O governo federal estuda formas de evitar que recursos do Bolsa Família sejam utilizados em apostas online. Dados oficiais indicam que, em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários transferiram aproximadamente R$ 3 bilhões para plataformas do setor, levantando preocupações sobre o impacto desse tipo de gasto nas famílias de baixa renda.
Informações do Ministério da Fazenda mostram que a maior parte dessas transações foi realizada pelos próprios responsáveis pelo recebimento do benefício. O valor médio das apostas foi de R$ 100 por pessoa. Autoridades avaliam que o apelo de enriquecimento rápido pode ser especialmente arriscado para quem se encontra em situação de vulnerabilidade financeira, aumentando o risco de endividamento.
Diante desse cenário, o Ministério do Desenvolvimento Social solicitou mais detalhes sobre o levantamento e considera medidas para evitar que o programa seja desvirtuado. O ministro Wellington Dias destacou que o Bolsa Família tem como objetivo garantir alimentação e condições básicas de vida, e que qualquer uso que comprometa essa finalidade preocupa o governo.
A questão também gerou repercussão no Senado. A CPI das Bets, que investiga o mercado de apostas online, convocou o presidente do Banco Central para falar sobre os dados apresentados. Parlamentares querem entender melhor o fluxo dessas transações e avaliar possíveis medidas para impedir que beneficiários do programa social utilizem os recursos para esse fim.
Para especialistas do setor, no entanto, a questão precisa ser analisada de forma mais ampla. Ricardo Santos, cientista de dados e fundador da Fulltrader Sports, empresa especializada em softwares para trade esportivo, aponta que restringir o acesso pode gerar consequências.
Ele alerta para o risco de migração para plataformas ilegais. “Muitas vezes, os valores apostados são baixos — R$ 2, R$ 5 — e representam uma forma de lazer acessível. Restringir isso pode redirecionar o consumo para canais não regulados, como apostas clandestinas ou até sites estrangeiros, o que tira receita do país e aumenta o risco de exposição a fraudes”, disse.
A discussão sobre a regulamentação do setor e possíveis restrições para pessoas de baixa renda deve avançar nos próximos meses, com propostas de controle para evitar impactos negativos sobre as famílias atendidas pelo programa. Enquanto isso, o governo e o Congresso Nacional seguem debatendo soluções que garantam proteção aos mais vulneráveis sem prejudicar o setor de apostas online.
CORREIO BRAZILIENSE