NOVA CENTRAL SINDICAL
DE TRABALHADORES
DO ESTADO DO PARANÁ

UNICIDADE
DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

“É impensável falar que a Uber pode sair do Brasil, igual foi aventado”, diz o ministro do Trabalho

por André Cintra

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, diz que a regulação de serviços por aplicativos como o Uber é fundamental não apenas para garantir “proteção para uma empresa em relação à outra” e evitar a “concorrência desleal”. Segundo Marinho, é também uma forma de combater a “uberização” do trabalho nessas modalidades, hoje marcadas pela precarização.

Em entrevista ao Poder360, ele diz não acreditar que empresas abandonem o Brasil em caso de regulação. “Não tememos isso porque está crescente o trabalho de novas empresas nesse processo. A própria Uber me disse o seguinte: ‘Olha, o mercado número 1 da Uber no mundo está no território brasileiro’”, disse Marinho. “Então é impensável falar que a Uber pode sair do Brasil, igual foi aventado. Isso não existe em absoluto.”

Para o ministro, melhorar as condições de trabalho é dever dessas plataformas. “A história da ‘uberização’ – virou até sinônimo, é uma empresa – é exatamente a lógica da precarização, da superexploração das pessoas em relação a uma nova tecnologia. Isso é um absurdo, é inaceitável”, afirmou. “O que precisamos é que as tecnologias estejam à disposição da humanidade, favorecendo maior remuneração, maior conforto.”

Ele acrescentou “não ter nada contra as empresas”, mas, sim, contra a uberização. “Não está proibida a rentabilidade, não está proibida a palavra lucro. O que tem que estar proibido é a exploração”, resumiu. “É preciso garantir seguridade social, ou seja, Previdência Social para esses profissionais, mas é preciso ir além. É preciso falar de jornada, para não ter jornada extenuante, para evitar acidente, doença e ter um ambiente saudável nesse trabalho.”

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2023/05/07/uberizacao-e-um-absurdo-e-inaceitavel-diz-luiz-marinho/

Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

A regulação das redes digitais e as fake news

O livro “Os Engenheiros do Caos”, do cientista social e conselheiro político do ex-primeiro-ministro da Itália Matteo Renzi, Giuliano Da Empoli, se transformou num best-seller global. Todos deveriam ler. Da Empoli narra como a manipulação dos algoritmos das plataformas digitais se tornou uma poderosa arma política no mundo contemporâneo.

Líderes populistas iliberais desenvolveram um sofisticado método para transformar defeitos em qualidades, fake news em liberdade de opinião e “verdades alternativas”. E com isso, mobilizar as respectivas “bolhas” sem compromisso com a verdade, a ciência e a realidade. O livro reconstrói a história desde a ascensão súbita e surpreendente do comediante Beppe Grillo e seu Movimento 5 Estrelas na Itália, em 2014, com o apoio de empresa especializada em redes digitais, até o escândalo da Cambridge Analytica e a manipulação dos algoritmos nas experiências vitoriosas de Boris Johnson no Brexit do Reino Unido e de Donald Trump em 2016, se disseminando pelo mundo, a parti daí. Atores como Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e conselheiro sênior do presidente Trump, já estavam presentes na Itália em 2014.

Os graves eventos de 8 de janeiro no Brasil, que afrontaram as instituições republicanas e democráticas, a recente onda de massacres em escolas, a automutilação induzida de jovens, a disseminação do neonazismo e abusos de poder e o papel destacado em todos esses eventos das plataformas digitais, colocaram na ordem do dia a sua regulação pública.

Diante disto, o Congresso Nacional resolveu tomar as rédeas do assunto através da discussão do PL 2630/2020, de autoria do senador Alessandro Vieira (PSDB/SE), relatado na Câmara dos Deputados pelo deputado Orlando Silva (PCdoB/SP), que tem promovido amplo debate com todas as bancadas e, bem assessorado, evitado “reinventar a roda”, inspirando-se no que há de melhor e mais avançado no mundo com base nas experiências da Europa, Austrália e EUA. Nunca gostei do expediente da urgência, onde o projeto de lei vai direto ao Plenário. O melhor caminho, dada a urgência do tema e para evitar manobras protelatórias, seria formar uma Comissão Especial. O impasse levou ao adiamento da votação esta semana.

