por NCSTPR | 11/05/26 | Ultimas Notícias
A Primeira Turma do Tribunal Superior do Trabalho condenou a Sodexo do Brasil Comercial S.A. a pagar indenização de R$ 30 mil a uma porteira de sua unidade de Joinville (SC) que sofreu assédio sexual de um vigilante com quem dividia o local de trabalho. Para o colegiado, a dispensa do agressor não afasta a responsabilidade da empresa por atos ilícitos cometidos entre empregados.
Vigilante tentou beijar colega
Na reclamação trabalhista, a porteira relatou que o comportamento inadequado surgiu nos primeiros dias do contrato. Segundo ela, o vigilante tentou beijá-la no rosto e fez comentários de cunho malicioso. Testemunhas ouvidas no processo confirmaram que ele tinha o hábito de abordar colegas por trás, inclusive uma adolescente aprendiz, chegando a tocá-las de forma inapropriada.
A trabalhadora também disse que comunicou os fatos à empresa. Cerca de um mês depois, o vigilante foi dispensado por justa causa.
O pedido de indenização foi negado em primeiro e em segundo graus, que entenderam que não ficou comprovada a culpa da empregadora. O Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região considerou ainda que o assédio sexual só ocorreria se houvesse hierarquia entre agressor e vítima, com o objetivo de obter favorecimento sexual mediante intimidação ou promessa de vantagem. A trabalhadora recorreu então ao TST
Caracterização do assédio não exige relação de hierarquia
Para o relator do recurso, ministro Hugo Scheuermann, a interpretação do TRT foi restritiva. Segundo ele, no âmbito do Direito do Trabalho, a caracterização do assédio deve observar o princípio da dignidade da pessoa humana, o que permite reconhecer a prática mesmo sem relação hierárquica direta.
O ministro destacou que normas internacionais, como a Convenção 190 e a Recomendação 206 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), não condicionam a configuração do assédio à subordinação entre as partes nem à repetição dos atos. Ressaltou também que a jurisprudência do TST já admite o assédio sexual horizontal, entre colegas de trabalho.
Empregador deve agir de forma preventiva e efetiva
No caso, o relator observou que houve tolerância inicial a comportamentos inadequados, que evoluíram até o contato físico. Embora a empresa tenha optado por demitir o agressor, a medida não foi suficiente para afastar sua responsabilidade.
Segundo Scheuermann, o empregador tem o dever de garantir um ambiente de trabalho seguro e saudável e agir de forma preventiva e efetiva para impedir situações de violência e de constrangimento. Por isso, responde pelos danos causados por seus empregados a outros trabalhadores, independentemente da comprovação de culpa.
O julgamento também levou em consideração o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que orienta a análise de casos envolvendo desigualdades estruturais e violência contra a mulher.
(Ricardo Reis/CF)
O TST tem oito Turmas, que julgam principalmente recursos de revista, agravos de instrumento e agravos contra decisões individuais de relatores. Das decisões das Turmas, pode caber recurso à Subseção I Especializada em Dissídios Individuais (SDI-1). Acompanhe o andamento do processo neste link:
Processo: RR-240-09.2022.5.12.0050
TST JUS
https://www.tst.jus.br/en/-/porteira-de-empresa-sera-indenizada-por-assedio-praticado-por-vigilante
por NCSTPR | 11/05/26 | Ultimas Notícias
Aos 29 anos, a executiva de contas Adilma Belo tinha outros planos para a vida profissional. Sonhava concluir o curso de comissária de bordo, estudar inglês, viajar e depois seguir carreira na área de turismo.
A maternidade, porém, mudou esse percurso.
A gravidez da primeira filha, Alice — hoje com 13 anos — não havia sido planejada. Pouco depois, os projetos profissionais começaram a ficar para trás. “Ser comissária de bordo exigia disponibilidade para viagens e, com uma filha pequena, eu teria que deixar com alguém. Isso não era possível”, conta.
