por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
Apesar da forte performance das bolsas globais em 2023, ainda é precipitado dizer que a recessão não irá ocorrer e já podemos celebrar a vitória
Um dos maiores consensos no final do ano passado era de que o mundo entraria em uma recessão em 2023. Essa contração da economia começaria pela Europa, e depois se alastraria para os EUA e outros países.
Afinal, a Europa estava sofrendo com os efeitos da guerra, a falta de gás, a altíssima inflação, entre outros desafios. Já a economia americana tem que sentir os efeitos da forte alta de juros feita pelo Fed em 2022, levando a uma contração do mercado imobiliário, uma retração do consumo e um aumento no desemprego.
O consenso é tão forte que, pela primeira vez na história, os economistas estavam prevendo uma recessão antes de ocorrer: 65% dos entrevistados pela Bloomberg esperam uma recessão para os próximos 12 meses, um recorde para períodos quando o movimento ainda não começou (dados desde 2008).
Ora, quem olha os dados passados sabe que, em geral, as projeções de uma recessão acontecem durante, ou até após, o início dela. Mas, como o “Sr. Mercado” gosta de testar todo grande consenso, o que vimos até agora não foi diferente.
Olhando para a performance dos ativos em 2023, é difícil de acreditar que poderíamos estar na iminência de uma recessão global. O S&P500 sobe quase 8%, a bolsa de tecnologia Nasdaq sobe próxima de 14%, Europa +11% e Ásia +7%. Ativos de maior risco como o Bitcoin e o Ethereum já sobem até 38% no ano.
Essa forte performance se enquadra em um dos melhores inícios de ano para as Bolsas globais em várias décadas. É claro que não podemos esquecer de onde viemos em 2022, com quedas expressivas nos mercados globais, tanto de renda variável, como nos títulos de renda fixa.
Por isso, a pergunta inicial: “A recessão global – que era tão esperada – já acabou?”
Antes de responder a essa questão, vamos olhar para o que levou a essa grande melhora de preços. Vemos algumas razões por trás dessa recuperação:
1) Maior resiliência da economia global, comprovada por dados econômicos recentes que mostram força do mercado de trabalho e consumidor nos EUA e na Europa;
2) A reabertura da economia chinesa, que deve impulsionar não só a China, mas também vários países dependentes da economia chinesa (Alemanha, Brasil, entre outros);
3) Arrefecimento da inflação. Os últimos dados de inflação publicados nos EUA vieram melhores que o esperado, e o presidente do Fed, Jerome Powell, já sinalizou que poderá mudar a postura, caso essa desinflação continue;
4) Melhora no balanço de oferta e demanda de energia, o que levou a uma queda expressiva dos preços de gás natural na Europa, e mantém o preço do petróleo abaixo dos US$90/barril. E, não menos importante;
5) Posicionamento do mercado: vários indicadores mostram que os investidores entraram esse ano bastante pessimistas – e posicionados de acordo. Dessa forma, a alta dos mercados teve de ser acompanhada de compras por muitos investidores, para voltarem a enquadrar suas carteiras, e não ficarem para trás em um rali de preços. Movimentos técnicos como esse acabam por exacerbar os ciclos de preço, tanto para cima, quanto para baixo.
Agora, voltando à pergunta principal, ainda nos parece precipitado dizer que a recessão não irá ocorrer e já podemos celebrar a vitória. A economia global pode estar numa encruzilhada, ao passo que o mercado de trabalho ainda apertado nos EUA sinaliza que a inflação pode demorar a ceder de volta para a meta de 2% do Federal Reserve. Isso coloca pressão nos Bancos Centrais para seguir subindo juros e tirando liquidez do sistema, ou seja, apertando as condições financeiras.
Por outro lado, caso a economia global piore repentinamente, a inflação pode ceder, mas às custas de uma recessão econômica. Nenhum dos dois cenários é muito positivo para ativos de risco.
O terceiro cenário, e o que parece estar entre as maiores probabilidades precificadas no mercado hoje, é o do pouso suave (“soft landing”).
Nesse cenário, a inflação voltaria para o centro da meta, mas sem a necessidade de a economia entrar em uma recessão. No jargão popular, esse seria “o melhor dos mundos”.
E como fica o Brasil nessa história?
O Brasil tem ficado para trás nesse rali global. Nossa Bolsa quase não sobe no ano e o Real está entre as piores moedas em relação ao Dólar nos últimos 3-4 meses, à frente apenas de países como Argentina, Rússia e Turquia. Além disso, o custo do dinheiro, medido pela curva de juros futuros, não para de subir.
Mas esse assunto fica para o próximo artigo.
INFOMONEY
https://www.infomoney.com.br/colunistas/fernando-ferreira/a-recessao-global-ja-terminou/
por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
Existem empresas com alta rotatividade de funcionários jovens, o que pode prejudicar os profissionais logo no início da carreira.
Sarah sempre sonhou em trabalhar na indústria de moda. Com 21 anos de idade, ela decidiu se mudar para Londres e ir atrás do seu sonho, em busca da carreira que ela amava.
“Como muitos outros jovens, eu era apaixonada pela moda”, ela conta. “Mas a realidade não era tão glamourosa.”