O apelido ganho já induz ao equívoco pois não se trata de um “PL das Fake News”, mas sim, de regulação das plataformas digitais. O substitutivo proposto se baseia no tripé liberdade, responsabilidade e transparência. Cuida da responsabilização das plataformas por danos, das notificações pela moderação de conteúdo, da identificação da publicidade, estabelece regras de transparência, caracteriza o que são temas previamente proibidos por agredirem a ordem constitucional, prevê remuneração de conteúdo jornalístico, defende o direito autoral, estabelece o consentimento do usuário para sua inclusão em grupos e listas de transmissão, entre outros importantes avanços.

Remanescem aspectos polêmicos como qual órgão público irá regular (Ministério Público, Poder Executivo, ANATEL) e a figura da “imunidade parlamentar”, possibilitando os detentores de mandato produzirem “fake news”.

Mas as divergências sobreviventes não devem impedir a aprovação da lei, devem ser resolvidas. A democracia está em jogo e a regulação das plataformas digitais se tornou uma necessidade urgente e inevitável.

MARCUS PESTANA Economista, foi deputado federal e estadual e presidente do PSDB de Minas Gerais. Também foi secretário estadual da Saúde e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.

CONGRESSO EM FOCO
Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

Governo evita desgaste ao garantir maioria em CPMI

Com previsão de voto para os próximos 15 dias devido à conferência de Arthur Lira (PP-AL) no exterior, o governo costurou um arranjo na Comissão Mista Parlamentar de Inquérito (CPMI) dos Atos Antidemocráticos por meio de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, que deu maior controle à frente da investigação e trouxe menos desgaste ao governo, alvo de várias ofensivas ao longo da última semana.

A negativa do presidente do Senado para uma questão de ordem do líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), publicada no Diário Oficial da União na sexta-feira (5) deu fôlego para o governo. Marinho, líder da Oposição, questionou o cálculo da proporcionalidade que retirou uma vaga do bloco que o PL integra. Já o partido Novo perdeu uma vaga de rodízio dada às menores bancadas por não cumprir cláusula de barreira. Com isso, Pacheco costurou um arranjo que firma 17 vagas de governistas do Senado (8) e da Câmara (9) na CPMI, composta por um total de 32 cadeiras.

Marinho vai recorrer junto à Comissão de Justiça do Senado e o Novo endereçou mandado de segurança no STF para tentar ficar com a cadeira. “Nenhum governo pode se dar ao luxo de ter uma CPMI desse porte nas mãos da oposição. O foco é controlar a investigação ao deixar os adversários com minoria nas duas casas”, afirma o doutor em ciência política Leandro Gabiati. O analista avalia que houve uma reversão do cenário desvantajoso por parte do governo em torno da disputa pela Comissão, o que pode causar o esvaziamento da investigação.

O governo foi alvo de ofensivas oposição, e da própria base, diante do adiamento da votação do PL das Fake News na terça-feira (2), da derrota na votação de alterações no novo marco do saneamento na quarta-feira (3) propostas pelo Executivo e de críticas vindas de parlamentares por mais interlocução e organização com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Outro fator que poderia causar um esvaziamento é o grande volume de comissões de inquérito. Além da CPMI do 8 de janeiro, há várias CPIs sendo discutidas no Congresso, com duração prevista de 180 dias cada uma, como a das Lojas Americanas, das ONGs, das apostas esportivas e do MST. Em tese, o volume deixa menos espaço para a pauta prioritária do marco fiscal, a mais importante do ano para o governo e alvo de pressão externa do mercado.

Derrota provoca reação do governo

A votação referente ao novo marco do saneamento foi uma espécie de teste de governabilidade. A base congressual do Planalto mostrou falta de articulação ao sofrer uma derrota na votação de dois decretos de Lula na quinta-feira (4). Na próxima semana, após retornar da Inglaterra, o presidente deve se encontrar pessoalmente com aliados e frisar que os acordos firmados com a base serão cumpridos.

