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Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Com a nova composição partidária eleita, neste pleito para o Congresso, é possível estimar que independentemente de a eleição do próximo presidente Republica, sendo Jair Bolsonaro (PL), ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ambos os candidatos têm potencial para assegurar base de apoio parlamentar consistente — seja na Câmara ou no Senado.

Neuriberg Dias*

Caso o atual presidente Bolsonaro seja reeleito ele poderá ter cenário mais favorável para governar, pois, incialmente possui base formada na atual legislatura de agrupamento de partidos do chamado “Centrão”, bem como devido ao ingresso de mais parlamentares de direita no espectro ideológica da Casa.

 basebolsonaro

Além do PP do deputado Arthur Lira (AL), presidente da Câmara dos Deputados, e do senador Ciro Nogueira (PP-PI), chefe da Casa Civil da Presidência da República, o PL, partido do presidente e Republicanos, formam base consistente do Executivo no Congresso.

Estes partidos juntos somam mínimo de 187 cadeiras na Câmara dos Deputados. Bolsonaro poderá alcançar máximo de 380, com o apoio condicionado de partidos de direita, centro-direita e centro.

No Senado Federal, onde o partido dele (PL) também elegeu mais senadores, tende a ter vantagem. São estimados no mínimo 24 senadores na base, e no máximo pode contar com até 58 parlamentares em defesa da agenda dele na Casa.

Lula

O ex-presidente Lula, caso seja eleito para o terceiro mandato ao Planalto, também deve formar base de sustentação que tem construído durante a campanha, com partidos de centro e poderá ampliar até para os partidos de centro-direita, que atualmente fazem parte da base do atual presidente da República.

baselula

A ampla coligação — formada pelo PT, PCdoB, PV, SD, PSol, Rede, PSB, Agir, Avante e Pros — reúne partidos que vão da esquerda ao centro, e que possuem ao todo 122 parlamentares na Câmara dos Deputados.

Computado o PSB, PDT, PSol e Rede, o apoio sobe para 167 parlamentares que forma a chamada base consistente. Lula teria, ainda, a possibilidade de alcançar no máximo 342, com adesão de base condicionada na Casa.

No Senado, a previsão seria no mínimo 13, podendo chegar ao máximo de 50 senadores na formação de coalisão de apoio na Casa. Partidos como MDB, PSD, até do atual Centrão, tendem a compor essa base em eventual governo Lula, como ocorreu entre 2003 e 2010, respectivamente, no primeiro e segundo mandatos.

Três aspectos são importantes:

1º) desde as eleições de 1998, cada presidente da República fez o chamado “dever de casa” ao ampliar as bancadas de sustentação: FHC 1 (PSDB), 37 para 62; Lula 1 (PT), de 58 para 91; Dilma 1 (PT), de 83 para 88; e Lula ou Bolsonaro elegeram, respectivamente, 80 e 99;

2º) houve mais circulação no poder, com a eleição de parlamentares da política tradicional do que ocorreu no pleito de 2018, com os chamados “outsiders”, aquele cidadão que buscava ingressar no meio político com os discursos de que não estava “contaminado” com os vícios de políticos tradicionais e com isso surfaram na onda antipolítica da época, e, talvez o mais importante; e

3º) novo desenho institucional com Congresso mais independente em relação ao Executivo, com concentração de poder em poucos partidos e que não vai abrir mão do poder orçamentário que adquiriu na atual legislatura.

Relação do presidente com o Congresso

Portanto, o que definirá o comportamento do novo Congresso eleito em 2023 vai ser o perfil do próximo presidente da República.

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Sendo reeleito Bolsonaro, a agenda vai mais à direita. Com a vitória de Lula, vai haver movimento moderado mais ao centro.

E, na hipótese da eleição de Lula, os atuais presidentes das casas — Câmara e Senado — em particular, Arthur Lira (PP-AL), não garante reeleição automática para o cargo de presidente da Câmara. Essas são as expectativas da correlação de forças que emergiu das urnas para 2023, no âmbito do Congresso Nacional.

