A taxa de desemprego ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao divulgar dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD Contínua), nesta sexta-feira (26). É o menor índice para o mês de maio desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012.
O resultado de 5,6% corresponde a uma queda de 0,6 p.p. em relação ao mesmo trimestre do ano passado (6,2%) e demonstra estabilidade frente ao trimestre móvel encerrado em fevereiro deste ano, explica o analista da pesquisa do IBGE, William Kratochwill.
“A estabilidade na variação é sazonal, pois é o período em que os setores começam a olhar para o segundo semestre, mas atingir a mínima histórica para o período indica que o mercado mantém uma tendência estrutural de aquecimento e expansão na absorção de mão de obra”, observa William.
Segundo o IBGE, no trimestre encerrado em maio de 2026 havia 6,1 milhões de pessoas em busca de vagas de empregos, sem encontrar. No trimestre imediatamente anterior eram 6,2 milhões. Já no mesmo período de 2025, o contingente de desempregados caiu 9,3%, o equivalente a 624 mil pessoas a menos em busca de trabalho.
Por outro lado, a população ocupada chegou a 102,7 milhões no trimestre pesquisado. O total representa um acréscimo de 840 mil pessoas no mercado de trabalho em relação ao verificado no trimestre findo em fevereiro deste ano.
Com esse resultado, o nível de ocupação – que mede a parcela da população em idade de trabalhar que está empregada – chegou a 58,6%, alta de 0,2 ponto porcentual no trimestre (58,4%) e mantendo-se estável na comparação anual (58,6%).
Por análise da ocupação por grupamentos de atividade do trimestre móvel de março a maio de 2026, em relação ao trimestre de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026, o IBGE destaca os crescimentos em Transporte, armazenagem e correio (alta de 3,0%, o equivalente a mais 177 mil pessoas ocupada) e da Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (alta de 3,1%, com mais 591 mil pessoas). Nos demais setores analisados, o instituto considera que não houve variações significativas no período, mantendo estabilidade na ocupação.
A pesquisa também aponta que o contingente de empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada (excluindo trabalhadores domésticos) chegou a 39,3 milhões de pessoas no trimestre, enquanto o número de trabalhadores no setor privado sem carteira de trabalho assinada ficou em 13,4 milhões de pessoas.
Os trabalhadores por conta própria somam 26 milhões de pessoas e o número de trabalhadores domésticos ficou em 5,4 milhões, no trimestre encerrado em maio.
A informalidade no mercado de trabalho segue em patamares elevados no Brasil. Do total de 102,7 milhões de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em maio, 38,3 milhões atuavam na informalidade. Em sua maioria, são brasileiros que sobrevivem dos chamados ‘bicos’ – sejam eles tradicionais ou por meio de aplicativos -, frequentemente marcados por jornadas exaustivas e baixas remunerações.
Renda média mensal
A renda média real do trabalhador atingiu R$ 3.726 no trimestre encerrado em maio deste ano, o que representa um aumento de 4% em relação ao mesmo período de 2025.
Já a massa de renda real habitual – a soma de todos os ganhos do trabalho no país – somou R$ 377,7 bilhões, alta de 4,8% ou cresceu mais de R$ 17,3 bilhões na comparação anual.
Em 2025, o Brasil bateu o recorde de maior número de afastamentos no trabalho por transtornos mentais em uma década, superando o próprio recorde no ano anterior. Os dados do Ministério da Previdência Social mostram um crescente adoecimento mental do brasileiro: ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e já estabelecem o segundo maior motivo de afastamentos no País, atrás apenas de doenças da coluna.
Números divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), fatores de risco psicossociais originam perdas anuais de quase 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALY), uma medida de saúde pública usada para quantificar o impacto total de doenças e lesões. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam o Brasil como o país com maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6% da população convivia com o transtorno quando a pesquisa foi feita. A organização também estima que, numa escala global, 12 bilhões de dias úteis são perdidos todos os anos por depressão e ansiedade, uma perda de US$1 trilhão por ano.
