Ao sancionar a reforma trabalhista em 13 de julho de 2017, o ex-presidente Michel Temer (MDB) e o então deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN) posaram em frente a um painel onde se lia: “Modernização trabalhista, direitos garantidos e novas oportunidades”. Mais de quatro anos depois, entretanto, o Brasil sofre com baixo crescimento econômico, com a contínua retirada de direitos e confirma sua condição de exportador de matéria-prima.
Muito já foi dito sobre os graves prejuízos que a reforma de 2017 impôs aos trabalhadores. Agora vamos tratar de outro ponto que mostra que a reforma não entregou o que prometeu: a desindustrialização.
O ambiente econômico caminha hoje no sentido contrário ao da propalada modernização, como mostram diversos estudos.
Dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) mostram que entre 2005 e 2020 o Brasil passou do 9º para o 14º lugar no ranking de industrialização global.
Perdemos também 36,6 mil indústrias entre 2015 e 2020, incluindo a Ford e a Mercedes-Benz, como mostra levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para o jornal O Estado de S. Paulo.
A leitura desses dados revela não apenas o bloqueio de uma cadeia de produtividade, desenvolvimento e inovações, mas sobretudo uma perda expressiva de empregos de qualidade, uma vez que a indústria é o setor que oferece melhores condições, maior amparo legal e maiores rendimentos para os trabalhadores.
Não é o que acontece em países altamente industrializados como EUA e China, que sofreram muitas perdas com a pandemia de Covid-19, cujos governos investiram vultosos volumes de dinheiro para superar a crise e reforçar o dinamismo econômico. Nestes países, assim como em outros com os quais disputávamos posições no ranking da industrialização, a indústria 4.0 já está disseminada, e os empregos caminham para setores mais dinâmicos dos serviços, com grande ênfase na tecnologia. Nos EUA, é importante ressaltar, o presidente Joe Biden tem valorizado os sindicatos como entidades que garantem salários melhores, condições mais dignas de trabalho e assistência para as famílias.
Na contramão desse movimento, os brasileiros, muitos dos quais já usam o forno a lenha por não poder pagar o gás, são incentivados a parar de usar o elevador e a tomar banhos frios. Isso é um flagrante de que o Brasil de Temer e Jair Bolsonaro é muito mais a cara dos Flintstones do que dos Jetsons.
Com a aposta deliberada dos últimos governos no setor primário e extrativista, em detrimento do industrial, o Brasil reitera sua posição no cenário internacional como exportador de commodities e importador de tecnologia.
Resta esclarecer que a modernização não nasce da retirada de direitos, mas sim de políticas de Estado que fomentem industrialização, infraestrutura, educação, pesquisas, inovações e apoio às micros e pequenas empresas, além de programas de geração de empregos e distribuição de renda para vencer a pobreza com justiça social, sustentabilidade, liberdade e democracia.
Miguel Eduardo Torres
Força Sindical/CNTM
José Reginaldo Inácio
NCST
Paulo Cayres
CNM/CUT
Francisco Pereira da Silva (Chiquinho)
UGT
Alvaro Egea
CSB
Nivaldo Santana
CTB
Eunice Cabral
Conaccovest
Eliseu Silva Costa
Federação dos Metalúrgicos – São Paulo
Marcelino Rocha
FITMetal/CTB
Sergio Luiz Leite
Fequimfar
Antonio Vitor
Fetiasp
Antônio Silvan Oliveira
CNTQ
João Carlos Juruna Gonçalves
Força Sindical
TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Portaria do Ministério do Trabalho e Previdência, que proíbe empregadores de demitir funcionários que não estejam vacinados foi suspensa, nesta sexta-feira (12), pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso. A iniciativa do ministro Onyx Lorenzoni não tinha como prosperar, pois, ia de encontro com a lógica, a ciência e o direito coletivo.
A Portaria MTP 620 que suspendera dispositivos relacionados ao combate à pandemia de covid-19 foi publicada em edição extra do DOU (Diário Oficial da União), de 1º de novembro.
O texto da norma em questão considerava “discriminatória” a exigência da comprovação de imunização por parte dos empregadores ou “passaporte da vacina” como é chamado popularmente, em contratações, demissões ou processos seletivos no mercado de trabalho.
