por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
RUDOLFO LAGO
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, nem se deu ao trabalho de responder detalhadamente ao amontoado de bobagens do mico que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se viu obrigado a pagar por pressão do seu chefe com erisipela que ocupa o Palácio da Alvorada com ação de despejo programada para o dia 1º de janeiro.
Moraes concentrou-se apenas no mais flagrante dos erros do pedido do PL, erro travestido em esperteza, mas tão óbvio que chega mais a parecer ingenuidade. Em seu pedido, o PL considerou apenas o segundo turno da eleição. E ainda arriscou incluir uma nova conta do resultado apenas da eleição presidencial que, agora, daria uma vitória pela mesma apertada margem do resultado final para Jair Bolsonaro.
Bem, as urnas eletrônicas utilizadas no segundo turno são as mesmas que foram usadas no primeiro turno. E são as mesmas utilizadas para o registro dos votos em deputados federais e estaduais e em governadores.
O PL de Valdemar Costa Neto elegeu 99 deputados federais. Elegeu mais oito senadores. Terá, então, as maiores bancadas tanto na Câmara como no Senado (desta vez, elegeu-se um terço do Senado, com os senadores que já tinha o PL terá uma bancada de 13).
Além dos parlamentares eleitos pelo PL, há ainda outros aliados do presidente atual, Jair Bolsonaro, que se elegeram por outros partidos. Caso da turma do Republicanos, como o vice-presidente Hamilton Mourão (RS) e a ex-ministra Damares Alves (DF), eleitas para o Senado pelo Republicanos.
E há os governadores aliados de Bolsonaro. O caso mais notório é Tarcísio de Freitas, eleito governador de São Paulo. Eis aí o busílis, como se dizia antigamente: Valdemar vai querer melar a eleição de todo mundo? Porque melar somente a de Luiz Inácio Lula da Silva, que mandará em 1º de janeiro Bolsonaro de volta para sua casa na Barra da Tijuca não dá.
Moraes impôs ainda outro nó no xeque-mate que deu em Valdemar. Se ele foi capaz de fazer um cálculo em cima da perna sobre a eleição presidencial, então que faça também o mesmo cálculo sobre as demais. Quem serão os deputados e senadores com suas cadeiras em risco? Os governadores?
O que aumenta a encalacrada de Valdemar é que o próprio autor da bobajada que amparou a ação do PL, o engenheiro eletrônico Carlos Rocha, afirmou que o seu estudo não se destinava a contestar votos, mas o funcionamento das urnas. O que ele diz ter questionado foram supostos problemas no funcionamento dos equipamentos eletrônicos, sem avançar no sentido de dizer que isso determinaria de fato algum erro na contabilização dos votos. Ou seja, a conta feita por Valdemar no caso da eleição presidencial foi em cima da perna mesmo.
O problema é que ainda que tivessem acontecido os problemas apontados por Carlos Rocha, eles não afetam a contagem dos votos daquelas urnas. E, como disse ao UOL o professor ivar Hartman, do Insper, ainda que se admitisse a necessidade de recontagem dos votos de tais urnas, isso seria muito fácil de fazer. Basta registrar os votos dessas urnas novamente e contar de novo. As urnas eletrônicas permitem que a contabilização total da eleição se dê em poucas horas. Ou seja, rapidamente resolve-se essa querela.
Na turma bolsonarista mais radical, a deputada Bia Kicis (PL-DF) chegou a declarar no Twitter que até correria o risco do seu mandato e de outros em nome do tal questionamento. Ela até pode colocar o seu mandato na reta. Mas Valdemar coloca na reta a grana em que irá sentar administrando o mais gordo fundo partidário do país?
Até as pombas do pombal em forma de prendedor de roupa que fica no meio da Praça dos Três Poderes sabem que Valdemar não filiou Bolsonaro ao seu partido porque morre de amores ao atual presidente. Valdemar colocou Bolsonaro no PL porque gosta de poder. Da mesma forma como colocou no seu partido José Alencar para ser vice de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.
Valdemar sabia que filiando Bolsonaro imediatamente se tornaria o chefe do maior partido do país. Como se tornou. A turma bolsonarista do antigo PSL murchou o União Brasil e foi para a sigla de Valdemar. Sabia que Bolsonaro vencendo ou não as eleições presidenciais, o PL sairia bem maior do pleito congressual. Como saiu. E sabia que é esse pleito congressual, para a Câmara, o definidor de todo repasse de dinheiro e tempo de TV dos partidos. Ele é a base de cálculo para tudo.
Feitas as contas, Valdemar concluiu que era bom negócio incluir o tiozão do pavê no seu partido, ainda que isso significasse ter Bolsonaro no seu ouvido fazendo pregações golpistas. Até onde de fato o Boy, seu apelido de Mogi das Cruzes, irá com isso é o ponto. Segundo informações, Valdemar inclusive procurou ministros do Supremo para se desculpar da ação. Até porque é bom lembrar que Valdemar precisa considerar ao comprar uma briga dessas com a Justiça seu próprio passivo jurídico.
