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Crítica da desrazão neofeudal

Crítica da desrazão neofeudal

Alguns autores sustentam que ressurgiram, em substituição ao capitalismo, formas feudais de apropriação da riqueza coletiva. As aparências enganam, porém.

Eleutério F. S. Prado

Fonte: Outras Palavras
Data original da publicação: 16/09/2022

Diversos autores do campo da crítica da economia política têm aderido à tese de que o capitalismo evolveu de modo inesperado, assumindo agora o caráter de algo que chamam de tecnofeudalismo, sem deixar de ser ainda capitalismo: dentre eles, alguns dos mais vocais são Yanis Varoufakis, Mariana Mazzucato, Jodi Dean, Robert Kuttner, Michael Hudson e Wolfgang Streeck. A formulação mais consistente dessa tese, entretanto, foi desenvolvida por Cédric Durand em seu livro Tecnofeudalismo – Crítica da economia digital.1 Contudo, um número bem menor de autores têm criticado essa teorização que, mesmo numa primeira visada, se afigura inusitada e estranha à tradição da crítica da economia política: dentre eles, conta-se Evgeny Morozov, Michael Roberts e o autor da presente nota.2

Foi Morozov quem apresentou até agora a análise desabonadora, mais extensa e mais sistemática, dessa tese em seu artigo Crítica da razão tecnofeudal.3 Aí, ele definiu bem o contorno dessa formulação que pretende se configurar como um corpo teórico:

Os teóricos do tecnofeudalismo compartilham com os autores que sustentam a tese do capitalismo cognitivo4 a suposição de que algo na natureza das redes de informação e dados empurra a economia digital na direção de uma lógica feudal de rentismo e despossessão, para fora e para além da lógica do lucro e da exploração.5

 

Em adição, esses autores se valem de uma analogia para encontrar um apoio firme à tese em consideração. Observam que o modo de coletar renda na economia digital tem uma certa semelhança – aparente – como o modo de extração de excedente no feudalismo histórico. Neste último, como se sabe, os servos produzem bens e serviços autonomamente em lotes de terras que estão sob o domínio de um senhor, mas, em contrapartida, têm de lhe entregar, gratuitamente, segundo certas regras tradicionais, uma parte do produto gerado. Considerando que o feudalismo como tal não volta mais, esses autores especulam, entretanto, que os seus métodos de apropriação de renda podem retornar, passando a prevalecer outra vez na história.

É esse tipo de ressurgimento que eles veem acontecer no capitalismo contemporâneo. Os donos das plataformas digitais, como se fossem novos senhores, se valem da coleta das informações produzidas descentralizadamente pelos usuários dos serviços digitais para obter ganhos econômicos. Eis que, atualmente, todos aqueles que se servem desses instrumentos ficam sob o domínio de sistema computacionais, fornecendo aos seus donos, também de modo gratuito, como se fosse novos servos, dados preciosos como base nos quais eles obtêm ganhos.

Ora, esses ganhos provêm supostamente da apropriação – e não do esforço próprio. E isso autoriza, os teóricos do capitalismo transformado a considerar toda essa produção de informação como um tipo de trabalho e todas as pessoas que as compartilham gratuitamente como trabalhadores produtivos de coisas úteis e de valores mercantis. Assim – admitem – uns expropriam parte da riqueza produzida por outros de um modo já visto no passado.

Como se sabe, entretanto, a aparência fenomênica das coisas autoriza explicações – seja na vida cotidiana seja no âmbito da ciência positiva –, que parecem fazer sentido, mas que se revelam falsas quando enfrentam uma crítica adequada. Será este o caso da tese da mutação do capitalismo em tecnofeudalismo? Morozov, que descreveu com precisão os contornos teóricos dessa tese, procurou mostrar com bons argumentos que ela não se sustenta pelo menos no interior da exposição dialética de Marx em O capital.

A sua estratégia crítica consistiu em examinar os argumentos dos adeptos da teoria da “feudalização” do capitalismo para expor que eles se mostravam insuficientes ou mesmo inadequados e que lhe faltava sobretudo rigor e veracidade. Sob os golpes desarticuladores da crítica, eles se afiguravam inefetivos para mostrar que o evolver do sistema teria extrapolado os contornos do seu suposto conceito – pelo menos se este vem a ser aquele dialeticamente exposto pelo fundador do marxismo. Eis aqui, ao fim e ao cabo, a sua conclusão:

Os marxistas deveriam tomar ciência de que a despossessão e a expropriação nunca deixaram de ser constitutivas da acumulação de capital na história. (…) A extração de valor de modo propriamente capitalista no centro dependeu do uso extensivo de modos de extração não estritamente capitalistas na periferia. Assim que se dá esse salto analítico, deixa-se de apelar ou invocar o feudalismo. O capitalismo está se movendo na mesma direção [N. T.: ou seja, do mesmo modo] como sempre.

