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Sindicalistas reúnem-se com Alckmin e debatem a eleição de 2022

Sindicalistas reúnem-se com Alckmin e debatem a eleição de 2022

O ex-governador paulista e sindicalistas avaliaram conjuntura política nacional e os desafios do país.

por Da redação

Na manhã desta segunda-feira (29) dirigentes de quatro centrais sindicais (CTB, Força Sindical, UGT e Nova Central) e de outras entidades sindicais estiveram reunidos com o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que manifestou a disposição de deixar o PSDB e vem sendo apontado como provável candidato a vice-presidente numa chapa liderada por Lula.

Entre os sindicalistas presentes estavam: Adílson Araújo presidente da CTB; Miguel Torres, presidente da Força Sindical; Ricardo Patah presidente da UGT; Sérgio Luíz Leite, presidente da Fequimfar; João Carlos Gonçalves, Secretário Geral da Força Sindical; Cláudio Magrão, ex-presidente da Federação dos Metalúrgicos de São Paulo, e Chiquinho Pereira presidente do Sindicato dos Padeiros de São Paulo.

Os sindicalistas disseram que Alckmin saiu “muito animado” do encontro e que tratou de questões da conjuntura nacional, sem se restringir ao contexto estadual. Antes desta ideia ser ventilada e ganhar força, ele estava focado em candidatar-se novamente ao governo paulista. “Surgiu a hipótese federal. Os desafios são grandes. Essa hipótese caminha e eu considero essa reunião com as quatro principais centrais histórica”, declarou o ex-governador.

O presidente da CTB, Adilson Araújo disse que Alckmin está “aberto ao diálogo” e que “não descartou a possibilidade de exercer protagonismo” no debate nacional. “Eu diria que a eleição de 2022 reivindica um projeto de nação. Nele, cabe Alckmin e cabe Lula”, disse Araújo. O dirigente sindical considerou importante a postura oposicionista do Alckmin e reiterou seu empenho na construção de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro. Isto exige respeito à pluralidade política e a valorização do diálogo e da unidade na diversidade. “Nós não temos candidatos, mas vemos com bons olhos a construção do campo democrático popular”, destacou o presidente da CTB.

Adilson enfatizou ainda a defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores. Para ele, “caberá a um novo governo recolocar o país na trilha do desenvolvimento, da democracia, do respeito ao movimento sindical, de restauração dos direitos liquidados pelo atual governo, do combate ao desemprego e valorização do trabalho”.

Outras lideranças dos trabalhadores, entretanto, expressaram seu apoio, entre eles os presidentes da Força Sindical e da Nova Central. “Dentro da situação atual, seria muito importante que ele aceitasse (ser vice de Lula). Nós daremos todo o apoio”, declarou Miguel Torres.

Já disse o presidente da Nova Central, José Reginaldo Inácio, que não participou da reunião em São Paulo, mas enviou representantes enfatiza a necessidade de unir forças contra Bolsnaro. “A grande motivação para fazer a reunião com o Alckmin é o fato de nós, centrais sindicais, estarmos junto de uma frente para derrotar esse modelo de governo (de Jair Bolsonaro), que tem representado muito claramente a ruptura democrática. Essa possível coligação do Lula com o Alckmin sinaliza uma possibilidade de derrota desse modelo político. Esse é um ponto que a gente discutiu”, declarou o sindicalista.

 

Com informações das centrais sindicais

https://vermelho.org.br/2021/11/29/sindicalistas-reunem-se-com-alckmin-e-debatem-a-eleicao-de-2022/

Sindicalistas reúnem-se com Alckmin e debatem a eleição de 2022

Desarmar sindicatos foi essencial para impor neoliberalismo no Chile

Secretário-geral da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT-Chile), Eric Campos defende apoio a Gabriel Boric para recuperar direitos, gerar emprego e renda

 

por Caio Teixeira, Leonardo Wexell Severo

 

De Santiago – Para o secretário-geral da Central Unitária dos Trabalhadores do Chile (CUT), Eric Campos, derrotar o representante do fascismo, José Antonio Kast, é primordial para recuperar direitos e reverter as consequências do nefasto modelo econômico que as grandes corporações e as transnacionais querem aprofundar. “Com Gabriel Boric o sindicalismo terá muito mais espaço para se desenvolver e ampliar, potencializando sua capacidade política, social e mobilizadora”, afirmou Campos, que é também presidente da Federação Nacional dos Metroviários. Nesta entrevista, o dirigente assinala como “fundamental implementar um plano de industrialização com forte incorporação do Estado” para gerar emprego e renda. Neste sentido, acrescentou, propomos “não somente a nacionalização e a estatização do cobre, mas também a dos recursos naturais que agora tornaram-se fundamentais para as novas tecnologias, como o lítio e, também, o investimento na grande indústria de conhecimento”. “Porém isso não pode ser feito a partir da hegemonia e da dependência que temos das grandes corporações. Acredito que a soberania tecnológica deve ser defendida como um dos elementos fundamentais de um projeto de desenvolvimento nacional”, sublinhou.

