por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
Com orçamento bilionário, estatal entregue a parlamentares da base de Bolsonaro faz obras superfaturadas, desperdiça recurso público e favorece propaganda eleitoral em prefeituras. CGU fez alertas ignorados pela empresa e Polícia Federal cumpre mandados de prisão.
A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), empresa estatal que deveria estar associada apenas a projetos de irrigação no semiárido, está sendo usada para desovar emendas parlamentares, por meio de licitações superfaturadas. A denúncia vem de um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU).
Na semana passada, a Polícia Federal cumpriu 16 mandados de prisão em operação contra fraudes na empresa, com apreensão de cerca de R$ 1,3 milhão em dinheiro, além de itens luxuosos, como relógios importados. Os mandados foram executados em empreiteira parceira da Codevasf, envolvendo sócios laranja.
Sob a justificativa de comprar centenas de milhares de tubos de PVC, a empresa lançou em 2020 uma licitação, sem demonstrar a necessidade das aquisições, sem planejamento e superfaturada. Apesar da controladoria ter feito o alerta, a empresa ignorou e manteve a concorrência pública com gastos de mais de R$ 2 milhões.
Foi a própria Codevasf que explicou à CGU como circula o dinheiro público nessas licitações.
“Esses recursos [de emendas] são descentralizados à Codevasf a partir de articulações político-institucionais, as quais não estão vinculadas estritamente a um cronograma preestabelecido, o que de fato dificulta e/ou inviabiliza um planejamento preciso do dimensionamento da demanda a ser adquirida.”
“Os parlamentares, por meio de interações com lideranças e seus assessores, efetuam o levantamento de necessidades para balizar as aquisições e/ou contratações”, admite a empresa pública.
Troca de favores
A Codevasf fez parte do “toma lá, dá cá” entre Bolsonaro e o centrão, para sustentá-lo no Congresso. Desde esta negociação com os parlamentares, a empresa vem sendo turbinada por bilhões de reais em emendas. Por suas características envolvendo gastos milionários em grandes obras, com um orçamento de R$ 2,7 bilhões para este ano, a empresa é cobiçada por políticos.
Hoje, além de sua função original de obras de irrigação, a empresa realiza projetos de pavimentação, construção de pontes, obras de saneamento, e entrega de máquinas, como tratores. Com isso, ela realiza obras que facilmente se tornam propaganda eleitoral em pequenos municípios.
Após pedido de lideranças partidárias, a fatia do orçamento da estatal destinada ao “orçamento secreto” dobrou neste ano, passando de R$ 610 milhões para R$ 1,2 bilhão. O orçamento secreto envolve recursos controlados pela cúpula do Congresso com o aval do governo que não segue os critérios de transparência.
Segundo denúncias divulgadas pela Folha de S. Paulo, além das obras serem superfaturadas, muitas nem são encaminhadas, fazendo com que os equipamentos comprados se deteriorem aos milhões em depósitos. Segundo a própria empresa, a maioria é comprado sem qualquer planejamento ou estudo sobre como seriam usados.
Em 2020, a CGU recomendou a suspensão de uma aquisição de 458 mil canos de PVC no valor de R$ 26 milhões por meio do pregão eletrônico, uma modalidade simplificada de licitação. Havia o potencial de superfaturamento de R$ 16 milhões. Mesmo diante dos alertas, a empresa voltou a fazer a concorrência e gastou R$ 11 milhões com dois terços do mesmo equipamento, o que pode ter gerado R$ 3,4 milhões em prejuízos aos cofres públicos. A Codevasf afirmou que até agora houve o pagamento de R$ 2,1 milhões.
Questionada pela CGU, a Codevasf atribuiu os valores mais altos às condições causadas pela pandemia, argumento que, para o órgão fiscalizador, é insuficiente para justificar toda a alta.
Inicialmente, a companhia teria atuação voltada a bacias hidrográficas e era restrita aos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Goiás, e também o Distrito Federal. De lá, pra cá, passou a abranger também Piauí, Maranhão, Ceará. Em 2020 incluiu Amapá, Mato Grosso, Pará, Tocantins e Rio Grande do Norte.
Vermelho
https://vermelho.org.br/2022/07/26/entenda-como-a-codevasf-e-usada-para-superfaturar-verbas-de-emendas/
por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
Recuperação do mercado de trabalho para que não possui instrução e tem fundamental incompleto não acontece como para outros níveis.
Levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), conduzido por Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, divulgado no Boletim Macro, aponta que a categoria de trabalhadores com baixa escolarização é a que está com mais dificuldades para recuperar os níveis de emprego pré-pandemia de covid-19 (início de 2020).
Assim, a população ocupada no primeiro trimestre de 2022 sem instrução e fundamental incompleto ficou em 20.144 milhões. Já no primeiro trimestre de 2020, o número era de 21.254 milhões, o que indica uma variação negativa de 5,2%.
Para comparar, o nível de ocupação para quem tem o superior completo no primeiro trimestre 2020 era de 19.957 milhões e no primeiro trimestre de 2022 ficou em 21.279 milhões. Ou seja, houve um aumento percentual de 6,6% no nível de ocupação para os mais escolarizados.
Dessa forma, assim como as outras categorias que tiveram variação positiva, fundamental completo e médio incompleto (crescimento de 4,2%) e médio completo e superior incompleto (crescimento de 3,6%), apenas a categoria dos menos escolarizados não tiveram a retomada do patamar de ocupação anterior ao início da pandemia de covid-19.
Qualidade da recuperação
Apesar disso, os autores do estudo, que se baseia na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) contínua trimestral, trazem preocupação com a qualidade da recuperação desses setores: “Apesar de os indicadores mostrarem que o mercado de trabalhado já conseguiu atingir os patamares pré-pandemia de população ocupada e de taxa de desemprego, muitos ainda se questionam sobre a qualidade dessa recuperação. Essa preocupação tem ressurgido por conta da expansão de trabalhadores atuando no setor informal, caracterizado por ser desprovido de proteção social, e que, por estarem em ocupações que demandam menos escolaridade, recebem menores rendimentos.”
Os economistas acreditam que o avanço do comércio e de serviços pode auxiliar inserção dos menos escolarizados, no entanto, observam que o nível salarial foi rebaixado no período e deve permanecer assim.
Fora isso, o acréscimo no valor do Auxílio Brasil, que foi a R$600,00 até dezembro, em uma medida eleitoreira de Bolsonaro, pode criar um efeito negativo e postergar a reinserção desses trabalhadores no mercado de trabalho.
Com Informações Boletim Macro FGV Ibre e Valor
https://vermelho.org.br/2022/07/26/empregos-para-os-menos-escolarizados-nao-atingem-patamar-pre-pandemia/
por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
*Monica Rosenberg
Ao sugerir fazer ‘grandes sacrifícios’ na política de gastos para socorrer a população que mais está sofrendo com a crise econômica, o governo e sua base aliada estão longe de fazer jus ao apelido sugerido pelo ministro Paulo Guedes para a Proposta de Emenda Constitucional 01/2022, que ficou conhecida por todos como PEC Kamikaze, mas prefiro chamá-la de PEC do Desespero, como alguns já fazem. Ao contrário do sacrifício de morte que os pilotos kamikaze faziam para defender seu país na guerra, a proposta, que foi aprovada no Congresso, está sendo defendida por alguns parlamentares em causa própria, para se manterem vivos nas urnas, e não para salvar o Brasil ou os brasileiros, neste momento de crise.
Distribuir benefícios como vale combustível para taxistas e caminhoneiros e aumentar o valor pago, hoje, pelo Auxílio Brasil, medidas que, de acordo com a proposta de emenda, perdurariam apenas até o final do ano, tem objetivo eleitoral claro! E escancara o medo que certos políticos têm de não serem reeleitos. Eis, aí, a grande ‘emergência’ da medida: garantir o voto na urna.
A PEC, em termos econômicos, é péssima, mas a decretação do estado de emergência é o que mais assusta no curto prazo, pois é ele que blinda o Congresso e o Governo. Para impor o período de emergência, Bolsonaro se escora na instabilidade dos preços dos combustíveis. Mas, até mesmo uma Nota Técnica divulgada pela Câmara dos Deputados contradiz a justificativa, alegando que “a flutuação de preços de commodities, e em especial do barril de petróleo, não é novidade”. Tais variações não podem ser consideradas imprevisíveis, nem mesmo quando decorrem de uma guerra em outros países. Então, qual a real justificativa do estado de emergência? Não existe, ou pelo menos, não se justifica.
