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A revolução do Emprego Digno Garantido

A revolução do Emprego Digno Garantido

Como superar a herança neoliberal? Em carta a Lula, economistas propõem que Estado assegure a todos um trabalho com salário digno e direitos. Porque a ideia é transformadora.

Antonio Martins

Às véspera de seu primeiro turno, as eleições mais importantes da história do Brasil parecem marcadas por dois afetos. O primeiro é uma alegria ansiosa, diante da expectativa de superar o pesadelo. O segundo é a incerteza sobre o que virá, após a possível vitória de Lula . Será possível sonhar com a reconstrução do país em novas bases — com um governo que, além de restaurar os chamados “programas sociais”, inicie as reformas estruturais necessárias para começar a vencer 500 anos de colonialismo? Ou este projeto permanecerá bloqueado pela gargalheira de ferro neoliberal, que estrangula o país há quatro décadas?

Ganhou impulso esta semana uma ideia que pode ser abre-alas de uma saída não-conformista. É o Programa de Garantia de Emprego (PGE). Na segunda-feira (26/9), foi o núcleo de uma carta aberta dirigida a Lula pelo IFFD — um think-tank que reúne jovens economistas e velhos mestres, como Luiz Gonzaga Belluzzo e Antonio Correia de Lacerda. O texto está publicado também por Outras Palavras. Um dia depois, o PGE foi o tema de uma palestra da economista norte-americana Pavlina Tcherneva (Bard College), introduzida por seu colega André Lara Resende e moderada pela professora Simone Deos, da Unicamp.

Embora de nome singelo, o Programa de Garantia de Emprego tem enorme potência antissistêmica. Como política social, ele é remédio para o drama de dezenas milhões de pessoas desempregadas e precarizadas. Como ferramenta política, pode anular, na prática, anos de desconstrução das leis trabalhistas (com a vantagem de socorrer, além dos CLTs, também os trabalhadores de plataforma). Como vislumbre pós-capitalista, assinala a possibilidade de desmercantilizar o trabalho, dissociando-o da submissão a um empregador e aproximando-o da realização de tarefas necessárias à comunidade. E além destes papeis múltiplos, o PGE tem uma vantagem adicional: ele apresenta-se não como uma proposta ideológica abstrata — mas como solução concreta e viável para problemas reais que afligem e sensibilizam as maiorias.

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O Programa de Garantia de Emprego materializa-se num compromisso. Os governos que o adotam comprometem-se a oferecer ocupação a toda e qualquer pessoa que esteja disposta a trabalhar. Os salários são dignos. Os direitos (jornada máxima, descanso semanal, férias, 13º, aposentadoria, afastamento remunerado em caso de doença e acidente e todos os demais) estão assegurados. Pode haver benefícios adicionais: em especial, formação para recuperar déficit educacional (algo de enorme importância no Brasil).

O que parece fantasia, nas condições selvagens do neoliberalismo, já existiu no passado e existe no presente. Construído em teoria pelo economista Hyman Minsky, o PGE foi adotado de forma embrionária nos EUA, durante o New Deal proposto pelo presidente Franklin Roosevelt. Existe hoje na Índia, com enorme popularidade e eficácia. Por meio da Lei Mahatma Gandhi de Garantia Nacional do Emprego Rural (NREGA, em inglês), o Estado emprega e remunera, por 100 dias ao ano, centenas de milhões de agricultores, o que contribui de modo decisivo para a preservação da agricultura camponesa. Embora em escala menor, está presente na Argentina, por meio do plano Jefas y Jefes de Hogar.

Em que trabalharão estas pessoas – no caso brasileiro, milhões? Em sua palestra, Pavlina Tchernova referiu-se a um tema contemporâneo crucial: o desemprego tecnológico e como responder a ele. A automação e a robotização, lembrou ela, não precisam nem deveriam eliminar trabalho. Poderiam, ao contrário, liberar o esforço humano de tarefas insalubres ou exaustivas, e permitir direcioná-lo para atividades muito necessárias, ligadas ao cuidado e à coesão social. Na visão da economista, os afazeres abrangidos pelo PGE podem variar segundo a capacitação dos trabalhadores, indo dos mais simples (fazer manutenção de instalações públicas ou cuidar de jardins) aos mais complexos (organizar uma biblioteca).

