Não está claro se a aliança BRICS+ será derrubada junto com o Ocidente, se este cair em depressão.
Philip Pilkington
Fonte: A Terra é Redonda, com The Critic
Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel
Data original da publicação: 03/10/2022
Omundo ocidental enfrenta hoje um sério risco de cair em outra grande depressão. Esse risco veio à tona não por causa de um mau orçamento elaborado por um governo desajeitado, ou mesmo por conta de alguma especulação nefasta que tenha varrido os mercados financeiros. Em lugar disso, veio à tona por causa da deterioração das relações econômicas globais ao ponto de uma guerra total. Para entender por que isso provoca o risco de uma depressão, devemos voltar aos anais da história e lembrar o que desgraçou o mundo na década de 1930.
Houve um tempo em que a pergunta mais importante na economia era: “O que causou a Grande Depressão?” Essa pergunta começou a ser feita durante a própria depressão e continuou sendo feita ao longo de anos – aproximadamente até a década de 1980. Após a crise financeira de 2008 e a chamada Grande Recessão, a questão voltou a borbulhar, mas, provavelmente porque a grande recessão não foi uma grande depressão, aquela pergunta só foi feita por alguns poucos anos.
Economistas, como economistas que são, sempre buscaram uma resposta simples, com as diferentes escolas disputando influência para ter a melhor delas. Os keynesianos atribuíram a depressão à falta de apoio do governo a uma economia em declínio. Os monetaristas alegaram que era devido à má gestão da oferta de dinheiro pelos bancos centrais. Os austríacos alegaram que a depressão foi uma resposta econômica natural a muitos gastos imprudentes na década de 1920 e que deveriam ter sido autorizados a purgar o sistema por inteiro.
A realidade é que essas respostas simples nunca foram convincentes. A Grande Depressão foi um evento histórico, e sempre exigiu uma explicação histórica. Antes que as escolas econômicas se solidificassem em torno de seus vários dogmas, isso era bem conhecido. O próprio Keynes, por exemplo, teria rido das explicações “keynesianas” posteriores da depressão. Ele havia escrito em 1919 um livro intitulado As Consequências Econômicas da Paz, sobre a Conferência de Paz de Paris – na qual atuou como delegado –, onde advertiu que o Tratado de Versalhes levaria a uma depressão.
A depressão, como Keynes previu, surgiu da estrutura econômica desequilibrada que emergiu da Primeira Guerra Mundial. A guerra em escala tão terrível havia devastado por inteiro as relações econômicas, tanto internamente aos países, devido ao redesenho da economia para a produção de guerra, quanto internacionalmente, à medida que os blocos aliados se esfolavam e espantavam o resto do mundo. A coisa sensata a fazer depois da guerra teria sido tentar restaurar as relações econômicas a um certo equilíbrio o mais rápido possível.
Os delegados da Conferência de Paz de Paris fizeram exatamente o oposto. Eles viam o Tratado de Versalhes, parafraseando Clausewitz, como a continuação da guerra por outros meios. As potências aliadas queriam punir a Alemanha, a quem culpavam pela guerra. Sobrecarregaram então o país com uma carga de dívida impossível e logo adiante ocuparam o Ruhr, a região mais produtiva da Alemanha. Os norte-americanos também queriam ser pagos. Os Aliados tinham acumulado dívidas enormes com eles, ao comprarem armamentos durante a guerra. Em vez de assumirem uma posição superior e cancelar a dívida – como os aliados costumavam fazer até então – os norte-americanos exigiam ser pagos, e com taxas de juros relativamente altas.
A década de 1920 foi uma década de dívidas e decadência porque o sistema internacional foi construído sobre uma instável pirâmide de dívidas. Em 1929, tudo desmoronou. Mas esse foi apenas o gatilho. As dívidas que vinham se acumulando eram o espelho das relações econômicas desiguais e insustentáveis entre os países. A Europa era uma economia perdida, que vivia de rolar cada vez mais empréstimos norte-americanos. Quando a pirâmide entrou em colapso, a Europa foi-se com ela.
