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DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

Durante manuseio de carga, ele caiu e teve fratura de uma perna, amputada posteriormente

A Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho declarou a responsabilidade subsidiária da Construdecor S.A. pelo pagamento de indenização a um motorista da Lena Transportes Ltda. que caiu do caminhão durante manuseio de carga e teve a perna fraturada e amputada em decorrência das lesões. Segundo o colegiado, a condenação decorre do risco da atividade.

Queda

Na reclamação, o profissional contou que, durante todo o contrato de trabalho com a Lena Transportes, havia prestado serviços para a Construdecor, de Santo André (SP), no espaço físico desta, onde também fazia o carregamento dos caminhões que dirigia.

Atividade de risco

Conforme o juízo de primeiro grau, a arrumação da carga no caminhão exigia que o motorista subisse no veículo, a mais de dois metros do chão. Testemunhas relataram que os empregados da Construdecor colocavam restos de construção no caminhão (ferro, resto de prateleiras, armação), e o motorista tinha de amarrá-los. Caracterizado o exercício de atividade de risco, a Lena Transportes foi condenada a pagar R$ 80 mil por danos morais, R$ 30 mil por danos estéticos e pensão mensal vitalícia de 70% da última remuneração do motorista.

A Construdecor foi declarada responsável subsidiária porque, segundo a sentença, a relação entre as duas empresas era de terceirização. Assim, cabia a ela verificar se a prestadora de serviços cumpria suas obrigações inerentes à segurança do trabalho e tinha, ela mesma, de fornecer equipamentos de proteção que impedissem acidentes.

Relação comercial

Contudo, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (SP) afastou a responsabilidade da Construdecor, por entender que a relação das empresas era comercial e, por isso, seria inútil discutir quem se beneficiou da força de trabalho do motorista.

Código Civil

Segundo o relator do recurso de revista do trabalhador, ministro Mauricio Godinho Delgado, os processos envolvendo acidente de trabalho tratam de direitos com natureza civil e não discutem condenação em verbas estritamente trabalhistas. Assim, a responsabilidade das empresas pelos danos materiais e morais decorrentes de acidente do trabalho resulta diretamente do Código Civil.

O ministro observou que a sentença se amparou nas provas dos autos – depoimento das testemunhas e laudo técnico pericial – que demonstraram as condições de risco das atividades. E, uma vez constatada a responsabilidade civil do empregador e deferidas as indenizações, a responsabilização solidária da empresa contratante se fundamenta no artigo 942 do Código Civil, que determina que, “se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação”.

Como o pedido do trabalhador se restringiu à responsabilidade subsidiária (em que o devedor só pode ser acionado se o devedor principal não quitar a dívida), não haveria como aplicar a jurisprudência dominante no TST da responsabilidade solidária da empresa contratante em casos de acidente do trabalho, sob pena de extrapolar os limites da demanda.

A decisão foi unânime.

(Lourdes Tavares/CF)

Processo: RR-1000079-75.2019.5.02.0434

Tribunal Superior do Trabalho

https://www.tst.jus.br/web/guest/-/contratante-de-transportadora-%C3%A9-responsabilizada-por-queda-de-motorista-do-caminh%C3%A3o

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

Pacheco e Lira alertam que Congresso não apoia revisão de privatização da Eletrobras (ELET6) e da autonomia do BC

Líderes da Câmara e do Senado também defenderam o marco legal do saneamento em recado de que governo não terá respaldo do parlamento nessas matérias

Por Caetano Tonet, Valor — Brasília

O presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), defendeu as reformas aprovadas pelo parlamento como a autonomia do Banco Central, a capitalização da Eletrobras e o marco legal do saneamento.

 

A fala de Pacheco, ao lado do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, marca posição do parlamento e mostra que o governo não terá apoio nessas matérias.

 

“Há também outros tantos projetos importantes na mesa de negociação da Câmara e do Senado que é o anseio daqueles que produzem no Brasil, que geram emprego, tanto novos projetos, mas também a manutenção de uma realidade recente do Brasil, com votações importantes que o Congresso fez e realidades que se tornaram realidade, como marco legal do saneamento, capitalização da Eletrobras, autonomia do Banco Central, que são temas que já enfrentamos e consideramos realidade”, afirmou Pacheco.