Para Rodrigo Martins Leite, médico psiquiatra, professor assistente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (IPq/FMUSP) e coordenador do grupo de Psiquiatria Social e Cultural do IPq (Prosol), os indivíduos enfrentam uma pressão cada vez maior por performance, seja no trabalho, universidade ou outros setores da sociedade. “A necessidade de adaptação às demandas sociais é crescente. Em paralelo, existe uma sensação natural de desadequação, fruto de um aumento excessivo da carga de trabalho e exigências.”
Tecnologia promove avanços e novos desafios
O professor destaca que, no contexto da sociedade atual, que tem se modificado em uma velocidade nunca antes verificada, todos estão “tentando correr atrás do prejuízo”. “De uma forma geral, todos estão se sentindo aquém da expectativa do trabalho, do estudo. Por isso, as pessoas têm também buscado formas de dar respostas a isso, de melhorar a performance cognitiva, emocional, de tolerar melhor o estresse, os desafios. Muito da atuação do profissional de saúde mental tem se referido a esses problemas, num cenário cada vez mais demandante e cada vez menos humanizado”, defende Martins Leite.
Nesse contexto, a saúde mental entra como uma ferramenta adaptativa, explica o médico. Existe uma expectativa de que os profissionais de saúde mental ofereçam essas ferramentas, com uma sociedade de sintomas cada vez mais generalizados, como dificuldades de atenção e concentração. “Independentemente da pessoa ter ou não um diagnóstico, as pessoas precisam responder, performar, e buscam remédios para isso. O uso de prescrições em pessoas saudáveis, chamado de doping em saúde mental, para lidar com as demandas sociais, tem se naturalizado. As pessoas têm precisado se medicar para lidar com circunstâncias cada vez mais desafiadoras, enquanto fatores de proteção e saúde mental ficam em segundo plano. As pessoas não têm mais tempo para lazer, para atividade física, para vida comunitária. Tudo isso acaba tendo um peso no final do dia, o que gera um mecanismo de adoecimento, do ponto de vista da saúde mental.”
Andrés Antúnez, professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, destaca a rápida evolução da tecnologia como agente na transformação da saúde mental e do sofrimento humano, com efeitos positivos e negativos. “Vivemos em um mundo em que as pessoas se relacionam menos presencialmente, sempre existe um aparelho tecnológico no meio dessas relações. Principalmente para crianças e jovens, existe um mundo de imagens, de cores, de notícias, tudo se espalha muito rapidamente, e é fascinante. Se não fosse fascinante, ninguém passaria horas e horas buscando informações em celulares e computadores.”
“A humanidade e a tecnologia estão avançando muito rápido, muito mais rápido do que a possibilidade de ações terapêuticas humanizantes, que a medicina, que a psicologia, que assistência social, que a terapia ocupacional podem ofertar. Acabamos por oferecer algo mais paliativo, mais formativo”, destacou o professor. “Pela facilidade de acesso à informação, as pessoas conseguem ampliar seu conhecimento e às vezes querem determinados remédios, porque agem rapidamente. E não são placebos, são remédios que realmente afetam, que agem de maneira bioquímica. Quando usados sem orientação médica, podem trazer efeitos colaterais e grandes dificuldades.”
Leite comentou sobre uma popularização dos diagnósticos, o que leva a um excesso deles, especialmente quando as pessoas não se baseiam em avaliações feitas por profissionais. “Os diagnósticos têm sido buscados em redes sociais, no TikTok, no Instagram, em fontes duvidosas. Um princípio essencial do diagnóstico é que ele não deve ser autorrealizado, você precisa de um profissional para te observar, para ouvir seu relato, para poder minimamente pensar em um diagnóstico.”
O psiquiatra ainda destaca uma impressão da sociedade de que o diagnóstico psiquiátrico é rápido, fácil de ser obtido. “Não é verdade. Existem casos que demoram diversas consultas, meses, anos e até eventualmente casos em que não se chega a um diagnóstico definitivo. O diagnóstico acaba muitas vezes sendo um engessamento das possibilidades do indivíduo mudar suas atitudes em relação a si mesmo, em relação à vida, justificando comportamentos e atitudes. A justificativa, por si só, pode ser paralisante, limitante de mudança: com um diagnóstico bem feito, bem realizado, pode dar uma dimensão de como lidar consigo de uma forma mais suave, cuidadosa; em outros casos, pode ser um disfarce, uma forma das pessoas de se isentarem de algumas responsabilidades, sem relação com algum diagnóstico psiquiátrico.”
