NOVA CENTRAL SINDICAL
DE TRABALHADORES
DO ESTADO DO PARANÁ

UNICIDADE
DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

Relatório Depois do Desmonte, recém-lançado pelo Inesc, retrata a face neoliberal do governo Bolsonaro. Em nome dos “superávits fiscais”, houve vastos cortes de verbas para políticas públicas. A dúvida: Haddad estará disposto a virar a página?

Nathalie Beghin

Ogoverno Bolsonaro foi tão devastador na violação de direitos que, mais do que nunca, faz-se necessário documentar e divulgar a profundidade e a amplitude dessa verdadeira operação de destruição das instituições públicas federais. Foi o que fizemos, no Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), quando analisamos os gastos orçamentários dos últimos quatro anos, em nove áreas: saúde, educação, direito à cidade, meio ambiente, indígenas, quilombolas, igualdade racial, mulheres e crianças e adolescentes. No relatório, intitulado “Depois do Desmonte”, evidenciamos o gigantesco processo de desestruturação deliberadamente implementado pela gestão Bolsonaro. Felizmente, o desejo de reconstruir o país anima a ampla aliança que se formou em torno do presidente Lula e ares de esperança sopram no Brasil.

A morte, a fome e o desmatamento em detrimento da vida

Um dos indicadores que expressa a perversidade do governo Bolsonaro é que apesar das mortes por Covid-19, da fome, da pobreza, do desemprego e do desmatamento, em 2022, o país apresentou superávit primário de R$ 54 bilhões, o que não acontecia desde 2013. Ou seja, quem pagou a conta foram as pessoas mais afetadas pelas consequências nefastas da política de desmonte do governo passado.

O que se depreende da análise de quatro anos de governo Bolsonaro é um quadro devastador: todas as áreas, com algumas poucas exceções, perderam recursos em termos reais. Sequer a recuperação das perdas inflacionárias foi garantida. Ou seja, as medidas de “austeridade” conseguiram ser mais severas que uma das regras fiscais mais rígidas do mundo, que é a Emenda Constitucional 95/2016, popularmente conhecida como “teto de gastos”.

A saúde, descontados os recursos específicos para o enfrentamento da Covid-19, perdeu R$ 12 bilhões em quatro anos, o que é muito grave para uma área historicamente subfinanciada. Os recursos gastos caíram de R$ 157 bilhões, em 2019, para R$ 145 bi, em 2022. A mortalidade pelo Sars-Cov-2 só não foi maior porque estados e municípios cumpriram sua parte no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) tanto no tratamento como na prevenção à doença. Mas assim mesmo, perderam a vida mais de 700 mil pessoas, grande parte delas de maneira desnecessária.

Com efeito, em 2021, quando a mortalidade por Covid-19 explodiu, o governo federal reduziu drasticamente as despesas para o enfrentamento da pandemia: em 2020 foram gastos R$ 637 bilhões e, no ano seguinte, R$ 165 bilhões, uma queda de 74% quando as mortes mais do que dobraram entre 2020 e 2021, passando de 202 mil para 411 mil, respectivamente.

Na educação a perda foi de R$ 4 bilhões, entre 2019 e 2022, atingindo as instituições de ensino superior, mas, também, a educação infantil e a educação de jovens e adultos. Destaque-se que nenhum centavo foi direcionado às escolas em virtude do isolamento social decorrente da Covid-19. O que é inaceitável, pois o governo Bolsonaro deixou de gastar R$ 159 bilhões que haviam sido autorizados pelo Congresso Nacional para a Covid-19. O cenário só não foi mais dramático em decorrência da ampliação de recursos entre 2020 e 2022 na educação básica, oriundos da aprovação do novo Fundeb – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação.

Na área ambiental não foi diferente: o ministério do Meio Ambiente viu seu orçamento encolher 17%: em 2019 foram gastos com a área R$ 3,3 bilhões e, em 2022, somente R$ 2,7 bilhões. Essa é uma das principais causas da explosão do desmatamento na gestão Bolsonaro.

Nos demais setores, não foi diferente. Os recursos destinados às políticas de igualdade racial, quilombolas, mulheres e crianças e adolescentes foram diminuindo substancialmente. No caso dos povos indígenas, por exemplo, o orçamento da Funai sofreu queda de 15% na execução financeira real, passando de R$ 754 milhões para parcos R$ 640 milhões, entre 2019 e 2022, a despeito do crescimento populacional indígena no período. Se em 2010, o orçamento per capita anual da Funai era R$ 899 por indígena, em 2022, esse valor despencou para R$ 400 por indígena.

