Sociólogo do trabalho, Ruy Braga analisa a reconfiguração do trabalho precário e a opressão racial no Brasil em videoconferência ministrada hoje, às 17h30min. Evento é promovido pelo IHU
A desconfiança em relação às instituições democráticas e o esgotamento social estão sendo explorados politicamente. À direita, posturas políticas autoritárias são apresentadas como alternativa para os problemas socioambientais da nossa era. À esquerda, a falta de projetos transformadores, que apontem para um futuro diferente, chama a atenção. A superação da crise da democracia depende, segundo Ruy Braga, “da democratização das condições de vida e de trabalho”. Essa foi a tese defendida pelo sociólogo em recente entrevista publicada no site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Não há cidadania ativa onde predominam a insegurança social, a precarização do trabalho e a corrosão dos vínculos de solidariedade coletiva”, adverte.
Na tarde de hoje, Ruy Braga participa do ciclo de estudos IHU ideias, promovido pelo IHU todas as quintas-feiras. Na videoconferência, o pesquisador abordará a relação entre a reconfiguração do trabalho precário e a opressão racial no Brasil. O evento será transmitido ao vivo às 17h30min na página do IHU, nas redes sociais e no YouTube. A atividade é gratuita
Nas duas últimas décadas, o sociólogo do trabalho tem estudado a formação do precariado global. O termo refere-se aos trabalhadores que vivem em condições de insegurança econômica, com poucos direitos e garantias sociais. Segundo ele, a formação do precariado no atual estágio do capitalismo está intimamente ligada aos processos de racialização por meio dos quais as pessoas são tratadas com base em características como a cor da pele, origem, aparência, cultura ou nacionalidade. “Desde minhas pesquisas etnográficas sobre a indústria paulistana de call centers, tornou-se cada vez mais evidente para mim que esse fenômeno não pode ser adequadamente compreendido sem incorporar a questão racial como uma dimensão constitutiva da precarização contemporânea. A formação do precariado global é inseparável dos processos históricos de racialização do trabalho”, afirma.
Da hegemonia do lulismo à crise do petismo e ascensão da extrema-direita
Ruy Braga é um dos teóricos que acompanhou o desenvolvimento do lulismo no país e as consequências das políticas dos governos Lula e Dilma no mundo do trabalho. De acordo com ele, “a hegemonia lulista foi construída a partir de uma combinação singular entre crescimento econômico, ampliação do consumo popular, relativa eficácia das políticas públicas redistributivas e incorporação institucional dos movimentos sociais”. O modelo, explica, funcionou durante um período de expansão econômica na primeira metade dos anos 2000.
À época, economistas questionavam e divergiam acerca da sustentabilidade do crescimento econômico a longo prazo e criticavam um modelo econômico sustentado no estímulo ao consumo e no endividamento das famílias. Quando o modelo começou a apresentar sinais de insustentabilidade, os teóricos do lulismo justificaram a situação na crise financeira de 2008, que teria influenciado a recessão econômica acentuada no país entre 2015 e 2016.
A conjuntura econômica, política e social daquele período, explica Braga, atingiu em cheio os trabalhadores precarizados. “Uma parcela expressiva dos trabalhadores precarizados experimentou a mobilidade social dos anos 2000 de maneira instável, parcial e reversível. A partir de meados da década de 2010, muitos desses trabalhadores foram rapidamente devolvidos à insegurança social e laboral, em um contexto agravado pelas escolhas econômicas desastrosas adotadas durante o segundo governo Dilma Rousseff que, sem dúvidas, aprofundaram no país as contradições abertas pela crise da globalização neoliberal”, contextualiza.
A extrema-direita compreendeu algo que parte da esquerda demorou a perceber: a precarização do trabalho e das condições de reprodução da vida produz não apenas carências materiais, mas também uma profunda insegurança existencial, que não pode ser compensada apenas pela ampliação do consumo – Ruy Braga
”Nesse contexto, uma nova direita estava sendo gestada, mas foi o bolsonarismo quem “soube capturar politicamente esse mal-estar social associado, evidentemente, ao segundo governo de Dilma Rousseff, mas também a um mercado de trabalho que oferece péssimos empregos formais para a imensa maioria dos trabalhadores”, acrescenta o sociólogo. O bolsonarismo, avalia, “não apenas logrou projetar uma imagem de maior assertividade em temas relacionados à segurança pública, grosseiramente associado à proteção social desejada pelas famílias trabalhadoras, como soube fornecer pertencimento moral, reconhecimento simbólico e uma poderosa narrativa de guerra simbólica a uma parte substantiva desses grupos de trabalhadores que foram sendo abandonados durante a crise dos anos 2010”.
Desde então, o país se polarizou. Bandeiras à direita e à esquerda passaram a ser levantadas, enquanto um projeto de país comum e compartilhado diante dos desafios do futuro continua à margem. Nesse contexto, pontua o sociólogo, “a extrema-direita compreendeu algo que parte da esquerda demorou a perceber: a precarização do trabalho e das condições de reprodução da vida produz não apenas carências materiais, mas também uma profunda insegurança existencial, que não pode ser compensada apenas pela ampliação do consumo”.
Discussão crítica
Este debate será retomando no fim da tarde de hoje, na videoconferência “Reconfiguração do trabalho precário e a opressão racial no Brasil” e na reflexão com os internautas que participarem do evento.
Ruy Braga já concedeu várias entrevistas ao IHU, nas quais refletiu sobre as transformações do mercado de trabalho nacional e internacional à luz das crises sociais, políticas e econômicas em curso no primeiro quarto do século XXI e das transformações tecnológicas que estão remodelando as formas e relações de trabalho.
Como subsídio à participação do evento, sugerimos a leitura dos seguintes textos:
- Do porão do navio negreiro ao painel do aplicativo. Entrevista com Ruy Braga
- A “nova informalização” e a perversidade da plataformização do trabalho. Entrevista especial com Ruy Braga
- A política do precariado no mundo do trabalho. Entrevista especial com Ruy Braga
- O desmantelamento do estado de bem estar social é o DNA do capitalismo. Entrevista especial com Ruy Braga
- A política do precariado e a mercantilização do trabalho. Entrevista especial com Ruy Braga
- Covid-19 e avanço tecnológico. Nasce um outro mundo do trabalho. Entrevistas especiais com Ruy Braga Neto e Rafael Grohmann
- “O golpe trabalhista”. Não há relação de causa e efeito entre reforma trabalhista e crescimento econômico. Entrevista especial com Ruy Braga
- Uma saída progressista exige uma nova aliança entre o trabalho organizado e o precariado urbano. Entrevista especial com Ruy Braga
- A condição de insegurança é a regra do mundo do trabalho, hoje
- A insatisfação política repercutiu nas urnas e o segundo turno será disputado voto a voto. Entrevista especial com Ruy Braga
Outras entrevistas e artigos sobre a temática do evento estão disponíveis no site do IHU.
Sobre o palestrante
Ruy Braga é especialista em Sociologia do Trabalho e leciona no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), onde coordena o Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic). É doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de A política do precariado (Boitempo, 2012) e A rebeldia do precariado (Boitempo, 2017).
Fonte: IHU
https://www.ihu.unisinos.br/669569-o-trabalhador-precarizado-no-brasil-tem-cor-origem-e-aparencia
