por NCSTPR | 17/11/23 | Ultimas Notícias
Tratativas avançadas
Também estão no páreo os também subprocuradores Antônio Carlos Bigonha e Aurélio Rios
O subprocurador-geral da República e vice-procurador-geral Eleitoral, Paulo Gonet, desponta como favorito para ser indicado como novo procurador-geral da República pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmaram à Reuters fontes com conhecimento das tratativas, embora tenham ressalvado que a decisão ainda não está tomada.
Lula decidiu acelerar a indicação e escolher possivelmente ainda nesta semana o nome do novo PGR, após a chefe interina do órgão, Elizeta Ramos, ter feito nomeações internas para o órgão que desagradaram o Palácio do Planalto, segundo reportagem publicada pela Reuters na terça-feira.
Três nomes estão sendo considerados. Além de Gonet, estão no páreo os também subprocuradores Antônio Carlos Bigonha e Aurélio Rios, mas nos últimos dias Gonet, que tem apoio dentro do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou força para ser o escolhido, de acordo com quatro fontes envolvidas nas discussões.
“Martelo não está batido, mas Gonet é o favorito no momento”, disse uma fonte do Palácio do Planalto.
Como vice-procurador-geral Eleitoral, Gonet atuou no processo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro à inelegibilidade. Ele foi designado a esse cargo na gestão do ex-procurador-geral Augusto Aras, cujo mandato se encerrou em setembro.
Atuando de forma discretíssima, conforme as fontes, Gonet tem arregimentado o apoio nos bastidores de autoridades como os ministros do STF Gilmar Mendes, decano da Corte, e Alexandre de Moraes, atual presidente do TSE, além de parlamentares proeminentes como o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e até mesmo do ministro da Justiça, Flávio Dino.
As tratativas de Lula e interlocutores sobre a sucessão na PGR vêm ocorrendo há pelo menos três meses e não tinham ganhado tração até esta semana, mesmo após a saída de Aras.
Lula, que se reuniu com os postulantes, não se encantou com nenhum dos três nomes, segundo a fonte palaciana. A eventual escolha de Gonet, entretanto, teria o condão de agradar importantes autoridades do Judiciário, como Gilmar Mendes. Gonet já foi sócio de Gilmar em Brasília em uma instituição de ensino e ambos já escreveram livros juntos.
Uma experiente fonte do MPF avaliou que a eventual escolha de Gonet — mesmo fora da lista tríplice preparada pela associação dos procuradores — poderia ajudar a melhorar o ambiente interno após a questionada gestão de Aras. A fonte disse que ele circula por diversas alas do MPF, gozando de respeito técnico e pessoal na instituição.
Um outro grupo, no entanto, afirma que o procurador eleitoral é excessivamente ligado a Gilmar Mendes e que nunca teve destaque na carreira. Além disso, ao longo do processo de escolha do próximo PGR, voltou à tona o fato de que Gonet tentou conquistar o posto no governo Bolsonaro, contando com defesa forte da deputada bolsonarista Bia Kicis (PL-DF).
Lula já deixou claro, desde a eleição, que não escolheria um nome da lista tríplice preparada pelos procuradores, rompendo uma tradição inaugurada por ele mesmo de escolher o primeiro nome. Escaldado pela atuação da PGR na Lava Jato, que o levou à prisão, o presidente quer um nome “mais confiável”, mas quer analisar bem as credenciais do indicado.
A indicação dos procuradores-gerais tem sido uma das principais escolhas feitas pelos presidentes da República nas duas últimas décadas. Cabe ao chefe do Ministério Público Federal (MPF) promover investigações criminais contra o próprio presidente, deputados e senadores, além de questionar atos do governo perante o Supremo. As gestões federais petistas passadas foram alvo de várias investigações de escolhidos pelo próprio Lula e pela ex-presidente Dilma Rousseff.