Na decisão, em que a portaria foi suspensa, Barroso entendeu que apenas “pessoas que têm expressa contraindicação médica, fundada no Plano Nacional de Vacinação contra covid-19 ou em consenso científico, para as quais deve-se admitir a testagem periódica”, considerou o ministro.
A partir de agora, chefes podem começar a exigir o comprovante de vacinação dos empregados.
Quem não se imunizou poderá ser demitido ou advertido. A demissão, no entanto, deve ser a última via, sendo considerada, portanto, decisão extrema.
Nos próximos 11 meses o Brasil vai travar uma batalha descomunal, decisiva
por Edson Barbosa
Marketing político não é mágica, não é enganação. É o tratamento adequado às necessidades da comunicação no ambiente político eleitoral que pretende-se produzir maior interação e engajamento.
Há uma diferença profunda entre aquilo que muita gente costuma aplaudir no trabalho dos “marqueteiros” e o conjunto dos princípios, técnicas e plataformas da comunicação, a serviço de uma compreensão consequente e transformadora entre os agentes políticos e a sociedade.
Como em tudo na vida, é possível usar o conhecimento para destruir ou construir, falseando a realidade ou afirmando proposições verdadeiras. A comunicação política, desde sempre, é utilizada para a corrupção do pensamento, principalmente dos setores mais vulneráveis, mas também para o progresso da consciência cidadã, naquilo que a política pode ter de mais virtuoso.
É como a droga, que tanto pode deformar o paciente, matá-lo, ou ser um paliativo e cura; depende da intenção e da dose aplicada. O fenômeno da tecnologia a serviço da comunicação produz um alcance exponencial da mensagem, trazendo extraordinárias possibilidades de interação entre emissor e receptor. Estamos, hoje, num patamar gigantesco de possibilidades comunicacionais, produzindo um novo mundo e uma nova e misteriosa relação entre o real e o virtual.
Ou melhor, onde o virtual é tão real quanto o real.
Nos próximos 11 meses o Brasil vai travar uma batalha descomunal, decisiva, nesse campo. As eleições em 2022, para governadores, senadores, deputados estaduais, federais, ocorrerão em todos os Estados brasileiros, mais o Distrito Federal. E, joia maior da coroa, teremos a disputa para Presidência da República.
Levará a melhor quem tiver mais capacidade para destruir, defender e construir reputações, pessoais e políticas. No capítulo “destruição”, apesar da guerra que se trava no enfrentamento às fake news, a musculatura da bandidagem ainda é enorme.
Para os que acreditam na comunicação propositiva, comprometida com o mundo das ideias e projetos, será necessária uma dose muito mais robusta de inteligência, dados, planejamento, criatividade, novas linguagens e meios, do que a disponibilizada nos últimos tempos.
Se ficar na conversa mole, discursiva, envelhecida, e no voluntarismo, a turma da pá virada estará mais próxima da vitória. Legitimará, sem direito a queixumes dos derrotados, o poder político do governo atual, com as consequências que todos podem imaginar.
As Centrais Sindicais – CUT, Força Sindical, CTB, UGT, CSB, NCST, CSP-Conlutas, Intersindical (Central da Classe Trabalhadora), PÚBLICA, Central do Servidor e Intersindical instrumento de Luta divulgaram nota contra a PEC 18/2011, pois, de acordo com as entidade sindicais, caso a seja aprovada, o pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes estarão comprometidos.
No texto as centrais, de forma unanime e unitária, solicitaram o voto e apoio dos deputados para rejeitar a PEC na CCJC (Comissão de Constituição e de Justiça e Cidadania ) e no Plenário da Câmara dos Deputados.
As lideranças sindicais destacaram alguns motivos para rejeitar a proposta, entre os quais o desemprego no Brasil, que já atinge mais de 14,1 milhões de trabalhadores que buscam em emprego e 71,6 milhões de pessoas que trabalham sem direitos, sem carteira de trabalho assinada, de forma precária ou informal. “Mais de 30% dos desempregados são jovens em idade para trabalhar, a maioria negros”, alertam.
Os sindicalistas alertaram também que o trabalho infantil é uma grave violação dos direitos humanos. “Impede ou dificulta o desenvolvimento pleno, sadio e integral de crianças e jovens dos setores mais vulneráveis da classe trabalhadora, comprometendo o acesso à educação, à saúde, ao lazer e a formação profissional segura e qualificada”.