É um jogo de pôquer. Valdemar blefou. Alexandre de Moraes pagou para ver…
RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.
CONGRESSO EM FOCO
por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
O União Brasil oficializou, nesta quarta-feira (23), o apoio do partido à recondução do deputado federal Arthur Lira (PP-AL) à Presidência da Câmara. O partido chegou a sonhar com a presidência da Casa, cogitando o nome do deputado federal Luciano Bivar (União-PE), que poderia ter o apoio do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na articulação.
“Lira, confiamos na sua imparcialidade e defesa do poder Legislativo”, disse o presidente do União, Luciano Bivar. Na coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira (23), nem Bivar, nem o líder do partido na Câmara, Elmar Nascimento (União-BA), confirmaram as especulações de que o partido pode formar uma federação com o PP.
O União Brasil tem a terceira maior bancada na Câmara, atrás apenas do PL e da federação liderada pelo PT. O partido também anunciou a recondução de Elmar Nascimento na liderança do partido.
CONGRESSO EM FOCO
por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
NOVO GOVERNO
EDSON SARDINHA
O PT admite que enfrenta dificuldade para avançar com a PEC da Transição, que permitirá ao governo Lula excluir as despesas com o Auxílio Brasil (ou Bolsa Família) do teto de gastos. A possibilidade de conseguir a autorização do Congresso para furar o teto por quatro anos ficou remota nos últimos dias. Também não entendimento quanto ao valor que poderá ser abrangido pela PEC.
O Centrão quer condicionar seu apoio à proposta à necessidade de renovação da licença a cada ano e à transformação das emendas de relator em impositivas. A ideia é criar dificuldade para vender facilidade, obrigando o novo governo a negociar ano a ano.
Partidos aliados propõem um meio-termo, com a liberação por dois anos. O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin lidera as negociações com uma dezena de partidos.
“Hoje esse [período da licença] é o maior ruído que temos dentro do Congresso Nacional, mas tenho repetido que o Congresso terá sensibilidade para, como uma Casa que é da política, que é representante do povo, ter uma solução que seja mais duradoura, que a gente tenha previsibilidade”, reconheceu nesta quarta-feira (23) a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR).
Um dos articuladores da PEC, o senador Paulo Rocha (PT-PA) diz que a proposta vai prever a liberação de R$ 175 bilhões fora do teto de gastos a partir de 2023. Segundo ele, a medida só faz sentido se valer por quatro anos.
Em entrevista à Reuters, o senador Marcelo Castro (MDB-PI), relator do orçamento e provável autor da PEC da Transição, afirmou que o governo precisará de deixar pelo menos R$ 100 bilhões fora do teto de gastos.
“Só temos condição de fazer o orçamento se tiver a PEC. Sem a PEC, não tem como, nem aumento de servidor, nem aumento de salário mínimo, nem Farmácia Popular nem nada, não tem o que fazer. O orçamento que está aí é inexequível”, disse o relator.
AUTORIA
EDSON SARDINHA Diretor de redação. Formado em Jornalismo pela UFG, foi assessor de imprensa do governo de Goiás. É um dos autores da série de reportagens sobre a farra das passagens, vencedora do prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009. Ganhou duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog. Está no site desde sua criação, em 2004.
CONGRESSO EM FOCO
por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
O Reino Unido entrou oficialmente em recessão. No ano em que o país trocou de primeiro-ministro duas vezes, as perspectivas econômicas são sombrias, com a inflação no nível mais alto dos últimos 41 anos e projeções de alta de desemprego. Mas o antídoto encontrado pelo governo para combater a crise é velho conhecido e dá calafrios à população: um novo plano de austeridade. O pacote anunciado pelo xerife das Finanças estima um aumento de tributos e cortes de despesas que somam 55 bilhões de libras, ou pouco mais de R$ 350 bilhões.
Isso significa que o país vai apertar o cinto no momento em que a economia começa a minguar, o que causa arrepio na população e no próprio partido conservador. Os cidadãos se vêem diante da dissipada do custo de vida, expectativa de redução de pelo menos 500 mil postos de trabalho, enquanto os juros da casa própria sobem e os salários encolhem. O país enfrenta a maior perda de qualidade de vida de que se tem notícia, desde que os dados começaram a ser contabilizados. Para o governo, a solução não é menos assustadora. No poder há 12 anos, os conservadores tentam se equilibrar como podem depois de perder dois premiês no mesmo ano, enquanto se preparam para enfrentar eleições gerais em 2024. Isso se conseguirem evitar que o pleito seja antecipado como querem oposição e alguns segmentos da sociedade.
O pacote anunciado pelo governo não é nada popular e pode se encarregar de acabar de vez com a paciência do eleitor com o partido da situação. Tudo isso pode ser a pá de cal para os conservadores na próxima eleição. Se o pleito fosse hoje, a oposição trabalhista seria eleita com grande vantagem. Os trabalhistas, por sinal, acusam os conservadores de estarem “batendo as carteiras” dos cidadãos.
