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Bolsonaro tem força no Senado para fazer do Brasil uma Venezuela?

Bolsonaro tem força no Senado para fazer do Brasil uma Venezuela?

Assustador alerta de como as autocracias pelo mundo promovem a corrosão por dentro dos regimes democráticos, o livro “Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, dá diversos exemplos de que em muitos países esse processo se iniciou pela aprovação de mudanças para reduzir o papel do poder Judiciário. Foi assim, por exemplo, na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Assim, antes de se repetir que o “Brasil corre o risco de virar uma Venezuela”, é bom se avaliar com quem, de fato, o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. O presidente Jair Bolsonaro, que tenta a reeleição, e seu vice-presidente, Hamilton Mourão, que se elegeu senador pelo Rio Grande do Sul, já andaram ventilando que cogitam fazer correr uma emenda constitucional que aumenta de 11 para 15 o número de ministros do Supremo Tribunal. Essa modificação garantiria a Bolsonaro maioria na Suprema Corte. É exatamente o caminho que corroeu a democracia Venezuela.

Sugerido por Montesquieu no seu “O Espírito das Leis”, o sistema de freios e contrapesos entre os poderes é base importantíssima do bom funcionamento democrático. A ideia da separação, da equipotência e da interdependência entre os poderes permite garantir que um dos poderes sempre estará a postos para evitar e corrigir eventuais abusos dos outros.

O ódio de Jair Bolsonaro e dos seus aliados ao Supremo nada mais é do que isso: não foram poucas as vezes em que a Suprema Corte agiu para coibir ensaios autoritários do governo. Alexandre de Moraes, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que virou o vilão preferencial do bolsonarismo, pode ser alguém de temperamento duro e pouco simpático, mas está longe de ser alguém de esquerda, como se pinta.

É claro que, na mesma lógica do sistema de freios e contrapesos, o Judiciário também pode extrapolar. E houve de fato um certo desbalanceamento em muitos momentos. O problema é imaginar que Bolsonaro agora queira de fato corrigir tais desbalanceamentos ou avançar rumo à busca de apoio popular para corroer a democracia a partir de suas próprias regras, no caminho que o livro de Levitsky e Ziblatt propõem.

Para vir a conseguir isso, Bolsonaro precisaria, então, do apoio do outro poder da República, o Legislativo. E o avanço da bancada conservadora nas eleições do dia 2 de outubro, especialmente no Senado, animou alguns bolsonaristas no sentido de imaginar que isso poderia vir a ser possível, no caso de uma eventual reeleição. Mas seria mesmo?

De fato, Bolsonaro elegeu alguns que poderão vir a ser aliados importantes. Caso de Damares Alves (Republicanos), no Distrito Federal, que substituirá José Antonio Reguffe (sem partido). Mas, no frigir dos ovos, a avaliação que se faz, como mostramos aqui, é que, pelo perfil de atuação, Bolsonaro teria o alinhamento de metade dos senadores. Nas nossas contas, de 40. Nas contas que anda fazendo o próprio governo, 41, o que não é grande diferença.

Se esse alinhamento for mesmo automático – o que não é garantia –, seria o suficiente para, de fato, abrir um processo de impeachment contra um ministro do STF. Mas já não seria suficiente para condenar o ministro. Para isso, o quórum é de dois terços, ou 54 senadores.

Um outro problema: Bolsonaro teria que, de fato, conseguir eleger um próximo presidente do Senado fiel às suas propostas. Porque é ele quem acolhe ou não pedido de impeachment de ministros do Supremo. Damares está animada para essa tarefa. Mas o Senado elegeria uma senadora neófita, de primeiro mandato. Já há uma articulação no sentido de a oposição vir a apoiar um nome como o de Soraya Thronicke (União Brasil), uma senadora conservadora, mas não alinhada com Bolsonaro e que, talvez, não viesse a dar encaminhamento a um processo desse tipo.

“A visão inicial de que Bolsonaro teria conseguido um panorama para fazer o que quisesse talvez não seja tão verdadeira assim”. Observa o cientista político André Cesar. Para ele, mesmo alguns nomes mais próximos de Bolsonaro talvez não tivessem assim tanta inclinação para levar algo como um impeachment de um ministro do STF adiante. “Eu não vejo, por exemplo, a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina com uma motivação igual à de Damares, por exemplo”, considera.