Já na carta do IFFD a Lula, mencionam-se, entre muitos outras tarefas, distribuição de alimentos orgânicos, manutenção de bosques urbanos, cuidado de crianças e idosos, aulas de reforço escolar, atividades artísticas e lúdicas, pequenas obras como quadras de esporte, vigilância de espaços públicas, produção comunitária de comida. O sentido político da proposta é profundo: enquanto a automação comandada pelo capital desemprega (e com isso produz pobreza e desamparo), a opção política pelo PGE resulta em humanização. Imagine, por exemplo, um grupo de mulheres que se libera de parte das tarefas ligadas ao cuidado dos filhos, por terem alguém capacitado para fazê-lo por algumas horas por dia. Pense, também, no papel agregador que pode ter, para um grupo de adolescentes, um professor aposentado que se dedica a coordenar o mapeamento topográfico do lugar onde vivem.

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É fácil compreender o segundo papel do Programa de Garantia do Emprego – o de restaurar salários e direitos trabalhistas eliminados nas contrarreformas neoliberais. Se o Estado oferece ocupação digna e com liberdade sindical plena a todos os que desejam trabalhar, quem se submeterá a trabalhar por menos? A carta do IFFD a Lula argumenta: as condições oferecidas pelo PGE convertem-se, automaticamente, no piso de salários e direitos de que desfrutam todos os assalariados. Se os empregadores privados não igualarem estas condições, perderão sem demora sua força de trabalho. Como não podem dar-se ao luxo de fazê-lo, serão obrigados a se ajustar ao que o empregador público oferecer.

Isso desencadeará, é evidente, uma redistribuição da renda nacional em favor dos salários. Nada mais necessário, depois de muitos anos de mudança em sentido oposto. Corporações envolvidas na exploração por meio de plataformas serão as mais atingidas. E o Estado sempre terá meios de apoiar as pequenas e médias empresas eventualmente afetadas – por exemplo, pagando parte dos salários de quem elas contratam. Será mais um sinal do retorno da política, ou seja, da capacidade que a sociedade e seus governos precisam ter para fazer escolhas, ao invés de entregarem a gestão da vida à ordem insensível dos mercados.

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Mais sutis que as mudanças materiais, mas pelo menos tão impactantes quanto elas, serão as mudanças no imaginário social sobre o significado do trabalho humano. Ligam-se diretamente à ideia de desalienação. O trabalho reduziu-se, nas sociedades capitalistas, à luta pela própria sobrevivência. E os tempos neoliberais presenciaram a troca da ideia de solidariedade entre os trabalhadores, pela do “salve-se quem puder”, do individualismo extremo, do “empreendedorismo de si mesmo”.

O PGE instaura, ao contrário de tudo isso, a noção da relevância social de cada trabalho. Seu caráter desmercantilizador (e, portanto, pós-capitalista) emerge aí. Ninguém mais será obrigado a ganhar o prato de comida vendendo a força de trabalho a quem lhe forneça os meios de sobrevivência. Ninguém precisará, por exemplo, emprestar sua inteligência e seu suor a uma fábrica de armas, por exemplo. O Estado garantirá, a cada ser humano, as condições de sobrevivência.

Mas os afazeres a que estarão vinculados os que se beneficiarem do PGE não serão estabelecidos pela lógica do lucro capitalista, mas pela necessidade social. Segundo a proposta do IFFD, quem remunera os trabalhadores inscritos no programa é o Estado nacional. Mas quem determina o que deverão fazer são os municípios, a partir do que definirem suas populações e comunidades.