Só de aumento de impostos são 25 bilhões de libra. É importante lembrar que esse pacote vai no sentido oposto do conjunto de medidas anunciado pela ex-primeira-ministra conservadora Liz Truss, substituta de Boris Johnson, que ficou no cargo por apenas 44 dias. Ela pregava o congelamento e o corte de tributos para estimular o crescimento econômico. Essa, aliás, foi a principal razão para que caísse. Seu pacote não tinha lastro na vida real. O governo do conservador Rishi Sunak revogou todas a partir do primeiro dia. E agora mostra que não vê solução para crise atual que não seja o arrocho.
O ministro britânico das Finanças, Jeremy Hunt, atribuiu as turbulências econômicas muito mais ao cenário internacional e à guerra da Rússia na Ucrânia. Ele não faz menção aos efeitos das medidas da ex-premiê, tampouco às consequências nefastas do Brexit, cada vez mais aparentes na economia britânica.
Apertando o cinto
Neste pacote, o governo mantém a ajuda às famílias para pagar as contas de energia. Mas será um auxílio menor do que o prometido inicialmente. O aumento do salário mínimo também foi garantido. Mas criou reações nas empresas de pequeno porte, que alegam que este será mais um custo que terão de enfrentar
Os conservadores apostam que as medidas anunciadas ao parlamento devem mostrar a luz no fim do túnel. Mas o fato é que o braço do governo responsável pelas projeções econômicas para montar o orçamento afirma que a economia do Reino Unido vai diminuir 1,4% no ano que vem. Isso só agrava a difícil situação das famílias que vêem seus salários encolherem e os preços nos supermercados dispararem.
Não por acaso seguem as greves de categorias diversas por todo o país. Enfermeiros devem ser os próximos. Nos últimos meses, as greves de trens e metrô têm causado prejuízos à economia e transtornos à vida do cidadão comum, que já paga uma das tarifas mais altas do mundo para utilizar o sistema de transportes.
No setor imobiliário, os sucessivos aumentos das taxas de juros anunciados pelo Banco da Inglaterra, o Banco Central inglês, devem complicar ainda mais o déficit habitacional do país. Especialistas dizem que pessoas com mais de 40 anos que já não tenham seu imóvel podem esquecer o sonho casa própria.
O que se vê agora é que os conservadores, sob o comando de Sunak, retomam a bandeira da austeridade fiscal dos últimos anos. O Sunak premiê é bem diferente daquele Sunak que foi ministro das Finanças durante a pandemia, que pregou a heterodoxia e a abertura dos cofres públicos para enfrentar as crises sanitária e econômica.
Fonte: RFI
Texto: Vivian Oswald
Data original da publicação: 18/11/2022
DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/reino-unido-anuncia-novo-plano-de-austeridade-para-combater-recessao/
por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
“Ainda que tenha uma mobilização mais ou menos espontânea, e sentimentos mais ou menos reais envolvidos, é preciso ter em mente as perguntas fundamentais: quem ganha e o que se ganha com isso?”, questiona o sociólogo
Por: Patricia Fachin | 23 Novembro 2022
O “vetor antissistema” é o que explica a adesão de grupos sociais às manifestações e aos acampamentos que estão ocorrendo em frente de alguns quartéis desde o encerramento das eleições presidenciais com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, segundo Piero Leirner. “Hoje, eu tenho a impressão de que este tema galvanizou mais gente. Não exatamente porque a credibilidade dos militares aumentou – pelo contrário, ela vem decaindo –, mas porque esse ‘vetor antissistema’, que já estava sendo mobilizado desde lá de trás, fica o tempo todo se movendo por nichos onde ele pode aderir. Em 2015, isso estava se aglutinando num antipetismo meio difuso; depois positivou na figura de Bolsonaro – que tem um comportamento de algoritmo, ele conduz a adesão a ele conforme a expectativa do ‘cliente’; agora, depois que Bolsonaro perdeu, este ‘sentimento outsider’ está procurando esse novo nicho, um militarismo ‘purificado’ que junta guerra, religião, moral, ideologia ultraindividualista e interesses econômicos”, diz na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Autor do livro O Brasil no espectro de uma guerra híbrida (Alameda Editorial, 2020), Leirner explica a “guerra híbrida” em curso no país, onde “políticos, juízes e generais não podem mais ser tomados como peças separadas” e comenta o papel dos militares diante das manifestações. “Há quatro anos, o TSE/STF era o algoz do PT, que dizia que eleição sem Lula era fraude, e pavimentou a eleição de Bolsonaro; hoje, Bolsonaro sugere que a eleição é fraude porque o TSE/STF pavimentou a eleição de Lula. Essas comutações de posição e inversões em série são típicas de manobras ‘em looping’ de guerras híbridas – que, aliás, em manuais colocam por escrito que ‘desestabilizar eleições em países inimigos’ é mais eficaz e barato do que promover ações militares convencionais. Aqui no Brasil, pelo visto, o ‘país inimigo’ é o próprio”. O maior desafio do novo governo nesta conjuntura, acrescenta, “é saber sair dessa espiral do inferno”.