Sob o pretexto de estarem trabalhando por ‘uma causa maior’, o presidente e demais interessados em se manter no poder, não se preocupam com sua obrigação de governar e legislar com responsabilidade fiscal. Mais ainda: apostam em uma política que fere princípios básicos da administração pública: Legalidade, Moralidade e Finalidade. Lembrando que o estado de emergência decretado permite ao governo a suspensão de garantias constitucionais, o que é uma temeridade, no atual contexto de polarização e questionamento do processo eleitoral.
A PEC do Desespero tem escasso conteúdo social e distribui benesses que, ao estancar no final do ano, deixarão ao Deus dará, mais uma vez, os milhões de brasileiros que sobreviveram graças a elas, durante o período de campanha eleitoral, gerando um enorme impacto. Talvez, nesse sentido – e só nele – a PEC remeta a uma estratégia de guerra, mas que nada tem de suicida: aquela em que uma das partes atrai a outra com uma mentira para, logo depois, exterminá-la.
Outra estratégia da proposta é empurrar a conta do rombo que as medidas previstas vão gerar aos cofres públicos – valor que pode ultrapassar R$ 41 bilhões – para o próximo governo, algo que só reforça a falta de comprometimento e ética do presidente. Numa tentativa de evitar tal despesa extra e a decretação de estado de emergência em ano eleitoral, o partido Novo está movendo uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a PEC.
Como sugere uma Nota Técnica divulgada pelo movimento Livres, do qual sou integrante, “para amparar quem mais precisa, o governo deveria ter pautado a discussão de políticas públicas focalizadas em quem mais precisa” ao longo de todo o mandato. Ao invés disso, afirma o documento, o Executivo passou os últimos meses dobrando a aposta no populismo, culpando a Petrobras pelo preço dos combustíveis e demitindo presidentes da estatal. Se a classe política enxergava a necessidade de expandir gastos sociais, deveria ter se organizado com antecedência para propor o corte de gastos ineficientes, dando espaço às mudanças antes do período eleitoral.
Benefício social deve ser planejado como política pública, com o objetivo de melhorar a vida das pessoas. Requer estudo, projeto, planejamento, responsabilidade fiscal e social. Mas esse não é o objetivo do presidente Jair Bolsonaro, ou de TODOS os partidos no Congresso Nacional, incluindo o PT, o PSOL, o PDT e o MDB – exceto o NOVO que foi o único a orientar voto contrário à PEC. Estão mirando apenas seus interesses próprios e os de seus correligionários. Assim, ao final deste mandato, a despeito da ‘esmola’ que o governo está disposto a dar para se reeleger, os mais pobres continuarão mais pobres.
Esse tipo de medida populista prejudica, especialmente, a vida dos mais vulneráveis. Estamos a menos de 100 dias das eleições, portanto a oportunidade de começar a organizar a casa está logo ali.
*Monica Rosenberg é advogada formada pela USP, autora do livro “Somos Todos Corruptos? Pequeno Manual do Ético-Chato” e foi uma das fundadoras do Instituto Não Aceito Corrupção.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
AUTORIA
CONGRESSO EM FOCO
CONGRESSO EM FOCO
por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
Embora a desigualdade global tenha caído, porque a desigualdade entre os países diminuiu bastante, a desigualdade dentro dos países aumentou na grande maioria.
Fernando Nogueira da Costa
Fonte: GGN
Data original da publicação: 24/07/2022
No livro A Grande Reversão Demográfica: Sociedades Envelhecidas, Desigualdade em Declínio e um Renascimento da Inflação, lançado em 2020, Charles Goodhart e Manoj Pradhan destacam o advento da China no sistema de comércio mundial e seu subsequente crescimento extraordinário terem sido as características mais marcantes das últimas três décadas. Isso aliou um país densamente povoado, onde a força de trabalho era pobre, mas razoavelmente bem-educada, governada e organizada de forma relativamente eficiente, com as economias avançadas ocidentais com habilidades técnicas, riqueza e capital muito maiores.
O resultado foi, em certo sentido, um triunfo para a macroeconomia mundial. O Ocidente exportou know-how, gestão e capital para a China, em contrapartida, esta exportou mercadorias baratas, produzidas em grande escala por força de trabalho com baixo custo, para o resto do mundo.
