Expectativa dos investidores para inflação supera o teto da meta definido pelo CMN para este ano, que é de até 4,75%. Números foram divulgados pelo Banco Central.
Por Alexandro Martello, g1 — Brasília
Os economistas do mercado financeiro elevaram estimativa de inflação deste ano de 5,96% para 5,98%. Foi a segunda alta seguida no indicador.
A informação consta do relatório “Focus”, divulgado nesta segunda-feira (10) pelo Banco Central. Foram ouvidas mais de 100 instituições financeiras na semana passada sobre as projeções para a economia.
Para este ano, a meta central de inflação foi fixada em 3,25% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e será considerada formalmente cumprida se oscilar entre 1,75% e 4,75%.
Se confirmado, esse será o terceiro ano seguido de estouro da meta de inflação, ou seja, no qual o IPCA fica acima do teto fixado pelo sistema de metas. Em 2022, a inflação somou 5,79%.
Quanto maior a inflação, menor é o poder de compra das pessoas, principalmente das que recebem salários menores. Isso, porque os preços dos produtos aumentam sem que o salário acompanhe esse crescimento.
Para 2024, a projeção de inflação do mercado financeiro subiu de 4,13% para 4,14% na semana passada.
A meta de inflação do próximo ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3% e será considerada cumprida se oscilar entre 1,5% e 4,5%.
Para definir a taxa básica de juros e tentar conter a inflação, o BC já está mirando, neste momento, na meta do ano que vem. Isso ocorre porque as mudanças na taxa Selic demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia.
PIB
Para o crescimento Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, a expectativa do mercado financeiro avançou de 0,9% para 0,91% na última semana.
O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país. O indicador serve para medir a evolução da economia.
Já para 2024, a previsão de crescimento recuou de 1,48% para 1,44%.
No começo de março, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o PIB avançou 2,9% em 2022, contra uma alta de 5% no ano anterior.
Com isso, o mercado financeiro segue estimando queda dos juros neste ano.
Para o fim de 2024, a projeção do mercado para o juro básico da economia ficou estável em 10% ao ano.
Outras estimativas
Veja abaixo outras estimativas do mercado financeiro, segundo o BC:
Dólar: a projeção para a taxa de câmbio para o fim de 2023 permaneceu em R$ 5,25. Para o fim de 2024, caiu de R$ 5,30 para R$ 5,27.
Balança comercial: para o saldo da balança comercial (resultado do total de exportações menos as importações), a projeção continuou em US$ 55 bilhões de superávit em 2023. Para
2024, a expectativa para o saldo positivo ficou estável em US$ 52,4 bilhões.
Investimento estrangeiro: a previsão do relatório para a entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil neste ano permaneceu em US$ 80 bilhões de ingresso. Para 2024, a estimativa de ingresso continuou também em US$ 80 bilhões.
População e sindicatos não se rendem e voltam às ruas após impasse em conversa com primeira-ministra; mais de 11 mil policiais foram destacados para conter manifestações
Nesta quinta-feira (6), a população francesa novamente foi para as ruas protestar contra a imposição da reforma de Previdência pelo presidente Emmanuel Macron.
Este foi o 11º dia de protestos e foi marcado pela invasão do prédio da BlackRock em Paris – uma das principais gestoras de patrimônio do mundo – e pelo protesto em frente à cafeteria La Rotonde, que é frequentada pelo presidente Macron. O toldo da cafeteria foi alvo de um sinalizador e ocasionou um princípio de incêndio. Ambos os locais ficam em Paris.
O Ministério do Interior da França indicou que 11 mil policiais foram destacados para conter as manifestações.
Os atos retornaram após o insucesso das negociações entre sindicatos e a primeira-ministra Élisabeth Borne, na quarta-feira (5). Nenhum lado cedeu e esperam a decisão do Conselho Constitucional, que deve ocorrer em 14 de abril.
