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Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

A pressão por produtividade, a sobrecarga e o excesso de conexão, chamado de hiperconexão, presentes no dia a dia, são fatores que vêm tornando comum a dificuldade para descansar o corpo e, principalmente, a mente. A geração dos millennials, nascidos entre as décadas de 1980 e 1990 e já criada com a ideia de que esforço e dedicação seriam suficientes para alcançar estabilidade e sucesso, está entre as mais afetadas.

Segundo um levantamento da revista norte-americana Fortune, cerca de 66% dos millennials relatam níveis moderados ou altos de esgotamento profissional, o que pode resultar em burnout. De acordo com os professores Marcos Neli e Vera Navarro, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, a hiperconexão e a precarização do trabalho, muitas vezes marcadas por vínculos instáveis e sobrecarga, são grandes motivadores desse esgotamento.

“Acredito que a dificuldade de descansar a mente esteja ligada à extrema exposição às telas e aos estímulos virtuais. As pessoas vivem uma preocupação constante de se mostrar presentes e produtivas”, explica Neli.

Esse cenário de hiperconexão e cobrança constante também se reflete nas relações de trabalho. Jornadas extensas, metas elevadas e a insegurança profissional ajudam a ampliar os impactos do esgotamento mental na rotina dos trabalhadores.

“A intensificação e a precarização das relações de trabalho têm produzido impactos profundos na vida e na saúde dos trabalhadores. Com jornadas mais longas, metas abusivas e insegurança no emprego, cresce o adoecimento mental, a ansiedade, a depressão e a síndrome de burnout”, completa Vera.

Segundo Neli, a alta conectividade tecnológica tem contribuído para uma padronização de comportamentos, fazendo com que até os momentos de lazer passem a seguir a lógica da produtividade. “Hoje o lazer também toma a configuração de negócio, de algo que estou fazendo para me aprimorar, seja para o trabalho ou como indivíduo”, afirma.

A dificuldade de separar a vida pessoal do trabalho é outro fator que causa a alta nos números de esgotamento mental. Em um contexto de cobrança constante por desempenho, até os momentos de descanso passaram a carregar a pressão por exposição e validação social. “As pessoas não conseguem mais usufruir do tempo livre para algo que não precise ser postado”, diz o professor.

Essa necessidade constante de mostrar experiências e compartilhar uma rotina produtiva nas redes sociais também reflete as transformações nas relações de trabalho. A instabilidade profissional e a competitividade aumentam a pressão para demonstrar atualização constante e capacidade de adaptação às exigências do mercado.

“Não há mais garantia da empregabilidade e eu tenho que correr atrás para me manter empregado. A autoexposição e a percepção de que sou uma pessoa antenada a esse mundo tecnológico fazem parte dessa forma de me tornar alguém desejado”, explica Neli.

De acordo com Vera, o enfraquecimento das formas de proteção ao trabalhador também amplia a sensação de insegurança nas relações de trabalho. “O trabalho, que deveria garantir dignidade e cidadania, passa a ser também fonte de insegurança, adoecimento e sofrimento cotidiano. O enfraquecimento da Justiça do Trabalho e das organizações sindicais deixa milhões de trabalhadores expostos a relações cada vez mais desiguais.”

Esse cenário traz impactos diretos na saúde física e mental dos trabalhadores. Jornadas mais longas, metas abusivas e vínculos instáveis impulsionam o aumento de casos de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros quadros de sofrimento psíquico relacionados ao trabalho.

Em meio à rotina acelerada e à pressão constante por desempenho, especialistas alertam que os limites entre o cansaço cotidiano e um quadro mais grave de esgotamento têm se tornado cada vez menos perceptíveis.

“As pessoas não conseguem desligar do trabalho e continuam pensando na rotina profissional mesmo em casa. Muitas vezes, o burnout só é percebido quando surgem crises mais graves, como depressão, síndrome do pânico ou outros sinais de esgotamento mental”, finaliza o professor.

Luis Martins é estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares.

DM TEM DEBATE

https://www.dmtemdebate.com.br/excesso-de-telas-busca-por-produtividade-e-inseguranca-laboral-levam-ao-esgotamento-mental-entre-millennials/

Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

O mito da “geração empreendedora”

Introdução

Nos últimos anos, uma tese tem circulado insistentemente na mídia e no discurso de lideranças empresariais e políticas de todas as colorações partidárias, enfrentando pouca oposição: a juventude não quer mais a CLT. Dessa afirmação derivam outras tantas, como “o trabalho da juventude agora é autônomo” e “o que a juventude quer é ‘empreender’”. O diagnóstico alegado é de que estaríamos diante de uma “rejeição estrutural ao emprego formal” por parte da juventude para, em seguida, apresentar propostas de política pública que privilegiam o fomento ao empreendedorismo individual em detrimento do trabalho assalariado e formal1.

Este artigo parte de uma hipótese contrária: a de que essa narrativa descreve mal a realidade, e que sua disseminação não é neutra. A seguir, se buscará demonstrar que a juventude brasileira é majoritariamente assalariada, e que a construção do “jovem empreendedor” como norma serve menos a um diagnóstico fiel da inserção laboral juvenil e mais a um projeto de desregulamentação do trabalho que transfere riscos do capital para o trabalhador e termina por precarizar as suas condições de vida. Compreender essa distinção é condição para a formulação de uma agenda pública capaz de responder aos desafios que os jovens efetivamente enfrentam em sua jornada.

2. O que dizem os dados: a juventude brasileira é assalariada

Primeiramente, é preciso estabelecer que os dados do último trimestre de 2025 apresentam um quadro que objetivamente põe por terra o mito do trabalho autônomo como majoritário na juventude: quase 80 por cento (79,8%) dos jovens de 15 a 29 que trabalham está no trabalho assalariado. Apenas 17,2% trabalham por conta-própria e apenas 1,3% são empregadores.