INFOMONEY
https://www.infomoney.com.br/politica/gonet-desponta-como-favorito-para-ser-indicado-por-lula-para-pgr-dizem-fontes/
por NCSTPR | 17/11/23 | Ultimas Notícias
Portaria do governo Lula que estabelece a necessidade de convenção coletiva para permitir trabalho no comércio nos feriados corrige retrocesso imposto por Bolsonaro
por Priscila Lobregatte
O Ministério do Trabalho e Emprego publicou portaria, nesta terça-feira (14), estabelecendo que o trabalho em feriados no comércio é permitido desde que autorizado em convenção coletiva. Para entidades e dirigentes sindicais que representam a categoria, trata-se de uma importante conquista para garantir o direito dos trabalhadores e fortalecer a negociação entre as partes.
A nova regra estabelece ainda a necessidade de que seja observada a legislação municipal e que apenas as feiras livres poderão abrir nos feriados sem acordo coletivo. A medida altera uma portaria emitida durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2021.
A portaria pode beneficiar uma das maiores categorias do país, que reúne mais de 10 milhões de trabalhadores, segundo o IBGE. “A medida foi resultado de uma articulação das entidades sindicais, em especial das confederações, que defenderam, junto ao ministro do Trabalho, Luiz Marinho, a necessidade de reparar um erro histórico que começou no governo de Michel Temer, quando foi desrespeitada a legislação que garantia o direito dos trabalhadores do comércio de negociar as condições de trabalho em feriados”, apontou a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC).
Na avaliação do presidente da entidade, Luiz Carlos Motta, “a portaria publicada pelo MTE evidencia a importância da negociação entre representantes patronais e sindicatos para que sejam respeitados os direitos dos comerciários de todo o Brasil. Essa é uma vitória expressiva”.
Reação patronal
Como era de se esperar, o setor empresarial chiou. Para a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), por exemplo, a portaria representa “um retrocesso à atividade econômica essencial de abastecimento exercida pelos supermercados” e um “cerco à manutenção e criação de empregos”.
Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), discorda. “Pelo contrário, acho que vai ter uma melhoria nas condições econômicas do trabalhador, que vai estar mais afinado como a atividade, também vai ser bom para o empresário, já que o comércio vai poder abrir desde que tenha acordo e vai ser bom para o consumidor”.
Ele salienta que o setor patronal “chora muito” e que o comerciante “de uma forma geral é retrógrado, conservador demais — os piores acordos são justamente dessa área” e “não reconhece aqueles que ajudam a construir o Brasil, que são os comerciários”.
Para a Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecosul), “ao contrário do alardeiam algumas entidades patronais e líderes políticos que patrocinaram a reforma trabalhista, (a portaria) não representa mudanças nas negociações que já vinham sendo realizadas e ao mesmo tempo traz mais segurança jurídica às empresas do setor proporcionando uma negociação equilibrada entre as entidades envolvidas”.
O Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, segundo maior do país salientou: “o que o setor empresarial faz é, mais uma vez, atacar com velha ladainha de que essa mudança pode aumentar os custos e provocar o desemprego. Esses mesmos argumentos foram usados para aprovar a Reforma Trabalhista, em 2017: de que era preciso ‘modernizar’ a legislação para diminuir custos e facilitar a contratação de mão-de-obra. Entretanto, o que se viu nos anos seguintes foi a continuidade do alto número de desempregados, aliado à precarização do trabalho”.
Além disso, destaca, “a portaria corrige um retrocesso imposto pelo governo Bolsonaro em 2021, feito através da Portaria 671, que autorizava o funcionamento das empresas aos domingos e feriados, sem que fosse necessário acordar com os sindicatos, como consta em convenção coletiva. Tal situação, prejudicava a fiscalização das entidades sindicais, no objetivo de garantir o cumprimento de todos os direitos dos trabalhadores”.
VERMELHO
https://vermelho.org.br/2023/11/16/exigencia-de-acordo-para-trabalho-no-feriado-assegura-direito-dos-comerciarios/
por NCSTPR | 17/11/23 | Ultimas Notícias
LYDIA MEDEIROS
O ministro Flávio Dino amanheceu nesta quinta-feira mudando de assunto. Anunciou nas redes sociais uma operação da PF contra o tráfico internacional de drogas, no Rio, com bloqueio de contas bancárias e sequestro de R$ 126 milhões em bens. “Caminho certo contra o crime organizado”, escreveu. Também divulgou investigação sobre o envio de drogas pelos correios, lembrando o empenho do governo em “combater a logística do crime organizado”.
