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Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

Se, de um lado, o desenvolvimento tecnológico proporcionou qualidade de vida e contribui para o aumento da expectativa de vida de parte da população, de outro, ele ainda “não favorece uma massa de pessoas que estão à margem, que são usadas para serem trituradas dentro da lógica capitalista”, pondera Roseli Figaro, na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Pesquisadora do projeto Fairwork, ela comenta a seguir os principais resultados do primeiro relatório sobre a atuação das plataformas digitais no Brasil em relação ao trabalho decente, lançado recentemente. Segundo ela, a pontuação das principais plataformas atuantes no país indica que “o que elas estão fazendo é barbárie”. Ela explica: “Duas das plataformas estão menos mal pontuadas porque receberam dois pontos, que são o iFood e a 99. O iFood pontuou nos itens básicos ‘contrato de trabalho’ e ‘representação coletiva’ e a 99 pontuou em ‘salário’ e ‘condições de segurança’. Não pontuaram em mais nenhum item. O Uber teve um ponto no item básico ‘condições de trabalho’. A Rappi, o GetNinjas e o Uber Eats não obtiveram pontos. Foram avaliados como zero em todos os itens. Em nossos levantamentos, não conseguimos identificar provas de que eles cumpram quaisquer desses cinco princípios, mesmo no item básico”.

O relatório, acrescenta, evidencia que as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil porque “temos uma tradição de trabalho informal, de relações de trabalho que são ainda pré-capitalistas e que permitem que essas empresas, ao chegarem no país, sejam vistas como benfeitoras, permitindo que elas tomem atitudes absolutamente em desacordo com a legislação”.

Roseli Aparecida Figaro Paulino é professora livre-docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da USP. Possui pós-doutorado pela Universidade de Provence, França. Ela é coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa da USP/Comunicação e Censura e do Grupo de Pesquisa do Arquivo Miroel Silveira. Dedicou seus estudos à comunicação relacionada ao mundo do trabalho. É também autora de outros seis livros, entre eles, citamos: Comunicação e Análise do Discurso (São Paulo: Contexto, 2012).

Confira a entrevista.

Como se constitui o projeto Fairwork e qual a importância de sua atuação também diante da realidade brasileira?

Esse projeto de pesquisa é uma iniciativa da Universidade de Oxford. A partir dos princípios do trabalho decente, se constituíram grupos de pesquisadores em diferentes universidades em 27 países. O projeto tem uma coordenação global e pesquisas são realizadas em cada um dos países membros. No Brasil, entramos no Fairwork em 2020 e lançamos o primeiro relatório sobre a realidade do país. A Unisinos é a coordenadora da pesquisa e constitui uma rede com a Universidade de São Paulo – USP, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, com equipes multidisciplinares. No Rio de Janeiro tem uma equipe da área do Direito, em São Paulo e na Unisinos, uma equipe da área de comunicação, na UFRGS, uma equipe de psicologia e, no Paraná, uma equipe da comunicação. Nós trabalhamos, a partir da metodologia do Fairwork, em torno dessa ideia de trabalho decente. O Fairwork traduziu isso em cinco princípios.

Quais são?

São aqueles mínimos: remuneração decente – para cada país buscamos saber se se paga, depois de oito horas de trabalho diário, no final do mês, um salário mínimo mensal; condições justas de trabalho, que dizem respeito a equipamentos de proteção individual e ao mínimo de segurança para o trabalhador; contratos decentes, ou seja, que haja contratos claros e explícitos, com termos de contratos de trabalho, o que não acontece hoje; gestão justa, isto é, analisamos como se dão as relações, sobretudo de comunicação, com os trabalhadores, se eles têm a possibilidade de contestar algo, porque em muitos casos a comunicação é informatizada e os trabalhadores não recebem um retorno imediato; e a representação coletiva, ou seja, a possibilidade de reconhecimento de que os trabalhadores têm direitos à representação coletiva. Esses cinco princípios são pontuados em dois níveis: um nível básico, que recebe um ponto, e um nível avançado, que recebe mais um ponto. Cada princípio formula dois pontos, sendo que a nota máxima de todos os princípios é dez.

Em uma perspectiva mais teórica, buscando tocar as questões de fundo, por que as plataformas de trabalho concebem atividades fora de padrões decentes? Regredimos à lógica das fábricas dos séculos XIX e início do XX, apenas agora com o verniz da tecnologia e comunicação?

Você aponta bem; se trata de uma questão de fundo. Por que isso está acontecendo no século XXI, em que temos tanta tecnologia, conhecimento e dinheiro circulando? Porque isso faz parte de uma lógica disruptiva da exploração que o capitalismo implementa usando avanços tecnológicos. A tecnologia, ao invés de trazer qualidade de vida para a maioria das pessoas, traz melhoria para 20% da população. Assim, as tecnologias são apropriadas para trazerem mais lucro para as empresas, ou seja, para os mesmos de sempre, penalizando o trabalho porque sem este nada acontece.

Nomeamos a relação entre tecnologia e conhecimento de tecnociência. Ela está comprometida com o resultado para o capital e causa profundo dano para os trabalhadores de forma geral. Pensamos que a tecnologia está mudando e modernizando o mundo do trabalho e quem não quer se modernizar está atrasado. Este é o discurso hegemônico: as pessoas não se qualificam. Mas, para usar um aplicativo, não é preciso de qualificação. Se a tecnologia é tão avançada, por que se estabelece um trabalho tão retrógrado? Veja que o conhecimento tecnológico não favorece uma massa de pessoas que estão à margem, que são usadas para serem trituradas dentro da lógica capitalista. Claro que os algoritmos estão avançando e aperfeiçoando outras formas de uso, mas essa forma básica traz muitos dividendos não só em termos de capital, mas em termos de mercadorias, de dados. Então, retroagimos a uma situação vivida nas fábricas do século XX, mas não estamos mais naquelas fábricas pesadas, analógicas, quando ainda não tínhamos uma rede elétrica extensiva, não tínhamos muitos conhecimentos que temos hoje. Regredimos muito porque temos condições de oferecer qualidade de trabalho para toda a população.