Leia a seguir a íntegra da nota:
Nota das Centrais Sindicais
Rejeitar a PEC 18 para proteger e assegurar pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes
O pleno desenvolvimento das crianças e adolescentes são garantias essenciais para que a humanidade construa um futuro melhor que o presente. Este objetivo pode ser destruído caso a PEC 18/2011 seja aprovada. Razão pela qual as Centrais Sindicais, de forma unanime e unitária, solicitam o seu voto e apoio para rejeitá-la na CCJC e no Plenário da Câmara dos Deputados, pelos motivos a seguir:
1. A situação de desemprego no Brasil é grave. Já são mais de 14,1 milhões de trabalhadores em busca de um emprego e 71,6 milhões de pessoas que trabalham sem direitos, sem carteira de trabalho assinada, de forma precária ou informal. Mais de 30% dos desempregados são jovens em idade para trabalhar, a maioria negros.
2. É inconcebível que, neste contexto, a PEC 18 busque reduzir a idade mínima para que jovens na faixa etária de 14 e 15 anos passem a trabalhar não como aprendiz, mas como empregados em tempo parcial. Medida que, se aprovada, vai agravar o desemprego entre os jovens e inviabilizar o seu pleno desenvolvimento cognitivo, intelectual e profissional, pois se trata de uma situação distinta do trabalho na condição de aprendiz, onde devem ser garantidas a qualificação profissional, com vivências práticas em ambiente de trabalho seguro e protegido, direitos trabalhistas e previdenciários, realização de atividades compatíveis com as suas habilidades, interesses e o acesso e frequência à escola.
3. A PEC 18 afronta os tratados internacionais sobre trabalho infantil da qual o Brasil é signatário, a saber, a Convenção 138 e a Recomendação 146 da OIT — Organização Internacional do Trabalho. Ela reduz, ao invés de elevar, a idade mínima para a admissão a emprego ou trabalho; não observa os parâmetros estabelecidos pela OIT para definição da idade mínima para trabalhar, que deve assegurar a efetiva abolição do trabalho infantil e elevar progressivamente a idade mínima de admissão a emprego ou a trabalho a um nível adequado ao pleno desenvolvimento físico e mental do jovem; e a idade mínima para trabalhar não deve ser inferior à idade de conclusão da escolaridade compulsória.
4. O trabalho infantil é uma grave violação dos direitos humanos que impede ou dificulta o desenvolvimento pleno, sadio e integral de crianças e jovens dos setores mais vulneráveis da classe trabalhadora, comprometendo o acesso à educação, à saúde, ao lazer e a formação profissional segura e qualificada. De acordo com o IBGE, em 2020, quase dois milhões de crianças e adolescentes foram submetidos ao trabalho infantil, sendo a imensa maioria de crianças negras, vítimas do racismo estrutural. A PEC 18 legaliza esta situação de violação do direito à infância e perpetua a desigualdade social, agravando ainda mais a situação das crianças e dos jovens, já cruelmente atingidas pelo desemprego, pela carestia e pela insegurança alimentar, presente em milhões de lares no Brasil.
5. Viola literalmente o disposto no artigo 60, §4º, da CF/88, que estabelece que “não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir, dentre outros, os direitos e garantias individuais”. É o que a PEC 18 faz, na medida que a idade mínima para o trabalho é um direito fundamental de crianças e adolescentes que objetiva, em última análise, a proteção contra os malefícios do trabalho precoce.
6. O trabalho infantil gera diversas consequências negativas e irreversíveis para a saúde e a segurança das crianças e adolescentes envolvidos, bem como sobre seu desenvolvimento físico, intelectual, social, psicológico e moral. Entre 2007 e 2020, no Brasil, 290 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos morreram e 27.924 sofreram acidentes graves enquanto trabalhavam. No mesmo período, 46.507 meninos e meninas tiveram algum tipo de agravo de saúde em função do trabalho. A redução da idade para o trabalho, possibilitando que adolescentes com 14 anos de idade possam trabalhar como empregados em geral, coloca em risco a sua saúde física e psíquica, incluindo a possibilidade de ocorrência de acidentes do trabalho.