Piero Leirner
Foto: Arquivo pessoal
Piero Leirner é graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Social (Antropologia Social) e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo – USP. É também professor titular de Antropologia da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.
Confira a entrevista.
IHU – Como o senhor interpreta as manifestações de grupos bolsonaristas desde o resultado das eleições presidenciais, especialmente os slogans que reivindicam “intervenção militar” e “liberdade”?
Piero Leirner – O primeiro problema a ser considerado são as qualificações “grupos” e “bolsonaristas” aos manifestantes que neste momento estão produzindo intervenções na frente de quartéis e em espaços públicos como estradas. Suspeito que deve ter de tudo lá – de “grupos” mesmo (por exemplo, famílias de militares de determinadas regiões, que se entendem como grupos em outras ocasiões), passando por “organizações” (redes financiadas, setores empresariais) e até alguma adesão voluntária, individual. Isso segue padrões que já podiam ser vistos bem lá atrás, de 2013 a 2016. Naquela época quem pedia “intervenção militar” era mais quem tinha ligação com a chamada “família militar”, isto é, redes de militares das Forças Armadas e seus familiares. Note que no livro de entrevista do general Villas Bôas a Celso Castro já há uma indicação que o Comando do Exército monitorava a “família militar” nessas manifestações, mas não diz exatamente o que eles estavam fazendo lá; com uma rápida pesquisa, foi possível ver a ligação.
Hoje, eu tenho a impressão de que este tema galvanizou mais gente. Não exatamente porque a credibilidade dos militares aumentou – pelo contrário, ela vem decaindo –, mas porque esse “vetor antissistema”, que já estava sendo mobilizado desde lá de trás, fica o tempo todo se movendo por nichos onde ele pode aderir. Em 2015, isso estava se aglutinando num antipetismo meio difuso; depois positivou na figura de Bolsonaro – que tem um comportamento de algoritmo, ele conduz a adesão a ele conforme a expectativa do “cliente”; agora, depois que Bolsonaro perdeu, este “sentimento outsider” está procurando esse novo nicho, um militarismo “purificado” que junta guerra, religião, moral, ideologia ultraindividualista e interesses econômicos. Por isso, vemos essa coisa contraditória, “intervenção militar e liberdade”. Dito isso, ainda que tenha uma mobilização mais ou menos espontânea, e sentimentos mais ou menos reais envolvidos, é preciso ter em mente as perguntas fundamentais: quem ganha e o que se ganha com isso? Aí a gente vê a outra ponta: atores conscientes que estão usando este fato para seus interesses.
Há uma máquina que opera (n)essas redes de forma blindada e criptografada, que é organizada, coesa, hierárquica e autorregulada, que é a máquina militar – Piero Leirner
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IHU – O que estas manifestações indicam?
Piero Leirner – Vamos sair da perspectiva de que há “grupos” como se fossem categorias mais ou menos estanques. Então há grupos e redes, e indivíduos. Outra coisa é o que está acontecendo neste meio-tempo e o que vai acontecer futuramente, se daí vai sair alguma coisa mais organizada. A julgar pela dinâmica geral desse campo, que podemos chamar de “ultradireita”, desde 2015-2016, eles têm uma tendência muito volátil. Eles se aglutinam, formam grupos que logo depois se dissolvem. Mas o “metacampo” ultradireita continua a existir, e repete essa operação de tempos em tempos. Isso tem a ver com várias coisas, que vão da própria natureza do “outsider” convertendo-se em parte do “jogo” até a dinâmica “plataformizada” que opera numa simbiose entre internet, rede social e redes sociológicas concretas, como bem mostra minha colega Letícia Cesarino em vários textos e entrevistas.
No entanto, há uma máquina que opera (n)essas redes de forma blindada e criptografada, que é organizada, coesa, hierárquica e autorregulada, que é a máquina militar. Aí o “espontaneísmo” desce a níveis mínimos. Esta tem um comando que sabe o que faz, e está em um lugar que não é trivial, pois não só representa um centro de força como também de informações, com uma gigantesca engrenagem de ferramentas à disposição para produzir direcionamentos políticos. E não só eles, mas – é preciso dizer – toda a máquina punitiva, isto é, o Judiciário também – só que este com dispositivos mais ortodoxos e mais claros de constrangimento. Então, quando pensamos nestes termos, o que dá para dizer do Brasil? Em poucas palavras, “as instituições não estão funcionando normalmente”.
O que dá para dizer do Brasil? Em poucas palavras, “as instituições não estão funcionando normalmente” – Piero Leirner
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IHU – O que significa o silêncio das Forças Armadas, do ponto de vista institucional, diante dos protestos e dos acampamentos em frente aos quartéis? A postura dos militares joga por terra todas as análises interpretativas sobre possibilidade de golpe no país nos últimos anos?
