O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reduziu nesta quarta-feira, 27, as projeções para a inflação brasileira em 2023. A estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,1% e 4,9%, enquanto a do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) caiu de 4,8% e 4,5%. Ambos os indicadores são apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Apesar da alta mais forte esperada para os preços administrados, o comportamento mais benevolente dos preços livres possibilitou o recuo das previsões de inflação”, explicou o Ipea, em nota.
No IPCA, usado como referência para o sistema de metas de inflação perseguido pelo Banco Central, os preços monitorados foram revistos de uma alta de 7,9% para 10% em 2023. No entanto, as projeções para todos os demais componentes diminuíram: alimentos no domicílio passou de alta de 3,7% para queda de 0,7%; bens livres (exceto alimentos), de aumento de 2,4% para 2,2%; e serviços, de elevação de 5,6% para 5,1% (educação, de 8,5% para 8,3%, e os demais serviços, de 5,1% para 4,6%).
“Ao longo do último trimestre, o cenário de inflação no país voltou a surpreender favoravelmente, mesmo diante de uma aceleração dos índices de preços ao consumidor acumulados em doze meses. Após registrar alta de apenas 3,2% em junho, a curva de inflação brasileira, em doze meses, medida pelo IPCA, avançou para 4,6%, em agosto, refletindo a reversão – já esperada – da trajetória de deflação dos preços administrados.
Por certo, o efeito estatístico proveniente da exclusão das fortes quedas dos preços administrados em junho e julho de 2022 – em função das desonerações e mudanças tarifárias ocorridas neste período do ano passado – fez com que a taxa de inflação desse segmento, acumulada em doze meses, saltasse de -1,3%, em junho, para 7,7%, em agosto”, apontou a Carta de Conjuntura do Ipea. “Em contrapartida, o desempenho melhor que o projetado anteriormente para os preços livres, especialmente para os alimentos no domicílio, compensou, pelo menos em parte, a alta dos preços administrados, impedindo um aumento ainda mais significativo do IPCA”, completou.
No INPC – que calcula a inflação percebida pelas famílias de mais baixa renda, com rendimento de um a cinco salários mínimos -, os preços monitorados foram revistos de uma alta de 7,6% para 9,7% em 2023; os alimentos no domicílio, de alta de 3,5% para queda de 0,8%; bens livres (exceto alimentos), de aumento de 2,7% para 2,6%; e serviços, de elevação de 5,7% para 5,3% (educação, de 8,3% para 8,2%, e os demais serviços, de 5,3% para 4,9%).
“Por fim, o balanço de riscos para a consolidação deste cenário de projeções mais bem-comportadas não descarta o surgimento de focos de pressão inflacionária adicionais, associados, sobretudo, a mudanças mais fortes na trajetória das commodities, especialmente as energéticas, no mercado internacional, e à aceleração mais intensa da taxa de câmbio. Adicionalmente, a suspensão das exportações russas de óleo diesel pode se constituir em um importante ponto de compressão sobre os custos de frete, impactando, por conseguinte, a inflação dos alimentos e dos bens industriais”, ponderou o Ipea.
O plenário do Senado Federal aprovou, nesta quarta-feira (27), por 43 votos a 21, o projeto de lei que trata do marco temporal para demarcação de terras indígenas. O texto, de autoria do ex-deputado Homero Pereira (1955-2013) e relatado pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O projeto foi aprovado mais cedo pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da casa legislativa e enviada ao Plenário — onde foi aprovado um requerimento para o texto tramitar em regime de urgência. O movimento de aprovar a matéria contraria o Supremo Tribunal Federal (STF), que concluiu na mesma data a tese que definiu o marco como ilegal.
Entre os principais pontos, o texto votado só permite demarcar novos territórios indígenas nos espaços que estavam ocupados por eles em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal — tese jurídica que ficou conhecida como marco temporal para demarcação de terras indígenas.