Dino procura virar a página e mostrar serviço depois da defesa do presidente Lula na crise gerada pela participação da mulher de um traficante de drogas amazonense em reuniões no ministério. Desta vez, o ministro enfrentou a ofensiva da oposição, mas já era um alvo constante do “fogo amigo” do PT. Uma ala do partido defende a criação de uma ministério da segurança pública, esvaziando as funções da pasta da Justiça. Esses petistas veem o ministro como potencial candidato ao Planalto em 2026, caso Lula não dispute a reeleição. Há ainda no PT quem não goste de ver o nome de Dino na lista de cotados para a vaga deixada por Rosa Weber no Supremo. Prefeririam alguém mais diretamente ligado ao partido, como Jorge Messias, Advogado Geral da União.
A reação de Dino nesta manhã, chamando atenção para a dimensão do problema do crime organizado, pode indicar eventuais dificuldades para Lula levar o ministro da Justiça para o STF. A situação é grave em estados como o Rio, a Bahia, o Ceará e o Amazonas, e pode vir a custar a Lula uma perda de popularidade — sobretudo no momento em que pesquisas já mostram declínio na aprovação do governo. Lula tem protelado sua decisão, deixando Dino no fogo cruzado entre a oposição e os petistas.
Algo semelhante acontece com outro ministro, Fernando Haddad. Ao defender aumento de gastos, com obras, deixando em segundo plano a meta de zerar o déficit nas contas públicas, Lula expôs o ministro e abriu espaço para críticas de setores petistas que nunca gostaram dos planos de austeridade do ministro da Fazenda — à frente , o chefe da Casa Civil, Rui Costa.
Agora, Lula parece ter cedido aos apelos de Haddad e concordado em adiar o debate sobre a meta fiscal de 2024 — o prazo para emendas ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias termina nesta sexta. O ministro quer ganhar tempo para a aprovar os projetos que ajudariam a aumentar a arrecadação e cumprir a meta. Por exemplo, a maior taxação de empresas que receberam benefícios fiscais de ICMS e a tributação de fundos de investimento exclusivos e no exterior. Haddad teme que essas propostas percam força, se o governo admitir o rombo. No entanto, o deputado Lindbergh Farias, vice-líder do governo, já apresentou emendas ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias. Uma delas prevê um déficit de 0,75% do PIB. A outra, de 1%. Tudo indica que servirão apenas para marcar posição e manter a contestação ao programa de Haddad.
Por trás dos desgastes de Dino, do PSB, e Haddad, do PT, está a disputa eleitoral de 2026. Se Lula não for candidato à reeleição, já estão na praça dois ministros e potenciais candidatos. Ironicamente, ambos sob forte oposição de uma parte do PT.
AUTORIA
LYDIA MEDEIROS Jornalista formada pela Universidade de Brasília, foi titular da coluna Poder em Jogo, em O Globo (2017-2018). Atuou ainda em veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, Época e Correio Braziliense. Foi diretora da FSB Comunicações, onde coordenou o atendimento a corporações e atuou na definição de políticas de comunicação e gestão de imagem.
CONGRESSO EM FOCO
por NCSTPR | 17/11/23 | Ultimas Notícias
Após semanas em luta, metalúrgicos venceram corporações do automóvel. O que isso diz sobre a reinvenção dos sindicatos?
Mário R.
Uma greve histórica acaba de ser vencida no setor automotivo dos Estados Unidos. Esta manchete, que pudemos ler em vários meios de comunicação nos últimos dias, combina elementos aparentemente contraditórios. É uma conquista sindical histórica que ocorre num lugar, os Estados Unidos, onde nas últimas décadas foram feitos grandes esforços para dissolver a solidariedade de classe e desmantelar a organização e a força sindical. Ocorre também num setor, o automobilístico, que tradicionalmente tem atuado na vanguarda na criação de modelos de organização produtiva que buscam justamente subordinar a força de trabalho.