(*) Jornalista, analista político e diretor de Documentação licenciado do Diap. Sócio-diretor da Contatos Assessoria Política

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/91184-base-de-apoio-do-governo-no-congresso-eleito-em-2022

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Inflação dos alimentos, a perversa marca do governo Bolsonaro

Em 12 meses, diversos produtos da cesta básica acumularam aumentos elevados. É o caso da cebola (inflação de 127% em um ano), do café (37%), do leite (37%) e da farinha de trigo (35%).

Mesmo registrando deflação há três meses, o Brasil ainda não se livrou da alta no preço dos alimentos. Considerada uma das mais perversas marcas do governo Jair Bolsonaro (PL) – que desdenhou do problema –, a carestia é também um dos fatores que praticamente inviabilizam a reeleição do presidente.

Nos últimos 12 meses, conforme o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), houve uma inflação acumulada de 7,17%. Com os alimentos, porém, a alta acumulada é quase duas vezes maior – o que impacta sobretudo as camadas mais pobres da população.

Não por acaso, conforme o Ipec, Bolsonaro tem apenas 28% de intenções de voto entre os eleitores que ganham até um salário mínimo, contra 65% do ex-presidente Lula (PT). É o pior desempenho de Bolsonaro nos recortes da pesquisa por renda.

Em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, Pedro Kislanov, gerente do Ipca-IBGE, afirma que há bens duráveis até mais baratos hoje do que há um amo, como a televisão e o computador. No caso dos alimentos, nenhum produto analisado na pesquisa teve deflação em 12 meses.

“Os bens duráveis têm um comportamento mais estável na comparação. No começo da pandemia, houve uma demanda mais reprimida pelos bens duráveis e também na parte do setor de serviços”, diz Kislanov. “Essa demanda foi sendo retomada aos poucos, principalmente com a melhora do cenário da pandemia.”

Os alimentos, porém, não se beneficiaram diretamente do refluxo da crise sanitária e seguem com preços altos, já que a demanda sofre poucas oscilações. “Os preços podem subir, e as pessoas substituem um produto mais caro por outro um pouquinho mais barato”, explica a professora Juliana Inhasz, do Insper. “Na média, elas continuam consumindo o mesmo tanto de alimento.”

O encarecimento dos produtos da cesta básica se iniciou em 2020, já durante a pandemia de Covid-19 – e até hoje não foi inteiramente revertida. A carestia se agravou em 2021.

Nos últimos 12 meses, mesmo com o registro pontual de deflações, diversos produtos da cesta básica acumularam aumentos elevados. É o caso da cebola (inflação de 127% em um ano), do café (37%), do leite (37%) e da farinha de trigo (35%).

O programa de Lula dá ênfase às medidas de combate à carestia e à fome. “Trabalharemos de forma incansável até que todos os brasileiros e as brasileiras tenham novamente direito ao menos a três refeições de qualidade por dia”, aponta a plataforma da coligação Brasil da Esperança.

Entre as propostas de Lula, consta a retomada do Bolsa Família. O beneficiário receberá R$ 600 por mês, com acréscimo de R$ 150 para cada criança com até seis anos. Para garantir comida mais barata, o programa prevê apoio aos pequenos produtores e a volta do estoque de alimentos.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/12/inflacao-dos-alimentos-a-perversa-marca-do-governo-bolsonaro/

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Militares não encontram fraude nas urnas, mas Bolsonaro segura relatório

As conclusões do trabalho não foram apresentadas ao público, mas foram descritas ao presidente”, revelam fontes do alto comando ao O Globo

Na iminência de perder as eleições em 30 de outubro, Bolsonaro dá sinais de que pode não vir a aceitar o resultado das urnas. Tanto que segurou um relatório das Forças Armadas que não encontrou irregularidades nas urnas no primeiro turno.

“As conclusões do trabalho não foram apresentadas ao público, mas foram descritas ao presidente Jair Bolsonaro pelo Ministério da Defesa. O presidente, porém, não autorizou a divulgação dos resultados, segundo relatos feitos por três generais (dois do alto comando) a fontes da equipe da coluna”, revela a jornalista de O Globo Malu Gaspar.

