por NCSTPR | 19/06/26 | Ultimas Notícias
Enquanto o Brasil debate a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e o fim da escala 6×1, a Colômbia já colhe os frutos de uma mudança bem parecida. No país vizinho, a diminuição progressiva da semana de trabalho — de 48 para 42 horas ao longo de cinco anos — gerou 787 mil novos postos de emprego entre 2022 e 2025, segundo análise da Corficolombiana, uma das maiores corporações financeiras do país. Além disso, o desemprego colombiano é o menor em décadas.
Segundo informações da BBC, a última etapa da transição colombiana entra em vigor no próximo dia 15 de julho. A partir dessa data, nenhum trabalhador assalariado do país poderá ser submetido a mais de 42 horas semanais — conclusão de um processo iniciado com a aprovação da lei em 2021, no governo direitista do então presidente Iván Duque.
A combinação da redução com a reforma trabalhista aprovada no ano passado já no governo de esquerda de Gustavo Petro, que elevou o salário mínimo em 23,7% e ampliou os direitos ao adicional noturno, transformou o mercado de trabalho da Colômbia em referência para o debate latino-americano.
Mercado resiliente, empregos crescendo
Para Stefano Farné, economista e diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá, o cenário é claro. “Não há dúvidas de que aumentaram os custos unitários por trabalhador na Colômbia”, afirma. “Mas o que observamos é que não houve efeitos negativos sobre o mercado de trabalho. Além disso, o emprego assalariado do setor privado segue crescendo há muitos meses.”
Farné, que participou das discussões no Congresso colombiano sobre as reformas, ressalta que sua análise se baseia na percepção geral do mercado — e reconhece que ainda não há estudos de avaliação de impacto com metodologia científica consolidada. Mesmo assim, os 787 mil empregos estimados pela Corficolombiana foram criados justamente para compensar a diminuição das horas trabalhadas por cada funcionário.
Empresários resistem, mas o emprego não cai
A resistência do empresariado colombiano é real. A Fenalco, federação equivalente à Confederação Nacional do Comércio (CNC) no Brasil, ouviu 610 empresários em 25 cidades. Os dados mostram que 51% das empresas passaram a fechar mais cedo, 25% aceleraram a automação de serviços e 23% aumentaram os preços dos produtos. Os setores mais impactados foram varejo, bares, restaurantes, hotelaria e vigilância privada.
De acordo com a federação, 64% dos entrevistados reduziram o número de empregados e que 80% modificaram planos de contratação. Dados preliminares apontam redução na abertura de novas empresas em 2026.
A Corficolombiana, por sua vez, alerta que a produtividade caiu, já que o mesmo volume de trabalho passou a ser distribuído entre mais pessoas. No entanto, mais pessoas empregadas para fazer o mesmo trabalho é, em última instância, uma vitória para os trabalhadores.
Barsil: gradualidade é a chave
Para Farné, comparar diretamente os dois países é complexo, já que a reforma colombiana veio acompanhada de mudanças como: maior flexibilidade de horários e a extinção da obrigatoriedade de dois dias de descanso fixos por semana. Isso mostra a importância da mudança ocorrer de forma gradual. “A recomendação é não fazer de um dia para o outro, mas aos poucos. Isso é bom para qualquer coisa em geral”, diz o pesquisador.
No Brasil, a proposta prevê a transição em duas etapas — redução para 42 horas após 60 dias e, em seguida, o limite de 40 horas após mais um ano. O economista Bruno Ottoni, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), considera o prazo curto para a adaptação das empresas. “Obviamente, se são tantos trabalhadores assim, também vão ser muitas empresas, tendo que que se readequar em um horizonte relativamente curto”, disse. “Mas dar algum tempo é melhor do que não dar [prazo algum], porque, pelo menos, as empresas podem se planejar, ainda que minimamente, para acatar a mudança”, completou.
Chile reforça o argumento
O caso chileno também oferece evidências positivas. Quando o país reduziu a jornada de 48 para 45 horas em 2005, estudo do economista Rafael Sanchéz concluiu que não houve efeitos diretos significativos nem na criação nem na eliminação de vagas — e que as horas trabalhadas passaram a ser mais bem remuneradas, sem redução salarial. As empresas usaram o período de transição para reorganizar processos e redistribuir tarefas, evitando, assim, as demissões em massa.