Segundo o relatório do projeto Fairwork no Brasil, quais são as maiores infrações cometidas pelas plataformas/empresas que tornam o trabalho não decente?

O Brasil é o segundo país mais mal pontuado nos relatórios Fairwork; só estamos acima de Bangladesh. Por que isso acontece no país? Porque temos uma tradição de trabalho informal, de relações de trabalho que são ainda pré-capitalistas e que permitem que essas empresas, ao chegarem no país, sejam vistas como benfeitoras, permitindo que elas tomem atitudes absolutamente em desacordo com a legislação. Logo, elas não atendem aos princípios mínimos do Fairwork e não atendem à legislação da Constituição Federal, que está sendo rasgada todos os dias pelo governo federal.

Vivemos um momento muito difícil em termos de reconhecimento dos direitos, das condições de vida e trabalho e de aumento da pobreza. Essas empresas entram nesse cenário e conseguem explorar a força de trabalho, passando por benfeitoras. Em muitas das entrevistas que realizamos, os entrevistados dizem que elas estão “dando o trabalho” aos trabalhadores. Mas não é isso; elas precisam do trabalho porque, sem ele, elas não existem. Ou seja, a empresa não “dá trabalho” para ninguém. Ela cria uma relação de trabalho através de um contrato de trabalho porque ela precisa do trabalho. Do contrário, o seu produto não é desenvolvido. Então, as empresas encontram no Brasil um território muito propício para descumprir a Constituição e os direitos mínimos dos trabalhadores.

O que mais tem surpreendido vocês nas entrevistas com trabalhadores? E nas reuniões com os gestores de plataformas?

Fiz entrevistas pessoalmente com alguns trabalhadores no período da pandemia e é muito dolorido e difícil conversar com eles. Eles relatam que trabalham dez, 12 horas por dia e não conseguem se alimentar nem ter dinheiro para comer durante a jornada. Se não recebem uma gorjeta a mais, se alguém não se solidariza ou se o dono de um restaurante não tem um coração que tenha a intenção de ajudar, muitas dessas pessoas não conseguem fazer uma refeição ao longo do dia de trabalho. Quer situação mais triste do que isso? Situação que mais revela precariedade dessas pessoas?

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O que mais nos chama a atenção com os gestores é a capacidade retórica deles de simularem um discurso que só está preocupado com a imagem da marca. É um discurso que não está preocupado com a relação entre capital e trabalho, com a relação das pessoas. Tivemos várias conversas com os gestores e foi difícil mostrar a eles que o projeto não está interessado em desqualificar as plataformas, mas, ao contrário, quer que elas se qualifiquem. Tenho uma preocupação com os profissionais da comunicação que estão a serviço de uma lógica que pouco atende inclusive a sua própria qualidade de vida. As pessoas têm pouca empatia, compaixão.

Quais são as piores plataformas no ranking e o que justifica essas posições? E o que contribui para algumas plataformas/empresas estarem em colocações melhores?

Duas das plataformas estão menos mal pontuadas porque receberam dois pontos, que são o iFood e a 99. O iFood pontuou nos itens básicos “contrato de trabalho” e “representação coletiva” e a 99 pontuou em “salário” e “condições de segurança”. Não pontuaram em mais nenhum item. O Uber teve um ponto no item básico “condições de trabalho”. A Rappi, o GetNinjas e o Uber Eats não obtiveram pontos. Foram avaliados como zero em todos os itens. Em nossos levantamentos, não conseguimos identificar provas de que eles cumpram quaisquer desses cinco princípios, mesmo no item básico. As plataformas no Brasil estão “nadando de braçada” porque não tem legislação sobre o trabalho. São raras as meritórias decisões que estão dando conta de regulamentar a atividade comercial dessas empresas. Trata-se do que se chamava, no século XVIII, de acumulação do capitalismo selvagem; é uma terra de ninguém. Isso é triste porque a Constituição é muito clara em relação a isso e os três poderes do Estado não estão preocupados, de modo geral, com algumas exceções, com a situação.

Muitas pesquisas também têm apontado o custo para os trabalhadores exercerem suas atividades via plataformas, além dos riscos e desgastes do trabalho por demandas e longas jornadas. A partir da pesquisa desenvolvida por vocês, é possível vislumbrar saídas e busca de soluções para esses problemas?

Sim. O próprio Fairwork como pesquisa-ação propõe a regulamentação. Isso seria um primeiro passo civilizatório: regulações muito claras da relação entre capital e trabalho. Ou seja, o empregador reconhece que o trabalhador trabalha e tem direito ao trabalho e ao mínimo necessário para a sua sobrevivência. Esse é um aspecto do Fairwork. Portanto, estamos trabalhando em relação ao mínimo.

Outra questão é em relação às alternativas de trabalho. Por que temos que trabalhar para as plataformas globais que não têm nada a ver com o nosso país, que são dependentes de tecnologias estrangeiras, que são dependentes de outra legislação e são de outros países, mas comandam a lógica do trabalho em nosso território? Por que não criarmos plataformas alternativas, públicas, cooperativas, privadas? Seria muito importante para o Brasil ter um parque tecnológico para ampliar a circulação do capital entre os diversos entes empresariais e de conseguir melhores condições de trabalho para a sua população. Esse é o ponto que mais gostaríamos de ver avançar.

Como conceber políticas públicas para proteger esses trabalhadores? Que experiências de outros países poderiam nos inspirar?