Como estabelecer esta autonomia comunitária? Será, certamente, o que na boa política se chama de um ótimo problema. A mera possibilidade de que um programa assim exista pode servir de estímulo ao ensaio de novas formas de democracia. Elas são o que mais precisamos, aliás, para conter o avanço do fascismo. Propor uma situação que bairro, ou cada território, é convidado a estabelecer quais são os trabalhos mais prementes para atender às necessidades coletivas será decerto um enorme passo para a reinvenção da política.

Em sua fala no debate proposto por André Lara Resende, Pavlina Tcherneva debateu dois aspectos importantes relacionados à proposta da PGE. Que tipos de jornada de trabalho ela geraria? E qual sua relação com a proposta de uma Renda Básica de Cidadania? A economista pensa que, em sintonia com a flexibilidade que marca as formas de socialização contemporâneas, deve haver múltiplos regimes de trabalho. Por que não permitir, além das jornadas tradicionais de 8 horas diárias, as de 6 ou de 4 – claro que com salários proporcionais?

Pavlina também vê enorme complementaridade entre o PGE e a Renda Básica. Ela julga que esta última possui características de universalidade incomparáveis. Permite, por exemplo, assegurar vida digna a quem não tem – por idade, ou descapacidades físicas ou psíquicas, permanentes ou temporárias — condições de trabalhar. Mas, excetuadas estas condições, o emprego digno garantido deve ser a escolha fundamental. Vivemos em sociedades em que não basta distribuir. Envolver os seres humanos no esforço de produzir as riquezas de que todos desfrutarão é igualmente decisivo.

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Neste ponto, surge a pergunta inevitável. De onde virá o dinheiro? Quem oferecerá o ingrediente mágico, sem o qual supostamente não é possível fazer com que a necessidade de ocupação remunerada, de alguns, se encontre com os serviços de que tantos outros necessitam?

Aqui, certamente convergem as respostas do IFFD, de Pavlina e do próprio André Lara Resende. O dinheiro virá de decisões políticas. Ponto! Todo o dinheiro contemporâneo é criado assim, ao contrário do que crê o senso comum. Entre 2008 e 2019, os Bancos Centrais dos EUA, União Europeia, Suíça, Japão e Inglaterra criaram, do nada, o equivalente a 15 trilhões de dólares para salvar os cassinos financeiros onde o 0,1% engorda sua riqueza já descomunal. No Brasil, embora os números absolutos sejam menores, a proporção da rapina é ainda maior. As taxas de juros são, há décadas, as maiores dos planetas De onde vem o dinheiro que mantém as roletas rolando?

Toda criação monetária redistribui a riqueza social. Mas então por que os Estados, que emitiram montanhas de dinheiro, a cada ano, para favorecer o baronato financeiro, não podem repetir o mesmo procedimento – agora em benefício dos 99,9%? Será a política uma roda que só gira em favor de alguns? Terá a luta de classes chegado ao fim? Quem responde não a estas perguntas terá de concordar que o dinheiro pode (e precisa!) ser emitido também em favor de ações como a PGE..

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Há uma possível lacuna na proposta do IFFD e de Pavlina, quando aplicadas à necessidade de reconstruir o Brasil em novas bases Num país em que há tanto a fazer, na garantia de serviços públicos de qualidade e na transformação da infraestrutura, por que não estender a PGE também a estas ações indispensáveis? Por que não direcionar a enorme riqueza da força de trabalho desaproveitada para ações de longo fôlego?

Po exemplo, a recuperação do SUS, com o preenchimento de seus grandes vazios assistenciais. A reconstrução do Ensino Público, com reinvenção dos métodos educacionais e dos currículos. A universalização do saneamento. A despoluição dos rios urbanos e das áreas costeiras. A revolução urbanística das periferias. A construção de redes de metrô nas regiões metropolitanas. A retomada da rede ferroviária. A transição energética, com construção de centrais fotovoltaicas e eólicas em sintonia com os direitos das populações e a proteção da natureza.