O próprio Farné resume o horizonte: “Trabalhar menos é uma tendência à qual não podemos nos opor. Vamos com calma, mas isso é um caminho mundial.”
O Brasil, ao debater as 40 horas, não está na vanguarda — está, de certa forma, acompanhando o mundo.
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com informações da BBC News
VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/06/18/reducao-da-jornada-de-trabalho-na-colombia-gerou-787-mil-vagas/
por NCSTPR | 19/06/26 | Ultimas Notícias
Retirada da urgência do PL regulamentador destrava pauta da Casa, enquanto PEC que reduz jornada e institui a escala 5×2 segue à espera de análise no Senado
O governo do presidente Lula (PT) retirou o regime de urgência do projeto de lei — PL 1.838/26 —, do Poder Executivo, que regulamenta a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. A decisão permitiu destravar a pauta da Câmara dos Deputados na terça-feira (16), e abriu espaço para a votação de outras matérias consideradas prioritárias pelo Executivo.
A medida, contudo, não altera a estratégia do governo em relação à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/19, que reduz a jornada de trabalho sem corte salarial. A proposta, aprovada pela Câmara no fim de maio, permanece entre as prioridades da administração federal e aguarda deliberação no Senado.
O texto estabelece a substituição gradual da escala 6×1 pelo modelo 5×2, garantindo 2 dias de descanso semanal aos trabalhadores. Também prevê a redução da jornada máxima de 44 para 42 horas semanais em até 60 dias após a promulgação da emenda e, posteriormente, para 40 horas semanais após período de transição de 12 meses.
Prioridade do governo
Segundo o ministro das Relações Institucionais, deputado licenciado José Guimarães (PT-CE), a retirada da urgência teve caráter estritamente operacional e não representa qualquer recuo em relação à pauta trabalhista.
“O fim da escala 6×1 sem redução de salário é a prioridade do governo do Brasil neste momento. Após a aprovação da PEC na Câmara dos Deputados, sob a condução do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB), cabe agora ao Senado Federal, sob a liderança do presidente Davi Alcolumbre (União-AP), consolidar essa conquista dos trabalhadores brasileiros”, afirmou.
A tramitação da PEC, entretanto, segue sem avanços no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, ainda não definiu os próximos passos para a análise da matéria, o que tem gerado críticas de entidades sindicais e movimentos favoráveis à redução da jornada.
Pauta destravada
Guimarães explicou que a retirada da urgência foi necessária para evitar o bloqueio das votações na Câmara e permitir o avanço de outras propostas consideradas estratégicas pelo governo.
Entre essas está a atualização do teto de faturamento do MEI (Microempreendedor Individual), reivindicação antiga do setor. Segundo o ministro, a correção busca enfrentar a defasagem acumulada nos últimos anos. Trata-se do PLP (Projeto de Lei Complementar) 108/21.
“O MEI foi criado pelo presidente Lula e permitiu a formalização de milhões de brasileiros. A atualização do teto corrige uma defasagem histórica e fortalece os pequenos empreendedores”, destacou.
Outras prioridades
Além da pauta trabalhista e da atualização do MEI, o governo pretende acelerar a votação do marco regulatório da IA (Inteligência Artificial), considerado fundamental para estabelecer parâmetros de uso ético da tecnologia, garantir proteção aos cidadãos e estimular a inovação. Originário do Senado, o PL 2.338/23 é de autoria do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
Outra matéria apontada como prioritária é o projeto — PL 896/23 — que tipifica a misoginia como crime, iniciativa vinculada ao Pacto Brasil Contra o Feminicídio.
“Será mais uma entrega importante para o enfrentamento da violência contra a mulher e um avanço necessário na proteção dos direitos das brasileiras”, afirmou o ministro.
Ao retirar a urgência do projeto regulamentador, o governo busca equilibrar a agenda legislativa sem abrir mão de uma de suas principais bandeiras sociais: a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, tema que permanece no centro do debate entre trabalhadores, empresários e parlamentares.
