Nesta quarta-feira (12), a Genial/Quaest divulgou a pesquisa “O que pensa o mercado financeiro” sobre o governo Lula. Na pesquisa a avaliação positiva sobre o trabalho do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cresceu de 26%, em maio, para 65%, em julho. Enquanto isso avaliação negativa caiu de 37% para 11%.
Foram feitas 94 entrevistas com fundos de investimentos com sedes em São Paulo e Rio de Janeiro, entre os dias 6 e 10 de julho. O público-alvo é formado por gestores, economistas, analistas e tomadores de decisão do mercado financeiro.
A queda no índice oficial de inflação em junho, anunciada nesta terça-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é vista como um elemento de pressão para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) iniciar um ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic. A taxa atual em 13,75% ao ano, pode começar a cair porque não está lastreada na realidade dos preços e do mercado de consumo.
Economistas consultados pelo Portal Vermelho, avaliam que as atuais taxas estratosféricas dos juros básicos são fruto de uma posição política do Banco Central, que tem sido confrontada pelo governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Para muitos, principalmente no governo, os juros já deveria ter caído. Desta forma, os alardeados critérios técnicos defendidos pelo Copom não fariam frente à realidade.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em -0,08% no mês passado. Foi o menor índice para um mês de junho desde 2017 e bem mais forte que o esperado. Os grupos alimentação, bebidas e transportes, foram os que mais ajudaram a puxar os preços para baixo no mês passado.
Gustavo Monteiro
Segundo o economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Gustavo Monteiro, há uma expectativa geral de que este resultado leve à redução da Selic. Mas a “boa pergunta”, segundo ele, é o que falta para o BC fazer isso, se a inflação vem caindo, há meses, e há toda uma pressão do governo para que os juros sejam mais viáveis para alavancar o investimento na economia.
A inflação está em uma trajetória decrescente desde fevereiro, e o acumulado em 12 meses está em 3,16%, bem no centro da meta de inflação. Como a taxa Selic é para se atingir esta meta, passou da hora de reduzir os juros.
“Tem uma questão de expectativa de maior inflação no segundo semestre”, diz Monteiro. Como houve um aumento no preço dos serviços, que é um setor relevante dentro da composição da inflação, este é o único ponto negativo que se pode verificar nesse IPCA de junho. Estima-se também que a gasolina deve ficar mais cara em julho, por causa da volta de tributos federais.
No entanto, todos os índices mais importantes revelam a consistência da queda, admitida pelo mercado. O índice de difusão, que mede o percentual de produtos e serviços que registraram aumento de preços tem apresentado queda de 50%. Isso mostra que menos produtos e serviços subiram de preço. O núcleo da inflação, que tem a tarefa de medir a verdadeira tendência da inflação, está mostrando desacelerações. Além disso, o comportamento dos preços dos alimentos mostra perda de fôlego da inflação. Esse processo de desinflação que começa nos alimentos favorece a condição da própria política monetária.
“Ruído político”
Para Monteiro, “parece que o problema maior é o ruído político”. “Tem uma desconfiança do mercado com o governo Lula, ao mesmo tempo em que as críticas do presidente talvez tenham colaborado para o BC marcar sua independência”, analisa ele.
Para além do desconforto ideológico do mercado com o governo Lula, fica difícil defender a teimosia do presidente do BC, Roberto Campos Mello, em manter taxas tão altas e recessivas de juros. “Reforço que há um consenso de que o BC (na figura do Campos Neto) está exagerando ao manter a Selic tão alta por tanto tempo. Não tem como achar que é só uma análise técnica do BC”, enfatiza o economista.
Marcelo Fernandes
Opinião semelhante tem o economista da UFRRJ, Marcelo Fernandes, que também é presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. Para ele, o que explica a demora para começar a rota de redução de juros diante da deflação “é uma questão mais política, que econômica”. “É um ministro do Bolsonaro que está dentro do governo Lula”, define ele. Fernandes opina que o Banco Central está, deliberadamente, puxando a economia para baixo.
