por NCSTPR | 13/10/22 | Ultimas Notícias
O xerife da ordem econômica capitalista condenou o novo favor do governo inglês aos super-ricos. Turbulências sugerem: um novo repique da crise global aberta em 2008 pode estar próximo.
Yanis Varoufakis
Em 30 de setembro, o Fundo Monetário Internacional assustou os mercados e surpreendeu os comentaristas ao repreender o governo conservador do Reino Unido por irresponsabilidade fiscal. O choque foi evidente. A crítica do FMI ao governo de uma grande economia ocidental é como um zelador repreendendo o proprietário por colocar em risco o valor avaliado do prédio. Essa sensação de inversão da ordem usual das coisas foi ainda mais nítida porque, não esqueçamos, foram os conservadores britânicos, sob a rígida liderança de Margaret Thatcher, que ditaram a regra sobre a probidade fiscal como alicerce do neoliberalismo. O FMI passou mais de quatro décadas impondo essa ortodoxia a governos em todo o mundo.
Como numa tentativa de amplificar a agitação que certamente causaria, o comunicado do FMI chegou a censurar o governo britânico por introduzir grandes cortes de impostos (agora parcialmente cancelados após a intervenção do Fundo), porque eles iriam principalmente “beneficiar os que ganham mais” e “provavelmente aumentar a desigualdade”. Os conservadores leais à sitiada nova primeira-ministra da Grã-Bretanha, Liz Truss, os republicanos mais vigorosos dos EUA, analistas econômicos internacionais e até mesmo alguns de meus camaradas de esquerda ficaram brevemente unidos por uma perplexidade comum: desde quando o FMI se opõe a mais desigualdade? Seria difícil identificar um único “programa de ajuste estrutural” do FMI que não aumentou a desigualdade. Se duvidar, pergunte à Argentina, Coreia do Sul, Irlanda ou Grécia (onde fui ministro das Finanças e tive que negociar com o FMI) sobre as restrições associadas a seus empréstimos. Os burocratas intransigentes do Fundo teriam passado por um momento como o da “estrada de Damasco”?
Três teorias surgiram sobre os motivos do FMI para se opor aos cortes de impostos do Reino Unido para os ricos. Uma delas é que o conselho do Fundo temia que a instituição tivesse dificuldade para arrecadar dinheiro suficiente, se Londres viesse a solicitar um resgate. Outra teoria, expressa pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, é que o FMI agora entendia que deveria mostrar imparcialidade em suas negociações com países ricos e pobres. “Quando há uma situação de crise ou políticas manifestamente irresponsáveis, é meio natural que o FMI faça algum tipo de registro”, disse Summers ao Financial Times, acrescentando: “Não acho que o FMI deva distinguir entre acionistas ricos e seus acionistas de mercados emergentes”.
Uma terceira teoria seguiu a lógica da conversão paulina, sugerindo que a declaração do FMI condenando as doações do governo Truss para os ultrarricos poderia marcar uma mudança radical na instituição sediada em Washington. De acordo com essa visão, o FMI estava percebendo que para salvar a ordem liberal internacional dos vários populistas autoritários ascendentes no mundo – como Donald Trump, Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Viktor Orbán, Narendra Modi e Jair Bolsonaro – era preciso mudar sua missão para uma direção mais social-democrata.
Apesar de hipóteses interessantes, nenhuma dessas explicações se encaixa com a realidade à qual o FMI respondeu com a surpreendente declaração da semana passada. A noção de que Londres requererá um resgate grande demais para o FMI é absurda. A Grã-Bretanha é um país rico, que toma emprestado exclusivamente em uma moeda impressa pelo Banco da Inglaterra. Se o pior acontecesse, o Banco da Inglaterra poderia aumentar as taxas de juros para até 6% para estabilizar a libra esterlina e os mercados monetários. Uma taxa de juros nesse nível certamente demoliria o modelo econômico do Reino Unido dos últimos 40 anos, mas seria preferível a um resgate do FMI.