E, para aumentar a composição do STF, a dificuldade é maior ainda. Porque dependeria da aprovação de uma emenda constitucional. Três quintos no Senado em dois turnos e três quintos na Cãmara. São 308 deputados e 49 senadores.

Nada é impossível, mas nada também tornou-se assim tão fácil. Agora, é claro que Bolsonaro poderá ficar mais legitimado para tentar tais arroubos caso receba o aval da sociedade numa reeleição. Esse é o risco que agora se corre.

AUTORIA

Rudolfo Lago

RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

Bolsonaro tem força no Senado para fazer do Brasil uma Venezuela?

O fim da meritocracia na educação e na sociedade

Cada vez mais, as crianças – em casa –, os alunos – na escola – e os funcionários – no trabalho – demonstram falta de foco. Não prestam atenção. Não entendem o que é perguntado. E em grande número demonstram pouco interesse e esforço para fazê-lo.

O fenômeno não é recente, mas não é totalmente novo. Nem é fruto da pandemia. Em excepcional estudo sobre o tema, o neurocientista francês Desmurget analisou centenas de estudos e, com base no que encontrou, alertou os pais e educadores sobre as causas e consequências perversas dessa situação. Segundo ele, esse novo fenômeno se deve, em grande parte, ao crescente uso de telinhas e celulares. A pandemia do coronavírus parece ter acentuado essa tendência. Mas esse é apenas um capítulo a mais de uma longa novela. Está ficando mais difícil aprender e ensinar.

O que fazer? Entregar as armas?

Nas duas últimas semanas, o New York Times publicou um artigo a respeito da demissão do professor Maitland Jones Jr. A essa publicação, se seguiram duas outras, o que mostra o interesse suscitado pelo tema, o qual, aliás, é de interesse geral, inclusive nosso – no Brasil do aqui e do agora –, pois tem a ver com mudanças que afetam o funcionamento do cérebro das pessoas. Mas, sobretudo, tem a ver com mudanças a respeito das regras de funcionamento das instituições acadêmicas e colocam na berlinda seus valores mais fundamentais.

Vamos aos fatos. Jones fez brilhante carreira acadêmica. Foi professor de Química Orgânica na Universidade de Princeton, que dispensa apresentação. Publicou um dos mais influentes livros-textos dessa disciplina – um calhamaço de 1.300 páginas. Inovou no ensino da disciplina ao propor o uso do raciocínio e da solução de problemas no lugar da decoreba.

Depois de aposentado, dedicou-se exclusivamente ao ensino e lecionou por mais de 10 anos como professor contratado num departamento da NYU, que oferece cursos cuja nota final serve de sinalização para ingresso dos alunos nas melhores faculdades de Medicina daquele país.

Jones foi demitido. A causa: um abaixo-assinado de um grupo de 82 de seus 350 alunos, reclamando do rigor de suas provas. Tímidos protestos de seus colegas não demoveram os burocratas de plantão de sua decisão.

Um detalhe: Química Orgânica é disciplina básica para ingressar nas melhores escolas de Medicina, para exercer a profissão e nela progredir ao longo da vida. E notas altas nesses cursos constitui um importante preditor de sucesso. Outro detalhe: trata-se de seleção para um curso extremamente caro, quase sempre custeado pela família dos alunos e que leva a uma profissão extremamente bem-paga. E tem mais: decorar exige boa memória e esforço, mas compreender exige esforço e talento. Notas boas em testes de decoreba não constituem credenciais robustas para carreiras que lidam com questões de vida ou morte.

Num segundo artigo sobre o fato, publicado em 5 de outubro, a socióloga Tressie McMillan Cottom tenta minimizar o fato apelando para uma justificativa corporativista: Jones tinha um cargo de professor contratado, não era mais um professor efetivo. Sua demissão revelaria apenas o baixo status desse tipo de professor – não um descrédito da meritocracia e da autoridade do professor que, segundo ela, permanece intocado. É argumento do tipo “professores horistas unidos jamais serão vencidos” …