Desses assalariados, 65,3% possuem carteira assinada — somando empregados no setor privado, público e domésticos formalizados. Os 34,7% restantes não têm carteira: 26,7% são empregados no setor privado sem registro, 5,0% no setor público sem vínculo formal e 2,9% são trabalhadores domésticos sem carteira. Militares e servidores estatutários representam 3,2% dos assalariados jovens.

A realidade da inserção laboral juvenil, portanto, é de uma maioria de jovens que trabalha como assalariada, sobretudo formal2. No Brasil, este modo de inserção cresce nos anos recentes, especialmente entre este segmento da população: de acordo com dados oriundos do Novo CAGED do Ministério do Trabalho, em janeiro de 2026 foram gerados 112.334 empregos de carteira assinada, dos quais cerca de 118.000 (99,5%) foram ocupados por jovens até 24 anos de idade3.

Isso não quer dizer que essa forma de trabalho não conviva com o trabalho assalariado informal e com o trabalho autônomo – e que essas modalidades de inserção laboral não se sobreponham muitas vezes. Entretanto, os dados são suficientes para problematizar a afirmação – repetida tantas vezes e com tanta veemência, nas últimas décadas – de que o trabalho autônomo era o destino inescapável para a juventude brasileira, seja por transformações irreversíveis no mercado de trabalho, seja por sua “vocação empreendedora”.

3. O mundo em que trabalham os jovens

Em seguida, é importante que passemos à análise do contexto de transformações e disputas de projetos no mundo do trabalho em que essa realidade juvenil se insere. Em especial desde a década de 1970 no mundo, e de forma mais intensa a partir da década de 1990 no Brasil, convive-se com a pressão da implementação do neoliberalismo, que mais que um retorno aos pressupostos econômicos liberais de retração do papel do Estado frente ao mercado, apresenta-se como uma nova racionalidade, com a expansão – patrocinada pelo Estado – da lógica concorrencial e de mercado a todos os âmbitos da vida individual e coletiva. Tanto no comportamento econômico quanto no íntimo dos indivíduos, o neoliberalismo busca implementar a concorrência como norma, como forma relacional hegemônica4.

Nesse sentido, as transformações que o neoliberalismo busca impor ao mundo do trabalho traduzem esses objetivos de forma cristalina. A “gestão por desempenho” e a vigilância do trabalhador assumem a sua forma mais radical, sendo internalizadas pelo próprio indivíduo, que é instado a produzir cada vez mais e a responsabilizar-se solitariamente pelo resultado de seu trabalho.

O trabalho assalariado formal ainda oferece obstáculos à viabilização plena deste modelo: limite de horas de trabalho, garantias de estabilidade empregatícia, proteção social, dentre outros direitos conquistados pelos trabalhadores na história, que responsabilizam o empregador e o Estado pela garantia de condições justas de trabalho. O êxito pleno da lógica neoliberal se realiza, portanto, no trabalho autônomo, onde os trabalhadores se apresentam efetivamente como concorrentes entre si e responsáveis integrais por suas condições de trabalho e seus resultados5.

A apresentação do jovem autônomo como regra, responsável único pelo seu destino e dependente de suas próprias “habilidades empreendedoras” para sobreviver no mar de concorrência do mundo do trabalho é, assim, obra consciente do neoliberalismo, visando a desresponsabilização dos empregadores e do Estado e precarizando as condições de vida do trabalhador, que só tem a si mesmo a culpar pelas horas exaustivas, pela baixa renda, pelos acidentes de trabalho e pela desproteção ao final da vida.

4. A narrativa do empreendedorismo como regra na juventude

Para consolidar-se, esse projeto neoliberal de modelo de trabalho extremamente precarizado lança mão de algumas ferramentas narrativas. Ele anuncia que (1) essa já é a realidade do presente, (2) de que é o futuro inescapável e de que (3) é o desejo inarredável dos próprios jovens.

Os dados da colocação dessa geração de jovens no mundo do trabalho, explorados nas seções anteriores, já demonstram que esta não é – nem de longe – a realidade dominante no presente. A juventude brasileira é majoritariamente assalariada e, dentre esses, majoritariamente formalizada com CLT.

Quanto à relação subjetiva dos jovens com o trabalho autônomo, ou com o “empreendedorismo”, vale recorrer ao estudo realizado por Corrochano e Tarábola6, em que entrevistaram jovens das periferias da Zona Sul e da Zona Leste de São Paulo. As entrevistas pintam um retrato de uma relação nada romântica. Os jovens empreendedores apontam que, apesar de apreciarem a flexibilidade e a afeição maior com o conteúdo de seu trabalho se comparado com o trabalho assalariado, o “empreendedorismo” atua muito mais como alternativa ao desemprego e à condições muito ruins de trabalho do que como escolha preferível e vocacional. Pelo contrário, os jovens percebem e reclamam da exploração de horas exaustivas de um trabalho sem fim para obter baixos rendimentos e da ausência de direitos trabalhistas.

Outro trabalho qualitativo importante, conduzido por Feffermann et al.7, reforça esta percepção em grupos focais realizados em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Piauí. A ponderação de um jovem de São Paulo organiza bem a ideia: “MEI não tem nenhuma garantia de nada. Exatamente, o CLT pelo menos tem um direito”8. A análise dos autores arremata:

Em alguns depoimentos, aparece uma certa aversão à CLT; no entanto, na verdade, o que rejeitam é a realidade do mercado de trabalho: jornadas exaustivas, baixos salários, a relação empregador e empregado, que muitas vezes significa assédio moral, falta de respeito nos ambientes de trabalho, transporte coletivo de baixa qualidade. Não criticam a proteção, e sim a perda dos direitos. Propõem, na verdade, o fortalecimento de um trabalho digno, seguro e justo9.

