Em uma economia instável às vésperas de eleição polarizada, estratégias envolvem contas digitais, visitas a “cuevas” e operações com o chamado “dólar bolsa”
A dinâmica é sempre a mesma: seja um jovem engenheiro, como Ramiro González*, ou uma dona de floricultura, como Catalina Banach, o que quase todo argentino faz quando sobra dinheiro no fim do mês é comprar dólares – dos mais variados jeitos, legais ou não.
Os malabarismos para um argentino ter a vida financeira nos eixos, no entanto, são elaborados. Na empresa de e-commerce em que trabalha, o salário de González, de 26 anos, é de cerca de 550 mil pesos (R$ 3 mil na cotação do mercado paralelo). Em novembro, passará a ganhar 20% mais, com o terceiro reajuste que receberá só neste ano.
As correções, no entanto, são insuficientes. “Hoje ganho praticamente a metade em dólares do que ganhava quando comecei neste trabalho, há um ano”, contou ao InfoMoney.
Para não perder poder aquisitivo com a inflação acelerada, assim que o salário cai na conta González paga a fatura do cartão de crédito, faz compras no supermercado para as duas semanas seguintes e adquire os materiais necessários para reformar uma propriedade de sua mãe, onde mora.
Depois, como muitos dos seus conhecidos, González transfere recursos para a conta digital remunerada mais famosa no país. Lá, o dinheiro parado rende cerca de 100% ao ano. Se parece muito, é bom lembrar que a taxa básica de juros da Argentina é de 133% atualmente, enquanto a Selic brasileira está em 12,75%.
Devido à liquidez imediata, a conta digital é vista pela população – traumatizada por constantes crises e um confisco bancário em 2001 – com melhores olhos do que outros investimentos de renda fixa.
Da conta remunerada para o “dólar bolsa” e as “cuevas”
O que sobra o engenheiro troca por dólares, que junta em casa para proteger as economias. “Compro logo, porque no fim do mês o peso sempre vai estar valendo menos. Se precisar de 50 ou 100 mil pesos mais, você vende parte dos dólares que comprou”, diz.
Até alguns meses atrás, González conseguia ter acesso aos 200 dólares que os argentinos podem comprar legalmente no banco pelo câmbio oficial (365 pesos por dólar). Mas depois que sua empresa recebeu um auxílio do governo, os trabalhadores foram impedidos de obter a moeda americana dessa forma.
Por isso, ele compra o chamado “dólar bolsa” ou “dólar MEP”. A operação implica em comprar títulos financeiros ou ações usando pesos e depois vendê-los em dólares, com a intermediação de uma corretora de valores.
Os dólares obtidos na venda podem ser sacados depois de 24 horas em agência bancária. A cotação do “dólar bolsa” (cerca de 884 pesos) é próxima à do mercado paralelo (985 pesos), porém a operação é legal e mais vantajosa.
Outra opção são casas de câmbio, ou “cuevas”. Elas operam ilegalmente devido a restrições à compra de divisas impostas no final da presidência de Mauricio Macri, em 2019. Na época, a vitória do atual presidente, Alberto Fernández, nas eleições provocou uma disparada do dólar.
“Tenho gente conhecida nas ‘cuevas’, consigo bons preços e eles entregam em casa”, diz González. É uma alternativa para não ter de esperar as 24h do “dólar bolsa”, nem correr o risco de receber do banco notas velhas ou de valores diferentes de US$ 100.
Na Argentina, a taxa de câmbio das “cuevas” para notas de US$ 100 antigas – apelidadas de “cara chica”, já que o rosto de Benjamin Franklin estampado nelas é menor do que nas cédulas novas – ou de valores como US$ 50 ou US$ 20 é pior.
Engenharia financeira para driblar a inflação
Tanta engenharia financeira, no entanto, tem ficado encostada nos últimos tempos. “Comprei pouquíssimos dólares neste ano, pois gasto o que entra”, conta González. “Saio uma ou duas vezes por semana para bares ou baladas, só uso ônibus, cozinho e sempre procuro descontos para o dinheiro render. Sempre tive esse hábito”.