O desmonte como ação deliberada

Confirma-se o cenário de desmonte articulado em torno de quatro movimentos. O primeiro deles é o de desestruturação do executivo federal e sua entrega para forças privatizantes ou fundamentalistas. Pudemos observar isso com o desfinanciamento das políticas públicas, a insistência na reforma administrativa voltada para o encolhimento do Estado, nas privatizações das estatais e nas tentativas de outras privatizações e nas medidas de implementação de parcerias com o setor privado. Elas chegaram até a área ambiental, com a iniciativa Adote um Parque que passa para o setor empresarial a conservação de parques nacionais.

O segundo movimento é o de eliminação física das pessoas, comunidades e povos que não interessam ao projeto fascista e sua base política. São os empobrecidos, mulheres, negros, indígenas, quilombolas, adolescentes e jovens periféricos, adolescentes cumprindo medidas socioeducativas, entre outros. Não é por outra razão, por exemplo, que a Fundação Nacional do Índio (Funai) se transformou em uma organização que opera contra os povos indígenas como mostramos na nossa publicação “Fundação Anti-indígena: um retrato da Funai sob o governo Bolsonaro”.

A expressiva drenagem de recursos orçamentários para alimentar as eleições dos aliados (assim como as presidenciais) constitui-se em mais um movimento. A parceria com o presidente da Câmara, Arthur Lira, resultou na criação do chamado orçamento secreto, que gastou mais de R$ 30 bilhões entre 2020 e 2022, quando foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Esses recursos equivalem a 10 vezes o orçamento anual do ministério do Meio Ambiente.

Por fim, o quarto movimento é o de incompetência devido a equipes totalmente despreparadas para os cargos que ocupavam. A expressão mais emblemática talvez seja a do ministro da Saúde, general Eduardo Pazzuelo, que, em outubro de 2020, sem qualquer embaraço, declarou em evento publico, “eu nem sabia o que era o SUS”.

Um respiro para 2023

É esse cenário de terra arrasada que a equipe da aliança política formada em torno do recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou no final de 2022. Felizmente, o desejo de reconstruir o país anima grande parte do funcionalismo público. Esse desejo também está presente entre representantes de organizações e movimentos sociais que lutaram arduamente pela democracia nestes últimos quatro anos e que agora podem participar das políticas públicas graças a reconstrução e ampliação dos mecanismos de participação social – conselhos, conferências e interlocuções específicas nos ministérios, entre outros.

Foram de três ordens os avanços implementados pelo governo Lula nesses primeiros meses de sua gestão: financeiros, institucionais e simbólicos.

Do ponto de vista financeiro, uma negociação liderada por Lula junto ao Congresso Nacional, em torno da chamada PEC da Transição, resultou na Emenda Constitucional 126/2022. Recursos adicionais foram disponibilizados para 2023, direta e indiretamente. Indiretamente, porque programas importantes, como o Bolsa Família, ficaram fora do teto de gastos, o que possibilita que o programa amplie sua cobertura e o valor dos benefícios. E, diretamente, porque o Parlamento aumentou o orçamento deste ano em R$ 145 bilhões. Não é muito diante do enorme déficit social que caracteriza o país, mas é um começo para retomar as políticas públicas.

Institucionalmente, o governo Lula recriou ministérios, como o do Planejamento, Trabalho, Previdência, Cultura, Esporte, Mulheres, Igualdade Racial, entre outros, e estabeleceu como prioridade a participação social. Isso mostra que seu governo entende que a realidade da sociedade brasileira é complexa e requer respostas à altura, céleres e participativas, com equipes especializadas e dedicadas a cada um desses temas. Essa é uma das condições necessárias para desenhar, implementar e avaliar políticas públicas efetivas.

Do ponto de vista simbólico, além da iniciativa de subir a rampa, no dia da posse, com pessoas que expressavam a diversidade da população brasileira – crianças, jovens, negros, mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, indígenas, idosos – e de receber a faixa presidencial das mãos de uma trabalhadora mulher e negra, o presidente da República nomeou 11 ministros/as negros/as e 11 ministras mulheres. Ainda criou o ministério dos Povos Indígenas e apontou como ministra uma indígena, Sonia Guajajara.

Essas medidas alimentam a esperança de um Brasil mais justo, mas é sabido que os desafios não são de pequena monta. O governo é resultado de uma ampla aliança que envolve diversos tipos de interesses, por vezes divergentes. O Congresso, conservador e com fortes segmentos clientelistas, tensionará continuamente o Executivo federal, pressionando pela liberação de emendas parlamentares ou nomeação de apadrinhados nos ministérios.

Soma-se a isso, a predominância de uma visão econômica, mesmo entre aqueles que se dizem progressistas, que favorece o equilíbrio fiscal em detrimento da vida e do bem-estar da população. São exemplos disso: cortes de gastos públicos, como os R$ 50 bilhões recentemente anunciados pelo Ministério da Fazenda; manutenção de elevada taxa de juros para combater uma inflação que na atualidade nada tem a ver com a demanda aquecida; propostas de reforma tributária que privilegiam a eficiência do sistema em detrimento de sua progressividade; e, propostas de regras fiscais restritivas ao invés da ousadia de defender o planejamento de longo prazo das despesas que, de forma responsável, realize progressivamente os direitos humanos.