A desigualdade global começou a cair, a partir de 2000 em diante, enquanto o aumento percentual da renda real e dos salários reais, em grande parte da Ásia, liderada pela China, superou em muito o do Ocidente. Nos dois séculos anteriores, a desigualdade global tinha aumentado, de forma constante, não porque a desigualdade estava aumentando dentro dos países, mas sim porque estava crescendo entre os países.
Durante esse período anterior, os rendimentos reais na Europa, América do Norte e Austrália/Nova Zelândia estavam saltando à frente, enquanto estagnaram em níveis próximos de subsistência na Ásia, África e América Latina. A posição de cada pessoa na escala de renda global dependia mais de qual país onde nasceu em lugar de quem eram seus pais, ou seja, de sua herança.
Além dos camponeses e das classes trabalhadoras da China e dos países asiáticos vizinhos, Coréia do Sul, Taiwan, Vietnã, Tailândia, Malásia, Cingapura, Indonésia etc., os outros principais “vencedores”, nas últimas três décadas, foram trabalhadores com boas habilidades técnicas e qualificações, a classe gerencial e pessoas com riqueza para investimento de capital em oportunidades, seja em ações, seja direto na produção.
Como Goodhart e Pradhan mostram, a combinação da globalização (essencialmente o efeito China) mais as tendências altamente favoráveis da demografia levaram a um aumento sem precedentes na oferta efetiva de mão de obra, durante as últimas décadas, indo além do dobro no período de 30 anos. Nesse contexto, aqueles países com a capacidade de fornecer essa oferta de trabalho enormemente expandida, em conjunto com a supervisão gerencial, habilidades e equipamentos relevantes, estavam destinados a prosperar.
Mas também houve perdedores: as classes médias baixas das economias avançadas ocidentais. Elas sofreram, como Goodhart e Pradhan mostram, não só da concorrência globalizada, da produção mais barata na China, mas também da evolução tecnológica.
Considerando como os efeitos globais da globalização/demografia foram benéficos para a economia mundial – as duas décadas, 1988-2008, foram as melhores de todos os tempos, classificadas por crescimento, emprego crescente e inflação baixa e constante – os vencedores poderiam ter compensado os perdedores.
Mas, é claro, por si só, sem tributação progressiva eles não fizeram tal coisa. Um “cinturão de ferrugem” de decadência se formou em economias avançadas, estendendo-se a cidades, tipos de trabalho e categorias de trabalhadores.
O “cinturão da ferrugem”, conhecido até os anos 1970 como “cinturão da manufatura”, é uma região dos Estados Unidos abrangente dos estados do nordeste, dos Grandes Lagos e do meio-oeste. Os ex-operários, desocupados pela desindustrialização de lá, migraram seus votos para o populismo de direita.
Embora a desigualdade global tenha caído, porque a desigualdade entre os países diminuiu bastante, a desigualdade dentro dos países aumentou na grande maioria. Em muitos casos, reverteu o declínio ocorrido de 1914 até cerca de 1980.
Uma graça salvadora para esse resultado sombrio é as rendas pós-impostos (líquidas) e transferências para os dois decis mais pobres da população. Essas famílias, na maioria dos países, continuam sendo protegidas, em grande parte por medidas políticas, como benefícios sociais, leis de salário-mínimo, assistência médica etc. Esse apoio ou suporte tem sido menor nos EUA e em países em desenvolvimento, e mais na Europa e no Japão.
Cerca de três quartos da redistribuição fiscal foram alcançados do lado das transferências, enquanto a tributação progressiva contribuiu com o quarto restante. Em todas as classes de renda familiar, benefícios e transferências ajudaram mais a reduzir a desigualdade se comparados a impostos e contribuições sociais.
O impacto redistributivo da política fiscal, embora ainda grande em todo o país, diminuiu, desde meados da década de 1990, na Era Neoliberal, em países da OCDE. Políticas fiscais progressivas forneceriam um mecanismo automático para combater o aumento da desigualdade de renda, mesmo sem medidas políticas sociais ativas.
Há duas razões principais para essas tendências de desigualdade. A primeira é a tendência de crescimento dos retornos do capital produtivo e financeiro ter sido muito mais forte se comparado ao aumento dos salários reais nesse mesmo período de três décadas. A segunda é o retorno do capital humano, representado pelo nível de escolaridade, ter aumentado juntamente com o retorno do capital fixo e financeiro. Em contraste, o retorno à força muscular e tarefas repetitivas mais simples estagnou.
