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Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Adoecimento mental ligado ao trabalho não é problema individual e está ligado a “estruturas sistêmicas”.

A reportagem é de Eloá Orazem, publicada por Brasil de Fato, 01-11-2022.

Com mais da metade da força de trabalho dos EUA se autodeclarando exausta, é comum que muita gente pense que o diagnóstico de burnout esteja sendo banalizado – e ele está. Isso não significa, porém, que esse mal-estar generalizado não seja uma indicação de que o sistema estadunidense, pautado pela performance e reproduzido mundo afora, esteja à beira de um colapso.

“Com certeza nós (estadunidenses) estamos na linha de frente do burnout, porque, em muitos aspectos, a gente vive para trabalhar“, diz ao Brasil de Fato a advogada Paula Davis, autora do livro Beating Burnout At Work e fundadora do The Stress and Resilience Institute.

Uma das vozes mais importantes a falar sobre o assunto, Davis acredita que parte do problema do burnout nos Estados Unidos acontece pela banalização da palavra. “É comum ouvir que uma pessoa exausta e/ou sobrecarregada está experimentando burnout, porque essa palavra é usada como sinônimo de cansaço ou como um recurso linguístico de intensidade”, afirma.

Segundo ela, o diagnóstico certeiro de burnout depende de três fatores: exaustão crônica, tanto física, quanto emocional, por conta do ofício; uma espécie de cinismo crônico, que nos deixa desconectados das pessoas ao nosso redor; e a falta de um sentido ou propósito para o trabalho. “Sabe aquela sensação de ‘quem se importa? ninguém está nem aí pra isso mesmo?’, então é essa falta de motivação a qual me refiro”, completa.

Somente quando esses três elementos estão presentes é que o diagnóstico de burnout pode ser dado da forma correta, avalia a autora.

Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o “resultado do estresse crônico em ambiente de trabalho”, a síndrome do burnout tem como um dos primeiros sintomas justamente a queda da performance da vítima em questão. “Quando um médico, uma professora ou uma enfermeira passa por isso, a sociedade toda sente de forma direta”, explica a psicóloga Christina Maslach, professora emérita da Universidade de Berkley e autora de uma das maiores e mais importantes pesquisas sobre burnout, reconhecida mundo afora.

“Mas o problema se agrava quando, rapidamente, o indivíduo deixa de ter apenas uma reação negativa ao trabalho e começa a dirigir essa mesma negatividade a si: o que há de errado comigo? Por que não consigo controlar essas emoções? Por que estou com essas dificuldades? A quem recorro? Sintomas de depressão e ansiedade podem se fazer presentes neste momento”, explica a docente.

Nesta onda de questionamentos, continua Maslach, é comum que a pessoa sofrendo de burnout busque soluções individuais, e que seja ignorado um sistema de prevenção. “O que causa essa síndrome são as estruturas crônicas de um trabalho que não foram administradas da maneira correta e, se você não mudar isso, novos funcionários vão chegar, mas eles também vão experimentar a exaustão”, diz à reportagem do Brasil de Fato. “Outra coisa que fazemos errado é achar que o burnout está ligado a um indivíduo ou que é um problema de saúde mental, o que não é. Essa linha de pensamento que coloca a culpa no indivíduo, também presume que cabe a ela solucionar o problema”, finaliza Christina.

Para Paula Davis, o burnout é um problema sistêmico, que tem a ver com as estruturas do trabalho. “Nos Estados Unidos, por exemplo, o nosso modelo de remuneração basicamente premia a exaustão, já que ganhamos um bônus maior se trabalharmos mais, ou se estivermos fisicamente presentes por mais tempo no escritório. Virou um distintivo de honra dizer que não tirou todos os dias de férias a qual tem direito e há quem se vanglorie de estar constantemente ocupado”, conta.

Ainda de acordo com a advogada e escritora, cabe às lideranças a mudança desse sistema falho. “Gerentes e diretores têm muito mais poder, influência e controle para mudar as estruturas sistêmicas de um ambiente de trabalho do que os funcionários da linha de frente. E é importante que, quando falemos de burnout, façamos de maneira abrangente e reconheçamos que é necessário implementar uma estratégia holística”.