Uma greve histórica acaba de ser vencida no setor automotivo dos Estados Unidos. Esta manchete, que pudemos ler em vários meios de comunicação nos últimos dias, combina elementos aparentemente contraditórios. É uma conquista sindical histórica que ocorre num lugar, os Estados Unidos, onde nas últimas décadas foram feitos grandes esforços para dissolver a solidariedade de classe e desmantelar a organização e a força sindical. Ocorre também num setor, o automobilístico, que tradicionalmente tem atuado na vanguarda na criação de modelos de organização produtiva que buscam justamente subordinar a força de trabalho.
Uma greve histórica acaba de ser vencida no setor automotivo dos Estados Unidos. Esta manchete, que pudemos ler em vários meios de comunicação nos últimos dias, combina elementos aparentemente contraditórios. É uma conquista sindical histórica que ocorre num lugar, os Estados Unidos, onde nas últimas décadas foram feitos grandes esforços para dissolver a solidariedade de classe e desmantelar a organização e a força sindical. Ocorre também num setor, o automobilístico, que tradicionalmente tem atuado na vanguarda na criação de modelos de organização produtiva que buscam justamente subordinar a força de trabalho.
Uma greve histórica acaba de ser vencida no setor automotivo dos Estados Unidos. Esta manchete, que pudemos ler em vários meios de comunicação nos últimos dias, combina elementos aparentemente contraditórios. É uma conquista sindical histórica que ocorre num lugar, os Estados Unidos, onde nas últimas décadas foram feitos grandes esforços para dissolver a solidariedade de classe e desmantelar a organização e a força sindical. Ocorre também num setor, o automobilístico, que tradicionalmente tem atuado na vanguarda na criação de modelos de organização produtiva que buscam justamente subordinar a força de trabalho.
Se as conquistas alcançadas são históricas, é aconselhável analisar por que o são e esclarecer como foram alcançadas. Nas linhas seguintes, são esboçadas uma série de considerações a esse respeito, tentando fornecer elementos que contribuam para dinamizar um debate na esfera sindical que tem sido revitalizado nos últimos tempos.
O futuro do setor automobilístico nos Estados Unidos representou, talvez, o declínio da sua supremacia industrial como nenhum outro. A decadência de uma cidade como Detroit, berço da indústria automobilística, é sintomático do ocaso daqueles bons e velhos tempos do setor nos Estados Unidos. O centro de gravidade da produção industrial de automóveis está hoje em outras regiões – na Ásia e, especialmente, na China – face à estagnação de um setor nos Estados Unidos orbitado por um fluxo contínuo de fechamentos de fábricas e deslocalizações, desemprego crescente, processos de reajuste salarial e deterioração gradual das condições de trabalho.
O sindicato United Auto Workers (UAW) tentou enfrentar esta tendência, organizando uma greve que começou em 15 de setembro, com a paralisação da atividade de três fabricantes: a fábrica da Ford em Wayne (Michigan), a fábrica de montagem da General Motors em Wentzville (Missouri) e a fábrica do grupo Stellantis em Toledo (Ohio). Um total de 14 mil pessoas estiveram em greve, que mais tarde se espalharia para outros centros produtivos do país. Estas três gigantes do setor aglutina cerca de 40% da cota de mercado dos EUA na venda de veículos novos; por isso, o impacto setorial da greve é de fato considerável.
Apenas algumas semanas depois, os trabalhadores chegaram a um acordo com os três fabricantes que inclui melhorias substanciais em múltiplas áreas. Foi acordado um aumento progressivo dos salários até atingir pelo menos um aumento de 25%, especialmente para as pessoas mais precarizadas, como funcionários temporários e recém-contratados. Foi reduzida – e, em alguns casos, eliminada – a dupla escala salarial, que ajustava para baixo o salário dos novos trabalhadores em relação aos já contratados, ainda que realizassem o mesmo trabalho.
Conseguiu-se também uma redução nas contratações temporárias, conferindo a este pessoal o status permanente num curto espaço de tempo. Foram introduzidas melhorias em algumas licenças, nos planos de aposentadoria, foi admitido o direito à greve em caso de fechamento de fábricas ou para impugnar decisões de investimento que contrariem os interesses dos trabalhadores, e foi aberto um quadro para negociar uma redução da jornada de trabalho semanal para 32 horas, entre outras medidas.
