por NCSTPR | 09/04/26 | Ultimas Notícias
Pelo menos 326 trabalhadores humanitários foram mortos em todo o mundo em 2025, e mais de mil nos últimos três anos, anunciou nesta quarta-feira (8) o chefe das operações humanitárias da ONU, ao denunciar o que classificou como um “sintoma de um mundo sem lei”.
A reportagem é publicada por RFI.
“Em 2025, pelo menos 326 trabalhadores humanitários foram mortos em 21 países, elevando para mais de 1.010 o número total de mortes em três anos”, afirmou Tom Fletcher durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a proteção de civis em conflitos armados.
“Isso não é uma escalada acidental; é o colapso da proteção”, denunciou, ao condenar os obstáculos à ajuda humanitária. O número de trabalhadores humanitários mortos em 2025 é inferior ao recorde registrado em 2024, quando 383 pessoas perderam a vida.
Gaza concentra mais mortes
Segundo Fletcher, o total de mortes nos últimos três anos representa quase o triplo das registradas no triênio anterior. Ele especificou que a maioria dos casos ocorreu em Gaza e na Cisjordânia, com 560 mortos, seguidos pelo Sudão, com 130, pelo Sudão do Sul, com 60, pela Ucrânia, com 25, e pela República Democrática do Congo, também com 25.
“Essas tendências, somadas ao colapso do financiamento do nosso trabalho vital, são um sintoma de um mundo sem lei, beligerante, egoísta e violento. Matar trabalhadores humanitários faz parte de um ataque mais amplo à Carta da ONU e ao direito internacional humanitário”, declarou Tom Fletcher.
“Portanto, em nome desses mais de mil trabalhadores humanitários que morreram e de suas famílias, perguntamos: por quê?”, questionou o executivo da ONU. “Será porque o direito internacional humanitário, criado por uma geração de líderes políticos mais sábios justamente para antecipar um momento como este, já não é considerado viável? Ou será porque aqueles que nos matam não são responsabilizados por seus atos?”, prosseguiu. “Será ainda porque os Estados-membros consideram essas pessoas como danos colaterais, parte da névoa da guerra? Ou, pior, será que agora somos vistos como alvos legítimos?”, perguntou aos membros do Conselho de Segurança.
IHU – UNISINOS
https://www.ihu.unisinos.br/664577-mais-de-mil-trabalhadores-humanitarios-mortos-em-tres-anos-onu-denuncia-sintoma-de-um-mundo-sem-lei
por NCSTPR | 09/04/26 | Ultimas Notícias
4ª turma entendeu que piadas sobre peso configuraram discriminação e violaram a dignidade no trabalho.
Da Redação
Cooperativa deverá indenizar em R$ 10 mil trabalhador exposto a comentários sobre seu peso no ambiente de trabalho. Para a 4ª turma do TRT da 4ª região, as falas ultrapassaram o limite do humor e caracterizaram discriminação.
Piadas sobre peso
O trabalhador afirmou que era alvo de piadas feitas por superior hierárquico, incluindo situações em que, após quebrar uma cadeira, ouviu que “deveria emagrecer para não quebrar a cadeira novamente”. Também alegou que as falas ocorriam diante de colegas e causavam constrangimento.
Testemunha confirmou ter presenciado episódio semelhante, relatando que o superior comentou que seria necessário soldar a cadeira por causa do sobrepeso do empregado, percebendo que ele não reagiu bem à situação.
A cooperativa negou a prática de condutas ofensivas e sustentou que não havia denúncias internas sobre o comportamento do líder.
Humor como discriminação
Ao analisar o caso, a relatora da ação, desembargadora Cacilda Ribeiro Isaacsson, afirmou que esse tipo de conduta não pode ser tratado como mera brincadeira, sobretudo quando expõe o trabalhador a humilhação diante dos colegas.
“A ridicularização do trabalhador em razão de seu sobrepeso extrapola os limites da razoabilidade e não pode ser relativizada como mera brincadeira de mau gosto. Embora o convívio laboral admita manifestações lúdicas, estas perdem legitimidade quando atingem a honra, a imagem e a dignidade da pessoa humana.”