Num gesto que irritou os militares, Bolsonaro sugeriu que eles se esforçassem mais, porque as informações não batiam com o que ele próprio soube a respeito do assunto. O trabalho envolveu amostra de ao menos 385 boletins de urna e um projeto-piloto com uso da biometria para testar 58 aparelhos.

Para evitar a divulgação dos dados que comprovam a segurança das urnas, o que põe abaixo suas argumentações contra o sistema eleitoral brasileiros, o presidente segurou o resultado para que fosse envolvido dados do segundo turno.

Contudo, o ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas requisitou ao Ministério da Defesa uma cópia do relatório da auditoria realizada no primeiro turno e deu prazo de 15 dias para a entrega do documento. O pedido foi feito pelo subprocurador-geral do tribunal, Lucas Rocha Furtado.

Repercussão

No parlamento, a reação sobre a manobra do presidente foi imediata. “Bolsonaro está PROIBINDO o Ministério da Defesa de divulgar o relatório do teste que constatou que NÃO HÁ FRAUDE NA URNA ELETRÔNICA. O pistoleiro do Planalto sabe que vai perder e quer preparar uma arruaça pós-eleitoral. Será derrotado e irá em CANA!”, escreveu o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) no Twitter.

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), a atitude dele é de golpista. “Forças Armadas confirmam que urnas eletrônicas são seguras, mas Bolsonaro manda esconder relatório. Bolsonaro é um mentiroso golpista”, diz.

“O primeiro turno acabou e até agora ninguém falou nada sobre os testes realizados pelas Forças Armadas nas urnas. O motivo? Eles não encontraram nenhum erro, nenhuma fraude, nada. Bolsonaro mandou esconder o relatório e tá quietinho desde então”, observou o deputado Alexandre Padilha (PT-SP).

A deputada Vivi Reis (PSOL-PA) destacou a postura arbitrária do presidente: “Bolsonaro não autorizou a divulgação do resultado do estudo feito pelas Forças Armadas, que não identificou qualquer irregularidade nas urnas eletrônicas no primeiro turno. É mais uma postura autoritária de um sujeito que não respeita ninguém e não aceita opinião diversa”.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/11/militares-nao-encontram-fraude-nas-urnas-mas-bolsonaro-segura-relatorio/

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Abstenção no 1º turno tirou 13 milhões de votos em Lula, diz Lavareda

Segundo Antonio Lavareda, a abstenção “é concentrada sobretudo nas camadas de menor escolaridade, que é onde tem o voto de Lula”

A elevada abstenção registrada no primeiro turno das eleições presidenciais prejudicou o desempenho de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Dos 156,4 milhões de brasileiros aptos a votarem em 2 de outubro, 32,7 milhões de eleitores não foram às urnas, conforme o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A taxa de abstenção foi de 20,95% do eleitorado, acima do registrado nas eleições 2018. Somente no Nordeste, principal reduto eleitoral da esquerda, 8,3 milhões de pessoas (19,5% dos eleitores) deixaram de votar

Na opinião do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, um dos maiores especialistas em pesquisas e disputas eleitorais no Brasil, o ex-presidente foi o candidato mais prejudicado com o chamado “não voto”. A coligação Brasil da Esperança vislumbrava esse risco, mas agora tem uma dimensão mais precisa do que efetivamente ocorreu.

“A votação do Lula foi tragada, boa parte dela, pela abstenção. Lula perdeu no dia da eleição cerca de 13 milhões de votos, sem nenhuma dúvida”, declarou Lavareda ao blog Pulso (O Globo). A abstenção, segundo ele, “é concentrada sobretudo nas camadas de menor escolaridade, que é onde tem o voto de Lula. Sabemos que 45% dos eleitores do Lula têm, no máximo, o fundamental completo”.

Para o especialista, esse fenômeno mudou a disputa, já que foi determinante para garantir um segundo turno entre o petista e o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL). “O nome da diferença do resultado das pesquisas com o resultado da eleição chama-se abstenção. A explicação para o Lula não ter levado a eleição no primeiro turno também se chama abstenção”, resume.