IHU-UNISINOS

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Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Haverá bolsonarismo sem Bolsonaro no poder?

Produto duma conjuntura especialíssima, fascismo tupiniquim foi incapaz de construir um partido ou programa claro. Fora do poder, é possível que reflua. Mas fincou raízes nas Forças Armadas e polícias. Lula precisará desarmar bomba-relógio.

O artigo é de Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais da UFABC e diretor da Fundação Lauro Campos, foi candidato do PSOL ao governo de São Paulo (2014), em artigo publicado por Outras Palavras, 31-10-2022.

Eis o artigo.

No rescaldo da espetacular e heroica vitória que a democracia impôs sobre o fascismo brasileiro neste 30 de outubro, surgem diversas especulações sobre o futuro imediato das disputas políticas em nosso país. Boa parte delas pode ser sintetizada na frase “vencemos as eleições, mas o bolsonarismo continua firme na sociedade”.

Não tenho segurança alguma em subscrever essa ideia. Ao contrário: minha impressão é que o bolsonarismo tenderá a se tornar uma força com reduzida capacidade de articulação nos próximos meses e sem condições de se coordenar nacionalmente. Digo impressão porque o que escreverei a seguir não é amparado por nenhuma pesquisa de campo, mas pela percepção que uma série de eventos e processos políticos podem nos mostrar. Os fatos apontam que o fascismo brasileiro só se organiza a partir do Estado. O bolsonarismo possivelmente não consegue se coordenar fora dele.

Isso se deve principalmente ao fato de o bolsonarismo não se apresentar como um conjunto de ideias com começo, meio e fim. O bolsonarismo não tem programa claro, a não ser um nacionalismo moralista de fachada, o enunciado de poucos dogmas religiosos e de professar um ultraliberalismo sem freios. O bolsonarismo não é um projeto, mas uma torrente de sensos comuns e uma pregação ininterrupta da violência como dinâmica de intervenção social. É pobre e primário como ideário político.

fascismo brasileiro nunca teve relevância como fenômeno de massas. Seu melhor resultado eleitoral no século XX se deu na disputa presidencial, em 1955. Num pleito vencido por Juscelino Kubitschek, o integralista Plínio Salgado alcançou míseros 8,28% dos votos válidos.

Nove anos depois, o golpe de 1964 – expressão política da extrema-direita militar – foi deflagrado após anos de intensa campanha reacionária dos meios de comunicação e da Igreja Católica, auxiliados pelas Forças Armadas e pela embaixada dos EUA, em tempos de Guerra Fria. A alegação da reação era a de que o povo estava majoritariamente contra o governo João Goulart.

Uma pesquisa realizada pelo Ibope em março de 1964 em diversas cidades brasileiras – não existiam sondagens nacionais – atesta que Jango teria reais chances de vencer as eleições de 1965, caso fosse candidato. Em cinco capitais (Fortaleza, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Porto Alegre), o levantamento indica que entre 51% e 60% dos eleitores o apoiariam. Esses relatórios estão disponíveis online no site do Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp.

Ou seja, mesmo num clima de histeria anticomunista, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade realizada em São Paulo e outras capitais, a extrema direita não conseguiu hegemonizar a sociedade. Daí a necessidade do golpe.

O fascismo nacional só voltou com força meio século depois, em uma conjuntura especialíssima que combinou opções desastrosas da centro-esquerda, uma profunda crise provocada por tais escolhas, esgarçamento do tecido social, decepção e desesperança popular. Formou-se então uma frente ampla reacionária que envolvia as Forças Armadas, o Judiciário e os meios de comunicação. Até ali, existia na sociedade a disseminação dispersa de ideias de extrema direita (racismo, elitismo, preconceitos sexuais, clamor por brutalidade policial contra os pobres, autoritarismo etc.), mas jamais com o grau de organização que se alcançou entre 2018-22.

A decepção popular com o estelionato eleitoral cometido pelo segundo governo Dilma, entre 2014-16, se materializou em um ajuste fiscal planejado. Seus resultados foram o aumento acentuado das contas de energia no início de 2015, elevações seguidas das taxas básicas de juros, cortes orçamentários expressivos, recuo do PIB de quase 8% no período e em fazer a taxa de desemprego praticamente dobrar entre janeiro de 2015 e março do ano seguinte.