Para Gabiati, uma deficiência de recursos humanos impede o funcionamento ideal dos ministérios: o número de pastas aumentou de 25 para 37 na troca de gestão, mas sem que houvesse um aumento proporcional do número de cargos. O reflexo disso se dá na articulação externa. O Ministério da Casa Civil, coordenador da integração entre os ministérios da Esplanada, ficou sobrecarregado com o aumento de demanda.

Enquanto isso, os parlamentares da base querem os recursos das emendas, nomeação de cargos, interlocução direta com Lula e mais participação na proposição e articulação de políticas públicas. Lula, no entanto, depositou mais enfoque na agenda internacional e designou Rui Costa, ministro da Casa Civil, e Alexandre Padilha, ministro das Relações Institucionais, como principais articuladores do governo. O resultado esperado ainda não foi atingido.

“Como Lula se elegeu com margem mínima de votos, fica claro que não tem o mesmo capital e o espaço político das gestões anteriores, o presidente tem o desafio de se adaptar à mudança institucional advinda das emendas ao relator, que tornou o orçamento mais rígido e conferiu mais protagonismo ao Congresso na gestão Bolsonaro”, diz Gabiati que vê na falta de entrosamento com os parlamentares a oportunidade para a oposição defender que o governo não consegue gerir a própria governabilidade.

CAIO LUIZ

CONGRESSO EM FOCO
Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

Marx e o perigo de regressão histórica

“Uma revolução ‘just in time’, sem riscos ou surpresas, seria um evento sem evento, uma espécie de revolução sem revolução. Realizar uma revolução possível é, em essência, intempestivo e, em certa medida, sempre prematuro. Uma imprudência criativa (…) Tomar o lado dos oprimidos quando as condições objetivas para sua libertação não estão maduras trairia uma visão teleológica? Os combates “anacrônicos” de Spartacus, de Münzer, de Winstantley, de Babeuf, tomaria então uma data desesperada na vida de um fim anunciado. A interpretação oposta parece mais de acordo com o pensamento de Marx: nenhum sentido pré-estabelecido da história, nenhuma predestinação justifica a resignação à opressão. Intempestivas (…) as revoluções não se enquadram nos padrões pré-estabelecidos (…) Elas nascem no chão, do sofrimento e da humilhação. Temos sempre razão em revoltar-nos” (Daniel Bensaïd, Marx L’intempestif, p. 69-70).

Hoje é o dia em que celebramos o nascimento de Karl Marx em 1818. Discutir a atualidade do marxismo é verificar se a ideia mais poderosa de sua obra passou a prova da história: a aposta de que o capitalismo seria, como os modos de produção que o antecederam, historicamente, transitório. O desafio colocado seria socialismo ou barbárie.

Valerio Arcary*

valerio arcary

A inescapável pergunta, no início da terceira década do século 21, é saber se o capitalismo ainda oferece algum horizonte para a vida civilizada. Mas, também, reconhecer que o perigo de regressão histórica nunca foi tão grande desde a derrota do nazifascismo na 2ª Guerra Mundial. A extrema-direita, e até movimentos neofascistas, crescem em escala mundial, nos países centrais, mas, também, nos periféricos. Seu projeto é a destruição dos direitos sociais conquistados no pós-guerra, e não pode ser subestimado.

O tema das regressões históricas não pode ser, portanto, negligenciado. A pulsação dos ritmos históricos foi, nas longas durações, em grande medida irregular, pleno de descontinuidades, e muito acidentado por verdadeiras fraturas de tempo, ou perigosos abismos em que o processo evolutivo mergulhou, bloqueando prometedoras possibilidades que estavam latentes, mas foram dramaticamente abortadas. A história nunca foi nem linear, nem circular. O relógio da história, às vezes, anda para trás.