E tenho experiência em primeira mão que contradiz a teoria de que o FMI só agora, pela primeira vez, decidiu confrontar um país do G7 cujas políticas considera ameaçar a estabilidade financeira global. Em minhas negociações como ministro das Finanças da Grécia com o Fundo, em 2015, os principais funcionários foram abertamente contundentes sobre a rejeição do governo alemão de um plano de reestruturação total da dívida pública da Grécia; acusaram Berlim de minar a estabilidade financeira da Europa e, por extensão, do mundo.
Um ano depois, em uma conversa telefônica entre altos funcionários do FMI publicada pelo WikiLeaks, seu chefe europeu disse a um colega que o Fundo deveria confrontar a chanceler alemã Angela Merkel e dizer: “A senhora está diante de um dilema. Precisa pensar no que é mais caro: seguir em frente sem o FMI, ou escolher o alívio da dívida que achamos que a Grécia precisa para nos manter a bordo.” Nessa segunda teoria, o FMI agora deveria começar a agir em relação aos governos ocidentais da mesma forma que faz com os países em desenvolvimento.
Isso nos leva à terceira, e mais interessante, das três explicações: para salvar a ordem liberal global do populismo de direita, o FMI está se tornando social-democrata, até mesmo “woke”: como alguns conservadores britânicos têm acusado. A verdade, temo, é menos heroica. O que aconteceu na semana passada é simplesmente que o FMI entrou em pânico. Assim como outras pessoas inteligentes do governo dos EUA e do Federal Reserve, seus funcionários temiam que o Reino Unido estivesse prestes a fazer com os Estados Unidos e o resto do G7 o que a Grécia havia feito com a zona do euro em 2010: desencadear uma crise financeira num incontrolável efeito dominó.
Nos dias que antecederam a declaração de “mini-orçamento” do governo Truss, o mercado de US$ 24 trilhões de bônus do Tesouro dos EUA, cuja saúde decide se o capitalismo global respira ou engasga, já havia entrado no que um analista financeiro chamou de “vórtice de volatilidade”, algo não visto desde o crash de 2008 ou os primeiros dias da pandemia. O rendimento do título de referência de dez anos do governo dos EUA aumentou acentuadamente de 3,2% para mais de 4%. Pior ainda, um grande número de investidores evitou um leilão de novas dívidas dos EUA. Nada assusta mais as autoridades do que o espectro de uma greve de compradores nos mercados de títulos dos EUA.
Para acalmar os nervos dos investidores, as autoridades defenderam-se com mensagens tranquilizadoras. Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve de Minneapolis, resumiu o estado de espírito assim: “Estamos todos unidos em nosso trabalho para reduzir a inflação para 2% e estamos comprometidos em fazer o que precisamos para que isso aconteça.” Este foi o momento em que o governo do Reino Unido decidiu anunciar a política fiscal mais expansionista da Grã-Bretanha desde 1972.
As autoridades norte-americanas não foram as únicas a se preocupar. Dias antes desse “evento fiscal” do governo de Londres, o Conselho Europeu de Risco Sistêmico – um órgão estabelecido pela União Europeia após a crise de 2008-2009 – emitiu seu primeiro aviso geral, confirmando que os mercados financeiros da Europa haviam caído no vórtice de volatilidade que se originou nos Estados Unidos. Os fornecedores de eletricidade da Europa faliriam devido a compromissos com pedidos futuros a preços exorbitantes, a poderosa indústria manufatureira da Alemanha fecharia por causa da escassez de gás natural e a dívida pública e privada subiria rapidamente.
Um choque financeiro extra do Reino Unido tinha o potencial de causar enormes efeitos colaterais em toda a Europa e além. Se o mercado subprime dos EUA pôde empurrar os bancos franceses e alemães para a beira de um precipício em 2008-09, essa última onda de choque da anglosfera poderia causar danos semelhantes, especialmente se abalasse o mercado de títulos do Tesouro dos EUA.