 

CAIO TEIXEIRA E LEONARDO WEXELL SEVERO, de Santiago

 

Diante de todas as ações contra os direitos sociais e trabalhistas, o que foi mais grave com a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990)?

No caso do Chile precisamos relembrar o ano de 1978, começo de 1979, quando José Piñera, irmão do atual presidente Sebastián Piñera, que é o mesmo que criou as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) privadas, escreveu um livro que se chama “A Revolução Laboral”. Ali ele explica que a primeira reforma econômica que a ditadura teria de fazer era no modelo de relações trabalhistas, no modelo sindical. Ali estava um pacote de medidas jurídicas que ganhou o nome Plano Laboral por razões de marketing político.

Na minha opinião e na de vários acadêmicos o que isso significou? O Chile no final do século 19 até 1973, de forma ascendente em termos de processo histórico, transformou a classe trabalhadora em estratégica para a construção da sociedade democrática.

Foi em nosso país onde ocorreu a primeira greve no começo do século 19, o primeiro levante do movimento operário, com uma particularidade: deu à luz a dois partidos, o comunista e o socialista, como parte de uma estratégia política. Diferentemente de outros partidos socialistas e comunistas da América Latina estes surgem como uma reflexão prática e política: a construção de instrumentos políticos do movimento operário. E a partir daí há uma aliança importante entre esses dois partidos e o movimento operário, que tem seu momento culminante na Unidade Popular [com Salvador Allende]. Isso, claro, com tensões, diferenças, surgimento de outros atores e atrizes, importantes como a primeira e a segunda onda do movimento feminista na década de 30 e 50 com a luta pelo direito ao voto, logo depois o surgimento do movimento dos pobladores [favelados], dentro de uma concepção de luta territorial.

Esses atores construíram uma aliança estratégica com o movimento sindical, que lutava ao lado dos moradores, reivindicava espaços femininos contra o sistema patriarcal, dentro do movimento sindical com algumas mulheres dirigentes. A mais conhecida foi Tereza Flores [la Compañerita}, junto com Luiz Emilio Recabarren, que é o pai do movimento operário, quem lança os primeiros alicerces de sua construção.

Por que fui tão atrás? Porque o principal do Plano Laboral, foi derrotar essa concepção estratégica da classe trabalhadora. E conseguem, desarmando o movimento sindical. O Plano promove o fracionamento do sindicalismo com a possibilidade jurídica de construir muitos sindicatos, promovendo a despolitização – há a proibição constitucional até o dia de hoje, entre outras coisas, de que um dirigente sindical seja candidato a deputado. Quem quer candidatar-se ao parlamento tem que renunciar ao mandato, uma tentativa de desconectar a política do sindicalismo. Isso se materializa no Código do Trabalho de 1981, um ano depois da Constituição ditatorial de 1980.

Então, recapitulando, há três elementos para identificar as mudanças que se impõem: o Plano Laboral de 78-79, a Constituição de 1980 – que consagra juridicamente o neoliberalismo – e em 1981 com a imposição do novo Código do Trabalho.

Na condução dos trabalhos os membros do Comitê Executivo da CUT-Chile: Bárbara Figueroa, Juan Moreno, Silvia Silva, Eric Campos, Karen Palma e Manuel Díaz

“Com a Constituição de Pinochet não temos direito à greve, não há direito à negociação coletiva por ramo ou categoria, o sindicalismo virou um animal sem dentes”

De forma muito prática, a Constituição de 1980 consagra ou materializa a diferença entre o capital e o trabalho. No seu artigo 24 está, parágrafo por parágrafo, a proteção ao grande capital mineiro, a propriedade da água, o reconhecimento de um só tipo de propriedade, a privada, em detrimento dos direitos do trabalho. Não temos direito à greve na Constituição, não há direito à negociação coletiva por ramo ou categoria, como no Brasil e na Argentina. Só temos a obrigação jurídica de negociar no interior da empresa. Então há o fracionamento do sindicalismo porque se não negocias é animal que não morde, porque não tem dentes.

O movimento sindical não se vê golpeado apenas pelo lado jurídico, mas pelo aspecto produtivo. Com o neoliberalismo, há a substituição de uma classe trabalhadora tradicional, industrial e mineira. A política de industrialização pela substituição de importações, muda para um modelo extrativista de cobre, celulose e madeira.

Com isso, cresce o setor de serviços, mudando a configuração da classe trabalhadora, o que golpeia nossas tradições sindicais históricas. E isso se consagra nos governos da Concertação [que dirigiu o país durante quatro gestões, de março de 1990 a março de 2010 e de 2014 a 2018].

Nos últimos 30 anos a taxa de sindicalização, caiu para uns 13%. A reforma de Michelle Bachelet – em 2014 – tentou dar titularidade sindical, fazendo com que só os Sindicatos tivessem a capacidade de representar um contrato coletivo, mas isso foi declarado inconstitucional porque a Constituição [de Pinochet] reconhece a capacidade de representação individual à negociação, e não a coletiva.

