NOVA CENTRAL SINDICAL
DE TRABALHADORES
DO ESTADO DO PARANÁ

UNICIDADE
DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

No início da década de 1930, o Brasil vivia dias turbulentos. A Velha República, vigente desde 1889, mantinha o poder concentrado nas mãos das oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais. O povo, especialmente os trabalhadores e trabalhadoras, estava distante das decisões políticas. Greves eram reprimidas, lideranças sindicais perseguidas, e a pobreza se confundia com destino.

A Revolução de 1930 rompeu, ao menos em parte, com esse sistema fechado. Getúlio Vargas assumiu o poder e, pressionado por forças populares e por uma nova correlação de forças políticas, convocou a elaboração de uma nova Constituição. Foi nesse cenário que, pela primeira vez na história brasileira, os trabalhadores elegeram representantes diretos para a Assembleia Nacional Constituinte.

Entre eles estava Waldemar Reikdal, comunista, curitibano, metalúrgico, sindicalista e orador apaixonado. Sua trajetória começou na Liga dos Fundidores do Paraná, entidade que mais tarde se transformaria no Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba. Reikdal não chegou à política por convite das elites, mas pela confiança de operários que viam nele alguém capaz de levar as reivindicações do chão de fábrica ao mais alto espaço legislativo do país.

Além de dirigente sindical, Waldemar Reikdal foi militante histórico, dirigente e o primeiro presidente estadual do Partido Comunista do Brasil no Paraná, assumindo essa responsabilidade já em 1930, no momento mais duro da repressão política no país. Ser comunista, naquele período, significava viver sob vigilância constante, enfrentar perseguições sistemáticas, prisões arbitrárias, isolamento social e risco permanente à própria vida.

Reikdal não ocupou esse lugar por formalidade ou circunstância. Sua liderança foi forjada na confiança do movimento operário e na coerência política. Quando o Partido pôde ser novamente legalizado em 1945, Waldemar integrava a direção estadual, atuando na Secretaria de Agitação e Massas, função estratégica responsável por articular base social, mobilização popular, comunicação política e formação militante. Era ali, no contato direto com o povo trabalhador, que sua liderança se expressava com mais força.

Sua atuação política sempre combinou a luta institucional, no Parlamento e nos espaços formais do Estado, com o compromisso orgânico com o movimento operário, recusando acordos de conveniência, concessões oportunistas ou qualquer forma de acomodação ao poder econômico e às elites políticas.

Esse conjunto de escolhas explica não apenas sua projeção como liderança comunista no Paraná, mas também o preço alto que pagou por não se deixar domesticar: perseguições políticas, tentativas de isolamento e o esforço permanente do Estado e das elites para silenciar uma voz que não se vendia. Ainda assim, Waldemar Reikdal permaneceu fiel ao que acreditava e é justamente essa fidelidade que o consagra como camarada, dirigente e referência histórica das lutas populares no Brasil.

Reikdal compreendia que a luta pelos direitos trabalhistas não podia ser dissociada da crítica ao poder econômico que capturava o Estado, favorecia monopólios e oligopólios, e cooptava políticos com promessas, privilégios e corrupção sistemática. Seus discursos denunciavam não apenas a repressão policial e as falhas das leis sociais, mas também como setores dominantes, aliados a grandes interesses industriais e agrícolas que dominavam o país, pressionavam o Congresso para impedir reformas profundas e proteger seus privilégios. Essa posição ferreamente independente tornou-o uma pedra no sapato das elites políticas e econômicas e constituiu um dos motivos centrais das perseguições que sofreu ao longo da década de 1930.

Décadas depois, essa trajetória foi reconhecida publicamente em uma homenagem in memoriam realizada pelo Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Grande Curitiba, não como gesto protocolar, mas como ato de memória, respeito histórico e inspiração para novas lutas. A homenagem foi recebida por seu único filho vivo, Waldemar Reikdal Filho, então com 100 anos, em um momento carregado de emoção e significado político.

Ao recordar as prisões, as perseguições e o isolamento imposto ao pai como forma de mantê-lo vivo, inclusive pela sua recusa em “ser vendido” a interesses econômicos que queriam domesticar sua voz, sua fala silenciou o público e marcou profundamente os presentes:

“Vocês não sabem o que a dignidade do meu pai custou à nossa família… mas valeu a pena.”

A Constituinte de 1934: trabalho, dignidade e conflito

Na Assembleia, Waldemar Reikdal teve uma atuação parlamentar intensa, combativa e coerente com sua origem de classe. Foi um dos principais nomes da chamada minoria proletária, grupo que se colocou em oposição tanto às oligarquias tradicionais quanto às tentativas do governo Vargas de controlar o movimento operário por meio de leis sociais incompletas e repressão policial.