Solteiro e sem filhos, ele paga aluguel para a própria mãe, reajustando o valor só quando o salário aumenta – e não anualmente, como é o padrão, seguindo um índice imobiliário determinado pelo Banco Central. Neste ano, viajou para Montevidéu e Rio de Janeiro para ver os jogos do Argentinos Juniors, seu time do coração, sem mexer nas economias. Se não precisasse reformar a casa, conseguiria economizar 100 ou 200 dólares todo mês, calcula.
Catalina, a paisagista, de 62 anos, diz que também não tem conseguido guardar em dólares tanto quanto costumava. Hoje, ela recebe cerca de 550 mil pesos por mês cuidando dos jardins de cerca de 20 edifícios, montando jardins verticais em domicílios e recebendo auxílios governamentais por ter um filho com deficiência. A floricultura, aberta há quatro anos, ainda não dá lucro.
Catalina Banach, 62, dona de uma floricultura em Buenos Aires (Foto: Luciana Taddeo)
A maior parte dos gastos são com o plano de saúde do filho, que tem uma doença cardíaca. “É a primeira coisa que pago todo mês, para não haver nenhum tipo de problema no caso de uma urgência. São pelo menos 100 mil pesos”, conta. Outros 300 mil pesos vão para seu próprio plano de saúde, comida, seguros, impostos. “O que sobra, uso para gastos extras”.
Sua rotina financeira não é tão sistematizada quanto a de González, já que seus clientes pagam as faturas em momentos diferentes. Mas o que entra também vai para a conta digital remunerada e para a compra 100 ou 200 dólares por mês. “Fiquei viúva, tive um ano caótico e ultimamente só tenho conseguido guardar 50 dólares”, diz.
Como recebe auxílio governamental, Catalina também não pode comprar os 200 dólares liberados para os argentinos no câmbio oficial. Por isso, frequenta as “cuevas” ou adquire a moeda de uma vizinha. Seu filho, de 19 anos, anda preocupado por viver a sua primeira crise financeira grave no país. “Podemos comer carne, ir a uma cafeteria, fazer uma viagem. Está tudo bem”, costuma dizer.
Assim como ela, González já não se apavora com momentos de instabilidade – como o da semana passada, quando o dólar ultrapassou 1.000 pesos pela primeira vez no mercado paralelo. “Não me assusta, o que me provoca é dor, pena”, lamenta.
Calejados, ambos sempre economizaram em dólares. Quando criança, González pedia que os “presentes” em dinheiro da família fossem trocados por dólares. “Quando tinha 8 anos, 1 dólar valia 3 pesos”, diz. Catalina segue a tradição familiar consolidada ao longo das consecutivas crises das últimas décadas.
Eleições à vista – mudanças também?
Apesar da eleição presidencial deste domingo (22), a perspectiva não é de melhores dias para os dois argentinos. González, que já votou na sigla macrista Juntos por el Cambio, diz que vai de voto em branco dessa vez.
A proposta de dolarização de Javier Milei [candidato de extrema-direita] me dá muito medo, mas as propostas dos outros também não me convencem”, diz. “Com Massa, o dólar sobe 20% em um dia, o que também dá medo. Aconteça o que acontecer, não acho que vamos estar melhor”.
Já Catalina votará em Patricia Bullrich, candidata de direita da sigla macrista. “Não gosto dela, mas é em quem dá para votar”, diz. “Meu filho, como toda a juventude, vai votar no Milei, porque dizem que já conhecem os políticos tradicionais e querem algo diferente. Mas pela minha experiência, tenho medo, não gosto das propostas dele”.
No mar de dúvidas sobre os rumos da economia local, a única certeza é que nem Catalina nem González guardarão dinheiro nos bancos. “Vocês, brasileiros, acham perigoso ter dinheiro em casa. Para nós, perigoso é ter dinheiro depositado no banco”, diz o engenheiro, escancarando o trauma histórico que ainda assombra e molda a vida financeira dos argentinos.
São 35 milhões de brasileiros que não têm acesso ao serviço. Contudo, a bolsonarista Caroline de Toni (PL) considerou erro achar que colocar o artigo na Constituição resolverá o problema
Sob forte oposição de parlamentares bolsonarista, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (17) a admissibilidade da proposta de emenda à Constituição (PEC) que inclui o acesso à água potável entre os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição.
São 35 milhões de brasileiros que não têm acesso à água potável, sobretudo no sertão do Nordeste brasileiro.