O outro artigo, da também socióloga Jessica Calarco, ofereceu uma explicação baseada em seus estudos sobre a luta social da classe média para se manter na estrutura competitiva das universidades. Para ela, a demissão é sinal do poder crescente dos estudantes e famílias sobre as decisões da universidade. Esse poder é acrescido, segundo ela, da diversidade crescente dos alunos e, consequentemente, da contestação de sólidos conceitos meritocráticos. Um desses conceitos reside em usar notas dos alunos em cursos básicos como estratégia de identificar quem entra nas melhores escolas de Medicina. Ou seja, tem um lado e outro lado. E outro lado. E cada vez mais outros lados. O final da peça é conhecido: os internos, com apoio dos funcionários, acabam demitindo o diretor do manicômio…

Nos dias que correm, o tema da meritocracia – como qualquer outro que tangencie a questão das diferenças – é “polêmico”. Meritocracia evoca privilégio, discriminação e, portanto, desigualdade. É do mal. Diversidade evoca equidade. É do bem. Por definição.

O final dessa história é conhecido – uma vez feito um buraquinho no dique, o estouro da represa é questão de tempo. O que era represa pode causar uma catástrofe. O conceito de pós-moderno sinaliza exatamente isso: o chamado “mundo moderno” fundado nos princípios da chamada “civilização ocidental” acabou. O dique está ruindo. Nova sociedade, novos critérios, novas formas de convivência. Os sedimentos da antiga represa e os novos terrenos alagados servirão de base para a nova civilização. Sempre foi assim, não há nada de novo debaixo do sol.

Há problemas com o conceito de igualdade, como há problemas com o conceito de meritocracia. Mas sabemos que não apenas a meritocracia, mas a quantidade e qualidade do talento de uma sociedade estão fortemente associados ao seu nível de desenvolvimento econômico e, segundo alguns, à predominância de valores democráticos. Há incontáveis vantagens e virtudes associadas ao conceito de mérito e à busca de excelência.

Mas também há problemas graves com o conceito de diversidade. No curto e no médio prazo, as instituições estarão sujeitas a ventos e trovoadas, com muita turbulência. Os pilares da vida acadêmica estão solapados. Será necessário reinventar novas formas de convívio institucional para produzir qualidade. O que sabemos hoje sugere que os riscos de perda de qualidade, no curto prazo, e suas consequências são gigantescos, a longo prazo. No entanto, tudo indica que são inevitáveis – o processo já foi iniciado há, pelo menos, dois séculos e reconhecido com clareza há décadas – cito apenas Dostoiévski, Tolstói e C.S. Lewis ou Richard Weaver como alguns dos observadores mais atentos. E pensar que ainda estamos começando o desmonte dos pilares que sustentaram as bases da nossa civilização. Parte da vida, sempre foi assim.

No curto prazo, uma boa forma de não se perder totalmente no debate sobre meritocracia é analisar situações concretas, como na hora de entrar no avião ou na sala de cirurgia. Que critérios você considera mais relevantes para escolher seu piloto ou seu cirurgião?

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AUTORIA

Joao Batista Oliveira

JOAO BATISTA OLIVEIRA Presidente do Instituto Alfa e Beto e cofundador da Iniciativa Base10, João Batista Oliveira é psicólogo e doutor em Educação pela Universidade do Estado da Flórida. Fez pós-doutorado na Universidade de Stanford e atuou como professor, entre outras instituições, na UFMG e na UFRJ.

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Dívida com alfabetização aumenta na pandemia

Patrícia Diaz e Tereza Perez*

Os candidatos eleitos que assumirem a presidência e os postos de governador estadual em 2023 terão de lidar com a dívida com a alfabetização, que só aumentou nos últimos anos. O tempo em que ficamos com as escolas fechadas, com atividades remotas alcançando somente alguns estudantes, deixou marcas no nosso já combalido cenário da alfabetização. Os primeiros estudos divulgados após a reabertura das escolas já mostravam que o número de crianças de 6 e 7 anos que não sabem ler e escrever só cresce.

Eram 2,4 milhões de pequenos cidadãos nessa situação no início do ano.

Mas por que o ensino remoto atingiu especialmente o processo de alfabetização? Alfabetizar-se exige interagir com o professor e com outros alunos. É mostrando o que se escreve, perguntando e comparando que as crianças vão avançando nas suas hipóteses sobre o sistema de escrita. Aos 7 anos, no 2º ano do Fundamental, um estudante teria tido inúmeras dessas situações e recebido o apoio para começar a se apropriar do complexo sistema pelo qual nos comunicamos. Idealmente teria tido também acesso a um bom e diversificado repertório de livros e a muitas experiências como ouvintes de leituras e como produtores de textos. Mas isso não ocorreu.