Por outro lado, Leite destaca que a tecnologia facilitou o acesso à informação, o que incentivou pessoas a buscarem tratamento. “Existe uma maior transparência em relação à saúde mental. Em um momento histórico, as pessoas tinham vergonha de relatar que tinham algum problema psiquiátrico ou que tomavam medicação. Hoje é um cenário oposto, com uma grande redução global do estigma associado a problemas de saúde mental.”
Ao mesmo tempo, o profissional alerta para o uso excessivo de telas. “O excesso pode ser particularmente ruim para algumas populações, como crianças, adolescentes e idosos. A exposição excessiva à tecnologia significa que essa criança, esse adolescente, está convivendo menos com colegas, tendo uma menor interação social, privando-se de convívio social. Tudo isso limita aquisição de repertório, de comportamentos, de um arsenal de estratégias de adaptação na vida. Em idosos, pode mascarar problemas como solidão, isolamento, que são marcadores de vulnerabilidade nessa população.”
Leite analisa uma existência do indivíduo muitas vezes mais virtual do que real, e considera um sintoma da sociedade e da civilização humana irreversível. “Estamos conectados com WhatsApp, Facebook, com as redes, transitando a todo tempo entre o real e o tecnológico, o virtual. Não podemos abrir mão da tecnologia, então é importante ter uma noção crítica de que, se a tecnologia contribuir para um isolamento, para um retraimento, para um aumento da solidão, é certamente um caminho em que a tecnologia não está sendo saudável”, pontuou.
Desigualdades e tendências sociais afetam a saúde mental
Tendências de consumo e aspectos mercadológicos em ascensão na sociedade, acentuados pelas mídias sociais, também afetaram o mercado da saúde, particularmente da saúde mental. Leite explica que o diagnóstico se tornou, em certo sentido, uma mercadoria. “As pessoas compram diagnósticos, o que dificulta muito o tratamento das pessoas em algumas situações. Muitas chegam para a avaliação já tendo comprado uma ideia de diagnóstico, de medicamento, e o profissional tem tido muita dificuldade de dissuadi-las dessas ideias. Isso prejudica o vínculo terapêutico, e acaba até mesmo inviabilizando o tratamento”, pontuou.
“Os profissionais da saúde também estão inseridos nessas lógicas de consumo. Por ser algo inerente, muitas vezes não sabemos lidar com essa nova realidade. Como abordar essas questões dentro dessa nova perspectiva de rotulagem e diagnóstico excessivo? Antes, a hipermedicalização era um ônus dos médicos. Mas agora é um lema adotado pela própria sociedade. Os pacientes já chegam se medicalizando, se rotulando, se diagnosticando. É uma inversão do que usualmente se pensa, relacionada às mudanças sociais de pressão, exigência e necessidade de adequação.”
O professor Antúnez destaca também o fator coletivo do sofrimento humano. “A questão da saúde mental não afeta somente o indivíduo que tem determinado diagnóstico ou transtorno. O sofrimento afeta toda uma família, todos os amigos e colegas em volta. Nesse sentido, somos todos responsáveis por essa saúde; infelizmente, não há tratamento para todos”. Pontuou também as diferenças no tratamento particular e público: a probabilidade de sucesso no tratamento de uma pessoa com condições de ser acompanhada por um psiquiatra ou psicoterapeuta, muitas vezes de ser acompanhada por mais de um profissional ao mesmo tempo, é “muito grande”. Na saúde pública, isso não acontece, muitas vezes sem a continuidade de cuidados que as pessoas necessitam.
“Há um interesse financeiro em medicalizar o sofrimento humano. Partindo do pressuposto, em questões mais profundas do sofrimento humano, de que não existe vida sem sofrimento e que não existe sofrimento sem vida: existe algum medicamento para a vida? Existe algum medicamento para tornar uma pessoa mais feliz? Eu diria que o principal medicamento é melhorar as relações humanas, o respeito pelas diferenças”.
