Desaceleração econômica pode trazer demissões, mas os resultados do Paraná em 2011 mostram que os dois fatos não andam necessariamente juntos. No ano passado, foram geradas no estado 19% menos vagas formais que em 2010, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Mesmo assim, o número de cidades com saldo positivo entre contratações e desligamentos aumentou – reflexo de um crescimento mais homogêneo e equilibrado no estado, segundo economistas.
Em 2011, 63 das 399 cidades paranaenses mais demitiram que contrataram (15,7% do total), contra um índice de 16,7% em 2010, quando 67 cidades haviam ficado com saldo negativo. Ou seja, o número de municípios com “geração líquida” de empregos passou de 332 para 336. “Essa é uma notícia boa. Um saldo positivo, mesmo em um ano de fraco desempenho, mostra um maior equilíbrio na geração de postos de trabalho no estado. A queda do ritmo da economia se refletiu de forma mais amena que o esperado”, avalia Cid Cordeiro, coordenador do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Paraná (Dieese-PR).
Curitiba, Maringá e São José dos Pinhais estão entre as 50 cidades que mais contrataram em todo o Brasil no ano passado, enquanto Araucária, Rio Negro e Ibaiti aparecem entre as 50 que mais demitiram – o problema para as “lanternas” está no tamanho do tombo na comparação entre 2010 e 2011.
“A economia paranaense está crescendo de forma homogênea, pulverizando os postos de trabalho e aumentando a renda pelo estado”, analisa o diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Gilmar Mendes Lourenço.
Rumos opostos
Apesar da queda no número de cidades com saldo negativo, o ranking paranaense teve poucas mudanças entre 2010 e 2011, com destaque – por motivos opostos – para São José dos Pinhais e Araucária, ambas na Região Metropolitana de Curitiba. Enquanto São José dos Pinhais ultrapassou grandes polos industriais do estado e passou da 8.ª para a 3.ª colocação no quadro das cidades que mais geraram empregos, Araucária passou do 4.º lugar entre as cidades que mais abriram vagas em 2010 para o 3.º posto entre as que mais demitiram em 2011.
Há explicação para os dois fenômenos. O ano de 2011 foi especialmente positivo para a indústria automobilística do Paraná, e as grandes montadoras e seus fornecedores – grande parte dessas empresas estão localizadas em São José dos Pinhais – aumentaram a produção e a geração de empregos. Em Araucária, por outro lado, estão chegando ao fim as obras da Petrobras na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), que nos últimos anos recebeu investimento de R$ 10 bilhões e em 2010 havia atingido seu pico de contratações. Em razão do grande porte da obra, quando ela se aproxima do fim o saldo de desligamentos acaba sendo muito maior que o de contratações.
“São José dos Pinhais concentra o berço da indústria automobilística paranaense e também sua cadeia fornecedora. Ano passado foi um ano bom para o setor e isso alavancou a geração de empregos na cidade. Isso não significa que outras cidades tenham perdido o dinamismo, mas sim que São José dos Pinhais apresentou resultados acima da média. Em Araucária, os trabalhadores da obra da Repar começam a ser deslocados para outras localidades, por causa do fim da obra”, analisa o diretor-presidente do Ipardes.
Lapa e Colorado inverteram tendência
Além de cidades que inverteram bruscamente o saldo de vagas formais, como Araucária, Rio Negro e Ibaiti, outros municípios paranaenses apresentaram um “desvio de padrão” significativo no quadro de contratações. Um exemplo é a Lapa (Região Metropolitana de Curitiba), onde nos últimos nove anos havia uma média anual de geração de 420 postos de trabalho. Em 2011, porém, o saldo entre contratações e demissões foi de apenas 3. Em Colorado, no Norte do estado, foram cortados 326 postos, ante uma média de 528 vagas nos nove anos anteriores.
A prefeitura da Lapa explicou, em nota, que a queda na geração de empregos na cidade não significa aumento do desemprego no município. Isso porque, segundo a nota, os trabalhadores da cidade têm se deslocado para Araucária e Curitiba por causa do baixo custo do transporte coletivo – ou seja, eles estão empregados, embora não em empresas da cidade.
Em Colorado, não houve deslocamento de mão de obra. De acordo com a gerente da Agência do Trabalhador da cidade, Vera Lanza, a explicação para a queda é que as duas maiores geradoras de empregos na cidade tiveram mudanças em 2011. “A Usina Alto Alegre, que produz açúcar e álcool, deixou de contratar e desligar funcionários no período da safra, porque eles foram efetivados. Com isso, apesar de as contratações estarem em alta, os movimentos sazonais de contratação e desligamento diminuíram. E o frigorífico Frigoporto deixou de abater bois na cidade e passou a comprar os animais abatidos. Com isso, houve a demissão de 200 funcionários”, explica Vera.
Para o coordenador do Dieese-PR, Cid Cordeiro, são necessárias políticas públicas para interiorizar as empresas e diversificar a economia dos municípios. “Um investimento de uma grande empresa traz desenvolvimento às cidades. Mas, passado o benefício inicial, é preciso que o gestor local busque diversificar as empresas, para amenizar momentos de crise”, analisa Cordeiro.