Em termos de políticas públicas, temos feito um esforço no sentido de ampliar a nossa interlocução com a sociedade civil organizada, com o Ministério Público, o legislativo e os setores sindicais, como cooperativas e associações profissionais, porque todos esses entes juntos é que poderão buscar soluções minimamente mais adequadas para os trabalhadores. Nesse sentido, há deputados que estão propondo projetos de lei para regulamentar esse trabalho e setores do judiciário que estão estudando as possíveis formas de regulação a partir dos processos judiciais que são abertos. O movimento sindical também parece que está se abrindo e percebendo que em diferentes categorias é preciso prestar solidariedade a esses trabalhadores no sentido de que possam buscar seus direitos. A regulamentação é fundamental. Temos que reconhecer que essas pessoas são trabalhadoras dessas empresas e precisam ter contratos claros, explícitos, precisam de segurança no trabalho e, sobretudo, de um trabalho digno para sustentar a si e seus familiares.

Entre os apontamentos do relatório, está o de que “é preciso que o capitalismo reconheça o mínimo de dignidade no trabalho”. Gostaria que a senhora recuperasse e detalhasse essa ideia.

A lógica do capitalismo é esta: ele é o provedor, ou seja, o princípio, o meio e o fim de tudo. Ele não reconhece que sem o trabalho humano, concreto, ele não existe. Nós somos analistas de trabalho e, como analistas, enquanto atividade humana, a partir dos estudos das diferentes áreas do conhecimento, entendemos o trabalho como constitutivo do ser humano. Então, quando o trabalhador está trabalhando, ele está inteiro no trabalho, investindo todo o seu ser nisto. Isso é uma atividade humana e isso acontece em todo tipo de trabalho humano. O que estou querendo dizer é que essa dignidade do trabalho significa a dignidade humana, porque o ser humano trabalha em diferentes sentidos e atividades. O capitalismo, por sua vez, usa o trabalho para ter capital. Mas não existe capitalismo sem trabalho, enquanto existe trabalho sem capitalismo e sempre existiu desde que o mundo é mundo. É isso que precisamos ter claro. Não estou querendo me fazer de rogada, querendo dizer que o capitalismo pode ser bonzinho e não quer explorar o trabalho. Não. O capitalismo não existe sem explorar o trabalho. O que estou dizendo é que precisamos de uma regulação que reconheça a dignidade humana do trabalhador para termos um sistema capitalista e não esta selvageria que existe hoje, a barbárie.

Não podemos perder a dimensão de que o trabalho está ancorado na necessidade humana de ação, de realização, de criação. É daí que se estrutura o trabalho regulado, regulamentado, com finalidade. Nesse sentido, o Fairwork tem um papel importante de chamar a atenção da sociedade e, inclusive, das próprias plataformas, de que o que elas estão fazendo é barbárie. Nós podemos ser mais civilizados dentro do capitalismo.

É duro perceber que passamos a ter a necessidade de defender princípios básicos civilizatórios. O que está em jogo é a civilização.

Exato. É isso mesmo. Estamos em uma situação de mudança. A virada do início do século XXI, dessa reestruturação do mundo do trabalho, está ancorada na mudança paradigmática do próprio capitalismo, que, com as tecnologias, se transformou em um capitalismo plataformizado. Ou seja, as empresas globais atuam como plataformas, como se elas fossem apenas base de interação entre interesses e finalidades, mas regulando, formatando e impondo suas novas lógicas globais de relacionamentos e de legislação.

Hoje, uma plataforma como o Google tem mais poder de regularização, através dos seus termos de uso, do que a própria ONU. Veja a batalha da ONU para que os seus tratados sejam cumpridos pelos países membros. A própria guerra que está ocorrendo entre Ucrânia e Rússia é justamente porque os países não cumprem os acordos feitos. O que se cumpre são a regulação das grandes plataformas, porque, do contrário, não se tem acesso ao uso delas.

Qual deve ser o princípio central que deve nortear a relação entre trabalhador e plataforma?

O princípio central é o contrato porque nele está estabelecido como se dá a relação, ou seja, estão estabelecidas as normas do relacionamento: salário, condições de trabalho, jornada. O contrato é o eixo estruturante dessa relação. Quando a pessoa procura um emprego, o empregador informa quanto tempo ela irá trabalhar, qual será o salário, e a pessoa assina o contrato. Então, é exatamente isto que precisamos: contratos que determinem as condições claras e respeitem os direitos constitucionais dos trabalhadores brasileiros.

No final da década de 1990, a senhora pesquisou “o mundo do trabalho como mediação da comunicação”. Na época, como o campo da comunicação incidia (ou mediava) sobre as formas de trabalho? Que mudanças e transformações sociais sofremos até a realidade de hoje com a plataformização?

Nos anos 1990, minhas pesquisas eram em fábricas analógicas. Estudei empresas metalúrgicas que estavam passando pela reestruturação produtiva naquele período. Para analisar a implementação do trabalho digital, acompanhei outra empresa nos anos 2000. Ela deixou de ser uma grande empresa produtora de equipamentos pesados no Brasil para ser uma empresa de serviços, de inteligência. Analisamos essa transição e estudamos o papel da comunicação na adesão dos trabalhadores em relação a esse projeto. Mostramos como a comunicação foi fundamental para essa reestruturação porque ela é parte da racionalização dos processos de trabalho. De lá para cá, isso tudo só se aprofundou porque podemos dizer que todas as plataformas são meios de produção comunicacionais, que dependem da informação e dos processos de informação. Qual é a base material do iFood? É o seu algoritmo, a sua própria plataforma. Ou seja, as relações que se estabelecem a partir de uma infraestrutura digital. Então, esses processos comunicacionais estão a serviço da racionalização dos processos de trabalho e o campo da comunicação se renova. Para além dos estudos de mídia, busca ser um campo de compreensão das profundas relações da sociedade e das relações sociais.