Depois de trabalhar por menos de um ano no varejo de moda, Sarah conseguiu um emprego de assistente de comércio eletrônico na matriz de uma marca de luxo global. Nos dois empregos, ela era rodeada por pessoas da mesma idade e com pensamento similar. Todos eles queriam ter sucesso no mundo da moda.
“É como uma indústria criativa: os jovens sempre gostam de trabalhar nela”, ela conta. “E os benefícios são bons, mesmo em vendas: nós conseguíamos produtos com grandes descontos todo o tempo.”
Mas Sarah acrescenta que sempre houve alta rotatividade no escritório, especialmente entre os funcionários de baixo escalão.
“Os funcionários jovens pediam demissão todo o tempo”, segundo Sarah. “Uma estagiária de 18 anos ficou apenas uma semana, quando percebeu que o seu emprego era essencialmente trabalho manual mal remunerado, com longas horas simplesmente carregando e embalando roupas devolvidas das sessões de fotografias.”
“Os estagiários que ficavam meses no emprego acabavam se demitindo com burnout”, ela conta. “Havia simplesmente uma rotatividade contínua de profissionais jovens impressionáveis e nada era feito sobre isso. Virou um teste para saber quem tinha mais resistência.”
Sarah ficou naquele emprego por dois anos. O entusiasmo de trabalhar no setor de moda logo virou tédio e frustração. “Tarefas administrativas por longas horas e salário baixo”, afirma ela.
Como a gerência não oferecia uma trajetória clara de carreira, nem havia sensação de progresso, Sarah conta que seu emprego acabou por imobilizá-la e ela se demitiu.
“A gerência e os funcionários sabiam que era um local de trabalho competitivo – que o seu emprego sempre estaria em alta demanda”, segundo Sarah. “Se você saísse, seria substituído por outro jovem profissional animado para estar ali.”
Especialistas afirmam que existem muitas empresas que contratam especificamente recém-formados que estão tentando ir atrás das suas paixões – muitas vezes, em carreiras competitivas ou até “glamourosas”.
Em alguns casos, pode ser ótimo para esses profissionais, que estão procurando uma forma de entrar em um setor dos seus sonhos. Mas, às vezes, os funcionários jovens podem ficar desmotivados em funções extenuantes com baixos salários, já que os empregadores sabem que as eventuais vagas sempre serão muito cobiçadas.
Estas situações podem fazer com que os profissionais em início de carreira, que estão procurando se estabelecer, fiquem vulneráveis ao burnout ou à desilusão logo no início da vida profissional.
‘Sem as sombras da experiência’
Muitos empregos são formados com a expectativa de que os profissionais jovens irão crescer dentro da empresa.
Muitas vezes, existem caminhos definidos para a promoção e objetivos a serem alcançados. Às vezes, as empresas chegam a oferecer programas de formação e desenvolvimento para orientar os funcionários recém-contratados a atingir cargos mais altos.
Mesmo se o progresso for trabalhoso, muitos empregadores preferem investir em profissionais que permaneçam na empresa.
Mas os especialistas afirmam que outras companhias adotam uma abordagem diferente. Elas formam infraestruturas nas quais contratam funcionários jovens com pouca ou nenhuma oportunidade de ascensão e os entopem de tarefas trabalhosas.
Nestas situações, as empresas muitas vezes esperam que esses jovens profissionais se demitam em algum momento, seja porque estão em um beco sem saída ou devido ao burnout gerado pelo cargo. Eles são então geralmente substituídos por outros profissionais jovens, que terão o mesmo destino.
É claro que, muitas vezes, espera-se que os funcionários jovens se esforcem nos primeiros anos das suas carreiras, mostrando ambição, persistência e resiliência no ambiente de trabalho – de certa forma, para ganhar experiência.
Mas nem todo profissional jovem sem um caminho explícito rumo ao crescimento fica em uma empresa que, intencionalmente, cria rotatividade entre seus talentos iniciantes, segundo a professora Helen Hughes, da Escola de Negócios da Universidade de Leeds, no Reino Unido.
Ela cita como exemplo o setor de relações públicas, em que os cargos iniciais de salário mais baixo “enquadram-se na trajetória de carreira da pessoa – a expectativa é que, nos estágios iniciais, você precisa assumir cargos de nível júnior antes de poder progredir.”
Mas algumas empresas decidem formar o que Hughes chama de “modelo de visão curta”. E existem muitas razões que levam as empresas a decidir pela rotatividade dos seus funcionários jovens, em vez de investir neles.
Em primeiro lugar, existem as implicações financeiras. Os recém-formados começam no ponto mais baixo da escada com salários iniciais e não têm as mesmas expectativas de compensação dos funcionários com experiência.
“Os empregadores, muitas vezes, contratam recém-formados para poder pagar menos”, segundo Dominik Raškaj, gerente de marketing do site de empregos Posao.hr, com sede na Croácia. “É, de fato, uma fonte de mão de obra barata e subvalorizada.”
Além disso, os profissionais iniciantes podem ser maleáveis e dispostos a aceitar determinadas condições de trabalho.
“Quanto menos experiência tiver o funcionário, mais aberta é sua mente e, geralmente, mais ele aceita em um ambiente de trabalho”, afirma Hughes. “Eles não têm as sombras da experiência, o que traz vantagens para o empregador – eles podem ser moldados com mais facilidade.”
Mas isso pode fazer com que os profissionais jovens que desejam entrar em uma carreira fiquem suscetíveis a empregos mal remunerados ou ambientes de trabalho tóxicos.