Contudo, a deputada catarinense Caroline de Toni (PL) considerou “uma ideia errônea” achar que colocar mais um artigo na Constituição resolverá “miraculosamente” o problema.
Defendeu que a solução está no marco temporal do saneamento aprovado no governo Bolsonaro, o que foi bastante criticado naquela ocasião.
“O que se vê é que o marco do saneamento está sendo utilizado no Estado de São Paulo para abrir caminho à privatização de uma das principais empresas do nosso estado”, criticou o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), referindo-se a Sabesp.
No mesmo dia da votação da PEC, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), enviou o projeto de privatização da empresa para a Assembleia Legislativa do Estado daquele estado.
“Já tem capital aberto. Está na bolsa de Nova York. Tem um quadro extraordinário de profissionais, trabalhadores e engenheiros. A Sabesp, que tem uma história de serviços prestados a São Paulo e a municípios daquele estado, mas que, infelizmente, a partir da ação do atual governador, caminha a largos passos para a privatização”, lamentou Orlando.
Para ele, há o perigo de acontecer em São Paulo o que foi a experiência do Tocantins e do Amazonas.
“O que foi a experiência da maioria dos países da Europa que privatizaram as suas empresas de água e saneamento e que, neste momento, vivem o processo inverso: vivem um processo de reversão das empresas de saneamento que foram privatizadas, que voltam ao controle do Estado”, lembrou.
Por isso, considerou que o acesso à água “não se dê a partir do famigerado marco do saneamento, porque o que se estabeleceu ali foi, na verdade, mecanismos que podem facilitar a vida de privatistas”.
O relator da proposta, deputado Pedro Campos (PSB-PE), considerou infundada a crítica da oposição segundo a qual o artigo não estaria adequado ao que foi proposto no marco do saneamento e que dificultaria o acesso à água ou ao saneamento.
“Muito pelo contrário, reforçaria esse desejo de tantos parlamentares que aqui estão presentes de que a água chegue até as pessoas, independentemente do cenário em que essas pessoas vivam, independentemente de viverem na cidade, na zona rural, no semiárido, até muitas vezes, vemos comunidades que moram às margens de grandes rios, como o Rio São Francisco, o Rio Amazonas, e não têm acesso à água tratada, à água potável”, justificou.
“Então, é isso que queremos colocar na Constituição, esse direito fundamental. É isso que está escrito na PEC. Existem outras PECs apensadas, cujo mérito vai ser debatido na comissão especial”, completou.
O Conselho de Segurança da ONU, rejeitou, na manhã desta quarta-feira (18), resolução proposta pelo governo do Brasil para a criação de corredores humanitários na região e o cessar fogo imediato da guerra que iniciou no último dia 7, quando o grupo extremista Hamas atacou Israel, O Brasil ocupa a presidência rotativa do Conselho de Segurança.
A votação foi rápida e ocorreu logo no início do encontro, que deveria ter ocorrido nesta terça-feira (17), mas acabou sendo adiado. Na votação, os Estados Unidos vetaram a resolução brasileira, por conta de uma mudança no texto proposta pela Rússia, a de incluir um pedido de cessar-fogo imediato. Ao todo, foram 12 votos favoráveis à resolução do Brasil, duas abstenções e o voto contra dos Estados Unidos, que acabou resultando na rejeição da resolução.
A decisão se deu poucas horas depois do ataque ao Hospital Baptista Al-Ahli, na Faixa de Gaza. O ataque brutal deixou centenas de mortos e deflagrou ainda mais a guerra de informações travadas entre o governo de Israel e da Palestina. O presidente Lula se manifestou sobre a tragédia, e reforçou o pedido para que civis não sejam penalizados com a guerra.
“O ataque ao Hospital Baptista Al-Ahli é uma tragédia injustificável. Guerras não fazem nenhum sentido. Vidas perdidas para sempre. Hospitais, casas, escolas, construídas com tanto sacrifício destruídas em instantes. Refaço este apelo. Os inocentes não podem pagar pela insanidade da guerra”.
Segundo o ministério, o Brasil segue as determinações do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que tem suas listas de indivíduos e organizações consideradas terroristas — e nas quais o Hamas não está incluído. O Brasil está em uma das dez vagas não-permanentes do Conselho de Segurança. Hoje, ocupa também a presidência rotativa do conselho, em um mandato que começou em outubro e vai até o final do ano.