O projeto também prevê a exploração econômica das terras indígenas, inclusive em cooperação ou com contratação de não indígenas. A celebração de contratos nesses casos dependerá da aprovação da comunidade, da manutenção da posse da terra e da garantia de que as atividades realizadas gerem benefício para toda essa comunidade.
O líder do governo no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA), antecipou que Lula tende a vetar trechos da matéria considerados estranhos à lei. Haverá uma pressão para que o mandatário também não reconheça os trechos que afrontem a decisão tomada pelo STF.
Antes de a matéria ser votada pelos senadores, o líder do governo no Congresso Nacional, senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), havia dito que Lula vetaria o texto se ele fosse encaminhado para sanção presidencial.
O relator Marcos Rogério defendeu o texto aprovado na CCJ, ao rejeitar as emendas apresentadas em plenário. O parlamentar afirmou que o tema foi debatido de forma profunda e exaustiva. Para ele, o projeto é uma oportunidade de devolver segurança jurídica ao Brasil do campo.
O congressista disse que hoje há um sentimento de insegurança e desconforto no meio rural, por conta da indefinição do limite para demarcação. Para o senador, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em considerar o marco temporal como inconstitucional não vincula o Legislativo.
“Esta é uma decisão política. Hoje, estamos reafirmando o papel desta Casa. Com esse projeto, o Parlamento tem a oportunidade de dar uma resposta para esses milhões de brasileiros que estão no campo trabalhando e produzindo”, declarou.
O presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), reafirmou seu compromisso com a tramitação da matéria. Ele disse que não houve, por parte da Presidência da Casa, nenhum “açodamento” para apressar a votação.
Pacheco ainda defendeu que o Congresso Nacional se posicione sobre questões importantes para o país. Pacheco reafirmou seu respeito a todos os setores, negou que a aprovação do projeto seja um enfrentamento ao STF e pediu foco na conciliação e no respeito entre os Poderes.
“Não há sentimento revanchista com a Suprema Corte. Sempre defendi a autonomia do Judiciário e o valor do STF. Mas não podemos nos omitir do nosso dever: legislar”, declarou.
Segurança
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura do governo de Jair Bolsonaro (PL), disse que o projeto é uma forma de dar uma satisfação à sociedade. Ela elogiou a postura firme e decidida dos senadores ao tratar de uma questão “extremamente importante”, que pode ajudar na pacificação do país.
O senador Zequinha Marinho (PL-PA) também defendeu a aprovação da matéria, apontando que o texto está há 17 anos sendo discutido no Congresso. Segundo ele, o país seguirá cuidando de seus povos originários.
“Esta Casa precisa fazer sua obrigação: legislar, para que outros não façam seu papel. Este projeto é importante para o Brasil, por trazer segurança jurídica”, afirmou.
O senador Omar Aziz (PSD-AM) disse não concordar com uma política ambiental que nega a existência de habitantes na floresta amazônica. Ele citou como exemplo a dificuldade de asfaltar uma rodovia em seu estado. Na visão do senador, a questão do STF “somatiza” com as decisões de políticas ambientais. Aziz ainda acusou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de “estreitismo”.
De acordo com a senadora Margareth Buzetti (PSD-MT), a aprovação do tema mostra a importância de o Senado legislar. “O projeto traz paz no campo, paz na cidade. Se continuar do jeito que está, podemos ter até uma guerra civil”, declarou.
Na opinião do senador Jayme Campos (União-MT), a aprovação do marco temporal faz o Senado reassumir suas prerrogativas. Ele disse que o projeto é uma forma de respeitar os produtores rurais e os indígenas, levando segurança e paz ao campo. Na mesma linha, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) disse que o projeto é uma forma de trazer segurança jurídica e aproximar o Senado da sociedade.
Para o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), o Senado está dando uma resposta à população brasileira. Ele disse não ver inconstitucionalidade no projeto de lei. Segundo Soraya Thronicke (Podemos-MS), a política atual do governo deixa indígenas e produtores insatisfeitos. A prova, disse a senadora, é que não havia indígenas nas galerias do Plenário do Senado para pedir a rejeição do projeto.