O que importa neste momento é que a construção da democracia retomou seu curso e que é graças a isso que poderemos opinar, concordar ou discordar sem medo de retaliações.

Nathalie Beghin é economista formada pela Université Libre de Bruxelles (ULB), com mestrado e doutorado em Políticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB). É coodenadora da Assessoria Política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). Ocupou o cargo de assessora do representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil e fez parte do quadro da organização não governamental Oxfam Internacional no Brasil. Em 2011, integrou a equipe do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome responsável pela elaboração e implementação do Plano Nacional para Superação da Pobreza Extrema, o “Brasil Sem Miséria”.

Fonte: Outras Palavras
Data original da publicação: 18/04/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/orcamento-apos-a-tempestade-a-bonanca/

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

Se são tributos sobre o consumo, por que os consumidores não são ouvidos?

Não há nenhuma dúvida de que o maior problema do sistema tributário brasileiro não é a sua complexidade, mas a sua regressividade, que produz o aprofundamento das desigualdades sociais e impõe sérias dificuldades para o desenvolvimento econômico.

Dão Real Pereira dos Santos

São os consumidores que pagam os tributos sobre o consumo, não as empresas! Essa obviedade parece estar passando despercebida nos debates sobre a reforma tributária, pois as discussões sobre PEC 45/2019 e PEC 110/2019, que estão tramitando no Congresso Nacional, só contemplam as opiniões dos setores empresariais. Ambas tratam apenas da reforma dos tributos sobre o consumo. Resumidamente, elas propõem a unificação de 5 tributos, ICMS¹, dos estados, ISS², dos municípios, e PIS, COFINS³ e IPI4, da União, em um único, denominado de IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, no caso da PEC 45, ou em 2, IBS, dos estados e municípios, e a CBS, Contribuição sobre Bens e Serviços, da União, no caso da PEC 110.

Alguns ajustes estão sendo negociados, especialmente, acerca das alíquotas e das exceções que poderiam ser aceitas. De qualquer forma, o argumento central dessas duas propostas é a simplificação, tratada como uma espécie de panaceia para o desenvolvimento econômico. Se for verdade, só saberemos mesmo daqui a uns dez anos, pois até lá teremos, como transição, a convivência de todos os tributos antigos, que serão substituídos, com o imposto ou os impostos novos que os substituirão. Essas duas propostas contam com o apoio de praticamente todos os setores empresariais, embora quase todos tenham ressalvas pontuais.

Nada se fala, no entanto, sobre tributar os super-ricos, ou sobre colocar os ricos no Imposto de Renda, como propôs o presidente Lula, durante sua campanha eleitoral. Não há nenhuma dúvida de que o maior problema do sistema tributário brasileiro não é a sua complexidade, mas a sua regressividade, que produz o aprofundamento das desigualdades sociais e impõe sérias dificuldades para o desenvolvimento econômico.

Para a maior parte da população brasileira, que são os consumidores, a reforma mais importante seria aquela que promovesse o deslocamento da carga tributária dos mais pobres para os mais ricos, e isso só seria possível elevando-se a tributação sobre as altas rendas e grandes riquezas e reduzindo-se a tributação sobre as rendas mais baixas e sobre o consumo. A correção da tabela do imposto de renda combinada com a volta da tributação dos lucros e dividendos distribuídos e o fim dos juros sobre o capital próprio, e a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas produziriam esse efeito de forma efetiva e no curtíssimo prazo e sem modificar a Constituição Federal. Esse debate, porém, parece ter sido novamente interditado pela retomada da pauta tributária que interessa mais aos empresários.

Voltamos, então, ao tema da tributação do consumo. Nas discussões e nos artigos que se proliferam diariamente nos veículos de comunicação, vai se construindo a percepção de que estamos tratando de tributos sobre as empresas e que alguns setores econômicos poderiam ser mais onerados do que outros, mas isso é não é verdadeiro. As propostas de reforma dos tributos indiretos têm como objetivo central fazer com que as empresas sejam totalmente desoneradas, independentemente do setor econômico. O novo imposto sobre o consumo deverá atingir unicamente os consumidores.

A lógica da reforma, portanto, é fazer com que nenhum tributo indireto seja absorvido na cadeia produtiva, de comércio ou de serviços e, para isso, propõe que a não cumulatividade seja plena e irrestrita. Isso significa dizer que todos os tributos pagos na aquisição de insumos ou na contratação de serviços, ao longo de toda a cadeia de negócios, serão compensados nas etapas subsequentes, até que o consumidor final pague o valor integral. As empresas serão apenas repassadoras e não pagarão nenhum centavo deste tributo. Portanto, a reforma tributária que está sendo discutida no Congresso Nacional não trata da tributação das empresas, mas sim, de desoneração total das empresas em relação a estes tributos.