O economista refere-se ao fato do governo Bolsonaro ter conseguido a aprovação da autonomia do Banco Central em 2021, que, até então, era subordinado ao Ministério da Fazenda. Para ele, o BC tem um peso maior que a maioria dos Ministérios e está sendo comandado por um economista indicado pelo Bolsonaro.
“Mas já é dado como certo no mercado e o Banco Central ja deu sinais em relação a isso, de uma queda de 0,25 pontos na próxima reunião do Copom, em agosto. Muito Provavelmente, com 99,99% de certeza, que ele vai reduzir a taxa de juros em 0,25% em agosto”, afirmou o economista.
Clemente Ganz Lúcio
O sociólogo e consultor sindical, Clemente Ganz Lúcio, crê que todos os vetores que podem justificar uma queda acentuada da taxa de juros estão se confirmando. “Isso aumenta a pressão sobre a direção do Banco Central para mudar a política monetária, e começar, em agosto, uma redução da taxa de juros”, afirma, otimista.
Ele acredita que este cenário vem se desenhando. “A se confirmar essa tendência, teremos possibilidade de ter uma redução continuada da taxa de juros, até uma taxa bem menor do que aquela que vem sendo praticada no Brasil de hoje”, avalia, alinhado com setores do mercado que sugerem que o Brasil deve fechar o ano com uma taxa Selic em torno de 12%, que é muito alta ainda, mas a tendência é o início de um processo de flexibilização e, lá no final de 2024, quem sabe, uma Selic perto de 9%.
O fator Governo Lula
Variação mensal do IPCA
A queda na inflação não é resultado apenas do clima sobre a lavoura. Existe um esforço do governo Lula para que isso ocorra. A mudança na política de preços de combustíveis, desde que o governo assumiu o controle sobre a Petrobras, tem impacto irradiador sobre toda a economia. Mas há outras medidas pontuais, também, que afetam a renda e o poder de consumo da população, além da produção de alimentos.
Por outro lado, o Banco Central não pode alegar que os juros altos tem algum efeito sobre essa deflação observada. Há economistas que consideram que a política monetária tem pouca influência, porque a deflação está muito concentrada em itens do IPCA que respondem pouco à taxa de juros. Alimentos têm preço formado em mercado, e transportes são preços administrados.
O Copom faz reuniões a cada 45 dias, em que decide a taxa básica de juros. Atualmente, a Selic está em 13,75%, sob a justificativa de que é preciso combater a inflação. Ao fim da reunião mais recente, 21 de junho, o Copom emitiu um comunicado para explicar a decisão: “O comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária e relembra que os passos futuros da política monetária dependerão da evolução da dinâmica inflacionária, em especial dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, em particular as de maior prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos”, ressalta a nota.
O juro alto é uma forma de controlar a inflação, pois desestimula o consumo e deixa o crédito mais caro. Porém, é mais recessivo, afetando o crescimento da economia e a geração de empregos. Por isso, governo, empresários e centrais sindicais têm pressionado pela queda da Selic.
A próxima reunião do Copom será nos dias 1º e 2 de agosto com uma novidade importante para o governo. Uma mudança na formação do comitê aumenta a pressão pela queda da Selic. O Senado aprovou, no começo do mês, os nomes de dois novos diretores indicados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Com isso, a diretoria não é mais formada apenas por indicações do governo Bolsonaro.
Conforme a inflação caminhar para o centro da meta, fica inviável para o Copom fazer uma defesa técnica da alta de juros. A meta para a inflação deste ano é de 3,25%, com variação de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Já para 2024 e 2025, o alvo do governo é um IPCA em 3%, com o mesmo intervalo de variação.
Cresce de 10% para 47% os que apontam que a política econômica do país está na direção certa. Avaliação positiva do mercado financeiro sobre o governo Lula vai de 2% para 20%
Nesta quarta-feira (12), a Genial/Quaest divulgou a pesquisa “O que pensa o mercado financeiro” sobre o governo Lula. Os resultados demonstram que depois de seis meses do novo governo até mesmo o chamado ‘mercado’, que sempre se mostra reticente com gestões de governos progressistas, está dando o ‘braço a torcer’.