É fundamental perceber, ainda, como atuam ferramentas de indução do “empreendedorismo” como única alternativa para esta geração de jovens. Para além de muito presente na mídia e de ser o “termo da moda”, como disse um dos entrevistados no estudo de Corrochano e Tarábola10, há um impulsionamento ativo por meio de atores públicos e privados desta forma de inserção laboral. Segundo o levantamento de Corrochano e Tarábola, em 2020, 7 em cada 10 ações governamentais desenvolvidas na cidade de São Paulo tinham como foco o “empreendedorismo”. Mais, a “cultura empreendedora” foi incluída na Base Nacional Curricular Comum e nas Diretrizes Curriculares Nacionais e integra o currículo de jovens por todo o país. Não por acaso, o Global Entrepreneurship Monitor avaliou positivamente o Brasil na oferta de “educação empreendedora”.

Ou seja, parece razoável inferir que parte significativa da relativa força que tem o “empreendedorismo” na discussão pública e na inserção laboral juvenil deve-se ao fato de ele se apresentar como se fosse única ferramenta disponível aos jovens para geração de renda e autonomia. Para além de uma questão de discurso, trata-se de uma forte presença institucional: muitas vezes é o recurso ao “empreendedorismo” a única forma de acessar recursos públicos de incentivo por meio de editais e outras políticas públicas e desde o ambiente escolar há a legitimação das narrativas de valorização e impulso a essa forma de inserção laboral. Essas medidas têm potencial de afetar a própria percepção subjetiva dos jovens quanto ao “empreendedorismo”. Conforme visto, a criação de um sujeito afeito à lógica concorrencial e que internaliza seus preceitos é um dos objetivos do neoliberalismo. É parte essencial de seu esforço por hegemonia e para consolidar seu projeto de relações de trabalho desregulamentadas e desprotegidas, com mais ampla margem de lucro para o capital.

Por fim, é evidente: afirmar – ou negar – a inevitabilidade do “empreendedorismo” é uma questão contingente à história e às disputas em curso. Fato é que a possibilidade de as formas de trabalho autônomo precário se imporem ao trabalho assalariado depende de sua capacidade de fazer-se majoritárias no cotidiano, ampliando a sua participação na inserção laboral desta geração de jovens e a sua hegemonia ideológica sobre os indivíduos. Como vimos até aqui, nada disso está dado. O trabalho assalariado protegido é a realidade de parcela significativa da juventude e muitos jovens apresentam fortes resistências ao modelo de trabalho autônomo propagado pelo “empreendedorismo”.

5. As condições do trabalho assalariado juvenil

A discussão proposta neste artigo não pretende apresentar o trabalho assalariado da juventude brasileira como uma experiência dos sonhos. A inserção laboral juvenil – ainda quando assalariada e formalizada – é marcada por precariedades, expressa em maiores índices de rotatividade, informalidade, baixos salários e piores condições de trabalho quando comparada à população adulta.

A própria distribuição ocupacional da juventude evidencia essa dinâmica. As ocupações com maior presença de jovens concentram-se majoritariamente nos setores de comércio e serviços: entre as vinte ocupações com maior participação juvenil no primeiro trimestre de 2024, dezesseis pertenciam a esses segmentos. Trata-se justamente dos setores caracterizados por jornadas extensas, elevada intensidade laboral, baixos níveis de proteção e alta rotatividade, incluindo atividades organizadas sob o regime de seis dias de trabalho para um dia de descanso.

Essa realidade não se dá por acaso, mas é fruto de um processo progressivo de desindustrialização e reorganização da matriz produtiva brasileira11. Entre 1980 e 2018, A participação do setor industrial no total dos ocupados caiu de 27,8% para 12,9% e o chamado setor terciário teve um salto de 39,3% para 62,7%12. São justamente esses postos de trabalho, hoje majoritários, os de maior precariedade. Aí incidem “reforma” trabalhista, a ampliação da terceirização, a tentativa da implementação da chamada Carteira Verde e Amarela

Essa configuração do mercado de trabalho possui impactos diretos sobre a própria condição juvenil. Como destaca o Panorama da Situação de Saúde de Jovens Brasileiros: Interseções entre Juventude, Saúde e Trabalho13, a inserção produtiva ocupa posição central na experiência social das juventudes contemporâneas, condicionando trajetórias educacionais, relações familiares, acesso a direitos e padrões de adoecimento.

Em primeiro lugar, é necessário destacar os obstáculos impostos à conciliação entre trabalho e estudos. Em 2021, aproximadamente 62% dos jovens entre 15 e 29 anos trabalhavam, buscavam trabalho ou combinavam trabalho e estudos . As formas concretas dessa combinação variam conforme renda, raça, gênero, etapa escolar e condições familiares. A experiência juvenil pode envolver o trabalho simultâneo ao ensino médio, ao ensino superior, à formação técnica ou à preparação para o ENEM14. Contudo, quando a inserção ocupacional ocorre predominantemente em postos de trabalho exaustivos, mal remunerados e marcados por elevada intensidade temporal, a conciliação entre formação educacional e trabalho torna-se particularmente desigual e desgastante.

Essa sobrecarga se agrava no caso das mulheres jovens, especialmente das mulheres negras, que ocupam a posição mais vulnerável na estrutura do mercado de trabalho brasileiro. Além das jornadas laborais remuneradas, recaem sobre elas responsabilidades desproporcionais relacionadas ao trabalho doméstico e aos cuidados familiares, sobretudo com crianças pequenas15. O resultado é a restrição objetiva do tempo disponível para estudo, descanso, sociabilidade e participação cultural e política, dimensões constitutivas da experiência juvenil.