A jornada anterior de protestos em 28 de março foi marcada por violência, prisões e mais de 13 mil agentes de segurança nas ruas, sendo 5,5 mil em Paris – principal foco dos protestos.
Veja a invasão da BlackRock registrada pelo jornalista francês Clément Lanot:
Presidente se reuniu com jornalistas nesta quinta (6) e fez um balanço inicial dos cem dias de governo, mas noticiário segue vocalizando os interesses do sistema financeiro
Como é de praxe em boa parte da grande mídia, o noticiário em torno do governo de Luiz Inácio Lula da Silva tende, sempre que o assunto permite, a dar maior espaço aos interesses do sistema financeiro. Hoje não foi diferente. Embora o encontro realizado nesta quinta-feira (6) com jornalistas dos veículos tradicionais tenha tido como foco central os cem dias de governo, o noticiário girou principalmente em torno de declaração do presidente que teria “desagradado o mercado”.
Comecemos por algumas das colocações feitas pelo presidente sobre os cem dias de governo. “Vamos fazer um esforço incomensurável para fazer a economia voltar a crescer. Minha obsessão nos primeiros três meses era retomar as políticas sociais que deram certo nesse país. A minha obsessão agora é com o crescimento e com a geração de empregos, e tenho certeza de que vamos conseguir sucesso”, declarou o presidente.
Lula disse, ainda, estar convencido de que “vamos consertar o país” e “mais do que satisfeito com o que conseguimos projetar nesses 100 dias. Eu não esperava que a gente conseguisse colocar o avião na pista com tanta rapidez”.
O presidente voltou a destacar que um dos principais focos do governo é recolocar o pobre no orçamento, máxima que tem servido como base para o desenvolvimento de políticas públicas nas mais diversas áreas da gestão federal.
Na próxima segunda-feira (10), um balanço mais completo do que foi realizado será apresentado. Mas, na reunião, Lula citou especialmente a retomada das políticas sociais como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Tais medidas, embora de caráter social, rebatem positivamente também na economia, conforme salientou o presidente.
Na reunião com os jornalistas, Lula disse ainda que sua prioridade, após viagem à China, será discutir uma política de crédito para estimular diferentes setores, pequenos e médios empreendedores, cooperativas, agronegócio, pequenos e médios empresários, a agricultura familiar e o pequeno e médio agricultor.
“Somente com a circulação de dinheiro é que vamos retomar o crescimento da economia. Não existe outro milagre, não existe outra possibilidade”, disse, criticando as altas taxas de juros que criam entraves para o investimento.
“Não é possível que você possa estabelecer crédito com taxa de juros acima de 15%, 16%, 17%, 18%. Tem gente pagando 30% no mercado para fazer investimento. Não é possível o Brasil continuar assim”, afirmou. Também salientou que o governo busca atrair investimentos externos e a retomada de obras paradas pelo país.
Ainda na pauta econômica, Lula salientou que “não existe muito milagre, não existe invenção. Em economia não tem mágica. Tem três palavras que considero as coisas mágicas da economia: estabilidade, credibilidade e previsibilidade. Se a gente conseguir estabelecer o funcionamento dessas três palavras, a economia volta a crescer como no período em que fui presidente da República”. Lula afirmou, ainda, que “não discutimos as mazelas da economia. Temos que discutir o que vamos fazer para mudar. Essa é a nossa tarefa”.
Durante a entrevista, Lula defendeu a necessidade de estimular o setor industrial e ao mesmo tempo, cuidar da área ambiental. Também salientou a importância da busca da paz na guerra entre Rússia e Ucrânia. E tratou de outros temas como a política de preços da Petrobras; o novo ensino médio; a tramitação das medidas provisórias no Congresso Nacional e a indicação à vaga do Supremo Tribunal Federal (STF), aberta com a aposentadoria do ministro Ricardo Lewandowski.