Assim, é necessário que estudantes do 3º ano contem com intervenções intensivas para avançar nos conhecimentos sobre como se escreve e sobre como se lê. Entendendo a apropriação dos conhecimentos iniciais de Matemática como parte do processo de alfabetização, essa mesma qualidade de intervenções se faz necessária para apoiar os alunos a aprenderem a contagem e as operações, especialmente de adição e subtração.

O investimento na alfabetização deve se estender até os estudantes do 7º ano, que também podem não ter consolidado seus aprendizados e carregar as dificuldades de leitura e escrita na sua trajetória escolar. Sabemos que estar na escola não garante aprendizado: o analfabetismo é um problema crônico num país que naturaliza a desigualdade. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que afere o alfabetismo de 15 a 64 anos, mostrava, na edição de 2018, que 13% dos estudantes que chegam ou concluem o Ensino Médio são analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ou são apenas capazes de localizar informações explícitas em textos simples.

A desigualdade educacional opera pelas linhas regionais e pelo racismo estrutural na sociedade, excluindo negros, indígenas, populações ribeirinhas, populações do campo; assim vemos a inequidade se evidenciar quando olhamos para as diferentes regiões e para o critério de raça e cor.

É imperativo que haja, em cada localidade e no Ministério da Educação, gestores públicos que invistam em uma política de alfabetização, tendo como base a definição dos professores alfabetizadores e o investimento na sua formação. Secretários de educação precisam se desafiar a ter em suas redes os melhores professores para alfabetizar crianças, adolescentes, jovens e adultos. Educadores que conheçam a didática da alfabetização e da matemática; que tenham tempo remunerado para registrar, refletir, estudar e planejar; empenhados em compartilhar com os colegas avanços e dificuldades. Que não tenham medo de arriscar e inovar para ensinar mais e melhor a todos.

*Patrícia Diaz e Tereza Perez são diretoras da Comunidade Educativa CEDAC

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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Assédio eleitoral é prática bolsonarista contra trabalhadores que se espalha pelo país

Coagir funcionário por votos é crime e tem levado a indenização e multa; saiba como denunciar e conheça os casos mais famosos

Cartaz da campanha de centrais sindicais contra o assédio eleitoral nas empresas

Coagir, ameaçar ou prometer benefícios para que alguém vote em determinado candidato nas eleições configura crime de assédio eleitoral, segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT). A instituição tem fiscalizado o aumento da prática contra funcionários dentro de empresas, sempre com o objetivo de promover o voto em Jair Bolsoanro (PL), contra Luis Inácio Lula da Silva (PT).

Casos de empresários bolsonaristas coagindo o voto de seus empregados, vêm sendo denunciados ao MPT em série. Isso mostra que não são situações isoladas, mas formam o padrão de um “coronelismo bolsonarista”.

Quem quiser denunciar, pode fazer diretamente, clicando aqui.

Para exigir mais fiscalização, combate e punição contra o assédio eleitoral no local de trabalho, os presidentes de centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCST e CSB, que formam o Fórum das Centrais Sindicais), se reuniram com o procurador-geral do trabalho, José de Lima Ramos Pereira, no dia 15 de setembro, no Ministério Público do Trabalho, em Brasília.

Coronelismo bolsonarista

Desde 2018 são registrados casos como da rede lojas Havan, que promoviam enquetes com os funcionários ou os colocavam em situações constrangedoras coletivas de apoio a Bolsonaro. Em um dos casos informados pelo MPT, o denunciante alega que os patrões têm dado advertências injustificadas e com ameaças. Comunicados são feitos para funcionários, fornecedores ou parceiros com tom similar, sugerindo medidas para obrigar o voto no presidente. (Veja lista de casos abaixo)

Muitos dos casos viralizaram nas redes sociais por envolverem vídeos das situações de constrangimento e coação. Assim como se criou um clima de violência contra eleitores de esquerda, o clima nas empresas também se tornou tóxico, impedindo que as pessoas expressem livremente seu voto.