A implicação de tudo isso foi os mais pobres terem sido protegidos, enquanto o retorno do capital humano e fixo aumentou em relação ao retorno dos não qualificados e semiqualificados. A classe média baixa, entre os 20º e 70º percentil de renda, piorou.
Outro aspecto desse mesmo fenômeno foi os empregos de qualificação média terem caído em relação aos empregos de baixa e alta qualificação. Aqueles situados na classe média baixa, sem conseguirem aumentar seu capital humano, foram forçados a voltar para empregos exigentes de baixa qualificação, destinados às classes mais baixas.
Há, pelo menos, quatro conjuntos de explicações para essas tendências de agravamento da desigualdade dentro de cada país. Para os defensores das tendências inelutáveis, a aberração foi o período 1914-1979, quando a desigualdade declinou em muitos países.
Como Thomas Piketty, eles veem isso principalmente como o resultado de uma série de fatores especiais, duas Guerras Mundiais, a Grande Depressão, a inflação do pós-guerra, o comunismo / socialismo / controles de preços e aluguéis, todos temporariamente deprimindo a condição natural de crescente desigualdade. Argumentam: o forte sempre oprimirá o fraco, caso não seja contido por peste, guerra, fome ou rebelião…
Não há dúvida de as mudanças tecnológicas terem reduzido bastante a demanda por algumas categorias de trabalhadores semiqualificados. No entanto, até qual ponto o efeito patente em categorias individuais de trabalho se espalha para explicar a relativa estagnação dos salários reais e da participação do trabalho na renda como um todo?
Se a tecnologia poupadora de mão-de-obra fosse a grande responsável, a produtividade deveria ter crescido mais rápido, em vez do ocorrido nas últimas duas décadas. O impacto prático não ocorreu em serviços de baixa produtividade na “gig economy”?
O argumento é os trabalhadores na economia não qualificada (gig) terem menos poder de barganha relativo e serem menos sindicalizados em comparação àqueles anteriormente trabalhadores em áreas semiqualificadas. Talvez isso tenha acontecido, mas isso leva às próximas duas questões relacionadas mais diretamente com o poder de barganha comparativo de empregados e empregadores, de trabalhadores e capitalistas.
Há evidências consideráveis de a concentração e o poder de monopólio virem aumentando. Quanto mais poderoso for o empregador em relação aos empregados, mais apertado o mercado de trabalho deve se tornar e menor deve ser a taxa natural de desemprego para obter o mesmo aumento real de salário. Mas, embora a direção do efeito pareça bastante clara, é muito difícil estimar o impacto agregado geral sobre os salários reais e a participação do trabalho na renda.
Quanto à globalização e demografia, Goodhart e Pradhan reafirmam: o aumento sem precedentes na disponibilidade de mão de obra para os empregadores, tanto na economia doméstica, parcialmente atendida por imigrantes, quanto por terceirização da produção no exterior, enfraqueceu muito o poder de barganha relativo do trabalho e de seus sindicatos. Portanto, desempenhou um papel significativo na redução do crescimento real dos salários e da taxa natural de desemprego.
Se a principal causa do baixo crescimento salarial e queda na participação do trabalho é a globalização e a demografia, levando a um forte declínio no poder de barganha do trabalho, então, ela se reverterá nas próximas décadas. Se é principalmente uma questão tecnológica, então pode continuar, caso a inteligência artificial (IA), por exemplo, entrar em ação. Se a concentração/monopólio na indústria privada crescer ou diminuir, no futuro, será em grande parte uma questão de política pública. Poderá ser de outra maneira de acordo com a vontade política coletiva predominante.
Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP.
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/ascensao-e-queda-da-desigualdade/
por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
Nas economias centrais, pelo segundo ano consecutivo, a taxa de elevação do nível geral de preços caminha para o patamar de dois dígitos.
Plínio de Arruda Sampaio Jr.
Fonte: A Terra é Redonda
Data original da publicação: 19/07/2022
Aguerra na Ucrânia provocou uma mudança de qualidade na conjuntura econômica internacional. O crescente envolvimento dos Estados Unidos no conflito abalou irremediavelmente as bases da ordem global multilateral, acelerando a desintegração da economia mundial e impulsionando a configuração de blocos geopolíticos antagônicos que contrapõem o Ocidente, capitaneado pelos Estados Unidos, à Ásia, liderada pela China. As consequências econômicas do confronto comprometeram a recuperação do PIB mundial. O espectro da estagnação do crescimento e da inflação elevada coloca-se como perspectiva.