 

Qual era a taxa de sindicalização antes da ditadura?

 

Durante a Unidade Popular chegava a quase 36%, com a diferença que tínhamos capacidade de ressonância, com uma negociação coletiva maior, envolvendo mais gente, diferente do que ocorre hoje.

Com Bachelet crescemos a uma taxa de sindicalização de 20%. Neste processo, nos últimos sete anos, há um conselho que criamos com a Central Unitária de Trabalhadores e Bachelet, que reúne com os empresários: o Conselho Superior do Trabalho. Esta é a única instância tripartite não-vinculante que estabelece o processo chileno e que anualmente faz um informe, e este ratifica que a taxa de sindicalização se manteve em 20%. No entanto, a taxa de negociação coletiva está em 8%. Então temos um sindicalismo que cresce, mas não morde, não tem poder.

 

As centrais sindicais representam somente os filiados?

 

As centrais não podem negociar coletivamente. No Chile há apenas uma negociação por ramo, que é de fato, não jurídica: a dos trabalhadores do Estado, que se encontra em pleno processo. A CUT assessora, mas não representa. Os sindicatos representam por empresa, são 16 organizações sindicais.

 

Do ponto de vista da retirada de direitos, quais foram as principais medidas adotadas pela Constituição de Pinochet?

 

Em primeiro lugar rompeu o direito à negociação coletiva por ramo. Segundo: promoveu, via jurídica, a fragmentação do sindicalismo, ficando muito fácil criar um Sindicato. Se necessitam oito pessoas e após um ano precisa ter apenas 10% da unidade filiada. Desta forma em uma empresa de 300 trabalhadores podes ter facilmente três Sindicatos. No Metrô temos 4.000 trabalhadores e 5 sindicatos. Além disso. Há no país uma força de trabalho desregulada, precarizada, em torno de 40% que não tem contrato de trabalho. Essa situação se encontra nos canteiros de obra, nas ruas, são professores, jornalistas, muitos não sentem o mal da desregulamentação, porque sequer sabem o que é ter um contrato de trabalho.

 

Só recebem o salário e nada mais?

 

E nada mais. Podem ter um Sindicato, não há a obrigação do trabalhador negociar com ele. Os sindicatos somente podem negociar agora, depois de Bachelet, se tiverem 10% dos trabalhadores da empresa filiados. Diante disso, o Walmart passa a terceirizar, contratando uma empresa de reposição de mercadorias, outra de segurança, outra de carga, etc. Então, para negociar, é preciso ter no mínimo 10% de cada uma delas. Além disso, há trabalhadores temporários, um trabalho eventual, desregulamentado, que pode se organizar, mas não pode negociar.

 

Então o contrato, fruto da negociação, é somente para parte dos trabalhadores filiados ao Sindicato de uma determinada empresa e se existirem vários sindicatos na mesma empresa podem ter vários contratos diferentes?

 

Sim. É um modelo de relações trabalhistas fragmentado, uma vez que o patrão tem todas as ferramentas para dividir os sindicatos, beneficiando aquele que se comporta bem em detrimento daquele que cobra direitos e faz greve. Valorizam os sindicatos “amigos” do patrão e matam os demais, reduzidos a sindicatos ideológicos, pequenos.

“Temos um modelo de relações trabalhistas que tende à fragmentação, uma vez que o empregador possui todas as ferramentas para dividir os sindicatos, beneficiando aquele que se comporta bem em detrimento daquele que cobra direitos”

 

Qual é a questão chave entre a proposta da nova Constituição e o novo Congresso em termos de avanços para os trabalhadores?

 

Na minha opinião pessoal, não institucional, há um risco que corre a Convenção Constituinte, e essa é uma crítica política. A esquerda chilena está numa busca desesperada de novos atores e atrizes sociais. No Brasil a esquerda não pode fazer um discurso público se não fala da classe trabalhadora. Fala do feminismo, do movimento ambientalista, mas não omite os trabalhadores. O mesmo ocorre se vais à Argentina, com as dificuldades, tensões e divisões que temos.

Eu me atreveria a dizer que no Chile inclusive os partidos de raízes operárias históricas abandonaram tal reivindicação no discurso público, há uma invisibilidade das questões do trabalho e é um fenômeno muito daqui.

Esta é uma questão central na disputa com o regime capitalista.

Claro, é o tema que gera mais atrito com a elite e o empresariado, a contradição capital-trabalho. 

A explosão social tem mil razões, porém se fazemos uma análise histórica, ele ocorreu no dia 19 de outubro e no dia 25 houve uma grande marcha de um milhão de pessoas. Porém o acordo que permitiu a convocação da Constituinte, que nós tínhamos objeções e reparos, se deu em razão a greve de 12 de novembro de 2019, a maior já ocorrida no Chile desde 1985.