DIAP
https://diap.org.br/index.php/noticias/noticias/92991-governo-abre-caminho-para-votacoes-na-camara-mas-mantem-ofensiva-pelo-fim-da-escala-6-1
por NCSTPR | 19/06/26 | Ultimas Notícias
Por Pedro Peduzzi – Agência Brasil
Mais de 17 mil operações com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) foram utilizadas para pagamento de dívidas por meio do programa Desenrola 2.0. De acordo com o Ministério do Trabalho, o valor médio sacado para quitação de débitos com instituições financeiras é de R$ 604,73.
A segunda fase do programa federal em reserva de R$ 10,3 milhões para ajudar na regularização de dívidas dos trabalhadores, viabilizando negociações com descontos e juros mais baixos.
Saque-aniversário
No caso do saque-aniversário, a liberação de valores bloqueados beneficiou 14,6 milhões de trabalhadores com contratos encerrados ou suspensos entre 2020 e 2025.
Segundo o ministério, R$ 16,7 bilhões foram liberados para este fim. Do total, R$ 14,9 bilhões foram efetivamente pagos.
Saques extraordinários
De acordo com o balanço, o valor total utilizado em saques extraordinários desde 2023 é de R$ 34,7 bilhões.
Esse tipo de saque é liberado de forma excepcional. São autorizados pelo governo federal em momentos específicos, como crises econômicas, pandemias, emergências ou mesmo para estimular o consumo, injetando dinheiro na economia.
ICL NOTÍCIAS
https://iclnoticias.com.br/economia/desenrola-registra-17-mil-operacoe-mes/
por NCSTPR | 19/06/26 | Ultimas Notícias
Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior
Porque a vitória histórica na Câmara dos Deputados e a tramitação no Senado representam muito mais do que apenas horas a menos no relógio de ponto.
Imagine uma rotina onde o despertador toca antes do sol nascer por seis dias consecutivos. Imagine que, ao final dessa maratona, resta apenas um único dia para lavar a roupa, organizar a casa, dar atenção aos filhos, visitar os pais, resolver pendências bancárias e, se sobrar um fôlego quase milagroso, descansar. Para milhões de brasileiros, essa não é uma suposição distópica, mas a realidade nua e crua da escala 6×1. Durante décadas, esse modelo foi aceito como um “mal necessário” para o funcionamento do comércio e dos serviços, mas o que estamos testemunhando neste mês de junho de 2026 é o desmoronamento de uma estrutura que, sob a ótica da nossa Constituição, nunca deveria ter sido a regra. O Brasil finalmente parou para encarar o cansaço crônico de sua classe trabalhadora e decidiu que a produtividade não pode mais ser erguida sobre o esgotamento humano.
A escala 6×1 sempre foi, na prática, uma ferramenta de invisibilidade social. Ao confinar o trabalhador a um ciclo quase ininterrupto de produção, o sistema retira dele o que há de mais precioso: o tempo de ser humano. Quando falamos em dignidade da pessoa humana, um dos fundamentos da nossa República, não estamos tratando de um conceito abstrato guardado em prateleiras jurídicas. Estamos falando do direito de não ser reduzido a uma engrenagem. A dignidade pressupõe que o indivíduo tenha autonomia sobre sua vida e tempo para exercer sua cidadania. Um trabalhador que vive para a escala 6×1 não tem tempo para estudar, para se engajar em sua comunidade ou para simplesmente não fazer nada – o ócio criativo e reparador que é essencial para a saúde mental. A manutenção desse regime por tanto tempo representou uma falha na interpretação do que significa “valorizar o trabalho”, confundindo esforço com sacrifício existencial.
O avanço legislativo que vivemos agora é o ápice de uma pressão popular que transbordou das redes sociais para as ruas e, finalmente, para o plenário da Câmara dos Deputados. No último dia 27 de maio de 2026, vivemos um momento histórico. A aprovação da PEC – Proposta de Emenda à Constituição que decreta o fim da escala 6×1 não foi apenas uma vitória apertada; foi um recado esmagador. Com 472 votos favoráveis no primeiro turno e 461 no segundo, a Câmara sinalizou que o modelo atual é insustentável. O texto aprovado foi além das expectativas iniciais: em vez das 40 horas semanais que muitos previam, a proposta estabeleceu um limite de 36 horas semanais, garantindo o modelo de dois dias de descanso para cada período trabalhado. É uma mudança de paradigma que coloca o Brasil na vanguarda das discussões globais sobre o futuro do trabalho, alinhando-se a países que já entenderam que menos horas no posto de trabalho frequentemente resultam em maior eficiência e, acima de tudo, em cidadãos mais saudáveis.