Os números positivos no campo econômico, assim como as reformas conduzidas no campo fiscal e tributário, com toda a certeza, têm influência nos resultados.
Para o mercado, a política econômica do país está indo na direção certa para 47%, sendo que em maio somente 10% acreditavam nisso. Continuam achando errada 53%.
Já a expectativa de melhora para os próximos 12 meses em relação à economia foi de 13% em maio e chegou a 53% agora – o que demonstra que o otimismo superou a desconfiança.
Nesse sentido, a avaliação do governo Lula também está em crescimento. Chegou a 20% como positivo, antes eram 2%. Os que avaliam como regular são 36%, antes eram 12%. A grande queda foi entre os que avaliavam o governo como negativo que em maio eram 86% e despencou para 44%.
Selic
Mesmo com toda essa avaliação positiva, 87% ainda entendem que a decisão do Banco Central de manter a atual Taxa Selic foi certa. Apesar disso, todos acreditam que Selic cairá ainda neste ano.
Isto reflete que mesmo com toda observação positiva ligada ao governo, o mercado ainda não abdica do entendimento sobre a manutenção dos juros, sendo que para os investidores os juros altos remuneram mais. Ou seja, os dados demonstram que se for preciso rifar o país para manter remunerações altas com base nos juros, o mercado não hesitará em apoiar tais medidas.
Mostra disso é a avaliação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que tem o maior grau de confiança entre os pesquisados, enquanto o presidente Lula tem o menor.
Foram feitas 94 entrevistas com fundos de investimentos com sedes em São Paulo e Rio de Janeiro, entre os dias 6 e 10 de julho. O público-alvo é formado por gestores, economistas, analistas e tomadores de decisão do mercado financeiro.
O governo Lula vem se articulando para elaborar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que impossibilita militares de concorrer em eleição ou de assumir ministérios. A ideia é que os militares deixem as Forças Armadas ou passem para a reserva caso optem por se tornarem candidatos. A PEC é vista como uma tentativa da atual gestão de “desbolsonarizar” as empresas militares do Brasil.
Simultaneamente, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, estuda o envio de um projeto que proíbe a filiação partidária de prisões federais ao Congresso Nacional. Mais avanços nesse sentido residem na reunião que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, realizaram com o ministro da Defesa, José Múcio , na última quinta-feira (6).
O ministério da Defesa já possui um texto que foi encaminhado à Casa Civil e deve ser analisado ainda no segundo semestre pela Câmara e Senado. A reunião ocorreu no Palácio do Planalto e, conforme Múcio, há atmosfera política entre militares e uma ala do Congresso para dar início ao trâmite da PEC. As informações são da repórter Jeniffer Gularte, de O Globo .
Segundo informações da PF, da instituição, 24 candidaturas no ano passado. Em 2018, o número foi ainda maior, 31. Já sobre a movimentação para acabar com a politização nas Forças Armadas, Múcio deseja que a lei valha para a eleição de 2024. Por ser uma PEC, o texto demanda apoio de no mínimo 60% dos deputados, 308 votos, e de 49 votos dos senadores para serem aprovados.
O objetivo da reunião foi ampliar o diálogo sobre o projeto prioritário para o governo Lula, uma vez que ele passa a tramitar no Senado a partir do retorno do recesso parlamentar, em agosto. A expectativa é que a reforma seja votada apenas em outubro.
“O encontro foi uma oportunidade para aprofundarmos a discussão sobre o tema e para que o deputado Aguinaldo Ribeiro apresentasse alguns pontos do texto ao relator da matéria no Senado”, disse Pacheco em sua conta da rede social twitter.
Aprovada
A reforma tributária foi aprovada na semana passada após uma articulação hercúlea do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que recebeu governadores, prefeitos, entidades e representantes de setores comerciais ao longo de vários dias, assim como o relator Aguinaldo Ribeiro, para ajustar a proposta e facilitar a aprovação em dois turnos.