 

Lira foi na mesma linha do presidente do Senado e afirmou que é preciso acalmar os ânimos quanto a essas questões.

 

“A revisitação de temas que o Congresso votou há pouco tem que acontecer, quando acontecer, no âmbito do Congresso. É importante que acalmem os ânimos com relação a essas pautas, que efetivamente não terão eco nos plenários das duas Casas, independentemente da minha vontade ou do presidente Pacheco”, disse o presidente da Câmara.

 

Este conteúdo foi publicado pelo Valor PRO, serviço de tempo real do Valor Econômico.

VALOR INVESTE

https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2023/05/23/pacheco-lira-congresso-privatizacao-eletrobras-elet6-autonomia-bc.ghtml

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

Assédio moral no ambiente de trabalho

Felipe Mousinho Cavalcante

A empresa deve sempre investigar uma acusação de assédio, moral ou sexual, e ir a fundo para punir os assediadores, dando exemplo que esse tipo de conduta não faz parte da política da empresa.

Este artigo se propõe a conscientizar o leitor sobre o tema, a partir de diferentes perspectivas. Com exemplos práticos, são indicadas situações que configuram assédio moral e listadas as possíveis causas e consequências desse tipo de conduta. Também são apresentadas medidas para prevenir e combater o assédio moral de forma a tornar o ambiente de trabalho mais positivo. Pensando nisso o ATO CONJUNTO TST.CSJT.GP No 8, DE 21 DE MARÇO DE 2019 Institui a Política de Prevenção e Combate ao Assédio Moral no Tribunal Superior do Trabalho e no Conselho Superior da Justiça do Trabalho.

O assédio moral no trabalho se caracteriza como toda e qualquer forma de conduta abusiva, que se manifesta por meio de comportamentos, palavras, atos, gestos ou escritos que possam trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física e psíquica de uma pessoa, colocando em perigo o seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho.

Sendo assim, trata-se de uma violência psicológica, decorrente de uma conduta abusiva que ocorre de maneira reiterada com finalidade de prejudicar emocionalmente a vítima.

Exemplos de assédio moral no trabalho:

Sobrecarga desproporcional de trabalho, passar tarefas humilhantes, gritar ou se dirigir ao empregado de forma desrespeitosa, impor punições vexatórias, vigilância excessiva, brincadeiras ofensivas e constrangedoras, ameaças de punição ou demissão, retirar instrumentos de trabalho, dentre outros.

O que fazer caso sofra assédio moral no trabalho?

Caso o empregado esteja sofrendo alguns dos exemplos citados por parte de seu superior hierárquico ou outros colegas de trabalho, aconselha-se reunir provas dos assédios, tais como filmagens, conversas por meio de aplicativos de mensagem, gravações, áudios, testemunhas, etc., e buscar ajuda, comunicando a situação ao setor responsável da empresa ou à Ouvidoria do Tribunal Superior do Trabalho.

Ainda, é possível ingressar com uma ação judicial pleiteando reparação de danos morais em decorrência do dano extrapatrimonial sofrido.

Quais as consequências do assédio para o trabalhador?

Conforme dados do VAGAS.com, 39% dos colaboradores, que sofreram assédio, dizem que essa situação causou posteriormente problemas para que eles se desenvolvessem profissionalmente.

Muito mais do que impactar o desenvolvimento deste trabalhador, o assédio pode trazer várias outras consequências para a vítima, veja algumas delas a seguir; Depressão, pânico, baixa autoestima, ansiedade, apatia e distúrbios psicossomáticos

Como a organização deve agir após o recebimento da denúncia de assédio?

Ao receber uma denúncia de assédio a primeira atitude que a empresa deve ter é não ignorar a situação e abrir um processo de investigação, ouvindo as partes envolvidas. É importante ter prazos para concluir o processo e deixar todos a par do status dele.

Consultar o setor jurídico sobre a situação também é importante para saber quais passos, dentro da lei, a empresa deve dar diante do ocorrido. Outra ação importante é oferecer ao colaborador que sofreu o assédio segurança psicológica, agindo de forma acolhedora.