A situação social do país de forma alguma recomendava uma aventura desse tipo. O ano de 2013 havia sido sacudido por intensas mobilizações públicas, iniciadas pela esquerda e que foram capturadas pela extrema direita nas ruas, após sérios enfrentamentos físicos e midiáticos. A ação governamental para arbitrar e solucionar as demandas foi lerda e quase irrelevante.

Como afirma a economista estadunidense Clara Mattei, “Os economistas inventaram as políticas de austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo”, título de seu livro a ser lançado neste mês. A fragmentação social, o aprofundamento das dificuldades econômicas e a falta de perspectivas sempre abre caminho para discursos demagógicos e salvacionistas de extrema direita. Incapazes de apresentar alternativas no terreno social – emprego, salário, direitos etc. – as novas modalidades de fascismo valem-se de extensa pauta moral e de costumes, além do infalível discurso anticorrupção como forma de obter legitimidade.

Em resumo, a materialização da extrema direita como ideia-força se deu numa quadra histórica situada entre o sequestro das manifestações de 2013 até a fraudulenta prisão de Lula, cinco anos depois, passando pelo desastre governamental de 2014-16 e pelo golpe que retirou Dilma do governo. É nesse processo que um deputado iletrado e medíocre se torna o condutor da frente reacionária nucleada pelo fascismo, que logra vencer o viciado pleito de 2018.

E é a partir da condição de presidente da República, com aparato midiático, verbas infinitas e uso irrestrito da máquina estatal que o bolsonarismo monta uma inexpugnável maioria legislativa, coopta o alto-comando das Forças Armadas com prebendas e sinecuras e que impulsiona uma série de igrejas evangélicas e facilita a vida das milícias, em especial no estado do Rio de Janeiro. É a partir do aparelho de Estado que o ex-capitão se torna figura nacional, com decidido apoio dos grandes grupos midiáticos e do capital financeiro e agrário.

A maior demonstração da falta de organicidade do fascismo bolsonarista é sua incapacidade de criar um partido político. O malfadado Aliança pelo Brasil, lançado em novembro de 2019, teve fim melancólico em abril de 2022, após a constatação de que quase 200 mil assinaturas apresentadas como suporte à sua legalização foram fraudadas. Desde sua entrada na vida pública, no início dos anos 1990, o presidente já passou por nove partidos. Em 2018, alugou o PSL, capitania de Luciano Bivar, para concorrer à presidência. No ano seguinte, desentendeu-se com o dono do negócio e permaneceu sem partido até fechar contrato com Valdemar da Costa Neto, donatário do PSL. Seus candidatos pelos estados espalharam-se por outras legendas fisiológicas.

Se compararmos sua ação com as das lideranças do nazifascismo do início do século XX, verificaremos que tanto Benito Mussolini quanto Adolf Hitler montaram sólidos partidos de massas antes de chegar ao poder, o que expressava o enraizamento popular que obtiveram.

Bolsonaro sai do poder sem nada disso. Embora, repetindo, a extrema direita e o reacionarismo sigam em suas casamatas no Congresso, nas igrejas fundamentalistas, nas milícias e em algumas entidades associativas, pode lhe faltar um esqueleto nacional como só o Estado pode lhe fornecer. Ou seja, seguirá existindo como expressão pública, mas com menor unidade de ação. No caso dos governadores eleitos, uma incógnita se coloca: a maioria parece ser de bolsonaristas de primeira viagem. Com a forte dependência que terão do governo federal – em especial após cortes de impostos para viabilizar as bondades pré-eleitorais – é possível que tendam a um alinhamento tácito com uma Brasília sob nova administração.

Mas o fascismo seguirá forte em alguns bolsões do Estado, em especial no aparato de segurança (Forças Armadas, Abin, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e polícias estaduais). Aqui o problema é sério e só há uma solução. Ela foi dada por Gustavo Petro, menos de um mês após assumir a presidência, em 19 de agosto último. De uma só penada, o novo presidente colombiano anunciou a passagem compulsória para a reserva de nada menos que 52 generais, abrindo 24 postos de comando na Polícia Nacional, 16 no Exército, 6 na Marinha e mais 6 na Força Aérea. Sem sutileza, o presidente avançou sobre instituições tidas como intocáveis na América Latina, ao mesmo tempo em que buscou tirar da frente potenciais ameaças ao futuro de sua administração.