7. Segundo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 1,1 milhão de crianças e adolescentes estão fora da escola no Brasil, sendo que o trabalho infantil está entre os principais motivos de adolescentes na faixa etária de 15 a 17 anos não frequentarem a escola. O trabalho precoce, mesmo em tempo parcial, afeta diretamente a frequência na escola, bem como a progressão dos estudos para a conclusão da educação básica na idade certa, na medida em que impede que o adolescente se dedique plenamente aos estudos, incluindo o tempo em sala de aula e o tempo destinado às tarefas escolares.
8. Colocar adolescentes com 14 anos de idade no mercado de trabalho, sob o fundamento de que precisariam trabalhar, implica em subverter o papel constitucionalmente atribuído à família, à sociedade e ao Estado, a quem incumbe, com absoluta prioridade, em atenção à sua peculiar condição de pessoa em desenvolvimento, o dever de assegurar as condições materiais, afetivas, sociais e psicológicas necessárias ao acesso e à proteção ao direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (Cf. Art. 227 da CF)
9. A PEC 18/2011, longe de ser a resposta para a vulnerabilidade social, acaba por contribuir diretamente para o incremento da exclusão social e marginalização, pois compromete os rendimentos futuros dos jovens, acarretando reprodução do ciclo da pobreza. Além disso, a inserção de adolescentes precocemente no trabalho vai impactar negativamente a ocupação de trabalhos hoje realizados por adultos, levando a um maior desemprego deste último grupo, sobretudo da população mais jovem, de 18 a 24 anos de idade.
10. As crianças e adolescentes são vítimas do esfacelamento dos direitos sociais que hoje ocorre no Brasil. Foram reduzidas as fiscalizações e o combate ao trabalho infantil; a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil (CONAETI) foi extinta, em 2019; não há diagnósticos e orientações efetivas para a eliminação do trabalho infantil, para assegurar o respeito às convenções internacionais subscritas pelo Brasil; prevalece o descaso com o plano nacional de erradicação do trabalho infantil e com as metas da Agenda 2030 do desenvolvimento sustentável, que prevê acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas até 2025.
Neste contexto, apelamos para que os parlamentares se posicionem pela rejeição da PEC 18/2011 na CCJC ou no Plenário da Câmara dos Deputados.
São Paulo, 08 de novembro de 2021
Sérgio Nobre, Presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores)
Miguel Torres, Presidente da Força Sindical
Ricardo Patah, Presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores)
Adilson Araújo, Presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil)
José Reginaldo Inácio, Presidente da NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores)
Antonio Neto, Presidente da CSB, (Central dos Sindicatos Brasileiros)
Atnágoras Lopes, Secretário Executivo Nacional da CSP-Conlutas
Edson Carneiro Índio, Secretário-geral da Intersindical (Central da Classe Trabalhadora)
José Gozze, Presidente da Pública, Central do Servidor
Emanuel Melato, Intersindical Instrumento de Luta
Fonte: Rádio Peão
Data original da publicação: 08/11/2021 DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/centrais-sindicais-defendem-pleno-desenvolvimento-das-criancas-e-adolescentes/
Embora as tecnologias digitais sejam celebradas como motor de mudança e solução de problemas (até mesmo estruturais) da sociedade, não é possível negar o papel considerável que elas exercem no reforço de opressões e desigualdades.
Essa relação direta é tema de análise no dossiê 46 do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Com o título Big Techs e os desafios atuais para a luta de classes, o documento parte do princípio de que as ferramentas digitais presentes no cotidiano são “mais uma peça” na engrenagem do capitalismo.
“A sociedade capitalista frequentemente produz conhecimentos, técnicas e tecnologias que expressam sua própria natureza e suas contradições. Apropria-se do que existe e busca moldar a realidade para satisfazer suas dinâmicas”, diz o texto.
O dossiê é fruto do Seminário Tecnologias Digitais e Luta de Classes, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Carolina Cruz, que atua no setor de Tecnologia da Informação do MST e participou da produção do documento, afirma que o objetivo é entender os fenômenos a partir da perspectiva das lutas sociais.
“A gente parte da compreensão de que as tecnologias são fruto do seu tempo. São produzidas por pessoas e expressam as relações, a cultura de um tempo e a forma predominante em que essa sociedade se organiza. A gente vive em um tempo em que a forma predominante é o modo capitalista”.