Por último, após levantar todas as provas, a empresa deve punir e advertir o assediador. Nesse caso, as punições podem variar de caso para caso, desde uma advertência verbal, a suspensão do colaborador ou rescisão do contrato de trabalho, dependendo da gravidade.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC) revelou que mais da metade dos empregados no país dizem que praticam ou toleram o assédio moral no trabalho. Para mudar esse cenário a empresa, com seus líderes, gestores e o próprio setor de RH devem desenvolver ações que evitem que esses casos ocorram ou se repitam, caso já tenha acontecido. Alguns pontos podem servir de prevenção neste sentido e dar suporte para que a empresa tenha como acabar com o assédio moral no trabalho:

Promover palestras sobre o tema assédio;

Desenvolver um código de ética interno que contenha regras para evitar o assédio;

Criar canais de comunicação para que o colaborador saiba como denunciar assédio moral no trabalho e se sinta à vontade para relatar algum caso de assédio;

Capacitar os gestores, por meio de formações e treinamentos, sobre gestão de conflitos;

Acompanhar de perto o clima organizacional da empresa.

Oferecer aos colaboradores que sofreram assédio moral suporte psicológico;

Punir exemplarmente os assediadores, que podem ir de advertência, suspensão a demissão

Conclusão

O assédio moral, como já foi dito neste artigo, é uma situação recorrente na rotina empresarial, trazendo danos incomensuráveis para a organização e para a vítima.

Até por isso, a cada dia se torna mais essencial desenvolver ações para evitar que esse problema seja recorrente e ganhe grandes proporções na empresa.

Isso significa abordar com frequência o assunto por meio de palestras e treinamentos, além de deixar sempre um canal aberto e sigiloso para denúncias, encorajando os colaboradores a comunicar os responsáveis ao serem expostos a algum caso de assédio.

Além disso, a empresa deve sempre investigar uma acusação de assédio, moral ou sexual, e ir a fundo para punir os assediadores, dando exemplo que esse tipo de conduta não faz parte da política da empresa.

Felipe Mousinho Cavalcante
Advogado Trabalhista e Previdenciário, Pós-graduado em Docência – UCAM, especialista em Processo Cível – UNESA, Direito do Trabalho e Processo do Trabalho – UNIBAGOZZI.

Migalhas: https://www.migalhas.com.br/depeso/386971/assedio-moral-no-ambiente-de-trabalho

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

Descumprir NR-20 não basta para garantir adicional de periculosidade

Trabalhista

6ª turma do TRT-2 considerou o descumprimento da NR-20 infração administrativa.

Da Redação

6ª turma do TRT da 2ª região reformou sentença para excluir a condenação em adicional de periculosidade. Para o colegiado, a NR-20 não regulamenta o adicional de periculosidade, mas “estabelece requisitos mínimos para a gestão da segurança e saúde no trabalho contra os fatores de risco de acidentes provenientes das atividades de extração, produção, armazenamento, transferência, manuseio e manipulação de inflamáveis e líquidos combustíveis”.

“O descumprimento das condições impostas na NR-20 possui caráter de infração administrativa, não caracterizando o direito à percepção do adicional requerido pela autora”, registrou o voto da desembargadora Beatriz Helena Miguel Jiacomini. O voto justifica que “a referida norma não envolve a classificação de atividades e operações consideradas perigosas, que são previstas na NR-16”.

Para a turma, “o fato de não ter sido comprovada, documentalmente, a impossibilidade de enterramento do tanque não gera a periculosidade nem se pode concluir que o tanque estivesse irregularmente instalado”. Isso porque “trata-se de requisito administrativo”.

Com esses fundamentos, a 6ª turma excluiu o pagamento do adicional de periculosidade concedido pela 1ª instância.

Os advogados Felipe Monnerat, Maurício del Castillo e Jheniffer Tourinho, do escritório Barroso Fontelles, Barcellos, Mendonça & Associados, atuam na defesa da empresa.