O PT, partido do presidente Lula, aprovou resolução em que condena os ataques do Hamas contra civis, ao mesmo tempo em que acusa Israel de cometer genocídio contra a população de Gaza. O partido, contudo, não classifica o Hamas como grupo terrorista, na mesma linha seguida pelo governo brasileiro e pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Diante da manifestação do partido, a Embaixada de Israel no Brasil divulgou uma nota, em que diz que há, na decisão da legenda do presidente Lula, “extrema falta de compreensão da atual situação”.
“Qualquer pessoa que pense que o assassinato bárbaro, a violação e a decapitação de pessoas é uma posição política, ou que se trata apenas de uma luta política legítima, possui uma extrema falta de compreensão da atual situação. É muito lamentável que um partido que defende os direitos humanos compare a organização terrorista Hamas, que vai de casa em casa para assassinar famílias inteiras, com o que o governo israelense está fazendo para proteger os seus cidadãos. Deve ser feita uma forte separação entre a organização terrorista Hamas e os palestinos”, diz a nota.
AUTORIA
IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.
O Brasil ocupa a presidência rotativa do Conselho de Segurança. Na votação, os Estados Unidos vetaram a resolução brasileira, por conta de uma mudança no texto proposta pela Rússia, a de incluir um pedido de cessar-fogo imediato. Ao todo, foram 12 votos favoráveis à resolução do Brasil, duas abstenções e o voto contra dos Estados Unidos, que acabou resultando na rejeição da resolução.
“Temos de trabalhar com todos os países da comunidade internacional para que essas superpotências sintam um pouco de vergonha e assumam as responsabilidades que os cabem como membros do Conselho de Segurança da ONU”, afirmou o embaixador da Palestina à reportagem.
A decisão se deu poucas horas depois do ataque ao Hospital Baptista Al-Ahli, na Faixa de Gaza. O ataque brutal deixou centenas de mortos e deflagrou ainda mais a guerra de informações travadas entre o governo de Israel e da Palestina.
O presidente dos EUA, Joe Biden, está em Israel e anunciou apoio financeiro de US$ 100 milhões em ajuda humanitária a Gaza. A ida do presidente norte-americano causou uma série de novos ataques no Oriente Médio.
“Era de esperar essa decisão dos EUA. Não vou dizer que é lamentável. Essa decisão é mais que lamentável. Esses membros são responsáveis pela segurança dos povos, e lamentavelmente eles não assumem essa responsabilidade”, reforçou o embaixador da Palestina.
Segundo o ministério, o Brasil segue as determinações do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que tem suas listas de indivíduos e organizações consideradas terroristas — e nas quais o Hamas não está incluído. O Brasil está em uma das dez vagas não-permanentes do Conselho de Segurança. Hoje, ocupa também a presidência rotativa do conselho, em um mandato que começou em outubro e vai até o final do ano.
AUTORIA
IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.
Embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zohar Zonshine tem uma certeza e uma esperança nos últimos dias. A certeza é que a guerra travada contra o Hamas está longe do fim. A esperança é que o Brasil, que comanda de forma temporária o Conselho de Segurança da ONU, apoie publicamente as ações de Israel contra o grupo extremista que atacou o país.
“Neste momento estamos numa situação que o Hamas está vencendo”, afirmou o embaixador, em entrevista exclusiva concedida ao Congresso em Foco na manhã dessa terça-feira (17) – antes, portanto, da escalada provocada por um ataque a um hospital em Gaza que deixou 500 mortos *. Para o diplomata, as negociações para a retirada de brasileiros da região de guerra estão todas atreladas a posicionamentos que dependem não apenas de Israel, mas de diversos países e entidades internacionais, o que inviabiliza um resgate imediato.
Assista à íntegra da entrevista dada pelo embaixador israelense ao Congresso em Foco:
Leia trechos da entrevista abaixo:
Congresso em Foco – Como é que o senhor acompanha essa guerra à distância, tendo pessoas tão próximas do senhor, vítimas dessa barbárie que ocorre desde o último dia 7?