Leite pontua que a abordagem de questões de saúde mental recebe um recorte, feito a partir de um público-alvo de classe média e classe média-alta, com condições para custear um tratamento, comprar medicação, que tem um acesso facilitado. “Não podemos esquecer que estamos em um país dos mais desiguais do globo. O impacto das vicissitudes sociais, dos determinantes sociais, tem um peso muito grande. A pobreza, o desemprego, a exposição à violência, as más condições de habitação, más condições ambientais, alimentação inadequada – todos os problemas que a população menos favorecida enfrenta diariamente – estão associados a problemas de saúde mental. Isso é amplamente documentado.”
Para o professor, isso escancara uma limitação da política pública de oferecer acesso a tratamento para pessoas que sofrem com uma série de barreiras no acesso ao sistema público de saúde. “O sistema público tem se mostrado quantitativamente aquém da real necessidade da população. Existe um atraso, uma decalagem entre a expansão da rede de serviços de saúde mental e a necessidade populacional crescente. A saúde mental é mutável e acompanha as mudanças sociais. Em um momento de mutação das demandas em saúde mental, a política pública é um gargalo importante, especialmente de investimento”, enfatizou Leite.
Políticas públicas e investimentos insuficientes
Uma análise do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) sobre o orçamento inicialmente fixado e o autorizado ao longo do ano de 2025 pelo Executivo Federal, destinado ao Ministério da Saúde, mostrou uma forte queda nos investimentos em saúde no período. Entre a dotação inicial e atualizada desse ano, ocorreu uma retração de 34,7% em seu volume de recursos, enquanto as despesas de custeio cresceram 5,6%, movimento também identificado ao longo de 2023 e 2024.
Os investimentos em saúde caíram um terço durante 2025, com a maior parte dos recursos sendo retirada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Entre a dotação inicial e a atualizada do orçamento federal do SUS, houve um incremento de cerca de R$ 6,8 bilhões (+2,9%), de R$ 233,3 bilhões para R$ 240,1 bilhões. Todo o recurso incremental foi destinado para as despesas correntes do SUS (+5,6%), concentrado nas despesas obrigatórias, cuja dotação se expandiu de R$ 171,9 bilhões para R$ 180 bilhões. Inversamente, os recursos inicialmente destinados a investimentos no SUS, isto é, à ampliação de sua capacidade instalada, recuaram mais de um terço (-34,7%) ao longo do ano, de R$ 15,6 bilhões para R$ 10,2 bilhões.
Leite criticou o porcentual do orçamento total de saúde destinado à saúde mental no País. “Em torno de 2% do orçamento é utilizado, que mostra o quão secundarizada é nossa política de saúde mental, abaixo das recomendações internacionais e abaixo de países europeus, por exemplo, que investem de 5% a 8% do orçamento total em saúde. Necessitamos de uma melhor coordenação dentro do sistema de saúde, de forma a poder identificar prioridades e populações mais vulneráveis. Precisamos de um aprimoramento para que o sistema seja mais proativo e menos reativo, que possa propor estratégias, projetos e programas voltados a populações específicas.”
“Temos uma das políticas de saúde mental mais avançadas do mundo. Com toda a privação de recursos, os princípios da nossa política de saúde mental são, em termos de legislação protetiva dos direitos das pessoas com transtornos mentais, dos mais modernos do mundo. Isso é um marco histórico importante, mas não podemos deixar de pensar em caminhar para os desafios que já se apresentam, que já estão sendo discutidos”, defendeu o professor.
O psiquiatra pontua que o engessamento orçamentário dificulta propostas mais robustas que atendam às necessidades sociais de uma forma abrangente. “Não é possível fazer saúde com 2% do orçamento público sendo destinado para a saúde mental. Existe muita boa vontade entre os profissionais, que são extremamente comprometidos com a causa, mas esbarramos em uma série de limitações estruturais que precisam ser cada vez mais ventiladas, para que as pessoas saibam que os profissionais, das mais diversas áreas, trabalham em condições adversas, num cenário de muita privação e desinvestimento.”