A romantização da história como sinônimo de progresso é ilusão. As forças produtivas podem ou não crescer. A psicologia social das classes em luta importa. É muito conhecido, o exemplo histórico do Império Romano, que, embora tivesse disponível, imenso volume de conhecimentos, em função da abundância de mão de obra escrava disponível, desprezou boa parte das aplicações tecnológicas, que representariam importante aumento de produtividade. Ou seja, existem na história, contrafatores (sociais e políticos), que podem anular a tendência ao crescimento das forças produtivas e, por isso, este impulso de progresso não é linear, é muito irregular.

Exemplo interessante, de como Marx estava atento às não linearidades do processo histórico, encontramos nesta passagem sobre as regressões históricas. O tema merece atenção, em situação como a que vivemos, em que processos de regressão se estendem em insólita velocidade, gerando na América Latina recolonização que estendem tem sido descrita pelo jornalismo mais crítico, como as “décadas perdidas”.

Para conferir Marx, vejamos este fragmento: “O exemplo dos Fenícios mostra-nos até que ponto, as forças produtivas desenvolvidas mesmo com um comércio relativamente pouco vasto, são susceptíveis de uma destruição total, pois as suas invenções desapareceram na sua maior parte, pelo fato de a nação ser eliminada do comércio e conquistada por Alexandre, o que provocou a sua decadência… a duração das forças produtivas adquiridas só é assegurada quando o comércio adquire uma extensão mundial que tem por base a grande indústria e quando todas as nações são arrastadas para a luta da concorrência”.1

Não é incomum que análises históricas, se esqueçam do ABC do marxismo, que explica, que, em última análise, é porque agem, na maioria das circunstâncias, apesar dos seus interesses, ou até, contra os seus interesses, que as classes subalternas suportam, ou toleram, as condições brutais de exploração a que estão submetidas, sem se rebelar, ou adiando a rebelião.

Não o fazem, é claro, somente porque ignorem quais são os seus interesses, mas porque duvidam se suas próprias forças. E, no entanto, uma das definições mais simples de situação revolucionária, é que essa se abre, quando a maioria dominada começa a fazer a transição de situação de “classes em si”, para “classe para si”. A tendência “intrínseca” ao desenvolvimento das forças produtivas deve ser considerada à luz deste enfoque, com muitas mediações: essa também pode ser anulada por inúmeros fatores.

Entre os processos mais inverossímeis da história se destaca o efêmero reino dos Vândalos em Cartago. Depois de vagarem pelo Sul da Europa durante alguns anos dedicados ao saque e à rapina, como outras tribos germânicas, os Vândalos cruzaram o estreito de Gibraltar e fixaram-se no Norte de África onde impuseram o seu domínio feroz, escravizando impiedosamente os conquistados. Foram processos como esse, que levaram a maioria dos historiadores marxistas a considerarem que as revoltas de escravos não eram portadoras de qualquer projeto de reorganização da produção econômico-social que fosse muito diferente dos limites históricos do escravismo no Mediterrâneo.

O tema das grandes transições históricas, como se sabe, sempre atraiu a atenção dos historiadores marxistas. Na sua maioria concentraram o seu foco de pesquisa na passagem do feudalismo ao capitalismo, mas alguns se interessaram, também, com a mesma paixão, pelo colapso do mundo antigo. Buscavam compreender as condições objetivas desses momentos únicos da história que são as mudanças dos modos de produção. Entre os inúmeros estudos sobre a questão, merecem destaque os 2 trabalhos de Perry Anderson, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo e Linhagens do Estado Absolutista, pela original articulação das análises das lutas de classes com as outras causalidades, aplicando a esses períodos os recursos de uma compreensão da história como desenvolvimento desigual e combinado.

Na aurora do capitalismo, a formação do mercado mundial, a elevação das forças produtivas das formas artesanais para a manufatura, o aumento na circulação das mercadorias e do dinheiro, vieram a encontrar na estrutura feudal entrave que precisava ser deslocado, sob pena de bloquear a dinâmica de desenvolvimento das forças produtivas: era necessário eliminar as fronteiras internas; garantir a livre circulação de mercadorias e força de trabalho; erradicar a beligerância endêmica da nobreza. Essas tarefas exigiam deslocar os privilégios sociais e políticos da aristocracia.