Supremo
Na visão do líder do governo na casa legislativa, senador Jaques Wagner (PT-BA), é inócuo votar um projeto que tem um sentido contrário ao que o STF decidiu como constitucional.
O senador Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso Nacional, disse que o projeto traz questões que vão além do marco temporal. Ele citou que o texto prevê até explorar e plantar transgênicos nas terras indígenas.
“Isso é inconstitucionalidade flagrante. Retroceder a demarcação é mais que inconstitucional. Por óbvio, será acionada a Suprema Corte”, argumentou.
Para a senadora Eliziane Gama (PSD-MA), o projeto tenta modificar o texto da Constituição de 1988. Ela lembrou que, na semana passada o STF já decidiu a questão, ao considerar o marco temporal como inconstitucional.
Na visão da senadora, é desumano usar os povos indígenas como disputa entre o Legislativo e o Supremo. Eliziane ainda afirmou que a aprovação marca “um dia triste” para o meio ambiente.
“Se é mudança na Constituição, tem que ser PEC [proposta de emenda à Constituição]. O que estamos votando hoje, o STF claramente derrubou por nove votos a dois. Este projeto está fadado ao veto presidencial”, registrou.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) também registrou que a tese do marco temporal já foi reconhecida como inconstitucional pelo Supremo. Ele disse que a votação do projeto não passava de “um teatro, muito bonito para as redes sociais”, mas que não geraria consequências jurídicas, pois um projeto de lei não poderia fazer mudanças constitucionais.
“Que ganho há em colocar esta Casa em mais um constrangimento?”, questionou o senador.
Indígenas
Para o senador Weverton (PDT-MA), há erros em vários governos “em não enfrentar o tema como deve ser enfrentado”. Ele disse que há mais de mil famílias desalojadas de suas terras no Maranhão sem indenização.
Segundo o senador, os indígenas não querem mais terra, mas estrutura. Ele disse que votou a favor do projeto, mesmo reconhecendo pontos inconstitucionais, porque o Brasil precisa de harmonia e incentivo ao crescimento.
Por outro lado, a senadora Zenaide Maia (PSD-RN) apontou que existem muitos interesses em torno das terras indígenas. Ela falou que os povos indígenas estão sendo “esmagados”, por serem vulneráveis. Para a senadora, o tema precisaria ser debatido na Comissão do Meio Ambiente (CMA) e na Comissão dos Direitos Humanos (CDH).
“É o lucro e o interesse econômico acima da vida. Quem está ganhando hoje é quem financia os garimpos e os grandes latifúndios. Isso é uma página infeliz da nossa história”, afirmou.
Destaques
Alessandro Vieira apresentou um destaque para deixar claro que as terras já demarcadas não correrão risco de perder sua condição de reserva indígena. O senador Fabiano Contarato (PT-ES) também apresentou um destaque, para evitar o contato forçado de povos isolados. Marcos Rogério, como relator, opinou pela rejeição de todos os destaques. Levados a votação, todos foram rejeitados.
Sindicatos estão exigindo salários melhores. Mas será que os grevistas serão capazes de conquistar a diminuição da lacuna entre a remuneração dos CEOs e dos trabalhadores?
Emily McCrary-Ruiz-Esparza – BBC Worklife
Às 23h59 do dia 14 de setembro, cerca de 13 mil trabalhadores de três das maiores montadoras dos EUA entraram em greve.
Após oito semanas de negociações entre o sindicato United Auto Workers (UAW) e as empresas General Motors (GM), Ford e Stellantis, os trabalhadores abandonaram o trabalho.
Desde então, milhares de funcionários aderiram à greve em 38 locais em 20 Estados. O presidente americano, Joe Biden, demonstrou apoio participando de um piquete nesta terça-feira (26/9).
No topo das exigências do UAW está um aumento salarial de 40% ao longo de quatro anos (esse número foi reduzido para 36% poucos dias depois do início da greve, após negociações em curso).