A voz do mercado
Apesar do amplo leque de assuntos — muitos dos quais permeiam a economia — boa parte do noticiário ficou nas declarações de Lula sobre o Banco Central, a política de juros e as metas inflacionárias.
“Só posso dizer para vocês: essa taxa de juros é incompreensível para o desenvolvimento do país. Nós vamos ter que encontrar um jeito de que o Banco Central comece a reduzir a taxa de juros. Não é compreensível, porque nós não temos inflação de demanda, não existe inflação de demanda no país”, apontou Lula.
O presidente continuou dizendo que viu “uma frase esses dias, que eu não sei se foi dita pelo presidente do Banco Central, de que para atingir a meta de 3% precisaria ter juros de 20%. Olha, eu não sei se foi verdade, se ele disse isso, mas é, no mínimo, uma coisa não razoável de ser dita, porque se a meta está errada, muda-se a meta”.
Pronto: foi o suficiente para que o noticiário se voltasse para o “mercado”, que teria ficado ouriçado com as falas do presidente. Segundo a Folha de S.Paulo, após a declaração, “dólar e juros futuros operavam em alta”. Nos noticiários de TV, comentaristas exploraram o assunto, em boa medida, novamente, vocalizando os desejos do mercado financeiro que, como mostrou pesquisa recente, vai contra o que pensa a maioria da população.
Pesquisa Datafolha divulgada no dia 2 de abril mostrou que 80% dos brasileiros avaliam que Lula age bem ao pressionar o BC para reduzir a taxa de juros, que hoje está em 13,75%, figurando entre as maiores do mundo. A política do BC — e a população percebe isso — beneficia o mercado, mas recai diretamente sobre o dia a dia das famílias, encarecendo e limitando o consumo, e trava o crescimento e o desenvolvimento do país.
No entanto, mais uma vez, boa parte da mídia seguiu o caminho de sempre: valorizar as “preocupações” do mercado em detrimento dos interesses do país que, no limite, diz respeito à entrada do pobre no orçamento. É a velha luta de classes, com roupagem de jornalismo desinteressado e imparcial.
O presidente Lula encaminhou mensagem ao Congresso Nacional pedindo que o Parlamento retire da pauta de tramitação três propostas que foram encaminhadas durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre os pedidos de Lula, está para que o Congresso suspensa a tramitação do projeto que pode isentar militares e agentes de segurança de punição quando estiverem em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
Os pedidos de Lula foram publicados no Diário Oficial da União desta quinta-feira (6). O projeto do chamado excludente de ilicitude foi encaminhado por Bolsonaro em 2019, alçado por uma grande campanha coordenada pelo então ministro da Justiça e hoje senador, Sérgio Moro (União-PR).
O projeto que tramita no Congresso pede que a reação policial passe a ser considerada legítima defesa em casos de injusta agressão. Com isso, deixariam de ser consideradas crime as mortes e lesões ocorridas em confrontos policiais em que o militar reagir por injusta agressão.
Neste projeto, a suposta injusta agressão é entendida como prática ou iminência de prática de terrorismo ou de conduta capaz de gerar morte ou lesão corporal, restrição à liberdade de vítima com violência ou grave ameaça e porte ou utilização ostensiva de arma de fogo. O projeto é, portanto, um pouco mais conservador que o proposto pelo ministro Sergio Moro no pacote anticrime, que defendia a redução da pena imposta a agentes de segurança que praticam crimes em situações de iminente agressão como essas mas também em situações de “medo, surpresa ou violenta emoção”.
Como o projeto não foi aprovado por comissões da Câmara, a decisão de acatar ou não o pedido de Lula cabe ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Se Lira acatar o pedido, o projeto será arquivado.
O outro pedido feito por Lula foi para que o Congresso interrompa a tramitação de um projeto de lei que desobriga o envio de recursos do pré-sal para o Fundo Social. Este fundo destina verbas para a saúde, educação e outras áreas sociais, áreas que o governo quer fortalecer durante a terceira gestão de Lula. A pauta é uma reivindicação das entidades ligadas às áreas, que nos últimos anos reclamam que a falta de recursos sufocou as áreas.