Eventuais discursos dizendo que o setor A vai pagar mais tributo do que o setor B não são verdadeiros, pois quem pagará mais ou menos tributos serão os consumidores, em razão do tipo de bens e serviços que consomem. No entanto, é interessante observar que esses contribuintes de fato não estão sendo ouvidos nem considerados nos debates e, se estivessem, estariam defendendo que primeiro é preciso ampliar a tributação dos super ricos e reduzir os tributos sobre o consumo.

Evidentemente que uma mudança na estrutura da tributação sobre o consumo modificará os preços relativos dos produtos e serviços, e isso já está ficando evidente em vários artigos que demonstram que os preços dos alimentos poderão crescer, assim como de alguns serviços, o que reforça ainda mais a importância de se democratizar o debate, pois se trata de uma redistribuição de carga entre os consumidores na sociedade.

Mas qual seria a diferença em relação à situação atual? A diferença substancial é a premissa da incidência no destino, o que é desejável, pois é no local do consumo que se concentram as maiores demandas de políticas públicas. Em relação ao interesse mais imediato do setor empresarial, a existência de vários tributos incidindo sobre o consumo ou o faturamento faz com que nem todos os tributos pagos numa determinada cadeia de negócios sejam, de fato, recuperados ou compensados nas etapas posteriores, onerando, assim, seus custos. Por exemplo, se na fabricação de um produto, a empresa contrata alguns prestadores de serviços e paga o ISS para a prefeitura municipal, este tributo não poderá gerar crédito para a empresa quando ela for vender o produto e recolher o ICMS devido. Logo, o ISS acabou sendo incorporado ao custo de produção. Isso acontece também com outros tributos, como o IPI, o PIS e a COFINS, em algumas situações específicas. Dessa forma, uma parte dos tributos indiretos se incorporam ao custo de produção ou de aquisição e outra parte pode ser recuperada na forma de compensação ou de restituição.

Quando os produtos são vendidos, se cobra do consumidor final os impostos que incidem sobre o preço final, mas a empresa vai recolher apenas a diferença entre esse tributo e os tributos que incidiram na aquisição dos insumos e que geraram créditos. Explicando melhor: uma empresa adquire um produto para revenda por 100, mais 10 de imposto, totalizando 110. Se ela revende o produto por 150, o comprador vai pagar 165, que corresponde ao preço do produto mais 15 de imposto. Se o tributo da aquisição for totalmente recuperável, a empresa recolheria ao Estado apenas 5, que se refere aos 15 da venda, menos os 10 da aquisição, mas o Estado recebeu os 15 que incidiram na venda final, que corresponde aos 10 da etapa anterior e os 5 do saldo final.

Percebam, portanto, que, se fosse possível aproveitar como créditos todos os tributos incidentes nas etapas anteriores, o valor recolhido pela empresa seria menor do que nas situações em que somente uma parte dos tributos das etapas anteriores pode ser compensada.

Evidentemente que todos os tributos pagos, em qualquer etapa, se convertem em recursos públicos, que são utilizados para promover as políticas públicas. A impossibilidade de compensação plena de todos os tributos das etapas anteriores, faz com que o valor recolhido ao final seja maior, logo, para manter o nível de arrecadação atual, com não cumulatividade plena, as alíquotas teriam que ser maiores do que as alíquotas atuais em que nem todos os tributos são compensados.

Independentemente do mérito, a garantia de não cumulatividade plena, que tem sido prometida pelas PEC 45/2019 e PEC 110/2019, implica redução de receitas públicas. Ainda que para os setores empresariais essa medida seja desejável, pois os preços finais dos produtos não carregarão nenhuma parcela de tributos indiretos, logo poderão ser inferiores aos preços atuais ou gerar lucros maiores, o fato é que haverá uma redução de receitas públicas, a menos que as alíquotas sejam aumentadas para promover essa compensação.

Alguns dirão: de qualquer forma, é o consumidor que vai pagar esses tributos, sejam eles compensados ou não pelas empresas, pois os que não foram compensados estarão incorporados no custo e, portanto, irão para o preço final de venda. Isso é parcialmente verdadeiro, pois a elevação do custo de produção ou de aquisição pode não ser transferida integralmente para os preços nos casos de concorrência mais acirrada, podendo implicar redução dos lucros empresariais. Já os tributos creditáveis serão sempre transferidos para o consumidor.

Também se pode alegar que o Estado não sofrerá nenhuma perda e isso também é verdadeiro, desde que as novas alíquotas sejam suficientes para compensar a perda de receita decorrente da não cumulatividade plena. Já no caso das exportações, a não cumulatividade plena fará com que os preços finais não carreguem nenhum resíduo tributário, e neste caso, tendo em vista a não incidência de tributos nas saídas, o Estado não receberá nenhum centavo de tributos incidentes na cadeia produtiva.