Piero Leirner – Não é muito silencioso, né? Houve aquela nota horrorosa, e há manifestações de militares – como a de um general de Divisão na 10ª Região Militar, em Fortaleza. E de militares da reserva que estão, sim, sujeitos à lei e, portanto, à hierarquia e disciplina. Como é uma cadeia de comando, tudo que é feito em uma instância reflete-se, de alguma forma, também no topo – que está endossando o que seus subordinados fazem ou deixam de fazer. Então, precisamos voltar àquelas perguntas acima: quem ganha e o que se ganha com isso?
Seria uma certa ingenuidade achar que, para o topo da cadeia de comando ter manifestantes rezando em muros de quartéis emulando o Muro das Lamentações – e assim passando a sensação de que estamos diante de algo psiquiátrico-hospitalar de tanta dissonância cognitiva –, isso tudo é só um “reconhecimento ao brio e honra militares”. Então do que se trata? Para entender o que um militar pensa, é preciso recorrer aos fundamentos do que, como e para que ele pensa. E isso é uma questão de “pensar (n)a guerra”, não na religião nem na política somente.
Para entender o que um militar pensa, é preciso recorrer aos fundamentos do que, como e para que ele pensa, e isso é uma questão de “pensar (n)a guerra” – Piero Leirner
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Desse ponto de vista, a minha interpretação vai na seguinte direção: seu interesse no momento é o da desestabilização e, por isso, quanto mais a performance na frente dos quartéis parecer uma coisa de malucos e fanáticos, melhor para eles. Maior é a sensação fabricada de que as coisas podem fugir do controle. E por que eles querem desestabilizar? Porque o “dispositivo de contraefetuação da estabilização” – por ora, vamos chamar assim a “política” que venceu as eleições – deve ser, do ponto de vista desta máquina militar, emparedado para ser controlado. Note que para tudo isso fazer efeito é preciso que toda esta coisa se torne bastante verossímil, a ponto de até mesmo militares entrarem no jogo. Mas o topo da cadeia de comando deixa a coisa correr de forma consciente, pensada e calculada. Tudo poderia facilmente ser resolvido numa canetada, numa nota.
O topo da cadeia de comando deixa a coisa correr de forma consciente, pensada e calculada. Tudo poderia facilmente ser resolvido numa canetada, numa nota – Piero Leirner
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IHU – O senhor declarou recentemente que as manifestações em frente aos quartéis “servem para manter os militares com cacife para pressionar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva”. Pode explicar melhor essa ideia?
Piero Leirner – Para entender, é preciso recuar até o “problema das urnas”, que está na raiz desse processo de desestabilização. Note que antes ele tinha sido sequestrado por Bolsonaro, depois os próprios militares, vendo que a operação inicial já tinha cumprido seus requisitos, entraram como “coadjuvantes que passaram ao protagonismo”. Por que digo que a “operação inicial” já cumpriu seus requisitos? Porque o papel de Bolsonaro nessa história era bem claro: produzir o consenso contrário de que as urnas eram infalíveis e deixar todo o problema da auditoria etc. como uma espécie de narrativa fantasiosa, maluca e, de fato, cheia de furos. Porque Bolsonaro só associou ao “problema do artefato urna” narrativas idiotas; de outro lado, havia gente séria e bastante discussão acadêmica que procurava aperfeiçoar a confiança do artefato “urna”, inclusive com a impressão do voto tal como prometia fazer o modelo apresentado por Gilmar Mendes no Tribunal Superior Eleitoral em 2017. Colocar Bolsonaro nessa equação é a certeza de melar o jogo. E o que os militares ganharam com isso? Eles, a partir daí, se colocaram como uma segunda instância de validação da urna, inclusive convidados pelo ministro [Luís Roberto] Barroso. Era a senha que precisavam para controlar a estabilidade do processo, pois passaram a ter o poder de justamente torná-lo instável.
Então, de certa forma todo desdobramento que vemos agora passa pelas mãos deles. Se eles baterem o carimbo, um acordo se forma e o governo de conciliação pós-caos bolsonarista segue em céu de brigadeiro. Enquanto eles não fazem isso, o futuro governo gasta sua energia em tentar estabilizar o Brasil polarizado. Se olharmos o que está acontecendo, vamos perceber que o “algoritmo bolsonarista” quase todo migrou para as Forças Armadas. Na minha opinião, isso tem a ver com a tomada de controle do processo eleitoral, que ainda não se resolveu.
O papel de Bolsonaro nessa história era bem claro: produzir o consenso contrário de que as urnas eram infalíveis, e deixar todo o problema da auditoria etc. como uma espécie de narrativa fantasiosa – Piero Leirner
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IHU – Em que consiste a guerra híbrida que tem ocorrido no Brasil, tema do seu livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”? Quem são os atores dessa guerra e com quais propósitos ela tem ocorrido?