O ex-ministro da Defesa, Mario Desbordes, muito criticado pela ultradireita, é chamado de “direita social” por ter entregado à esquerda a Constituição. Mas ele recorda que neste dia havia três milhões de pessoas na greve e o presidente podia cair.

Nossa crítica é que também acreditávamos que Piñera podia cair e um setor da esquerda propôs um plano de resgate ao presidente, lhe salva em meio à violação dos direitos humanos, diante da possibilidade de poder destituí-lo. Assim também o disse Bofill, um porta-voz da direita, um intelectual orgânico, diretor de vários meios de comunicação da direita, que em um par de semanas mudariam o Comandante em Chefe do Exército – que era o responsável por Santiago. No dia seguinte à declaração de Piñera de que “estamos diante de um inimigo interno”, o comandante felizmente diz: “não tenho inimigo, não estou em guerra”. Isso baixou um pouco a tensão.

Porém, no dia da greve, isso falou Bofill, o presidente pediu ao militar que lançasse as tropas às ruas. Tropas que já estavam nas ruas. Piñera pede que sejam enviadas para reprimir. E como o comandante se negou, porque sabia que aquilo ia terminar em um banho de sangue, pois centenas de pessoas já tinham ficado cegas [com balas de borracha e bombas], agora passariam a ser mortas.

Diante da negativa deste militar, seu comandante em chefe, Piñera opta por um acordo político com um setor majoritário da esquerda, a centro-esquerda, a social-democracia e a direita para convocar um plebiscito constituinte. E assim chegamos até aqui.

Há o risco de que os temas do trabalho não sejam refletidos na nova Constituição. Tentamos nos eleger sindicalistas constituintes, mas não conseguimos. Não há nenhum. Os partidos não se esforçaram para priorizar candidaturas do movimento sindical. Há feministas, ambientalistas, intelectuais comprometidos, defensores dos cachorrinhos, sem teto, porém não há sindicalistas.

O problema é que a questão do trabalho está sendo reduzida ao Direito do Trabalho. O que reivindicamos nem é uma posição revolucionária, é algo proposto pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que o paradigma normativo do trabalho decente fique alojado de forma transversal na Constituição, não só no capítulo dos direitos sociais.

Cito por exemplo a Constituição italiana que diz em seu artigo primeiro que a Itália é uma república baseada no trabalho. Então queremos que no preâmbulo se assinale que o Chile promoverá o trabalho decente entre seus princípios fundamentais e que se reconheça o sindicalismo como um ator relevante na sociedade democrática.

“Não nos serve estar à margem, queremos estar incorporados ao sistema político, para que depois tenhamos um código do trabalho que permita financiamento, que nos permita maiores direitos”

Não nos serve estar à margem, queremos estar incorporados ao sistema político, para que depois sim tenhamos um código do trabalho que nos permita maiores direitos, financiamento. Queremos que se consagre na Constituição o direito à greve, o direito à negociação coletiva por ramo de atividade profissional. Estou falando de medidas civilizatórias, mas o fato é que o empresariado chileno é muito ideológico e intervém na política, diretamente.

 

Como um quarto poder?

 

Sim. Na semana passada, Luksic [Andrônico Mariano Luksik Craig], que é um dos principais donos do Chile, retirou do país mais de um bilhão de dólares, foi investir fora. Então, claro, há inflação, porque também estão retirando os dólares. Esta é uma forma de pressão absoluta, de ingerência eleitoral. Deveria estar proibida tamanha manipulação dois ou três meses antes ou depois de eleições presidenciais.

 

Observamos que o Chile foi convertido numa colônia exportadora de produtos minerais e naturais, sem valor agregado. Quais medidas que a CUT propõe para inverter a lógica da desindustrialização?

 

Nós temos proposto historicamente, e o ratificamos no último Congresso, não somente a nacionalização e a estatização do cobre, mas também a de recursos naturais que agora tornaram-se fundamentais para a nova tecnologia, como o lítio.

No Norte do Chile há uma cidade chamada Los Vilos, em Salamanca, o lugar mais estreito do país, com cerca de 90 quilômetros entre a fronteira   com a Argentina e o mar. Ali a mineradora Los Pelambres, que é de Luksic, o homem que retirou um bilhão de dólares agora há pouco, tem um tubo que leva cobre concentrado, segundo dizem, até os navios. Mas o fato é que deve levar mil coisas mais que não sabemos e que ninguém exige que sejam processadas em nosso país.

Então em primeiro lugar acreditamos que é fundamental implementar um plano de industrialização com forte incorporação do Estado. Debate a estatização, em que termos, é fundamental, como tem nos demonstrado Bolívia, que deu um salto no desenvolvimento a partir da participação do Estado na economia. Não estamos pensando em um papel excludente, mas em um papel principal.

E pensamos na necessidade de que o Estado seja promotor das pequenas e médias empresas, a partir de uma estratégia nacional. Não uma estratégia em que qualquer um importa 300 celulares, põe a venda e pensa que é um empresário, quando o que pratica é a precarização do emprego autônomo.