Nas exportações, portanto, não há forma de compensar as perdas de receitas públicas decorrentes da não cumulatividade plena. Para este setor, portanto, eventual compensação pela desoneração promovida só poderia ser alcançada pela elevação de tributos diretos, como o IRPJ5 e a CSLL6, ou pela elevação da arrecadação sobre outros setores.

Em relação às exportações, ainda, é preciso lembrar que o tratamento proposto nas duas propostas contraria inúmeras demandas que vinham se acumulando ao longo do tempo de revisão da Lei Kandir, uma vez que a desoneração por ela produzida sobre exportação de produtos primários gerou perdas importantes de recursos financeiros para os estados exportadores, além de constituir um fator de desestímulo à industrialização. As PEC 45 e PEC 110 consolidam definitivamente essa desoneração total do setor exportador.

Os setores empresariais que defendem a reforma da tributação sobre o consumo querem, em primeiro lugar, garantir a desoneração completa das suas cadeias produtivas ou comerciais. Em segundo lugar, não serem prejudicados em seus negócios por elevação de alíquotas sobre consumidores de seus produtos ou serviços. Buscam, portanto, a maximização dos seus lucros. Do outro lado estão os consumidores, que querem elevar a tributação dos super ricos, que são, majoritariamente, os beneficiários dos lucros das empresas, e reduzir os tributos sobre o consumo que oneram muito mais os mais pobres do que os mais ricos.

Enfim, se os ricos podem decidir sobre os tributos dos pobres, que os pobres decidam sobre os tributos dos ricos.

Notas

1 Artigo 155, inciso II da CF/1988 – Imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação.

2 Artigo 156, inciso III da CF/1988 – Imposto sobre serviços de qualquer natureza, não compreendidos no art. 155, II, definidos em lei complementar.

3 Artigo 195, inciso I, letra b da CF/1988 – Contribuições sociais sobre a receita ou o faturamento. PIS/PASEP
(Programa de Integração Social e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público) e COFINS (Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social).

4 Artigo 154, inciso IV da CF/1988 – Imposto sobre Produtos Industrializados.

5 Imposto de Renda sobre a Pessoa Jurídica.

6 Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.

Dão Real Pereira dos Santos é Presidente do Instituto Justiça Fiscal, Diretor de Relações Internacionais e Intersindicais do Sindifisco Nacional – Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil.

Fonte: IJF, com RED
Data original da publicação: 14/04/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/se-sao-tributos-sobre-o-consumo-por-que-os-consumidores-nao-sao-ouvidos/

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

As entranhas do capitalismo

No controle da revolução digital, o capital avança à sua fase financista, em que concentra a riqueza em escala jamais vista – sem produzir nada. Para os 99%, trabalho precário e desalento. Governança segue analógica, de mãos atadas e local.

Ladislau Dowbor

O Dicionário de Cambridge define a mais-valia como “a diferença entre o valor que um trabalhador recebe e o valor que o trabalhador acrescenta aos bens ou serviços produzidos”. Não é preciso ser marxista para entender que os altos lucros obtidos com baixos salários levam à exploração e ao crescimento desequilibrado. Essa ainda é uma questão crucial, pois o ciclo econômico exige não apenas produção, mas também poder de compra para que os bens e serviços possam ser vendidos. Na tradicional economia industrial do século 20, um equilíbrio razoável foi alcançado através do New Deal nos EUA e do Welfare State em alguns países, basicamente do Norte Global, com políticas públicas equilibrando interesses por meio de tributação progressiva e provisão de bens e serviços públicos. Esse equilíbrio foi derrubado pela extração de riqueza atualmente dominante por meio do rentismo, ou geração improdutiva de riqueza, acima e muito além da mais-valia tradicional. Chamamos isso de neoliberalismo, mas não há nada de liberal nessa história.

Um desafio importante é considerar até que ponto os novos mecanismos de apropriação de riqueza representam uma mudança sistêmica. A escravidão como sistema era caracterizada pela extração de riqueza por meio do controle brutal e da propriedade dos humanos, fazendo com que os escravos trabalhassem para seus donos. Lembremos que não é algo distante, no Brasil foi formalmente abolida no final do século XIX, e subsistiu como prática ilegal até o século XX, também nos EUA, já na era capitalista moderna. O capitalismo não se importa em usar o controle pré-capitalista da força de trabalho. O feudalismo também representou um sistema, consistindo basicamente em uma era de riqueza baseada na agricultura, controle da terra através de feudos e controle dos trabalhadores através da servidão. O apartheid na África do Sul também foi um sistema, com africanos confinados em territórios delimitados, autorizados a ganhar um salário se tivessem um “passe”, levando a uma curiosa mistura de mineração, indústria e serviços modernos e exclusão territorial. O mundo capitalista não se importou com esse sistema, que aliás ainda funciona na Palestina.