A magistrada explicou que a prática se enquadra como discriminação recreativa, expressão usada para situações em que o humor serve para expor e disfarçar hostilidade contra grupos minorizados.
“Longe de ser inofensiva, essa prática costuma ser naturalizada sob o rótulo de simples brincadeira, expediente que banaliza a exclusão e desumaniza a vítima em razão de suas características pessoais. Trata-se, em verdade, de manifestação inserida em contexto de desigualdades estruturais, funcionando como mecanismo de perpetuação de estereótipos e de manutenção de hierarquias sociais no ambiente de trabalho.”
Afirmou ainda que essas práticas geram ambiente prejudicial aos trabalhadores.
“No ambiente de trabalho, essas microagressões e atitudes discriminatórias criam um clima hostil e tóxico que afeta a autoestima, a saúde mental e as oportunidades dos trabalhadores, razão pela qual o sistema de justiça deve coibir o ato e rechaçar a tese de que a mera ausência de intenção consciente de ofender (animus jocandi) justificaria ou atenuaria os danos gerados por tais condutas.”
Mediante o exposto, a 4ª turma condenou a cooperativa ao pagamento de R$ 10 mil por danos morais.
Processo: 0020313-21.2025.5.04.0405
Leia a decisão: https://arq.migalhas.com.br/arquivos/2026/4/98096CE0C866C1_8edd63b7-5d4b-4156-806d-c3655d.pdf
MIGALHAS
https://www.migalhas.com.br/quentes/453514/vai-quebrar-cadeira–homem-que-sofreu-gordofobia-recebera-r-10-mil
por NCSTPR | 08/04/26 | Ultimas Notícias
“Trabalho mais saudável e seguro para todos” é o slogan de 2026 da campanha Abril Verde da Justiça do Trabalho. A iniciativa destaca duas datas importantes: o Dia Mundial da Saúde, nesta terça-feira (7), e o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho (em 28/4).
Sete maracanãs lotados
546 mil pessoas lotam sete estádios do porte do Maracanã. Esse número revela uma realidade alarmante: segundo dados do Ministério da Previdência Social (MPS), em 2025, problemas de saúde mental levaram essa quantidade de pessoas a se afastar do trabalho.
O cenário estabelece um novo recorde, com um crescimento de 15% em relação ao ano anterior, em que a ansiedade gerou 166 mil afastamentos e a depressão afastou do trabalho 126 mil pessoas.
Com relação à saúde física, dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram mais de 1,6 mil mortes por acidentes de trabalho somente no primeiro semestre de 2025. De 2012 a 2024, foram registrados 8,8 milhões de acidentes e 32 mil mortes de pessoas com carteira assinada. A informação é do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho da Iniciativa SmartLab de Trabalho Decente, coordenada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o Brasil.
Mais do que estatísticas, os dados comprovam que as pessoas estão cada vez mais adoecidas mentalmente e que as empresas precisam investir, de forma constante, na prevenção e na promoção de condições adequadas de trabalho.
Saúde mental e física são indissociáveis
Segundo o juiz Cláudio Freitas, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro da Justiça do Trabalho, há uma crise estrutural no meio ambiente do trabalho. “O adoecimento ocupacional assumiu proporções epidêmicas, e a realidade nos obriga a abandonar a visão fragmentada da saúde do trabalhador, pois saúde física e mental são absolutamente indissociáveis”, afirma.
Para o magistrado, o programa atua como um catalisador de uma mudança cultural necessária e urgente. “Nossa contribuição se dá, primeiramente, pela desmistificação de que a prevenção é um custo. Ela é um investimento básico para a sustentabilidade de qualquer atividade econômica.”