“Os recém-formados podem ser vulneráveis à exploração, por não terem adquirido experiência para saber o que está certo e o que não está”, afirma Hughes. “Os recém-formados podem ficar com a sensação de que tudo realmente é competitivo, de forma que eles ficam desesperados para aceitar um cargo desafiador que pode não oferecer as melhores condições.”
‘Pode distorcer a visão de uma pessoa’
Nestas situações, o risco imediato é o burnout.
Os profissionais podem ficar sobrecarregados pelas longas horas e imensas cargas de trabalho ou tarefas insignificantes. E, devido à sua falta de experiência, podem ser incapazes de defender seus interesses. Isso pode deixar os funcionários frustrados, no melhor dos casos, ou com alto nível de estresse, como ocorreu com Sarah.
Mas muitos acham que não têm escolha a não ser permanecer, especialmente se estiverem tentando entrar em determinados setores onde o ingresso é muito difícil. E, para os profissionais jovens desesperados para estabelecer-se em uma carreira competitiva, enfrentando longas horas e más condições de trabalho, os efeitos podem ser traiçoeiros.
“Alguns podem decidir permanecer até o burnout porque estão em início de carreira”, afirma Hughes. “Mas, sem as experiências do passado para orientá-los, o risco é que eles aceitem que aquilo é o que o mercado de trabalho oferece, as más condições se tornem o normal e o profissional jovem acabe pensando que aquilo é tudo o que ele vale.”
Isso pode ter efeitos sérios e duradouros para esses profissionais jovens, prejudicando suas expectativas sobre o que significa estar no mercado de trabalho.
“Você vê os profissionais começarem a sair, reduz os esforços e exibe comportamentos de demissão silenciosa”, afirma Jim Harter, cientista-chefe de administração e bem-estar no local de trabalho da empresa de pesquisas norte-americana Gallup. “Isso pode distorcer a visão de uma pessoa sobre o que significa uma carreira e seu relacionamento com o trabalho.”
“Os recém-formados podem ficar tão preocupados em conseguir um emprego que acham que qualquer coisa serve”, acrescenta Hughes. Mas trabalhar muito por longos períodos com salários baixos e sem solução à vista traz consequências de longo prazo.
“Você se ajusta às normas à sua volta – normas ruins – logo no início da carreira”, segundo ele.
A boa notícia é que o mercado de trabalho atual, favorável aos funcionários em muitos países ou setores, pode oferecer opções aos funcionários jovens, se eles acharem que estão sendo explorados em um cargo sem perspectiva de progresso, ou que o custo está ficando alto demais.
“Também existem agora mais perguntas sendo feitas sobre os empregos dos recém-formados”, afirma Hughes. “E existem mais denúncias sobre a falta de boas práticas de trabalho nas redes sociais, o que significa que a pressão por mudanças sobre as empresas que não cuidam dos seus funcionários jovens é maior.”
Mas, mesmo em uma era de falta de profissionais em muitos países e críticas online, muitos desses ambientes tóxicos ainda se mantêm. Isso significa que pode caber aos funcionários iniciantes reconhecer quando estão em má situação.
Identificar essa situação pode ser difícil, já que os funcionários com pouca experiência de trabalho podem não conhecer os padrões em um cargo inicial, em comparação com uma etapa mais à frente.
Sarah percebeu que o seu trabalho a forçava ao máximo e se demitiu. Mas, em vez de permanecer no mesmo setor de atividade, ela seguiu um caminho diferente. Agora, ela trabalha para uma agência de criação fora do setor de moda.
Sarah conta que está muito mais feliz no seu novo cargo, que oferece claras oportunidades de progresso, um trabalho desafiador e tarefas diárias variadas.
“[A moda] pode ter parecido um lugar impressionante para trabalhar”, afirma ela, “mas percebi que é muito mais importante ter um emprego gratificante do que um nome bonito no currículo.”
O sobrenome de Sarah é omitido por motivos profissionais.
por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
Previsão dos investidores supera o teto da meta definido pelo Conselho Monetário Nacional para este ano, que é de até 4,75%. Essa foi a nona alta seguida na estimativa de inflação para 2023.
Por Alexandro Martello, g1 — Brasília
Os economistas do mercado financeiro elevaram as estimativas de inflação deste ano e de 2024, e também passaram a projetar uma queda menor da taxa básica de juros, a Selic.
As informações constam do relatório “Focus”, divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Banco Central. Foram ouvidas mais de 100 instituições financeiras na semana passada sobre as projeções para a economia.
Em 2023, a meta central de inflação foi fixada em 3,25% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e será considerada formalmente cumprida se oscilar entre 1,75% e 4,75%.
Se confirmado, esse será o terceiro ano seguido de estouro da meta de inflação, ou seja, no qual o IPCA fica acima do teto fixado pelo sistema de metas. Em 2022, a inflação somou 5,79%.
Quanto maior a inflação, menor é o poder de compra das pessoas, principalmente das que recebem salários menores. Isso, porque os preços dos produtos aumentam sem que o salário acompanhe esse crescimento.
Para 2024, a projeção de inflação do mercado financeiro subiu de 3,93% para 4% na semana passada. Foi a quarta elevação seguida da previsão.