Então o que estamos propondo é que se requer um plano nacional de industrialização, mas que reconheça, obviamente, que o Chile perfeitamente poderia ser, como não está sendo, uma potência alimentar, uma potência em termos científicos, como para o combate à pandemia. De fato, acabamos de assinar um convênio com o laboratório chinês Sinovac para que instale no Chile um laboratório. Vale lembrar que tínhamos há poucos anos laboratórios de vacinas que foram fechados.

“O Chile enfrentou a pandemia a partir da precária rede de saúde pública e não dos centros privados”

Temos uma experiência em saúde pública que poderíamos compartilhar. O fato é que o Chile enfrentou a pandemia a partir da precária rede de saúde pública e não a partir dos centros privados. Os exames de PCR gratuito estão sendo feitos pela saúde pública, não pela saúde privada. Então temos aí também a possibilidade de compartilhar conhecimentos. Acreditamos que o Chile e a América Latina, em particular, podem articular uma grande indústria de conhecimento. Porém isso não pode ser feito a partir da hegemonia e da dependência tecnológica que temos das grandes corporações.

É o caso do metrô de São Paulo, bem como de toda a nossa América, em que tudo depende do que determine um pequeno grupo de empresas como Siemens ou Alstom que, além de venderem os trens, vêm com a manutenção incluída nos mantendo em permanente dependência de atualização tecnológica.

A soberania tecnológica deve ser defendida como um dos elementos fundamentais de um projeto de desenvolvimento nacional.

 

Como avalias a questão da democratização dos meios de comunicação neste contexto?

 

Esta é uma linha proporcionada pelo debate democrático gerado pelo Equador e pela Argentina. Nós acreditamos que é urgente uma lei de meios no Chile que regule duas coisas: primeiro deve haver uma promoção da democratização de um sistema, já que em nosso país há um duopólio que acumula meios que controlam os principais canais de televisão.

Luksic é o dono de um canal de televisão aberta que era da Igreja Católica, com muita tradição cultural no Chile, como o Canal 13. Não pode haver integração vertical em que um dono de banco ou de uma rede de empresas possa ser proprietário de um canal de televisão. Isso foi implementado pelo neoliberalismo. Precisamos impor limites à concentração e, por outro lado, democratizar.

 

O que também significa limitar o alcance.

 

Exatamente. É também preciso legislar sobre os algoritmos das redes sociais. E são os meios que impõem conteúdos às redes sociais e geram os golpes, por aí se articulam hoje em dia, fortalecendo o poder hegemônico do neoliberalismo. Já não bastam os exércitos, são fundamentais os meios para a luta cultural.

Nós acreditamos, portanto, que o Estado e os movimentos sociais devam ter participação no espaço radioelétrico e que tenham seus próprios meios. É fundamental incorporar esta pauta no processo de democratização, mas é importante também incorporar o sindicalismo no movimento social como parte do sistema político.

Salvador Allende, em sua proposta de Constituição, em sua estrutura de sistema político, estabeleceu a Câmara dos Trabalhadores, que se reportava diretamente da Presidência, onde era um órgão consultivo.

O que estamos propondo hoje em dia é que assim como existe financiamento público para que os partidos sustentem o sistema político, é preciso haver recursos públicos para que o sindicalismo e outras organizações de relevância também sustentem o sistema político, permitindo o fortalecimento do tecido social. Porque um tecido social debilitado permite mais facilmente à direita chegar aos setores populares, porque controlam o grande capital, controlam a mídia e as igrejas, impondo sua hegemonia.

 

Para esta batalha contra o império, qual o papel da integração da Pátria Grande?

 

Me preocupa que o internacionalismo como eixo ou princípio de ação do movimento social tenha decaído. Isso é bem contraditório porque o tempo de globalização tende a fortalecer os espaços locais acima dos espaços globais. Eu creio que o sindicalismo pode aportar muito porque tem uma rica história e cultura a respeito do internacionalismo. E é precisamente na classe trabalhadora que tentam incutir estas ideias muito falsas contra os Estados nação, que se veem pulverizados.

Hoje em dia são as corporações globais que intervêm em todos os espaços e a partir do discurso político da ultradireita contra a migração, vêm minando o princípio do internacionalismo, da solidariedade, como um eixo de trabalho concreto político do movimento social, muito necessário, principalmente numa questão que o imperialismo joga um papel tão importante. O fato é que se temos ações globais do capital, necessitamos de respostas simultâneas.

 

Qual o papel dos trabalhadores na construção de uma nova sociedade?

 

Com o golpe, a direita não somente buscava derrotar a Unidade Popular e a Salvador Allende. Seu objetivo estratégico era derrotar a classe trabalhadora como elemento chave na construção da democracia.

É evidente que nestes dias vão surgir sujeitos locais com reivindicações particulares, como uma comunidade que se mobiliza contra a contaminação do rio e reúna 20 ou 50 moradores, ganhando visibilidade e constituindo-se no que se denomina movimento social.