A depressão de fato se instalou quando o colapso da Europa deu origem ao colapso do comércio global. Entre 1929 e 1933, esse comércio caiu cerca de 30%. A rigor, a Europa tinha se tornado um buraco negro econômico. Todas as transações que realizava com outros países se viram minadas, e por consequência seus problemas econômicos se espalharam como um câncer pela economia global. Esse câncer provou ser especialmente virulento nos Estados Unidos, que na época era o maior parceiro comercial da Europa. Vários países, desesperados para proteger suas economias domésticas, se engajaram em guerras comerciais, impondo tarifas sobre mercadorias estrangeiras. E o comércio global desabou ainda mais.
Hoje vemos dinâmicas muito semelhantes se movendo no mundo que nos cerca. A dívida vem se acumulando nas economias ocidentais há décadas, mas tornou-se particularmente aguda nos últimos três anos. Isso se deve, em primeiro lugar, aos enormes gastos para manter as pessoas alimentadas durante os lockdowns na pandemia e, em segundo lugar, aos custos crescentes – especialmente de energia – produzidos pela guerra na Ucrânia.
E agora parece que estamos prontos para entrar na segunda fase da repetição histórica: o colapso da Europa. O colapso da Europa ocorrerá porque ela não tem mais acesso a energia suficiente para suas necessidades econômicas. No início da crise, quando a Rússia reagiu privando a Europa do gás tão necessário, muitas pessoas – inclusive eu – podiam até mesmo desdenhar a situação, como um desdobramento temporário. Uma vez que a guerra estivesse resolvida, acreditávamos que o gás seria religado. Mas agora os gasodutos do gás russo foram explodidos no que parece ser um ato de sabotagem norte-americana. Não há como voltar para a velha Europa agora.
Com acesso insuficiente à energia, seu preço no continente permanecerá extremamente alto pelos próximos anos. A indústria europeia, para a qual a energia é um insumo fundamental, deixará de ser competitiva. Se os fabricantes europeus quiserem continuar a fazer negócios, terão de aumentar os preços dos seus produtos. Isso tornará tais produtos não competitivos frente àqueles dos Estados Unidos e da China. Esses não estão sofrendo escassez de energia. E isso colocará os fabricantes europeus fora do mercado. A Europa sangrará em empregos-chave. A gangrena se espalhará, pois os futuros funcionários da indústria não terão salários para gastar na economia, e teremos uma depressão no continente.
Alguns podem supor que isso ofereceria uma oportunidade para outros países ocidentais. Muitos pensam que, por exemplo, a indústria europeia viria a se reassentar nos Estados Unidos. É improvável que esse seja o caso. Se a indústria europeia desmoronar, a Europa volta a ser um buraco negro econômico – como aconteceu na década de 1930. O comércio estará minado e seus principais parceiros comerciais sentirão o refluxo. Em suma, se os Estados Unidos tentarem capturar as manufaturas europeias para suas plagas, logo descobrirão que não haverá ninguém para comprar o que elas produzirem.
Consideremos as estatísticas. O escritório do representante comercial dos Estados Unidos estima que, em 2019, os Estados Unidos transacionaram mais de 5,6 trilhões de dólares em comércio – cerca de 26% do PIB. No mesmo ano, o comércio com a União Europeia foi estimado em 1,1 trilhões – cerca de 20% do seu comércio total. Se a Europa afundar no abismo, essa cifra vai se desidratar.
Quais as consequências para os Estados Unidos? Por um lado, as exportações para a Europa cairão e os trabalhadores americanos perderão empregos. Não será uma simples perda cíclica de empregos, como acontece em uma recessão, onde os empregos voltam à medida que os negócios voltam ao normal. Esses empregos estarão perdidos enquanto a Europa trabalhar (ou, mais precisamente, não trabalhar) com custos de energia proibitivamente altos. Eventualmente algumas importações das quais os Estados Unidos dependem da Europa também não poderão ser substituídas pelo comércio com outras nações ou pela produção doméstica. Os Estados Unidos serão forçados a comprar esses bens aos preços europeus mais altos, reduzindo por consequência a renda real dos cidadãos americanos.
Quando a Europa acordar para a confusão em que está metida, provavelmente tentará reagir buscando salvar suas indústrias por meio de tarifas. Em tal situação, a opção menos ruim para a Europa – não para a economia global, mas para a Europa especificamente – será aumentar as tarifas sobre importações, para tornar os produtos internacionais tão caros quanto os produtos domésticos que sofrem com a inflação dos custos de energia. Mais uma vez, estamos de volta à década de 1930, onde, ainda que seja do interesse individual de cada país se envolver numa guerra comercial, não o é do interesse coletivo. Um cenário de pesadelo.