O presidente do sindicato, Shawn Fain, fez com que a distância entre o CEO e os trabalhadores fosse a principal bandeira da greve.
“Estamos cansados de ficar para trás”, disse Fain em entrevista ao programa Face the Nation, da CBS.
Ele disse que a distância entre o CEO e o trabalhador do setor automóvel reflete a crescente desigualdade econômica nos EUA.
“É isso que está errado com a nossa economia e é isso que está errado na América neste momento”, disse ele à apresentadora Margaret Brennan.
“A classe bilionária continua tirando cada vez mais, e a classe trabalhadora continua ficando para trás.”
A greve colocou os enormes salários dos CEOs americanos no centro das atenções.
Mary Barra, CEO da GM, ganhou US$ 29 milhões (R$ 144,7 milhões) em 2022 – 362 vezes o salário médio dos trabalhadores da GM.
No mesmo ano, o CEO da Stellantis, Carlos Tavares, ganhou US$ 24,8 milhões de dólares (R$ 123,7 milhões), ou 365 vezes o salário médio do trabalhador; e o CEO da Ford, Jim Farley, ganhou US$ 21 milhões (R$ 104,8 milhões), ou 281 vezes o salário médio do trabalhador.
A remuneração dos CEOs nos EUA cresceu 1.322% desde 1978, de acordo com o Instituto de Política Econômica.
Os CEO americanos não só ganham muito mais que a sua força de trabalho, como também ganham mais que os seus pares em outros países.
No Japão – onde ficam as sedes de empresas como Toyota, Nissan, Mitsubishi e Honda –, os CEO dos fabricantes de automóveis japoneses recebem muito menos do que os americanos.
Akio Toyoda, o ex-CEO da Toyota (o maior empregador do país), recebeu 999 milhões de ienes (R$ 33,4 milhões) em 2022. O CEO da Honda, Toshihiro Mibe, recebeu 348 milhões de ienes (R$ 11,6 milhões) em 2022, e o CEO da Nissan, Makoto Uchida, ganhou 673 milhões ienes (R$ 22,5 milhões).
O mesmo acontece na Europa. No Reino Unido, o CEO da Aston Martin, Amedeo Felisa, recebeu 756 mil libras esterlinas (R$ 4,5 milhões) por seus oito meses no cargo, depois de assumir o cargo em maio de 2022.
E na Alemanha, Oliver Zipse, CEO da BMW, ganhou 5,3 milhões de euros (R$ 27,2 milhões) em 2022. Ola Källenius, CEO do Grupo Mercedes-Benz, ganhou 7,1 milhões de euros (R$ 37,4 milhões) no mesmo ano.
Oliver Blume, presidente do conselho de administração da Porsche, ganhou 7,4 milhões de euros (R$ 39 milhões). Blume é chefe da Porsche e, desde 1º de setembro do ano passado, também chefe da controladora Grupo Volkswagen.
Existem várias razões pelas quais os executivos americanos ganham mais – e os padrões dos EUA estão começando a se repetir em outros países. Os trabalhadores em greve podem mudar isso?
Uma estrutura salarial diferente
Os CEOs do setor automotivo americano ganham muito – assim como os funcionários de alto escalão de muitos setores nos EUA.
Globalmente, o salário base dos executivos-chefes das empresas é algo comparável.
No entanto, o tamanho da remuneração variável é totalmente diferente – e é uma das razões pelas quais os CEOs dos EUA ganham muito mais do que muitos executivos em outros países.
No Japão, por exemplo, a remuneração é dividida de forma mais ou menos equitativa entre salário, incentivos de curto prazo e incentivos de longo prazo.
E embora os CEOs no Reino Unido, na Alemanha e na França ganhem mais do que os seus colegas japoneses – por vezes em mais de 100% – a sua remuneração é repartida de forma semelhante, com o salário base representando cerca de um quarto da remuneração total, de acordo com uma análise de 2023 da empresa de consultoria Willis Towers Watson (WTW).