Mais do que especular se o bolsonarismo seguirá sem Bolsonaro, será necessário que o novo governo Lula tome a iniciativa de desativar as bombas-relógio colocadas à sua frente pela ameaça fascista, retirando-a de qualquer alavanca de comando do Estado. O mais provável é que em poucos meses tais correntes percam boa parte da relevância que exibem hoje e o bolsonarismo seja uma tendência marginal na sociedade.

IHU-UNISINOS

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Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Ação política divide e revolta Polícia Rodoviária Federal, diz policial

Há algumas semanas, um processo disciplinar foi aberto contra um policial rodoviário federal que manifestou apoio ao agora presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas suas redes sociais. Somente alguns dias antes de o próprio diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, publicar nas suas redes sociais uma mensagem de apoio a Jair Bolsonaro, do PL, derrotado na sua tentativa de reeleição.

Silvinei depois apagou a postagem. Mas o fato não diminuiu o clima de revolta de parte da corporação, dividida entre o ativismo político e a tentativa de manter a neutralidade necessária para não comprometer a imagem da instituição. “É inegável que uma parcela do efetivo é bolsonarista”, admite um policial rodoviário federal, na condição de anonimato para não sofrer represálias. “Mas a maioria está enraivecida com essa utilização política que desmoraliza a instituição”, continua.

“A Polícia Rodoviária Federal não é um braço armado do bolsonarismo, e não vai aceitar isso”, continua ele.

De acordo com ele, o bolsonarismo dividiu a corporação, como aconteceu também na Polícia Federal. “E uma parte da administração fica querendo mostrar esse ativismo político”, reclama. “Os ânimos se inflamam, e tudo acaba ganhando uma proporção que não deveria”.

Dimensão política

Ele exemplifica com a própria operação ocorrida no dias eleições. “Sempre houve operação desse tipo”, afirma. “Aí, uma coisa rotineira ganha dimensão política desnecessariamente”.

Porque, segundo o policial, parte do efetivo, motivada pelo ativismo político, acabou indo para a operação com o propósito mesmo de barrar grupos de eleitores do PT ou criar dificuldades para que chegassem aos seus locais de votação.

De novo agora, segundo o policial, desde o início dos bloqueios de caminhoneiros nas estradas do país, o efetivo trabalha para fazer a desobstrução. “É, de fato, uma coisa que precisa ser feita com cuidado”, ressalta. “Primeiro, porque o efetivo é pequeno. Segundo, porque há mesmo um clima de beligerância que é preciso evitar. Não dá para chegar com força, dando tiro, senão termina em tragédia”.

“Mas, por outro lado, há, sim, ações e manifestações lamentáveis de alguns colegas”, reconhece. “Posicionamentos absurdos”. Segundo o policial, “a maioria do efetivo está ralando, querendo fazer bem o seu trabalho”.

AUTORIA

Rudolfo Lago

RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

CONGRESSO EM FOCO
Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Marcelo Ramos: Lula vai precisar fugir da armadilha do orçamento secreto de Lira

No ano que vem, o deputado Marcelo Ramos (PSD-AM) não estará mais na Câmara. Mas, durante um período, ele dividiu, como vice-presidente, o comando da casa com Arthur Lira (PP-AL), o presidente. Marcelo Ramos deixou a vice-presidência da Câmara depois que trocou o PL pelo PSD. Os dois iniciaram o mandato unidos. Mas acabaram rompendo, especialmente depois que as atitudes do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19 o levaram definitivamente para a oposição.

Marcelo Ramos apoiou a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, o presidente eleito. Ramos, porém, sabe bem como funciona o núcleo de poder em torno de Arthur Lira. E, nesta entrevista ao Congresso em Foco, ele alerta: Lula terá que rapidamente desarmar a bomba do orçamento secreto, ou acabará sendo enredado por ele.