Piero Leirner – É uma questão muito ampla, que transcende o Brasil e o momento atual. Só permita-me dizer, para que fique claro o que disse acima: o que vem a ser o “híbrido” dessa forma de guerra? Basicamente é quando se junta duas ou mais coisas que eram separadas ou independentes e elas passam a existir de forma dependente, numa relação em que uma não opera mais sem levar em conta os efeitos na outra, e supondo que os efeitos na outra terão por sua vez efeitos em si mesma, em uma retroalimentação. Na guerra híbrida, por exemplo, guerra, política e direito estão nessa relação, e assim seus agentes principais também: políticos, juízes e generais não podem mais ser tomados como peças separadas. Quando vemos este imbróglio entre urnas, eleições e política sob a óptica de manobras e engrenagens de guerras híbridas, entendemos por que, por exemplo, fica mais difícil falar de uma quartelada, um golpe “clássico” hoje em dia. Claro que tudo isso deve ser considerado dentro de cenários; não é uma bola de cristal nem uma profecia autorrealizável líquida e certa, como alguns querem fazer acreditar quando se enuncia as palavras guerra e híbrida.
O “algoritmo bolsonarista” quase todo migrou para as Forças Armadas – Piero Leirner
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IHU – Um dos conceitos abordados no livro é o de “cismogênese, ou seja, a criação de divisões sociais com o objetivo de impossibilitar qualquer pacto social”. Pode explicar como isso tem acontecido a partir da política?
Piero Leirner – Não é bem disso que se trata a cismogênese – “impossibilidade de pacto social”. A começar por esta ideia de pacto social, acho ela meio ruim, pois supõe toda uma cosmologia que coloca como “dado” que haveria um outro “estado” (por exemplo, uma “natureza” de tipo hobbesiano) e que um tipo de acordo faz emergir essa coisa chamada sociedade. Não é bem assim que as coisas funcionam, pelo menos se tomarmos o tipo de teoria antropológica que pode se beneficiar de um conceito como o de cismogênese, que veio de um autor inglês, Gregory Bateson, que na década de 1930 viu um fenômeno entre os iatmul, na Nova Guiné, e o enunciou como tal.
A cismogênese prevê, de certa forma, o conflito como relação, e não como ausência. Esse conflito pode ocorrer de forma simétrica – como numa corrida armamentista, por exemplo – ou de forma complementar – como numa relação de exploração e submissão. O que interessa na cismogênese é que um comportamento sempre retroalimenta o outro, gerando esse mecanismo igualmente importante na teoria de Bateson (e que depois influenciou muito o campo da cibernética), que é o feedback. Isso foi aproveitado de maneira sintomática pelos teóricos militares que passaram as décadas de 1980, 1990 e 2000 desenvolvendo as tais teorias da guerra híbrida – ou qualquer outro nome que se tenha dado, “guerras ilimitadas”, “neocorticais”, “cognitivas”, “psicológicas de espectro total”, “não convencionais”, enfim, tem um monte de tipos que se nutriram dessas discussões.
Quando pensamos na cismogênese e sua operacionalização como um dispositivo militar hibridizado na política, pensamos justamente na ideia de que o campo jurídico-político “caiu em looping” numa modalidade de conflito insolúvel. É meio desesperador, porque de certa forma ficamos com a perspectiva de que esse negócio não vai se resolver jamais.
A cismogênese prevê, de certa forma, o conflito como relação, e não como ausência – Piero Leirner
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IHU – De que modo essa divisão social, gerada pela guerra híbrida, tem afetado psicologicamente as pessoas e que imaginário social tem sido criado a partir dessa guerra?
Piero Leirner – São tantas pontas que é impossível citar aqui todas elas. Para se ater a duas, basta ver o pingue-pongue em que o judiciário está. E, é bom frisar, está porque quer e alimenta esse jogo. Não era o momento dos ministros se recolherem a uma posição discreta? O que aconteceu? Foram para Nova York, entraram em polêmicas desnecessárias. Barroso e Cristiano Zanin (advogado de Lula) não se deixaram ser vistos jantando? Isso alimenta ou murcha o “viés de confirmação” golpista? Então esse conflito é tácito, a cúpula do Judiciário entrou de sócia dos generais nele.
Há quatro anos, o TSE/STF era o algoz do PT, que dizia que eleição sem Lula era fraude, e pavimentou a eleição de Bolsonaro. Hoje, Bolsonaro sugere que a eleição é fraude porque o TSE/STF pavimentou a eleição de Lula. Essas comutações de posição e inversões em série são típicas de manobras “em looping” de guerras híbridas – que, aliás, em manuais colocam por escrito que “desestabilizar eleições em países inimigos” é mais eficaz e barato do que promover ações militares convencionais. Aqui no Brasil, pelo visto, o “país inimigo” é o próprio.
IHU – Quais são os desafios do novo governo?
Piero Leirner – Para mim, o maior desafio é saber sair dessa espiral do inferno. Não há receita pronta para isso, mas localizar a fonte dos problemas já é um grande passo.
IHU-UNISINOS
https://www.ihu.unisinos.br/624164-manifestacoes-o-maior-desafio-do-novo-governo-e-saber-sair-dessa-espiral-do-inferno-entrevista-especial-com-piero-leirner
por NCSTPR | 24/11/22 | Ultimas Notícias
Onda de jovens que se demitem de “empregos de merda” – e atinge EUA e Inglaterra – começa a se espraiar no país. A maioria é de classe média e tem curso superior, mas está frustrada com os salários precários e a falta de perspectivas.