Adilma conta que o relacionamento também comprometeu sua autonomia. Segundo ela, o genitor não permitia que trabalhasse ou estudasse, o que dificultou sua independência financeira e atrasou sua trajetória profissional. Depois da separação, precisou recomeçar praticamente do zero. Voltou ao mercado de trabalho como vendedora em shopping enquanto criava a filha sozinha. Além da sobrecarga cotidiana pela carga horária intensa, enfrentou o preconceito direcionado às mães no ambiente profissional.
“Já perdi trabalhos e tive que me esforçar o dobro para entrar em uma empresa, porque precisei provar que ser mãe não iria me impedir de exercer a função”, relata.
Os anos seguintes foram marcados por uma tentativa contínua de reconstrução. Adilma concluiu a faculdade de Gestão Comercial, consolidou carreira na área de vendas e conquistou estabilidade financeira. Foi nesse outro momento da vida que nasceu Zion, hoje com 4 anos. Diferentemente da primeira gravidez, Adilma já tinha independência financeira, mais estabilidade emocional e outra percepção sobre os próprios limites dentro de um relacionamento.
“Com o segundo filho eu já tive o direito de escolher não passar mais tempo dentro de um relacionamento ruim pelo fato de ter engravidado. Porque eu me sustento e consigo sustentar meus filhos”, afirma.
Hoje, mora com os filhos em um bairro estruturado mas mantém uma rotina exaustiva para conciliar trabalho, maternidade e cuidados domésticos. A estabilidade financeira construída ao longo dos anos, no entanto, não significou divisão das responsabilidades. O pai do caçula deixou o país e não paga pensão. Toda a criação recai sobre ela. Ainda assim, Adilma afirma que a autonomia conquistada transformou a maneira como ela enxerga essa experiência.
Na primeira maternidade, diz, havia culpa, insegurança e medo. Na segunda, apesar da sobrecarga, houve a possibilidade de escolha. “A 1ª maternidade foi muito mais difícil, pela questão financeira e também pelo julgamento das pessoas. Eu me sentia culpada por ser mãe solo, como se o problema fosse eu”, conta.
A penalidade da maternidade no mercado de trabalho
A trajetória de Adilma ajuda a ilustrar uma realidade apontada por levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). O estudo mostra que mães solo recebem, em média, 41% menos do que homens em arranjos familiares equivalentes e seguem mais presentes em ocupações precárias e informais.
Segundo os dados, as mães solo somavam 12,19 milhões no quarto trimestre de 2025 (crescimento de 28% em relação a 2012). Apenas no quarto trimestre de 2024, mulheres chefes de família com filhos e sem cônjuge tiveram rendimento médio de R$ 2.386, enquanto homens na mesma configuração familiar receberam R$ 4.009.
Para a Lau Domingos, Diretora Nacional da UBM e Conselho Nacional da Mulher, os números revelam como a maternidade continua funcionando como mecanismo de desigualdade em uma sociedade patriarcal. “O fato de mães solo ganharem cerca de 40% menos do que pais em famílias com dois cônjuges é um indicador nítido da penalidade da maternidade no mercado de trabalho”, afirma.
Segundo ela, o problema não aparece apenas nos salários menores, mas também nas barreiras impostas às mulheres ao longo da vida profissional. “Muitas mulheres são excluídas de processos seletivos ou promoções pela simples possibilidade de terem filhos, o que empurra as mães solo para ocupações precárias”, destaca.
Lau Domingos afirma ainda que a ausência de políticas públicas de cuidado amplia a vulnerabilidade econômica dessas mulheres e aprofunda desigualdades já existentes. “A ausência de creches em tempo integral e de uma rede pública de apoio transforma o cuidado em uma barreira para o emprego formal, perpetuando o ciclo de pobreza.”
A (insistente) romantização da sobrecarga
Às vésperas do Dia das Mães, Adilma diz que gostaria que a maternidade solo deixasse de ser romantizada. “As pessoas veem e dizem que você é guerreira. Mas a verdade é que a gente faz porque não tem outra opção”, resume. E faz uma pausa antes de completar: “a outra opção seria abandonar. Pesado ouvir uma mãe dizer isso, né? Mas é exatamente isso que muitos pais fazem. Quando um homem abandona, sempre existe uma desculpa pronta para defender”, diz.