Segundo Freitas, o objetivo do programa é garantir o cumprimento das normas de segurança e medicina do trabalho, fomentar a segurança psicológica nas organizações e combater o assédio moral. “É preciso repensar o volume de exigências e garantir o direito à desconexão, para que o local de trabalho seja um espaço de desenvolvimento e cidadania e jamais de adoecimento ou de perda da vida”, afirma.
Riscos invisíveis
No mundo do trabalho do século XXI, saúde e segurança envolvem riscos invisíveis, como o estresse, o assédio, a hiperconexão e outros fatores que afetam a saúde e o bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores. Ansiedade e depressão são causas cada vez mais frequentes de afastamento, impactando diretamente a produtividade, as relações sociais e a qualidade de vida.
De acordo com a psicóloga Denise Milk, especialista em saúde mental corporativa, esse cenário se agrava quando a produtividade passa a ser tratada como valor absoluto, e o ser humano é reduzido a sua capacidade de entrega. Segundo ela, o sofrimento psíquico ainda é fortemente estigmatizado e continua sendo visto como fraqueza, despreparo e até falta de vontade. “Isso acontece tanto na sociedade quanto dentro das empresas. Ainda existe uma cultura que valoriza quem ‘aguenta tudo’, quem não demonstra vulnerabilidade e segue produzindo mesmo às custas da própria saúde.”
Para a especialista, é necessário adotar uma abordagem mais ampla, que integre corpo e mente, com prevenção e acolhimento. “O problema também está nas organizações, que muitas vezes tratam a temática apenas como discurso institucional, sem revisão real das práticas de gestão”, observa.
Integridade biopsicossocial e mudança cultural
A prevenção de acidentes é essencial para proteger a integridade biopsicossocial de quem trabalha, reduzindo os riscos e contribuindo para preservar o equilíbrio psíquico. “Ambientes que priorizam a segurança e a organização do trabalho favorecem a sensação de proteção, reconhecimento e valorização profissional, com impacto positivo no bem-estar mental”, afirma Danielle Cristina Fragas Borba Almeida, médica do trabalho do Serviço Social do Comércio (SESC/DF).
Em agosto de 2024, a Norma Regulamentadora (NR) 1 do Ministério do Trabalho e Emprego passou a reconhecer os riscos psicossociais como riscos ocupacionais. Segundo Danielle, trata-se de um avanço relevante na gestão de saúde ocupacional. “A medida reforça a necessidade de uma abordagem integrada, preventiva e multidisciplinar. A prevenção desses riscos exige uma mudança cultural organizacional, com enfoque proativo, e não apenas reativo, ao adoecimento já instalado.”
Adoecimento não é individual
Jorge Machado, professor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do Fórum Sindical em Saúde, Trabalho e Direitos Humanos, aponta que os riscos psicossociais se manifestam em diferentes setores. Na área de saúde, situações de assédio e falta de profissionais aumentam a sobrecarga emocional. No sistema bancário, metas abusivas geram um aumento expressivo nos casos de burnout. Já trabalhadores de limpeza urbana, submetidos a longos deslocamentos, baixa remuneração e condições insalubres de trabalho, estão mais sujeitos ao esgotamento e a doenças laborais.
De acordo com Jorge Machado, o adoecimento não é individual, mas resultado direto das condições de trabalho e de vida. Enfrentar esse cenário exige mudanças estruturais. “Isso envolve ações como valorização salarial, equipes adequadas, melhoria das condições materiais e ambientes de trabalho mais humanos”, assinala. “Não existe ambiente saudável sem respeito, e, no Brasil, isso passa necessariamente pelo enfrentamento das desigualdades de gênero, raça e território.”
Justiça do Trabalho
Em 2025, mais de 540 mil ações trabalhistas foram ajuizadas com temas relacionados às condições de segurança e saúde em ambientes de trabalho. Confira:
- Doença ocupacional: 196.424;
- Acidentes de trabalho: 170.152;
- Assédio moral: 142.387;
- Condições degradantes: 17.906;
- Assédio sexual: 12.778;
- Limitação de uso de banheiro: 4.362.