A meta de inflação do próximo ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3% e será considerada cumprida se oscilar entre 1,5% e 4,5%.
Atualmente, a taxa Selic está em 13,75% ao ano. O Copom também vem sinalizando de que os juros vão se manter altos por um período mais prolongado.
- O mercado financeiro elevou a expectativa para a taxa básica de juros da economia, a Selic, de 12,50% para 12,75% ao ano para o fim de 2023.
- Para o fim de 2024, a projeção do mercado para o juro básico da economia subiu de 9,75% para 10% ao ano.
Com isso, o mercado financeiro segue estimando queda dos juros neste ano e em 2024, mas em menor intensidade.
Para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, o mercado financeiro reduziu sua previsão de 0,79% para 0,76%.
O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país. O indicador serve para medir a evolução da economia.
Já para 2024, a previsão de crescimento permaneceu estável em 1,5%.
Veja abaixo outras estimativas do mercado financeiro, segundo o BC:
- Dólar: a projeção para a taxa de câmbio para o fim de 2023 permaneceu em R$ 5,25. Para o fim de 2024, continuou em R$ 5,30.
- Balança comercial: para o saldo da balança comercial (resultado do total de exportações menos as importações), a projeção recuou de US$ 57,6 bilhões para US$ 57,2 bilhões de superávit em 2023. Para 2024, a expectativa para o saldo positivo subiu de US$ 53,9 bilhões para US$ 56,5 bilhões.
- Investimento estrangeiro: a previsão do relatório para a entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil neste ano permaneceu em US$ 80 bilhões de ingresso. Para 2024, a estimativa de ingresso continuou também em US$ 80 bilhões.
G1
https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/02/13/mercado-sobe-estimativas-de-inflacao-em-2023-e-2024-e-passa-a-ver-corte-menor-nos-juros.ghtml
por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
Embora já tenha havido reajuste este ano, o valor do salário mínimo pode contar com novo aumento em 2023, afetando positivamente diversos benefícios, cujos valores e critérios de elegibilidade estão vinculados ao piso nacional. É o caso do BPC (Benefício de Prestação Continuada), abono salarial PIS/ Pasep, seguro-desemprego, aposentadoria e outros benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Em dezembro passado, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) editou medida provisória, que elevou o salário mínimo de R$ 1.212 para R$ 1.302, cujo valor está em vigência.
Com o objetivo de cumprir promessas de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem cogitando a possibilidade de oferecer novo aumento no piso nacional.
Proposta de piso nacional
No ano passado, após a vitória de Lula nas eleições, a equipe dele chegou a afirmar ser possível reajustar o salário mínimo para R$ 1.320, ideia que não agradou o novo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, uma vez que o incremento geraria custo adicional estimado em R$ 7 bilhões para os cofres públicos.
Com o intuito de chegar a consenso em relação a novo aumento do salário mínimo, Lula tem conversando com representantes de centrais sindicais. Além disso, grupo de trabalho anunciado pelo presidente foi criado em janeiro para elaborar, em 45 dias (prorrogáveis por mais 45), proposta de política de valorização permanente do piso nacional.
Novo reajuste
A previsão do governo federal é que o salário mínimo seja mantido em R$ 1.302 pelo menos até maio, quando novo reajuste pode ser anunciado. A expectativa é de isto ocorra em 1º de maio, Dia do Trabalhador.
“Se tiver espaço, haverá alteração. Não tem espaço? Vai manter R$ 1.302. Se o espaço que tem der para pagar R$ 1.315, vamos nesse valor. Conseguiu mais? Sobe para R$ 1.320”, disse Luiz Marinho.
Salário necessário
Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo ideal ou indispensável para atender às necessidades de família de 4 pessoas seria de R$ 6.641,58, em janeiro.
Este valor é feito segundo cálculos da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, do Dieese.
O valor sugerido corresponde a 5,2 vezes o piso federal atual, de R$ 1.302.
DIAP
https://diap.org.br/index.php/noticias/noticias/91242-valor-do-salario-minimo-2023-pode-ter-novo-aumento-em-maio
por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
A agência de inteligência da Coreia do Sul invadiu o maior grupo de sindicatos independentes no país. Foi um ataque flagrante aos direitos trabalhistas.
Kap Seol
A agência de inteligência da Coreia do Sul invadiu os escritórios da Confederação Coreana de Sindicatos (KCTU), a maior organização de sindicatos independentes do país e uma afiliada em 18 de janeiro.
A operação foi motivada por supostos laços entre quatro ex-agentes sindicais e atuais e agentes norte-coreanos, levantando receios de que o governo conservador esteja revertendo para métodos da era ditatorial de ataque ao trabalho através da organização conflitante com ameaças à segurança nacional.
Os golpes vêm em paralelo com os desejos do governo conservador, liderado pelo presidente Yoon Suk-yeol, que em derrubar os direitos trabalhistas como restrições às longas horas de trabalho e reduzir os pagamentos de pensão, enquanto aumenta os impostos da classe trabalhadora. Yoon foi eleito em março de 2022 com um discurso abertamente anti-laboral.
Primeira operação da agência de espionagem
Durante a incursão, trinta agentes da Agência Nacional de Inteligência (NIS) executaram um mandado de busca na sede da KCTU em Seul. Eles foram atrasados por horas de luta com o pessoal da KCTU, que os empatou até a chegada do advogado da confederação.