O médico ainda destacou uma falta de ações específicas para a população idosa, com um crescente envelhecimento da sociedade brasileira. “Estão aumentando os problemas de saúde mental específicos para essa faixa etária. Destacaria as demências, quadros de depressão, transtornos bastante presentes nessa faixa etária. Boa parte da política de saúde mental foi pensada para adultos e, mais recentemente, crianças e adolescentes. Acho uma falha considerável não termos grandes políticas específicas para o idoso.”
“Saúde mental é mais do que uma política de saúde. Ela tem relação com os sistemas econômico, legislativo e também político. Quando falamos de aposentadoria, estamos lidando com um idoso progressivamente pobre, doente, incapacitado e certamente com sofrimento mental associado por conta de todas essas questões.”
Leite também pontuou problemas em políticas de prevenção efetiva, com o crescimento das taxas de suicídio no Brasil, em contraste com uma diminuição nas taxas globais. “Não temos uma política de prevenção ao suicídio, mesmo sabendo que as taxas têm crescido. Não temos algo propositivo, formalmente constituído para fazer frente a esses desafios mutantes da saúde mental. Existem também outras políticas públicas que impactam a saúde mental, mas que não são necessariamente de saúde. Por exemplo, políticas de moradia: vários estudos falam que ter onde morar, por mais prosaico que possa parecer para quem tem onde morar, é um fator protetor para a saúde e para a saúde mental”, destacou o professor.
“O estigma acerca da saúde mental ter se reduzido não significa que superamos períodos históricos de desassistência, especialmente em populações vulneráveis. Esses grupos permanecem vulneráveis, e continuam lidando com o sofrimento mental das formas que são disponíveis”
“Ter um teto onde morar, onde se esconder da violência, da exposição social, é essencial e também um direito humano fundamental. Estamos diariamente expostos à violência: de gênero, contra populações minoritárias, violência urbana de uma forma geral. Lidamos com níveis extremamente tóxicos de exposição, muito além do minimamente aceitável. Isso com certeza impacta a saúde mental da população.” Leite destacou também o papel da educação, que tem que estar preparada para lidar com esses desafios. “Não é só a política de saúde mental, mas um conjunto de políticas públicas, uma forma intersetorial, uma integração de diversas áreas que podem contribuir para a diminuição de desigualdades e, consequentemente, do adoecimento mental na sociedade”, completou.
A menção do trabalho invisível nos remete ao trabalho doméstico atribuído à mulher que, não raro em segunda jornada, dedica muitas horas de esforço físico e mental às tarefas domésticas e ao cuidado; são atividades habitualmente ignoradas como trabalho.[1]
Mas o contexto do trabalho invisível é muito maior, englobando inúmeras atividades exercidas por homens e mulheres. Padilha, 2011[2] menciona o trabalho considerado historicamente no Brasil como inferior, sem valor, e que implica uma relação subalterna, revestida de invisibilidade. Costa, 2004[3], vivenciou esse fenômeno na sua atuação experimental como gari, em estudo da psicologia social, na Universidade de São Paulo.
Trabalhadores invisíveis
Os trabalhadores invisíveis são em grande parte integrantes de classes sociais menos favorecidas, que atuam predominantemente na informalidade, desprovidos de proteção social, em contextos socioeconômicos adversos, experimentando a ausência de reconhecimento e humilhação social, em relações precárias e instáveis de trabalho.[4] Esses trabalhadores atuam em um amplo espectro de atividades remuneradas ou não, como por exemplo, trabalhadoras domésticas diaristas, cuidadores, motociclistas e ciclistas entregadores, empregados terceirizados em serviços gerais e de faxina, os catadores de recicláveis e os trabalhadores serviçais contratados verbalmente à beira de estradas, denominados “chapas”, que aceitam serviços avulsos em condições às vezes adversas e perigosas, desprotegidos dos riscos ocupacionais. Estas e muitas outras atividades podem ser enquadradas num contexto de vulnerabilidade ocupacional, em condições precárias de trabalho, sofrimento e sensação de inferioridade.,[5], [6]
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, entre fevereiro e abril de 2026, a população de pessoas ocupadas com idade de 14 anos ou mais era cerca de 102 milhões, dos quais 13 milhões estavam empregados no setor privado sem carteira assinada, e 26 milhões trabalhavam por conta própria.[7]
Uma breve análise de dados do IBGE e da Previdência Social expõe um grande contingente formado por vários milhões de trabalhadores privados de recursos básicos de proteção social. São, na maioria, aqueles que exercem atividades de baixo reconhecimento social.