Esse projeto é mais recente, e foi enviado ao Congresso por Bolsonaro em seu último ano de mandato, 2022. Atualmente, a regra do Fundo Social prevê que 50% de todos os recursos desse fundo sejam destinados à saúde e educação e é exatamente este ponto que a proposta de Bolsonaro tenta alterar.
IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.
O presidente Lula chega a 100 dias do seu terceiro mandato em meio a uma crise instalada entre os presidentes das duas Casas que compõem o Congresso Nacional, cujas incertezas derramadas sobre a política fazem o governo derrapar até mesmo em ações classificadas como simples, como é o trâmite das medidas provisórias (MPs).
Na prática, o terceiro governo de Lula, que completa 100 dias nesta segunda-feira (10), ainda não conseguiu testar seu poder de articulação junto ao Congresso Nacional. Medidas necessárias para a manutenção do governo, como o novo Bolsa Família, precisaram ser prorrogadas, a fim de que não fossem perdidas em meio à batalha travada entre Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado e do Congresso Nacional, e Arthur Lira (PP-AL), que comanda a Câmara. Ambos tensionam o debate político em torno do poder de atuação das Casa diante das medidas provisórias.
Nos bastidores, aliados do governo admitem que o problema tem sido, exatamente, a falta de controle sobre as ações dos presidentes das duas Casas. Sobretudo de Lira, que não tem se mostrado disposto a ceder às decisões determinadas por Pacheco, que é o presidente do Congresso e, assim, tem, constitucionalmente, poder de decisão superior neste tema.
Comissões mistas
Apesar de Pacheco ter determinado a retomada das comissões mistas para a análise de medidas provisórias, essas ainda não foram instaladas. O líder do Governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), tenta chegar a um acordo com os líderes partidários para a composição dos colegiados, mas mesmo as longas conversas feitas na semana que antecedeu a Páscoa não resultaram ainda em consenso. Ninguém parece disposto a abrir mão de poder em prol dos apelos do governo.
“Repensar o modelo de tramitação das MPs é um dever de todos os que prometeram manter, defender e cumprir a Constituição, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado Federal. O país tem pressa, e não podemos nos perder em contendas intermináveis”, escreveu o presidente da Câmara, em artigo publicado na Folha de S.Paulo nesse domingo (9).
Enquanto Lira e Pacheco não cedem, o governo tenta convencer a ele próprio que os recuos que necessitou efetuar fizeram parte de um acordo. Foi o que aconteceu na primeira semana de março quando o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, afirmou que o governo federal chegou a um entendimento com o Congresso Nacional para instalar as comissões mistas para votar quatro medidas provisórias (MPs).
Segundo o ministro, deverão ser analisadas as medidas que tratam da estrutura ministerial da Esplanada, das regras do Conselho de Administração de Recursos Fiscais (Carf), do Minha Casa Minha Vida e do Bolsa Família. O Bolsa Família e outras 15 medidas estão parados no Congresso diante do impasse travado em relação ao rito de tramitação das MPs. Com a decisão, as medidas têm validade estendida por mais 60 dias, o que amplia o respiro de votação ao governo.
É exatamente nessas comissões que Randolfe se debruça para que o governo não perca o controle nas indicações. A expectativa dos apoiadores do governo é que todas as comissões sejam definidas ainda nesta semana em que o governo completa 100 dias, enquanto Lula estiver em sua primeira viagem do atual mandato na China.
Na comitiva que viajará com Lula está a prevista a presença do presidente do Senado. Arthur Lira, embora tenha sido convidado, não deve viajar por recomendação médica. Há uma expectativa de que o longo tempo da viagem possa fazer com que Lula consiga ali fazer conversas que ajudem no entendimento.
AUTORIA
IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.