Comparativamente, porém, o salário tem um papel pequeno na remuneração dos CEOs dos EUA. Por exemplo, em 2022, o salário – ou remuneração fixa – do CEO da Stellantis constituiu apenas 9% da sua renda de U$ 24,9 milhões no ano.
Assim, em vez de um salário elevado, os pacotes salariais para executivos nos EUA geralmente incluem incentivos muito maiores a curto e longo prazo – como bônus e opções de ações – de acordo com a WTW.
Na verdade, para o CEO da Stellantis, o restante da sua remuneração – ou remuneração variável – foi atribuído em benefícios adicionais, ações e uma aposentadoria garantida.
Seus ganhos totais em cada categoria variam a cada ano, e sua remuneração total depende da rentabilidade da empresa para seus acionistas.
A maior parte da remuneração dos CEOs dos EUA – por vezes 90% ou mais – está ligada ao desempenho. Para executivos de todos os setores, à medida que a empresa ganha mais dinheiro, seus ganhos aumentam.
A remuneração baseada no desempenho visa incentivar os CEO a tornar um negócio o mais produtivo possível, maximizando as vantagens para os acionistas.
No entanto, nem todos acreditam que quem está no topo é o que realmente impulsiona a rentabilidade.
Entre outros, o Economic Policy Institute critica esta teoria, argumentando que a sorte é um fator mais determinante do sucesso empresarial do que a perspicácia do CEO. Além disso, os funcionários raramente colhem os benefícios na mesma proporção que os seus executivos.
A visão do exterior
Há também factores culturais que resultam em salários extremamente elevados, diz Joseph Foudy, professor da Stern School of Business da Universidade de Nova York, que estuda governança corporativa e a indústria automotiva.
Por exemplo, os EUA são geralmente muito pró-mercado, diz ele, e apreciam a ideia de mobilidade ascendente. E grandes ações de empresas cotadas na bolsa pertencem a vários acionistas, e não a entidades individuais, de forma que os CEOs estão menos dependentes de uma única unidade poderosa que os possa substituir.
Além disso, nos EUA, não existem mecanismos legais para controlar a remuneração dos CEOs. Embora haja algumas exceções, a maioria dos países também não possui leis que limitem os salários dos executivos. No entanto, no exterior, a compensação permanece comparativamente limitada.
Foudy cita o Japão, onde os próprios executivos da empresa têm assento nos conselhos que controlam a remuneração. Não há nada que impeça estes executivos de aumentarem os seus próprios salários, mas geralmente eles não o fazem.
Ele diz que isso ocorre em grande parte porque “a principal restrição [à remuneração dos CEOs] na maioria dos outros países não é legal. É uma norma. É a sensação de que haveria uma reação negativa dos acionistas, dos bancos, dos reguladores governamentais que fazem negócios”.
O CEO da Stellantis, Tavares, sofreu este tipo de revés cultural quando se candidatou a um aumento salarial em 2022. Os investidores franceses fizeram tanto barulho que a compensação proposta foi rejeitada numa votação não vinculativa.
Como afirmou um investidor: “Será esta remuneração extremamente elevada socialmente justificada quando o grupo terá provavelmente de enfrentar uma reestruturação massiva com cortes de empregos devido ao excesso de capacidade de produção e à duplicação após a fusão?”. Em 2023, no entanto, os acionistas na assembleia geral anual votaram finalmente pela aprovação da remuneração de Tavares.
No entanto, alguns países têm caminhado lentamente para um modelo de remuneração dos CEOs que se assemelha ao modo como muitos executivos são pagos nos EUA
É o caso do Japão, onde a estrutura de remuneração dos CEO tem mudado desde 2015, quando as alterações no código de governança corporativa incentivaram as empresas a adotar estruturas de remuneração baseadas no desempenho. De acordo com a análise da WTW, 2015 marcou uma aceleração na remuneração dos executivos.