São debates a fazer. No momento, há algo certo. Ao relacionar um objetivo facilmente compreensível pela população com ações de claro caráter crítico e antissistêmico, a PGE pode ser a ponta de lança para quebrar o falso consenso em torno da disciplina fiscal imposta pelos mercados; para recuperar o encantamento da política e reabrir o debate sobre o futuro do país. Por isso, no momento em que surge mais forte como nunca a possibilidade de derrotar o fascismo e eleger Lula, poucas propostas são tão provocadoras e necessárias quanto esta.

Antonio Martins é editor de Outras Palavras.

Fonte: Outras Palavras

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/a-revolucao-do-emprego-digno-garantido/

A revolução do Emprego Digno Garantido

A próxima grande depressão?

Não está claro se a aliança BRICS+ será derrubada junto com o Ocidente, se este cair em depressão.

Philip Pilkington

Fonte: A Terra é Redonda, com The Critic
Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel
Data original da publicação: 03/10/2022

Omundo ocidental enfrenta hoje um sério risco de cair em outra grande depressão. Esse risco veio à tona não por causa de um mau orçamento elaborado por um governo desajeitado, ou mesmo por conta de alguma especulação nefasta que tenha varrido os mercados financeiros. Em lugar disso, veio à tona por causa da deterioração das relações econômicas globais ao ponto de uma guerra total. Para entender por que isso provoca o risco de uma depressão, devemos voltar aos anais da história e lembrar o que desgraçou o mundo na década de 1930.

Houve um tempo em que a pergunta mais importante na economia era: “O que causou a Grande Depressão?” Essa pergunta começou a ser feita durante a própria depressão e continuou sendo feita ao longo de anos – aproximadamente até a década de 1980. Após a crise financeira de 2008 e a chamada Grande Recessão, a questão voltou a borbulhar, mas, provavelmente porque a grande recessão não foi uma grande depressão, aquela pergunta só foi feita por alguns poucos anos.

Economistas, como economistas que são, sempre buscaram uma resposta simples, com as diferentes escolas disputando influência para ter a melhor delas. Os keynesianos atribuíram a depressão à falta de apoio do governo a uma economia em declínio. Os monetaristas alegaram que era devido à má gestão da oferta de dinheiro pelos bancos centrais. Os austríacos alegaram que a depressão foi uma resposta econômica natural a muitos gastos imprudentes na década de 1920 e que deveriam ter sido autorizados a purgar o sistema por inteiro.

A realidade é que essas respostas simples nunca foram convincentes. A Grande Depressão foi um evento histórico, e sempre exigiu uma explicação histórica. Antes que as escolas econômicas se solidificassem em torno de seus vários dogmas, isso era bem conhecido. O próprio Keynes, por exemplo, teria rido das explicações “keynesianas” posteriores da depressão. Ele havia escrito em 1919 um livro intitulado As Consequências Econômicas da Paz, sobre a Conferência de Paz de Paris – na qual atuou como delegado –, onde advertiu que o Tratado de Versalhes levaria a uma depressão.

A depressão, como Keynes previu, surgiu da estrutura econômica desequilibrada que emergiu da Primeira Guerra Mundial. A guerra em escala tão terrível havia devastado por inteiro as relações econômicas, tanto internamente aos países, devido ao redesenho da economia para a produção de guerra, quanto internacionalmente, à medida que os blocos aliados se esfolavam e espantavam o resto do mundo. A coisa sensata a fazer depois da guerra teria sido tentar restaurar as relações econômicas a um certo equilíbrio o mais rápido possível.

Os delegados da Conferência de Paz de Paris fizeram exatamente o oposto. Eles viam o Tratado de Versalhes, parafraseando Clausewitz, como a continuação da guerra por outros meios. As potências aliadas queriam punir a Alemanha, a quem culpavam pela guerra. Sobrecarregaram então o país com uma carga de dívida impossível e logo adiante ocuparam o Ruhr, a região mais produtiva da Alemanha. Os norte-americanos também queriam ser pagos. Os Aliados tinham acumulado dívidas enormes com eles, ao comprarem armamentos durante a guerra. Em vez de assumirem uma posição superior e cancelar a dívida – como os aliados costumavam fazer até então – os norte-americanos exigiam ser pagos, e com taxas de juros relativamente altas.