Um dos pontos mais sensíveis e fundamentais dessa transição é a garantia da irredutibilidade salarial. Havia um temor, alimentado por setores mais conservadores do empresariado, de que a redução da jornada justificaria um corte proporcional nos vencimentos. No entanto, a CF/88 é clara ao proteger o salário contra retrocessos. A lógica aqui é profunda: a escala 6×1, ao exigir mais dias de disponibilidade pelo mesmo valor mensal, na verdade camuflava uma redução da remuneração real. Quando o trabalhador passa a cumprir 36 horas semanais mantendo seu salário, o que ocorre é a correção de uma distorção histórica. O valor da hora trabalhada finalmente passa a refletir a dignidade do esforço empregado. Reduzir o salário sob o pretexto de reduzir a jornada seria punir o trabalhador por recuperar sua saúde e seu tempo familiar, o que feriria de morte o princípio da progressividade dos direitos sociais.
Os impactos dessa mudança na saúde pública brasileira serão imensos. Vivemos uma epidemia de burnout, ansiedade e depressão, muitas vezes catalogadas como doenças ocupacionais que sobrecarregam o SUS e afastam talentos do mercado. A escala 6×1 é uma fábrica de doentes. O descanso de apenas 24 horas é biologicamente insuficiente para a recuperação plena do sistema nervoso e muscular após seis dias de tensão. Além disso, há o impacto devastador na estrutura familiar. Quantos pais e mães brasileiros viram seus filhos crescerem apenas por fotos ou em breves momentos de exaustão à noite? A participação social, o direito ao lazer e o convívio comunitário são pilares que sustentam uma democracia saudável. Sem tempo, o trabalhador é excluído da vida política e cultural do país. Ao garantir dois dias de folga, estamos devolvendo ao brasileiro o direito de pertencer à sua própria família e à sua própria cidade.
Internacionalmente, o Brasil também se acerta com seus compromissos perante a OIT – Organização Internacional do Trabalho. A tendência global, discutida em fóruns de Genebra a Nova York, é a da “semana de quatro dias” ou de jornadas reduzidas que priorizam o bem-estar. O argumento de que a economia brasileira “quebraria” sem a escala 6×1 não se sustenta diante dos dados de produtividade moderna, que mostram que o descanso qualificado reduz o absenteísmo, diminui os erros operacionais e aumenta o engajamento. O Brasil está, finalmente, parando de tentar competir pelo “trabalho barato e exaustivo” para buscar uma economia baseada na inteligência e na valorização humana.
Agora, em junho de 2026, os olhos se voltam para o Senado Federal. A PEC chegou à Casa revisora com um peso político enorme, mas o caminho ainda exige vigilância. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já sinalizou no início deste mês que a proposta seguirá o rito regimental rigoroso. Isso significa que, antes de chegar ao Plenário, o texto passará pela CCJ – Comissão de Constituição e Justiça. É um estágio crucial onde a constitucionalidade e o mérito serão debatidos à exaustão. Já percebemos a movimentação de setores da oposição que, embora não tenham força para barrar o projeto inteiramente, tentam emplacar alternativas que podem desidratar a conquista. Propostas de “regimes flexíveis” baseados puramente em horas trabalhadas, sem a garantia rígida dos dois dias de descanso, são armadilhas que podem manter a precarização sob uma nova roupagem.
A resistência é esperada, mas o momento é de otimismo realista. A expectativa é que o Senado vote a matéria nos próximos meses, e a pressão popular continua sendo o combustível essencial para que os senadores compreendam que não se trata de uma pauta partidária, mas de uma pauta de sobrevivência nacional. Não há desenvolvimento econômico real em uma nação de pessoas exaustas. A aprovação definitiva desta PEC será o marco de um novo contrato social no Brasil, um onde o “trabalho digno” deixa de ser uma frase bonita em um quadro na parede para se tornar a prática cotidiana em cada loja, fábrica e escritório deste país.