Será? Aqui se vai discordar desta última conclusão, mesmo se se considera que é necessário criticar a (des)razão tecnofeudal e se endossa o contra-argumento central de Morozov, qual seja ele, de que o capitalismo do presente é ainda, simplesmente, capitalismo. Está ainda fundado no capital industrial, mesmo se precisa receber por necessidade de esclarecimento teórico ou de ordem histórica, outras qualificações.

Mesmo recusando a tese tecnofeudal, argumenta-se aqui que ocorreu, sim, uma mudança no sistema do capital. Pois, realizou-se de fato já no final do século XX uma tendência histórica que fora notada por Marx no capitalismo de meados do século XIX. Contudo, ela sobreveio sem que tivesse ocorrido uma mutação, ou seja, algo que implicasse a ultrapassagem de quaisquer limites dados por suas características intrínsecas.

A história do capitalismo, entretanto, está marcada por reestruturações sucessivas e elas sobrevieram sempre sob o acicate da concorrência para obter lucros e sempre mais lucros, assim como pela realização de uma taxa de lucro compensadora dos investimentos passados e estimuladora de novos investimentos. Novas tecnologias, novas formas de organização, aprimoramentos da subsunção do trabalho, novos mercados etc. foram sendo descobertos e introduzidos nos processos de produção e circulação para que a acumulação de capital pudesse ter continuidade. A última dessas mudanças endógenas, vinda mais recentemente, recebeu já o nome de “economia da informação e do conhecimento”.

O funcionamento do capitalismo no século XXI depende agora, crucialmente, da extração, manipulação e uso centralizado de “dados” – um elemento inerente da produção e da circulação mercantil, que antes permanecia esparso ou mesmo era perdido em boa medida. É bem evidente que o uso intensivo das informações resultante das operações mercantis está associado ao advento e aprimoramento das tecnologias da computação, o que vem ocorrendo desde as últimas décadas do século XX.

O funcionamento do sistema econômico atualmente depende de empresas especializadas em operar grandes bancos de “dados” digitalizados. Para compreender a sua natureza econômica, emprega-se uma classificação sumária dos tipos de empresas que empregam formidáveis sistemas de computação e fazem uso de grandes ou imensas quantidades de informações e mesmo de conhecimentos.6 Elas são chamadas, como se sabe, de plataformas. Será necessário mostrar de que relações de mercado participam e, em especial, que relações de produção estão implícitas nas operações usuais dessas empresas.

Do ponto de vista tecnológico, as plataformas são infraestruturas computacionais que fazem a intermediação entre pessoas, empresas, órgão públicos e outras organizações em geral, tornando possível a interação entre elas, reduzindo imediatamente quaisquer distâncias. Do ponto de vista social e econômico, mesmo se têm caraterística de comuns, constituem-se como empresas monopolistas que visam a acumulação de capital. Eis como Srnicek as caracterizam:

As plataformas, em suma, são um novo tipo de empresa; caracterizam-se por fornecer a infraestrutura para intermediar interações entre diferentes grupos de usuários, por apresentar tendências a se tornarem monopólios impulsionadas que são por “economias de rede”, por empregar subsídios cruzados para atrair diferentes grupos de usuários e por ter uma arquitetura central projetada para governar as possibilidades de interação. A propriedade da plataforma, por sua vez, é essencialmente a propriedade de software e hardware, os quais são construídos como sistemas abertos. Todas essas características tornam as plataformas modelos de negócios que se baseiam na extração e controle de dados.7

 

Há vários tipos de plataformas. As que se alimentam de propaganda (Google, Facebook) extraem “dados” dos usuários e de outras fontes como revistas científicas, jornais etc., organizam todos os dados obtidos e os utilizam para formar veículos de informação que têm como objetivo vender anúncios. Elas produzem ao mesmo tempo um serviço útil e um espaço de propaganda; este último, portador de valor e mais-valor, é vendido como mercadoria para as empresas capitalistas em geral. Obtêm, assim, lucros e mesmo, eventualmente, superlucros. As relações de mercado dessas empresas com os usuários comuns não são, entretanto, relações de valor.