Daniel Zohar Zonshine – Realmente foi um choque. Um choque ouvir o que aconteceu lá em Israel do ponto de vista do tamanho da surpresa, da brutalidade, do medo das famílias com o Hamas. Levou dois, três, quatro dias para entender que tínhamos uma coisa tipo Isis (sigla em inglês para Estado Islâmico), que é matar crianças, decapitar pessoas, estuprar mulheres. Isso é terrorismo por terrorismo. Não há nenhuma outra razão. São mais de 1 mil israelenses assassinados, que estavam perto da Faixa de Gaza e dentro do kibutzim. Há cidades que estão lá perto que foram atacadas do mesmo jeito e com lançamento de foguetes. Para nós isso foi uma surpresa, um choque. Leva tempo para entender. É uma guerra que foi iniciada contra Israel pela organização terrorista Hamas. É uma guerra que não temos outra opção do que vencer, porque não podemos viver junto com o Hamas, que a meta deles é matar nós israelenses.
O senhor se refere especificamente a uma guerra contra o Hamas ou a uma guerra contra os palestinos? Porque nesse momento, com os ataques que ocorrem em Gaza, muitos civis palestinos estão morrendo, sobretudo crianças e mulheres. Essa guerra que Israel trava hoje é contra os palestinos ou é contra o Hamas?
É contra o Hamas. Tem de diferenciar entre o Hamas e o povo palestino. O Hamas com os métodos dele, terroristas, não representa o povo palestino. A maioria do povo palestino quer viver em paz, viver e ter vida normal, da maneira que a vida possa ser possível nesta zona. O Hamas é uma organização terrorista que não tem nenhuma intenção de melhorar a vida dos palestinos que moram na Faixa de Gaza. Todos esses recursos que chegaram para a Faixa de Gaza durante os últimos 15, 20 anos, desde a saída de Israel de lá, não foram investidos em criar uma vida melhor para os palestinos. Foram investidos para criar condições para atacar Israel, incluindo o dinheiro que chegou do trabalho em Israel. Cerca de 20 mil pessoas por dia saem da Faixa de Gaza para trabalhar em Israel e o dinheiro deles foi para viver. Já todo o dinheiro de apoio internacional foi para formação e para educação de ódio ou para fortalecer os túneis subterrâneos para fazer base para atacar Israel. Nossa guerra é contra o Hamas. Não é contra o povo palestino, que numa certa maneira está sequestrado pelo Hamas. Eles são usados como escudo humano. Israel está reagindo contra estas alvos militares do Hamas, mas infelizmente eles estão tão perto do coração da Palestina que a população também sofre com isso.
Nesse caso, o senhor diz que para combater o Hamas é necessário atacar a região da Palestina, Gaza e com isso também vitimar palestinos?
O Hamas está atuando de dentro de Gaza e então nós lutamos contra o Hamas. O fato de que o Hamas luta por trás de palestinos, de civis, isso é uma coisa muito triste, mas não é uma realidade que nós construímos. Isso faz parte do método de atuação deles: chegar, matar civis e depois chegar para ficar atrás dos civis palestinos e chorar que Israel está atacando. Neste momento estamos numa situação que o Hamas está vencendo. Depois dos mais de 1 mil israelenses que foram assassinados por eles, mais de 300 pessoas das Forças Armadas morreram nas batalhas contra eles, tentando defender os civis israelenses, o Hamas não pode sair vencendo porque, na próxima, ele tenta fazer isso por oportunidade. Temos uma obrigação com nossas pessoas, nossos cidadãos israelenses, que isso não vai acontecer mais.
Israel não irá parar essa guerra enquanto não acabar com o Hamas?
Não sei se podemos acabar com o Hamas, mas pelo menos acabar com as habilidades militares deles para não termos mais uma ameaça sobre as pessoas que moram lá. Isso é uma coisa que não é aceitável depois que o que vimos lá, este ataque cruel, de surpresa. O Hamas não pode mais ameaçar a vida das pessoas, porque isso não é aceitável. Você não pode aceitar um vizinho que você não sabe se um dia ele vai atacar e entrar na sua casa e vai tentar matar.
Temos hoje brasileiros na fronteira de Gaza querendo sair para o Egito. E não só brasileiros, obviamente, como também pessoas de outras nacionalidades. Mas essa fronteira até agora não foi aberta e a todo dia se cria uma expectativa. Qual é a real possibilidade de haver a realização de um corredor humanitário para a retirada dessas pessoas?