Diante dessa crescente tempestade transatlântica, a decisão do FMI de intervir não foi surpreendente. O único enigma restante é por que o FMI apontou os ultrarricos como beneficiários da desigualdade ampliada pelos cortes de impostos do governo Truss. Embora a força das circunstâncias tenha mudado de forma significativa, duvido que isso signifique o fim dos instintos neoliberais do FMI. Muito mais provável é o seguinte: o FMI percebeu que as políticas de geração de desigualdade pós-2008, que ajudou a aplicar, mergulharam o capitalismo do Atlântico Norte em um estado de estagnação que agora é instável, e teme que esse vórtice de volatilidade piore com as novas medidas, e que isso criasse desigualdade ainda maior. Se o FMI começou a não gostar da desigualdade, é apenas porque a vê como causadora de instabilidade sistêmica.
Após o colapso financeiro de 2008, os EUA e a UE adotaram uma política de socialismo para banqueiros e austeridade para as classes médias e os trabalhadores. Isso acabou por sabotar o dinamismo do capitalismo ocidental. A austeridade encolheu os gastos públicos precisamente quando os gastos privados estavam em colapso, e isso acelerou o declínio dos gastos públicos e privados. Em outras palavras, fez despencar a demanda agregada na economia. Ao mesmo tempo, a flexibilização quantitativa [quantitative easing] dos bancos centrais canalizou rios de dinheiro para o Big Finance, que o repassou para o Big Business, que, diante dessa baixa demanda agregada, o utilizou para recomprar suas próprias ações e outros ativos improdutivos.
A riqueza pessoal de alguns disparou, os salários da maioria estagnaram, o investimento desmoronou, as taxas de juros despencaram e os Estados e as corporações tornaram-se viciados em dinheiro grátis. Então, quando os bloqueios da pandemia sufocaram a oferta de bens e os auxílios governamentais aumentaram a demanda, a inflação voltou. Isso forçou os bancos centrais a escolher entre concordar com o aumento dos preços ou destruir os zumbis corporativos e estatais que eles alimentaram por mais de uma década. Eles escolheram o primeiro.
De repente, porém, o FMI viu a capacidade perdida do establishment liberal de estabilizar o capitalismo refletida no aumento da desigualdade econômica. Assim, a última coisa que os mercados precisavam, perceberam os tecnocratas do Fundo, era mais socialismo para os ricos. Mas seria preciso muita boa vontade para interpretar a reação de pânico do FMI como uma conversão sincera à redistribuição econômica e à social-democracia. Foi apenas uma advertência contra um ato de automutilação da elite.
Yánis Varoufákis é economista, blogger e político grego membro do partido SYRIZA. Foi o ministro das Finanças do Governo Tsipras no primeiro semestre de 2015. Varoufákis é um assíduo opositor da austeridade. Desde a crise global e do euro começou em 2008, Varoufákis tem sido um participante ativo nos debates ocasionados por esses eventos.
Fonte: Outras Palavras, com The Atlantic
Tradução: Vitor Costa
Data original da publicação: 07/10/2022
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/crise-financeira-ate-o-fmi-teme-o-pior/
por NCSTPR | 13/10/22 | Ultimas Notícias
Prática da negociação é parte das instituições da democracia e deve ser fortalecida.
Clemente Ganz Lúcio
Anegociação coletiva é um instrumento central do sistema de relações de trabalho para regular o emprego e os salários, as condições de trabalho, a distribuição da produtividade, o combate às desigualdades, as respostas às mudanças no mundo do trabalho e, não menos importante, contribui para o desenvolvimento econômico e social.
A OCDE elaborou um estudo sobre o estado da arte da negociação coletiva[1] em 36 países, considerando que esse direito fundamental é instituição fundamental do mercado de trabalho para promover o equilíbrio entre a flexibilidade demanda pelo sistema produtivo e as proteções pautadas pelos trabalhadores.
O estudo destaca três funções para a negociação coletiva:
- Função inclusiva: dimensão que trata dos reajustes salariais para preservar o poder de compra; dos aumentos dos salários para incorporar os ganhos de produtividade; dos benefícios associados ao transporte, alimentação, saúde, educação; da regulação da jornada e do tempo de trabalho; dos investimentos e políticas voltadas para a formação profissional.
- Função de gestão de conflitos: para tratar dos problemas presentes nas relações e gestão do trabalho desde o chão da empresa, passando pelas relações laborais setoriais, com impactos relevantes sobre a redução da judicialização dos conflitos laborais.