Há as plataformas que detêm grande capacidade para guardar informações e que são chamadas de nuvens (Onedrive, Dropbox etc.). Essas empresas produzem uma mercadoria, qual seja ela, determinados espaços de armazenamento, os quais são disponibilizados e vendidos aos usuários em geral, sejam eles pessoas ou organizações. Tal como no caso anterior, trata-se de empresas industriais que, como quaisquer outras, produzem mercadorias, ou seja, valor de uso e valor; realizam este último num mercado e, assim, obtêm lucros. As relações de mercado aqui são sempre relações de valor.

Há, também, as plataformas industriais que estão constituídas por complexos de hardware e software capazes de transformar as empresas tradicionais em empresas conectadas à internet, ao mesmo tempo em que contribuem para a redução de seus custos e ampliação os seus mercados, ou seja, de sua capacidade de competição. Esse tipo de empresa produz e vende mercadoria normalmente e, assim, também não apresenta características que possam levar alguém a pensar numa mutação do modo de produção da sociedade moderna, num capitalismo tecnofeudalizado.

Se as modalidades anteriores se baseiam na venda de mercadorias, há um tipo de plataforma que se funda na venda do capital como mercadoria por meio de redes próprias e da internet. Elas são criadas com a finalidade de alugar determinados “bens de capital”, tais como máquinas, automóveis, equipamentos esportivos etc. para outras pessoas e empresas. Vendem, assim, o valor de uso da mercadoria em questão, mas não a própria mercadoria. O rendimento que obtêm tem grosso modo a forma do juro já que o dinheiro emprestado consiste também na venda de capital como mercadoria.

Nos quatro casos anteriores, as empresas tendem a ser monopolistas, mas não se constituem como empresas estruturalmente diferentes das empresas clássicas do capitalismo. No quinto caso, no entanto, há algo diferente.

Finalmente, há um tipo de plataforma que introduz uma novidade em termos de relação social entre o capital e o trabalho: e ela se encontra nas plataformas que se especializam na compra e venda de serviços de táxis, de entrega etc. (Uber, Loggi etc.). Como se sabe, essas plataformas contratam trabalhadores que operam com os seus suportes tecnológicos, mas atuam em conta própria. Põe-se, então, a questão de saber se há aqui uma relação de assalariamento disfarçada ou um outro tipo de relação social já que os trabalhadores são proprietários de parte dos meios de produção usados (carro, moto, celular etc.).

Julga-se aqui que eles devem ser considerados como trabalhadores por conta própria que alugam os serviços computacionais da plataforma. Compram o uso do capital desse tipo de empresa; esta última, em contrapartida, lhes vende (aluga) o capital como mercadoria. Passam o operar por meio de suas teias informacionais e, ao fazê-lo, se subordinam a elas de um modo tão firme quanto o do assalariamento. Como não podem obter renda para si e para a sua própria família sem pagar aluguel às empresas a que se vinculam, os trabalhadores, ao entrarem nessa relação social, ficam subsumidos financeiramente ao capital. Pois o aluguel que estão obrigados a pagar tem a forma do juro – e não da renda da terra como se sugere muitas vezes.8

Tendo em mente essas considerações, vê-se logo que o erro capital dos defensores do tecnofeudalismo não vem do fato de que não consideram a despossessão e a expropriação como formas históricas, complementares ou subsidiárias, da acumulação de capital. Ainda que cometam, sim, esse erro, a falha central deles, em última análise, está na má compreensão das relações de produção inerentes ao capitalismo de plataforma.

A origem desse erro está em que compreendem as finanças como Keynes – e não como Marx. Para o autor da Teoria Geral, como se sabe, o rentismo provém da capacidade de exploração do valor de escassez dos fatores de produção em geral, sejam eles a terra, os meios de produção, o capital-dinheiro etc. E, nesse sentido, esse grande economista engloba o juro e a renda da terra na categoria de “rent”, denominando o possuidor do fator escasso de “rentier”.9 Ao invés de ver relações tipicamente capitalistas na interação entre o capital industrial e o capital financeiro, ele enxerga aí relações pré-capitalistas ou insuficientemente capitalistas.

Ademais, como Keynes prevê que a evolução do capitalismo vai levar necessariamente à “eutanásia do rentista”, isto é, do “poder cumulativo de opressão do capitalista de explorar o valor de escassez do capital”10, ele crê que o rentismo possa desaparecer conforme evolve a “economia monetária de produção”, cujo fim – pensa ele – é a produção de bens e serviços que atendem as necessidades das pessoas. Como os teóricos aqui criticados veem que essa “morte anunciada” não apenas não aconteceu, mas, ao contrário, que o “rentismo” não apenas sobreviveu, mas se tornou supostamente uma forma dominante, eles concluem afirmando que o capitalismo sofreu uma mutação e, por meio dela, se transformou em techno-feudalismo. O rentismo, nessa visão, é promovido não apenas pelas plataformas, mas também mais amplamente pelo que se denomina usualmente de financeirização.