Trabalho Seguro
Durante o mês de abril, a sede do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), em Brasília, será iluminada na cor verde. Mais do que conscientizar para a prevenção de acidentes, a data amplia o debate sobre a necessidade de tratar a saúde de quem trabalha de forma integral.
O Programa Trabalho Seguro, em colaboração com diversas instituições públicas e privadas, é uma iniciativa conjunta do TST e do CSJT. Seu foco está na formulação e na implementação de projetos e ações em todo o país, visando à prevenção de acidentes de trabalho e ao fortalecimento da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho.
(Andréa Magalhães/CF)
TST JUS
https://www.tst.jus.br/en/-/abril-verde-saude-fisica-e-mental-sao-indissociaveis-no-ambiente-de-trabalho
por NCSTPR | 08/04/26 | Ultimas Notícias
O governo federal atualizou, nesta segunda-feira (6), a “lista suja”, que divulga os nomes de empregadores que submeteram trabalhadores a condições semelhantes à escravidão.
Entre os novos nomes incluídos estão o cantor Amado Batista e a montadora chinesa de carros elétricos BYD. Ao todo, com a nova atualização, cerca de 613 empregadores passam a integrar a chamada “lista suja”.
As atividades econômicas com o maior número de empregadores incluídos na lista foram:
- Serviços Domésticos (23);
- Criação de bovinos para corte (18);
- Cultivo de café (12);
- Construção de edifícios (10);
- Serviço de preparação de terreno, cultivo e colheita (6).
No total, os novos casos incluídos no cadastro resultaram no resgate de 2.247 trabalhadores em situações de exploração e trabalho análogo à escravidão.
- ➡️ VEJA LISTA COMPLETA ABAIXO:
A atualização também removeu 225 empregadores que completaram os dois anos de inclusão no cadastro.
Os casos desta atualização ocorreram entre os anos de 2020 e 2025, em 22 unidades da Federação. Os estados com maior número de empregadores incluídos foram:
- Minas Gerais (35);
- São Paulo (20);
- Bahia (17);
- Paraíba (17);
- Pernambuco (13);
- Goiás (10);
- Mato Grosso do Sul (10);
- Rio Grande do Sul (9);
- Mato Grosso (7);
- Paraná (6);
- Pará (5);
- Santa Catarina (4);
- Maranhão (4);
- Acre (2);
- Distrito Federal (2);
- Espírito Santo (2);
- Rio de Janeiro (2);
- Amazonas (1);
- Ceará (1);
- Rondônia (1);
- Sergipe (1).
📃 A “lista suja” é um documento público divulgado semestralmente pelo Ministério do Trabalho, em abril e outubro, com o intuito de dar visibilidade aos resultados das fiscalizações do governo de combate ao trabalho escravo.
Os funcionários chineses foram encontrados amontoados em alojamentos sem condições de conforto e higiene e eram vigiados por seguranças armados, que impediam a saída do local.
Segundo as autoridades, os passaportes foram retidos e os contratos incluíam cláusulas ilegais, com jornadas exaustivas e ausência de descanso semanal. Um dos trabalhadores ouvidos pelo Ministério Público do Trabalho da Bahia (MPT-BA) associou um acidente com uma serra ao cansaço provocado pela falta de folgas.
O MPT-BA também apontou que todos os trabalhadores entraram no país de forma irregular, com vistos para serviços especializados que não correspondiam às atividades desempenhadas na obra.
Na ocasião, a BYD informou que a construtora terceirizada Jinjiang Construction Brazil Ltda cometeu irregularidades e decidiu encerrar o contrato com a empresa. A montadora afirmou ainda que não tolera desrespeito à legislação brasileira e à dignidade humana e determinou a transferência de parte dos trabalhadores para hotéis da região.
No fim de 2025, o MPT-BA firmou um acordo de R$ 40 milhões com a montadora chinesa e duas empreiteiras, após ajuizar ação civil pública por trabalho análogo à escravidão e tráfico de pessoas.