A reforma tributária (PEC 45/19) simplifica impostos sobre o consumo, prevê a criação de fundos para o desenvolvimento regional e para bancar créditos do ICMS até 2032, e unifica a legislação dos novos tributos. Segundo a proposta, uma lei complementar criará o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), para englobar o ICMS e o ISS; e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para substituir o PIS, o PIS-Importação, a Cofins e a Cofins-Importação.
Criar consensos é tarefa urgente diante dos benefícios e riscos da nova tecnologia. Um Observatório poderia detectar novas ameaças. Reunir dados e análises. Orientar políticas nacionais. E evitar que o debate seja capturado por corporações.
O artigo é de Geoff Mulgan, professor de inteligência coletiva, políticas públicas e inovação social na University College London; e Divya Siddarth, cofundadora do Collective Intelligence Project, diretora de pesquisa da Metagov e da Fundação RadicalXChange, pesquisadora associada do Instituto de Ética em IA da Universidade deOxford, publicado por Outras Palavras, 11-07-2023. A tradução é Maurício Ayer.
Eis o artigo.
Depois de anos negligenciando o desenvolvimento da IA, os governos agora tentam desesperadamente alcançá-la e descobrir como regulá-la. Pelo menos quatro grupos diferentes estão tentando direcionar os argumentos que poderão estabelecer prioridades de governança.
As grandes corporações, não por acaso, desejam assumir o controle da agenda, prometendo que acordos entre elas podem evitar os piores abusos. Embora peçam publicamente por regulação, elas naturalmente querem minimizar quaisquer restrições que possam impedir seus planos e estão trabalhando em propostas que se aplicariam apenas aos principais titulares.
O segundo grupo, os principais especialistas em tecnologia, têm pouco a dizer que seja prático. Embora os estadunidenses aparentemente apoiem uma pausa no desenvolvimento de LLMs [Modelos de linguagem grandes, como o ChatGPT] por uma margem de aproximadamente cinco para um, os especialistas em tecnologia têm poucas (se é que alguma) ideias sobre como essa coisa pode realmente ser implementada; até agora, eles falharam em se envolver seriamente com os dilemas práticos da governança.
O terceiro grupo é composto por governos, que pelo menos foram além da retórica. A União Europeia trabalhou em leis detalhadas que categorizarão a IA de acordo com os níveis de risco e também exigirão que os LLMs explicitem sua natureza, distingam deep fakes de elementos reais, bloqueiem conteúdo ilegal e exijam a identificação de material protegido por direitos autorais usado para treinamento. A maioria dos modelos atuais é configurada para não cumprir esses requisitos. A China, por sua vez, introduziu regras estritas, por exemplo, sobre deep fakes, e criou um regulador potencialmente poderoso na Administração do Ciberespaço da China. O Reino Unido, no entanto, continua esperando que os reguladores existentes possam lidar sem novas leis ou instituições.
Finalmente, há reuniões e órgãos transnacionais, onde ocorrem vagos apertos de mão e uma flagrante falta de propostas reais.
Os historiadores do futuro se perguntarão por que tantas instituições poderosas e comentaristas inteligentes falharam tão lamentavelmente em criar alternativas plausíveis. Inevitavelmente, a maioria dos comentários tenta espremer o problema em estruturas já conhecidas, seja vendo-o como um problema de direitos humanos ou civis, direitos autorais ou leis de concorrência, privacidade e soberania de dados, policiamento e segurança ou crescimento econômico impulsionado pela inovação, com órgãos profissionais querendo enfatizar o treinamento e o credenciamento. Nenhum ainda alcançou a dimensão do desafio de gerenciar uma tecnologia verdadeiramente de uso geral que já está afetando muitas áreas da vida cotidiana.
Embora a IA tenha lentamente se tornado mais visível politicamente – seja na forma de marchas nas ruas de Londres por estudantes em 2020, seja na crise enfrentada pelo governo holandês naquele mesmo ano, graças a um escândalo sobre pagamentos de assistência social, seja ainda pelos numerosos e crescentes exemplos de viés e distorção em algoritmos usados para tomar decisões vitais –, o mundo da política ainda está lutando para estruturar sua resposta.