Ora, como também se mostrou em outros textos (ver nota 9), essa é uma maneira superficial de entender a financeirização e a dominância financeira que veio à luz no capitalismo contemporâneo. Eis que apreende apenas os fenômenos econômicos que refletem a aparência da mudança, vê somente a subsunção do capital industrial ao capital fictício, mas não compreende que se está diante de uma mudança estrutural no ocaso do capitalismo. Assiste-se, na verdade, à realização de uma tendência que já aparecia de modo incipiente em meados do século XIX, qual seja ela, a expansão progressiva de socialização do capital.

Aqui só se pode apresentar esse processo resumidamente. Com o desenvolvimento do capitalismo, o capital privado tende a se transformar em capital social, ou seja, em “capital de indivíduos diretamente associados”. Desse modo, ocorre, segundo Marx, “a suprassunção do capital como propriedade privada dentro dos limites do próprio modo de produção”.11

O processo de centralização e concentração do capital, lei tendencial do modo de produção capitalista, induz o surgimento do capital acionário, eleva importância do capital portador de juros não só quantitativamente, mas qualitativamente. As formas financeiras do capital, entretanto, não são estranhas às suas formas industriais, mas, ao contrário, lhe são complementares. Ambas essas espécies de capital estão imbricadas uma na outra no processo de produção e de acumulação em todas as fases do ciclo econômico.

No momento final do ciclo, na fase em que a superacumulação se manifesta, o capital industrial tende a se refugiar nas formas fictícias de capital. Aí ele se concentra até que o estalar efetivo da crise inicie o processo de destruição de parte maior ou menor do capital acumulado. Entretanto, subjacente a esse movimento cíclico, ocorre também o aumento do peso relativo do capital expresso em “papéis” de vários tipos, cada vez mais complicados do ponto de vista financeiro, em relação ao capital investido na produção.

Ora, o apogeu desse processo de mudança estrutural de longo prazo passou a ocorrer de fato a partir dos anos 80 do século passado. E ele foi reconhecido pela ciência, aquela que ama secretamente a ideologia, como um fenômeno novo, o qual merecia ser tipificado pelos nomes de globalização financeira e de financeirização. A partir desse momento, do auge histórico da socialização do capital, a reversão do processo de acumulação em processo de desacumulação no estalar da crise econômica passou a ameaçar, devido ao seu volume gigantesco, a destruição do próprio modo de produção.

A desvalorização brutal do capital converteu-se assim, num evento praticamente inaceitável pela classe dominante e pelas forças governantes principalmente do centro do sistema global. É o propósito de bloquear esse processo que dá origem à intervenção do Estado por meio do chamado relaxamento monetário. Ao trocar título por dinheiro vivo, o banco central impede que a falta de liquidez leve à quebra dos bancos comerciais e de investimento, assim como de grandes empresas chaves na malha da produção industrial. Ao fazê-lo, como esse desenlace é endogenamente necessário, o Estado bloqueia também a possibilidade de que ocorra uma recuperação sustentável do sistema econômico. Este, assim, entra numa crise estrutural que se afigura insolúvel.

Aquilo que uma plêiade de teóricos chama de tecnofeudalismo não é mais – crê-se aqui – do que um elemento do amadurecimento final do próprio capitalismo. De qualquer modo, eles abriram as portas para um debate que é importante continuar.

Notas

1 Durand, Cédric – Techno-féodalisme – Critique de l’économie numérique. Paris: Éditions La Découverte, 2000.

2 Prado, Eleutério F. S. – tecnofeudalismo ou socialismo do capital?. In: blog Economia e Complexidade: https://eleuterioprado.blog/2021/11/14/tecnofeudalismo-ou-socialismo-do-capital/

3 Morozov, Evgeny – Critique of tecnofeudal reason. New Left Review, nº 133/134, jan-abr, 2022.

4 Por exemplo, Moulier-Boutang, Yann – Cognitive Capitalism. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.

5 Op. cit., p. 107.

6 Ver Srnicek, Nick – Plataform capitalism. Cambridge, UK: Polity Press, 2017.

7 Op. cit., p. 33.

8 Ver Prado, Eleutério F. S. – Subsunção financeira do trabalho ao capital. In: Blog Economia e Complexidade. https://eleuterioprado.blog/2018/04/17/subsuncao-financeira/

9 Ver Keynes, John M. – Teoria geral do emprego, do juro e do dinheiro. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

10 Op. cit., capítulo 24, p. 255.

11 Marx, Karl – O capital – Crítica da Economia Política. Tomo III. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 494.

Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do departamento de economia da FEA/USP. Mantém o blog Economia e Complexidade (http://eleuterioprado.wordpress.com).

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/critica-da-desrazao-neofeudal/

Crítica da desrazão neofeudal

Um passo para enfrentar a “pane de imaginação”

O neoliberalismo é a forma atual do desenvolvimento capitalista sob a hegemonia dos muito ricos, em especial da riqueza financeira. Poder econômico e poder político são articulados para promover transformações disruptivas do sistema produtivo para gerar e acumular riqueza em escala global. As mudanças são extensas e atingem todo o sistema econômico, social, cultural e político, com impactos profundos sobre o mundo do trabalho e o sindicalismo. Trata-se de mudanças que o regime de acumulação de riqueza engendra e que promove dimensões de outra sociedade.

Clemente Ganz Lúcio*

No curso da globalização, a pandemia e seus efeitos econômicos, sociais e políticos aflorou os problemas e abriu oportunidades para mudar a trajetória da história em curso. São sementes lançadas em solo social global que está contaminado pelos conflitos na Ucrânia e dos EUA com a China e pela catástrofe ecológica. O contexto é de muita adversidade.

Há urgência no muito que se tem para fazer diante das oportunidades e desafios. No Brasil, por exemplo, o processo eleitoral abre espaço para o debate propositivo sobre as escolhas relacionadas ao nosso futuro. Escolhas que podem, e devem, reorientar nosso desenvolvimento para superar as mazelas das desigualdades, da pobreza, da baixa produtividade, do descompromisso social e ambiental. Superar a agenda de transformação neoliberal regressiva em curso, reindustrializando o País, fortalecendo o papel indutor e investidor do Estado, a essencialidade das políticas públicas de saúde e educação, a valorização da negociação coletiva e do diálogo social, entre tantas outras diretrizes fundamentais para o desenvolvimento sustentável.

Para isso é necessário conhecer e compreender o processo histórico do neoliberalismo, de como molda a sociedade atual e induz seu futuro, elaborando a crítica propositiva capaz de superar suas mazelas, tarefa hercúlea e para muitos. Uma das contribuições de qualidade com esse fim foi produzida por Pierre Dardot e Christian Laval no livro “A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal”.

No prefácio os autores indicam que há uma “pane de imaginação” na esquerda, seja para analisar e interpretar e, principalmente, para criar a superação do neoliberalismo.

O fundamento de partida para os autores é que o neoliberalismo, para além de ser um tipo de política econômica ou de ideologia, é um sistema que se espalha pelo planeta e estende a lógica do capital para todas as relações sociais e esferas da vida. A essencialidade neoliberal está no individualismo, na competição e no interesse privado como princípio político e econômico universal, formas que dominam a vida social e que minaram os meios para se promover compensações, contrapartidas e compromissos, elementos estruturantes do sistema econômico e político socialdemocrata que emergiu no pós-guerra em meados dos anos de 1940.

É como se a experiência cotidiana tornasse a todos gazelas e leões, como no provérbio africano: “Todas as manhãs, a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr.”

Estamos submetidos a um cotidiano no qual todos correm, sempre atrasados, na disputa para competir por algo, contra alguém ou contra todos. Nessa corrida, fracassamos como sociedade, como coletivo que promove o bem comum. A solidariedade perde para a competição, o diálogo sucumbe ao conflito, a fraternidade é derrotada pelo ódio, o diferente é humilhado ou eliminado. Nesse tsunami transformador neoliberal ficou muito mais difícil para a ação coletiva reunir e agregar.

No mundo do trabalho, a tecnologia avança em extensão, profundidade e velocidade sem precedentes contra a quantidade e a qualidade dos empregos. As empresas mudam as estratégias de gestão para responder à competição e para entregar maiores lucros aos acionistas. Os trabalhadores sofrem com a precarização, a insegurança, a desproteção individual, o enfraquecimento dos sindicatos e a desvalorização da negociação coletiva.