Encerrar a escala 6×1 é, em última análise, um ato de coragem civilizatória. É admitir que o modelo que nos trouxe até aqui não serve para o futuro que queremos construir. Ao priorizar a dignidade da pessoa humana e proteger a irredutibilidade salarial, o Brasil reafirma que sua maior riqueza não é o que produzimos, mas quem somos. Que o Senado Federal tenha a sensibilidade de ouvir o cansaço das ruas e a sabedoria de transformar esse cansaço em esperança renovada. O fim da 6×1 não é o fim do trabalho; é o começo de uma vida que vale a pena ser vivida por quem trabalha.
Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior
Sócio de Gueller e Vidutto Sociedade de Advogados. Presidente da Comissão de Direito Natural e das Relações Sociais da 116ª Subseção da OAB/SP.
MIGALHAS
https://www.migalhas.com.br/depeso/458470/o-fim-da-escala-6×1-a-retomada-da-dignidade-e-o-novo-horizonte
por NCSTPR | 18/06/26 | Ultimas Notícias
Apesar de piorar as projeções para a inflação deste ano e sinalizar que a convergência para a meta ocorrerá apenas em 2028, o Banco Central manteve o ciclo de afrouxamento monetário e decidiu, ontem, por unanimidade, reduzir a taxa básica da economia (Selic) em mais 0,25 ponto percentual, para 14,25% anuais.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, em mais uma superquarta do mercado financeiro, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano), decidiu, por unanimidade, manter os juros básicos no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano e fechou a porta para cortes neste ano.
A redução de 25 pontos-base na taxa Selic era esperada pela maioria dos agentes do mercado, mas, apesar dessa redução nos juros básicos, o Brasil passou para a liderança do ranking global de juros reais (descontada a inflação), conforme levantamento feito pela Lev Intelligence e MoneYou, ultrapassando a Rússia, que era a líder do ranking. Considerando a inflação projetada para os próximos 12 meses, o juro real brasileiro passa para 9,67% anuais, enquanto o da Rússia, em segundo lugar (antes ocupado pelo Brasil), ficou em 9,33% ao ano. A média geral dos 40 países listados no ranking foi de 1,65%.
No comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) quase 30 minutos após o horário habitual, o Banco Central brasileiro afirmou que a decisão foi adequada e sinalizou que pode continuar mantendo a “calibragem” gradual, mas não deixou muito claro qual será o tamanho desse ciclo de afrouxamento monetário que foi iniciado em março. Apenas informou que pretende aguardar mais informações.
Na nota, o Copom reconheceu que o ambiente externo “permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais”.
Enquanto isso, no cenário doméstico, apesar de admitir preocupação com a persistência inflacionária, informou que “o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano” e o mercado de trabalho “ainda com sinais de resiliência”. “No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária”, reforçou o comunicado. “O Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos”, complementou.
Na avaliação de analistas, o Banco Central deu uma sinalização de que reconheceu o aumento dos riscos inflacionários e precisará incluir elementos além do efeito da guerra no Oriente Médio e de reconhecer que a economia continua aquecida. Não à toa, o BC piorou as projeções para a inflação oficial, elevando de 4,6% para 5,2% a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano, e revisou de 3,5% para 3,7% a taxa do indicador para o quarto trimestre de 2027, o chamado horizonte relevante monitorado pelo BC, que está acima do centro da meta de 3%.