O impacto negativo da guerra sobre a taxa de lucro e sobre o comércio internacional redundou em substancial reversão das expectativas de expansão da economia mundial. A tendência recessiva foi reforçada pela política sanitária de lockdown do governo chinês e pela reversão da política monetária expansionista das economias centrais. Como consequência, as estimativas de expansão da produção mundial e do comércio internacional foram substancialmente rebaixadas.[i]
Entre as economias desenvolvidas, a União Europeia será a região mais atingida. Entre as subdesenvolvidas, os países mais pobres e dependentes da importação de alimentos serão os mais penalizados.[ii] A perspectiva para 2023 é de que as economias desenvolvidas entrem em recessão e que se instale um regime de baixo crescimento.[iii]
Ao acentuar os desequilíbrios entre oferta e demanda numa série de mercadorias estratégicas para o funcionamento da economia global – como produtos energéticos, componentes industriais essenciais, particularmente semicondutores, bem como insumos básicos e alimentos –, a guerra da Ucrânia deu novo ímpeto ao surto inflacionário que acompanhou o rebote do crescimento, após a forte retração da produção provocada pelas medidas de quarentena nos primeiros meses da pandemia.
Nas economias centrais, pelo segundo ano consecutivo, a taxa de elevação do nível geral de preços caminha para o patamar de dois dígitos, colocando em questão a continuidade de um ciclo de inflação baixa que já durava quase quatro décadas.[iv] A tendência à expressiva desvalorização das moedas em relação ao dólar, provocada pela fuga para a segurança diante das incertezas do cenário internacional, deve pressionar ainda mais a desestabilização das expectativas inflacionárias.
A decisão das autoridades econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia de apertar a política monetária, invertendo anos de injeção de liquidez na economia, não será capaz de restaurar o regime de estabilidade de preços da era de ouro da Grande Moderação. A inflação em curso não pode ser reduzida a um problema de excesso de demanda que seria resolvido com um freio de arrumação que, ao deprimir o mercado de trabalho, quebraria o ímpeto de elevação dos preços. Na verdade, os salários sequer têm conseguido perseguir os preços.[v]
Para além de desequilíbrios transitórios entre a demanda e a oferta, a inflação que corrói o poder de compra dos trabalhadores tem um caráter estrutural, condicionado por mudanças de grande envergadura na dinâmica de expansão do mercado mundial, na composição dos gastos das famílias, na organização das cadeias de valor em escala global, no comportamento do mercado de trabalho e nos custos de insumos energéticos estratégicos.
A maior responsável pela aceleração inflacionária tem sido a total liberdade das grandes corporações para aumentar indiscriminadamente as margens de lucro como forma de compensar a redução da taxa de lucro provocada pela contração dos mercados e por aumentos nos custos de produção, logística e transporte.[vi] A desenfreada especulação comercial e financeira com commodities agrícolas – um efeito colateral da desregulamentação indiscriminada dos mercados – agrava as pressões inflacionárias.
Não há possibilidade de uma volta ao passado. A segmentação do mercado mundial em blocos econômicos antagônicos inviabiliza a reconstituição do padrão de produção, distribuição e circulação dos anos de glória do neoliberalismo. O apelo ao choque ortodoxo, baseado no arrocho salarial e na austeridade fiscal como meio de domar a inflação, só interessa às grandes corporações e à plutocracia global, que procuram, por todos os meios, potencializar sua taxa de exploração do trabalho e proteger suas riquezas dos efeitos corrosivos da inflação.
A crise da ordem global aprofunda-se. A estagflação é um sintoma das dores de parto de uma nova ordem econômica internacional. Se as grandes economias de escala geradas pelo movimento de integração ao mercado mundial e a concorrência intercapitalista baseada na arbitragem salarial em escala global propiciaram um longo ciclo baixista de preços, processo que atingiu o clímax na integração da China e da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC), é razoável supor que o processo de fragmentação da ordem global desencadeará tendência inversa. O sistema capitalista mundial encontra-se em transição para uma nova fase, cujas duração e características serão definidas em última instância pelo desdobramento da crise capitalista, pelas mudanças no equilíbrio geopolítico internacional, pela gravidade da escalada da crise ambiental e, em última instância, pelo caráter da luta de classes.