No entanto, há uma diferença fundamental entre o mundo das décadas de 1920 e 1930 e o de hoje. No período entre guerras, não havia um bloco econômico rival real para o Ocidente. A Rússia era um pequeno ator, a China era uma economia agrícola, e o que hoje chamamos de “economias em desenvolvimento” (Brasil, Índia, África do Sul etc.) era tudo menos “em desenvolvimento”. Esse não é mais o caso. Na esteira da guerra na Ucrânia, o mundo em desenvolvimento começou a se unir, como a aliança BRICS+. Esta aliança parece ter como objetivo a dissociação da economia ocidental tanto quanto possível.
O BRICS+ é uma força a ser reconhecida. Tem amplo acesso à energia – com a Rússia e a Arábia Saudita sendo dois dos maiores produtores de petróleo do mundo. Tem acesso a recursos essenciais – o Brasil é o principal produtor de minério de ferro do mundo. E tem uma potência fabril pujante o suficiente para transformar as coisas do solo em coisas na prateleira: a China.
Não está claro se a aliança BRICS+ será derrubada junto com o Ocidente, se este cair em depressão. Não sofre os mesmos problemas com dívidas, por exemplo. Tampouco grande parte da aliança BRICS+ enfrenta um colapso industrial iminente por conta de preços de energia inacreditavelmente altos, como a Europa está hoje. Além de algum potencial para sérios conflitos geopolíticos – na Ucrânia e em Taiwan – o BRICS+ parece ter um atestado de saúde econômica relativamente limpo e muito espaço para crescer no futuro.
As decisões que levaram à grande guerra energética europeia de 2022 provavelmente entrarão para a história como alguns dos maiores erros de cálculo econômico e geopolítico da história da humanidade. Eles se juntarão ao Tratado de Versalhes e às guerras tarifárias da década de 1930 na cesta de párias da política, que as gerações futuras serão ensinadas a evitar a todo custo. Como os europeus chegamos aqui? Como essas más decisões foram tomadas em nosso nome? Isso eu deixo para os futuros historiadores resolverem, provavelmente quando os arquivos forem abertos.
Philip Pilkington é economista. Autor, entre outros livros de The Reformation in Economics (Palgrave Macmilan).
O recado dos brasileiros nas urnas, neste primeiro turno das eleições que se encerrou dia 2 de outubro, demonstra a consolidação do pensamento de direita, preponderantemente conservador, que se revelou de forma mais nítida na população. A partir de 2018, e, sobretudo, após esses 4 anos de governo Bolsonaro, ganhou mais força e aderência na sociedade.
A eleição de representantes desse pensamento ao Poder Legislativo federal é demonstração de força dessa vertente política no País.
Na Câmara dos Deputados, os partidos que elegeram parlamentares com essa linha de pensamento político, aumentaram de 210 para 259 representantes.
No Senado, a direita também aumentou o número de representantes: 22 para 36.
Polarização esquerda x direita
Como efeito da polarização nacional, a esquerda também cresceu em relação à representação no do Parlamento para 2023. Esse matiz política aumentou, de 73 para 94 deputados federais eleitos, e, no Senado, de 6 para 9, que representam os partidos ligados à esquerda na Casa.
A centro-direita, centro e centro-esquerda reduziram, em relação à última eleição na Câmara, ressalvada a centro-direita no Senado, que aumentou em relação ao pleito de 2018.
A centro-direita e centro, comparado ao centro-esquerda, tiveram as menores reduções na representação.
Na Câmara, a centro-direita caiu de 94 para 73; o centro de 76 para 56; e a centro-esquerda, de 60 para 31. No Senado, a centro-direita aumentou de 13 para 20 senadores, e o centro diminuiu de 29 para 12; e a centro-esquerda, de 11 para 4 parlamentares.
Agendas no Congresso
Pautas como a descriminalização do aborto, o homeschooling e união homoafetiva terão mais força nos debates, por crenças religiosas, e não por necessidade de direitos ou políticas públicas com amparo do Estado.
O meio ambiente também pode sofrer impactos com essa nova composição. Alinhados com o pensamento conservador nos costumes e neoliberal no campo econômico, alguns parlamentares chegam ao Congresso são favoráveis à diminuição das terras indígenas, para que possam ser liberadas para o plantio.