Uma vez eleito presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará um Congresso Nacional muito diferente do que foi em seus mandatos anteriores: desta vez, o principal partido da oposição (PL) é o que conta com a maior bancada na Câmara dos Deputados, onde terá que formar maioria.

Em princípio, Lula não quer interferir nas disputas pelos comandos da Câmara e do Senado. E duas experiências anteriores mostram que esse tipo de interferência pode ser perigosa caso não haja um cenário seguro. Em 2005, quando Lula era presidente, uma divisão no PT, que lançou dois candidatos (o paulista Luiz Eduardo Greenhalgh e o mineiro Virgílio Guimarães), acabou levando à vitória do pernambucano Severino Cavalcanti, do PP, para a Presidência da Câmara. Em 2015, a então presidente Dilma Rousseff apostou no nome do petista Arlindo Chinaglia, de São Paulo, e ele acabou perdendo a Presidência da Câmara para Eduardo Cunha (MDB-RJ), que coordenou o processo de impeachment contra ela.

“O presidente Arthur Lira tem uma máquina não republicana e poderosíssima, que é o orçamento secreto. Vai haver uma dificuldade inicial ali em relação à sucessão da Câmara”, avalia Marcelo Ramos, para quem Lula deveria enfrentar o desafio de tentar emplacar outro nome para o comando da casa legislativa.

Orçamento secreto é a alcunha dada às emendas parlamentares de relator: uma parcela do orçamento anual cuja destinação fica a cargo do relator-geral do orçamento, mediante a solicitação dos demais parlamentares. Na verdade, a chave que libera ou não tais emendas fica nas mãos de Artur Lira. Com possibilidade de sigilo nas indicações e sem critérios objetivos para os empenhos, os deputados são obrigados a manter bons termos com a presidência da Câmara, então, para ter suas indicações aceitas.

“Se o Arthur for presidente, e o Lula tentar de alguma forma parar o orçamento secreto, ele vai ter problema. Arthur não tem compromisso nenhum com o Brasil, ele tem compromisso com os interesses dele”, alerta o deputado.

Com a vitória de um aliado, Lula já poderia encontrar alternativas políticas para o orçamento secreto que não desagradem o parlamento como um todo. Ramos considera que um ponto comum para que nenhum lado fosse prejudicado seria uma reforma na forma de distribuição das emendas de relator. “É você, ao invés de acabar com tudo, estabelecer um critério de distribuição igual para todo mundo”, sugeriu.

Apoio pode vir do PSD

Para Marcelo Ramos, uma vez desarmada a armadilha do orçamento secreto, o governo Lula não teria maiores dificuldades para articular com a Câmara. “Passado esse esforço inicial, o governo consegue construir uma maioria. Primeiro, porque as bancadas que ele junta na esquerda e no centro já se aproximam de uma maioria. Segundo, porque existem parlamentares no PL, no PP e no Republicanos que são governo seja qual for o governante”, antecipou.

Mas dentro do PL, partido que elegeu Marcelo Ramos em 2018 e do qual ele saiu em 2021, após a filiação de Jair Bolsonaro, o deputado avalia que cerca de 30 dos seus 99 deputados passem a apoiar Lula. “Os deputados do PL nos estados do Nordeste perderam os governos, onde a esquerda venceu em quase todos. Pelo seu modelo de fazer política, eles dependem da estrutura da máquina pública. Não vão fazer oposição ao governo federal e nos estados ao mesmo tempo”, explicou.

Um apoio estratégico para o PT é o do próprio partido de Ramos, o PSD. Além de ser um dos três maiores partidos de centro da próxima legislatura, com 42 deputados eleitos (sete a mais do que a eleição anterior), a legenda conseguiu preservar sua posição de segunda maior bancada do Senado em 2023, contando com 11 senadores. Entre eles, o próprio presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco (MG).

Ramos avalia que o caminho mais provável de seu partido, que hoje possui quadros tanto na situação quanto na oposição, é apoiar Lula. “O PSD é um partido dividido, por conta do tamanho e da diversidade do Brasil. Então, em qualquer decisão, vai ter que ter um esforço de unificação. Mas ele foi criado como um partido de centro e democrático. E, sendo um partido de centro e democrático, não tem outra alternativa que não seja ficar ao lado do presidente Lula e seu esforço de reconstrução democrática do país”.