Lavareda explica que as pesquisas são incapazes de prever variáveis como a abstenção. Por isso, a leitura dos levantamentos deve pressupor que as sondagens eleitorais são diagnósticos estáticos, uma fotografia de momento – e não um prognóstico. “Os votos válidos derivados das pesquisas são apenas ilações, porque a pesquisa não consegue captar a abstenção na sociedade. É importante que não se repita esse erro no segundo turno”, recomenda.

No segundo turno, marcado para 30 de outubro, o número de eleitores absenteístas deve aumentar, especialmente onde a disputa ao governo estadual já foi definida. É o que ocorreu em todas as eleições ao Planalto desde 1989. “Segundo turno, em geral, a abstenção cresce. Em 2018, cresceu perto de 1,5 ponto (percentual) de um turno para outro.” Em contrapartida, com o pleito afunilado em duas candidaturas, a tendência é de queda no número de votos em branco e nulos.

Daí a preocupação da campanha de Lula em promover ações para estimular o eleitor do 13 a votar. Descontando-se os 3,4 milhões de votos nulos (2,82% do total de votos) e 1,9 milhão de votos em branco (1,59%), o primeiro turno terminou com 118 milhões de votos válidos.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/11/abstencao-no-1-turno-tirou-13-milhoes-de-votos-em-lula-diz-lavareda/

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

‘Maior caso de corrupção do planeta?’ Qual a gravidade do Orçamento Secreto

Falta de controle sobre bilhões geridos por parlamentares abre espaço para grandes desvios e distorções no uso do dinheiro público, apontam especialistas.

Por BBC

O debate sobre o chamado Orçamento Secreto voltou a esquentar depois que viralizou na quinta-feira (06/10) um vídeo sobre o tema da senadora Simone Tebet (MDB-MS), candidata derrotada à Presidência da República.

 

 

Na gravação, Tebet destaca a falta de transparência desse instrumento e diz que “podemos estar diante do maior esquema de corrupção do planeta Terra”.

 

A fala é um trecho de uma entrevista concedida ao podcast Flow ainda durante a campanha, em agosto. Após ficar em terceiro lugar no primeiro turno, com 4,16% dos votos válidos, ela declarou apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa o segundo turno contra o presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

No vídeo, Tebet lembra que o chamado Orçamento Secreto deve contar com R$ 19,4 bilhões em 2023, segundo a proposta de lei orçamentária encaminhada pelo presidente ao Congresso. Ela ressalta que esses recursos são enviados por parlamentares para gastos pelo Brasil sem transparência e com baixa capacidade de fiscalização pelos órgãos de controle.

 

A senadora cita ainda casos com fortes indícios de desvios públicos revelados pela revista Piauí em junho. Essa reportagem mostrou como municípios do Maranhão inflaram artificialmente os números de atendimento pelo SUS para receber uma fatia maior das emendas do relator (nome oficial do chamado Orçamento Secreto), que passaram a contar com bilhões de reais a partir de 2020.

 

Relator, nesse caso, é o parlamentar que relata a lei orçamentária e, por isso, controla formalmente a distribuição desses recursos no ano seguinte. O deputado Hugo Leal, do PSD do Rio de Janeiro, relatou em 2021 a lei que define o orçamento deste ano e tem a caneta para gerir os R$ 16,5 bilhões reservados para o chamado Orçamento Secreto em 2022.

 

A destinação dos recursos, porém, é definida a partir da negociação com o Palácio do Planalto e outras lideranças do Congresso, em especial os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Uma crítica recorrente a esse processo é que não há transparência sobre qual parlamentar solicitou quais recursos para qual finalidade e quais pedidos foram atendidos ou não.

 

“O relator, ele vai sozinho comandar R$ 19 bi (em 2023). Pro (Poder) Executivo, (o pedido do relator para liberar) esse dinheiro vai, mas ele vai sem rubrica, sem autoria (do parlamentar que definiu o uso do dinheiro). Ele é secreto porque eu não sei (quem está por trás da decisão do gasto)”, disse Tebet ao podcast.