A década de 1920 foi uma década de dívidas e decadência porque o sistema internacional foi construído sobre uma instável pirâmide de dívidas. Em 1929, tudo desmoronou. Mas esse foi apenas o gatilho. As dívidas que vinham se acumulando eram o espelho das relações econômicas desiguais e insustentáveis entre os países. A Europa era uma economia perdida, que vivia de rolar cada vez mais empréstimos norte-americanos. Quando a pirâmide entrou em colapso, a Europa foi-se com ela.

A depressão de fato se instalou quando o colapso da Europa deu origem ao colapso do comércio global. Entre 1929 e 1933, esse comércio caiu cerca de 30%. A rigor, a Europa tinha se tornado um buraco negro econômico. Todas as transações que realizava com outros países se viram minadas, e por consequência seus problemas econômicos se espalharam como um câncer pela economia global. Esse câncer provou ser especialmente virulento nos Estados Unidos, que na época era o maior parceiro comercial da Europa. Vários países, desesperados para proteger suas economias domésticas, se engajaram em guerras comerciais, impondo tarifas sobre mercadorias estrangeiras. E o comércio global desabou ainda mais.

Hoje vemos dinâmicas muito semelhantes se movendo no mundo que nos cerca. A dívida vem se acumulando nas economias ocidentais há décadas, mas tornou-se particularmente aguda nos últimos três anos. Isso se deve, em primeiro lugar, aos enormes gastos para manter as pessoas alimentadas durante os lockdowns na pandemia e, em segundo lugar, aos custos crescentes – especialmente de energia – produzidos pela guerra na Ucrânia.

E agora parece que estamos prontos para entrar na segunda fase da repetição histórica: o colapso da Europa. O colapso da Europa ocorrerá porque ela não tem mais acesso a energia suficiente para suas necessidades econômicas. No início da crise, quando a Rússia reagiu privando a Europa do gás tão necessário, muitas pessoas – inclusive eu – podiam até mesmo desdenhar a situação, como um desdobramento temporário. Uma vez que a guerra estivesse resolvida, acreditávamos que o gás seria religado. Mas agora os gasodutos do gás russo foram explodidos no que parece ser um ato de sabotagem norte-americana. Não há como voltar para a velha Europa agora.

Com acesso insuficiente à energia, seu preço no continente permanecerá extremamente alto pelos próximos anos. A indústria europeia, para a qual a energia é um insumo fundamental, deixará de ser competitiva. Se os fabricantes europeus quiserem continuar a fazer negócios, terão de aumentar os preços dos seus produtos. Isso tornará tais produtos não competitivos frente àqueles dos Estados Unidos e da China. Esses não estão sofrendo escassez de energia. E isso colocará os fabricantes europeus fora do mercado. A Europa sangrará em empregos-chave. A gangrena se espalhará, pois os futuros funcionários da indústria não terão salários para gastar na economia, e teremos uma depressão no continente.

Alguns podem supor que isso ofereceria uma oportunidade para outros países ocidentais. Muitos pensam que, por exemplo, a indústria europeia viria a se reassentar nos Estados Unidos. É improvável que esse seja o caso. Se a indústria europeia desmoronar, a Europa volta a ser um buraco negro econômico – como aconteceu na década de 1930. O comércio estará minado e seus principais parceiros comerciais sentirão o refluxo. Em suma, se os Estados Unidos tentarem capturar as manufaturas europeias para suas plagas, logo descobrirão que não haverá ninguém para comprar o que elas produzirem.