Hoje, Adilma trabalha de segunda a sábado em um regime híbrido para conseguir conciliar a rotina profissional com os cuidados dos filhos. A flexibilidade ajuda na dinâmica da casa, mas também impõe limites permanentes aos próprios projetos. “É muito cansativo. Tenho um emprego que me permite conciliar minha agenda com os compromissos de família, porém isso dificulta o alcance das minhas metas. Ser mãe solo é abrir mão de quase tudo que você sonha. Hoje em dia eu nem sei mais o que eu quero, se é realmente o que eu quero ou se eu quero porque talvez seja possível dentro da minha realidade”, afirma.
Apesar disso, Adilma afirma que o maior orgulho da trajetória foi ter conseguido reconstruir a própria vida sem abrir mão da autonomia.
“Ter tido coragem de não me importar mais com o que ninguém pensava foi crucial para que hoje eu fosse independente e pudesse ser uma mãe solo, solteira e livre — e não uma mãe solo casada, o que eu acho muito pior”, finaliza.
VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/05/08/ser-mae-solo-custa-caro-para-mulheres-no-mercado-de-trabalho/
por NCSTPR | 08/05/26 | Ultimas Notícias
Um artigo publicado na revista científica alemã Instituto de Economia do Trabalho (IZA) não identificou queda do Produto Interno Bruto (PIB) após redução da jornada de trabalho adotada em cinco países europeus entre 1995 e 2007.
O nível do emprego na França, Itália, Bélgica, Portugal e Eslovênia também não foi significativamente afetado pelas reformas, segundo os pesquisadores Cyprien Batut, Andrea Garnero e Alessandro Tondini.
O levantamento da IZA, instituição mantida pela Fundação Deutsche Post, também identificou efeitos positivos, “mas insignificantes”, sobre os salários por hora e o valor adicionado por hora trabalhada. Esses cinco países tiveram ainda um crescimento “relativamente robusto” do PIB no período.
“É, portanto, possível que, mesmo em um cenário clássico de oferta e procura, a redução do tempo de trabalho e o aumento do custo do trabalho por hora trabalhada tenham sido rapidamente absorvidos”, conclui o documento.
Os resultados diferem de pesquisas que vem sendo divulgadas no Brasil no contexto da discussão do fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1), com algumas projeções apontando para redução do PIB e do emprego, e outras indicando aumento de contratações devido à redução das horas trabalhadas.
“Entre 1995 e 2007, os países europeus experimentaram um crescimento relativamente forte. A redução do horário de trabalho padrão e o aumento do custo da mão de obra por hora trabalhada foram rapidamente absorvidos, sem efeitos consideráveis sobre o emprego”, diz a publicação de setembro de 2022.
Ao todo, a pesquisa analisou 32 setores da economia, a partir de bancos de dados de instituições europeias, com corte em 2007 para evitar distorções causadas pela crise financeira de 2008.
Também foram excluídos setores como agricultura, educação, saúde, assistência social, artes e entretenimento “porque geralmente [esses setores] apresentam uma alta proporção de trabalhadores autônomos ou de trabalhadores do setor público”.
“Partilha do trabalho”
O estudo destaca que o resultado não valida a teoria da “partilha do trabalho”, usada por alguns analistas para projetar aumento do emprego com redução da jornada. A tese parte do pressuposto de que os empresários tenderiam a contratar mais para repor as horas reduzidas com a reforma.
“Não há indícios de que a redução do horário de trabalho padrão leve a uma redistribuição do trabalho e a um aumento do emprego total”, comentaram os especialistas.
Por outro lado, a pesquisa também não confirma outra premissa – usada, em especial, em estudos de entidades patronais – de que o aumento do custo do trabalho, por meio da redução da jornada sem redução salarial, tenderia à perda de postos de trabalho.
“Nossos resultados também não apoiam a visão de que reformas na jornada de trabalho padrão, que não implicam também em redução dos salários mensais/semanais, têm um efeito negativo significativo sobre o emprego, como sugeriria um modelo clássico de demanda e oferta de trabalho”, concluíram.
Os estudiosos afirmam que esses resultados sugerem que a redução da jornada, sem alteração nos salários, funciona de forma “muito semelhante” ao aumento do salário mínimo.