A KCTU é uma rede de sindicatos que cresceu para mais de um milhão de membros na 10ª maior economia do mundo. Integrantes do sindicato trabalham em um amplo número de indústrias, que vão desde a construção de automóveis e navios até setores emergentes, como o de assistência médica e engenharia de software.
Desde sua fundação em 1995 (sete anos após o fim da ditadura militar do país), a KCTU tem sofrido uma repressão rotineira por parte do governo — tanto das administrações conservadoras quanto liberais. Todos os dez presidentes da KCTU — desde sua fundação — foram presos ao menos uma vez durante seus mandatos. Mas essa é a primeira vez que o sindicato foi atacado diretamente pelo NSI, o equivalente da CIA e do FBI juntos.
Enquanto o mandado foi emitido para um único funcionário da KCTU por alegações de ligações com a agência de espionagem norte-coreana, mil policiais e bombeiros cercaram o prédio no que parecia ser uma façanha de marketing político. Isso foi o dobro do número de policiais inicialmente enviados a uma festa de Halloween em Seul, onde 158 jovens foram esmagados até a morte devido à falta de controle da multidão.
Em uma reviravolta, o NSI não prendeu o homem em questão, que supostamente seria uma ameaça à segurança nacional. Ao invés disso, os agentes apreenderam dados de seu telefone e computador e depois foram embora.
A situação foi semelhante no escritório do Sindicato Coreano dos Trabalhadores Médicos e de Saúde afiliado ao KCTU e em dois outros locais onde o NIS executou simultaneamente mandados de busca envolvendo três outros antigos e atuais funcionários do KCTU. A agência de espionagem e a polícia fizeram cenas espetaculares para a mídia e foram embora após baixarem dados dos dispositivos eletrônicos dos sujeitos.
Lei de segurança nacional
“A agência tem conduzido sondas privadas [nos quatro indivíduos] por violações da Lei de Segurança Nacional por muitos anos”, disse a agência de inteligência em um comunicado de imprensa. “Ela já obteve provas amarrando-os à Coreia do Norte, o que permitiu [ao NIS] obter os mandados”.
A Lei de Segurança Nacional sul-coreana proíbe viagens não autorizadas à Coreia do Norte e o contato com seu povo. Após a invasão, alguns noticiários conservadores citaram fontes anônimas do NIS dizendo que os funcionários do KCTU receberam ordens e dinheiro de norte-coreanos.
A Lei de Segurança Nacional foi promulgada no início de 1948, poucos meses antes da constituição fundadora do país, quando a Coreia do Sul se declarou a República da Coreia sob a tutela dos Estados Unidos, em meio a uma forte oposição de esquerda em casa e à ascensão de uma república comunista rival na metade norte da península coreana. Desde então, a legislação tem sido usada para suprimir a oposição doméstica e organizações trabalhistas sob o pretexto de ameaças militares do Norte.
A lei permaneceu intacta mesmo depois que o país iniciou a democratização no final dos anos 80, quando protestos em massa puseram um fim às três décadas de governo militar. Mesmo os presidentes liberais têm recorrido rotineiramente à lei e seu principal aplicador, o NIS, para impedir o trabalho organizado.
Em 1998, o grupo de direitos internacionais Anistia Internacional protestou contra o então presidente Kim Dae-jung, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2000, por prender vinte e cinco estudantes e ativistas trabalhistas acusados de violar a Lei de Segurança Nacional por formarem um “grupo pró-Coréia do Norte”.
“A aparente tentativa de vincular a agitação sindical às supostas atividades ‘pró-Coreia do Norte’ é alarmante e indica um retorno aos métodos autoritários de eliminar a dissidência”, disse a Anistia Internacional na época. “As prisões coincidem com uma greve geral e ameaças de ministros do governo para reprimir grevistas e manifestantes”, observou a Anistia.
Greve de caminhoneiros
O ataque recente ocorreu logo após a derrota de uma greve nacional de caminhoneiros independentes.
Em novembro, quando 25 mil caminhoneiros abandonaram o trabalho, alguns viram isso como o início de um tão esperado “inverno de descontentamento” contra as políticas antitrabalhistas de Yoon. Entre outras coisas, os motoristas-proprietários – membros de uma afiliada da KCTU – exigiam a expansão dos salários mínimos para todos os caminhoneiros e sua permanência. Os caminhoneiros em greve disseram que as taxas mínimas, determinadas por uma comissão conjunta de caminhoneiros, empreiteiros e o governo, ajudaram a reduzir as mortes e lesões nas estradas porque tais taxas desencorajavam a velocidade e o excesso de trabalho.
A greve terminou em derrota após dezesseis dias. Os sindicatos maiores não aderiram à ação, e o governo Yoon pressionou fortemente os caminhoneiros com uma série de ordens de retorno ao trabalho. Após seis anos de crescimento, o KCTU se viu na defensiva. Em contraste, o índice de aprovação de Yoon aumentou 9 por cento enquanto a repressão aos caminhoneiros reunia sua base conservadora.
A postura antigreve era bipartidária. Em 8 de dezembro, um dia antes da votação dos caminhoneiros para o fim da greve, o liberal Partido Democrático da Coreia, que controla uma pequena maioria na Assembleia Nacional, instou os grevistas a aceitar a proposta do governo para uma expansão limitada de três anos do regime de taxa mínima. O governo ainda não fez a extensão.