Depois de séculos de processo desigual, que assumiu ritmos e formas muito diferentes em cada região da Europa, não foi mais possível adiar a necessidade de destruir o Estado absolutista onde ele tinha sido historicamente mais poderoso, na França. Quando se produz esse choque entre o impulso das forças produtivas, e as forças de inércia das relações sociais, a sociedade entra em época revolucionária, ou seja, época em que as lutas de classes assumem o lugar de força motriz determinante, período que pode se estender por longa duração, época de grandes convulsões e lutas, mais ou menos conscientes, no qual as classes ascendentes lutam contra a velha ordem social.

Na história, existiram, no entanto, como sabemos, tanto transições de tipo revolucionário, quanto transições de tipo catastrófico: as segundas foram, para o fundamental, quase regra, até a transição do feudalismo ao capitalismo na Europa.

Mais raramente, ocorreram passagens de tipo reformista (transições negociadas ou controladas, em que predominam os acordos, as concessões mútuas, as acomodações de interesses, diante de perigo maior), quase sempre, como consequência de passagens revolucionárias prévias. Mas as transições revolucionárias exigiram, além da caducidade das relações sociais de produção (inerente a qualquer processo de transição histórica), a emergência de sujeito social.

Assim, no Mediterrâneo, por exemplo, apesar da longa decadência do império romano, não ocorreu transição revolucionária impulsionada pelo protagonismo da massa de escravos. E o império veio finalmente a sucumbir sob a pressão das grandes migrações germânicas. O escravismo freou o desenvolvimento das forças produtivas, mas as relações sociais não foram revolucionadas, porque inexistia classe social capaz de assumir projeto superior à organização econômica do mundo antigo.

Por séculos, as forças produtivas decaíram, estagnaram, retrocederam, ou seja, a sociedade de conjunto regrediu para, somente, sob as ruínas do desmoronamento da velha civilização, e após longo intervalo de barbárie, poder encontrar um caminho de progresso social.

Esses eram, para Marx, os fatores que, com regularidade histórica, definiam a abertura de uma época revolucionária: a maturidade das forças produtivas, para reorganização da vida econômico-social, impulsionada por relações de produção superiores, e a existência de sujeito social explorado que tenha interesses incompatíveis com a preservação da ordem.

A crise se antecipa necessariamente à formação de consciência da crise. Neste processo de construção da teoria, todavia, o conceito de época revolucionária, se refere, tanto à esfera da longa duração e, portanto, da transição histórica, à escala do mercado mundial constituído, como à esfera da curta duração e, portanto, da precipitação de onda de crises revolucionárias nos países mais desenvolvidos da Europa Ocidental.

No Manifesto Comunista não pareceria existir diferenciação conceitual. Muito possivelmente, Marx e Engels pensavam, ainda nas vésperas de 1848, que a hipótese mais provável, seria que a aceleração dos tempos históricos que o colossal crescimento das forças produtivas tinha conhecido, sob o impulso da revolução industrial, e a acelerada formação do proletariado moderno (as premissas objetivas assinaladas em A Ideologia Alemã), abreviassem o intervalo histórico da transição pós-capitalista. Após as derrotas de 1848, pareceria existir reavaliação teórico-política dos tempos, prazos e perspectivas.2

Mas este tortuoso, multifacetado, irregular, e, sobretudo, desigual processo de desenvolvimento histórico não anula a conclusão de que, na longa duração, o desenvolvimento das forças produtivas tem na ciência e na tecnologia, o mais importante fator de impulso histórico. Este impulso, nunca foi, e não é, ainda hoje, exterior ao processo da luta de classes: a usura, a ganância e a cobiça, ou seja, tudo aquilo que faz a vulgaridade e a mesquinhez do capitalismo, definem o “espírito” de uma época, e são parte inseparável das suas convulsões internas e dos seus limites.