 

“Podemos estar diante do maior esquema de corrupção do planeta Terra. Exemplo: numa cidade do interiorzinho do Maranhão, (a população) fez mais exame de HIV que toda a cidade de São Paulo, de 12 milhões de habitantes. Tem uma cidade que diz que extraiu num único ano 540.000 dentes, (uma cidade) pequenininha. Significa ter tirado 14 dentes de cada boca, de cada cidadão da cidade, inclusive do bebê recém-nascido que não tem dentes”, continuou, ao citar os casos revelados pela revista Piauí.

Na avaliação da senadora, esses números não fazem sentido e podem significar uso de “nota fria” para desviar recursos que não foram de fato utilizados nesses procedimentos de saúde.

 

“Pode ter dinheiro saído de Brasília, chegado lá, ido pro bolso de alguém. Não tem sentido as menores cidadezinhas do Maranhão receberem os maiores recursos desse orçamento. E aí você vai puxar a fila (da autoria dos gastos), porque ele é secreto, não sei de onde saiu, quem foi o autor, e eu não consigo controlar”, conclui na gravação que viralizou.

Maior escândalo de corrupção do planeta?

 

O chamado “Orçamento Secreto” começou a funcionar a partir do Orçamento federal de 2020, após o Congresso aprovar em 2019 a Lei Orçamentária do ano seguinte prevendo, pela primeira vez, R$ 30 bilhões a serem gastos por meio das emendas de relator.

 

Inicialmente, o presidente Jair Bolsonaro vetou essa novidade no Orçamento. Depois, porém, ele aceitou negociar com o Congresso e cerca de metade dos R$ 30 bilhões foram mantidos para as emendas do relator de 2020.

 

A partir de então, o chamado Orçamento Secreto passou a ser um instrumento importante para construir uma base de apoio ao governo no Parlamento e afastar o risco de um processo de impeachment, avalia a cientista política Beatriz Rey, pesquisadora visitante da Universidade Johns Hopkins, em Washington, estudiosa do funcionamento do Poder Legislativo no Brasil e nos Estados Unidos.

Os possíveis desvios revelados pela revista Piauí não são os únicos indícios de corrupção envolvendo o chamado Orçamento Secreto. A novidade não tem nem três anos de duração e já houve uma série de denúncias reveladas pela imprensa brasileira, em especial pelo jornal O Estado de S. Paulo, primeiro veículo a destrinchar o funcionamento das emendas de relator.

 

Em reportagem de maio de 2021, por exemplo, o jornal revelou que ao menos R$ 271,8 milhões foram usados para aquisição de tratores, retroescavadeiras e equipamentos agrícolas, em geral por valores bem acima dos previstos na tabela de referência para compras do governo, num indício de compras superfaturadas.

Na avaliação da Transparência Internacional Brasil, organização focada no combate à corrupção, não é possível dizer se o Orçamento Secreto é o maior esquema de desvios de recursos do planeta.

 

Bruno Brandão, diretor executivo da organização, afirma que não há parâmetros para cravar isso justamente porque nem toda corrupção praticada é descoberta, de modo que não há números oficiais que permitam comparar diferentes esquemas pelo mundo.

 

Ainda assim, ele diz que é possível afirmar que o chamado Orçamento Secreto é “extremamente grave”. Para a Transparência Internacional, trata-se do “maior processo de institucionalização da corrupção que se tem registro no país”.

 

O termo “institucionalização da corrupção” é usado, explica Brandão, porque, no caso das emendas do relator, está sendo usado um mecanismo institucional, que existe dentro da lei orçamentária, para dar um “verniz legal” a uma “prática corrupta”.

 

“O que a gente chama de institucionalização da corrupção é uma forma de dar um verniz legal, institucional, a uma prática absolutamente corrupta na sua essência, que é a apropriação do erário público para interesses privados, sejam eles políticos, de reprodução de poder, ou pecuniários mesmo, interesses materiais”, disse à BBC News Brasil.

 

“E, nesse caso, com imensa escala”, destacou ainda.

 

Mensalão x Petrolão x Orçamento Secreto

 

Desde 2020, já são cerca de R$ 45 bilhões empenhados pelo governo para gastos das emendas de relator, segundo levantamento da revista Piauí. O valor empenhado é aquele que já foi de fato reservado para o pagamento.