Em segundo lugar, torna-se necessário destacar os impactos do trabalho precarizado sobre a saúde da juventude trabalhadora. O Panorama da Situação de Saúde de Jovens Brasileiros16 contribui para desmontar a ideia socialmente difundida de que a juventude possuiria um “vigor” natural capaz de suportar jornadas intensas, insegurança laboral e exposição contínua a riscos físicos e psíquicos. Ao analisar dados dos sistemas de informação em saúde do SUS entre 2016 e 2022, o estudo evidencia a magnitude dos agravos relacionados ao trabalho entre jovens brasileiros. Os dados revelam que aproximadamente um terço de todos os acidentes de trabalho notificados no período atingiram jovens entre 15 e 29 anos. Foram mais de 345 mil acidentes registrados apenas nessa faixa etária entre 2016 e 2022. Também chama atenção a forte incidência de acidentes de trânsito relacionados ao trabalho entre jovens adultos: entre pessoas de 25 a 29 anos, 43,4% dos acidentes de trânsito estavam vinculados à atividade laboral.

Os impactos psíquicos também assumem proporções relevantes. No mesmo período, foram registrados mais de 10 mil casos de transtornos mentais relacionados ao trabalho, dos quais cerca de 1.900 envolveram jovens entre 15 e 29 anos. Ansiedade, estresse e outras formas de sofrimento psíquico aparecem particularmente associados a ocupações marcadas por pressão por metas, contato intenso com o público e baixos níveis de autonomia no trabalho.

A realidade da inserção laboral juvenil, portanto, é, de fato, profundamente desigual e precária e agravada pelas reformas desregulamentadoras do trabalho implementadas no país. Nesse contexto, criam-se condições favoráveis à disseminação da narrativa do “empreendedorismo” como alternativa.

Contudo, não querer um posto de trabalho assalariado ruim (exaustivo, com baixo salários, alta rotatividade, insalubre etc.) não significa rejeitar o trabalho assalariado de forma frontal e aderir ao “empreendedorismo” de forma acrítica. Se é verdade que a busca por condições dignas de trabalho pode tanto caminhar para o desenvolvimento de um trabalho autônomo quanto para um trabalho assalariado em melhores condições, também o é que os jovens brasileiros têm seguido a segunda hipótese: como vimos, 80 por cento deles estão no trabalho assalariado. Parece fundamental, portanto, que uma agenda de políticas públicas para a juventude brasileira conceda atenção e prioridade a essa forma de colocação no trabalho e às condições enfrentadas pela juventude.

6. Por uma agenda de trabalho decente para a juventude 17

Para dialogar com a realidade enfrentada pela juventude brasileira e ter no horizonte relações de trabalho que garantam uma vida digna para essa geração, é imprescindível compreender as demandas reais que emergem da experiência juvenil e projetar a agenda capaz de responder a elas.

Sem a intenção de esgotar o debate, três elementos parecem surgir de forma muito nítida do contexto vivido pelos jovens brasileiros no mundo do trabalho: redução da jornada de trabalho, maior formalização e maior proteção social.

Como visto, os jovens são os mais inseridos em postos de trabalho assalariado comumente submetidos à jornada 6×1. Essa jornada, para além de provocar em todos os nichos populacionais o comprometimento do tempo para lazer e cuidados familiares e pessoais, tem nos jovens efeito especialmente pernicioso, tendo em vista a busca muito presente neste excerto populacional, de conciliar trabalhos e estudos. A convivência entre jornadas de trabalho remunerado, estudos e trabalho de cuidados provoca na juventude uma realidade de “super-ocupação”, em especial nas mulheres jovens, a quem a sociedade costuma impor de forma mais dura a responsabilidade pelos cuidados. A adoção dessa pauta pelo governo federal, é passo importantíssimo neste sentido.

Nesse contexto, a regulação do trabalho por plataformas apresenta-se como medida fundamental. Também incorporada na agenda do governo federal, essa pauta envolve uma mediação tripartite delicada, mas que precisa caminhar para combater exatamente os elementos mais característicos da precarização do trabalho autônomo: prever proteção social e responsabilização do empregador.

Essas duas medidas – e outras tantas mais, objetivando garantir esses três pilares da agenda apresentada – afetariam diretamente parcela significativa da população juvenil inserida no mundo do trabalho e garantiriam direitos importantes para a conformação de uma vida digna. Obviamente, tais medidas não são suficientes para sozinhas reverterem as condições de trabalho e os baixos salários e baixa proteção social do trabalho juvenil e tampouco prescindem de medidas que dialoguem com os jovens inseridos no trabalho autônomo.

A questão aqui é justamente partir de um diagnóstico mais fiel da realidade juvenil para alterar a ordem de prioridades da agenda pública em torno do trabalho. Ou seja, a partir do diagnóstico de que o trabalho assalariado é majoritário entre os jovens e que dentre os assalariados, a maioria é formalizada; e que os jovens – assalariados ou não – padecem de jornadas exaustivas, vínculos precários, alta rotatividade, baixos salários e baixa proteção social; buscar identificar uma agenda que responda concretamente a esses desafios. Essa agenda terá um potencial muito maior de dialogar com a juventude e de contribuir para a promoção de uma vida digna para essa geração do que uma agenda monotônica concentrada no “empreendedorismo”, que além de não ser dominante na realidade juvenil, aponta no horizonte para o agravamento da precarização do trabalho e a desresponsabilização completa da figura do empregador e do Estado com as condições de vida da juventude.