O atual capitalismo financeirizado representa um novo sistema, um “modo de produção” no sentido sistêmico? Marx estudou o mecanismo financeiro e o chamou de “capital fictício”, na medida em que seus ganhos dependiam de um segundo nível de extração, tirando parte dos lucros por meio de juros. Mas era um mero complemento da lógica industrial dominante. Na era atual do que se convencionou chamar de neoliberalismo, François Chesnais atualizou a discussão ao mostrar quão dominante o sistema de intermediação financeira havia se tornado, a ponto de mudar a lógica geral do capitalismo, o que ele chamou de “totalidade sistêmica”, baseada no rentismo e globalização financeira. O que vemos nos últimos anos é uma explosão de estudos sobre o funcionamento desse novo sistema, que, na verdade, pouco tem a ver com a tradicional acumulação de capital e apropriação de mais-valia que ainda ensinamos em nossas universidades. O que estamos enfrentando representa sim uma mudança sistêmica, um outro “modo de produção”, envolvendo a base tecnológica, as relações sociais de produção, a forma de apropriação da riqueza e o quadro institucional.

Robert Reich nos traz à realidade, sobre a origem dos grandes lucros: “Nas décadas de 1950 e 1960, quando a atividade bancária era uma coisa chata, o setor financeiro respondia por apenas 10 a 15% dos lucros corporativos dos Estados Unidos. Mas a desregulamentação tornou as finanças não só empolgantes como extremamente lucrativas. Em meados da década de 1980, o setor financeiro reivindicava 30% dos lucros corporativos e, em 2001 – época em que Wall Street havia se tornado uma gigantesca casa de apostas na qual a casa recebia uma grande parcela das apostas –, reivindicava impressionantes 40%. Isso foi mais de quatro vezes os lucros obtidos em toda a indústria dos EUA.”1. Não são lucros baseados na produção, mas na intermediação financeira e na especulação.

Enquanto Davos afirma que estamos na era da Indústria 4.0, na verdade, estamos na era do rentismo financeiro improdutivo, mas também de outras formas de apropriação improdutiva da riqueza social, inclusive dos bens comuns. Brett Christophers vai direto ao ponto essencial: “Os lucros têm assumido cada vez mais a forma de rentas econômicas – incluindo, entre outras, rentas financeiras – em vez de renda do comércio ou da produção de commodities.” Rentismo e lucro são radicalmente diferentes: “A definição de renta (rent) que uso aqui, então, é efetivamente um híbrido de heterodoxo e ortodoxo: renta derivada da propriedade, posse ou controle de ativos escassos em condições de concorrência limitada ou inexistente”.2 Se a forma dominante de apropriação da riqueza não é mais “comércio e produção de mercadorias”, isso é capitalismo? Com a revolução industrial, o setor agrícola continuou sendo importante para a economia, mas a reestruturação da sociedade como um todo atendeu aos interesses do desenvolvimento industrial e gerou um novo modo de produção. Como está a transformação atual?

A revolução digital é tão profunda em termos de transformação da nossa sociedade quanto foi a revolução industrial há dois séculos. Está transformando a principal forma de apropriação da riqueza por meio da renta de ativos improdutivos, em vez do lucro de atividades produtivas. E as relações trabalhistas estão migrando de sistemas regulares de salários e benefícios sociais seguros para numerosos contratos flexíveis, precariados e empregos informais. Quanto ao quadro institucional, estamos migrando de uma regulamentação de base nacional para uma tomada de poder corporativa global. O controle social, por sua vez, passa do trabalho organizado, com sindicatos e negociações, para um processo global de vigilância e manipulação por meio de algoritmos e de informações e marketing orientados pelo comportamento.

O mais alto poder emergente já não está nas mãos de empresas como a Ford ou a Toyota, mas de plataformas de comunicação e intermediação como Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (GAFAM), ou plataformas de gestão de ativos financeiros como BlackRock, State Street, Vanguard ou Crédit Suisse/UBS, para citar apenas algumas. O papel do Estado não é mais garantir o equilíbrio geral, mas sim cavar um lugar melhor para o país, no jogo de interesses globais que ele não controla. Chamamos isso de “amigável ao mercado” (market-friendly), embora tenha pouco a ver com a tradicional competição de livre mercado. E temos plataformas globais, incluindo o mundo financeiro, mas nenhuma governança global.