A reportagem é de André Antunes, publicada por EPSJV/Fiocruz, 21-11-2022.
Um fenômeno que eclodiu durante a pandemia de Covid-19 principalmente em países como os Estados Unidos e Inglaterra vem chamando atenção de analistas do mundo do trabalho também do lado de cá do oceano Atlântico. Chamado de ‘Great Resignation’, ou a Grande Renúncia, como foi batizada a demissão voluntária em massa de milhões de trabalhadores em meio à pandemia, o fenômeno repercute até hoje sobre os cenários de trabalho e emprego desses países, chegando a se espraiar por terras brasileiras. Para analistas ouvidos pela Poli, é necessário cautela ao traçar os paralelos entre o fenômeno nos diferentes países, e ressaltam que ele denota uma insatisfação de trabalhadores com as condições de trabalho em nível global, mas que vem sendo tratada de maneira contraditória por aqui, principalmente pela grande mídia.
Números aqui e lá
No país mais rico do mundo, números do Bureau of Labour Statistics dos Estados Unidos (a agência de estatísticas do trabalho do governo do país) apontam que, em média, 4 milhões de pessoas pediram demissão por mês ao longo de 2021, meio milhão a mais do que a média de 2019. Se em janeiro de 2019 o BLS registrou um montante de cerca de 7 milhões de vagas de trabalho sem serem preenchidas, em setembro de 2022 esse número havia aumentado para 10,7 milhões, um crescimento de mais de 50%.
No Reino Unido, um levantamento realizado pela consultora Barnett Waddingham divulgado em junho apontou que 85% das empresas foram afetadas de alguma forma pela ‘Grande Renúncia’, sendo que 31% relataram dificuldades para reter trabalhadores e 32% relataram problemas para contratar novos funcionários ao longo de 2021, o que inclusive teria levado algumas empresas a oferecerem vagas com uma semana de trabalho reduzida, de quatro dias.
No Brasil, um levantamento de agosto produzido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) a partir de dados do Ministério do Trabalho, mostrou que entre janeiro e maio de 2022 o número de trabalhadores com carteira assinada que deixaram seus empregos voluntariamente bateu recorde, chegando a 2,9 milhões. Isso significa que um em cada três contratos de trabalho encerrados no período se deu por iniciativa do próprio trabalhador, um volume 35,2% maior do que no mesmo período de 2021. A nota técnica da Firjan ressalta que o recorde anterior para o período havia sido em 2014, quando 2,6 milhões de trabalhadores com carteira assinada pediram demissão voluntariamente, em um cenário em que a taxa de desemprego medida pelo IBGE girava em torno de 7%, ou seja, menor do que o cenário atual, de cerca de 10% de desemprego.
Perfil dos trabalhadores revela jovens com escolaridade elevada
Segundo a Firjan, quase metade das demissões registradas no período se deu entre trabalhadores com ensino superior completo, responsáveis por 48,2% dos desligamentos. A nota técnica destaca ainda a prevalência de trabalhadores mais jovens entre os que pediram demissão: 38,5% dos pedidos de demissão se deram na faixa etária entre 18 e 24 anos, enquanto 36% foram entre os trabalhadores entre 25 e 29 anos. Ainda de acordo com a nota, os Profissionais da Informática foram o subgrupo ocupacional com maior proporção de desligamentos voluntários em 2022 (65,1%), seguidos pelos Técnicos em Informática (57,9%), Pesquisadores (57,0%) e Profissionais da Medicina (56,5%).
Para Bruno Chapadeiro, psicólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) que vem estudando a temática, os dados servem para ilustrar uma dimensão importante do fenômeno que tem se demonstrado em todos os países onde foi identificado, e que se mostra com ainda mais força no Brasil. “Tem um recorte muito importante de classe. A gente pode dizer que quem aderiu a essa ‘Great Resignation’ em todas as experiências até agora foram jovens de classe média”, destaca Chapadeiro, e complementa: “É um movimento de uma juventude que tem entendido que as promessas do capitalismo, no sentido de que você desenvolve, estuda, trabalha, faz curso, se aprimora etc. e você tem um lugar ao sol, são falaciosas. São jovens que se veem em empregos com salários precários que não vão levá-los a lugar nenhum e começaram a se demitir”, diz o pesquisador.