Primeiro eu tenho que mencionar que quem está responsável por Gaza nos últimos 17 anos é o Hamas. Eles são responsáveis pela realidade lá. Ainda agora, sobre os brasileiros e pessoas de outras nacionalidades que estão lá, tem um trabalho de coordenação para coordenar a saída deles da Faixa de Gaza e esta coordenação ainda não chegou para o estágio final. Então isso ainda tem negociações e considerações. E outra coisa. No momento tem ainda mais de 200 israelenses reféns que devem ser liberados sem nenhuma condição e o mais rápido que possível.
Ou seja, é quase que uma condicional isso, embaixador? O senhor acredita que não haverá liberação na fronteira enquanto não houver a libertação dos reféns?
Eu acho que não é nenhuma condição nesta natureza, mas o que acontece lá não é absolutamente só nas mãos de Israel, tem outras entidades de países envolvidos. E não é só uma coisa que depende de Israel.
Neste momento não conseguimos ter uma previsão de quando vai haver a abertura dessa fronteira para retirada das civis que estão aguardando essa questão?
É verdade, não sabemos quando isso vai ser completo para eles saírem.
Algumas nações têm cobrado um posicionamento do Brasil a respeito do Hamas, mas o Brasil não classifica o Hamas como um grupo terrorista e alega que essa classificação cabe ser feita à ONU. Como que Israel, como uma nação que está aqui no Brasil, recebe esse posicionamento da diplomacia brasileira?
Temos diferenças de opiniões nesse sentido, nessas definições. Pensamos que estuprar mulheres, matar bebês, matar famílias inteiras nas casas deles, nas camas deles e atacar os civis, etc. Pensamos que não tem outra definição fora do terror. É terrorismo puro. O governo brasileiro oficial pensa diferente. Então, como eu disse, temos diferenças de opiniões nesse sentido e vamos manter esta diferença por enquanto. Agora, se falarmos sobre o Conselho de Segurança, a chamada para cessar fogo neste momento, quando ainda temos 1,3 mortos em frente de nós, do lado israelense, e o Hamas ainda está lá, com habilidades militares e que pode ameaçar mais de uma vez Israel, para nós é uma coisa inaceitável e nós precisamos tempo para eliminar esta habilidade militar do Hamas. Então quem apoia a paz no Oriente Médio deve condenar e repudiar estas ações do Hamas, que não está aproximando a paz no Oriente Médio, mas atuando contra isso com a orquestração do Irã.
Na segunda-feira, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Israel, Lior Haiat, afirmou a um pequeno grupo de jornalistas sul-americanos que, no entendimento do governo israelense, países e organizações que não classificam o Hamas como organização terrorista, como é o caso do Brasil, apoiam o grupo extremista. Esse é o entendimento geral?
Sim. Se você recebe o Hamas como um jogador legítimo e como um elemento que temos que negociar com ele, isso é um problema. Um problema também porque o Hamas, na carta fundamental deles, está escrito que a meta deles é destruir Israel. Agora, é um pouco difícil receber esta organização como um jogador ou um parceiro para este tipo de diálogo. Sobre o que podemos falar com o Hamas? Sobre de que maneira queremos que eles vão nos matar. Essa é a razão principal da existência desta organização: matar israelenses, matar israelenses, destruir Israel. Então é um pouco difícil receber eles como legítimo ou para negociações de paz.
De que forma o senhor acredita que isso pode trazer algum impacto negativo para a nação brasileira quando ela se divide entre defesa de Israel ou defesa dos palestinos? É ruim isso para o Brasil, para a população brasileira, que às vezes não entende de fato o que está acontecendo.
Estou dizendo mais uma vez que você pode apoiar a causa palestina, mas apoiar a ações do Hamas como parte de apoio da Palestina, acho que isso é uma coisa que é demais. Quem está apoiando o Hamas legitima a luta deles. Que luta? Luta para promover a causa palestina é terrorismo puro. Então, eu vi falando que tem entidades respeitáveis no Brasil que apoiam o Hamas, mas acho que isso é falta de entendimento de com quem estamos lutando.
O senhor espera um apoio do governo brasileiro à causa de Israel, ao governo de Israel?
Sim, essa é expectativa que temos, que o governo brasileiro vai apoiar Israel na luta contra estas forças terroristas do Hamas.