“O Japão está observando uma discussão acalorada sobre como conseguir um aumento salarial sustentado e estrutural para os funcionários”, diz Sumio Morita da WTW. Segundo ele, isso inclui a extensão de incentivos de longo prazo aos gestores seniores abaixo do nível executivo.
Em outras palavras, estão avançando para um modelo em que o seu salário base representa uma percentagem menor da remuneração e a maior parte do seu potencial de ganhos está atrelada ao lucro.
Em 2022, a remuneração dos executivos mais do que duplicou em relação à média de 2009. De acordo com a análise da WTW, os salários dos CEOs no Japão aumentaram 35,5% no ano passado.
Um efeito global
À medida que os salários dos executivos continuam a crescer em todo o mundo, os grevistas procuram diminuir a lacuna entre os salários dos CEO e dos trabalhadores na indústria automotiva dos EUA. Um sindicato forte e ativo, como o UAW, pode ser fundamental para alcançar esse objectivo.
“Em geral, a financeirização das economias desde a década de 1980 e a diminuição da força dos sindicatos são uma grande parte da razão pela qual as lacunas salariais entre CEO e trabalhadores aumentaram tanto a nível global entre as décadas de 1980 e 2000”, diz Andrew Speke, do High Pay Centre, um think tank do Reino Unido que pesquisa governança corporativa.
“Os países onde existe uma regulamentação mais forte das empresas e da governança corporativa em particular, e onde existe uma maior densidade sindical tendem a ter diferenças salariais mais baixas.”
Speke acredita que o resultado desta greve poderá ter implicações globais. “Os EUA ainda são o país mais influente do mundo, especialmente entre as economias liberais-democráticas e desenvolvidas. O que tiver sucesso nos EUA pode funcionar tanto como modelo como como inspiração para movimentos trabalhistas em outras partes do mundo”, diz ele. “Talvez de uma perspectiva macro, possa representar uma mudança nas relações entre trabalho e capital de forma mais geral.”
Segundo o presidente do BC, ele apoia a proposta desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro
Fernanda Strickland
Entrando na arrastada discussão sobre taxação dos super-ricos e offshores, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou ser favorável ao tema, defendendo uma alíquota de 10% A afirmação foi feita durante audiência pública na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (27/9).
“Sobre arrecadação de super-ricos, sou a favor de arrecadação de fundos exclusivos, sou a favor de arrecadação de offshores”afirmou Campos Neto.
O assunto está sendo discutido, com mais frequência, desde agosto, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinou uma medida provisória para taxar rendimentos de fundos exclusivos dos chamados super-ricos e enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei para tributar offshores. Essas medidas fazem parte do plano do Ministério da Fazenda para aumentar a arrecadação de receitas para cumprir a meta de deficit primário zero em 2024.
Segundo o presidente do BC, ele apoia a proposta desde o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. “No governo anterior, tinha um projeto de offshore, a gente queria fazer a taxação das offshores, eu achava que a alíquota para taxação tinha de ser mais alta, eu pedi que fosse 10%, achei que 10% era razoável, voltou com 6%, eu inclusive acho 6% baixo, acho que tem que taxar mais”, disse.
“Tinha uma preocupação com erosão de base, taxar uma coisa e depois a base ser evaporada, preocupação que mencionei. Tanto na parte de fundos exclusivos quanto na parte de offshore, tenho essa preocupação, mas fui a favor nos dois casos de ter alíquota mais alta”, acrescentou.
A proposta foi feita durante a campanha de eleição, quando o presidente Lula afirmou que “é preciso colocar o povo no orçamento e o rico no imposto de renda”.
“Tenho offshore há 15, 20 anos”
Quando questionado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) sobre suas finanças pessoais, Campos Neto disse que seus investimentos em fundos offshore foram declarados desde o primeiro dia em que assumiu o cargo no BC. “Minhas offshores estavam declaradas no site do Senado no primeiro dia que vim para o governo. Tenho offshore há 15, 20 anos, tenho três irmãos que são americanos, que moram lá, não sabia se em algum momento eu iria morar lá ou morar aqui”, justificou.