Para o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, o fato de o BC ter sinalizado na comunicação de que está olhando para um horizonte mais longo, chamou a atenção. “A comunicação traz um elemento novo que é o alongamento do horizonte de projeção do Banco Central. Ele agora está olhando para 2028, e isso sugere que ele pode continuar cortando a taxa de juros, porque, a médio prazo, a inflação converge”, explicou. Segundo ele, será preciso aguardar para ter mais informação. “E parece que será isso que o BC vai fazer, porque está dependendo de dados. Vamos ter que aguardar”, acrescentou.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também reconheceu que o BC passou a olhar para 2028, porque 2026 e 2027 já se perderam. “Essa sinalização do Banco Central mostra que vai ser difícil para uma taxa de juros nesse patamar conseguir trazer a inflação para a meta no ano que vem. E o BC coloca um pouco dessa percepção de risco para a economia como um todo”, avaliou Vale, lembrando que o Copom evitou mencionar o aumento dos riscos fiscais no cenário atual e que pode prejudicar a condução da política monetária. Na avaliação dele, esse cenário de juros mais altos será bastante complicado para a economia crescer. “Teremos três anos de juros acima de 10% anuais. Isso vai ter repercussões econômicas importantes em 2027, que está caminhando para ser um ano de crescimento baixo, de fato, por conta desse cenário de desaceleração”, explicou.
Para Rafael Pastorello, gerente de portfólio do Banco Sofisa, a decisão do Copom não era consenso entre os agentes de mercado, mas, ainda assim, o movimento foi aprovado de forma unânime pelos diretores do BC. Além disso, recordou que o comunicado reforçou a condução da política monetária guiada por dados, ao destacar que “o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações, visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
Na avaliação de Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, o comunicado deixa “a entender que ainda há espaço para flexibilização da política monetária”. Ele aposta em novos cortes de 0,25 ponto percentuais ao longo do ano até que a taxa Selic encerre dezembro em 13,25% anuais. “O BC reconhece uma piora do cenário, mas pondera que, a despeito disso, dado o alto grau de aperto dos juros, ainda tem espaço para seguir com algumas flexibilizações”, disse.
Setor produtivo alerta sobre riscos fiscais
Entidades do setor produtivo elogiaram o fato de o Banco Central reduzir a taxa básica da economia (Selic), para 14,25% ao ano, mas demonstraram preocupação com o fato de o governo ter aumentado os gastos fiscais com estímulos para a atividade, porque isso atrapalha o trabalho do BC na condução da política monetária, e exige juros cada vez mais altos para conter as pressões inflacionárias.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o nível dos juros segue em patamar restritivo, penalizando a capacidade de investimentos e a competitividade do setor produtivo. E, de acordo com a entidade, o fortalecimento da credibilidade fiscal é fundamental para garantir a continuidade do processo de flexibilização monetária de forma estruturada e crível. “Somente com harmonia entre a política fiscal e monetária será possível atrair investimentos e aumentar a produtividade e a competitividade do setor industrial”, destacou o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart.
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) reconheceu a queda de juros como positiva para atividade, mas demonstrou preocupação com a questão fiscal. “A expansão dos gastos públicos e a adoção de medidas de estímulo à demanda tendem a reduzir a eficácia dos juros como instrumento de controle inflacionário, dificultando um processo mais consistente de redução da Selic”, alertou. Para a Fiemg, a continuidade de um ciclo sustentável de queda dos juros depende do fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos e do compromisso com a responsabilidade fiscal. “A entidade defende uma estratégia econômica capaz de conciliar controle da inflação, equilíbrio das contas públicas e estímulo à produção. Esse ambiente é fundamental para ampliar os investimentos, aumentar a produtividade e fortalecer a competitividade da indústria brasileira, criando condições para um crescimento econômico mais robusto e duradouro.”
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que o corte de juros não reverte prejuízos do setor produtivo devido à estagnação dos investimentos. Segundo a entidade, o novo nível da Selic está 3,1 pontos percentuais acima do patamar de equilíbrio, de 11,1% ao ano, que conseguiria balancear o pleno emprego e o controle da inflação.
“Enquanto os juros reais continuarem tão elevados, beneficiando diretamente o capital especulativo, o custo do crédito vai seguir inviabilizando os planos de produção e expansão da indústria. Da mesma forma, a medida se mostra ineficaz em aliviar o orçamento das famílias, das empresas e do próprio governo, que seguirão estrangulados pelo serviço da dívida, adiando a retomada do consumo e do investimento e a superação do fantasma da inadimplência”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban, em nota.
CORREIO BRAZILIENSE
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/06/7443397-copom-reduz-juros-pela-3-vez-seguida-mas-eleva-projecoes-do-ipca.html