Como o jornalismo vem constituindo seu discurso sobre o trabalho digital e plataformização do trabalho? Em que medida esse discurso contribui para a concepção de trabalhos pouco decentes?

A área do jornalismo também padece desse mal porque este também está plataformizado. Estou lendo um trabalho de iniciação científica de um aluno que está estudando esse tema. Ele mostra, a partir das entrevistas que realizou, que, nas redações, os processos e as lógicas de marcação do tempo, da opinião, da formatação da pauta, ocorrem em função do clique, a partir dos algoritmos de plataformas como Twitter, Google e Facebook. É a partir desses critérios que hoje se determina a estruturação de uma pauta ou como se escreve um texto. Ou seja, as pautas são pautas se podem ser identificadas pelo sistema de busca do Google. Então, tem uma nova forma de produzir o título, o vídeo da matéria, o tamanho do texto, o assunto que está mais propício a ser clicado.

Para esse trabalhador jornalista, a produtividade está relacionada a quantos cliques a matéria que ele produziu teve. Já ouvi relatos de alunos que foram demitidos porque não cumpriram a meta de cliques em suas matérias durante o mês. Isso mostra que o problema da plataformização não se dá apenas com trabalhadores entregadores ou trabalhadores mais pobres, que estão mais vulneráveis à vista da sociedade, mas a todos os trabalhadores da atualidade. Na área da comunicação, publicitários, jornalistas e relações públicas estão padecendo para terem jornadas de trabalho, salários e contratos estabelecidos. A questão do contrato é muito relevante porque este não é um problema somente do trabalhador que não é qualificado. Isso se generaliza na sociedade: médicos e advogados também estão enfrentando esse tipo de problema.

Para o jornalismo isso é muito mais grave porque nós, que acreditamos na democracia e no processo civilizatório, acreditamos que o jornalismo é um eixo estruturante dessa lógica. Mas quando ele passa a ser regulado pela lógica das plataformas, ele perde o seu poder e o eixo básico da sua estrutura deontológica, que é o seu papel de informar de acordo para que o cidadão possa se orientar na sociedade. Sei que isso não é novo para o jornalismo, porque sempre tivemos um jornalismo marrom, sensacionalista, mais vinculado à publicidade do que aos interesses sociais, mas, atualmente, podemos dizer que o jornalismo sério também está permeado pelas métricas das plataformas. Basta acompanhar os portais de informação para ver isso.

 

FonteIHU
Texto: João Vitor Santos e Ricardo Machado
Data original da publicação: 04/04/2022

 

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/sem-legislacao-sobre-o-trabalho-as-plataformas-estao-nadando-de-bracada-no-brasil-entrevista-com-roseli-figaro/

Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

As diferentes nuances do direito intertemporal do trabalho

Joseane de Menezes Condé


Este texto descreve a trajetória sui generis do direito trabalhista e suas diferentes vertentes vanguardistas.

Na antiguidade, a palavra trabalho era denominada de tripalium, derivada do latim, que significava um instrumento utilizado na lavoura pelos camponeses. Posteriormente, com o ápice da civilização greco-romana, este objeto de lavouras passou a ser utilizado para punir escravos e pessoas endividadas, contextualizando o caráter depreciativo da palavra trabalho dessa época. De acordo com o filósofo Platão, “É próprio de um homem bem nascido desprezar o trabalho”. Nesse sentido, é cediço que quem trabalhava nos tempos remotos não possuía certos requisitos da elite do pretérito como capacidade artística, intelectual e política.

Com a queda do Império Romano, houve a descentralização de poder e iniciou- se o sistema de controle feudal que promovia a proteção das famílias em troca do recolhimento da produção nos feudos. Destarte, o trabalho continuou a ter caráter de subordinação e penalização, pois as classes sociais eram praticamente intransponíveis, o regime laboral demonstrava-se como semi- escravagista e a hierarquia engessada entre as classes sociais.

No início do século XVIII, houve a mudança de paradigma do sistema laboral, com industrialização e divisão de trabalhos interpessoais. Segundo o doutrinador Mauricio Godinho Delgado, só havia algumas leis isoladas nessa época e a intervenção estatal era mínima, ou seja, mulheres e crianças trabalhavam exaustivamente em fábricas, com intuito meramente habitacional e alimentar. Segundo o jornal el paiz, as vilas industriais “doadas” pelos empregadores aos empregados continham ratos, falta de saneamento básico e aglomeração de famílias- fato que aumentou a transmissão de doenças como tifo.

Com a expansão da primeira guerra mundial, o desequilíbrio entre empregado e empregador era notório, fazendo com que a polarização de ideais fomentasse movimentos cartistas e manifestos comunistas em prol dos trabalhadores. Um exemplo disso é o Manifesto Comunista de 1848, que estipulava a livre associação sindical e o direito de greve. Entretanto diante de toda a ebulição axiológica, a igreja católica encontrou terreno fértil para ensejar o controle normativo e jurídico da população em geral. Nesse prisma, o Papa Leão XIII escreveu a “Encíclica Rerum Novarum”, em 1891, aberta a todos os bispos, cujo teor discursivo era sobre condições distributivas em prol das classes trabalhadoras.

Diante de tantas mudanças socioeconômicas e culturais, o período entre 1919 e o século XX, foi marcado por reivindicações sociais de direitos fundamentais proativos. Por conseguinte, observa-se que o paradigma de controle do trabalho e toda a movimentação insurrecionista, já  não preenchia os requisitos fundamentais de segunda geração aos trabalhadores. Nesse ângulo, a Constituição Mexicana e a Alemã (Weimar) tornaram- se marcos laborais reivindicatórios, pautando-se na dignidade da pessoa humana, com sugestão tripartite de cooperação, envolvendo o Governo, a organização e  os empregadores.