A relação entre fatores de natureza socioeconômica e proteção previdenciária fica evidente nos dados do Informe sobre cobertura previdenciária em 2024, referente a pessoas ocupadas com idade entre 16 e 59 anos. Menos da metade dos trabalhadores estava sob cobertura previdenciária (45%) e menos ainda, os trabalhadores domésticos (38%). Em números redondos, 27 milhões ou 30% da população ocupada estava desprotegida; destes, 12,8 milhões (48%) tinham renda inferior a um salário-mínimo, a maioria mulheres, 6,7 milhões (58,7%). Essa mesma fonte de dados demonstra que a cobertura é significativamente inferior entre os negros e menos escolarizados.[8]
A invisibilidade do trabalho não é exclusividade brasileira. Opinando sobre o crescimento da subcontratação e a segregação ocupacional no setor de tecnologia, pesquisadores da Universidade da Califórnia mencionam o contraste entre os generosos salários e benefícios oferecidos aos executivos do Vale do Silício e a invisibilidade dos trabalhadores que mantêm os ambientes limpos, transportam equipamentos e exercem as demais funções de suporte.[9]
Aspectos invisíveis do trabalho
Alguns aspectos pouco percebidos podem afetar a vida e a saúde dos trabalhadores, quando se analisa a proteção social, as oportunidades de emprego e exigências emocionais do trabalho. Não raro, barreiras invisíveis limitam o acesso à formalidade no trabalho, por idade, raça e gênero, entre outros fatores.
Sistemas informatizados de pré-seleção por critérios automáticos podem excluir um grande contingente de candidatos, privando-os de demonstrar suas habilidades e alimentando o grande contingente dos trabalhadores informais.[10]
O desemprego por insuficiência de horas trabalhadas é um aspecto presente na informalidade. Em 2022, cerca de 30% das mulheres negras estavam subutilizadas no mercado de trabalho.[11]
Entre os que estão empregados, aspectos de natureza cognitiva ou estética estão silenciosamente implícitos em diversas atividades. Em certas atividades os trabalhadores são instados pela organização a representarem permanentemente um padrão emocional artificial durante o trabalho, com sorrisos e expressões emocionais de simpatia, distantes da própria realidade dos seus sentimentos. Embora despercebido, este esforço acrescenta exigências psíquicas com potencial de interferir nas emoções, causar estresse e esgotamento.[12]
A magnitude da morbimortalidade relacionada ao trabalho pode ser incluída entre os aspectos invisíveis do trabalho, considerando-se que os dados previdenciários estão longe de expressar a realidade da população de trabalhadores. Dias e cols. (2011)[13] ressalta que as estatísticas oficiais são limitadas pela elevada subnotificação, pela baixa qualidade dos registros relativos aos trabalhadores informais, além da escassez de estudos sobre o impacto das condições de informalidade na saúde dos trabalhadores. Em 2024 foram registrados entre os segurados, 851.310 acidentes do trabalho, dos quais 3.394 foram liquidados por óbito no Brasil.[14] Dados do Ministério da Saúde reportaram 4.551 óbitos por essa causa no mesmo período. Na distribuição por categoria de CID 10, destacam-se entre os mais frequentes, os acidentes fatais com ciclistas e motociclistas, acidentes com eletricidade e as quedas de andaimes ou de altura.[15]
Considerações finais
Em conclusão, há um contingente formado por milhões de trabalhadores invisíveis e de trabalhadores exercendo atividades socialmente invisíveis. Parte significativa da população ocupada encontra-se na informalidade e desprovida da cobertura previdenciária. Na prática, muitos trabalhadores não se beneficiam das normas legais de saúde e segurança; sofrem adoecimentos e mortes pelo trabalho, em proporções que permanecem socialmente invisíveis. Este cenário continua sendo um desafio, no sentido da captação metódica e eficaz de dados que se aproximem da real magnitude da morbimortalidade em decorrência da precariedade do trabalho, sobretudo na informalidade.