Outro ponto agressivo ao meio ambiente é a possibilidade de autorizar e ampliar a comercialização de mais agrotóxicos no País, além de a possibilidade de flexibilizar a fiscalização em relação aos processos de preservação das matas, rios, entre outros.
Ainda nesse campo chamado ideológico, associam-se parte significativa da bancada de segurança, com discurso do combate à corrupção, apoio ao excludente de ilicitude e outros temas corporativos, que fazem parte da pauta e podem ter reforço nas bancadas eleitas na Câmara e no Senado para a próxima legislatura – 2023-2027.
Conheça as principais proposições em tramitação no Congresso, que tratam das demandas ideológicas do campo conservador. Esta é, em grande medida, a pauta que Bolsonaro não conseguiu viabilizar na atual legislatura. Todavia, se for reeleito, com o perfil do Congresso que emergiu das urnas neste ano, terá mais condições de levar a cabo.
Foi divulgada a primeira pesquisa de intenção de voto para o segundo turno. E ela aponta para a vitória do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. A pesquisa foi feita pelo Instituto Ipec, formado por pesquisadores do antigo Ibope, e foi encomendada pela TV Globo.
De acordo com a pesquisa, Lula tem 51% de intenções de voto, e Jair Bolsonaro, do PL, candidato à reeleição, tem 43%. Brancos e nulos foram 4%. Não sabem ou não responderam, 2%.
Foram entrevistas duas mil pessoas entre os dias 3 e 5 de outubro, em 129 municípios. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR-02736/2022.
Na simulação de segundo turno feita pelo Ipec antes da realização do primeiro turno, Lula aparecia com 52% e Bolsonaro com 37%.
No primeiro turno das eleições, Lula teve 48,4% dos votos válidos (57,2 milhões) e Bolsonaro 43,2% (51,07 milhões).
AUTORIA
RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.
O presidente Jair Bolsonaro (PL) se viu inserido em três assuntos polêmicos em questão de 24h. Primeiro, nessa terça-feira (4), um vídeo do presidente em um encontro maçônico começou a viralizar nas redes sociais.
Confira o vídeo:
O registro teria sido feito em 2017, antes de Bolsonaro se eleger. Mais do que o conteúdo, o que o vídeo reforça é a presença de Bolsonaro entre os maçons. Grupos evangélicos que apoiam o presidente na sua tentativa de reeleição costumam criticar a maçonaria. “Nós temos tudo para ser uma grande nação. Às vezes, a gente olha para um país pequeno, alguns até menores que o menor estado nosso, Sergipe, que nada têm, e são destaque. Nós, com todo esse potencial que aqui temos, lamentavelmente devemos muito ainda para chegar próximo a essas nações”, diz Bolsonaro no vídeo gravado.
Na mesma linha de associar o presidente e seus aliados à maçonaria, internautas também resgataram vídeos do casamento da deputada Carla Zambelli (PL-SP) em uma loja maçônica e imagens do vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) numa reunião da sociedade secreta.
A maçonaria é uma sociedade secreta que não é bem-vista por alguns membros da comunidade católica. Já entre a maioria dos evangélicos, público onde Bolsonaro tem grande aceitação e uma das bases do seu governo, a maçonaria é rechaçada e associada com o satanismo.
Aborto
Já nesta quarta-feira (5), internautas recuperaram uma entrevista de Bolsonaro em que ele defende que o aborto é “uma decisão do casal”. O tema já havia sido tema de matéria do Congresso em Foco. Na entrevista, Bolsonaro afirma que já havia passado por uma experiência relacionada ao tema. Ele deixa subentendido que defendia o aborto no caso da gravidez de Jair Renan, seu quarto filho. Mas que a decisão da mãe, Ana Cristina Valle, foi manter a gravidez.
A entrevista foi dada à revista IstoÉ Gente, em 2000. Quando perguntado pela jornalista Cláudia Carneiro sobre sua posição em relação ao aborto, o então deputado Jair Bolsonaro respondeu: “Tem de ser uma decisão do casal”. Ele relatou ter sido instado a decidir sobre o assunto. “Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó”.
Na ocasião, conforme relato da jornalista, Bolsonaro apontou para a foto no mural de Jair Renan, filho mais novo de Bolsonaro, então com um ano e meio. Jair Renan é filho de Bolsonaro com Ana Cristina Valle.