- Função de proteção: trata da segurança no emprego; da observação das condições de trabalho; das medidas para garantir a saúde e segurança; as iniciativas para atuar em relação aos impactos das inovações tecnológicas; das políticas voltadas para as proteções sociais, laborais e previdenciárias.
A negociação coletiva pode ter impacto sobre a dispersão salarial e as desigualdades de rendimento, seja afetando diretamente o emprego, seja influindo na gestão dos salários setorialmente ou no nível da empresa, com impactos fiscais e nos sistemas de proteção trabalhista e previdenciária.
A melhoria da relação de emprego entre trabalhadores e empresa é uma atribuição importante para investir na autorregulação, visando dar estabilidade e paz às relações de trabalho, com impactos relevantes à eficiência do sistema produtivo e de incremento da produtividade.
Outra dimensão destacada da negociação coletiva é travar a concorrência salarial espúria entre empresas que ocorre quando aumentam seus lucros através da redução dos salários. Outro objetivo é limitar o poder monopsônico das empresas na relação desigual com o trabalhador individualmente, reequilibrando o poder para superar desigualdades na relação e combater a assimetria de informação.
A depender da forma como a organização sindical se torna mais agregadora e da sua representatividade, as experiências de negociação coletiva evidenciam que as desigualdades salariais e de condições de trabalho são reduzidas, com impactos mais robustos para mulheres, indígenas, trabalhadores fora do padrão, jovens e imigrantes.
As características do sistema de relações de trabalho e de negociação coletiva podem ter incidência virtuosa sobre o desemprenho econômico e social do desenvolvimento, favorecendo a inovação e o aumento da produtividade, bem como melhorando as condições de vida da coletividade. Um exemplo é a redução da jornada de trabalho, com impactos substantivos sobre o tempo livre dos trabalhadores e com reflexos sobre as múltiplas atividades que se expandem em termos de consumo e serviços, de bem-estar e de impactos positivos sobre a produtividade do trabalho.
Do mesmo modo, políticas gerais como a do salário mínimo ou de proteção dos empregos têm relação direta com os conteúdos tratados pela negociação coletiva e com a condições trabalhistas gerais definidas em lei.
Investir no fortalecimento da negociação coletiva em todos os níveis robustece a cultura política do diálogo social para o tratamento das questões nacionais ou estruturais, para construir projetos e compromissos mais amplos com impactos gerais para toda a sociedade.
Portanto, devemos conceber o sistema de relações de trabalho e de negociação coletiva como parte das instituições da democracia de um país, do processo de deliberação e de escolhas, com diálogos bem estruturados a partir de organizações representativas. Dessa maneira se amplia a capacidade de a sociedade fazer da política um instrumento de construção do seu presente e de formular compromissos para construir o seu futuro.
Nota
[1] OECD (2019), “Negotiating Our Way Up: Collective Bargaining in a Changing World of Work”, OECD Publishing, Paris, disponível em: https://www.oecd.org/employment/negotiating-our-way-up-1fd2da34-en.htm
Clemente Ganz Lúcio é sociólogo, assessor do Fórum das Centrais Sindicais, consultor, ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/a-negociacao-coletiva-e-o-desenvolvimento/
por NCSTPR | 13/10/22 | Ultimas Notícias
Há múltiplas análises do resultado no 1º turno da disputa presidencial entre Lula e Bolsonaro. Todas surpresas com o avanço eleitoral do presidente, contrariando previsões dos principais institutos de pesquisas. Pelos locais de votação via-se muito mais roupas vermelhas (eleitores de Lula) que verde e amarelo (eleitores do inominável).
Frei Betto*

Fica a pergunta: como explicar tão surpreendente avanço de quem sabotou o combate à pandemia, reduziu drasticamente os orçamentos da Saúde e da Educação, e demonstra abertamente desprezo por mulheres, pobres, indígenas e negros?
Como respostas há várias hipóteses. Fico com uma.