[3] COSTA, F. B. D. Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social. 1º. ed. São Paulo: Globo S. A., 2004.
[4] Nascimento JCP. A invisibilidade pública e social dos trabalhadores: uma revisão da literatura sobre trabalhos invisíveis na sociedade. Rev Ibero-Am Humanid Cienc Educ [Internet]. 2022 dez;8(12):149-160 [citado 16 jun 2026]. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/8019.
[6] Souza ROFC, Faria FC, Silva EHA, Costa RQF. Invisibilidade no trabalho e impactos na saúde mental: uma revisão bibliográfica. In: Anais do XXIX Encontro Latino-Americano de Iniciação Científica; 2025; São José dos Campos, SP. São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba; 2025. Disponível em: https://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2025/anais/arquivos/RE_0466_0742_01.pdf.
[9] Working Partnerships USA. Tech’s invisible workforce: a closer look at the ‘invisible’ subcontracting trend in Silicon Valley [Internet]. San Jose (CA): Working Partnerships USA; 2016 mar [citado 2026 jun 13]. Disponível em: https://wpusa.org/resources/techs-invisible-workforce/.
[12] Wingfield AH. What happens when the work we do is invisible? [Internet]. Forbes. 2026 Jan 16 [citado 2026 jun 12]. Disponível em: Forbes.
[13] Dias EC, Oliveira RP, Machado JH, Minayo-Gomez C, Perez MAG, Hoefel MGL, et al. Condições de emprego e iniquidades em saúde: um estudo de caso no Brasil. Cad Saúde Pública. 2011;27(12):2452-60. doi:10.1590/S0102-311X2011001200016.
[15] Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM): óbitos por causas externas [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; [s.d.] [citado 2026 jun 16]. Disponível em: https://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sim/cnv/ext10uf.def.
Davi Ribeiro dos Santos é médico do Trabalho e Otorrinolaringologista. Membro integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora, Instituto de Estudos Avançados da USP.
O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu a aplicação de multas por descumprimento às regras de saúde mental previstas na NR-1 (Norma Regulamentadora).
Segundo a decisão provisória -concedida por meio de liminar-, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) está proibido de aplicar punições pela falta de mapeamento dos riscos psicossociais no trabalho por 90 dias a partir desta quinta-feira (26).
A determinação provisória atende a pedido da Confenen (Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino) e abrange todas as empresas do país. Ela se sobrepõe à decisão tomada em favor da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) em São Paulo no final de maio, que atendia as 130 mil empresas ligadas à entidade.
Aprovadas em 2024, as alterações na NR-1 passaram a valer em 26 de maio deste ano, mas, durante 90 dias, o próprio MTE decidiu que não irá multar nenhuma empresa e fará apenas visitas de vistoria técnica e de orientação. Com a ordem de Mendonça, o prazo para empresas se adaptarem sem ter multas fica maior.
A Conafen entrou com uma ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) no Supremo contra as mudanças da NR-1 por entender que o MTE precisa dar mais prazo para adaptação e defendendo que estabelecimentos de ensino devem ter normas diferentes para mapear riscos psicossociais no trabalho.
O advogado Jorge Matsumoto, do Bichara Advogados, que representa a Confenen na ação, afirma que o principal ponto da medida é que ela é válida para todo o país e leva a uma possibilidade de negociação entre as partes, determinada pelo ministro André Mendonça. Além disso, o prazo de 90 dias da liminar ultrapassa o prazo do próprio governo.
“O governo não pode tratar desiguais de forma igual. Os riscos psicossociais em uma escola, para um professor, é diferente dos de uma indústria, e isso precisa ser levando em consideração”, diz.
Matsumoto diz que as empresas devem manter os trabalhos de adequação determinados pela NR-1 e que ninguém é contra melhorar a saúde do trabalhador no ambiente profissional, mas defendeu ajustes nos critérios da norma, que considera subjetivos.