Na última década e meia mais de 140 países fizeram reformas laborais, a maioria de cunho neoliberal, flexibilizando formas de trabalho, de contratação, de remuneração, de jornada de trabalho, facilitando a demissão individual e coletiva, retirando poder de representação dos sindicatos, restringindo âmbitos de negociação e de contratação coletiva, desqualificando o direito ao emprego digno.

Reduzido a uma unidade de produção, cada indivíduo que vive do trabalho é estimulado a se compreender como unidade de capital humano para promover a produção da riqueza, da qual pouco participará em decorrência da desigualdade estrutural na distribuição dos frutos do trabalho de todos. A mercantilização das relações socais destroem o que é público e coletivo, o que se desdobra na pioria gradativa e contínua da vida, inclusive portas para movimentos reacionários, para surgimento do neofascismo e o enaltecimento do egoísmo e da competição como virtude da modernidade.

Para os autores, além de compreender o sistema neoliberal, presente nas formas de governar, na gestão das empresas, nas políticas institucionais, é preciso urgência na tarefa de superar a ‘pane de imaginação’ que tem levado muitos a tentar governar pela esquerda essa agenda neoliberal. Indicam os autores que é preciso colocar em debate, nesta sociedade real, a prospecção estratégica de outra razão do mundo. Trata-se de ótimo mote para entrar no debate eleitoral no Brasil.

No atual momento histórico, muitas nações tentam superar o travamento econômico provocado pela crise sanitária, pela insanidade neoliberal e pelos conflitos bélicos e tensões internacionais, recolocando centralidade para o mundo do trabalho, para o papel do Estado e do investimento público, buscando a industrialização com compromisso socioambiental, por meio de agenda de transição digital e ambiental pactuada, de proteção e modernização das democracias para tratar dos conflitos, do planejamento público, do esforço coletivo compromissado.

Em outubro, temos a oportunidade, como Nação, de colocar nosso País em nova trajetória. Desde já superando um aspecto da nossa pane de imaginação, oferecendo à sociedade um arranjo político amplo de governança e comprometido com processo de mudança contínuo e longo, que enfrente e supere as mazelas que assolam nossa vida em sociedade, capaz de promover o desenvolvimento sustentável econômico, social, político e ambiental.

(*) Sociólogo, assessor do Fórum das Centrais Sindicais, consultor, ex-diretor técnico do Dieese (2004/2020).

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91169-um-passo-para-enfrentar-a-pane-de-imaginacao

Crítica da desrazão neofeudal

Exclusivo: Lula a um ponto percentual da vitória em primeiro turno, revela instituto opinião

Voto útil e cansaço do eleitor podem favorecer eleição de Lula no primeiro turno, segundo pesquisador.

ENCOMENDADA PELO CONGRESSO EM FOCO

O ex-presidente Lula (PT) está a um ponto percentual de alcançar a vitória no primeiro turno, segundo pesquisa do Instituto Opinião encomendada pelo Congresso em Foco. De acordo com a pesquisa, realizada entre domingo (18) e terça-feira (20) com eleitores de todo o país, Lula tem 49% dos votos válidos. Para ser eleito em primeiro turno, qualquer candidato precisa alcançar 50% dos votos válidos (ou seja, excluídos os brancos e nulos) mais um.

Os novos números aumentam a pressão sobre o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, que aparece na segunda colocação. Na pesquisa estimulada, aquela em que são os apresentados os nomes dos presidenciáveis, Lula lidera com 45% das intenções de voto. Bolsonaro está 12 pontos percentuais atrás, com 33%. Ciro Gomes (PDT) tem 7%, Simone Tebet (MDB), 5% e Soraya Thronicke (União) e Felipe D’Ávila (Novo), 1% cada. Os demais candidatos não pontuaram. Outros 3% declararam que votarão em branco ou nulo e 5% não responderam.

Eleitores de Ciro e Simone admitem mudar

O levantamento também mostra que é grande o índice de apoiadores de Ciro e Tebet que podem votar em outro candidato: 35% dos eleitores declarados do pedetista e 30% dos eleitores declarados da emedebista admitem mudar de voto. Para efeito de comparação, apenas 8% dos apoiadores de Bolsonaro e 11% de Lula afirmaram que podem mudar de voto. No geral, 83% dos entrevistados afirmam que não vão mudar de voto. Só 8% reconhecem essa possibilidade.

A pesquisa do Instituto Opinião também aponta para cenário de vitória de Lula em um eventual segundo turno contra Bolsonaro: 51% a 37%. Na pesquisa espontânea, aquela em que não são mostrados os nomes dos candidatos, o ex-presidente também leva vantagem sobre o atual no primeiro turno (40% a 30%).

