrido nos anos anteriores. O que explica esta retração na sindicalização talvez seja outro número – este do ABCD.

Em finais dos anos 1980, na região onde nasceu o PT nos arredores de São Paulo, havia 363 mil empregados pela indústria manufatureira. Os operários fabricavam automóveis, claro, mas também geladeiras, ferramentas, toda sorte de maquinário.

Em 2020, havia 160 mil operários. Nos EUA, entre 1980 e 2000, desapareceram 2 milhões de empregos em manufatura. Entre 2000 e 2017, 5,5 milhões. Se a explicação habitual é de que a culpa é da globalização e da exportação das fábricas para a China e outros países da Ásia, os indicadores do governo americano contam outra história. A migração de empregos responde por um quarto desta queda. Isso: 75% destes empregos não foram para lugar nenhum. Simplesmente deixaram de existir.

Estamos em uma era econômica diferente. O emprego em manufatura migrou para o de serviços. O Primeiro de Maio é celebrado neste dia porque, em princípios de maio de 1886, trabalhadores organizados, em Chicago, cruzaram os braços e fizeram uma passeata na Praça Haymarket cobrando leis que instituíssem um máximo de oito horas de trabalho por dia. A manifestação terminou na morte de grevistas e policiais, mas marcou também aquela que seria, já no século 20, uma das maiores vitórias trabalhistas: legislação que impunha carga horária de oito horas no máximo por dia.

Naquele que foi o pior momento da Revolução Industrial, quando pessoas eram abertamente exploradas com salários miseráveis e cargas horárias desumanas, a organização de sindicatos permitiu resistência e deu força contra patrões.

Não foi pouca força: garantiu que leis de direitos trabalhistas fossem aprovadas. Mas há uma diferença fundamental entre aquele momento e o atual. É o digital. Fred Turner, professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Stanford, talvez seja quem melhor explique a transformação.

A lógica do mundo da Revolução Industrial é de que, para produzir valor, um grupo de pessoas se reúne em um prédio especializado, no mesmo horário, para juntos, cada qual com sua função, produzir algo. O prédio especializado é uma fábrica. Esta lógica também permite sindicalização. Afinal, reunidas em funções mais ou menos similares, no mesmo local, e por tantas horas, pessoas criam laços de empatia e percebem, umas nas outras, dramas comuns. Sindicatos nascem.

A Revolução Digital propõe um modelo radicalmente distinto pois rompe com as duas principais características do mundo industrial. Não é necessário mais que as pessoas estejam no mesmo local para produzir. Tampouco que trabalhem simultaneamente para cumprir uma tarefa comum.

Os alemães costumam descrever o momento atual como a Quarta Revolução Industrial. A primeira ocorreu com as máquinas a vapor e o início da produção em massa. A segunda foi acelerada pela entrada de eletricidade e petróleo. A terceira, por computadores e o início da automação. A internet marca o surgimento da quarta. A definição de Turner é melhor para compreender o drama dos sindicatos. Se vemos como uma nova fase da ‘Revolução Industrial’, haveria apenas mais um estágio de uma chacoalhada grande no mundo.

Mas quando a fábrica deixa de existir como principal potência econômica, há algo maior do que um novo estágio do que existia antes. Há algo novo – algo do tamanho da primeiríssima Revolução Industrial que está em curso. Agora.

É por isto, também, que a aposta do movimento trabalhista na sindicalização dos trabalhadores do armazém da Amazon era alta. Afinal, embora a gigante do e-commerce seja digital, sua natureza exige a distribuição de produtos diversos e em massa. Exige armazéns e, portanto, o bom e velho prédio especializado com pessoas trabalhando ombro a ombro. É exceção neste momento novo, mas uma das exceções que facilitaria sindicalização.

Ainda assim, os trabalhadores disseram “não”. Talvez cada vez mais trabalhadores digam “não” para sindicatos, mas isto não impede o trabalho de estar mais precário. O motivo é aquilo que, em inglês, se chama de gig economy. Uma tradução possível é economia do biscate, mas o termo assim descrito explica mal o fenômeno.

Afinal, na gig economy estão do motorista do Uber e entregador da Rappi a designers ou programadores que, podendo trabalhar online por projeto, se tornam nômades digitais circulando o mundo, ganhando muito bem em moeda forte.

As definições para gig economy são maleáveis. Uma possível é a de trabalhadores que são contratados e remunerados por tarefa. E aí está outra diferença do mundo da Indústria para o Digital. Pré-internet, pré-algoritmos, encontrar trabalhadores capacitados para certas funções era difícil.

Este é um dos motivos que justificavam, em grandes empresas, a necessidade de garantir a exclusividade de serviços. A outra razão, claro, é que manufatura é trabalho continuado. É preciso botar para fora da fábrica, todo mês, um número certo de fogões. A mão de obra precisa trabalhar constantemente.

Mas quando certas habilidades são necessárias às vezes, não sempre, e a internet facilita o encontro de profissionais com talentos específicos, é mais eficiente e barato contratar por tarefa. E aí entra a lei da oferta e demanda – alguns serviços na gig economy são muito bem remunerados. Outros saem por valores baixos – há muito mais oferta do que demanda. É a diferença entre um designer e um motorista de Uber.

A crise é real. Um dos argumentos favoráveis à gig economy é de que oferece oportunidades de renda complementar que não existiam antes. E é verdade. Mas, com a diminuição de empregos em manufatura, para muitos a gig economy vira o único emprego – ou o único subemprego.

Não faltam críticos que logo observam: a realidade é que a precarização do trabalho, aliada a um momento de aumento das desigualdades no planeta, faz a civilidade retroceder. É como se estivéssemos aos poucos voltando à realidade do século 19, pré-oito horas, pré-férias garantidas, pré-aposentadoria, em que a exploração do trabalhador voltasse a ser legitimada. Há escravos dos apps espalhados.

Se a degradação das condições de quem trabalha é real, a comparação pode escamotear onde está o problema de fato. “O que encontramos na China é a interseção entre operários muito especializados, robótica sofisticada e mundo da ciência da computação”, disse em um depoimento Tim Cook, CEO da Apple, ao think tank Brookings Institution.

Não é pelo preço operário-hora que a Apple produz iPhones no País do Centro. É porque lá se encontra algo que é muito raro noutros cantos. Operários bem treinados, engenheiros sofisticados em quantidade e tecnologia de ponta. Seria muito difícil manufaturar iPhones em quantidade fora de lá.

A principal diferença é que o novo tempo exige novas habilidades. Fazer um tubo de escapamento ou mesmo um motor a combustão não é o mesmo que fazer um smartphone. Quem tem estas novas habilidades, e eles são minoria, ganha bem. Quem não foi treinado ganha mal – mas é bom lembrar que as novas habilidades não exigem PhD sempre. Em alguns casos, basta ensino técnico.

O mundo civilizado enfim mergulhou no debate sério sobre desigualdade. Um dos problemas é este: os modelos antigos de representação de trabalhadores não funcionam mais. E há um buraco gigante entre a capacitação necessária na Nova Economia e aquela que existe na sociedade.

 

Publicado originalmente no Jornal Meio em 1º de maio de 2021

 

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Vermelho

Disponível em: https://vermelho.org.br/2021/05/03/pedro-doria-o-fim-dos-sindicatos/

 

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