Consideremos as estatísticas. O escritório do representante comercial dos Estados Unidos estima que, em 2019, os Estados Unidos transacionaram mais de 5,6 trilhões de dólares em comércio – cerca de 26% do PIB. No mesmo ano, o comércio com a União Europeia foi estimado em 1,1 trilhões – cerca de 20% do seu comércio total. Se a Europa afundar no abismo, essa cifra vai se desidratar.

Quais as consequências para os Estados Unidos? Por um lado, as exportações para a Europa cairão e os trabalhadores americanos perderão empregos. Não será uma simples perda cíclica de empregos, como acontece em uma recessão, onde os empregos voltam à medida que os negócios voltam ao normal. Esses empregos estarão perdidos enquanto a Europa trabalhar (ou, mais precisamente, não trabalhar) com custos de energia proibitivamente altos. Eventualmente algumas importações das quais os Estados Unidos dependem da Europa também não poderão ser substituídas pelo comércio com outras nações ou pela produção doméstica. Os Estados Unidos serão forçados a comprar esses bens aos preços europeus mais altos, reduzindo por consequência a renda real dos cidadãos americanos.

Quando a Europa acordar para a confusão em que está metida, provavelmente tentará reagir buscando salvar suas indústrias por meio de tarifas. Em tal situação, a opção menos ruim para a Europa – não para a economia global, mas para a Europa especificamente – será aumentar as tarifas sobre importações, para tornar os produtos internacionais tão caros quanto os produtos domésticos que sofrem com a inflação dos custos de energia. Mais uma vez, estamos de volta à década de 1930, onde, ainda que seja do interesse individual de cada país se envolver numa guerra comercial, não o é do interesse coletivo. Um cenário de pesadelo.

No entanto, há uma diferença fundamental entre o mundo das décadas de 1920 e 1930 e o de hoje. No período entre guerras, não havia um bloco econômico rival real para o Ocidente. A Rússia era um pequeno ator, a China era uma economia agrícola, e o que hoje chamamos de “economias em desenvolvimento” (Brasil, Índia, África do Sul etc.) era tudo menos “em desenvolvimento”. Esse não é mais o caso. Na esteira da guerra na Ucrânia, o mundo em desenvolvimento começou a se unir, como a aliança BRICS+. Esta aliança parece ter como objetivo a dissociação da economia ocidental tanto quanto possível.

O BRICS+ é uma força a ser reconhecida. Tem amplo acesso à energia – com a Rússia e a Arábia Saudita sendo dois dos maiores produtores de petróleo do mundo. Tem acesso a recursos essenciais – o Brasil é o principal produtor de minério de ferro do mundo. E tem uma potência fabril pujante o suficiente para transformar as coisas do solo em coisas na prateleira: a China.

Não está claro se a aliança BRICS+ será derrubada junto com o Ocidente, se este cair em depressão. Não sofre os mesmos problemas com dívidas, por exemplo. Tampouco grande parte da aliança BRICS+ enfrenta um colapso industrial iminente por conta de preços de energia inacreditavelmente altos, como a Europa está hoje. Além de algum potencial para sérios conflitos geopolíticos – na Ucrânia e em Taiwan – o BRICS+ parece ter um atestado de saúde econômica relativamente limpo e muito espaço para crescer no futuro.

As decisões que levaram à grande guerra energética europeia de 2022 provavelmente entrarão para a história como alguns dos maiores erros de cálculo econômico e geopolítico da história da humanidade. Eles se juntarão ao Tratado de Versalhes e às guerras tarifárias da década de 1930 na cesta de párias da política, que as gerações futuras serão ensinadas a evitar a todo custo. Como os europeus chegamos aqui? Como essas más decisões foram tomadas em nosso nome? Isso eu deixo para os futuros historiadores resolverem, provavelmente quando os arquivos forem abertos.

Philip Pilkington é economista. Autor, entre outros livros de The Reformation in Economics (Palgrave Macmilan).