Segundo o MPT, funcionários que declaram seu voto e não forem trabalhar, mesmo sem receber, pegam falta e advertência, podendo ser demitidos mesmo dentro do seu direito. As demissões arbitrárias são frequentes para contratações políticas. Há ainda situações de atrasos salariais e ausência de pagamento de insalubridades.

As investigações envolvem casos de reuniões com candidatos dentro das dependências da empresa coagindo funcionários a votarem naqueles apoiados pelos dirigentes. Até mesmo um conselho de classe estaria levando candidatos e obrigando os funcionários a assistirem o que eles têm a dizer, em horário de expediente, além do uso da estrutura do conselho, como as instalações físicas e ainda veículos, para trabalhar na campanha política.

Reação judicial

Os casos vão além de empresas e empregadores em lugares mais distantes dos grandes centros que se aproveitam da falta de informação do trabalhador sobre o seu direito. Com a circulação de informação em redes sociais, a prática pode ser explícita ou camuflada, já que muitos trabalhadores sabem que a prática é irregular. No primeiro caso o empregador chama o funcionário e promete um aumento, abono, gratificação ou promoção para conseguir voto para um determinado candidato. No segundo, o empregador convoca o trabalhador para fazer um trabalho para uma campanha política, como panfletagem.

De acordo com o MPT, é possível provar por meio de gravações de áudio e vídeo, mensagem de texto ou de Whatsapp e até mesmo o testemunho de uma pessoa. Caso seja condenada, além de ter de pagar indenizações e multas, as empresas podem ficar proibidas de contrair empréstimos junto aos bancos públicos.

Diante de denúncias recebidas este ano, o Ministério Público do Trabalho expediu recomendações para evitar casos desse tipo, que podem ser punidos nas esferas eleitoral, civil, trabalhista e criminal. Divulgada ainda em agosto, a relação de recomendações é voltada para alertar empresas e empregadores e orientar os trabalhadores sobre o termo “assédio eleitoral”.

“No site do Ministério Público do Trabalho tem um canal para a pessoa fazer a denúncia de forma sigilosa ou anônima – quando a pessoa não quer realmente se identificar. E sigiloso é quando ela se identifica, mas pede que a sua identidade seja preservada […] A Defensoria Pública da União também criou uma espécie de observatório para receber esse tipo de denúncia.”

Casos que “viralizaram”

O dono de uma empresa de tijolos e telhas no Pará prometeu R$ 200 para cada trabalhador que contar que votou em Jair Bolsonaro (PL), caso ele se reeleja. Já em caso de derrota, disse que fecharia a empresa e todos perderiam o emprego. O Ministério Público do Trabalho interveio e firmou um acordo com Maurício Fernandes, que teve que pagar mais de R$ 150 mil de dano moral coletivo, além de uma indenização para cada trabalhador e divulgar um vídeo se retratando.

Uma psicóloga da rede de recursos humanos da rede Ferreira Costa em Pernambuco ameaçou demitir funcionários que declarassem apoio a Lula nas eleições. Acabou sendo demitida.

A fabricante de máquinas e implementos agrícolas Stara, no Rio Grande do Sul, enviou comunicados a fornecedores afirmando que ocorreriam cortes orçamentários e redução das atividades caso Lula ganhe as eleições. O MPT-RS instaurou um inquérito para investigar a denúncia. Ao empresa náo considera a carta coação de voto.

A Imetame, de Aracruz (ES), está sendo investigada por conta de um vídeo em que um empregador diz aos funcionários que, dependendo de quem escolherem nas eleições, “não vão poder reclamar” se ficarem sem emprego. Os responsáveis por ela alegam que não houve indicação de candidato e reclamou que o vídeo foi gravado de forma irregular.

O MPT investigou outro vídeo, este produzido em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, no qual uma empresária do agronegócio pede que produtores rurais “demitam sem dó” os funcionários que votarem em Lula. Para evitar que o caso fosse à Justiça, foi fechado um acordo para pagamento de indenização e retratação pública.

Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, no qual uma empresária do agronegócio pede que produtores rurais “demitam sem dó”

No caso com maior repercussão na eleição de 2018, procuradores do Trabalho processaram as lojas Havan e seu proprietário, Luciano Hang, em, pelo menos, R$ 25 milhões por dano moral coletivo por intimidar seus empregados a votarem em Jair Bolsonaro na eleição presidencial. Além disso, o MPT também pediu R$ 5 mil a cada um dos cerca de 15 mil empregados, na época, como dano moral individual, o que elevaria o montante em R$ 75 milhões, totalizando um valor em torno de R$ 100 milhões.