O presidente da legenda, Gilberto Kassab, terá uma reunião na próxima semana com seus líderes no parlamento para decidir sobre o rumo do partido. Já existem, porém, indícios de que o apoio a Lula deverá preponderar: além do presidente ter recebido apoio de quadros importantes do PSD em sua campanha, como o próprio Ramos ou os senadores Otto Alencar (BA) e Omar Aziz (AM).

AUTORIA

Lucas Neiva

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CONGRESSO EM FOCO
Burnout: do sonho americano para a realidade da exaustão

Quatro pesquisas acertaram a votação de Lula e Bolsonaro. Veja quais

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Depois das críticas recebidas por terem subestimado a votação de Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno, os principais institutos de pesquisa do país se aproximaram mais do resultado das urnas na votação final desse domingo (30). Entre as 11 empresas que fizeram levantamentos para a corrida presidencial na semana passada, oito projetavam a terceira eleição de Lula (PT). Desses, quatro acertaram o resultado dentro da margem de erro.

O MDA, que realiza pesquisa para a Confederação Nacional do Transporte (CNT), praticamente cravou o resultado. Em levantamento divulgado no sábado, o instituto atribuiu 51,1% para Lula e 48,9% para Bolsonaro. A margem de erro era de 2,2 pontos percentuais. O petista foi reeleito com 50,9% dos votos válidos, enquanto o atual presidente recebeu 49,1% dos votos válidos. Essa foi a menor diferença da disputa ao Planalto desde a redemocratização, menos de 2 milhões de votos.

Os maiores erros foram cometidos pelos três institutos que projetavam vitória para Bolsonaro: o Brasmarket (53,6% x 46,4%), o Futura/Modal (50,3% x 49,7%) e o Veritá (51,2% x Lula 48,8%).

Além do MDA, também acertaram o resultado, dentro da margem de erro de dois pontos, o Datafolha (52% x 48%), o Paraná Pesquisas (50,4% x 49,6%) e o Quaest (52% x 48%). Apontaram a vitória de Lula, mas com índices acima da margem de erro, o Ipec (ex-Ibope), o AtlasIntel, o Ipespe e o PoderData.

No primeiro turno, o Paraná Pesquisas (47,1% x 40%) e o AtlasIntel (50,3% x 41,1%) foram os que mais se aproximaram da votação. Em 2 de outubro, Lula recebeu 48,4% dos votos válidos enquanto Bolsonaro ficou com 43,2%.

Em 2018, o Datafolha cravou o resultado: 55% para Bolsonaro contra 45% de Fernando Haddad (PT). O Ibope acertou dentro da margem de erro, apontando 54% para o então deputado e 46% para o ex-prefeito paulistano. Bolsonaro se elegeu naquele ano com 55,1% dos votos válidos ante 44,87% do seu adversário no segundo turno.

Para Arilton Freres, diretor do Instituto Opinião, a proximidade entre o resultado e as pesquisas no segundo turno esvazia a ofensiva de bolsonaristas para criminalizar eventuais erros nos levantamentos eleitorais. A Câmara aprovou há duas semanas um requerimento de urgência para a votação de um projeto de lei com esse propósito. Os aliados do presidente também tentaram emplacar uma CPI para investigar os institutos.

“O que aconteceu no primeiro turno é o que sempre acontece, que é o esvaziamento das candidaturas que estão em terceiro e quarto lugar e o crescimento do candidato que está em segundo lugar. Teve outro fator que não foi considerado que é o crescimento dos candidatos que estão muito alinhados com as candidaturas nacionais”, explica Arilton.

Atraso no recenseamento

Segundo o pesquisador, a polarização política no país e o atraso no recenseamento dificultaram o trabalho dos institutos este ano. O diretor do Instituto Opinião ressalta que essas dificuldades ficam menores na segunda rodada de votação.

“No segundo turno, o voto envergonhado se dissipa. Fica mais fácil captar a tendência e chegar a um número muito próximo das urnas. Lembrando que pesquisa é retrato do momento. O que foi medido no sábado não necessariamente tem de ocorrer no domingo. Mas as tendências se confirmaram, com alguns institutos muito próximos”, afirma Arilton.