A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos e o índice de confiança da pesquisa é de 95%. A pesquisa, registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-09430/2022, ouviu 2 mil pessoas por telefone com entrevistadores humanos, por meio de sorteios aleatórios na base de dados. Foram levados em conta critérios de divisão geográfica, escolaridade, faixa etária e classificação socioeconômica.

Para o diretor do Instituto Opinião, Arilton Freres, a pesquisa confirma o quadro de estabilidade detectado por outros levantamentos. “Estamos no limite entre haver definição no primeiro turno ou não”, observa o sociólogo, que tem mais de 20 anos de experiência com pesquisas.

Segundo ele, a tendência é que a campanha de Lula intensifique a busca pelo chamado “voto útil” entre aqueles eleitores que preferem ver a eleição decidida já no próximo dia 2.

“Pode haver algum tipo de crescimento de Bolsonaro na reta final, mas o mais natural é que haja pressão muito grande pelo voto útil entre os eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet para Lula conseguir os poucos pontos que precisa para fechar a fatura no primeiro turno”, explica Arilton. Diversos artistas gravaram um videoclipe com a música “Vira voto” para tentar convencer eleitores de outros candidatos a apoiarem Lula. Na gravação, o gesto de arma caracterizado por Bolsonaro vira um “L” em alusão ao nome do petista.

Cansaço pode ser fator decisivo

De acordo com Arilton, o cansaço do eleitor com a disputa eleitoral pode ser fator decisivo na conquista do chamado voto útil. “O eleitor médio está cansado. Na prática, estamos vivendo campanha presidencial desde 218. Bolsonaro nunca saiu do palanque. A campanha está em pauta o tempo todo. Com isso, há cada vez menos eleitores indecisos e cada vez mais votos definidos. Isso pode estimular o voto útil”, considera o sociólogo.

Na avaliação do diretor do Instituto Opinião, o maior índice de rejeição de Bolsonaro em relação aos demais candidatos, captado por quase todas as pesquisas, complica a situação do presidente. “O Brasil sempre teve um voto de centro. Parte desse eleitorado está decepcionado com Bolsonaro e vê em Ciro um candidato da centro-esquerda e não conhece muito bem a Simone Tebet. Por isso, acaba votando em Lula por outras razões, como a econômica”, diz. “As pessoas vão ao mercado hoje e não veem a melhora anunciada pelo presidente. A economia é determinante para qualquer eleição. Ela tem levado, entre outros fatores, o eleitor de centro, mesmo a contragosto, a votar em Lula contra Bolsonaro”, acrescenta.

Segundo o pesquisador, apenas o surgimento de um fato novo e de grande impacto poderá mudar o quadro eleitoral. “A rejeição das mulheres a Bolsonaro sempre foi muito grande devido ao que ele fala e a como se comporta em relação a elas. Bolsonaro tem muita dificuldade em dialogar com as eleitoras. Não convence, a carga negativa dele com elas é muito grande”, afirma. Sediado em Curitiba, o Instituto Opinião tem 14 anos de existência.

AUTORIA

Edson Sardinha

EDSON SARDINHA Diretor de redação. Formado em Jornalismo pela UFG, foi assessor de imprensa do governo de Goiás. É um dos autores da série de reportagens sobre a farra das passagens, vencedora do prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009. Ganhou duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog. Está no site desde sua criação, em 2004.

Crítica da desrazão neofeudal

Campanha de Bolsonaro já gastou quase R$ 2 milhões em pesquisa eleitoral

Dados do portal do TSE revelam que as despesas da campanha do presidente com pesquisas só ficaram atrás dos gastos com propaganda eleitoral
A campanha de Bolsonaro tem como mantra desacreditar as atuais pesquisas eleitorais, o que é feito sem nenhuma base metodológica ou científica. A razão está no simples fato delas apresentarem números desfavoráveis ao candidato, ou seja, quase todas indicando a possibilidade de uma derrota do atual mandatário para o ex-presidente Lula já no primeiro turno.

Os gastos com a campanha de Bolsonaro, até o momento, dão respaldo a essa análise. De acordo com o portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do total de R$ 14,6 milhões desembolsados na campanha, R$ 1,7 milhão foi para pesquisa de mercado e opinião, dos quais R$ 500 mil pagos ao Instituto Ibespe.

As despesas da campanha nessa área só ficaram atrás da propaganda eleitoral propriamente dita: produção, criação e monitoramento de programas de rádio, tevê e redes socais.