Processo: 1001006-31.2019.5.02.0017

Migalhas: https://www.migalhas.com.br/quentes/386958/descumprir-nr-20-nao-basta-para-garantir-adicional-de-periculosidade

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

“Revisão da vida toda” em xeque? Implicações dos embargos opostos pelo INSS

OPINIÃO

Por Rodolfo Assis e Humberto Santarosa de Oliveira

 

A “revisão da vida toda” é uma tese previdenciária que ganhou ampla publicidade e divulgação em razão do potencial incremento na renda dos pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O possível rendimento vem tendo ampla repercussão, notadamente nas plataformas digitais, com o oferecimento de serviços que vão desde funcionalidades para a efetivação dos cálculos por parte dos advogados até a própria oferta de serviços advocatícios e/ou prospecção de clientes.

 

Em síntese, o que diz a tese é que os segurados da Previdência que contribuíram antes de julho de 1994 têm direito de incluir tais contribuições no cálculo da sua aposentadoria. O novo entendimento contraria a interpretação que o INSS deu a uma disposição legislativa de 1999 que impediu que os segurados contabilizassem contribuições pretéritas a 1994, ou seja, permitia o cômputo para o cálculo apenas das contribuições efetivadas após julho do referido ano.

 

Inicialmente rechaçada em primeira instância, a tese chegou ao Superior Tribunal de Justiça e foi acolhida no julgamento do Tema Repetitivo nº 999 [1], pela 1ª Seção do STJ, oriundo do Recurso Especial (REsp) nº 1.596.203/PR [2]. Com o provimento do recurso especial, o INSS apresentou recurso extraordinário (RE) ao Supremo Tribunal Federal (STF), o RE nº 1.276.977 [3], que foi admitido sob o Tema nº 1.102 [4]. O recurso foi julgado com uma votação apertada de 6 a 5 a favor da tese, e dos segurados, no dia 1º de dezembro de 2022, com o acórdão publicado em 13 de abril de 2023. No final da noite do dia 5 de maio de 2023, o INSS opôs embargos de declaração.

 

Em razão da oposição dos embargos de declaração, com potenciais efeitos modificadores do conteúdo da decisão, pode-se dizer que a questão não está completamente decidida.

 

Dentre os vários pontos levantados pelo INSS em seu recurso, um ponto sensível é o eventual desrespeito à cláusula de reserva de plenário por parte da 1ª Seção do STJ. Segundo o INSS, o argumento da afronta ao artigo 97, da CRFB/88 pelo acórdão recorrido não foi efetivamente decidido pelo STF, tendo em vista que 5 ministros entenderam que o STJ não violou a cláusula de reserva de plenário, ao passo que outros 5 ministros entenderam que houve violação à exigência. No argumento do INSS, o agora aposentado ministro Ricardo Lewandowski não teria se posicionado sobre a questão [5], o que imporia a sua efetiva deliberação pela Corte Suprema, em razão do empate verificado no julgamento da questão.

Realizado o breve histórico do caso da “revisão da vida toda”, informa-se que a análise aqui se restringirá à efetiva existência de vício no julgado, ou seja, se o voto do ministro Ricardo Lewandowski realmente seria omisso (ou não) e, caso positivo, qual a sua consequência, ou seja, se deveria ser aguardada a nomeação do novo ministro para o julgamento “complementar” (para integrar o acórdão) ou, caso impossível essa “substituição de julgador”, qual a implicação desse empate na votação.

 

Deve- se atentar que se o argumento da omissão quanto ao desrespeito da cláusula de reserva de plenário for acolhido, há risco de a decisão ser anulada, colocando em xeque as pretensões dos segurados, pelo menos até que o STJ decida novamente sobre o ponto, desta feita por meio de sua Corte Especial.

 

A cláusula de reserva de plenário no voto do ministro Ricardo Lewandowski: possibilidades e perplexidade

O voto do ministro Ricardo Lewandowski é curto, com apenas duas páginas, e nele há menção ao Tema nº 334 da jurisprudência do STF, decorrente do RE nº 630.501, em que ficou estabelecido o seguinte enunciado: “Para o cálculo da renda mensal inicial, cumpre observar o quadro mais favorável ao beneficiário, pouco importando o decesso remuneratório ocorrido em data posterior ao implemento das condições legais para a aposentadoria”. Segundo o ministro, o recurso do INSS deveria ser improvido, uma vez que o STF já teria se posicionado sobre o assunto no referido Tema e que direitos previdenciários são direitos fundamentais, não podendo existir retrocesso social.