Em nota, a BYD reiterou que mantém compromisso inegociável com os direitos humanos e informou que irá se manifestar nos autos da ação movida pelo órgão. (leia a íntegra da nota da ocasião)
Já no caso do cantor Amado Batista, ele aparece em duas autuações registradas em Goianápolis. Uma delas envolve o Sítio Esperança, com 10 trabalhadores, e a outra menciona o Sítio Recanto da Mata, com quatro trabalhadores. Ambas ocorreram em 2024.
O g1 procurou ambos os empregadores, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Os nomes dos empregadores só são adicionados no cadastro após a conclusão do processo administrativo que analisou o caso, com uma decisão definitiva, sem possibilidade de recurso (entenda mais abaixo).
No geral, cada nome permanece na lista por um período de dois anos. No entanto, uma portaria publicada em julho de 2024 criou novas regras que permitem a retirada antecipada do cadastro, ou até mesmo a sua não inclusão.
Nesses casos, os empregadores passam a fazer parte de outra lista, o Cadastro de Empregadores em Ajustamento de Conduta. No entanto, podem voltar à “lista suja” se descumprirem os compromissos assumidos ou se reincidirem na prática de condições análogas à escravidão.
O Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), que atua em todo o território nacional, completou 30 anos em 2025. Desde sua criação, em 1995, mais de 68 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão.
Ao longo das operações, mais de R$ 160 milhões em verbas salariais e rescisórias foram assegurados aos trabalhadores. Esse resultado é fruto da atuação da Auditoria-Fiscal do Trabalho, responsável pela coordenação do GEFM.
Como alguém vai parar na ‘lista suja’?
- Auditores-fiscais do trabalho do MTE realizam constantemente ações fiscais de combate ao trabalho análogo à escravidão, que podem contar com a participação de integrantes da Defensoria Pública da União, dos Ministérios Públicos Federal e do Trabalho, da Polícia Federal, Polícia Rodoviária, entre outras forças policiais.
- Quando, durante essas ações, são encontrados trabalhadores em condição análoga à escravidão, um auto de infração é lavrado.
- Cada auto de infração gera um processo administrativo, no qual as irregularidades são apuradas e os empregadores têm direito à defesa.
- Pessoas físicas ou jurídicas só são incluídas na “lista suja” quando o processo administrativo que julgou o auto específico de trabalho análogo à escravidão em relação àquele empregador é concluído, com decisão sem possibilidade de recurso.
Denúncias de trabalho escravo podem ser feitas de forma remota no Sistema Ipê, lançado em maio de 2020 pela Secretaria de Inspeção do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho.
Este é o canal específico para denúncias de trabalho análogo à escravidão. O denunciante não precisa se identificar, basta acessar o sistema e inserir o maior número possível de informações.
por NCSTPR | 08/04/26 | Ultimas Notícias
Sindicato não deve ser balcão: é trincheira e escola política dos trabalhadores
Reduzido à negociação salarial, o sindicalismo perde sua força transformadora. Quando assume seu papel formador, torna-se peça central na disputa por poder e consciência no Brasil.
Marcos Verlaine*
A luta sindical deve ir muito além do contracheque, da disputa econômica. Reduzir o sindicato à mera negociação de salários é esvaziar sua essência histórica. O sindicalismo nunca foi apenas ferramenta para luta salarial.
Sempre foi, sobretudo, espaço de formação política, organização coletiva e construção de consciência de classe, independentemente de todo avanço tecnológico. Porque é mito que as máquinas substituirão as pessoas, pelo menos integralmente.
Quando limitado ao reajuste anual, o sindicato se torna mero prestador de serviços. Quando cumpre sua função plena, transforma trabalhadores em sujeitos políticos.
ESCOLA DE CONSCIÊNCIA DE CLASSE
O sindicato é, por natureza, uma escola. Não no sentido formal, mas como espaço vivo de aprendizado coletivo. É ali que os trabalhadores compreendem que sua condição não é individual, mas estrutural, coletiva.
A consciência de classe não nasce espontaneamente. Essa é construída, mediado: no e pelo debate, na mobilização, na troca de experiências.