Seus principais eixos de atuação foram claros e reiterados em discursos e intervenções:

Defesa intransigente dos direitos trabalhistas, como o salário mínimo, a redução da jornada de trabalho, o repouso semanal e as férias remuneradas;
Combate à discriminação salarial, denunciando diferenças de remuneração por gênero, idade, nacionalidade ou estado civil;
Proteção à infância trabalhadora, defendendo a proibição do trabalho para menores de 14 anos;
Previdência Social, afirmando a aposentadoria como direito e não como favor;
Indenização por demissão sem justa causa, reconhecendo a vulnerabilidade do trabalhador diante do poder patronal;
Direito de greve, entendido não como concessão do Estado, mas como instrumento histórico de resistência do proletariado.
Essas posições estavam longe de ser consensuais. Pelo contrário: a Assembleia Constituinte de 1933-1934 foi atravessada por embates duros e violentos, nos quais Waldemar Reikdal se destacou como uma das vozes mais firmes contra a repressão estatal ao movimento operário.

O episódio mais emblemático foi a Chacina da Praça Tiradentes, ocorrida em 23 de agosto de 1934, no Rio de Janeiro. Naquele dia, trabalhadores e trabalhadoras de diversos sindicatos haviam participado de um congresso operário no Teatro João Caetano. Ao deixarem o local, decidiram estender o protesto às ruas, entoando palavras de ordem contra a guerra, o fascismo e o integralismo, expressões do clima internacional e nacional de avanço autoritário que já ameaçava direitos e liberdades.

A resposta do Estado foi brutal. A polícia cercou os manifestantes de forma traiçoeira e abriu repressão violenta contra um grupo desarmado, que se dispersava e retornava às suas casas. O saldo foi de trabalhadores e trabalhadoras mortas e dezenas de feridos, num episódio que o governo tentou minimizar como “conflito”, mas que a bancada proletária denunciou como massacre.

Na tribuna da Constituinte, Reikdal não aceitou a narrativa oficial. Chamou os mortos de mártires da violência policial, denunciou a ação como uma chacina praticada peloEstado e acusou a Câmara de ser estruturalmente indiferente aos interesses da classe trabalhadora. Em um de seus discursos mais contundentes, afirmou que aquela Casa fora organizada para proteger as instituições burguesas e não para garantir a vida, a dignidade e os direitos do proletariado.

Ao fazer isso, Reikdal rompeu com o pacto de silêncio que tentava naturalizar a repressão. Sua fala expôs uma verdade incômoda: enquanto se discutiam direitos sociais no papel, o Estado seguia tratando a organização dos trabalhadores como caso de polícia. A chacina da Praça Tiradentes tornou-se, assim, símbolo do limite daquela Constituinte e da coragem de quem ousou dizer isso em voz alta, diante do poder. Contra a repressão e o controle dos trabalhadores

Waldemar Reikdal também se destacou como um dos mais duros críticos do Ministério do Trabalho do governo Vargas. Para ele, o órgão não cumpria as leis sociais que anunciava e funcionava, na prática, como instrumento de contenção e disciplinamento do movimento sindical. Em discursos históricos, afirmou que os trabalhadores que confiaram cegamente nas leis sociais foram “amargamente prejudicados”, abandonados à própria sorte diante da violência patronal e policial.

Sua posição sobre o direito de greve sintetiza sua visão política. Quando a Constituição de 1934 suprimiu esse direito do texto final, Reikdal fez um pronunciamento que atravessou o tempo:

“Vocês acham que nós vamos parar de lutar porque esse direito não está escrito na Constituição? Não se enganem. Nós vamos continuar lutando, independente da lei.”

Ali estava sua compreensão profunda da política: a lei pode reconhecer direitos, mas não os cria sozinha. Eles nascem da luta.

Perseguição, coerência e legado

Essa atuação parlamentar teve custos altos. Reikdal foi preso diversas vezes, sofreu perseguição política e recusou propostas para abandonar sua militância. A repressão e o isolamento político impediram sua reeleição, num contexto em que o governo buscava afastar da Câmara representantes genuínos do movimento operário.

Ainda assim, sua passagem pela Constituinte deixou marcas duradouras. Muitas das conquistas consolidadas em 1934 serviram de base para a legislação trabalhista posterior e moldaram o imaginário de direitos no Brasil urbano-industrial.

Lições para a cidadania e para o presente

A trajetória de Waldemar Reikdal ensina que:

A democracia se fortalece quando o povo trabalhador ocupa os espaços de decisão;
Direitos sociais não são dádivas do Estado, mas conquistas arrancadas pela organização coletiva;
É possível exercer a política com integridade, mesmo sob pressão, perseguição e ameaça;
A representação de classe transforma o Parlamento de espaço de privilégio em arena de disputa por justiça social.
Lembrar de Waldemar Reikdal não é apenas recordar um deputado. É lembrar que, quando a voz do chão de fábrica entra na Constituição, ela não pede licença, ela escreve história.

VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/02/02/quando-a-voz-comunista-do-chao-de-fabrica-ecoa-na-constituicao/