Bem-estar do trabalhador
Os pesquisadores descartam que, apesar do estudo focar no nível de emprego após as reformas, é preciso ainda levar em consideração o bem-estar e produtividade dos trabalhadores com a redução da jornada de trabalho.
“Se as reformas do tempo de trabalho não prejudicarem os trabalhadores, seja em termos de salários ou de emprego, ao mesmo tempo que liberam mais tempo de lazer, pode-se argumentar que uma semana ou jornada de trabalho mais curta leva a um aumento do bem-estar”, concluem os estudiosos.
Por outro lado, destaca-se que os retornos “decrescentes” para empresas das jornadas mais longas, indica que uma semana de trabalho mais curta também “poderá beneficiar as empresas em termos de maior produtividade e maior capacidade de atrair e reter trabalhadores”.
Fonte: TNH 1
Texto: Agência Brasil
DM TEM DEBATE
https://www.dmtemdebate.com.br/pesquisa-internacional-revela-que-a-reducao-da-jornada-nao-resulta-em-queda-do-pib/
por NCSTPR | 08/05/26 | Ultimas Notícias
Um grupo de 15 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão foi resgatado na Ilha de Itamaracá (PE) em operação conjunta do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), da Polícia Federal e do Ministério Público do Trabalho. A empresa alvo atuava na área de telecomunicações.
Segundo a fiscais que participaram da ação, realizada no último dia 29, foram verificadas condições degradantes impostas aos trabalhadores — dos quais 12 eram mulheres —, com falhas graves em aspectos essenciais como segurança, higiene, privacidade e conforto.
Após o resgate, foram adotadas as medidas administrativas, incluindo a emissão de guias para acesso ao seguro-desemprego especial destinado a trabalhadores resgatados.
No local, auditores-fiscais encontraram homens e mulheres alojados no mesmo espaço, sem qualquer separação, e em condições precárias. Trabalhadoras dividiam camas de casal, enquanto outros dormiam em colchões no chão ou em estruturas improvisadas, como bobinas de fibra óptica utilizadas nas atividades da empresa.
Além de dormitório, o local também funcionava como refeitório e ponto de apoio para trabalhadores em trânsito, chegando a concentrar cerca de 40 pessoas em determinados momentos. O alojamento também não tinha espaço ou armário para que os trabalhadores pudessem guardar seus pertences.
A fiscalização identificou ainda número insuficiente de banheiros, o que levava trabalhadores a se revezarem para utilizá-los. Um dos sanitários ficava na área externa, dificultando o deslocamento à noite e em dias de chuva.
Também foi constatado que, no mesmo espaço, eram armazenados equipamentos de trabalho, como cabos e roteadores, caracterizando o uso simultâneo como alojamento e depósito.
Dados do MTE apontam que, neste ano, até o final de março, outros 271 trabalhadores expostos a essas condições foram resgatados. Em 2025, foram 2.772. Ao todo, no ano passado, foram recebidas 4,8 mil denúncias de crimes desse tipo.
Lista Suja
Além das fiscalizações, outra ação que tem sido tomada sistematicamente contra o trabalho escravo é a Lista Suja, com nomes de empresas que adotam esse crime como prática laboral.
A atualização mais recente, divulgada no início de abril, incluiu 169 empregadores, sendo 102 pessoas físicas e 67 pessoas jurídicas, um aumento de 6,28% em relação à atualização anterior. A lista passou então a conter um total de 613 empregadores. Os novos casos incluídos no cadastro resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores.
Além das punições já previstas em lei a quem pratica esse tipo de crime, a exposição dessas empresas evita que negócios sejam fechados por aqueles que não querem seu nome associado ao trabalho análogo ao escravo, o que tornou a lista um importante instrumento internacionalmente reconhecido.
VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/05/07/trabalhadores-sao-resgatados-de-condicoes-degradantes-em-itamaraca-pe/
por NCSTPR | 08/05/26 | Ultimas Notícias
O endividamento das famílias brasileiras — como financiamentos, cartões de crédito e empréstimos — segue em trajetória de alta e atingiu 80,9% em abril, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
A inadimplência (que são as dívidas em atraso) também permanece elevada, em 29,6% das famílias.