Atualmente, a proibição do aborto é uma das principais campanhas de Bolsonaro.
“Canibalismo”
Ainda nesta quarta, um vídeo de Bolsonaro dando uma entrevista ao jornal americano The New York Times, em 2016, foi recuperado com o presidente afirmando que iria comer carne humana. O vídeo está disponível na página oficial do presidente no YouTube.
Confira a fala:
“Morreu o índio e eles estão cozinhando, eles cozinham o índio, é a cultura deles. Cozinha por dois, três dias, e come com banana. Daí, eu queria ver o índio sendo cozinhado, e um cara falou: ‘Se for ver, tem que comer’. Daí, eu disse: ‘Eu como!’. E ninguém quis ir, porque tinha que comer o índio, então eles não me queriam levar sozinho, e não fui”, disse Bolsonaro.
Embora internautas tenham se referido ao ato como canibalismo, se trata de antropofagia, quando se consome carne humana dentro de um ritual religioso.
No vídeo, Bolsonaro também afirma que só não teve relações sexuais com mulheres famintas no Haiti por falta de higiene e “porque não precisava”.
AUTORIA
CAIO MATOS Repórter. Formado em jornalismo pela Universidade Paulista (Unip). Trabalhou na Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) e nas assessorias de comunicação da Casa Civil da Presidência da República e da Codeplan.
A senadora Simone Tebet (MDB-MS), que foi candidata de seu partido à Presidência da República, anunciou na tarde desta quarta-feira (5), em live transmitida por suas redes sociais, o apoio no segundo turno a Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Simone Tebet almoçou com Lula em São Paulo e fez o anúncio às 16h.
“Não cabe a opção pela neutralidade”, disse Simone Tebet. “Ainda que mantenha as críticas que fiz, depositarei em Lula o meu voto, porque reconheço nele o compromisso com a democracia, o que desconheço no atual presidente”, afirmou a senadora.
Veja o pronunciamento de Simone Tebet:
Simone disse que chegou a ser pressionada por alguns companheiros de partido a manter a neutralidade, o que poderia facilitar compromissos políticos. “Peço desculpas a esses companheiros”, afirmou. “Se omitir seria trair minha trajetória política desde que, aos 14 anos, pedi autorização à minha mãe para ir às ruas gritas pelas Diretas Já”.
Simone Tebet foi a terceira colocada no primeiro turno, atrás de Lula e Jair Bolsonaro. Ela teve 4,2% dos votos válidos, 4,9 milhões de votos.
O MDB liberou seus filiados para apoiarem os nomes que quiserem no segundo turno. O ex-presidente Michel Temer e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, apoiarão a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Helder Barbalho, reeleito governador do Paraná com a maior votação proporcional do país, apoiará Lula.
Veja a íntegra do pronunciamento de Simone Tebet:
“MANIFESTO AO POVO BRASILEIRO
Apresentei minha candidatura à Presidência da República diante de um país dividido pelo discurso do ódio, da polarização ideológica e de uma disputa pelo poder que não apresentava soluções concretas para os problemas reais do povo brasileiro. Minha intenção foi construir uma alternativa a essa situação de confronto, que não reflete a alma e o caráter da nossa gente.
As urnas falaram. O povo brasileiro fez sua voz ser ouvida. Cumpriu-se o rito da Constituição, que hoje completa 34 anos. Venceu a democracia. Tive 4.915.423 votos, pelo que agradeço, do mais fundo do coração, por cada um deles.
Aprendi, ao longo de minha vida política, que não se luta apenas para vencer, mas para defender projetos, disseminar ideias, iluminar caminhos, plantar boas sementes para uma colheita coletiva.
O eleitor optou por dois turnos.
Em face de tudo o que testemunhamos no Brasil dos últimos tempos e do clima de polarização e de conflito que marcou o primeiro turno, não estou autorizada a abandonar as ruas e praças, enquanto a decisão soberana do eleitor não se concretizar.