7. Conclusão

Com este breve artigo buscou-se desvelar os contornos mais básicos da realidade enfrentada pela juventude no mundo do trabalho, sem pretensão de esgotar este debate. Demonstrou-se que o trabalho autônomo, apresentado como “empreendedorismo”, é amplamente minoritário e que a tônica do mercado de trabalho brasileiro para jovens é de trabalho assalariado com forte presença do trabalho assalariado formalizado conforme a CLT. A disseminação do inverso faz parte de um esforço de enfraquecer o trabalho assalariado e provocar a a degradação ainda maior das relações de trabalho e a precarização das condições de vida dos trabalhadores.

Nada obstante, foram trazidas à mesa as características da inserção laboral juvenil, mesmo a assalariada e formal, com graves obstáculos para uma vida digna dos jovens brasileiros, marcada pela alta rotatividade, baixos salários, precariedade e insalubridade. É de se esperar, portanto, que os jovens apresentem insatisfação quanto aos postos de trabalho disponíveis e que exijam mudanças. Isso não significa, contudo, rejeitar o assalariamento e aderir de forma acrítica ao “empreendedorismo”18, mas demandar políticas públicas que fortaleçam os direitos, ampliem o tempo disponível e melhorem as condições concretas de trabalho.

Por fim, esboçou-se os pilares de uma agenda de discussão e de políticas públicas que dialoguem com essa realidade concreta enfrentada pela juventude, com a destinação de energia e recursos para medidas que vão de fato de encontro aos principais desafios enfrentados pelos jovens trabalhadores brasileiros.

Referências

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Notas

1Cf. ABRAMO, Helena Wendel; SOBRINHO, André. A reaparição dos invisíveis. Outras Palavras, São Paulo, 12 dez. 2024. Trabalho e Precariado. Disponível em: https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/reaparicao-dos-invisiveis/. Acesso em: 14 maio 2026.

2 ABRAMO, Helena Wendel; SOBRINHO, André. A reaparição dos invisíveis. Outras Palavras, São Paulo, 12 dez. 2024. Trabalho e Precariado. Disponível em: https://outraspalavras.net/trabalhoeprecariado/reaparicao-dos-invisiveis/. Acesso em: 14 maio 2026.

3 MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Novo CAGED — Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. Brasília: MTE, jan. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/novo-caged. Acesso em: 1 maio 2026.

4 DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

5 KREIN, José Dari; MANZANO, Marcelo; TEIXEIRA, Marilane. Trabalho no Brasil: desafios e perspectivas. Cadernos do CEAS: Revista Crítica de Humanidades, Salvador/Recife, v. 47, n. 256, p. 293–317, maio/ago. 2022. DOI: https://doi.org/10.25247/2447-861X.2022.n256.p293-317

6 CORROCHANO, Maria Carla; TARÁBOLA, Felipe de Souza. Qual empreendedorismo? Experiências, percepções e reflexividade de jovens nas periferias. Cadernos Cedes, Campinas, v. 46, e300414, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/CC300414

7 FEFFERMANN, Marisa; FERREIRA, Maria D’Alva Macedo; LUZ, Lila Cristina Xavier; SANTOS, Cintia de Jesus Andrade. Trabalho, precarização nas expectativas dos jovens pós-pandemia. In: ABRAMOVAY, Miriam; SALES, Marcos Vinícius (org.). Vulnerabilidades e resistências entre as juventudes brasileiras em contextos de desigualdades. Brasília: Flacso Brasil, 2025. p. 176–214.

8 FEFFERMANN et al., 2025, op. cit., p. 209.

9 Ibid., p. 209.

10 CORROCHANO; TARÁBOLA, 2026, op. cit.

11 KREIN; MANZANO; TEIXEIRA, 2022, op. cit.

12 POCHMANN, Marcio. Tendências estruturais do mundo do trabalho no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 1, p. 89–99, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/csc/v25n1/1413-8123-csc-25-01-0089.pdf

13 LEANDRO, Bianca; SOBRINHO, André; ABRAMO, Helena (org.). Panorama da situação de saúde de jovens brasileiros: interseções entre Juventude, Saúde e Trabalho — 2016 a 2022. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; Ministério da Saúde, 2024. ISBN: 978-65-87063-39-3.

14 ABRAMO, Helena; VENTURI, Gustavo; CORROCHANO, Maria Carla (org.). Jovens: características, comportamentos e opiniões. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2020.

15 ABRAMO; VENTURI; CORROCHANO, 2020, op. cit.

16 LEANDRO; SOBRINHO; ABRAMO, 2024, op. cit.

17 Esforço importantíssimo no sentido de formatação de uma agenda nesse sentido foi conduzido pelo Governo Brasileiro e pela Organização Internacional do Trabalho em 2011. BRASIL. Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude. Brasília: MTE; OIT, 2011. Disponível em: https://www.ilo.org/sites/default/files/wcmsp5/groups/public/@americas/@ro-lima/@ilo-brasilia/documents/genericdocument/wcms_301824.pdf. Acesso em: 1 maio 2026.

18 CORROCHANO; TARÁBOLA, 2026, op. cit.; FEFFERMANN et al., 2025, op. cit.

Gabriel Medeiros é coordenador do Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas (NAPP) sobre Juventude, na Fundação Perseu Abramo.

DM TEM DEBATE

https://www.dmtemdebate.com.br/o-mito-da-geracao-empreendedora/

Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

Direita quer desfigurar proposta do fim da escala 6×1, diz Jandira Feghali

A deputada Jandira Feghali (RJ), líder do PCdoB na Câmara dos Deputados, alerta sobre a tentativa de parlamentares da direita de descaracterizar a proposta de emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada das atuais 44 para 40 horas semanais e acaba com a escala 6×1 (seis dias de trabalho com apenas um de descanso).