 

A grande dimensão desses valores tem levado críticos do atual governo a comparar o Orçamento Secreto com escândalos de corrupção dos governos no PT. No caso do chamado Mensalão, o Ministério Público concluiu em 2012 que foram desviados ao menos R$ 101 milhões, por meio de fraudes envolvendo contratos de publicidade de órgãos públicos.

 

Já no caso do chamado Petrolão, R$ 6 bilhões desviados da Petrobras foram devolvidos após acordos de colaboração, leniência e repatriações.

 

As dezenas de bilhões do chamado Orçamento Secreto têm sido usadas pelos parlamentares para gastos e investimentos em seus redutos eleitorais, como obras, compras de equipamentos e realização de procedimentos médicos. Não se sabe quanto desse total pode estar sendo desviado em esquemas de corrupção.

 

Na avaliação de Bruno Brandão, da Transparência Internacional Brasil, a falta de controle sobre esses recursos abre espaço para que uma grande parcela esteja sendo roubada.

 

“Esse esquema permite isto (desvios de recursos) numa escala talvez não conhecida até hoje e numa forma de pulverização da corrupção, porque é um recurso do orçamento federal jorrando para as localidades que têm menor capacidade institucional de controle. E ainda, além disso, desviando dos mecanismos regulares de transparência e controle do ciclo ordinário orçamentário”, afirma.

“Corrupção não é o único problema”

 

Para Brandão, porém, o problema não está apenas no desvio de recursos públicos. Na sua avaliação, há outros pontos graves envolvendo o Orçamento Secreto.

 

Um deles é o fato de, num Orçamento já escasso, uma parcela grande de dinheiro estar sendo retirada de outras despesas importantes para bancar gastos de interesse dos parlamentares.

 

Um exemplo disso, cita o especialista, é o corte previsto de 59% nos recursos para parcela gratuita da Farmácia Popular, que inclui medicamentos do tratamento da asma, hipertensão e diabetes.

Segundo reportagem do jornal Estado de S Paulo, enquanto a proposta de orçamento para 2023 prevê aumento dos recursos destinados às emendas de relator, a proposta do governo Bolsonaro para a Farmácia popular é de R$ 842 milhões, o que representa um corte de R$ 1,2 bilhão no valor previsto para 2022 (R$ 2,04 bilhões).

 

Na sua visão, esse tipo de troca — recursos retirados de programas de Estado para engrossarem as emendas — reduz a “eficiência do gasto público”. O problema, diz, é agravado pela falta de critério na hora de distribuir os recursos pelo país, já que uma cidade que talvez tenha mais carência de investimentos pode estar perdendo recursos para outras que são reduto eleitorais de deputados e senadores aliados do governo.

Desequilíbrio na corrida eleitoral

 

O diretor da Transparência Internacional Brasil cita ainda outro elemento preocupante envolvendo as emendas do relator: a distribuição desses recursos afeta o equilíbrio na disputa eleitoral, enfraquecendo a própria democracia brasileira.

 

“Talvez esse seja o aspecto mais profundo (do Orçamento Secreto): perverter o processo democrático. Quem se apropriou desse recurso público utilizou para ganhar favores políticos e apoio nessas bases e assim ganhar eleições e se manter no poder. E são justamente as forças mais corruptas que tiveram esse benefício. O resultado agora já mostrou que deu certo. (Esses parlamentares) se mantiveram no poder, o que há de mais corrupto, mais podre na nossa classe política”, critica.

 

Levantamento da revista Piauí publicado na sexta-feira (07/10) mostrou que “os principais partidos do Centrão (PL, Republicanos, PTB, União Brasil, PSC, PP e Patriota) contaram com mais de R$ 6,2 bilhões de recursos das emendas de relator – uma bolada que ajudou a garantir a reeleição de pelo menos 140 parlamentares”.

 

“Esse valor é superior aos R$ 5,7 bilhões de recursos do fundo eleitoral distribuído entre todos os partidos. Só no PL, de Bolsonaro, 60 deputados reeleitos puderam destinar às suas bases R$ 1,6 bilhão vindos das emendas de relator”, diz ainda a reportagem.