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/a-proxima-grande-depressao/

A revolução do Emprego Digno Garantido

Conheça a pauta conservadora do novo Congresso

O recado dos brasileiros nas urnas, neste primeiro turno das eleições que se encerrou dia 2 de outubro, demonstra a consolidação do pensamento de direita, preponderantemente conservador, que se revelou de forma mais nítida na população. A partir de 2018, e, sobretudo, após esses 4 anos de governo Bolsonaro, ganhou mais força e aderência na sociedade.

A eleição de representantes desse pensamento ao Poder Legislativo federal é demonstração de força dessa vertente política no País.

Na Câmara dos Deputados, os partidos que elegeram parlamentares com essa linha de pensamento político, aumentaram de 210 para 259 representantes.

No Senado, a direita também aumentou o número de representantes: 22 para 36.

Polarização esquerda x direita

Como efeito da polarização nacional, a esquerda também cresceu em relação à representação no do Parlamento para 2023. Esse matiz política aumentou, de 73 para 94 deputados federais eleitos, e, no Senado, de 6 para 9, que representam os partidos ligados à esquerda na Casa.

A centro-direita, centro e centro-esquerda reduziram, em relação à última eleição na Câmara, ressalvada a centro-direita no Senado, que aumentou em relação ao pleito de 2018.

A centro-direita e centro, comparado ao centro-esquerda, tiveram as menores reduções na representação.

Na Câmara, a centro-direita caiu de 94 para 73; o centro de 76 para 56; e a centro-esquerda, de 60 para 31. No Senado, a centro-direita aumentou de 13 para 20 senadores, e o centro diminuiu de 29 para 12; e a centro-esquerda, de 11 para 4 parlamentares.

congresso esquerda direita

Agendas no Congresso

Pautas como a descriminalização do aborto, o homeschooling e união homoafetiva terão mais força nos debates, por crenças religiosas, e não por necessidade de direitos ou políticas públicas com amparo do Estado.

O meio ambiente também pode sofrer impactos com essa nova composição. Alinhados com o pensamento conservador nos costumes e neoliberal no campo econômico, alguns parlamentares chegam ao Congresso são favoráveis à diminuição das terras indígenas, para que possam ser liberadas para o plantio.

Outro ponto agressivo ao meio ambiente é a possibilidade de autorizar e ampliar a comercialização de mais agrotóxicos no País, além de a possibilidade de flexibilizar a fiscalização em relação aos processos de preservação das matas, rios, entre outros.

Ainda nesse campo chamado ideológico, associam-se parte significativa da bancada de segurança, com discurso do combate à corrupção, apoio ao excludente de ilicitude e outros temas corporativos, que fazem parte da pauta e podem ter reforço nas bancadas eleitas na Câmara e no Senado para a próxima legislatura – 2023-2027.

Conheça as principais proposições em tramitação no Congresso, que tratam das demandas ideológicas do campo conservador. Esta é, em grande medida, a pauta que Bolsonaro não conseguiu viabilizar na atual legislatura. Todavia, se for reeleito, com o perfil do Congresso que emergiu das urnas neste ano, terá mais condições de levar a cabo.

pauta conservadora neoliberal

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/91179-conheca-a-pauta-conservadora-do-novo-congresso

A revolução do Emprego Digno Garantido

IPEC: Lula tem 51% e Bolsonaro 43%

ELEIÇÕES 2022

Foi divulgada a primeira pesquisa de intenção de voto para o segundo turno. E ela aponta para a vitória do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A pesquisa foi feita pelo Instituto Ipec, formado por pesquisadores do antigo Ibope, e foi encomendada pela TV Globo.

De acordo com a pesquisa, Lula tem 51% de intenções de voto, e Jair Bolsonaro, do PL, candidato à reeleição, tem 43%. Brancos e nulos foram 4%. Não sabem ou não responderam, 2%.

Foram entrevistas duas mil pessoas entre os dias 3 e 5 de outubro, em 129 municípios. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR-02736/2022.

Na simulação de segundo turno feita pelo Ipec antes da realização do primeiro turno, Lula aparecia com 52% e Bolsonaro com 37%.