Segundo ele, o fenômeno vinha sendo identificado já antes da pandemia, em países como China e Japão, mas explodiram com a pandemia de Covid-19 principalmente nos Estados Unidos, país em que, como lembra Chapadeiro, não há um sistema público de saúde como o SUS. “Muitos trabalhadores, alguns sem acesso a planos de saúde, passaram a ver o risco de adoecer em um país sem um sistema público de saúde, começaram a ter medo de contrair e contaminar seus familiares com uma doença para a qual não existia vacina”, ressalta. Para o pesquisador, concorre também para a eclosão do fenômeno a chegada ao mercado de trabalho de uma geração nascida e conformada pelo ideário neoliberal. “A nossa pesquisa tem tentado entender em que medida essa juventude tem comprado, por exemplo, a ideologia do autoempreendedorismo e começaram a sair de empregos precários para tentar o próprio negócio virtual, sem patrões, com mais flexibilidade. Então a gente tem uma geração de filhos da classe média, que nasce com toda essa perspectiva neoliberal de mundo, que é familiarizada com tecnologias informacionais e que teve a pandemia como catalizadora pra essa reação”, resume Chapadeiro.
Giovanni Alves, professor de sociologia do trabalho na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) vê a Grande Renúncia como um efeito do que ele chama de um “rebaixamento civilizatório por conta da crise estrutural do capital” sobre uma fração da classe trabalhadora que ele denomina de “precariado”. “São aqueles trabalhadores mais qualificados, mais escolarizados, em geral. Alguns até os 40 anos estão ainda morando com os pais. Uma parte deles têm uma margem de insumo familiar para poder operar escolhas com relação ao trabalho. Isso acontece muito nos Estados Unidos, na União Europeia. Em Portugal eles chamam de geração ‘casinha dos pais’, por exemplo”, diz Alves, chamado atenção para o que vê de comum entre Brasil e Estados Unidos nessa conjuntura. “O que há de comum é o mercado de trabalho degradado pela precarização salarial que vem ocorrendo nos últimos 30 anos lá fora e que no Brasil veio com força a partir da Reforma Trabalhista de 2017, que colocou as pessoas em uma situação de insegurança salarial. Além disso são países que na pandemia têm apresentado índices altos de contaminação e de mortes”, lembra o professor da Unesp. Ele ressalta que, principalmente no caso brasileiro, o fenômeno tende a ser mais marginal do que em outros países, justamente pelas características do mercado de trabalho e das condições sociopolíticas do Brasil. “Para a grande maioria dos trabalhadores brasileiros não há possibilidade de escolha: ou você trabalha ou morre de fome”, alerta Alves.
Mas o pesquisador destaca que é importante analisar o fenômeno para além de simplesmente um “luxo” reservado à classe média. “A Grande Renúncia talvez sirva para ocultar outros problemas que estão ocorrendo na economia capitalista e no mercado de trabalho, principalmente a degradação salarial dos empregos de classe média nos últimos 20 anos”, diz Alves, e completa: “Mas quando a gente lê matérias no [jornal] Valor Econômico, no UOL, é tratado como se fosse meramente um luxo. ‘A coisa está tão boa que essas pessoas estão pedindo demissão, podem escolher’. É a ideologia do capital, como se esse fosse um fenômeno da prosperidade do capitalismo. É justamente o contrário”, aponta.
Sindicalização na Amazon: outra face de uma mesma moeda?
Nesse sentido, ele chama a atenção para a recente vitória de trabalhadores da Amazon no estado de Nova York, que em abril conseguiram aprovar a criação do primeiro sindicato de trabalhadores da empresa que é a segunda maior empregadora privada do país. Para Giovanni Alves, a eclosão da Grande Renúncia e a luta pela sindicalização em uma das empresas que mais lucrou durante a pandemia, num país onde segundo ele é forte o “espírito antissindical” são questões interligadas, e mostram as diferentes respostas que os trabalhadores de diferentes setores e estratos sociais dos Estados Unidos têm apresentado como respostas ao cenário de precarização salarial no país. “Por que foi na Amazon? Porque ela é a própria representação da desigualdade que vem se aprofundando, uma empresa bilionária onde a diferença salarial entre o topo e a base é enorme, e que é de um dos maiores bilionários do mundo, Jeff Bezos, que inclusive agora quer ir para o espaço sideral. É uma situação muito indigna para o americano. Ele sabe que está dando muito lucro à empresa e está recebendo um salário baixo, então parte para a luta sindical, que é uma luta tremenda por lá”, pontua Alves. “São diferentes estratégias de sobrevivência tendo como pano de fundo esses processos mais estruturais, em um mundo do trabalho degradado: quem pode escolher pede demissão, quem não pode se organiza”, completa.
O professor da UFF Bruno Chapadeiro tem expectativa de que, assim como a Grande Renúncia, o movimento de organização coletiva de trabalhadores simbolizado pela sindicalização na Amazon possa ter influência por aqui também. “O que ele tem de comum ao Great Resignation é o fato de que essas ideias de sindicalização, de Apple, de Amazon, mesmo do TikTok, tem vindo da juventude. Arriscando uma imaginação sociológica, como tudo que começa lá no norte do mundo vem para cá, pode ser que essa seja uma ideia que a gente acabe importando também, de que essa juventude queira continuar se movimentando em termos do coletivo, se organizando coletivamente, de uma forma diferente do que foi o sindicalismo dos anos 1970 e 1980, que é uma forma considerada ultrapassada, que não dialoga com a juventude hoje”, aposta Chapadeiro.
IHU-UNISINOS
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