A força e o sucesso desta mobilização sindical surpreendem em um setor que, como acima referido, tem dedicado grandes esforços à erosão do poder sindical. Isso foi feito com estratégias corporativas canalizadas através de múltiplos canais, mas assentadas numa série de princípios gerais: fragmentar e controlar o trabalho e, portanto, a força de trabalho. É aconselhável deter-nos um pouco sobre isto, porque a estratégia sindical implementada traz lições sobre como combatê-la.
A atividade do setor automobilístico está organizada em cadeias produtivas globais, cujas pontas de lança são as fábricas onde são montados os veículos (aqueles centros onde têm sido impulsionadas as greves). Uma infinidade de componentes e módulos de veículos chegam a essas fábricas provenientes de uma grande rede de fornecedores geograficamente dispersos, alguns deles localizados muito longe dessas fábricas finais. Trata-se, portanto, de um processo produtivo altamente fragmentado, cuja produção ocorre em múltiplas empresas e, portanto, onde o trabalho é realizado por inúmeros grupos de trabalhadores também segmentados.
Estas montadoras, pertencentes aos grandes fabricantes de automóveis, são o nó central a partir do qual se articula toda a produção do setor. Os próprios fabricantes, através do controle que têm sobre a concepção do veículo e do seu processo de fabricação, têm a capacidade de condicionar fortemente a organização do trabalho ao longo de toda a cadeia. Ao longo das últimas décadas, os grandes fabricantes de automóveis desenvolveram, em geral, uma política de produtos que visa homogeneizar a gama de modelos que lançam no mercado.
Diferentes na sua aparência externa, os diferentes modelos partilham uma percentagem crescente de componentes internos comuns, o que permite desenvolver economias de escala na produção e poupar custos de fabricação. Esta crescente semelhança entre modelos tem também impulsionado uma simplificação e padronização dos processos de trabalho nestas montadoras, o que desencadeia a redução das diferenças de especialização produtiva entre fábricas finais.
Qual é o outro lado desta estratégia? Homogeneidade e competição são duas faces da mesma moeda. A crescente semelhança entre montadoras tem como contrapartida uma intensificação da concorrência entre elas. A concorrência não se desenvolve apenas entre diferentes grupos automobilísticos, mas também entre trabalhadores de diferentes fábricas finais do mesmo grupo, ou seja, entre o pessoal da mesma empresa. Uma competição permanente entre um número crescente de montadoras para oferecer as melhores condições de rentabilidade e, assim, melhorar o seu posicionamento na hora de optar pela adjudicação de novos modelos pela matriz do grupo empresarial.
Esta intensificação da concorrência traduz-se num ajuste, também permanente, das condições de trabalho nas referidas centrais de produção final; um ajuste que se espalha pela estrutura de custos de toda a cadeia de abastecimento. A lógica do processo é clara: extrair a máxima rentabilidade possível dos processos de trabalho e desmantelar as condições sob as quais o contrapoder sindical pode surgir. Em suma, o que esta estratégia gera são trabalhadores cada vez mais fragmentados, mais facilmente substituíveis e com incentivos para não cooperarem.
A estratégia implementada pelo UAW tenta enfrentar esta dinâmica de competição impulsionada pelo capital que centrifuga as relações de cooperação e solidariedade trabalhista. A partir deste cenário, a capacidade de organizar e mobilizar um volume significativo da força de trabalho – foi alcançado um total de 46 mil trabalhadores em greve – já é uma primeira conquista notável. O fato de o fazer em diferentes montadoras representa simultaneamente um salto qualitativo, pois provoca um curto-circuito nesta dinâmica de divisão e colisão de interesses entre trabalhadores e trabalhadoras.
Outro elemento estratégico diferencial encontra-se na organização do conflito para mudar o rumo da negociação, tomando a iniciativa, propondo um quadro ofensivo e reequilibrando um a correlação de forças inicial, muito desnivelada. A greve, de fato, foi deflagrada depois de esgotado um primeiro período de negociações em que os grandes fabricantes não cederam, e depois de uma consulta aos sindicalizados que alcançou o apoio unânime para sustentar esta nova fase baseada num recrudescimento do conflito.