Após o primeiro turno, quando as principais pesquisas projetavam percentuais de intenção de voto menores para Bolsonaro do que o apurado das urnas, o governo tentou botar os institutos contra a parede, com a abertura de processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e na Polícia Federal. A ofensiva foi barrada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes.

De acordo com Moraes, apenas o TSE tem competência para fiscalizar as organizações. O ministro também observou que as investigações não possuem justa causa e são baseadas em “presunções relacionadas à desconformidade dos resultados das urnas com o desempenho de candidatos retratados nas pesquisas”.

O presidente da corte eleitoral também ressaltou que não havia “menção a indicativos mínimos de formação do vínculo subjetivo entre os institutos apontados ou mesmo práticas de procedimentos ilícitos”. Curiosamente, ficaram fora do pedido de investigação os institutos que mais erraram, porque atribuíram a primeira colocação no primeiro turno a Bolsonaro.

Na avaliação de Arilton Freres, a proximidade entre as projeções das pesquisas e o resultado das urnas representa “uma vitória da democracia e da ciência”. “Só teremos condições de fazer pesquisas mais precisas quando tivermos os dados do Censo atualizado. Isso continua sendo um grande problema para os institutos para captar com precisão a opinião do eleitorado”, destaca.

(Por Edson Sardinha)

Veja o desempenho das pesquisas no segundo turno divulgadas semana passada:

AUTORIA

Sylvio Costa

SYLVIO COSTA Fundador do Congresso em Foco. Mestre em Comunicações pela Universidade de Westminster, na Inglaterra. Trabalhou como jornalista em veículos como Folha, IstoÉ, Correio Braziliense, Zero Hora e Gazeta Mercantil, entre outros, exercendo as funções de repórter, editor e chefe de reportagem. Ganhou 12 prêmios de jornalismo.

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Centrão começa a abandonar Bolsonaro e prepara adesão à base de Lula

Partidos e parlamentares do grupo pedem o apoio de Lula à reeleição do deputado Arthur Lira (PP-AL) à presidência da Câmara.

por André Cintra

Os partidos que compõem o Centrão, hoje aliados à gestão Jair Bolsonaro PL), já fizeram acenos a interlocutores de Luiz Inácio da Silva (PT), que foi eleito presidente no último domingo (30). Para aderir à base de sustentação do futuro governo, o Centrão quer o apoio de Lula à reeleição do deputado Arthur Lira (PP-AL) à presidência da Câmara Federal.

Desde a apuração de votos no segundo turno, parlamentares e legendas do Centrão começaram a abandonar Bolsonaro. A aliados, o próprio presidente reclamou da rapidez com que Lira reconheceu a vitória de Lula e respaldou o sistema eleitoral. “A vontade da maioria manifestada nas urnas jamais deverá ser contestada”, afirmou o deputado.

Conforme reportagem da Folha de S.Paulo publicada nesta quarta-feira (2), o interesse na parceria é recíproco: “Integrantes do Centrão e de outros partidos de centro e direita ouvidos pela Folha avaliaram que uma aliança seria benéfica tanto para Lula como para Lira, o que isolaria o bolsonarismo radical no Congresso a partir de 2023”.

Na legislatura 2023-2027, a base inicial de Lula é de cerca de 120 deputados. Já os partidos do Centrão, como PL, PP e Republicanos, somarão 200 parlamentares, sendo apenas cerca de 50 efetivamente bolsonaristas. “Nossa posição é de independência. Acabou a eleição, agora é o Brasil”, conclui Vinícius Carvalho (SP), líder da bancada do Republicanos na Câmara.

Da parte do PT, também há diálogo com partidos como o PSD de Gilberto Kassab, e o MDB, de Simone Tebet. Lula também quer nomear algum nome do PSDB para seu ministério. Um dos nomes mais cotados é o do senador Tasso Jereissati (CE).

Portal Vermelho

https://vermelho.org.br/2022/11/02/centrao-comeca-a-abandonar-bolsonaro-e-prepara-adesao-a-base-de-lula/