Ao reconhecer interesses comuns, o trabalhador deixa de se ver como indivíduo isolado e passa a se enxergar como parte de uma força social.
Essa virada é decisiva: sem essa, há reivindicação; com essa, há projeto.
FORMAÇÃO POLÍTICA COMO ESTRATÉGIA
Experiências acumuladas por entidades como o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e Diesat (Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho) mostram que a formação sindical vai muito além da prática imediata.
Cursos, seminários e debates sobre economia, legislação trabalhista, história social e conjuntura política qualificam dirigentes e bases. Não se trata apenas de informar, mas de formar — de desenvolver capacidade crítica — para interpretar o mundo e agir sobre esse.
Sem essa dimensão, o sindicalismo se torna reativo. Com consciência de classe, torna-se estratégico.
DEMOCRACIA QUE SE APRENDE NA PRÁTICA
As assembleias sindicais são, muitas vezes, o primeiro espaço real de exercício democrático para milhões de trabalhadores. Ali se debate, se diverge, se vota e se decide coletivamente.
Esse processo educa para a cidadania ativa. Ensina que democracia não é apenas votar a cada 4 anos, mas participar, deliberar e assumir responsabilidades.
Num país de tradição autoritária, como é o caso do Brasil, essa pedagogia prática tem valor inestimável.
DISPUTA DE PODER E HEGEMONIA
O sindicalismo também atua na arena mais ampla da sociedade. Não apenas reage às políticas públicas, mas busca influenciá-las. Organiza mobilizações, pressiona o Legislativo, dialoga com o Executivo e participa de conselhos institucionais. Realiza eventos para a categoria profissional e econômica. Organiza o trabalhador para fazer luta coletiva.
Trata-se de disputar hegemonia: no sentido de construir visão de mundo capaz de orientar políticas e decisões. O sindicato, nesse contexto, deixa de ser apenas defensivo e passa a ser propositivo e organizativo.
É nesse ponto que a luta econômica se conecta à luta política, que tem várias dimensões: eleitoral, social, mudancista, emancipatória.
NOVAS AGENDAS, VELHOS DESAFIOS
O mundo do trabalho mudou. E o sindicalismo precisa acompanhar essa transformação. A chamada “4ª Revolução Industrial”, que trouxe consigo a precarização, a plataformização e os novos formatos de emprego e trabalho que exigem atualização constante.
Ao mesmo tempo, pautas como igualdade de gênero, combate ao racismo e sustentabilidade ampliam o escopo da atuação sindical. Não se trata de dispersão, mas de reconhecer que a exploração assume múltiplas formas.
A luta continua sendo de classe. Mas suas expressões são mais complexas.
ENTRE A BUROCRACIA E A TRANSFORMAÇÃO
O maior risco para o sindicalismo contemporâneo é a burocratização. Quando se afasta da base e se limita à rotina institucional, perde legitimidade e capacidade de mobilização.
Por outro lado, quando investe em formação, organização e consciência, sobretudo a de classe, recupera sua potência histórica.
O sindicato pode ser cartório ou pode ser escola. Pode administrar demandas ou pode formar sujeitos políticos.
PAPEL QUE NÃO PODE SER ABANDONADO
Num país marcado por desigualdade estrutural — desequilíbrios e injustiças sociais crescentes —, o sindicalismo continua sendo uma das poucas instituições capazes de articular interesses coletivos a partir da base social.
Mas isso só será possível se assumir plenamente seu papel formador. Se voltar a ensinar, organizar e politizar. Se compreender que salário é apenas o começo, nunca o fim.
Sem consciência, não há transformação. E sem sindicato como escola de política, os trabalhadores, como classe social, permanece fragmentada, vulnerável e facilmente capturada.
O desafio está posto: ou o sindicalismo retoma sua vocação histórica, ou será reduzido a mero intermediário de perdas.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
DIAP
https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/92845-sindicato-nao-deve-ser-balcao-e-trincheira