O levantamento mostra ainda a discrepância da distribuição de recursos entre parlamentares de diferentes partidos.

“Cada deputado reeleito desse Centrão expandido teve, em média, R$ 42,8 milhões de orçamento secreto. O montante é 470% acima da média recebida pelos deputados reeleitos pela coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT, PCdoB, PV, Psol, Rede, PSB, Avante, Solidariedade, Pros) – R$ 7,5 milhões cada”, afirma a reportagem da Piauí.

 

Os valores analisados pela revista, porém, incluem apenas uma parte do chamado Orçamento Secreto, já que não há transparência total sobre esses recursos.

 

“A base de dados analisada pela piauí só leva em conta R$ 19 bilhões, dentro de um valor global de R$ 45 bilhões já empenhados (reservados para gasto), restando ainda outros R$ 8 bilhões a empenhar até o fim do ano. Esses R$ 19 bilhões são valores somados entre indicações que se tornaram públicas depois que o Supremo Tribunal Federal determinou transparência e outras planilhas internas do governo obtidas pelo repórter ao longo dos últimos dois anos”, diz a reportagem, assinada por Breno Pires.

O que decidiu o STF

 

Após o Orçamento Secreto ser questionado no Supremo Tribunal Federal, a Corte determinou que o Congresso desse total transparência às emendas do relator. Em resposta, a Comissão Mista de Orçamento criou um portal em que os pedidos passaram a ser registrados. Mas, para especialistas em transparência, a ferramenta ainda é insuficiente.

Um dos problemas apontados é que é possível inserir como autor do pedido não apenas nomes de parlamentares, mas também pessoas, entidades e órgãos de fora do Congresso. A organização Contas Abertas fez um levantamento dos dados disponíveis e encontrou uma série de inconsistências.

 

“Dentre os R$ 12,3 bilhões das indicações dos ‘autores’, cerca de R$ 4 bilhões, ou seja um terço das indicações, são atribuídas a ‘usuários externos’. Dentre os usuários externos, existe um classificado simplesmente como ‘assinante’, que indicou R$ 23,6 milhões em emendas de relator”, exemplificou o economista Gil Castello Branco, diretor da organização Contas Abertas, em resposta por escrito à BBC News Brasil em setembro.

 

Outro problema, acrescentou Castello Branco na ocasião, é que esses dados continuam fora dos sistemas que permitem fiscalizar melhor os gastos do governo federal, como Siga Brasil e Portal da Transparência.

 

“Os dados mostram que os recursos bilionários são distribuídos sem qualquer critério técnico ou parâmetro socioeconômico, o que distorce as políticas públicas e amplia as desigualdades regionais e municipais”, ressaltou.

 

Bolsonaro diz que responsabilidade é do Congresso e Lira defende emendas do relator

 

Bolsonaro tem buscado se distanciar do tema, insistindo que o chamado Orçamento Secreto é uma iniciativa do Parlamento.

 

“Pelo amor de Deus, para com isso. O orçamento secreto é uma decisão do Legislativo que eu vetei, e depois derrubaram o veto”, disse, ao ser questionado por uma jornalista nesta segunda-feira (02/10).

 

Na sequência, ao ser interpelado sobre ter recuado do veto, respondeu com irritação e deixou o local da entrevista: “Quem recuou do veto? Ah, eu desvetei? Desconheço ‘desvetar'”.

 

Já o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), costuma defender as emendas de relator dizendo que o parlamentar conhece melhor a realidade dos municípios e, por isso, estaria mais preparado para decidir onde aplicar os recursos federais do que as equipes dos ministérios — argumento que é refutado por estudiosos da administração, como a professora da FGV e procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo Élida Graziane.

 

Na semana passada, ele voltou a usar esse argumento e sustentou também que o novo instrumento orçamentário terminou com o “toma lá dá cá” entre Planalto e Congresso.