Na ausência de uma solução alicerçada na luta da classe trabalhadora, a política de administração da crise capitalista pela linha de menor resistência, materializada no aprofundamento das reformas neoliberais, deve exacerbar a tendência recessiva que abala o funcionamento do sistema capitalista mundial, intensificar a instabilidade financeira, acirrar as rivalidades nacionais, agravar a crise ambiental e aprofundar a desigualdade social e a pobreza, tudo contribuindo para o acirramento das tendências xenófobas e reacionárias que abalam progressivamente as próprias bases da noção de res pública como um dos princípio organizadores fundamentais do Estado burguês.
Notas
[i]. As revisões sobre a expectativa de crescimento da economia mundial da OCDE, FMI, Banco Mundial e UNCTAD encontram-se sistematizadas no infográfico War in Ukraine is Setting Back the Global Economy, Statistical – https://www.statista.com/chart/27699/global-gdp-growth-projections-for-2022-pre-and-post-war-outbreak/. A Organização Mundial do Comércio, no cenário mais negativo, para o qual parece evoluir a conjuntura, prevê que o comércio internacional crescerá apenas 2,5% em 2022 – quase a metade da previsão anterior. WTO, Russia-Ukraine conflict puts fragile global trade recovery at risk, in: https://www.wto.org/english/news_e/pres22_e/pr902_e.htm[ii]. IMF, World Economic Outlook: War Sets Back the Global Recovery, April 2022, in: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2022/04/19/world-economic-outlook-april-2022.[iii]. A perspectiva da economia mundial é analisada por Michel Roberts em Energy: the recession trigger? In: https://thenextrecession.wordpress.com/2022/07/13/energy-the-recession-trigger/; e The scissors of slump, in: https://thenextrecession.wordpress.com/2022/06/10/the-scissors-of-slump/[iv]. Nos Estados Unidos, o índice de preços ao consumidor saltou de 1,4% no final de 2020, para 7,0% em 2021, e para uma taxa anualizada superior a 8% em meados de 2022. Na Zona do Euro, o salto da inflação foi ainda maior, escalando de -0,3% para 7,0%% e 7,4%, respectivamente. CEPAL, Repercusiones en América Latina y el Caribe de la guerra en Ucrania: ¿cómo enfrentar esta nueva crisis?, 6 de junio de 2022 – https://www.cepal.org/es/publicaciones/47912-repercusiones-america-latina-caribe-la-guerra-ucrania-como-enfrentar-esta-nueva. Sobre a tendência inflacionária em curso ver também, BIS, Annual Economic Report, June 2022.[v]. Sobre a relação entre inflação, salário e lucro, ver artigo de Michael Roberts, Inflation: wages versus profits, https://thenextrecession.wordpress.com/2022/05/09/inflation-wages-versus-profits/[vi]. A relação entre inflação, salário e lucro é examinada no artigo de Joseph Stiglitz e Dean Baker, Inflation Dos and Don’ts, July 8, 2022, in: https://www.project-syndicate.org/onpoint/us-inflation-supply-side-causes-and-solutions-by-joseph-e-stiglitz-and-dean-baker-2022-07.
Plínio de Arruda Sampaio Jr. é professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp e editor do site Contrapoder. Autor, entre outros livros, de Entre a nação e a barbárie – dilemas do capitalismo dependente (Vozes).
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/guerra-inflacao-e-estagnacao/
por NCSTPR | 27/07/22 | Ultimas Notícias
De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 2021), a taxa de desemprego no Brasil, entre março e maio de 2021, foi de 14,6% na população nacional, representando cerca de 15 milhões de pessoas economicamente ativas no país. Enquanto não há oportunidade no mercado para 33 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, o trabalho por conta própria vem freando o desemprego, mas não o número de pessoas enquadradas abaixo da linha da pobreza, que atinge hoje 12,8% da população brasileira.
A reportagem é de Luiz Felipe B. Lacerda, secretário executivo do OLMA, publicada por Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida – OLMA.
No mercado formal ou nos processos de geração de trabalho e renda alternativos, as mulheres representam uma forma diferenciada de viver e produzir. Subjugadas pela histórica divisão social e de gênero no mundo do trabalho, consequentes vítimas de discriminações, impeditivos machistas e remunerações desvalorizadas quando comparadas aos valores recebidos por homens que desempenham as mesmas funções, elas resistem e ensinam sobre uma resistência esperançosa.