De acordo com a ação civil pública, o proprietário promoveu campanhas políticas em prol do candidato com o envolvimento obrigatório de empregados em “atos cívicos”. Ele teria feito ameaças explícitas de fechar as lojas e dispensar os empregados, caso o adversário de seu candidato ganhasse a eleição.

Além disso, os trabalhadores teriam sido constrangidos a responder, em mais de uma ocasião, enquetes internas promovidas pela Havan em seus terminais de computadores, informando em quem votariam – num momento em que já era conhecida a preferência do dono da empresa.

Caracterização

O MPT destaca que dar o benefício ou fazer uma promessa de vantagem profissional em troca de voto é um crime eleitoral. Também é enquadrado dessa maneira nos artigos 299 e 301 do Código Eleitoral o uso de violência ou ameaça com o intuito de coagir alguém a votar ou não em determinado candidato ou candidata.

Segundo o artigo 299 do Código Eleitoral, a pessoa pode ser punida por “dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita. “

O artigo 301 do Código Eleitoral aponta que comete o crime de quem “usa de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido, ainda que os fins visados não sejam conseguidos”.

Nos dois artigos, estão previstas penas de até quatro anos de reclusão, além do pagamento de multa.

Ainda segundo o documento do MPT, a Constituição Federal garante a liberdade de consciência, de expressão e de orientação política, protegendo o livre exercício da cidadania por meio do voto direto e secreto.

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Custa da cesta básica de SP é a mais cara do país, segundo Dieese

Doze das 17 capitais apresentaram queda no custo dos produtos

 

Em setembro, o custo da cesta básica na cidade de São Paulo foi a mais cara entre as 17 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Segundo dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgada na quinta-feira (6). Em seguida estavam a cesta básica de Florianópolis (R$ 746,55), Porto Alegre (R$ 743,94) e Rio de Janeiro (R$ 714,14).

 

Em um ano, o custo da cesta básica apresentou elevação em todas as cidades pesquisadas pelo Dieese, com destaque para Recife (18,51%), João Pessoa (17,98%), Salvador (17,01%) e Belém (16,88%) que atingiram as maiores variações no período.

O leve recuo verificado no mês de setembro no custo da cesta básica em 12 de 17 capitais não reduziu o peso dos alimentos no orçamento das famílias, com o país com recorde de 68 milhões de inadimplentes que estão com contas atrasadas, tendo que optar entre pagar dívidas ou comer. Ao contrário do que afirma Bolsonaro, apesar da deflação verificada na prévia de setembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os preços dos alimentos continuam em patamares elevados, como esteve durante todo o seu governo, com os preços dolarizados, explodindo na pandemia, quando Bolsonaro chamou de “idiota” quem defende comprar feijão em vez de fuzil.

Não à toa explodiu no país a fome e as filas em busca de ossinhos com pelancas e restos de comida em caçambas de supermercados.

O custo da cesta básica mais barata ainda está acima de R$ 500 e na grande maioria das capitais pesquisadas ultrapassa R$ 620.

Os números do Dieese apontam que, após o desconto de 7,5% referente à Previdência Social, o trabalhador remunerado pelo salário mínimo (R$ 1.212) comprometeu em média, em setembro de 2022, 58,10% do rendimento para adquirir os produtos alimentícios básicos. Em setembro de 2021, quando o salário mínimo era de R$ 1.100,00, o percentual ficou em 56,53%.

A carestia dos preços dos alimentos continua esfolando o povo brasileiro que enfrenta o desemprego atingindo 9,7 milhões de pessoas no país, segundo o IBGE. Outros 39,3 milhões de brasileiros estão na informalidade do trabalho, vivendo de “bicos”, de atividades de baixa produtividade e jornada de trabalho excessiva com uma renda que muitas vezes não chega sequer ao salário mínimo.

De acordo com dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN), no Brasil, em números absolutos, são mais de 125,2 milhões de brasileiros que sofrem com algum nível de insegurança alimentar, sendo que 33 milhões passam fome. Entre 2017-2018, eram 10,3 milhões de pessoas que viviam em domicílios com insegurança alimentar grave, segundo o IBGE.

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