Este parece ser o ângulo de observação de Marx. E dele decorreria primeira classificação: as transições históricas pré-capitalistas, antiguidade clássica e pré-clássica, teriam sido predominantemente de tipo catastrófico, ou “inconscientes” (aquelas em que os fatores exógenos prevalecem, choques de civilizações, “volkerwanderung”, migrações de povos, invasões) em oposição às transições de tipo revolucionárias, ou transições “conscientes” (aquelas que têm como fator de impulso as lutas de classes, sujeito social com projeto de sociedade, portanto, os fatores endógenos) .

Essa “tendência intrínseca” e a “relativa inflexibilidade” das relações sociais e suas expressões superestruturais seria, portanto, a chave de compreensão da abertura de época revolucionária. Se o sujeito social está ou não consciente de quais são os seus interesses, se tem ou não confiança em suas próprias forças, se foi capaz ou não de se organizar para lutar por programa que traduz a sua visão de como a sociedade deve ser transformada, ou seja, se o sujeito social está politicamente maduro para o desafio subjetivo do projeto revolucionário, em uma palavra, os fatores históricos subjetivos, seria, neste nível de abstração, irrelevante para a definição da natureza da época.

Mas, na mesma medida, os fatores subjetivos seriam crescentemente decisivos e determinantes na escala das situações e conjunturas, ou, em outras palavras, na medida em que análise se desloca tanto para cenário geograficamente mais definido, quanto para prazos mais delimitados (a escala das décadas, ou mesmo dos anos, e meses). Em outras palavras, a definição de época revolucionária foi feita por Marx em escala histórica de longa duração, porque se apoiava no exemplo histórico da transição secular do feudalismo ao capitalismo. 150 anos depois sabemos que é muito difícil derrotar o capitalismo.

Mas ainda é possível, porque permanece necessário.

(*) Professor aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). Publicado originalmente no portal A Terra é Redonda.

1 MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Trad. Conceição Jardim e Eduardo Lúcio Nogueira. Porto, Presença, 1974. p 66.

2 A teoria da revolução em Marx e Engels, às vésperas de 1848, ainda estava inspirada na dinâmica interna revelada pela revolução francesa entre 1789/93. Sobre este tema, Marx em 1848, o interessante trabalho de Henri Lefebvre, Para compreender o pensamento de Karl Marx, comenta quando os ventos da revolução já se faziam sentir: “Foi a bela época da sua vida, a época feliz. Era (ou julgava ser) dono do seu pensamento e da sua doutrina. Os primeiros sintomas do movimento revolucionário tornavam-se visíveis ao seu olhar atento. Marx, segundo parece, julgava ainda possível passar sem interrupção da revolução democrática européia ao socialismo e ao comunismo, por uma “revolução permanente”. Abriam-se perspectivas sem limites. Tinha então 30 anos e encontrava-se em pleno vigor da juventude, do genio, do amor feliz”. (LEFEBVRE, Henri. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. Trad. Laurentino Capela. Lisboa. Edições 70. 1981).

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91332-marx-e-o-perigo-de-regressao-historica

Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

O google eleitor

A gente já conhecia o Google translator (vulgo “tradutor”), o Google meet, o Google calendar, o google isso e o google aquilo. São muitos, sortidos, como as diversas cabeças de uma hidra esperta. Agora, no transcurso do feriadão de primeiro de maio, o Brasil foi apresentado ao google eleitor. Este é o tal que toma parte em processos decisórios de uma nação soberana – a saber, o Brasil. Interfere abertamente numa deliberação que deveria se restringir aos eleitores desta terra e aos seus representantes no parlamento. O google eleitor é meio “entrão”: exerce a cidadania que, até a semana passada, não tinha.

Eugênio Bucci*

Eugenio Bucci

Agora, tem. Todo mundo viu. Nestes dias, conforme a Câmara dos Deputados se aproximava da data de votação do Projeto de Lei 2.630 (o PL das Fake News), marcada para terça passada, dia 2 de maio, as redes sociais se excitaram desbragadamente. As borbulhas cívicas foram além do costumeiro bate-boca entre seres humanos, robôs e seres desumanos. As próprias plataformas começaram a agir como se fossem lobistas, e isso sem disfarces. Então, o maior site de buscas em atividade no País tomou partido. “O google colocou em sua página inicial um link para o artigo contra a proposta”, registrou o jornal O Estado de S. Paulo em sua primeira página.