“Mulheres ganham, no Brasil, em média 74,5% do rendimento dos homens, situação pior para as mulheres negras que ganham em média 40% do rendimento dos homens brancos.” (PNAD, 2014, IPEA)
De acordo com o DIEESE (Departamento Intersetorial de estatística e Estudos Econômicos 2021), no terceiro trimestre de 2021 a força de trabalho feminina contava com 1.106 mil mulheres a menos do que no mesmo trimestre de 2019, o que significa que parcela expressiva de trabalhadoras saiu do mercado de trabalho durante a pandemia e ainda não havia retornado em 2021.
É neste cenário desafiador que a Economia Solidária, uma vez mais na história do Brasil, apresenta-se como alternativa, não apenas de geração de trabalho e renda, mas de reconstrução de vínculos e fortalecimento de protagonismos.
A Economia Solidária, desde a década de 1990, vem apresentando-se como um espaço alternativo e eficiente de gerar renda, trabalho e dignidade, porém, atualmente, frente ao cenário político nacional, sofre progressivos ataques e regressões das conquistas institucionais alcançadas pela sociedade civil organizada nestes últimos anos.
“A Economia Solidária se apresenta como estratégia para geração de trabalho e renda e também de proteção social, promovendo autonomia econômica, que é compreendida como a possibilidade de ter condições e criar expectativas de ter uma vida com qualidade através do trabalho coletivo.” (UNISOL – Brasil – Central de Cooperativas de Empreendimentos Solidários, 2018).
Frente a este cenário o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA) une-se com o Programa MAGIS Brasil, evocado pela necessidade de realmar a economia através da Economia de Francisco e Clara, e ao Escritório de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Província dos Jesuítas do Brasil para mapearem, articularem e fortalecerem iniciativas de geração de trabalho e renda já desenvolvidas por diferentes obras sociais em todo território nacional.
Em 2021 foram mapeadas 19 iniciativas que foram convidadas para ciclos de diálogos onde puderam se apresentar institucionalmente dando a conhecer mais de perto, mutuamente, cada experiência. Ao longo destas apresentações iniciais, no primeiro semestre daquele ano, sistematizou-se a necessidade de prosseguirmos com essa colaboração de forma mais efetiva principalmente em duas direções: articulando com o setor de comunicação da Província a construção de um material institucional que gere visibilidade as ações, projetos e produtos destas iniciativas; e o aprofundamento nas trocas de experiências referentes as formações cidadãs e técnicas já desenvolvidas. Então uma segunda rodada de apresentações ocorreu, ao longo do segundo semestre de 2021, com foco exclusivo nos processos de formação que as obras realizam com o público atendido nos projetos de geração de trabalho e renda.
Fruto deste processo, ao longo de 2022 consolidou-se a construção de um projeto unificado que busca subsídios para insumos às formações e produções desta Rede Nacional de Geração de Trabalho e Renda. Além disto, o projeto avança por intercâmbios e visitas técnicas entre as participantes das iniciativas gerando coesão e fortalecimento de todo o coletivo a partir da experiência destas empreendedoras, em cada território. São mulheres de São Paulo (SP), Teresina (PI), Cascavel (PR), São Leopoldo (RS), Jaboticaba (BA), Recife (PE), Boa Vista (RO), Montes Claros (MG), Capim Grosso (BA), Cariacica (ES), Natal (RN) e Belém (PA), interligando 12 estados da Federação. São potentes iniciativas protagonizadas por mulheres que beneficiam diretamente aproximadamente 5.400 pessoas.
Vem nascendo uma nova rede, nacional, feminina, de geração de trabalho e renda, de afetos e fortalecimentos, no coração da justiça socioambiental da Província dos Jesuítas do Brasil. Vai se fortalecendo uma resistência esperançosa que ecoa de cada território, grupo e comunidade. Ecoa uma voz feminina que nos ensina outras formas de ser e produzir, de estar em coletividade, em um mundo predominantemente individualista, machista e injusto.
Fonte: Brasil de Fato RS, com IHU
Data original da publicação: 21/07/2022
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/mulheres-unidas-pela-geracao-da-vida-do-trabalho-e-da-renda/