A importância dada aos levantamentos é tanta que na pré-campanha o PL, partido de Bolsonaro, pagou R$ 2,7 milhões a Paraná Pesquisas. Nesta terça-feira (20), esse Instituto destoou dos demais colocando Lula com 40,1% das intenções de voto contra 36,4% de Bolsonaro, praticamente na condição de empate técnico.

Pesquisa Genial/Quaest desta quarta-feira (21), por exemplo, mostrou que há uma diferença de dez pontos entre Lula e Bolsonaro. “Faltando 11 dias para o primeiro turno, o presidente passa a ter menos armas para tentar virar o jogo. O aumento no valor do Auxílio não gerou o resultado eleitoral esperado”, diz o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest.

O desespero é tanto que bolsonarista fizeram uma deep fake editando imagens do Jornal Nacional, da Rede Globo, nas quais Bolsonaro aparece na frente de Lula na pesquisa Ipec. A edição do vídeo mereceu uma resposta dentro do programa.

A apresentadora Renata Vasconcellos alertou os telespectadores explicando como funcionava as deep fakes, tecnologia que usa inteligência artificial. “Entre outras coisas, ela permite adulterar o movimento dos lábios de alguém e transplantar um trecho de uma fala de um determinado ponto para outro mudando completamente o conteúdo de uma notícia, por exemplo”, explicou.

“Desde 15 de agosto até hoje, as pesquisas do Ipec e do DataFolha apresentadas aqui no JN mostraram o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, como o que tem a maior intenção de voto. Em todas elas, Bolsonaro apareceu em segundo lugar”, completou William Bonner.

Enquanto isso, os bolsonarista continuam na pegada de desmentir os principais institutos insistindo que só vale o chamado DataPovo. Tola ilusão e matreirice ao mesmo tempo.

VERMELHO:

Crítica da desrazão neofeudal

Novas pesquisas confirmam Lula mais próximo de vencer no 1º turno

Segundo a Genial/Quaest, Lula cresceu dois pontos e chegou a 44%, contra 34% de Bolsonaro
A 11 dias das eleições 2022, duas pesquisas confirmam um cenário mais favorável à vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um único turno. Divulgados nesta quarta-feira (21), os levantamentos da Genial/Quaest e do PoderData mostram Lula na faixa dos 50% dos votos validos – patamar que o aproxima da vitória já no primeiro turno, em 2 de outubro.
Conforme a PoderData, Lula oscilou um ponto percentual para cima e chegou a 44% das intenções de voto. Seus adversários somam 50%, sendo 37% de Jair Bolsonaro (PL), 7% de Ciro Gomes (PDT), 4% de Simone Tebet (MDB) e 1% de Felipe d’Avila (Novo) e Soraya Thronicke (União Brasil). Enquanto Bolsonaro estagnou, Ciro e Tebet perderam um ponto percentual, cada um.
Na simulação de segundo turno, Lula venceria Bolsonaro por 50% a 42%. Ao longo da campanha eleitoral, os dois candidatos oscilaram dentro da margem de erro. O PoderData ouviu por telefone 3.500 eleitores, de 301 municípios em todos os estados brasileiros, de 18 a 20 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Já a pesquisa da Quaest Consultoria, contratada pela Genial Investimentos, traz números ainda melhores. Lula cresceu dois pontos e chegou a 44%, contra 34% de Bolsonaro. Ciro recuou de 7% para 6%, enquanto Tebet foi de 4% para 5%.
Num segundo turno, Lula chega a 50%, e Bolsonaro, a 40%. A pesquisa Genial/Quaest entrevistou presencialmente 2 mil pessoas, de 17 a 20 de setembro, em todos os estados. A margem de erro também é de dois pontos percentuais.
Um terceiro levantamento mostra igualmente o avanço da candidatura de Lula, mas sem seguir a periodicidade semanal do PoderData e da Quaest. De acordo com a nova rodada da Atlas/Arko, divulgada na terça-feira (20), Lula tem 48,4%, e Bolsonaro, 38,6%. O ex-presidente cresceu em relação à pesquisa anterior, de 25 de agosto, quando tinha 46,7%.
A sondagem aponta ainda Ciro com 6,3% e Tebet com 4%. Os demais candidatos, embora citados, não chegaram a 1% de intenções de voto. No segundo turno, a dianteira de Lula sobre Bolsonaro é de 11,7 pontos: 53,1% a 41,4%. A pesquisa Atlas/Arko ouviu 7.514 pessoas, de 2.056 municípios, num intervalo de tempo mais largo – entre 16 e 20 de setembro.