Os liberais também ficaram em silêncio sobre os ataques do NIS. Durante uma entrevista de quinze minutos na TV na noite após os ataques, Lee Jae-myung , o líder do partido da oposição e oponente de Yoon na última corrida presidencial, não disse uma palavra sobre o NIS ou o KCTU.
Enquanto isso, o NIS está tentando estender seus tentáculos outrora onipresentes para todos os cantos do país novamente. Em dezembro, a agência foi autorizada a “investigar e coletar informações” sobre altos funcionários do governo para fins de recursos humanos. A vigilância de civis pelo NIS foi proibida em 2020, após uma investigação que mostrou uso indevido desenfreado.
As novas diretrizes não especificam o escopo da coleta de informações, permitindo que a agência expanda a vigilância arbitrária e sem mandado. O NIS também tem feito lobby para a revogação de uma nova lei que removerá seus poderes de investigação doméstica até o final do ano. A legislação foi motivada por um escândalo de 2013, quando foi revelado que a agência manipulou evidências e torturou a irmã de um desertor de etnia chinesa do Norte para incriminá-lo como um agente norte-coreano.
Agenda antissindical
Um dia após a invasão da KCTU pelo NIS, a polícia sul-coreana invadiu dois escritórios nacionais de sindicatos de construção, conhecidos por sua militância, embora também prejudicados por rumores de corrupção.
Em seu discurso de ano novo televisionado em 3 de janeiro, Yoon pintou todo o trabalho organizado como uma elite egoísta privilegiada em comparação com os trabalhadores não organizados.
É provável que seu governo intensifique seu ataque aos trabalhadores, tentando colocá-los uns contra os outros e classificando alguns de seus líderes como corruptos e privilegiados — ou traidores pró-Coreia do Norte.
Ao longo do caminho, Yoon terá cada vez mais pouca opção a não ser usar a força e um aparato autoritário como o NIS — e achará cada vez mais difícil impor leis anti-trabalho.
O Partido Democrata, de oposição majoritária, vai paralisar sua agenda antissindical no Legislativo, mas apenas porque não quer que Yoon seja bem-sucedido, não porque o partido seja um aliado confiável do trabalho.
O ataque à KCTU mostra os desafios enfrentados pelos trabalhadores em vários países, à medida que os sindicatos enfrentam o ressurgimento de medidas autoritárias e repressivas em meio a ataques contínuos aos padrões de vida, salários e pensões. Essas questões globais exigem solidariedade global.
Kap Seol é um escritor e pesquisador coreano que mora em Nova York. Seus textos são publicados no Labor Notes, In These Times, Business Insider e outras publicações.
Fonte: Jacobin Brasil
Tradução: Sofia Schurig
Data original da publicação: 03/02/2023
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/o-governo-conservador-da-coreia-do-sul-esta-perseguindo-os-sindicatos/
por NCSTPR | 13/02/23 | Ultimas Notícias
Para além dos aspectos estritamente econômicos, as ações implementadas nos últimos dois anos enfatizaram a conexão entre segurança nacional e reindustrialização.
André M. Cunha, Andrés Ferrari e Luiza Peruffo
“Onde está escrito que a América não pode liderar o mundo na manufatura novamente? Por muitas décadas, importamos produtos e exportamos empregos. Agora, graças a tudo o que fizemos, estamos exportando produtos americanos e criando empregos americanos.”
(Joe Biden, State of the Union Address 2023)
Reindustrialização e Segurança Nacional
Em seu discurso sobre o estado da União, o presidente Biden destacou o vigor da economia estadunidense com a recuperação do setor manufatureiro e investimentos robustos na renovação da infraestrutura econômica, combate aos efeitos das mudanças climáticas, inovação tecnológicas e melhorias sociais. Nas estimativas oficiais, a gestão Biden gerou 12 milhões de empregos e estimulou 200 grandes empresas privadas a anunciarem US$ 700 bilhões em novos investimentos em setores-chave para o futuro da competitividade estadunidense, particularmente em semicondutores, energia, veículos elétricos, baterias e outros segmentos de fronteira tecnológica. Para além dos aspectos estritamente econômicos, as ações implementadas nos últimos dois anos enfatizaram a conexão entre segurança nacional e reindustrialização. Para garantir a capacidade de o país manter sua posição de poder hegemônico, haveria de se deixar para trás parte das políticas neoliberais.
Na perspectiva da administração Biden, a segurança nacional está intrinsicamente ligada ao desenvolvimento de políticas que reduzam gaps em infraestrutura física, humana e tecnológica. Isto fica claro no documento “National Security Strategy”, lançado em outubro de 2022. A estratégia da administração Biden-Harris assume que “… a era pós-Guerra Fria acabou definitivamente e uma competição está em andamento entre as grandes potências para moldar o que vem a seguir” (p.6). Para conter seus rivais estratégicos, os EUA não poderiam ficar à mercê das forças de mercado, cuja lógica durante os anos de predomínio do neoliberalismo foi a de distribuir a produção industrial em nível global de forma a atender aos interesses das corporações privadas: reduzir custos, maximizar a valorização das ações e garantir bônus generosos para os gestores.