Isso mesmo. Numa conduta atípica, inesperada e chantagista, o oráculo digital planetário entrou com tudo na campanha para derrubar a data de votação do PL, e o mais incrível é que conseguiu. Levou a melhor. Na própria terça, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), anunciou o adiamento da pauta. Foi um anticlímax. A proprietária do Google, chamada Alphabet, que também é dona do YouTube, assumiu a liderança do cordão histriônico e burlesco daquele pessoal que fala contra a censura enquanto milita para liquidar a liberdade e os direitos alheios. Não, isso não era comum nestas plagas.

Agora, estamos numa cena difícil de explicar e ainda mais difícil de entender. A Inteligência Artificial parece ter aprendido que o Brasil, que nunca foi para principiantes, está aí ao sabor dos caprichos de agentes traquejados, mesmo quando estrangeiros natos. Melhor dizendo, a Inteligência Artificial ascendeu à iluminação de saber que para os aventureiros digitais está aberta a temporada de lançar mão dos destinos desta terra.

Isso posto, ficam as perguntas que não querem silenciar. A famosa plataforma vai interferir nas eleições para prefeito, no ano que vem? Vai apostar em alguns postulantes à vereança, em detrimento de outras candidaturas? E em 2026, vai favorecer presidenciáveis? Até onde chegarão os tentáculos do google eleitor?

Você pode ter suas críticas ao PL 2.630, em que encontramos até erro de pontuação. O projeto tem acertos, amplamente reconhecidos, mas não está livre de falhas. Portanto, você pode dizer que, na redação dos artigos que deveriam ir à votação em plenário anteontem, deputados e senadores foram contemplados com proteções demais, enquanto gente sem mandato ficou à mercê de controles um tanto insondáveis. Você também pode alegar que há conceitos vagos no texto legal, assim como poderá observar que faz falta uma agência reguladora com mandato, competência e alcance claramente demarcados.

Enfim, você pode mesmo estar em desacordo frontal com o famigerado PL 2.630, mas não poderá negar, nem mesmo você, que este negócio de uma gigante do capitalismo digital, uma big tech com sede nos Estados Unidos, cerrar fileiras com próceres do bolsonarismo tardio numa polêmica pública, que fere o nervo do interesse nacional, é pra lá de esquisito. Será que a Nação não poderia resolver sozinha mais essa encruzilhada de seu destino? Será que nós, brasileiros, precisamos ser tutelados por conglomerado monopolista global?

E não é só. O que o Google levou a público no 1º de maio foi editorial opinativo, como se fosse jornal comum. Agiu como se fosse imprensa — justo esse, que vive de arguir, em sua defesa, que não tem nada de imprensa e que, por isso, não pode arcar com responsabilizações editoriais. Sim, desta vez a superplataforma se comportou como diário convencional.

Isso acrescenta novos complicadores à nossa equação constrangedora. As democracias têm o hábito de confiar a mediação do debate público — função classicamente exercida pelos meios de comunicação — a quem tem a nacionalidade daquele país. Nada mais óbvio. As decisões internas de uma sociedade nacional e de um Estado devem ficar a cargo de quem nasceu lá, mora lá e pretende seguir vivendo lá.

No Brasil, a mesma cautela aparece no artigo 222 da Constituição federal: “A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sede no País”.

Isso não quer dizer, é claro, que o Google não possa atuar no Brasil; quer apenas dizer que esse não deveria se arvorar a conduzir os processos decisórios internos da nossa democracia. Alguma coisa está fora de ordem, fora de lugar, fora de prumo.

(*) Professor titular na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP). Autor, entre outros livros, de A superindústria do imaginário (Autêntica). Capturado do portal A Terra é Redonda. Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91333-o-google-eleitor