 

“Emendas de relator são lícitas, constitucionais e democráticas. São, além de tudo, uma posição do Parlamento contra as práticas que levaram a crimes do mensalão, captação de apoio político por compra de votos no Congresso. Isso que não pode voltar”, disse Lira em entrevista à Rádio Bandeirantes.

“Usar isso como bandeira de campanha é um erro, vai prejudicar muitas pessoas que tiveram melhorias em suas vidas. É melhor o parlamentar fazer as indicações porque sabe mais das necessidades do povo, do que um ministro que não teve um voto e não conhece o Brasil. Essa prática libertou o Congresso do toma lá dá cá”, afirmou também.

 

Já o relator do Orçamento, deputado Hugo Leal (PSD-RJ), refutou que as emendas do relator sejam um “Orçamento Secreto”, em entrevista do final de setembro ao portal de notícias O São Gonçalo, veículo da baixada fluminense.

 

“E sobre a famosa polêmica das emendas do relator que passou a ser chamada fora do Congresso de ‘Orçamento Secreto’, eu digo que não existe absolutamente nada de secreto. Se tivesse o ‘orçamento secreto’ o Supremo não deixaria fazer e o TCU também não. O que existe é a discussão de critérios de distribuição, mas não existe o orçamento ‘secreto’. Ele passa por toda a análise pública dos três poderes, e obviamente da Câmara e do Senado”, argumentou.

 

A BBC News Brasil entrou em contato com o Palácio do Planalto, os presidentes da Câmara e do Senado e o relator Hugo Leal, mas eles não quiseram se manifestar para essa reportagem.

 

Base de apoio do governo no Congresso eleito em 2022

Mesmo com queda na inflação, defasagem da tabela do IR chega a 144,1%

De acordo com dados da Unafisco Nacional, se a tabela do Imposto de Renda fosse corrigida integralmente, o piso de isenção passaria de R$ 1,9 mil para R$ 4,6 mil

Rosana Hessel

Mesmo com a queda na inflação em setembro, a defasagem da tabela do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) continua elevada e chegou a 144,1% no acumulado desde 1996, descontando os reajustes realizados nesse período, conforme cálculo feito pela Unafisco Nacional e divulgado nesta terça-feira (11/10).

O limite para isenção do IRPF, de R$ 1.903,98, não é corrigido desde 2015, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Se a correção integral da defasagem fosse aplicada, esse limite deveria ser de R$ 4.647,96, lembrou o presidente da Unafisco, Mauro Silva.

Atualmente, existem 34,6 milhões de contribuintes prestando declarações ao Fisco e 7,6 milhões de pessoas são isentas com o piso atual. Se a correção integral fosse aplicada, o número de isentos chegaria a 24,5 milhões e o governo deixaria de arrecadar R$ 184,3 bilhões por ano.

Silva lembrou que, para cada ponto percentual a mais na inflação anual, o governo arrecada R$ 2 bilhões a mais sem a correção da tabela do Imposto de Renda. Se fosse aplicada a correção parcial proposta pelo atual governo, de 29,58% no piso de isenção, para R$ 2.467,25 – abaixo da promessa de campanha de isentar quem ganhasse até R$ 5 mil – a perda de arrecadação anual seria de R$ 61,2 bilhões.

No mês passado, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou 0,29%, terceira queda consecutiva, puxada pela redução dos preços dos impostos sobre combustíveis, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Contudo, analistas reconhecem que o ciclo de deflação acabou em setembro e, a partir deste mês, a tendência é de que a inflação volte a subir, mesmo se a Petrobras continuar adiando o reajuste dos combustíveis por conta das eleições no próximo dia 30.

Além disso, Mauro Silva lembra que essa redução forçada de preços não está saindo barato para os estados, principalmente. “Apesar da queda na inflação, a defasagem ainda é muito elevada e o custo dessa deflação, no caso dos combustíveis, é altíssimo e dava até para mandar o homem à lua”, alertou o presidente da Unafisco.

Pelas estimativas divulgadas pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) durante a tramitação do projeto de lei que criou o teto de 18% para os Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), as perdas dos entes subnacionais variam entre R$ 64,2 bilhões e R$ 83,5 bilhões.

CORREIO BRAZILIENSE

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