Nesta questão estou com Antonio Negri quando diz que o sindicalismo não pode pretender ser hegemônico no movimento social como foi no passado, porém se o movimento social quer se propor a realizar transformações de fundo, de classe, não pode fazê-lo sem a incorporação do sindicalismo.

Portanto, temos que partir da contradição capital-trabalho, das contradições da exploração, e não sobrepor as contradições da dominação à depredação.

Neste marco vem o apoio da CUT à candidatura oposicionista de Gabriel Boric e a defesa de uma frente ampla?

Apoiamos a candidatura de Gabriel Boric à presidência não só para derrotarmos a José Antonio Kast, o representante do fascismo, mas porque com Boric o sindicalismo terá muito mais espaço para se desenvolver e ampliar, potencializando sua capacidade política, social e mobilizadora.

Esta reportagem foi elaborada pelo Coletivo ComunicaSul, com o patrocínio do Barão de Itararé, Agência Carta Maior, jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Apeoesp Sudeste Centro, Intersindical, Sintrajufe-RS, Sinjusc, Sindicato dos Bancários do RN, Sicoob, Agência Sindical e 152 contribuições individuais

 

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2021/11/29/desarmar-sindicatos-foi-essencial-para-impor-neoliberalismo-no-chile/

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Os limites quantitativos previstos na reforma trabalhista

OPINIÃO

Por 

 

A reforma trabalhista implementada pela Lei nº 13.467/2017 inovou a Consolidação das Leis do Trabalho ao impor limites aos valores das indenizações por danos morais conforme cada uma das quatro categorias de nível da ofensa: leve, média, grave e gravíssima.

Alegando inconstitucionalidade desses limites impostos pela reforma trabalhista, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e o Conselho Federal da OAB, ajuizaram ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs) sob a justificativa bastante resumida de que os valores morais compõem o patrimônio subjetivo do cidadão, os quais não podem ser limitados e padronizados.

No último dia 27 de outubro, o relator dessas ADIs, ministro Gilmar Mendes, conferiu interpretação conforme a Constituição aos artigos 223-A a 223-G da CLT, estabelecendo que não há impedimento para os magistrados fixarem reparações acima destes limites, desde que observados os princípios da proporcionalidade, razoabilidade e igualdade. Além disso, ficou garantida a possibilidade de indenização por dano reflexo ou por ricochete (artigo 223-B da CLT), assim considerados aqueles danos que atingem terceiros, como por exemplo familiares ou colegas de trabalho.

Importante esclarecer que não houve declaração de inconstitucionalidade do referido artigo 223-G da CLT, mas, sim, a definição de que tais parâmetros não podem ser usados como “teto”, sendo plenamente permitido ao magistrado, diante das peculiaridades de cada caso concreto, ultrapassar os limites quantitativos previstos na reforma trabalhista.

De fato, se pensarmos na vastidão de situações e ofensas capazes de caracterizar o dano moral, não há como subdividirmos todas essas possibilidades em apenas quatro categorias. Não há como classificar as diversas hipóteses de danos extrapatrimoniais da mesma forma que ocorre, por exemplo, com a gradação das multas de trânsito, cujo rol de infrações é taxativo.

Some-se a isso o fato de a jurisprudência trabalhista já ter definido que o valor da indenização por danos morais deve possuir caráter reparador e punitivo, ou seja, para fixação do montante da reparação devem ser levados em consideração, além da gravidade da ofensa, o perfil e o porte do empregador.

Por fim, entendo que a ausência de declaração de inconstitucionalidade permitirá a correta possibilidade de reexame da matéria perante o Tribunal Superior do Trabalho, através de recursos de revistas fundamentados em violação legal, sempre que o valor da condenação divergir razoavelmente dos valores parametrizados pela Consolidação das Leis do Trabalho, situação que anteriormente era fundamentada principalmente em divergência jurisprudencial.

De qualquer forma, aguardemos a conclusão do julgamento após o pedido de vistas do ministro Nunes Marques.

 

 é especialista em relações de trabalho e sócio do Zarif e Nonaka Advogados.

Revista Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2021-nov-28/zarif-limites-quantitativos-previstos-reforma-trabalhista

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Jornalista aponta grande aumento patrimonial da família de Deltan Dallagnol

NEGÓCIOS ESTRANHOS

 

Durante período de importantes desdobramentos da operação “lava jato”, no ano de 2018, o então procurador do Ministério Público Federal e coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, teria adquirido um apartamento de luxo em Curitiba por R$ 1,8 milhão.

Mensagens mostraram interesse de Deltan em abrir empresas em nome de terceiros
Fernando Frazão/Agência Brasil

Esse e outros investimentos milionários e negócios paralelos ao trabalho de procurador foram compilados e divulgados pelo jornalista Luis Nassif.