 

De forma bem objetiva, o voto do ministro não trata expressamente da impugnação do acórdão da 1ª Seção do STJ pela suposta falta de respeito da cláusula de reserva de plenário. Daí a pergunta: quais as consequências dessa omissão?

 

Antes de responder, é importante contextualizar referida exigência constitucional. A cláusula de reserva de plenário tem previsão no artigo 97 da Constituição, e dispõe que um ato normativo só poderá ser considerado inconstitucional pelos tribunais se a decisão for proferida por seu plenário ou órgão especial.

 

A cláusula é controversa enquanto exigência, havendo inclusive posicionamentos no sentido de que ela deveria ser extinta [6]. Entretanto, o instituto tem sido exigido, mesmo que casuisticamente, pelo STF. Em 2019, por exemplo, a Corte Suprema considerou nula decisão de órgão fracionário do Tribunal Superior do Trabalho que negou a aplicação do inciso II do artigo 94 da Lei nº 9.472 [7], por violação ao artigo 97, da CRFB/88 e à Súmula Vinculante nº 10, quando, por maioria, deu provimento ao recurso extraordinário e fixou a seguinte tese: “É nula a decisão de órgão fracionário que se recusa a aplicar o artigo 94, II, da Lei 9.472/1997, sem observar a cláusula de reserva de Plenário (CF, art. 97)”.

 

Existem algumas direções interpretativas quanto à referida exigência, tais como: incide quando se nega a constitucionalidade do dispositivo, mesmo que de forma indireta (Súmula Vinculante nº 10); não incide no caso de afastar aplicação guiada em precedente (artigo 948 CPC) ou porque o caso não se subsume à norma ou porque a norma pode ser interpretada de outra maneira, sem ofensa à Constituição [8]. Todavia, são questões profundas que não cabem neste ensaio[9].

 

O que interessa aqui, e tendo em vista este breve panorama sobre a cláusula de reserva de plenário, é responder à questão: quais as consequências do argumento do INSS, ante a efetiva inexistência de tratamento expresso no voto do ministro Ricardo Lewandowski sobre a violação do artigo 97, da CF?

 

Possibilidade 1: A despeito da omissão em abordar o assunto de forma expressa, o ministro teria sim enfrentado o argumento da cláusula de reserva de plenário e do mérito do recurso com um único fundamento: de que há precedente do STF determinando que o cálculo da renda inicial deve ser feito no quadro mais favorável ao beneficiário, nos termos do Tema nº 334.

 

Logo, no caso em concreto, “entre a norma de transição e a definitiva, deve prevalecer aquela que revele um critério mais benéfico ao segurado contribuinte”. Nessa situação, não haveria que se falar em violação à cláusula de reserva de plenário porque o CPC/15 (parágrafo único do artigo 949), na mesma linha do CPC anterior (parágrafo único do artigo 481), dispensou a necessidade de instauração de incidente de inconstitucionalidade quando já houvesse precedente do STF sobre a questão. Ou seja, nesse caso, quando o STJ realizou a interpretação do caso de modo favorável ao segurado, ele seguiu o enunciado do Tema nº 334 (precedente judicial) e, portanto, não seria necessário remeter a decisão da questão ao órgão especial para análise de sua constitucionalidade.

 

Mas além do enunciado do Tema nº 334 ser fundamento para se afastar a exigência da cláusula de reserva de plenário, ele seria o fundamento jurídico do próprio direito constitucional invocado, qual seja, de que o segurado tem direito ao melhor benefício segundo as leis vigentes. Parece ser nesse sentido a manifestação do Instituto de Estudos Previdenciários (Ieprev), que na condição de amicus curiae defende que a aplicação da regra do melhor benefício seria apenas uma questão de interpretação da legislação infraconstitucional e, portanto, não exigiria o respeito à cláusula de reserva de plenário.