Em suma, a negociação entre partes com interesses opostos, num quadro de relações de poder desequilibradas, só pode levar a um resultado lógico: a parte com maior poder de negociação impõe a sua agenda. Em outras palavras, não há negociação satisfatória para o grupo de trabalhadores se estes não disporem de recursos para fazer valer o seu poder, e esse poder de negociação reside, em última análise, na capacidade efetiva de interromper o processo econômico. O instrumento da greve demonstrou-se, mais uma vez, como uma ferramenta eficaz para estabelecer um quadro de negociação de forma ofensiva na conquista das reivindicações sindicais.
As greves, de fato, começaram em algumas das fábricas mais lucrativas para o empresariado, e estima-se que tenham gerado um saldo total de perdas de cerca de um bilhão de dólares para cada um dos três fabricantes. Além disso, longe de iniciar a negociação com todas as cartas na mesa, o roteiro era aumentar progressivamente a escala do conflito, estendendo seletivamente a greve a outras montadoras dependendo do curso das negociações, aumentando gradualmente a pressão. Não apenas a outras montadoras, mas também a outras fábricas fornecedoras destes grandes grupos, outros os elos estratégicos da cadeia em que a deterioração das condições de trabalho tem sido significativa.
Tudo isso não foi possível apenas pelo perfil combativo que a estratégia sindical do UAW adotou, mas também porque ele contar com um volume relevante de filiados, desenvolver um trabalho sindical paciente e consciente, estabelecer e comunicar objetivos claros e tecer a solidariedade de classe. Sem esta combinação de ingredientes a greve não teria prosperado. Mas podem ser identificados outros elementos que também contribuíram para o seu sucesso.
O fundo de resistência é, sem dúvida, um apoio fundamental para deflagrar com êxito a greve, mas sobretudo para sustentá-la ao longo do tempo e, com ela, impulsionar as negociações. O fundo de greve que o UAW tinha foi estimado em cerca de 825 milhões de dólares, o que teria permitido que a greve se prolongasse por muitas semanas. Outro acerto estratégico foi o momento em que esta grande greve foi lançada e a história que foi articulada para estimular o conflito. Depois de mais de uma década de forte ajuste salarial e deterioração das condições de trabalho no setor, nos últimos anos os lucros destes grandes grupos dispararam.
Concretamente, os lucros brutos da atividade normal destas grandes empresas aumentaram substancialmente entre 2019 (último ano em que a atividade se desenvolveu normalmente antes do início da pandemia) e 2022. Foi uma aumento de 27% na Ford, 13% na General Motors e nada menos que 109% no grupo Stellantis. No entanto, a retórica sobre ajustes no emprego e nas condições de trabalho continuou, agora com mais virulência, com o álibi da transição para veículos elétricos e o agravamento da concorrência contra os fabricantes asiáticos.
Esta situação, portanto, tem sido aproveitada para partir para a ofensiva e gerar uma narrativa que demarca um claro antagonismo entre o lado empresarial e o grupo de trabalhadores, para esclarecer interesses e objetivos conflitantes e para dar legitimidade às reivindicações, tentando assim ampliar uma certo apoio na opinião pública, algo especialmente relevante em conflitos desta magnitude. O fato do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ter aparecido no Michigan com um megafone na mão encorajando a continuação da greve não é casual e responde à forma como o sindicato conseguiu reverter os debates públicos a seu favor.
No dia 25 de outubro, o UAW chegou a um acordo com a Ford, no dia 29 com a Stellantis, e no dia 31 foi alcançado um acordo provisório com a General Motors, concluindo com sucesso esta greve. O sindicato parece querer aproveitar a corrente a seu favor e já está de olho em fábricas de outros grupos como Toyota e Tesla, até agora não sindicalizadas. A greve foi vencida e as lições que podem ser tiradas são muito úteis para pensar sobre como reorientar a estratégia sindical na Europa [e na América Latina]. Embora as condições em que se desenvolve a atividade sindical sejam muito diferentes nos dois lados do Atlântico, o trabalho não deve deixar de se concentrar na tentativa de unir as forças e os interesses do trabalho que o capital é responsável por fragmentar.
Fonte: Outras Palavras, com El Salto
Tradução: Rôney Rodrigues
Data original da publicação: 07/11/2023
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/eua-a-vitoria-de-uma-greve-historica/