O relatório sobre a proposta será votado na próxima segunda-feira (25) na comissão especial e, na mesma semana, no plenário da Câmara.

Para a parlamentar, os trabalhadores precisam estar atentos e mobilizados. “Entraram emendas com assinaturas suficientes para descaracterizar a proposta. Tem uma do Tião Medeiros (PP-PR), que simplesmente joga a aplicação da escala para daqui a dez anos”, diz.

“Ao invés de aplicar o fim da escala agora, é o cansaço, a exaustão e a agressão aos trabalhadores e trabalhadoras até 2036”, completa.

A outra emenda é do deputado Sérgio Turra (PP-RS), que reduz formalmente a jornada, mas flexibiliza a sua eficácia. “Amplia o poder patronal de negociação, coloca o negociado sob o legislado, colocando, inclusive, a negociação individual. Imaginem onde é que está o lado mais fraco dessa negociação”, critica.

“São emendas que estão entrando e que, obviamente, vão influenciar o debate e que podem simplesmente caracterizar a essência da proposta. E o que deve ser a essência da proposta em uma Constituição que não deve ter nenhum grau de detalhamento? São diretrizes gerais. Primeiro, o teto máximo da jornada é de 40 horas. Segundo, dois dias de descanso por semana. Terceiro, sem redução de salário”, afirma.

Segundo a líder do PCdoB, a proposta precisa indicar para lei o que é especificidade em algumas categorias. “Os aeronautas têm jornada própria. O pessoal que pilota avião, a tripulação de bordo. Quem embarca em plataforma, que são 14 dias na plataforma e 14 dias em terra. A enfermagem, que tem 12 por 36”, exemplifica.

“Precisa ter uma indicação constitucional de que a lei pode, sem ultrapassar as 40 horas semanais, ir fazendo uma jornada humana de garantir que as especificidades possam ser consideradas”, disse.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2026/05/20/jandira-alerta-para-tentativa-de-desfigurar-proposta-do-fim-da-escala-6×1/

Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

Mais de 100 anos da mesma resistência: A elite empresarial brasileira e a luta histórica pela redução da jornada de trabalho:

Antônio Augusto de Queiroz (*)

A história do movimento sindical no Brasil é, antes de tudo, uma crônica da resistência. Desde os primórdios da organização da classe trabalhadora, no final do século XIX e início do século XX, a relação entre capital e trabalho no país foi marcada por uma profunda assimetria de poder. Enquanto os trabalhadores lutavam por condições mínimas de dignidade – como a limitação de jornadas exaustivas de até 16 horas diárias e a garantia de um descanso mínimo – parcela da elite empresarial brasileira sempre respondeu com um conservadorismo feroz, travestido de argumentos paternalistas e econômicos. Ao analisarmos o debate contemporâneo sobre o fim da escala 6×1 ou a redução da jornada para 40 horas semanais, somos obrigados a reconhecer um fato desconcertante: os argumentos patronais de hoje são, mutatis mutandis, os mesmos utilizados há mais de um século contra a concessão de férias de 15 dias.

A resistência à outorga de direitos sociais não é um fenômeno de conjuntura; é uma constante estrutural do capitalismo periférico brasileiro. Este artigo tem por objetivo demonstrar, por meio de um resgate histórico documental, que parcela da elite empresarial não evoluiu em sua essência argumentativa. O mesmo desprezo de classe que motivou o manifesto contra as férias de 15 dias, em 1926, ressurge hoje contra a redução da jornada, provando que, no que tange à distribuição do tempo e da renda, boa parte do empresariado brasileiro permanece ancorado em pressupostos arcaicos e autoritários.

1. A gênese da luta: Das 16 horas às férias de 15 dias

Para compreendermos a dimensão do retrocesso argumentativo, é necessário revisitarmos o contexto da Primeira República (1889-1930). Foi nesse período em que o movimento sindical, fortemente influenciado por imigrantes anarquistas e socialistas, deu seus primeiros passos efetivos no Brasil. As condições de trabalho eram sub-humanas. A jornada de até 16 horas era a regra nos centros urbanos emergentes, e não havia qualquer previsão de descanso semanal remunerado, férias ou proteção contra acidentes. A lógica vigente era a da exploração máxima da força de trabalho, tratada como mercadoria descartável.

Foi nesse caldo de cultura que surgiu a primeira grande vitória legal dos trabalhadores: o Decreto Legislativo nº 4.982, de 1925[1], instituindo as férias de 15 dias. Para os trabalhadores, exauridos física e mentalmente, tratava-se de um alento; para os patrões, um atentado à propriedade e à disciplina fabril.

A reação não tardou. Em 1926, sob o governo Arthur Bernardes, as associações empresariais paulistas – embrião do que viria a ser uma das entidades mais poderosas do país, a FIESP – enviaram um memorial ao presidente da República pleiteando a revogação da lei. O documento é uma peça antológica da sociologia patronal brasileira, e merece ser citado na íntegra (conforme registrado por Luiz Werneck Vianna, em Liberalismo e Sindicato no Brasil):

“que fará um trabalhador braçal durante 15 dias de ócio? Ele não tem o culto do lar, como ocorre nos países de padrão de vida elevado. Para nosso proletariado, para o geral de nosso povo, o lar é um acampamento — sem conforto e sem doçura. O lar não pode prendê?lo e ele procurará matar as suas longas horas de inação nas ruas. A rua provoca com freqüência o desabrochar de vícios latentes e não vamos insistir nos perigos que ela representa para o trabalhador inativo, inculto, presa fácil dos instintos subalternos que sempre dormem na alma humana, mas que o trabalho jamais desperta!”