 

Possibilidade 2: Há efetiva omissão, porque o ministro não tratou do ponto expressamente. Essa possibilidade, além de ser contrária à primazia da decisão de mérito (artigo 4º do CPC), faz uma interpretação literal da decisão, sem considerar o seu contexto, os elementos do caso e a relação do voto do ministro Ricardo Lewandowski com os outros votos proferidos (uma exigência do artigo 489 § 3º do CPC).

 

Ademais, considerando que haveria omissão na decisão do ministro, outros detalhes emergem e geram perplexidade inclusive para diferentes casos, não somente o da “revisão da vida toda”. É o que se verifica, por exemplo, com a questão recentemente decidida pelo Plano do STF, em sessão do dia 9 de junho de 2022, quando modificou-se o entendimento para assentar em questão de ordem a “validade de voto proferido por ministro posteriormente aposentado, ou outro motivo de cessação do exercício do cargo, mesmo em caso de destaque” [10]. Como se verifica, o objetivo da regra era preservar o voto já proferido, impedindo que o substituto do ministro que não mais integra na corte possa proferir novo voto “no lugar” daquele entendimento externado, por exemplo. Neste sentido, e tendo em vista a recente aposentadoria do ministro Lewandowski, qual a solução para o ponto?

 

Ao se permitir que o seu substituto profira voto nos embargos de declaração (que é um recurso eminentemente integrador da decisão anterior, a despeito dos efeitos modificativos expressos na lei processual) pode significar uma “burla” ao novo entendimento firmado pelo STF, pois na hipótese de o novel ministro proferir voto sufragando a tese de que o acórdão da 1ª Seção do STJ violou a cláusula de reserva de plenário, ele poderia “substituir” o voto de mérito proferido pelo ministro Lewandowski — afinal, com a eventual violação, o processo teria que retornar ao STJ para seu julgamento pela Corte Especial, para eventualmente retornar ao STF.

 

Não nos parece que essa seja a melhor forma de resolver o problema, ainda mais quando se tem em mente que a primazia do julgamento de mérito é igualmente norma fundamental do processo, que permite suplantar questões preliminares quando o problema estaria apto a ser resolvido em seu mérito pelo STF — como de fato fez o ministro Ricardo Lewandowski.

 

Conclusão

A “revisão da vida toda” continuará sendo objeto de debate enquanto os embargos de declaração não forem julgados: é que além da discussão da tese material, ou seja, se os segurados têm direito ou não à revisão do benefício, há pelo menos duas relevantes questões envolvidas e que serão alvo de julgamento pela Corte Suprema.

 

Em primeiro lugar, se houve ou não violação da cláusula de reserva de plenário pelo STJ, situação esta que, a depender do seu resultado, pode anular o acórdão alvo do recurso extraordinário — com o consequente reinício do julgamento do caso.

 

Em segundo lugar, se o ministro que assumir a cadeira do ministro Lewandowski poderá ou não votar nos embargos de declaração opostos pelo INSS, o que importará em possível substituição do próprio voto de mérito já proferido, com a eventual reversão do entendimento a favor dos beneficiários, o que contrariaria a recente posição da corte de que os votos dos ministros aposentados não poderiam ser substituídos pelos substitutos da cadeira.

 

Além dessas questões, brevemente apontadas acima, há também outras controvérsias que serão debatidas, como aquela envolvendo a modulação de efeitos: como o caso trata de uma tese referente a uma legislação previdenciária aprovada e em vigor desde 1999, não há muitas dúvidas sobre a pressão que existirá para que o acórdão tenha seu efeito ex tunc afastado.


[1] SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Tema Repetitivo nº 999. 2019. Disponível em: https://processo.stj.jus.br/repetitivos/temas_repetitivos/pesquisa.jsp?novaConsulta=true&tipo_pesquisa=T&cod_tema_inicial=999&cod_tema_final=999. Acesso em: 08 mai. 2023.

[2] SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Recurso Especial nº 1596203. 2019. Disponível em: https://processo.stj.jus.br/processo/pesquisa/?tipoPesquisa=tipoPesquisaNumeroRegistro&termo=201600927839. Acesso em 08 mai. 2023.

[3] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Recurso Extraordinário nº 1276977. 2022. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=5945131. Acesso em: 08 mai. 2023.