No fim do século XX, novas mudanças ocorreram em relação a forma de Governo de muitas nações que elegeram governos neoliberais, ampliando a autonomia das vontades, reduzindo o Estado interventor e fomentando as inovações tecnológicas. Um exemplo disso pode ser descrito nos Estados Unidos e na Inglaterra de 1980, que se adaptaram às tecnologias com a criação de novas profissões especializadas. Nessa linha de pensamento, para muitos historiadores, essa época foi marcada por uma dicotomia de valores, pois mesmo havendo inovações laborais, o desemprego chegou a um nível alarmante.

Outrossim, especificamente no Brasil, o Direito do trabalho se iniciou tardiamente com a abolição da escravatura em 1.888 e, posteriormente, com a imigração europeia de trabalhadores. Nesse período, leis lusitanas conduziam os governantes e havia lacunas no tocante aos direitos civis de uma maneira geral. Após 42 anos, surge a figura então presidente Getúlio Vargas, “o pai dos pobres”, que priorizou a criação normativa trabalhista por meio de leis e decretos. Ademais, com toda a popularidade em alta, o governo getulista criou a Consolidação das Leis do Trabalho em 1943 (CLT), com o intuito de unificar todas as leis criadas. Destarte, pode- se citar a criação da Carteira de Trabalho como um marco de inclusão laborativa de grande notoriedade atemporal.

Finalmente, em 1988, foi promulgada a Constituição cidadã com enfoque em direitos fundamentais individuais e coletivos – fato que foi um símbolo sui generis de dignidade da pessoa humana. Entretanto, diante da necessidade de flexibilização do Direito trabalhista e da aplicação da autonomia das relações, entrou em vigor a Reforma Trabalhista em 2017, revogando pelo menos cem dispositivos da CLT. Segundo o doutrinador Pedro Teixeira, a reforma foi um retrocesso de 150 anos para os trabalhadores, pois expandiu em demasia a autonomia relacional, mascarando a hipossuficiência laboral dos proletariados. Nessa linha, faz-se necessário descrever algumas inovações desta reforma como teletrabalho, trabalho intermitente, distrato, regime parcial de trabalho, entre outros. Diante do exposto, desde os primórdios da humanidade até os dias atuais, percebe-se que as mudanças sociais, culturais e econômicas de cada sociedade denotam um papel fundamental na proteção laboral de seu povo. Independente da diversidade das opiniões dos atuantes do Direito, as condições trabalhistas avançaram em prol da coletividade pactuando com o mínimo existencial constitucional.


Joseane de Menezes Condé
Discente de Direito Unimep Piracicaba, cursa aula de redação há 2 anos e é formada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve para o Jornal Gazeta Piracicaba .

Migalhas: https://www.migalhas.com.br/depeso/363203/as-diferentes-nuances-do-direito-intertemporal-do-trabalho

Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

Começa um novo capítulo para os trabalhadores do Amazon

A vitória dos trabalhadores da Amazon representa uma verdadeira história de David contra Golias: um sindicato independente acaba de nocautear uma das empresas mais poderosas do mundo.

Alex N. Press

 

FonteJacobin Brasil
Tradução: Cauê Seignemartin Ameni
Data original da publicação: 04/04/2022

 

Em uma virada sem paralelo na história pós-Reagan do movimento trabalhista, acaba de acontecer: os trabalhadores dos armazéns da Amazon nos Estados Unidos conquistaram o reconhecimento de um sindicato pela primeira vez. A votação supervisionada do National Labor Relations Board (NLRB) no JFK8, um centro de atendimento em Staten Island, foi de 2.654 a favor da Amazon Labor Union (ALU) e 2.131 contra, em uma instalação com 8.325 eleitores. As sessenta e sete cédulas impugnadas e onze nulas não foram determinantes, dada a margem de vitória do sindicato.

A contagem de votos começou, incrivelmente, no mesmo dia da reeleição em Bessemer, Alabama, onde o Retail, Wholesale and Department Store Union (RWDSU) ganhou terreno significativo. Lá, a contagem é de 875 votos a favor da sindicalização e 993 votos contra, mas com 416 cédulas contestadas, o resultado é muito próximo e dependerá da adjudicação dessas cédulas pelo NLRB em algum momento nas próximas semanas.

“Cada voto deve ser contado”, disse o presidente da RWDSU, Stuart Appelbaum, em comunicado ontem. “Os trabalhadores da Amazon enfrentaram uma luta desnecessariamente longa e agressiva para sindicalizar seu local de trabalho, com a Amazon fazendo tudo o que podia para espalhar desinformação.”

É difícil não ver todos os obstáculos que os trabalhadores de Nova York e Alabama enfrentaram para chegar tão longe. Além da taxa de rotatividade desordenadamente alta da Amazon, ameaças contra a construção de uma organização no chão de fábrica, documentos do Departamento de Trabalho divulgados ontem mostram que a Amazon gastou US$ 4,3 milhões em consultores que quebram sindicatos, uma quantia surpreendente para qualquer empresa. Normalmente, até as megacorporações levam anos para acumular esse tipo de conta com os especialistas profissionais anti-sindicais. Muitos dos consultores que lideravam reuniões de audiência estavam na verdade travando uma guerra da Amazon contra a organização – e recebiam US$ 3.200 por dia.

Em Staten Island, os trabalhadores disseram que os sindicalistas eram uma presença regular no JFK8. Eles escreveram os roteiros das reuniões e moldaram as mensagens antissindicais que cobriam os banheiros e corredores do armazém, que também eram enviadas aos trabalhadores por meio de correspondências, anúncios no Instagram, telefonemas, mensagens de texto e vídeos projetados em telas dentro do instalação. A ALU, por sua vez, é clara quanto às demandas dos trabalhadores: salário mínimo de US$ 30 por hora, aumento das folgas e dias de férias remunerados, pausas remuneradas durante o dia, representação sindical em quaisquer reuniões disciplinares e maior apoio aos cuidados infantis.