Toda pessoa se inclui em um sistema de sentido, ainda que disso não tenha a menor consciência. Vale para o monge budista e para o chefão do narcotráfico. Grosso modo há, hoje, 2 sistemas de sentido que imprimem razão de viver: o neoliberalismo e o socialismo ou comunidades de partilha, como as indígenas. Dentro desses 2 sistemas há subsistemas, e o mais expressivo é a religião.
Na Idade Média, a religião foi sistema predominante no Ocidente, o mais abrangente de todos os sistemas criados até hoje. Seu arco se estende do mais íntimo (a culpa por uma ofensa) ao mais coletivo (a sociedade de justiça e paz). A religião “explica” desde a origem do Universo até o que ocorre a cada pessoa após a morte. Como ironizam os cientistas, os físicos têm perguntas; os teólogos, respostas.
Como sistema de sentido, a religião não exige dos fiéis estudos e status, basta acatar os preceitos e a doutrina como verdades de fé e confiar (verbo que deriva de ‘com fé’) na palavra daqueles que, revestidos de suposta sacralidade (o ministro da confissão religiosa), gozam da prerrogativa de falar em nome de Deus!
Numa sociedade em que a maioria da população tem baixa escolaridade e pouca renda, o espaço religioso atrai como refúgio frente aos sofrimentos, ao desamparo, à competividade que campeia na vida social. Ali o fiel encontra lógica para entender (e aceitar ou criticar) porque o mundo é o que é, com suas desigualdades e violências. Vivencia, solidariedade, consolo, amparo e, sobretudo, resgata a autoestima. O “zé ninguém” da vida cotidiana se sente promovido no espaço religioso como filho ou filha de Deus, ministro da Palavra, pai ou mãe de santo etc.
Era isso que as Comunidades Eclesiais de Base ofereciam a milhões de participantes Brasil afora entre as décadas de 1970 e 1990. Entretanto, foram atropeladas pelos pontificados conservadores de João Paulo 2º e Bento 16. Esse refluxo favoreceu o avanço das igrejas evangélicas entre as classes populares. A maioria abraça o neoliberalismo como sistema de sentido. Consideram que a salvação pessoal neste e no outro mundo é mais importante que lutar por sociedade mais justa.
Aliás, o social viria como acúmulo de virtudes pessoais… Não se enxerga a floresta, apenas as árvores. Se há gente na miséria é porque se desviou dos caminhos do Senhor e não perseverou nas virtudes morais. Vide aqueles que, na igreja, vieram de uma vida de devassidão, bebidas, mulheres, jogatina e, ao abraçar a fé no Senhor, resgataram o equilíbrio familiar, abandonaram os vícios e, hoje, prosperam social e financeiramente.
São lógicas opostas: enquanto os progressistas querem mudar a sociedade para que as pessoas mudem, os fundamentalistas querem mudar as pessoas para que a sociedade mude. Os primeiros atuam sob o paradigma do social (política). Os segundos, do pessoal (moral).
A esse contingente evangélico, a esquerda ainda não aprendeu a falar. Guarda ranços dos preconceitos antirreligiosos do marxismo vulgar. E é desses cristãos fundamentalistas, dispostos à “servidão voluntária”, que Bolsonaro obtém mais apoio. Não há argumento que consiga demovê-los, pois não pensam com a razão, e sim com a emoção temperada por algo que transcende a razão: a fé. Tenho conversado com muitos deles. Argumentam que se a situação brasileira está ruim não é culpa do presidente, e sim da pandemia e da guerra na Ucrânia.
A militância progressista e de esquerda tende a demonizar essa multidão de evangélicos fiéis a Edir Macedo, Malafaia e outros próceres mercadores da fé. Não se dá ao trabalho de tentar compreender a vertiginosa expansão das igrejas evangélicas. E não domina a única linguagem capaz de estabelecer algum diálogo com este segmento: a hermenêutica bíblica.
Agora já não há tempo suficiente para os eleitores de Lula redirecionarem a postura frente aos evangélicos eleitores de Bolsonaro. Mas isso terá que ser feito, sob pena de o Brasil caminhar para neocristandade capaz de minar o Estado laico e cobrir de bênçãos as armas dos milicianos.