“Celebramos tanto a medida cautelar quanto a visão dialógica do relator. A decisão equilibra com inteligência a proteção à saúde do trabalhador com os princípios constitucionais da legalidade, segurança jurídica e livre iniciativa”, diz.
O advogado Marcus Brumano, do Castro Barros advogados, afirma que a decisão da Justiça de São Paulo teve uma grande relevância de ser a primeira, mas foi em favor da Fiesp. A do STF é mais ampla e tem peso institucional muito maior “porque foi proferida em controle concentrado de constitucionalidade”.
“A principal importância da segunda decisão é demonstrar que as preocupações relacionadas à falta de critérios objetivos e à insegurança jurídica não estão restritas a um único setor econômico, mas vêm sendo reconhecidas em diferentes instâncias do Judiciário”, afirma ele.
Mendonça atendeu a parte dos pedidos da Confenen. A entidade solicitava ainda outras alterações. Dentre elas a inexistência do nexo automático para que o sofrimento individual ou atestado médico não seja considerado, por si só, prova de descumprimento das regras, além da limitação da análise ergonômica, respeitando as diferenças de ambiente por categoria.
O minsitro resolveu encaminhar o caso ao Nusol (Núcleo de Solução Consensual de Conflitos), no STF, para que haja acordo entre as partes. Deverão ser chamados governo, representantes de empresas e de trabalhadores.
Tanto Matsmoto quanto Brumano destacam o fato de que as empresas devem continuar a fazer adaptações no ambiente para reduzir os impactos do adoecimento mental dos trabalhadors. “Do ponto de vista jurídico-preventivo, não parece prudente que as empresas simplesmente interrompam ou adiem seus projetos de mapeamento de riscos psicossociais”, diz Brumano, já que as dicussões na Justiça não estão totalmente resolvidas.
A NR-1 trata das diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho, mas foi atualizada para conter questões específicas de saúde mental. Desde maio, empregadores precisam acompanhar a avaliação dos riscos psicossociais em seus processos de gestão de segurança e saúde no trabalho e diminuí-los para combater o adoecimento em um cenário no qual a preocupação com o tema se intensifica.
Os casos de burnout saltaram seis vezes e pressionam a Previdência Social. Além disso, segundo relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 15% dos adultos em idade profissional apresentam algum tipo de transtorno mental em algum momento da carreira.
Pesquisa da Anamt com dados do INSS mostra ainda que as licenças médicas por problemas mentais com mais de 15 dias saltaram de 219.850, em 2023, para 393.670 até novembro de 2025. O crescimento de 79% custou mais de R$ 954 milhões aos cofres públicos no último ano.
Sessão temática reunirá parlamentares e especialistas para discutir os impactos da proposta no mercado de trabalho
O Senado Federal realizará, na próxima quarta-feira (1º), uma sessão de debates temáticos para discutir a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019), que prevê a redução da jornada semanal de trabalho e a substituição da escala 6×1 por um modelo com dois dias de descanso.
A iniciativa busca ampliar o diálogo sobre os possíveis efeitos da medida nas relações de trabalho, na produtividade das empresas, na geração de empregos e na atividade econômica. A proposta já foi aprovada pela Câmara dos Deputados, em 27 de maio, e aguarda análise dos senadores.
Pelo texto aprovado pelos deputados, a jornada máxima passaria de 44 para 40 horas semanais, com implantação gradual da nova sistemática ao longo de 14 meses, garantindo dois dias de repouso semanal.
A realização da sessão atende ao Requerimento (REQ 414/2026), aprovado pelo Plenário do Senado, de autoria dos líderes dos blocos parlamentares Aliança, Vanguarda, Pelo Brasil e Democracia.
Na justificativa do pedido, os parlamentares afirmam que o debate permitirá avaliar os impactos sociais, econômicos e produtivos da proposta, oferecendo subsídios para que o Congresso Nacional examine a matéria de forma equilibrada e responsável, considerando seus reflexos sobre trabalhadores, empregadores e o mercado de trabalho brasileiro.