Embora seja certamente mais fácil organizar um sindicato em Nova York do que no Alabama, os líderes do movimento sindical enfrentaram nada menos do que prisões, com a polícia levando o presidente da ALU, Christian Smalls, juntamente com os trabalhadores Brett Daniels e Jason Anthony, sob custódia em 23 de fevereiro deste ano, depois que a Amazon chamou a polícia por causa de uma suposta invasão. A julgar pelo resultado da votação, esses esforços saíram pela culatra, fazendo a Amazon parecer mais repressiva e hipócrita do que nunca perante os olhos dos trabalhadores.

O esforço no JFK8 também é notável por outro motivo. A ALU é independente e não filiada a nenhum sindicato existente. Smalls, o fundador do sindicato, também é único. Ele foi lançado pela primeira vez na organização trabalhista quando, nos primeiros dias da pandemia, ajudou a organizar um protesto do lado de fora do JFK8 em resposta ao que considerou medidas inadequadas de saúde e segurança tomadas pela Amazon enquanto a COVID-19 assolava a cidade. Em resposta, a empresa o demitiu e gravações vazadas revelaram que os altos escalões da Amazon haviam elaborado uma campanha de difamação contra ele, com o conselheiro geral da Amazon, David Zapolsky, descrevendo Smalls como “não inteligente ou articulado” em uma reunião com Jeff Bezos.

Essa caracterização irritou Smalls, que há muito observa a falta de funcionários negros em cargos gerenciais de baixo escalão na Amazon – ele próprio teve promoções negadas por anos – como evidência de que o racismo está embutido na empresa. Isso o levou, como ele me disse durante o verão, a tentar “fazê-los engolir essas palavras”.

Tratava-se de alguém demitido de maneira pessoal e publicamente, que transformou o ressentimento que sentia pelo que seu empregador fez com ele e o direcionou para revidar. À luz da vitória, vale a pena citar a longa explicação de Smalls sobre como ele deu sentido à sua transformação de não ativista em militante, alguém determinado a organizar o JFK8:

É engraçado porque eu digo isso o tempo todo: a Amazon me preparou para isso. Mesmo não sendo um gerente, eu estava fazendo o trabalho de um gerente nos últimos quatro anos e meio. Os princípios de liderança que eu tinha na Amazon tornaram mais fácil para a minha transição para o ativismo.

Estou usando muitos dos princípios que aprendi na Amazon contra eles. O meu favorito é “ter uma espinha dorsal e comprometer-se”. Eles odiavam o fato de eu usar isso o tempo todo. Mas é provavelmente por isso que nunca fui promovido: eu tinha uma espinha dorsal, defendi o que achava certo e estou me comprometendo a ver a mudança. Outro princípio é “ver, possuir, consertar”, que provavelmente é um dos meus princípios – eu vi os problemas, admiti e agora estou tentando corrigi-los.

Ironicamente, quando eles planejaram me difamar, eles disseram que queriam me fazer a face pública do esforço sindical – essas foram as palavras deles. Então, de certa forma, estou tentando fazê-los engolir essas palavras. Não tenho mais nada para fazer. Ainda estou desempregado – não consigo arranjar emprego em lugar nenhum. Este é o meu trabalho em tempo integral e, desta vez, estou em uma equipe diferente.

Na primavera de 2021, Smalls começou a organizar seus ex-colegas de trabalho estabelecendo uma base em um ponto de ônibus nos arredores do JFK8, onde muitos dos trabalhadores do armazém passavam a caminho das instalações. Logo, outros empregados no JFK8 se juntaram ao esforço: Derrick Palmer, por exemplo, que foi anteriormente supervisionado por Smalls no JFK8 e que trabalha na Amazon há seis anos. O grupo organizou churrascos, distribuiu literatura, espalhou sua mensagem em aplicativos de rede social como o TikTok e construiu um comitê organizador dentro das instalações.

A Amazon manteve um fluxo constante de propaganda contra o esforço, mas a ALU também continuou. Como o Labor Notes relatou, o comitê organizador de 25 pessoas rebateu a mensagem da administração, falando sobre as preocupações dos trabalhadores. Agora, eles ganharam o primeiro sindicato da Amazon nos Estados Unidos. Enquanto acontece essa celebração histórica, o sindicato enfrenta outra eleição a partir de 25 de abril no LDJ5, um centro de triagem da Amazônia em Staten Island que emprega aproximadamente 1.500 trabalhadores.

A abordagem da ALU vai contra muito do que passa no senso comum dentro do movimento trabalhista. A ALU tinha poucos funcionários pagos, eles se candidataram a uma eleição com muito menos cartões sindicais do que o recomendado no mundo do trabalho, tinham um advogado contra o exército de especialistas jurídicos da Amazon e não tinham experiência em negociar um contrato. No entanto, a ALU insistiu que isso era uma vantagem, dado o método testado e comprovado dos empregadores do que é chamado de “terceiro partido” de um sindicato, que é quando o chefe pinta um sindicato como uma entidade externa, em vez de apenas composta pelos próprios trabalhadores. Embora isso seja propaganda para livros didáticos e os trabalhadores rotineiramente a contestem, observando que os sindicatos são dirigidos por aqueles que estão no chão de fábrica – explicando que não importa quais falhas os sindicatos existentes possam ter, cabe aos trabalhadores votar nos contratos ou rejeitá-los, eleger comitês de negociação e delegados sindicais — o caráter independente da ALU permitiu que os trabalhadores do JFK8 evitassem inteiramente o argumento do chefe.