O cenário de alto endividamento contrasta com indicadores econômicos que, à primeira vista, sugerem um quadro favorável: desemprego em mínima histórica, renda média em alta e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) pelo quinto ano consecutivo.
No trimestre encerrado em março, o mercado de trabalho chegou a uma taxa de desemprego de 6,1% — o menor patamar para o período — e o rendimento médio mensal para acima de R$ 3.722, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
- 🤔 Diante desse contraste, surge a pergunta: por que, mesmo com mais emprego e renda, o brasileiro continua no vermelho?
A resposta vai além do salário, da oferta de emprego ou de uma economia aquecida. Fatores como o custo de vida elevado, o crédito caro e a dependência de financiamentos para sustentar o consumo ajudam a explicar o fenômeno.
Mas, com a reabertura nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, a inflação disparou. O Banco Central foi obrigado a mudar bruscamente de direção e subir os juros. A forma de conter os preços é encarecer novamente o crédito e reduzir o ímpeto de consumo do brasileiro.
Em maio de 2023, o governo federal lançou o primeiro Desenrola. O programa conseguiu reduzir temporariamente a inadimplência, com a renegociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros.
Mas esse alívio não se sustentou. Ao longo de 2024 e, principalmente, em 2025, as incertezas na economia global — como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos — fizeram os preços subirem novamente.
Segundo o economista Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, mesmo a melhora recente no mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento das famílias.
Embora o desemprego tenha caído e a renda tenha crescido, o custo de vida continua maior que anos atrás e há o peso das dívidas. “É perfeitamente possível ter um mercado de trabalho aquecido e, ao mesmo tempo, famílias mais endividadas”, afirma.
Muitas famílias ainda carregam dívidas acumuladas desde a pandemia. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas, especialmente bancárias, chegou a 29,3% em janeiro deste ano, o maior nível da série histórica.
Com mais dívidas a pagar, o orçamento continua apertado. Na prática, qualquer renda extra acaba sendo direcionada para despesas básicas, como alimentação, moradia, transporte e pagamento de dívidas acumuladas, sem gerar alívio financeiro.
“Quando a família tem renda adicional, ela reforça o orçamento com alimentação, moradia e transporte e, quando possível, paga dívidas antigas. Isso não gera folga financeira”, explica o economista.
“As famílias sentem a economia principalmente pelos itens mais frequentes do orçamento, sobretudo os alimentos”, afirma.
Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, mostram esse cenário:
- 🥗 No início do Desenrola, em maio de 2023, a alta nos preços dos alimentos, considerando os 12 meses anteriores, acumulava 5,54%.
- Depois, o índice seguiu em trajetória de aceleração com algumas quedas pontuais e chegou a 7,81% em abril de 2025.
- No mesmo período, a inflação (a alta de preços em toda a economia) alcançou 5,53%, maior nível desde janeiro de 2023 (5,77%).
Os dados do instituto também revelam forte volatilidade nos preços de vários alimentos básicos nos últimos anos, com alguns itens registrando picos de inflação muito acima da inflação geral.
O arroz teve a maior alta, chegando a 74,14% no acumulado em 12 meses em janeiro de 2021, enquanto feijão, leite, frutas e hortaliças também registraram aumentos expressivos acima de 20% em diferentes períodos.
Mais recentemente, as carnes passaram a liderar a inflação entre os alimentos básicos, com alta acumulada de 21,17% em janeiro de 2025.
Além disso, os brasileiros estão com menos renda disponível após pagar pelas despesas básicas. Em março deste ano, os gastos com itens essenciais consumiam 41,8% do orçamento das famílias, pressionados principalmente por habitação, transportes, saúde, educação e alimentação, segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria.
Isso significa que uma parcela maior da renda das famílias está sendo usada para cobrir gastos básicos do dia a dia, sobrando menos dinheiro para consumo, lazer, poupança ou pagamento de dívidas.
Com o orçamento mais pressionado, o poder de compra diminui e cresce a dificuldade para sair do endividamento.