Segundo a reportagem, no dia 12 de julho de 2021, Fernanda Mourão Ribeiro Dallagnol, com quem Deltan é casado em regime de comunhão parcial de bens, arrematou um segundo apartamento no mesmo edifício. Pagou R$ 2,1 milhões em um leilão judicial.

Neste ano ela também teria aberto a empresa Delight Consultoria Gerencial e Empresarial, com capital social de R$ 110 mil e adquirido em leilão da Caixa Econômica Federal um imóvel de escritório, por R$ 143 mil. Esses negócios foram todos feitos em um curto espaço de tempo.

Fernanda é sócia, desde 2010, da empresa Sanegraph Serviços de Informática, uma pequena empresa que desenvolve softwares na área de saneamento e tem como cliente preferencial prefeituras do Paraná e também a Fundação Nacional de Saúde.

Por sua vez, a irmã do ex-procurador, Édelis Martinazzo Dallagnol, também tem uma série de negócios no Paraná. Conforme apurado por Nassif, em julho desse ano, ela se tornou a de gestora da Hering Kids de Curitiba, uma rede com quatro lojas em shoppings da cidade. Coincidentemente, havia boatos de que Deltan tinha comprado quatro franquias da Hering para sua esposa.

No mês anterior, exatamente no dia 7 de junho de 2021, foram abertas várias empresas, todas em nome de Édelis, de Agenor Dallagnol e Vilse Salete Martinazzo Dallagnol, pai e mãe do coordenador da “lava jato”.

A reportagem mostra que, em um único dia, foram abertas as seguinte empresas: Breakout Comércio de Confecções Eireli, de propriedade de Édelis; Chelsea Comércio de Confecções Ltda, com capital social de R$ 250 mil tendo Édelis e Sofia Ribeiro Dallagnol como sócias; Sunray Comércio de Confecções Ltda, tendo como sócios Vilse e Agenor e capital social de R$ 350 mil; e Cherish Comércio de Confecções Eirelli, de Édelis e Vilse, com capital social de R$ 450 mil. A família teria ainda uma quinta empresa de importação e exportação de artigos esportivos, aberta em 2018.

Mensagens da vaza jato mostraram que Dellagnol tinha intenção de criar um esquema para lucrar com a fama e contatos feito durante a operação “lava jato”. Em um chat sobre o tema criado no fim de 2018, Deltan e um colega do MPF discutiram a constituição de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas. 

As mensagens também revelaram que Deltan já tinha a ideia de criar uma empresas em nome de terceiros. O procurador e o colega dele na autoprocalamada “força-tarefa” Roberson Pozzobon criaram um grupo de mensagens específico para discutir o tema. Deltan propôs que uma empresa de eventos fosse aberta em nome das mulheres deles.

Para Nassif, é possível que parte dos investimentos citados tenha sido bancada pelos pais de Deltan, que se envolveram em indenizações vultosas e polêmicas junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Segundo o portal “De olho nos ruralistas”, em 2016 foram efetuadas desapropriações de terras na Amazônia, mas o Incra teria identificado irregularidades nas desapropriações e abriu processo para recuperar o dinheiro. Dos R$ 41 milhões liberados, pelo menos R$ 36,9 milhões foram para a família Dallagnol. 

 

Sindicalistas reúnem-se com Alckmin e debatem a eleição de 2022

Alcolumbre marca sabatina de André Mendonça para quarta-feira (1º/12)

ANTES TARDE

A sabatina de André Mendonça pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado foi marcada para a próxima quarta-feira (1º/12). Mendonça foi indicado em julho pelo presidente Jair Bolsonaro para a vaga de Marco Aurélio no Supremo Tribunal Federal.


Marcello Casal Jr/Agência Brasil


A relatora da sabatina será a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), por indicação do presidente da CCJ, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Havia a possibilidade de que a sabatina fosse feita um dia antes, mas, no início da noite, a pauta das sessões foi publicada com o dia 1º como o escolhido.

Pelo Twitter, Eliziane Gama disse que o convite para relatar a sabatina é um sinal de respeito de Alcolumbre pela bancada feminina, pelos evangélicos e pela diversidade religiosa no Brasil. “Como relatora, eu vou me pautar por informações e pela boa técnica legislativa, sem preconceito político, ideológico e muito menos religioso”, afirmou.

“O ministro do STF precisa ter como qualidades conhecimento jurídico, honrabilidade, ética, compromisso absoluto com a democracia e com as liberdades. E o nosso  relatório será pautado dentro desses princípios que, aliás, são definidos pela Constituição Federal, que inclui notável saber jurídico, reputação do indicado. Nós estamos em um estado laico em que as liberdades de religião devem ser respeitadas. Portanto, o que importa neste momento é o currículo e a capacidade técnica do indicado.”

O intervalo entre a indicação de Mendonça e a sabatina no Senado foi o maior da história recente da República. Bolsonaro encaminhou o nome do ex-AGU em 12 de julho, depois de passar uma semana insultando o Judiciário e o Senado, disparando ofensas e ataques ao STF, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à CPI da Covid.