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Maçonaria, Aborto e “Canibalismo”: Bolsonaro nas redes nas últimas 24 horas

O presidente Jair Bolsonaro (PL) se viu inserido em três assuntos polêmicos em questão de 24h. Primeiro, nessa terça-feira (4), um vídeo do presidente em um encontro maçônico começou a viralizar nas redes sociais.

Confira o vídeo:

O registro teria sido feito em 2017, antes de Bolsonaro se eleger. Mais do que o conteúdo, o que o vídeo reforça é a presença de Bolsonaro entre os maçons. Grupos evangélicos que apoiam o presidente na sua tentativa de reeleição costumam criticar a maçonaria. “Nós temos tudo para ser uma grande nação. Às vezes, a gente olha para um país pequeno, alguns até menores que o menor estado nosso, Sergipe, que nada têm, e são destaque. Nós, com todo esse potencial que aqui temos, lamentavelmente devemos muito ainda para chegar próximo a essas nações”, diz Bolsonaro no vídeo gravado.

Na mesma linha de associar o presidente e seus aliados à maçonaria, internautas também resgataram vídeos do casamento da deputada Carla Zambelli (PL-SP) em uma loja maçônica e imagens do vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) numa reunião da sociedade secreta.

A maçonaria é uma sociedade secreta que não é bem-vista por alguns membros da comunidade católica. Já entre a maioria dos evangélicos, público onde Bolsonaro tem grande aceitação e uma das bases do seu governo, a maçonaria é rechaçada e associada com o satanismo.

Aborto

Já nesta quarta-feira (5), internautas recuperaram uma entrevista de Bolsonaro em que ele defende que o aborto é “uma decisão do casal”. O tema já havia sido tema de matéria do Congresso em Foco. Na entrevista, Bolsonaro afirma que já havia passado por uma experiência relacionada ao tema. Ele deixa subentendido que defendia o aborto no caso da gravidez de Jair Renan, seu quarto filho. Mas que a decisão da mãe, Ana Cristina Valle, foi manter a gravidez.

A entrevista foi dada à revista IstoÉ Gente, em 2000. Quando perguntado pela jornalista Cláudia Carneiro sobre sua posição em relação ao aborto, o então deputado Jair Bolsonaro respondeu: “Tem de ser uma decisão do casal”. Ele relatou ter sido instado a decidir sobre o assunto. “Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó”.

Na ocasião, conforme relato da jornalista, Bolsonaro apontou para a foto no mural de Jair Renan, filho mais novo de Bolsonaro, então com um ano e meio. Jair Renan é filho de Bolsonaro com Ana Cristina Valle.

Atualmente, a proibição do aborto é uma das principais campanhas de Bolsonaro.

“Canibalismo”

Ainda nesta quarta, um vídeo de Bolsonaro dando uma entrevista ao jornal americano The New York Times, em 2016, foi recuperado com o presidente afirmando que iria comer carne humana. O vídeo está disponível na página oficial do presidente no YouTube.

Confira a fala:

“Morreu o índio e eles estão cozinhando, eles cozinham o índio, é a cultura deles. Cozinha por dois, três dias, e come com banana. Daí, eu queria ver o índio sendo cozinhado, e um cara falou: ‘Se for ver, tem que comer’. Daí, eu disse: ‘Eu como!’. E ninguém quis ir, porque tinha que comer o índio, então eles não me queriam levar sozinho, e não fui”, disse Bolsonaro.

Embora internautas tenham se referido ao ato como canibalismo, se trata de antropofagia, quando se consome carne humana dentro de um ritual religioso.

No vídeo, Bolsonaro também afirma que só não teve relações sexuais com mulheres famintas no Haiti por falta de higiene e “porque não precisava”.

AUTORIA

Caio Matos

CAIO MATOS Repórter. Formado em jornalismo pela Universidade Paulista (Unip). Trabalhou na Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) e nas assessorias de comunicação da Casa Civil da Presidência da República e da Codeplan.

CONGRESSO EM FOCO