Filósofo lança livro que faz mergulho profundo nas razões para a ascensão da ideologia na sociedade atual

O fascismo atual não se baseia na irracionalidade ou em impulsos descontrolados, mas em sujeitos que aplicam de modo consistente a lógica neoliberal da concorrência generalizada. Essa é a premissa do livro “A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais” (Ubu, 2026), do filósofo Vladimir Safatle.
Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, desta terça-feira (12), Safatle pondera que o fascismo encontra eco na sociedade de hoje porque responde a um tipo de ansiedade social. “Ele tem uma função muito clara. Eu diria que essa função fica muito evidente quando nós temos situações como essa na qual nós nos encontramos, quando entramos em sistemas de crises estruturais muito profundas. O fascismo consegue resolver um problema, de uma certa maneira, que é um problema de uma sociedade que não consegue mais se organizar enquanto uma totalidade social. Não tem sociedade para todo mundo. Isso é um pouco o que o fascismo fala. E ao invés disso ser um impulso para a construção de uma outra forma de sociedade, o fascismo propõe uma certa adaptação a essa situação. Por isso ele vai se tornando uma alternativa, eu diria até mesmo racional, dentro desse contexto”, avalia.
Provocado a refletir sobre a afirmação de que não há uma sociedade hoje para todo mundo, o filósofo recorre a um termo da socióloga argentina Verônica Gago, que defende que, se não há uma crise de desemprego como em tempos anteriores, hoje há uma crise de pluriemprego. “Você tem emprego, mas o emprego não te permite sobreviver. Porque você tem uma intensificação dos regimes de trabalho e um achatamento dos salários que é brutal. Então, se obriga que as pessoas tenham dois, três, quatro empregos para que elas possam simplesmente gerenciar seu endividamento. Não digo nem sobreviver. Por isso, esses números criam uma falsa ilusão. Uma falsa ilusão de uma estabilidade potencial. Mas o crescimento da extrema direita, o crescimento do fascismo demonstra outra coisa: que esses números perderam a realidade”, afirma.
A distopia dos tempos atuais criou terreno fértil para a extrema direita, que, nesse perspectiva, pode guardar uma semelhança com o punk rock de outros tempos: tornou-se um movimento disruptivo que guarda uma aura de contestação, e, por isso é atraente para os jovens. “A metáfora é tão dramaticamente real que até o John Lyno, vocalista do Sex Pistols, virou trumpista. O baterista do Ramones também era de extrema direita. Ou seja, é triste dizer isso, mas é verdade. Você tem uma força anti-institucional, uma força de ruptura que migrou para a extrema direita. Isso talvez explique, entre outras coisas, por que entre os jovens essa opção vai se tornando uma opção cada vez mais presente, cada vez mais possível”, afirma.
Safatle diz que o cenário não se construiu repentinamente. “Desde os anos 70, a gente tinha uma série de relatórios que indicavam que entraríamos em crise em 50 anos, porque estávamos em um horizonte de crescimento exponencial. E esse horizonte ou seria regulado, ou, sem uma regulação, nos levaria necessariamente a um certo tipo de crise como a que estamos vendo hoje, em que o processo de acumulação de capital volta com força”, pontua.
Para ele, a nova versão do fascismo não governa, mas cria a ilusão de que os indivíduos podem se libertar da sociedade para desenvolver suas capacidades de sobrevivência. “Isso, de uma certa maneira, traz alguma coisa para dentro do nosso imaginário, uma ideia de que estamos em uma decomposição generalizada, aquela ideia de ‘eu conto comigo mesmo e é importante que o Estado não me atrapalhe’. Por mais problemática que seja uma proposição dessa natureza, ela tem uma certa coerência interna”, diz.
Neoliberalismo como terreno fértil
Vladimir Safatle defende que o neoliberalismo oferece condições para que o fascismo se coloque como possibilidade. O filósofo voltou alguns anos da história brasileira e destrinchou o processo de aumento de renda e mudança na estratificação social, que gerou o que, na época, foi chamado de “a nova classe média”. Mas sem mudanças estruturais, essa ascensão não se sustenta, afirma.
“Essa nova classe média, quando começa a ter um pouco mais de renda, tira seus filhos da escola pública e coloca na escola privada. A gente tem números muito significativos, nesse momento, de transferência de matrículas. E é um dado muito interessante, porque isso mostra o que é efetivamente a sociedade brasileira, o que é a população brasileira. Uma população cuja primeira preocupação foi melhorar a educação dos seus filhos e filhas. A segunda coisa que acontece: as pessoas saem do Sistema Único de Saúde (SUS) e vão para um plano de saúde privado. A terceira é sair do sistema de transporte público e comprar um carro. As pessoas se endividam com isso, na expectativa de conseguir uma ascensão social que não ocorrerá mais. Porque a ascensão para, porque para que a ascensão continuasse, você teria que reconstruir em bases mais igualitárias a sociedade brasileira. Isso não aconteceu. E você vai gerando uma frustração cada vez maior”, pondera.
É nesse momento, continua Safatle, que a extrema direita eclode. E, para ele, esse período não é exclusivo do Brasil: foi um movimento global de um mundo mergulhado em “crises conexas”.
“É crise ecológica de um lado, crise política, crise econômica, crise social, crise demográfica, crise psíquica. Esse horizonte mundial força o horizonte brasileiro. O Brasil poderia ter se descolado em algum nível do horizonte mundial, um pouco como a China fez. Mas aí seria um outro modelo, que não era o modelo brasileiro”, afirma.