Por enquanto ainda não houve esse apoio, embaixador. O senhor acha que vai demorar para acontecer, se vai acontecer?
Ainda temos esperança que o governo brasileiro vai nos apoiar na luta contra o Hamas.
* NR: após a gravação desta entrevista, uma bomba disparada contra um hospital na Faixa de Gaza deixou mais de 500 pessoas mortas. Israel atribui a autoria do ataque ao grupo extremista Jihad Islâmica. O grupo, no entanto, alega não ter feito o atentado.
Edição de imagens: Thiago Freitas
AUTORIA
IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.
Os congressistas da CPMI dos Atos Golpistas aprovaram nesta quarta-feira (18) o relatório final da comissão após quase cinco meses de trabalho. O texto da relatora, Eliziane Gama (PSD-MA), foi acolhido por 20 votos a favor e 11 contra, em mais uma demonstração de força da maioria governista no colegiado. O presidente da CPMI, deputado Arthur Maia (União Brasil-BA), não vota por regra regimental.
Em seu relatório, Eliziane aponta Jair Bolsonaro (PL) como o “mentor moral e intelectual” dos atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo ela, o ex-presidente tentou dar um golpe de Estado. O ex-presidente e outras 60 pessoas são alvos de pedidos de indiciamento. Metade delas, militares.
Além de Bolsonaro, também são alvos de pedido de indiciamento o ex-ministro da Casa Civil e da Defesa, general Walter Braga Netto; o ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno; o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos, e o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tenente-coronel Mauro Cid.
Uma comissão parlamentar mista de inquérito não tem o poder de indiciar uma pessoa. No entanto, o colegiado pode recomendar ao Ministério Público e outras autoridades competentes o indiciamento de acordo com os atos investigados pelos congressistas.
Foram quase cinco meses de reuniões da CPMI. O colegiado foi instalado em maio a pedido de congressistas alinhados a Bolsonaro. Mas teve maioria governista e terminou com o pedido de indiciamento do ex-presidente e seus aliados.
Durante a reunião desta quarta-feira (18), 36 congressistas se inscreveram para falar e discutir o relatório de Eliziane. A oposição apresentou dois relatórios paralelos, que, com a aprovação do texto de Eliziane, não chegaram a ser votados.
“O comportamento dos bolsonaristas na CPMI deixa como legado ameaças, agressões as mulheres, à vossa Excelência [Eliziane], inclusive senadora, que foi muito agredida, desrespeitada aqui”, disse a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
A parlamentar protagonizou grandes discussões com integrantes da oposição durante os trabalhos. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) fez diversas críticas a ela no período.
Jandira, assim como outros governistas, elogiaram o trabalho de Eliziane. “Senadora, com o seu relatório, presidido por esta comissão, a democracia venceu. E sem anistia para golpista”, disse a deputada. A ideia de sem anistia foi defendida por diferentes congressistas alinhados ao governo Lula durante a reunião.
Congressistas da oposição criticaram o relatório de Eliziane e a falta de um pedido de indiciamento contra o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino.
“Anistia este relatório concedeu ao ministro Flávio Dino”, disse o senador Esperidião Amin (PP-SC). “Essa anistia não vai prosperar”.
Com maioria governista, a CPMI travou os trabalhos em sua reta final por falta de acordo com a oposição. O presidente do colegiado usou como regra colocar para votação somente requerimentos que tivessem um acordo entre os integrantes da CPMI. Com isso, as últimas sessões foram de empasse em volta de nomes de representantes da Força Nacional de Segurança, alvo da oposição, e o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Marinha que teria apoiado um plano de Bolsonaro para golpe de Estado, segundo delação de Cid noticiada pela imprensa.
Os impasses também resultaram na comissão ter deixado de ouvir nomes importantes que já tinham sido convocados, como Braga Netto. Governistas também queriam o retorno de Cid, depois de sua delação, mas a reunião não foi realizada.
A CPMI não analisou nem a metade dos 2.098 requerimentos apresentados. Desses, 660 foram aprovados e 74, rejeitados. A comissão recebeu 656 documentos, que somam 7.444 GB de informações. Segundo a coordenação da CPMI, esse quantitativo corresponde, aproximadamente, a 9.600 armários físicos cheios de papel; 3.720 horas de vídeos HD; ou a 21.140 horas de áudio.