Assim, a reindustrialização e as políticas de promoção de transformações na estrutura produtiva se tornaram temas ainda mais visíveis. A retomada do ativismo estatal por parte dos Estados Unidos (EUA) e dos países europeus, com ênfase em novas tecnologias digitais, economia verde e infraestrutura, busca contra-arrestar o movimento das últimas décadas de deslocamento da produção manufatureira para a região asiática, em geral, e a China, em particular. As estatísticas da ONU sobre contas nacionais nos permitem estimar que, no começo dos anos 1970, 75% do valor adicionado na indústria de transformação era gerado na Europa e na América do Norte, excluído o México. Em 2020, tal participação recuou para 40%. Neste mesmo período, os países asiáticos, incluindo Japão, passaram de 14% para 54%. No final dos anos 2020, a China, nova “fábrica do mundo”, detinha ¼ da produção manufatureira global, cabendo aos EUA a posição de segundo lugar.
Para reverter esta situação, a administração Biden aprovou novas legislações que se estruturam em torno da ideia de que o país precisa recuperar sua infraestrutura e sua capacidade de liderar as inovações tecnológicas e a produção manufatureira em setores-chave, bem como enfrentar desafios estruturais como a ascensão da China e as mudanças climáticas. Tais medidas envolveram, inclusive, mediações e apoios conjuntos de Democratas e Republicanos, o que não deixa de ser surpreendente neste período de tanta polarização. Este fato indica que há aspectos onde a convergência de visões é elevada, particularmente na conexão entre indústria e segurança nacional. Atualmente, cerca de duzentas mil empresas são fornecedoras de produtos, serviços e equipamentos utilizados pelas Forças Armadas estadunidenses no quesito armamentos. De acordo com a base de dados do SIPRI, entre 1991 e 2021, os EUA gastaram, em média, 3,9% do PIB anualmente em dispêndios militares. Isto equivale a quase o dobro da média mundial. Para se colocar em perspectiva, seguem os indicadores de outros poderes regionais ou globais, sempre como proporção dos respectivos produtos: Alemanha (1,3%), França (2,1%), Reino Unido (2,5%), Japão (1,0%), China (1,8%), Índia (2,7%) e Rússia (2,8%).
Muito Mais do Mesmo
Se a relação entre segurança nacional e indústria não é nova, cabe destacar que três políticas da administração Biden sinalizam para uma outra escala de investimentos e prioridades. Do ponto de vista quantitativo envolvem pelo menos US$ 2 trilhões (8% do PIB de 2002) em recursos orçamentários a serem dispendidos nos próximos anos em medidas de caráter estrutural. São elas: The Infrastructure Investment and Jobs Act”, que destina US$ 1,2 trilhão para investimentos em infraestrutura nos próximos dez anos, particularmente na renovação de estradas, pontes, redes de comunicação e energias renováveis; The Chips and Science Act, que prevê estímulos de US$ 280 bilhões para desenvolver tecnologias-chave e garantir a ampliação na produção de semicondutores; The Inflation Reduction Act, que enfatiza despesas de US$ 391 bilhões – e que podem atingir o dobro deste valor – para que o setor produtivo possa utilizar novas fontes de energia.
A The Economist analisou tais medidas em sua primeira edição do mês de fevereiro. Admite-se que as políticas de Biden já estão produzindo resultados concretos em termos de novos anúncios de investimentos nos setores beneficiados por subsídios, de novas plantas para a produção de semicondutores a segmentos relacionados à “economia verde”. Bancos e consultorias estão otimistas com as novas perspectivas. O Credit Suisse afirmou que o IRA pode tornar os EUA o líder global na economia de baixo carbono a partir dos anos 2030. Este banco estimou investimentos totais de US$ 1,7 trilhão com o IRA, o que equivale ao quádruplo dos subsídios já anunciados naquele programa – ou o dobro do seu teto em potencial.
O Citigroup sugere que os aspectos relacionados à redução de emissões serão positivos, ainda que apresente restrições aos elementos protecionistas. Perspectivas semelhantes aparecem no JP Morgan, Goldman Sachs, BlackRock, EY, dentre outros. A McKinsey fez eco às estimativas do Congressional Budget Office (CBO) de que o programa é consistente com a redução dos déficits públicos em até 238 bilhões na próxima década. Isto porque, se por um lado, o IRA prevê novos gastos totais de US$ 499 bilhões, entre estímulos ao setor produtivo, subsídios na saúde etc., e receitas de US$ 738 bilhões, entre novos impostos e eliminação de incentivos criados em administrações anteriores.
Em resposta à ampliação dos subsídios ao setor privado estadunidense, os países europeus estão trabalhando para rever sua legislação restritiva aos estímulos específicos a determinados setores da economia, o que a literatura especializada denomina de políticas verticais. Assim como nos EUA, os setores relacionados à mitigação dos problemas climáticos serão priorizados. O European Green Deal será financiado por recursos já previstos no Next Generation EU Recovery Plan, cujo orçamento é de 2,0 trilhões de euros. Cerca de 1/3 deste montante irá para os investimentos verdes. A Comissão Europeia denomina o Next Generation de o maior programa de estímulos da região, o qual tornará a Europa “mais verde, digital e resiliente”.