Imagens do primeiro dia da contagem de votos do NLRB, no Brooklyn, ressaltaram o caráter de Davi e Golias na luta entre o sindicato independente e uma das empresas mais poderosas do mundo. Em uma foto, tirada por Lauren Kaori Gurley, da Vice, que cobriu a luta da ALU desde o início, os líderes da ALU ficam do lado de fora do prédio do NLRB, abraçados. Em outra, Smalls está sozinho, falando sobre os advogados da Amazon na sala de contagem de votos: “Adoro vê-los se contorcendo. Eles estão bebendo água feito loucos.”

Com esta vitória histórica vem o próximo desafio para a ALU: conquistar o primeiro contrato. Em um comunicado divulgado pela Amazon, a empresa diz que está “decepcionada com o resultado da eleição em Staten Island porque acreditamos que ter um relacionamento direto com a empresa é melhor para nossos funcionários”. “Estamos avaliando nossas opções, incluindo a apresentação de objeções com base na influência inadequada e indevida do NLRB que nós e outros (incluindo a Federação Nacional de Varejo e a Câmara de Comércio dos EUA) testemunhamos nesta eleição”, conclui o comunicado.

Nos Estados Unidos, os empregadores travando a mesa de negociação é a regra – alguns estudos mostram que menos da metade das unidades de negociação alcançam um primeiro contrato dentro de um ano após a sindicalização. A Amazon é a vanguarda do anti-sindicalismo e da ditadura patronal e, portanto, a probabilidade de se envolver nesta resistência é alta. É por isso que travou uma guerra contra esses incipientes esforços sindicais: a Amazon sabe tão bem quanto os trabalhadores que, uma vez que os funcionários de um local se organizam, abre um precedente e inspira os trabalhadores de outros lugares. Afinal, basta olhar para o que está acontecendo no Starbucks.

O movimento sindical mais amplo precisará recalibrar suas suposições sobre a organização da Amazon, dada a vitória da ALU, além de oferecer solidariedade aos trabalhadores à medida que avançam na luta por um primeiro contrato. A distância e as tensões entre a ALU e outros sindicatos são reais e não desaparecerão da noite para o dia. Mas será necessária a total cooperação do movimento trabalhista para espalhar a vitória da ALU para as centenas de instalações da Amazon nos EUA – e no mundo. A empresa emprega mais de um milhão de pessoas em todo o país – isso sem contar os motoristas e outros trabalhadores empregados indiretamente por meio de terceiros – e esse número só está aumentando à medida que a Amazon, atualmente o segundo maior empregador privado do país, envolve uma crescente parte da economia.

A Amazon é um império, com operações extensas que exercem influência sobre os trabalhadores de inúmeras indústrias. Ela tem muitos braços: Whole Foods, onde a Amazon monitora agressivamente a potencial organização e onde há esforços iniciais de sindicalização; Amazon Fresh, onde os trabalhadores em Seattle já começaram a se organizar; as legiões de trabalhadores de colarinho branco da Amazon, alguns dos quais foram demitidos por sua organização e que têm uma série de problemas no local de trabalho, mesmo que suas condições estejam a um mundo de distância das do JFK8; a força de trabalho que faz entrega, cujo salário é muito inferior ao de seus colegas sindicalizados na UPS e cuja própria existência mina os padrões desse setor.

Esses esforços de organização nos armazéns da Amazon são importantes para todos nós, sobretudo por existir dentro de um sistema de vigilância e controle em expansão iniciado pela Amazon. A vitória no JFK8 está a apenas um pé na porta. Mas quase todo mundo disse que os trabalhadores não conseguiriam chegar tão longe, que essas campanhas não dariam em nada, que a Amazon era grande demais para ser enfrentada até que o movimento trabalhista estivesse muito, muito mais forte. Essas considerações não eram infundadas, mas também não eram totalmente corretas. Enquanto a Amazon existir, ela deve ser organizada. Não há como contornar isso, e há trabalhadores assumindo essa tarefa. Agora é a hora de aprender com eles. É crucial para luta de classe que eles tenham sucesso.

 

Alex N. Press é redatora da equipe da Jacobin. Seus textos são publicados no Washington Post, Vox, the Nation, n + 1, entre outros lugares..

 

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/comeca-um-novo-capitulo-para-os-trabalhadores-do-amazon/

Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

Câmara analisa MP que traz aumento extraordinário para o Auxílio Brasil

CONGRESSO EM FOCO

 

A Câmara dos Deputados traz na pauta de votações desta terça-feira (5) a Medida Provisória 1076/21 que prevê o benefício extraordinário que aumenta o valor do programa Auxílio Brasil. Hoje o programa oferece em torno de R$ 224 pouco mais da metade dos R$ 400 planejados pelo governo federal até o final de 2022. Esta MP havia sido editada em dezembro do ano passado, mas dependia da aprovação da PEC dos Precatórios.

De acordo com esta MP, o repasse de R$ 400 reais a famílias de baixa renda seria autorizado de janeiro a dezembro de 2022, sem caráter continuado.

Às vésperas das eleições presidenciais, que ocorrem em outubro deste ano, o presidente Jair Bolsonaro vê como estratégico este reajuste, que deve ser usado como um dos motores de sua campanha eleitoral. O Auxílio Brasil corresponde ao programa surgido do antigo Bolsa Família, que marcou as gestões do PT.

Ainda de acordo com a MP, oi benefício extraordinário terá como base de cálculo a soma dos benefícios financeiros do Auxílio Brasil para famílias em situação de pobreza ou de extrema pobreza, como por exemplo o auxílio gás.

Números oficiais dão conta de que em 2021 o repasse para este programa foi de R$ 2,6 bilhões. Já cálculos apresentados no ano passado, à época da análise da PEC dos Precatórios, davam conta de que para 2022, caso aprovada a MP, seriam repassados em doze meses aproximadamente R$ 32 bilhões.

 

Pobreza

Em pesquisa divulgada em março deste ano o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou para o risco de aumento da situação de pobreza entre crianças e adolescentes caso não haja políticas públicas permanentes.