[4] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Tema 1.102. 2022. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso.asp?incidente=5945131&numeroProcesso=1276977&classeProcesso=RE&numeroTema=1102. Acesso em: 08 mai. 2023.

[5]

[6] LEITE, Fábio Carvalho. Pelo fim da Cláusula de Reserva de Plenário. In: Direito, Estado e Sociedade, p. 91-131, 2014. Disponível em: https://revistades.jur.puc-rio.br/index.php/revistades/article/view/167/150. Acesso em 28 abr. 2023.

[7] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Recurso Extraordinário Com Agravo nº 791.932. 2019. Relator: min. Alexandre de Moraes. Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=749288586. Acesso em: 28 abr. 2023.

[8] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Agravo Regimental na Reclamação 24.284. 2016. Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=12872373. Acesso em: 15 mai. 2023.

[9] A diferença entre recusar a aplicação de lei ou interpretá-la de modo a não ser incompatível com a constituição é problemática especialmente em relação à cláusula de reserva de plenário, conforme se pode ver em: ASSIS, Rodolfo. Interpretação conforme a constituição e decisões manipulativas. Rio de Janeiro: Gramma, 2019, pág. 161 e ss.

[10] SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Questão de Ordem na Ação Declaratória de Inconstitucionalidade nº 5.399. 2022. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15355190128&ext=.pdf. Acesso em: 15 mai. 2023.


 é mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional (PUC-Rio), pós-graduado em Direito Tributário, membro do Grupo de Pesquisa sobre Liberdade de Expressão no Brasil (Pleb-PUC-Rio), advogado e professor universitário.

 é mestre e doutor em Direito Processual pela Uerj, pós-graduado em Direito Processual pela UFJF e em Direito Processual Civil pela Universidade Anhanguera-Uniderp, membro do IBDP e da Comissão de Processo da OAB-RJ (triênios 2019-2022 e 2022-2024), advogado e professor universitário.

Revista Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2023-mai-23/assis-oliveira-revisao-vida-toda-colocada-xeque

Contratante de transportadora é responsabilizada por queda de motorista do caminhão

STJ decide se sentença e anotações na CTPS são provas para registro de serviço

VALE OU NÃO VALE?

A 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça afetou os Recursos Especiais 2.056.866 e 1.938.265, de relatoria do ministro Benedito Gonçalves, para julgamento sob o rito dos repetitivos.

A questão representativa da controvérsia, cadastrada como Tema 1.188 na base de dados do STJ, é “definir se a sentença trabalhista, assim como a anotação na CTPS e demais documentos dela decorrentes, constitui início de prova material para fins de reconhecimento de tempo de serviço”.

 

O colegiado determinou a suspensão da tramitação de todos os processos que versem sobre a mesma matéria e tramitem no território nacional, nos termos do artigo 1.037, inciso II, do Código de Processo Civil (CPC).

 

Segundo o relator, o tema discutido é apresentado reiteradamente no STJ e representa questão de relevância do ponto de vista do direito processual administrativo. Benedito Gonçalves destacou pesquisa feita pela Comissão Gestora de Precedentes e Ações Coletivas do STJ, mapeando 126 acórdãos e 3.942 decisões monocráticas sobre o assunto.

 

Repetitivos geram economia e segurança jurídica

O Código de Processo Civil de 2015 regula, no artigo 1.036 e seguintes, o julgamento por amostragem, mediante a seleção de recursos especiais que tenham controvérsias idênticas.

 

Ao afetar um processo, ou seja, encaminhá-lo para julgamento sob o rito dos repetitivos, os ministros facilitam a solução de demandas que se repetem nos tribunais brasileiros.

 

A possibilidade de aplicar o mesmo entendimento jurídico a diversos processos gera economia de tempo e segurança jurídica.

 

No site do STJ, é possível acessar todos os temas afetados, bem como conhecer a abrangência das decisões de sobrestamento e as teses jurídicas firmadas nos julgamentos, entre outras informações. Com informações da assessoria de comunicação do STJ.

 

REsp 2056866
REsp 1938265


Revista Consultor Jurídico

https://www.conjur.com.br/2023-mai-23/stj-decide-sentenca-trabalhista-prova-registro-servico