2. A elite imutável: O argumento do “ócio perigoso” ontem e hoje

A citação acima é mais do que um registro histórico; é a chave hermenêutica para entendermos a mentalidade de parcela patronal brasileira. Observemos os elementos dessa fala, datada de 1926:

  1. Paternalismo autoritário: O trabalhador é tratado como um menor incapaz. Ele não tem “culto do lar”; é um ser primitivo que, sem supervisão e trabalho, regride à barbárie.
  2. Criminalização da pobreza: A ausência de trabalho é imediatamente associada ao vício, à rua e à desordem. O descanso não é visto como direito ou necessidade fisiológica, mas como uma licença para o pecado.
  3. Justificativa biológica da exploração: O trabalho é apresentado como a única força moral capaz de domesticar os “instintos subalternos”.

Avançamos cem anos. O cenário mudou; a tecnologia, a legislação e a composição do parlamento, também. Contudo, o discurso de setores do empresariado contra a redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais, ou contra o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso), é uma reprodução quase textual dessa lógica.

Ao se manifestarem contra a proposta da escala 5×2 (cinco dias trabalhados por dois de descanso) ou mesmo contra a consolidação da semana de 40 horas, líderes empresariais e economistas liberais recorrem aos mesmos expedientes de 1926. Atualmente, os argumentos se revestem de um verniz técnico – “perda de produtividade”, “aumento de custos”, “impacto na inflação” – mas a essência ideológica permanece a mesma: o medo do trabalhador livre, com tempo para a política, o estudo e o lazer.

Parcela da elite empresarial demonstra, explicitamente, que sua preocupação nunca foi a “saúde financeira da empresa” no abstrato, mas sim o controle do tempo do trabalhador. O tempo ocioso, para o capital, é tempo perdido. A resistência às férias em 1926 era uma resistência ao trabalhador dentro de sua casa; a resistência ao fim da escala 6×1 hoje é uma resistência ao trabalhador participando da vida familiar, estudando, ou simplesmente descansando para não adoecer.

3. O elo histórico: trabalho, vício e controle social

O que o memorial de 1926 revela, e que a luta atual confirma, é que setores da elite brasileira sempre enxergaram os direitos trabalhistas não como fruto da cidadania, mas como uma “concessão perigosa”. Na visão dos industriais do século XX, o lar do pobre é um “acampamento sem doçura”. Essa afirmação não é apenas preconceituosa; ela é funcional ao sistema produtivo. Se o lar é miserável, que o trabalhador permaneça na fábrica. Que a fábrica seja seu lar.

Hoje, o argumento contra a escala 6×1 segue a mesma linha, embora travestido de preocupação com o “bem-estar do trabalhador”. Alega-se que o trabalhador “não pode arcar com a redução de salário” (quando se esconde que a produtividade cresceu exponencialmente), ou que ele “prefere o dinheiro ao tempo livre”. Esses argumentos desconsideram a vasta literatura sobre burnout, ansiedade e a patologização do trabalho no capitalismo flexível. O pedido do trabalhador brasileiro não é por “ócio”, como queriam os patrões de 1926; é por vida.

As PECs e o PL que propõem o fim da escala 6×1 (Propostas de Emendas à Constituição 148/2015, 221/2019, 8/2025 e PL 1838/2026) visam exatamente garantir um direito elementar: o domingo livre, o descanso semanal que permita a convivência familiar e a saúde mental. Ao resistirem a isso, os setores conservadores do empresariado repetem, em essência, a frase do memorial de 1926: “O que fará um trabalhador braçal durante o seu dia de folga? Ele não tem o culto do lar…” A linguagem mudou, mas o preconceito de classe permanece intacto.

4. A negação da evolução: Por que a elite não evolui?

Se há mais de 100 anos a luta era para sair das 16 horas para as 8 horas diárias, e hoje ainda lutamos para sair da escala 6×1 (44 horas semanais) para as 40 ou 36 horas, é forçoso concluir que há um bloqueio estrutural no Brasil. Diferentemente da Europa, onde a redução da jornada foi sendo assimilada como ganho de produtividade e bem-estar social, no Brasil a redução do tempo de trabalho sempre foi encarada como uma ameaça à ordem.

A justificativa atual da elite possui três pilares, que são atualizações dos argumentos de 1926:

  1. O mito da produtividade: Alega-se que o brasileiro trabalha pouco. Os dados da OCDE mostram o oposto; o trabalhador brasileiro tem uma das jornadas mais longas do mundo, com produtividade estagnada. Na verdade, a jornada exaustiva gera fadiga e acidentes, reduzindo a eficiência.
  2. O medo da competitividade: Dizem que a indústria nacional não resistiria à redução. Esquecem, convenientemente, que países com jornadas menores (Alemanha, Holanda) são infinitamente mais competitivos.
  3. O ressentimento de classe: Subjacente ao discurso técnico, há o incômodo com a ideia de que o trabalhador possa ter mais tempo livre do que o patrão. O direito ao descanso é frequentemente percebido como um “privilégio” da elite, que não pode ser estendido à plebe.

5. O papel do movimento sindical e a necessidade histórica da vitória

Diante dessa imutabilidade patronal, a conclusão é inevitável: as conquistas trabalhistas jamais foram “doadas” ou fruto da benevolência do Estado; foram conquistadas na dor e na luta. As férias de 15 dias só existem porque houve resistência. O 13º salário, o repouso semanal remunerado, todos os direitos constantes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foram precedidos por greves, enfrentamentos e pela organização sindical.