Colocamos essa questão há dois anos, em um artigo chamado It is not a tiger anymore: capitalism woes [Não é mais um tigre: os problemas do capitalismo]. Em vez de apontar para as listras que mudam no tigre, devemos dar um passo atrás e considerar se ainda se trata de um tigre. Como na lógica tradicional, uma certa quantidade de mudanças quantitativas acaba levando a uma transformação qualitativa. Podemos usar o paralelo da Revolução Francesa: em 1789, a indústria, o comércio e os bancos já pressionavam por espaço político, enquanto os aristocratas dançavam em Versalhes. Em expressões atuais, a economia está na era digital, enquanto os fragmentados 193 governos nacionais ainda estão na era analógica. A nova economia não se encaixa no quadro institucional e o resultado é um caos global de alta tecnologia.3

Tantas instituições e pesquisadores preocupados têm gritado o mais alto que podem, apontando para os dramas resultantes. Um exemplo é o número trágico de meninas e mulheres adolescentes em idade reprodutiva: “Mais de 1 bilhão de meninas adolescentes e mulheres sofrem de desnutrição (incluindo baixo peso e baixa estatura), deficiências em micronutrientes essenciais e anemia, com consequências devastadoras para suas vidas e bem-estar.”4 Isso tem consequências catastróficas tanto para as mães quanto para as crianças. Como toleramos isso? Tomando apenas o exemplo da produção mundial de cereais, os 2.774 milhões de toneladas em 2022 significam que produzimos 1 kg por habitante por dia. Uma ração completa de consumo diário adulto de arroz, para dar uma referência, é de 180 gramas. Este é apenas um exemplo. Temos todos os números sobre as mudanças climáticas e podemos até assistir às catástrofes na TV. Os dramas da biodiversidade são apresentados em muitos relatórios. O plástico está em toda parte, e essa é apenas uma dimensão mais visível da poluição global: as corporações o produzem, embolsam os lucros, mas descartam qualquer responsabilidade pelo que acontece depois. Contaminação do solo, destruição de florestas originais no Brasil, Indonésia e Congo, a lista não termina. Olhamos para os dramas que se aprofundam e, caramba, já está na hora de levar as crianças para a escola… Dramas globais e desamparos individuais, o curto prazo se sobrepõe aos desafios estruturais, e vamos cuidar da vida.

A questão, obviamente, é que para além dos dramas temos que olhar para a governança, ou para a ausência de governança, que os gera e nos impede de revertê-los. Quer se chame de “novo contrato ecossocial” como nos relatórios da ONU, ou “green new deal” em tantas organizações sociais, ou “novas regras para o século XXI” nos escritos de Stiglitz, o fato é que o principal desafio está na criação das instituições que nos permitam enfrentar as tendências mais desastrosas.

A ideia é que devemos parar de nos agarrar a discussões ideológicas obsoletas sobre capitalismo/socialismo, ou estado/mercados, e levar a nossa construção de consensos aos meios práticos de enfrentar as questões-chave. Muitos deles são globais e não temos um processo de tomada de decisão global. Dani Rodrik, ao discutir a fratura tecnológica global, dimensão importante de nossos desafios, sugere que devemos usar os mecanismos de governança que temos, que são os governos nacionais e locais, para gerar os pactos regionais e globais necessários. “A cooperação regulatória transnacional e as políticas antitruste podem produzir novos padrões e mecanismos de aplicação. Mesmo onde uma abordagem verdadeiramente global não é possível – porque países autoritários e democráticos têm divergências profundas sobre privacidade, por exemplo – ainda é possível que as democracias cooperem entre si e desenvolvam regras conjuntas.”5 No Brasil, temos trabalhado em uma abordagem local de baixo para cima, propondo a descentralização, e ela é promissora. Mas nada disso atinge a escala da deformação sistêmica que estamos enfrentando.

Temos problemas globais, mas governos em nível nacional, finanças especulativas em vez de investimento produtivo, busca de renta em vez de lucros em insumos socialmente úteis, comunicação baseada em comportamento em vez de informações honestas, e narrativas em vez de transparência. Mas, acima de tudo, temos sistemas de governança empacados no passado analógico, perdidos no turbilhão da nova revolução digital e no novo conjunto de desafios. Os conflitos estão aumentando em todos os lugares, mas as soluções não estão apenas no nível nacional. Este é um novo sistema, gerado pela revolução digital, e devemos nos concentrar nas questões de governança que a ele correspondem. A Economia guiada por missões, tal como Mazzucato apresenta a questão, parece uma abordagem razoável. Para o Brasil, sistematizei propostas no texto Resgate da função social da economia: uma questão de dignidade humana. Quão fundo devemos afundar no caos global antes que surja energia política suficiente para a mudança?

Notas

1 Robert Reich, The real story behind the Silicon Valley Bank debacle, Newsletter, March 13, 2023.

2 Brett Christophers, Rentier capitalism: who owns the economy and who pays for it?, London, Verso, 2020, pages 5 and xxiv. (Traduzimos aqui rent por renta, diferente de renda, tal como em inglês rent é diferente de income, e em francês rente é diferente de revenu.)