Fundos exclusivos e offshores
Os fundos exclusivos são investimentos milionários em aplicações como ações ou renda fixa. Eles exigem investimento mínimo de R$ 10 milhões, com custo de manutenção de até R$ 150 mil por ano. Já os offshores são empresas abertas fora do país de residência, geralmente em paraísos fiscais, onde a tributação é reduzida ou nula, como as Ilhas Cayman. Ambos podem ser usados para evitar pagamentos de impostos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tiveram uma conversa a portas fechadas de mais ou menos 1h30 de duração nesta quarta-feira (27). De acordo com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que também participou, o encontro serviu para os dois “construírem a relação”.
“Na verdade, penso que foi um encontro institucional de construção de relação, de pactuação em torno de conversas periódicas. [Foi] excelente”, disse Haddad após a reunião. Segundo o ministro, há previsão de novos encontros
Questionado sobre se Lula e Campos Neto teriam falado da taxa básica de juros, Haddad disse ainda que nenhum assunto específico foi tratado.
“Não conversamos sobre tópicos específicos. O presidente [Lula] deixou claro o respeito que tem pela instituição. A reciprocidade foi muito boa por parte do Roberto, foi uma conversa muito de alto nível”, disse.
O ministro afirmou ainda que “não havia necessidade” de trabalhar numa mediação para que o encontro entre Lula e Campos Neto ocorresse.
O presidente Lula é crítico ao patamar da taxa básica de juros da economia, a Selic — que afeta outras taxas de juros, como de empréstimos e financiamentos.
Lula assumiu a Presidência da República com a taxa em 13,75%, patamar que o Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do BC presidido por Campos Neto e que define o valor da taxa, mantinha desde agosto de 2022.
O primeiro corte na Selic aconteceu no começo de agosto, de 0,5 ponto percentual, indo para 13,25%. Na última quinta-feira (20), o Copom fez um corte da mesma magnitude, com a taxa indo para 12,75%.
Lula é o primeiro presidente que não pôde realizar mudanças na diretoria do BC, incluindo a presidência, em razão da autonomia do BC aprovada pelo Congresso durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Campos Neto, por exemplo, tem mandato até 2024.
General Motors, Ford e Stellantis (Chrysler/ Jeep) tentam contornar falta de componentes automotivos enquanto a greve avança com apoio do presidente Biden
Os trabalhadores automotivos organizados pelo sindicato United Auto Workers (UAW), nos Estados Unidos, chegam a segunda semana completa de greve na próxima quinta-feira (28). A histórica greve na General Motors, Ford e Stellantis (Chrysler/ Jeep) tem como principal reivindicação o aumento na base salarial em 40% a ser realizado de forma escalonada. No último dia 26, o movimento grevista ganhou um importante apoio: o presidente Joe Biden.
Ele se juntou a um piquete em centro de distribuição da GM em Belleville, Michigan, com o presidente do UAW, Shawn Fain.
Biden e Fain. Foto: UAW
Informações dão conta que esta é a primeira vez que um presidente dos EUA se une a um movimento grevista. Biden por sua vez disse apoiar o pedido de reajuste em 40% agora que as montadoras voltaram a crescer.
Desde que a greve foi instaurada as negociações não avançaram com as Três Gigantes de Detroit, como são conhecidas as empresas. Segundo a Reuters, 18.300 trabalhadores estão de braços cruzados e recebem 500 dólares por semana do fundo de greve do sindicato.
Ao todo cada uma das companhias está com uma fábrica fechada e mais 38 centros de distribuição de peças da GM e Stellantis estão parados. Há expectativa de que novos centros recebam piquetes, em especial da Ford, se as negociações não avançarem até sexta (29).
Segundo o Wall Street Journal, a GM e a Stellantis tentam contornar a falta de componentes pelos centros fechados com estoques previamente provisionados e com funcionários de áreas administrativas deslocados para as funções dos grevistas.