Para Além dos EUA: o retorno da política industrial
A política industrial nunca desapareceu completamente, nem mesmo nos EUA, que foi um pioneiro neste quesito com as iniciativas do seu primeiro Secretário do Tesouro, Alexander Hamilton. A assim-chamada proteção da indústria infante era umas estratégias centrais da jovem nação, assim como a criação de fontes de financiamento de longo prazo por meio da dívida pública. Ha-Joon Chang em seu “Chutando a Escada” detalha os instrumentos protecionistas utilizados pelas nações que se industrializaram primeiro, perpassando barreiras tarifárias e não tarifárias, controles sobre a disseminação de novas tecnologias, compras governamentais, financiamento público, investimentos em infraestrutura etc. Em “Concrete Economics”, Cohen e DeLong demonstram que a visão hamiltoniana perseverou nos EUA em diversos momentos históricos.
Chris Freeman e Luc Soete em “Economics of Industrial Innovation” dissecam a relação entre os gastos militares e as inovações tecnológicas na indústria moderna. Não raramente as tecnologias diruptivas na vida social foram desenvolvidas ou tomaram impulso por meio das demandas governamentais na área de segurança. Os custos e os riscos derivados de pesquisas básicas ou aplicadas são particularmente elevados para o que os economistas denominam de “inovações radicais”. Quando estas são percebidas como úteis desde a perspectiva militar, os governos das nações que disputam o poder global não hesitam em escapar das armadilhas do “orçamento equilibrado”. Mariana Mazzucato aprofundou argumentos e evidências em seus livros, tratando de perceber os sistemas de inovação e o papel do Estado Empreendedor, bem como a capacidade de programas estruturados em torno de “missões” – “vencer o nazismo”, “ir para a Lua”, “salvar o planeta da catástrofe climática” etc. – têm para catalisar processos virtuosos de inovação e de crescimento econômico.
Discute-se o retorno da política industrial desde a eclosão da crise financeira global (2007-2009), que foi um primeiro assalto às certezas propagadas pelo mainstream da Economia acerca dos benefícios do Estado mínimo, da liberalização comercial e financeira, das privatizações e da desregulamentação. Em paralelo, o avanço da China como uma potência manufatureira e tecnológica, a necessidade de criar empregos e de enfrentar as mudanças climáticas, e os desafios colocados pela revolução digital se tornaram o mote de mais de uma centena de experiências com novas políticas de promoção dos setores produtivos, conforme constatado por levantamento da Unctad.
Dentro das instituições multilaterais, usualmente mais refratárias ao ativismo estatal, Reda Charif e Fuad Hasanov, economistas seniores do Fundo Monetário Internacional (FMI), junto com colegas daquela instituição, estão na linha de frente do resgate da discussão sobre políticas de indução de transformações na estrutura produtiva. Este tema havia saído da agenda “correta” do mainstream da Economia na era das trevas da hegemonia da ideologia neoliberal. Em 2019, eles publicaram o paper “The Return of the Policy That Shall Not Be Named: Principles of Industrial Policy”. O sugestivo título nos permite evocar o poema “Two Loves” do Lord Alfred Douglas, que foi utilizado para incriminar o escritor Oscar Wilde no infame processo que resultou em sua prisão. Assim como a homossexualidade era considerada um desvio criminoso na Inglaterra vitoriana, o que hoje choca os espíritos mais elevados, a defesa do ativismo estatal ganhou o status de grave heresia. Evidências neste sentido aparecem no estudo “Crouching Beliefs, Hidden Biases: The Rise and Fall of Growth Narratives”, também de Charif e Hasanov.
Em “Promoting Innovation: The Differential Impact of R&D Subsidies” os pesquisadores do FMI exploram os efeitos das políticas de subsídio à inovação, ao passo que em “Industrial Policy for Growth and Diversification: A Conceptual Framework” enfatiza-se que países com estruturas produtivas mais densas e diversificadas responderam melhor aos desafios impostos pela pandemia da Covid-19. O que o FMI está constatando nunca deixou de ser o norte das pesquisas e trabalhos realizados por sucessivas gerações de economistas que se mantiveram distantes das simplificações das doutrinas convencionais, com destaque para Gabriel Palma, Ha-Joon Chang, Robert Wade, Alice Amsden, Dani Rodrik, Joseph Stiglitz, Mariana Mazzucato, Giovanni Dosi, Carlota Perez, para citar alguns. Da mesma forma, instituições como Unctad, Cepal e Unido seguiram recomendando as políticas de estímulo ao fortalecimento produtivo, tecnológico e comercial, especialmente em países emergentes e em desenvolvimento. A consultoria McKinsey constatou que tais políticas estiveram no centro do sucesso das economias de maior crescimento da renda per capita nos últimos cinquenta anos.
Para marcar seus dois anos de mandato, Biden comemora o que considera ser uma retomada da indústria de transformação e a realização do maior programa de investimentos em cinco décadas, o qual poderá redundar em mudanças profundas na economia nacional. O país se prepara para os desafios da disputa pelo poder global diante de rivais potentes, particularmente a China. Por isso mesmo, Biden afirmou em seu discurso sobre o Estado da União: “Não vou me desculpar por estarmos investindo para fortalecer a América. Investir na inovação americana, em indústrias que definirão o futuro e que o governo da China pretende dominar.”
André Moreira Cunha, Andrés Ferrari e Luiza Peruffo são docentes do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS
Fonte: GGN
Data original da publicação: 08/02/2022
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/reindustrializacao-e-seguranca-nacional-nos-estados-unidos/