“Mesmo quando a inflação geral desacelera, isso não significa alívio no dia a dia. Se itens básicos sobem, a sensação é imediata de perda de poder de compra”, diz Flávio Ataliba. “E quem já tem parte da renda comprometida com dívidas sente esse impacto de forma mais intensa”, acrescenta.
O papel da educação financeira
Além do cenário econômico, o comportamento financeiro também ajuda a explicar por que o endividamento segue alto no país, mesmo com sinais recentes de melhora no emprego e na renda.
Para a economista Olívia Resende, especialista em finanças e economia comportamental, o chamado viés do presente ajuda a explicar por que o consumo segue forte mesmo diante de juros elevados.
“As pessoas não olham a taxa de juros nem o custo total da dívida, apenas se a prestação cabe no bolso naquele mês”, afirma. “Elas também dividem os gastos em ‘caixinhas’ e perdem a visão do todo. Pequenas parcelas parecem inofensivas isoladamente, mas, somadas, comprometem o orçamento.”
Nesse contexto, ela afirma que o problema não está apenas no custo do crédito, mas na forma como ele é usado no dia a dia.
“Mesmo com juros altos, muitas pessoas não ajustam o consumo, não reduzem despesas ou não buscam outras formas de renda. Elas seguem usando crédito porque olham mais para a parcela do que para o custo total da dívida.”
Segundo Olívia, esse padrão se repete porque as decisões financeiras nem sempre são totalmente racionais e sofrem influência de estímulos externos. “As famílias acabam sendo impactadas por marketing, redes sociais e pela facilidade de acesso ao crédito digital”, afirma.
Uma pesquisa recente realizada pela Creditas em parceria com a Opinion Box revela que 59% dos brasileiros começaram o ano sob pressão financeira, sendo 34% preocupados, 14% em recuperação e 11% sob forte pressão, enquanto apenas 39% afirmam ter iniciado o ano com sensação de controle sobre as finanças.
- 🔎A imprevisibilidade (32%), a falta de disciplina financeira (27%) e a limitação de renda (25%) aparecem entre os principais obstáculos para um planejamento financeiro eficiente no Brasil.
Outros dados ajudam a explicar por que o endividamento não está ligado apenas à falta de renda. Segundo a CNC, em março, o cartão de crédito era a principal modalidade de dívida para 84,9% dos consumidores endividados com o uso recorrente do crédito no dia a dia, especialmente via parcelamento.
Segundo Resende, a falta de educação financeira também ajuda a manter um ciclo de dependência do crédito. “Quando há entendimento de limites, a necessidade de recorrer ao crédito diminui”, afirma.
“Sem isso, qualquer renegociação ou redução de juros tem efeito temporário, porque o padrão de consumo continua o mesmo.”
“Se não houver educação financeira na escola e na formação das famílias, o problema tende a se repetir”, diz. “É uma mudança de mentalidade. A ideia é transformar a forma como as pessoas lidam com o dinheiro no dia a dia.”
Normalização do endividamento
A economista também chama atenção para o que define como “normalização do endividamento”.
Como mostrou o g1, conteúdos que prometem atalhos para reduzir dívidas — especialmente as bancárias — têm ganhado força nas redes sociais, como a orientação de interromper pagamentos deliberadamente para recorrer à Lei do Superendividamento.
Especialistas alertam, porém, que essas estratégias não funcionam como um cancelamento automático das dívidas.
“Quando todo mundo está endividado, isso gera um certo conforto. A pessoa passa a achar que é normal e perde o senso de urgência para resolver o problema”, diz Olívia.
Além disso, decisões financeiras muitas vezes são tomadas com base em emoções ou informações incompletas. “Os produtos bancários são complexos, e muita gente não entende exatamente o que está contratando. Às vezes, a decisão vem de um impulso ou de uma necessidade emocional, como ajudar um familiar”, afirma.
Diante desse cenário, a economista defende que a educação financeira também é essencial para enfrentar o problema de forma estrutural.
“Renegociar dívidas ajuda no curto prazo, mas, sem mudança de comportamento, o problema volta”, afirma. “Organizar o orçamento evita recorrer a crédito caro. Finanças não é só planilha, é entender hábitos e controlar gastos do dia a dia.”