Nestes poucos dias que nos restam para o 2º turno, a tarefa, urgente, é evitar que o debate eleitoral fique refém de “cruzada religiosa”, alheio às causas da penúria de nosso povo; convencer os indecisos da pertinência de eleger Lula, desconstruindo o “mito” ao revelar a verdadeira face de corrupto, miliciano, preconceituoso e administrador falido; convocar mobilizações presenciais e virtuais; e torcer para que o PT e a coordenação da campanha acertem na propaganda eleitoral e na costura de amplos apoios.
(*) Escritor, autor de “Tom vermelho o verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: www.freibetto.org
DIAP
https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91183-por-que-bolsonaro-surpreendeu-no-1-turno
por NCSTPR | 13/10/22 | Ultimas Notícias
Com a nova composição partidária eleita, neste pleito para o Congresso, é possível estimar que independentemente de a eleição do próximo presidente Republica, sendo Jair Bolsonaro (PL), ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ambos os candidatos têm potencial para assegurar base de apoio parlamentar consistente — seja na Câmara ou no Senado.
Neuriberg Dias*
Caso o atual presidente Bolsonaro seja reeleito ele poderá ter cenário mais favorável para governar, pois, incialmente possui base formada na atual legislatura de agrupamento de partidos do chamado “Centrão”, bem como devido ao ingresso de mais parlamentares de direita no espectro ideológica da Casa.

Além do PP do deputado Arthur Lira (AL), presidente da Câmara dos Deputados, e do senador Ciro Nogueira (PP-PI), chefe da Casa Civil da Presidência da República, o PL, partido do presidente e Republicanos, formam base consistente do Executivo no Congresso.
Estes partidos juntos somam mínimo de 187 cadeiras na Câmara dos Deputados. Bolsonaro poderá alcançar máximo de 380, com o apoio condicionado de partidos de direita, centro-direita e centro.
No Senado Federal, onde o partido dele (PL) também elegeu mais senadores, tende a ter vantagem. São estimados no mínimo 24 senadores na base, e no máximo pode contar com até 58 parlamentares em defesa da agenda dele na Casa.
Lula
O ex-presidente Lula, caso seja eleito para o terceiro mandato ao Planalto, também deve formar base de sustentação que tem construído durante a campanha, com partidos de centro e poderá ampliar até para os partidos de centro-direita, que atualmente fazem parte da base do atual presidente da República.

A ampla coligação — formada pelo PT, PCdoB, PV, SD, PSol, Rede, PSB, Agir, Avante e Pros — reúne partidos que vão da esquerda ao centro, e que possuem ao todo 122 parlamentares na Câmara dos Deputados.
Computado o PSB, PDT, PSol e Rede, o apoio sobe para 167 parlamentares que forma a chamada base consistente. Lula teria, ainda, a possibilidade de alcançar no máximo 342, com adesão de base condicionada na Casa.
No Senado, a previsão seria no mínimo 13, podendo chegar ao máximo de 50 senadores na formação de coalisão de apoio na Casa. Partidos como MDB, PSD, até do atual Centrão, tendem a compor essa base em eventual governo Lula, como ocorreu entre 2003 e 2010, respectivamente, no primeiro e segundo mandatos.
Três aspectos são importantes:
1º) desde as eleições de 1998, cada presidente da República fez o chamado “dever de casa” ao ampliar as bancadas de sustentação: FHC 1 (PSDB), 37 para 62; Lula 1 (PT), de 58 para 91; Dilma 1 (PT), de 83 para 88; e Lula ou Bolsonaro elegeram, respectivamente, 80 e 99;
2º) houve mais circulação no poder, com a eleição de parlamentares da política tradicional do que ocorreu no pleito de 2018, com os chamados “outsiders”, aquele cidadão que buscava ingressar no meio político com os discursos de que não estava “contaminado” com os vícios de políticos tradicionais e com isso surfaram na onda antipolítica da época, e, talvez o mais importante; e
3º) novo desenho institucional com Congresso mais independente em relação ao Executivo, com concentração de poder em poucos partidos e que não vai abrir mão do poder orçamentário que adquiriu na atual legislatura.