Esse é o ponto central da análise, que demonstra em exemplos como a precarização do trabalho, a insegurança alimentar, a vigilância social e a concentração de renda, informação e poder continuam intactas, a despeito de todos os benefícios prometidos pelas novidades tecnológicas.
“As relações são dominadas pela lógica de acumular cada vez mais capital, mais do que satisfazer as nossas necessidades e criar melhores condições de vida para a população. O que nos leva a absurdos como os recordes de exportação do agronegócio brasileiro em um momento em que a fome volta a assolar o país”.
O dossiê avalia as relações entre gigantes do agronegócio e empresas de tecnologia, causadoras de impactos que vão desde o avanço do uso de sementes geneticamente modificadas até mecanismos de financiamento da produção. Hoje é possível dizer que a segurança alimentar da humanidade está nas mãos da iniciativa privada.
Essa conclusão é aplicável a diversos outros setores, “para compreender a ascensão das grandes corporações de tecnologia, conhecidas como Big Techs (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft etc), é preciso compreender como elas se relacionam com os mecanismos de acumulação do capital”, pontua o texto.
Segundo o dossiê, “Por mais que se apresentem como “solução” aos problemas econômicos atuais, essas corporações são sintomas, ou seja, expressam como o capitalismo em crise busca direcionar as tecnologias para seus interesses”.
Como caminho para reverter esse processo de reafirmação das desigualdades, o texto aponta como a necessidade de estabelecimento da tecnologia como bem comum e não como propriedade de um grupo seleto.
Dar acesso aos recursos e produtos não é suficiente. É necessário “um projeto tático e estratégico de classe” para que a eficiência das soluções sejam reais. A conclusão do dossiê é de que o debate não pode ser pautado por interesses individuais, mas pela coletividade e participação.
Carolina Cruz ressalta que é preciso combater a ideia de que a dinâmica atual da presença das tecnologias na vida da população é um processo inescapável, “Há uma função ideológica nisso. Ao acreditar que está tudo controlado, a gente fica sem margem de ação e acaba se conformando com as coisas como elas estão”, alerta.
O diretor de Educação e Tecnologia da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Rafael Lucchesi, declarou que há 40 anos não existe um projeto de país. O PIB brasileiro cresce a metade do crescimento dos países desenvolvidos. “O fosso tem aumentado”. As declarações foram feitas na mesa de discussões “Trabalhadores por um novo projeto de desenvolvimento”, promovida por José Pereira, líder metalúrgico, que foi durante 20 anos presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos. João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar em 1964, participou da mesa transmitida pela Agência Sindical. A conversa foi acompanhada por uma plateia de dirigentes sindicais e personalidades políticas, que interagiram com perguntas e considerações.
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Reprodução Agência Sindical
Lucchesi lembrou que ”já fomos bons” e que, durante 50 anos, de 1930 a 1980, fomos o país que mais cresceu no mundo. Assinalou que saímos de uma pequena economia agrário-exportadora para o 7º parque industrial, no final dos anos 70. “Crescemos mais que o Japão, a uma taxa de 7% ao ano”.
Segundo o diretor da CNI, “o Brasil mudou a matriz econômica (de uma consistente base industrial) para um rentismo improdutivo e exportação de commodities”. Ele afirmou que “a China buscou a agenda vencedora do Brasil, pegou o bastão da liderança no crescimento e se colocou como grande potência industrial focada na construção de uma moderna plataforma manufatureira”. Citou que “em 1980 o PIB da China era 1% do PIB dos EUA, no ano 2000 era 12% e hoje é 75%”.
Seguindo a exposição, assinalou que em 1980 a indústria era 50% do PIB, em 2009 era 27% e hoje é menos que 20%. “Temos problemas imediatos seríssimos: o preço dos insumos disparou, agravamento da crise energética, a inflação estourou e a taxa de juros aumentou muito o preço do dinheiro. O desemprego de 14,4 milhões de trabalhadores é uma questão muito grave. Temos uma depressão no consumo das famílias”.
Lucchesi citou ainda que estamos muito atrasados em produtividade e inovação. Conforme planilha da CNI, em 18 países que mais parecem com o Brasil, em produtividade somos o penúltimo. Em inovação estamos em 57º lugar, apesar de sermos a 12ª economia do mundo.
Para Rafael Lucchesi, apesar da queda da participação da indústria no PIB, são da indústria 70% das exportações, 33% dos tributos arrecadados e 29,7% da arrecadação previdenciária. “A agricultura, que é 5% do PIB, não paga impostos”, denunciou.