O movimento sindical, como ensinam Sidney e Beatrice Webb (1897), na obra clássica Industrial Democracy ou Democracia Industrial, é a “união estável da classe para a defesa de seus interesses e implementação da melhoria das condições de vida”. Ele é uma invenção da humanidade para a paz social, pois nega a barbárie do laissez-faire. Hoje, ao lutar pelo fim da escala 6×1, os sindicatos e movimentos populares (como o “VAT” – Vida Além do Trabalho) exercem o mesmo papel civilizatório dos anarquistas de 1917.

A elite empresarial, ao empregar os mesmos argumentos de cem anos atrás, demonstra não apenas uma falha ética, mas também uma falha cognitiva. Ela se recusa a ver que o trabalhador descansado é mais produtivo, mais criativo e menos adoecido. Ela se recusa a ver que a redução da jornada é um instrumento de distribuição de renda e de modernização econômica.

Conclusão: a luta dos trabalhadores continua

A história está por testemunhar: as férias venceram as resistências de 1926. Hoje, a jornada de 40 horas e o fim da escala 6×1 vencerão a resistência de 2026. Mas essa vitória não virá por decreto, e sim pela pressão organizada da classe trabalhadora.

Ao compararmos o passado e o presente, fica evidente que a elite empresarial brasileira não evolui. Ela moderniza o discurso, contrata marqueteiros, mas mantém intacta a convicção de que o tempo do trabalhador não lhe pertence. O memorial de 1926 é o atestado de óbito da superioridade moral patronal.

Cabe aos trabalhadores e sindicalistas do século XXI, lembrarem sempre: a mesma insensibilidade que chamava o lar do pobre de “acampamento” é a que hoje chama a escala 6×1 de “necessária para a economia”. Portanto, a resposta deve ser a mesma daquela época: pressão, negociação coletiva, unidade de ação e até greve, pois existe a certeza de que a justiça social se faz com a redução da exploração do tempo.

Que o exemplo da luta pelas férias inspire os trabalhadores, suas organizações e os parlamentares que apoiam essa ideia. Se derrotarem a tese do “ócio perigoso” hoje, haverá uma sociedade mais justa. Amanhã, a luta será pela semana de 4 dias. Até que o trabalho sirva à vida, e não a vida ao trabalho.

(*) Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, e mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Membro do Conselho de Desenvolvimento Social Sustentável da Presidência da República, Conselhão, é também membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (ABRIG). Foi diretor de Centro de Acompanhamento da Constituinte (UnB) e diretor de Documentação do Diap por 35 anos, e atualmente faz parte da Câmara de Reforma do Estado no âmbito do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI). Sócio das empresas Consillium Soluções Institucionais e Governamentais e Diálogo Institucionais e Assessoria em Políticas Públicas, é autor de diversos livros e estudos sobre a dinâmica dos poderes, incluindo o livro “Movimento Sindical: passado, presente e futuro”.

[1] Ementa: Manda conceder, annualmente, 15 dias de férias aos empregados e operarios de estabelecimentos commerciaes, industriaes e bancarios, sem prejuizo de ordenado, vencimentos ou diarias e dá outras providencias

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/92917-mais-de-100-anos-da-mesma-resistencia-a-elite-empresarial-brasileira-e-a-luta-historica-pela-reducao-da-jornada-de-trabalho

Excesso de telas, busca por produtividade e insegurança laboral levam ao esgotamento mental entre millennials

Líderes de partidos pedem retirada de emenda que previa jornadas semanais de 52 horas

Deputados da direita e do Centrão falaram em ‘dúvidas dos reais efeitos’ da proposta que gerou repercussão negativa.

A reportagem é publicada por Brasil de Fato.

Sete líderes de partidos da direita e do Centrão pediram ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), nesta quarta-feira (20), a retirada de uma emenda à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/2019 que permite jornadas semanais de até 52 horas e prevê dez anos de transição antes da vigência das novas regras trabalhistas. A emenda colocada para contrabalançar as propostas apresentadas provocou reações negativas de setores da sociedade e no Congresso Nacional.

“Diante de dúvidas sobre os reais efeitos da emenda nº 1 à PEC do fim da escala 6×1, que flexibiliza a jornada de trabalho de acordo com a diversidade setorial e regional do país, os líderes abaixo-assinados apresentaram um requerimento para solicitar ao presidente Hugo Motta a retirada de tramitação da emenda, a fim de evitar distorções que comprometam a clareza do debate e a compreensão da proposta”, diz a nota assinada pelos líderes Isnaldo Bulhões Jr. (MDB e Bloco Parlamentar), Rodrigo Gambale (Podemos), Augusto Coutinho (Republicanos), Pedro Lucas Fernandes (União Brasil), Antonio Brito (PSD), Dr. Luizinho (PP) e Adolfo Viana (PSDB-Cidadania).

O texto estabelece a meta de 40 horas semanais, mas condiciona a mudança a um período de transição que pode se estender por aproximadamente dez anos e a regulamentações futuras. Permite, ainda, que empresários negociem com trabalhadores jornadas de até 30% acima do limite constitucional — o que significa semanas de até 52 horas, ou seja, turnos superiores a 10 horas por dia.

A transição para uma escala e uma jornada de trabalho menores é uma das principais questões debatidas pela comissão especial que discute o tema.

O texto também amplia também o peso da negociação individual sobre a legislação trabalhista ao afirmar que “os acordos individuais e os instrumentos coletivos de trabalho […] prevalecerão sobre as normas legais e infralegais”, inclusive em temas como escala, banco de horas e intervalos. Outro ponto criticado é a possibilidade de manter jornadas de até 44 horas para “atividades essenciais”, categoria que seria definida futuramente por lei complementar.

IHU – UNISINOS

https://www.ihu.unisinos.br/666297-lideres-de-partidos-pedem-retirada-de-emenda-que-previa-jornadas-semanais-de-52-horas