A demora, fruto da fraqueza política do governo, fez com que os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Jorge Kajuru (Podemos-GO) acionassem o Supremo para obrigar Alcolumbre a marcar a sabatina. No início de outubro, o ministro Ricardo Lewandowski decidiu que a questão era interna corporis, e que não cabia ao Judiciário interferir no funcionamento de outro Poder da República.

Nas últimas semanas, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, passou a ser cobrado pela omissão de Alcolumbre, principalmente por parlamentares e líderes evangélicos. Na última quarta, Alcolumbre finalmente anunciou que agendaria a sabatina.

Assim, na próxima quarta, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado examinará a indicação de Bolsonaro. A CCJ tem 27 integrantes e para a indicação ser aprovada é necessária maioria simples. Em seguida, o Plenário do Senado deverá referendar a nomeação por maioria absoluta — metade mais um dos 81 senadores, ou seja, 41 votos.

 

Revista Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2021-nov-27/alcolumbre-marca-sabatina-andre-mendonca-quarta-112

Sindicalistas reúnem-se com Alckmin e debatem a eleição de 2022

2ª Turma do STF acolhe reclamação e determina desbloqueio de bens de Lula

DESRESPEITO AO SUPREMO

Por 

 

Declaração de incompetência de juízo anula não só sentença, mas também decisões acessórias. Com esse entendimento, a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal formou maioria para ordenar o desbloqueio dos bens do ex-presidente Lula. O julgamento será encerrado às 23h59 desta sexta-feira (26/11).

Lewandowski disse que Bonat desrespeitou decisão do Supremo
Nelson Jr./STF

Em 8 de março, o ministro Edson Fachin declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar Lula — decisão posteriormente confirmada pelo Plenário —; também determinou o envio de quatro ações para a Justiça Federal do Distrito Federal. O titular da vara, juiz Luiz Antonio Bonat enviou dois processos, referentes à sede do Instituto Lula e a doações feitas ao mesmo instituto. Neles, manteve o bloqueio de bens.

A defesa de Lula, comandada pelo advogado Cristiano Zanin Martins, apresentou reclamação pedindo o fim da constrição patrimonial. 

O relator do caso, Edson Fachin, votou para negar a reclamação e manter o bloqueio dos bens de Lula. Segundo ele, a decisão de Bonat não descumpriu a determinação do STF que declarou a incompetência da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba para julgar Lula, tendo em vista o caráter instrumental da medida, cuja necessidade deve ser revista, se for o caso, pelo juízo competente, diante da inexistência de decisão que extinguiu as ações penais.

Porém, prevaleceu o voto-vista divergente do ministro Ricardo Lewandowski, seguido pelos ministros Gilmar Mendes e Nunes Marques. Lewandowski apontou que a manutenção do bloqueio dos bens de Lula desrespeitou a decisão do Supremo.

De acordo com o ministro, ao ordenar que Bonat enviasse as quatro ações penais para a Justiça Federal do Distrito Federal, o STF não lhe conferiu “nenhuma discricionariedade para decidir sobre a natureza ou a conveniência instrumental (em relação a outros feitos criminais) de manter sob sua jurisdição os processos cautelares vinculados às referidas ações penais, de maneira a permitir que continuasse a proferir decisões no bojo desses feitos”.

“Pelo contrário, a obrigação incontornável do juízo reclamado [13ª Vara Federal de Curitiba] era remeter os referidos processos, sem maiores delongas ou tergiversações, ao juízo declarado competente por esta Suprema Corte, a saber: o da Seção Judiciária do Distrito Federal, ao qual caberá decidir sobre o destino das ações principais e dos processos acessórios, inclusive e especialmente acerca dos pedidos neles formulados, declinando, se assim entender, da competência para apreciá-los ou compartilhar o seu conteúdo, mediante fornecimento de chaves e senhas, caso abriguem informações que interessem a outras ações penais em andamento na Seção Judiciária de Curitiba”, apontou Lewandowski.

Se a 13ª Vara Federal de Curitiba foi declarada incompetente para julgar Lula, Bonat não poderia proferir decisão mantendo o bloqueio de seus bens, disse o magistrado. E a declaração, pelo STF, de nulidade das decisões do juízo estende-se a todos os atos decisórios.

“Ora, se a autoridade reclamada foi declarada incompetente para processar e julgar as ações penais em tela, não poderia ela emitir mais qualquer juízo de valor a respeito delas, inclusive acerca da manutenção do bloqueio dos ativos do reclamante”, avaliou o ministro, destacando que não estão presentes os requisitos para a constrição dos bens de Lula — o fumus comissi delicti (comprovação da existência de um crime e indícios suficientes de autoria) e do perigo da demora.

Clique aqui para ler o voto de Ricardo Lewandowski
Rcl 46.378

 

 é correspondente da revista Consultor Jurídico no Rio de Janeiro.

Revista Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2021-nov-26/turma-stf-forma-maioria-desbloquear-bens-lula