Entre os pontos analisados está o impacto do Auxílio Emergencial nos primeiros meses de 2022 – época em que o valor do repasse variou entre R$ 600 a R$ 1200. Dados da investigação do Unicef indicam uma queda 4% nos casos de situação de pobreza monetária extrema da população. Entre crianças e adolescentes essa redução da situação de vulnerabilidade chegou a 6%.

Ao longo da pandemia, com a suspensão do auxílio, porém, houve o aumento dos níveis de pobreza. Em setembro de 2020 o benefício teve redução para R$ 300.

“Estima-se que cerca de 20% dos domicílios ficaram descobertos por qualquer tipo de transferência de renda após o fim do Auxílio Emergencial, em outubro de 2021. Adiciona-se a isso o fato de que domicílios com crianças mantêm-se mais vulneráveis do que aqueles sem crianças, especialmente devido à retração do emprego”, diz o estudo.

De acordo com o Banco Mundial pobreza extrema corresponde a viver com menos de US$ 1,9 por dia – no Brasil o valor de referência é R$ 170 – e pobreza monetária com menos de US$ 5,5 – no Brasil o valor de referência é R$ 492.

 

Demais pautas da Câmara 

Também está prevista na Câmara a votação do segundo turno nesta terça a PEC 517/10, do senador Álvaro Dias (Podemos-PR), que prevê a quebra do monopólio estatal sobre a pesquisa e produção de radioisótopos para uso clínico. Tratam-se de substâncias radioativas utilizadas para localizar focos de câncer e demais tipos de tumores em pacientes. Estes são produzidos hoje pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em um reator nuclear em São Paulo.

Esta PEC é defendida pela base, que enxerga em seu texto uma forma de diversificar o mercado de radioisótopos, barateando o preço final. A oposição já teme que a proposta comprometa o Ipen, e torne o mercado brasileiro dependente da importação destas substâncias, aumentando seu preço no longo prazo.

Outra proposta em pauta na Câmara é a Medida Provisória 1075/21. Esta muda as regras de adesão ao Programa Universidade para Todos (Prouni), que cria bolsas de ensino para estudantes de ensino superior. O atual critério para a participação de bolsas é cursar o ensino médio total ou parcialmente em escolas públicas ou com bolsa total em escolas privadas. A medida muda para o critério salarial familiar, de 1,5 salários mínimos para bolsa total e até três salários mínimos para bolsa parcial.

 

AUTORIA

 

CONGRESSO EM FOCO

congressoemfoco@congressoemfoco.com.br
https://congressoemfoco.uol.com.br/area/congresso-nacional/camara-analisa-mp-que-traz-aumento-extraordinario-para-o-auxilio-brasil/

Sem legislação sobre o trabalho, as plataformas estão “nadando de braçada” no Brasil. Entrevista com Roseli Figaro

Família responde por valores devidos a empregada doméstica

Trabalhista

Para o TRT-2, a inclusão da família como ente empregador decorre das peculiaridades das atividades do empregado, sendo certo que a direção da prestação dos serviços é feita por várias pessoas.

Os membros da família que se beneficiam do serviço doméstico devem responder pelo pagamento das verbas trabalhistas devidas ao trabalhador. Com esse entendimento, a 12ª turma do TRT da 2ª região confirmou decisão de 1º grau que responsabilizou a sobrinha-neta de uma idosa a quitar valores devidos a uma empregada doméstica.

Após atuar por mais de cinco anos como cuidadora, a trabalhadora foi dispensada por justa causa. Então, processou tanto a mulher de 89 anos quanto a sobrinha-neta, pedindo itens como seguro-desemprego, aviso prévio e multa do FGTS -Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

Para o relator, desembargador Benedito Valentini, a inclusão da família como ente empregador decorre das peculiaridades das atividades do empregado, sendo certo que a direção da prestação dos serviços é feita por várias pessoas, conforme o caso. Além disso, destaca que é considerada residência para fins de vínculo doméstico qualquer local em que se atue em benefício dos integrantes do núcleo familiar.

Em depoimento, a sobrinha admitiu em juízo que era responsável pela parte burocrática do contrato com a empregada, que fazia as anotações em CTPS, além de ter sido a única pessoa da família a receber a doação do imóvel, no qual passou a residir, após a morte da tia. Para o relator, esses fatos reforçam a conclusão de que ela (sobrinha) era legítima empregadora e que dirigia a prestação pessoal de serviços da doméstica.

“Refoge da razoabilidade e do bom senso admitir que a tia-avó da reclamada, em razão de sua idade avançada, bem como pelo fato de ser cadeirante, possuísse o pleno discernimento e liberdade para gerenciar o contrato de trabalho de sua empregada doméstica, dar ordens quanto à organização da casa, estabelecer os horários de alimentação, dentre outras atribuições de uma residência.”

Processo: 1000033-79.2021.5.02.0446
Informações: TRT-2

Por: Redação do Migalhas

https://www.migalhas.com.br/quentes/363179/familia-responde-por-valores-devidos-a-empregada-domestica

CONCLAT 2022

CONCLAT 2022


Nesta quinta (7), das 10h às 12h, em São Paulo, a Nova Central — assim como as demais centrais sindicais CUT, Força Sindical, UGT, CSB, CTB, CONLUTAS, Intersindicais e Pública – irá transmitir na sua página do Facebook (@ncstnacional) a CONCLAT 2022 (Conferência da Classe Trabalhadora/2022).

Na conferência, será lançada a Pauta da Classe Trabalhadora 2022, com propostas de geração de empregos de qualidade, aumento dos salários, proteção dos direitos trabalhistas, combate às desigualdades, proteções sociais e previdenciárias, defesa da democracia, da soberania e da vida.

No formato híbrido (presencial e virtual), sob todos os protocolos sanitários, em São Paulo capital, a conferência também terá transmissão nacional pela Rede TVT.