Para se manter como nação é preciso uma forte base industrial
Luccheti, voltando ao tema sobre um projeto nacional, considera que o Brasil não pode se manter como nação sem uma forte base industrial”. “O risco de um esgarçamento social não é pequeno”, disse. Para ele, o Brasil perdeu a 3ª revolução industrial. Citou que “em 1980, o Brasil produzia 29 milhões de toneladas de aço e a China 36 milhões. Hoje, 40 anos depois, produzimos 34 milhões e a China 900 milhões de toneladas. Afirmou que a microeletrônica e as telecomunicações permitiram a mundialização da produção, e a China saiu vitoriosa nesse processo.
Estudos da CNI apontam que “na 4ª revolução, 50% das atividades de trabalho serão automatizadas até 2065. Serão destruídos 75 milhões de empregos”. O algorítimo e a inteligência artificial vão substituir muito do trabalho repetitivo e manual, afirmou. Mas, serão criadas 133 milhões de novas atividades”. Para o representante da CNI, não existe desemprego tecnológico.
Afirmou que “existe uma enorme guerra industrial. Os EUA gastam hoje 500 bilhões de dólares e a China 350 bilhões”. “O que vemos é a necessidade de domínio dessas novas tecnologias e de qualificação dos trabalhadores”.
O empresário avaliou que o Brasil está paralisado em sua revolução educacional. “Na nossa agenda temos o chamado custo Brasil, além da Educação, o financiamento, a infraestrutura, o preço do dinheiro – esses bancos expoliam as famílias e as empresas – e a ausência de uma política industrial”.
“Desenvolvimento se alavanca na reindustrialização e na valorização do salário mínimo”.
João Vicente Goulart iniciou sua explanação ressaltando sua herança política: “Minha origem é trabalhista. Nós damos prioridade ao poder aquisitivo dos trabalhadores. Meu pai, em 1954, era ministro do Trabalho e deu 100% de aumento para o salário mínimo porque o Dutra não tinha reposto nada da inflação durante seu governo. Jango, presidente da República, criou o 13º salário.
Para o filho de Jango, “o Brasil pós 2022 será um país destroçado pelos rentistas e pelas multinacionais. “ Bolsonaro é uma figura nefasta que precisa ser expelida do governo o quanto antes, senão, não vai sobrar muito. Foram fechadas 700 mil empresas, o desemprego campeia, volta da insegurança alimentar: É uma volta a antes da Revolução de 1930. Tínhamos, então, os barões do café, voltados totalmente para monocultura de exportação, hoje temos os barões do agronegócio”.
Todo mundo está falando num projeto de desenvolvimento. Ciro fala, Lula fala em alguns aspectos. Para Goulart, “realizar uma plataforma nacional desenvolvimentista só será possível com a unidade de todas as forças políticas brasileiras”. “Precisamos consolidar a aliança dos trabalhadores com o empresariado nacional”.
Resumiu: “Eu creio que um projeto de desenvolvimento terá que se alavancar na reindustrialização e na valorização do salário mínimo”. Na questão da reindustrialização temos que ter claro, o capital externo pode ser positivo, mas é transnacional e sai a hora que quiser sair, como fez a Ford recentemente”. Afirmou que a prioridade é “dar financiamento à empresa nacional”.
Goulart considera que a Educação é um problema de Estado. “Hoje, a Educação está na mão de 3 ou 4 empresas estrangeiras”.
Afirmou ainda que “temos que discutir a vergonha das privatizações”. A Vale, por exemplo, com o que aconteceu em Mariana em Brumadinho mostrou que não tem o mínimo compromisso com o ser humano. E completou: “Se a Petrobrás tem a melhor tecnologia de extração, refinarias suficientes para refinar todo o combustível que precisamos, por que a gasolina e o diesel estão atrelados aos preços internacionais? É para beneficiar os rentistas e as grandes petroleiras”, concluiu.
“Outra coisa é a dívida pública”, disse. “Tem que fazer o que Vargas fez. Uma auditoria. Tem que mexer com os bancos também. O ano passado pagamos de juros da dívida pública 300 bilhões de reais. Tem que fazer uma moratória e aplicar o recurso em questões sociais”, argumentou.