Relação do presidente com o Congresso
Portanto, o que definirá o comportamento do novo Congresso eleito em 2023 vai ser o perfil do próximo presidente da República.

Sendo reeleito Bolsonaro, a agenda vai mais à direita. Com a vitória de Lula, vai haver movimento moderado mais ao centro.
E, na hipótese da eleição de Lula, os atuais presidentes das casas — Câmara e Senado — em particular, Arthur Lira (PP-AL), não garante reeleição automática para o cargo de presidente da Câmara. Essas são as expectativas da correlação de forças que emergiu das urnas para 2023, no âmbito do Congresso Nacional.
(*) Jornalista, analista político e diretor de Documentação licenciado do Diap. Sócio-diretor da Contatos Assessoria Política
DIAP
https://diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/91184-base-de-apoio-do-governo-no-congresso-eleito-em-2022
por NCSTPR | 13/10/22 | Ultimas Notícias
Em 12 meses, diversos produtos da cesta básica acumularam aumentos elevados. É o caso da cebola (inflação de 127% em um ano), do café (37%), do leite (37%) e da farinha de trigo (35%).
Mesmo registrando deflação há três meses, o Brasil ainda não se livrou da alta no preço dos alimentos. Considerada uma das mais perversas marcas do governo Jair Bolsonaro (PL) – que desdenhou do problema –, a carestia é também um dos fatores que praticamente inviabilizam a reeleição do presidente.
Nos últimos 12 meses, conforme o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), houve uma inflação acumulada de 7,17%. Com os alimentos, porém, a alta acumulada é quase duas vezes maior – o que impacta sobretudo as camadas mais pobres da população.
Não por acaso, conforme o Ipec, Bolsonaro tem apenas 28% de intenções de voto entre os eleitores que ganham até um salário mínimo, contra 65% do ex-presidente Lula (PT). É o pior desempenho de Bolsonaro nos recortes da pesquisa por renda.
Em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, Pedro Kislanov, gerente do Ipca-IBGE, afirma que há bens duráveis até mais baratos hoje do que há um amo, como a televisão e o computador. No caso dos alimentos, nenhum produto analisado na pesquisa teve deflação em 12 meses.
“Os bens duráveis têm um comportamento mais estável na comparação. No começo da pandemia, houve uma demanda mais reprimida pelos bens duráveis e também na parte do setor de serviços”, diz Kislanov. “Essa demanda foi sendo retomada aos poucos, principalmente com a melhora do cenário da pandemia.”
Os alimentos, porém, não se beneficiaram diretamente do refluxo da crise sanitária e seguem com preços altos, já que a demanda sofre poucas oscilações. “Os preços podem subir, e as pessoas substituem um produto mais caro por outro um pouquinho mais barato”, explica a professora Juliana Inhasz, do Insper. “Na média, elas continuam consumindo o mesmo tanto de alimento.”
O encarecimento dos produtos da cesta básica se iniciou em 2020, já durante a pandemia de Covid-19 – e até hoje não foi inteiramente revertida. A carestia se agravou em 2021.
Nos últimos 12 meses, mesmo com o registro pontual de deflações, diversos produtos da cesta básica acumularam aumentos elevados. É o caso da cebola (inflação de 127% em um ano), do café (37%), do leite (37%) e da farinha de trigo (35%).
O programa de Lula dá ênfase às medidas de combate à carestia e à fome. “Trabalharemos de forma incansável até que todos os brasileiros e as brasileiras tenham novamente direito ao menos a três refeições de qualidade por dia”, aponta a plataforma da coligação Brasil da Esperança.
Entre as propostas de Lula, consta a retomada do Bolsa Família. O beneficiário receberá R$ 600 por mês, com acréscimo de R$ 150 para cada criança com até seis anos. Para garantir comida mais barata, o programa prevê apoio aos pequenos produtores e a volta do estoque de alimentos.
VERMELHO
https://vermelho.org.br/2022/10/12/inflacao-dos-alimentos-a-perversa-marca-do-governo-bolsonaro/