3 UNRISD, Crises of inequality: shifting power for a new eco-social contract.

4 UNICEF, Undernourished and underfed – 2023 Report.

5 Dani Rodrik, The coming global technology fracture, IPS, 21 September 2020.

Ladislau Dowbor é economista, professor da PUC-SP e consultor de várias agências da ONU.

Fonte: Outras Palavras, com Meer
Tradução: Maurício Ayer
Data original da publicação: 17/04/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/as-entranhas-do-capitalismo/

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

“Meu escravo”: Trabalhador alvo de racismo de chefe será indenizado

Racismo recreativo

Além da penalidade, o juiz expediu ofícios ao MP e à Polícia Civil de São Paulo para eventuais providências cabíveis quanto ao crime de injúria racial.

Da Redação

Um auxiliar mecânico deverá ser indenizado em R$ 10 mil por sofrer racismo recreativo, prática cultural que se vale do humor para expressar hostilidade às minorias. Ele era alvo de piadas frequentes do superior hierárquico, que utilizava expressões como “mucamo”, “chimpanzé” e “meu escravo” para se referir ao trabalhador. A decisão foi proferida pelo juiz de Direito Luiz Evandro Vargas Duplat Filho, da 1ª vara do Trabalho de Guarujá/SP.

Em depoimento à Justiça, o profissional afirmou que o chefe até sugeriu que o reclamante fosse ao cartório para ser registrado como “escravo pessoal”. E que jamais considerou os adjetivos como brincadeira. Já a testemunha da empresa (um posto de gasolina) disse haver liberdade para aquele tipo de tratamento, que jamais presenciou atitudes racistas e que o trabalhador frequentava eventos na casa do supervisor.

Para decidir, o magistrado se baseou no protocolo para julgamento com perspectiva de gênero do CNJ, o qual reconhece a influência do racismo na aplicação e interpretação do direito. Em seu entendimento, muitas vítimas de assédio moral, não discordam das piadas racistas por medo de perderem o emprego ou vergonha de serem ridicularizadas. Por isso, tendem a não se insurgir contra os atos violentos, suportando a convivência no ambiente tóxico por medo do ofensor.

“A vida em sociedade não admite a prática de quaisquer ofensas, insultos ou xingamentos gratuitos, situação ainda mais grave quando tais atos ilícitos estão relacionados com a raça, porque revelam discursos de ódio com base em supremacia racial.”

Ainda, concluiu que o fato de o profissional ter ido a eventos do chefe não é motivo suficiente para eliminar ou minimizar as ofensas preconceituosas, devendo, portanto, reparar o dano moral provocado. Além da penalidade, o juiz expediu ofícios ao MP/SP e à Polícia Civil de São Paulo para eventuais providências cabíveis quanto ao crime de injúria racial.

O tribunal omitiu o número do processo.

Informações: TRT-2.

Migalhas: https://www.migalhas.com.br/quentes/385091/meu-escravo–trabalhador-alvo-de-racismo-de-chefe-sera-indenizado

Orçamento: após a tempestade, a bonança?

Tercerizada demitida durante gestação receberá diferenças salariais

Direito trabalhista

Foi fixado o pagamento correspondente à remuneração desde a dispensa até cinco meses após o parto, mais 13º salário e férias proporcionais ao período da estabilidade

Da Redação

Uma funcionária terceirizada da área administrativa de um município, contratada temporariamente para suprir necessidade setorial e desligada do cargo enquanto gestante, ganhou na Justiça o direito de receber o valor correspondente à remuneração salarial desde a dispensa até cinco meses após o parto, entre outros benefícios. A decisão é do juízo da vara única de Penha/SC.

Relata a mulher na inicial que foi contratada pelo município em agosto de 2017 e teve o contrato rescindido em janeiro de 2018, quando já estava grávida. Porém, de acordo com apontamento na sentença, tal atitude é vedada constitucionalmente, uma vez que as gestantes têm direito público subjetivo à estabilidade provisória, desde a confirmação do estado fisiológico de gravidez até cinco meses após o parto.

A medida se aplica tanto para servidoras públicas quanto para as demais trabalhadoras, qualquer que seja o regime jurídico a elas aplicável, sem importar se de caráter administrativo ou de natureza contratual (CLT), mesmo aquelas ocupantes de cargo em comissão ou exercentes de função de confiança ou, ainda, as contratadas por prazo determinado ou admitidas a título precário.

Por esses motivos, o juízo considerou procedentes os pedidos formulados na inicial para reconhecer, em favor da gestante, a garantia de recebimento salarial no valor correspondente à remuneração desde a dispensa até cinco meses após o parto, mais 13º salário e férias proporcionais ao período da estabilidade, estas acrescidas de um terço.

O tribunal omitiu o número do processo.

Informações: TJ/SC.

Migalhas: https://www.migalhas.com.br/quentes/385106/tercerizada-demitida-durante-gestacao-recebera-diferencas-salariais