A verdade sempre me foi companheira, não será agora que irei abandoná-la. Critiquei os dois candidatos que disputarão o segundo turno e continuo a reiterar as minhas críticas. Mas, pelo meu amor ao Brasil, à democracia e à Constituição, pela coragem que nunca me abandonou, peço desculpas aos amigos e companheiros que imploraram pela neutralidade neste segundo turno, preocupados que estão com a eventual perda de algum capital político, para dizer que o que está em jogo é muito maior que cada um de nós. Votarei com minha razão de democrata e com minha consciência de brasileira. E a minha consciência me diz que, neste momento tão grave da nossa história, omitir-me seria trair minha trajetória de vida pública, desde quando, aos 14 anos, pedi autorização à minha mãe para ir às ruas lutar pelas Diretas Já. Seria desonrar a história de vida pública de meu pai e de homens históricos do meu partido e da minha coligação. Não anularei meu voto, não votarei em branco. Não cabe a omissão da neutralidade.
Há um Brasil a ser, imediatamente, reconstruído. Há um povo a ser, novamente, reunido. Reunido na diversidade, antes (e sempre) a nossa maior riqueza, agora esmigalhada por todos os tipos de discriminação.
Neste ponto, um desabafo: de que vale irmos às nossas igrejas, proclamar a nossa fé, se não somos capazes de pregar o evangelho e respeitar o nosso próximo nos nossos lares, no nosso trabalho, nas ruas de nossa pátria?
Nos últimos quatro anos, o Brasil foi abandonado na fogueira do ódio e das desavenças. A negação atrasou a vacina. A arma ocupou o lugar do livro. A iniquidade fez curvar a esperança. A mentira feriu a verdade. O ouvido conciliador deu lugar à voz esbravejada. O conceito de humanidade foi substituído pelo de desamor. O Brasil voltou ao mapa da fome. O orçamento, antes público, necessário para servir ao povo, tornou-se secreto e privado.
Por tudo isso, ainda que mantenha as críticas que fiz ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em especial nos últimos dias de campanha, quando cometeu o erro de chamar para si o voto útil, o que é legítimo, mas sem apresentar suas propostas para os reais problemas do Brasil, depositarei nele o meu voto, porque reconheço seu compromisso com a Democracia e a Constituição, o que desconheço no atual presidente.
Meu apoio não é por adesão. Meu apoio é por um Brasil que sonho ser de todos, inclusivo, generoso, sem fome e sem miséria, com educação e saúde de qualidade, com desenvolvimento sustentável. Um Brasil com reformas estruturantes, que respeite a livre inciativa, o agronegócio e o meio ambiente, com comida mais barata, emprego e renda.
Meu apoio é por projetos que defendo e ideias que espero ver acolhidas. Dentre tantas que julgo importantes, destaco cinco, tendo sempre a responsabilidade fiscal (âncora fiscal) como meio para alcançar o social:
Educação: ajudar municípios a zerar filas na educação infantil para crianças de três a cinco anos e implantar, em parceria com os estados, o ensino médio técnico, com período integral e conectividade, garantindo uma poupança de R$ 5 mil ao jovem que concluir o ensino médio, como incentivo para que os nossos jovens voltem à escola;
Saúde: zerar as filas de cirurgias, consultas e exames não realizados no período da pandemia, com repasse de recursos ao SUS;
Resolver o problema do endividamento das famílias, em especial das que ganham até três salários mínimos mensais;
Sancionar lei que iguale salários entre homens e mulheres que desempenham, com currículo equivalente, as mesmas funções. Esse projeto já foi aprovado no Senado Federal e encontra-se parado na Câmara dos Deputados;
Um ministério plural, com homens, mulheres e negros, todos tendo como requisitos a competência, a ética e a vontade de servir ao povo brasileiro.
Até o dia 30 de outubro, estarei nas ruas, vigilante; meu grito será pela defesa da democracia e por justiça social; minhas preces, por uma campanha de paz.
Com os meus mais sinceros agradecimentos ao povo brasileiro,
Simone Tebet”
AUTORIA
RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.
A primeira pesquisa a ser divulgada neste segundo turno das eleições presidenciais mostra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com dez pontos percentuais de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PT).
Conforme levantamento do Ipec publicado nesta quarta-feira (5), o ex-presidente tem 55% dos votos válidos, contra 45% do atual presidente.
Nos votos totais, Lula aparece com 51%, e Bolsonaro, com 43%. Há 4% de brancos e nulos, além de 2% de indecisos.
Ainda de acordo com o levantamento, 50% dos eleitores não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum. A rejeição a Lula é menor: 40%.
O Ipec ouviu 2 mil eleitores desde segunda-feira (3) – a pesquisa foi concluída nesta quarta. A margem de erro é de dois pontos percentuais.