Então, o que pode ser feito? O cenário da governança global de IA tende a ser bastante complexo, com muitos tipos de riscos e oportunidades, muitas áreas envolvidas e muitas respostas de governança possíveis. Reconhecer a complexidade inerente de uma tecnologia de uso geral é o ponto de partida para a ação. Ideias ou soluções unidimensionais tendem a ser inadequadas.
Esta tabela captura algumas das dimensões. Imagine-os como eixos de um cubo tridimensional com muitas centenas de células, cada uma das quais pode exigir uma resposta de governança diferente:
Fonte: Outras Palavras | Reprodução
Dentro de alguns anos, é provável que tenhamos uma rede igualmente complexa de respostas, variando do estabelecimento de padrões às diferentes capacidades de monitoramento, regulações em diferentes níveis, normas legais, medidas antitruste e muito mais. Minha expectativa é de que o mundo crie muitos tipos diferentes de reguladores de IA, muitas vezes com amplos poderes (uma vez que a possibilidade de estabelecer prescrições minuciosas não funcionará, dado o ritmo da mudança) e muitas vezes com a missão de discutir e explicar os dilemas ao público.
O grande paradoxo desse campo baseado em dados é que se sabe muito pouco sobre o que está acontecendo em IA – e o que pode estar por vir. Não existem instituições para aconselhar o mundo, avaliando e analisando tanto os riscos quanto as oportunidades.
Para resolver essa lacuna e iluminar um passo plausível que o mundo poderia tomar agora como condição necessária para uma regulamentação mais séria no futuro, tenho trabalhado com colegas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), da Universidade de Oxford, do Projeto de Inteligência Coletiva, Metagov e a Cooperative AI Foundation para projetar o que chamamos de Observatório Global de IA (Global AI Observatory, GAIO) para fornecer os dados e as análises necessários para apoiar a tomada de decisões.
O mundo já tem um modelo para isso: o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Criado em 1988 pelas Nações Unidas com países membros de todo o mundo, o IPCC fornece aos governos informações científicas e julgamento conjunto de cenários potenciais para orientar o desenvolvimento de políticas climáticas. Nas últimas décadas, surgiram muitas novas instituições em nível global que se concentram em dados e conhecimento para apoiar uma melhor tomada de decisão – da biodiversidade à conservação – mas nenhuma existe em torno das tecnologias digitais.
A ideia de criar um órgão semelhante ao IPCC para IA, com a incumbência de fornecer uma base confiável de dados, modelos e interpretações para orientar políticas e tomadas de decisão mais amplas sobre IA, está em andamento há muitos anos. Mas agora o mundo pode estar pronto, graças a uma maior conscientização dos riscos e oportunidades em torno da IA.
Um GAIO teria que ser bem diferente do IPCC em alguns aspectos, tendo que trabalhar muito mais rápido e de maneira mais iterativa. Mas, idealmente, como o IPCC, trabalharia em estreita colaboração com os governos para orientar as ações.
Muitas organizações coletam métricas valiosas relacionadas à IA. Alguns governos nacionais acompanham os desenvolvimentos dentro de suas fronteiras, há empresas reunindo dados do setor e organizações como o Observatório de Políticas deInteligência Artificial da OCDE mapeiam o que está acontecendo com as políticas e tendências nacionais de IA. No entanto, grande parte das questões relacionadas à IA permanecem opacas, muitas vezes deliberadamente. É impossível para os governos regular de forma razoável aquilo que eles não entendem. O GAIO poderia preencher esta lacuna por meio de seis grandes áreas de atividade.
Em primeiro lugar, poderia estabelecer um banco de dados global e padronizado de relatórios de incidentes, concentrando-se em interações críticas entre sistemas de IA e o mundo real. Um exemplo urgente é o risco biológico, em que há um perigo óbvio de a IA ser usada para criar patógenos perigosos. Precisamos de melhores maneiras de monitorar esses incidentes. Da mesma forma, exemplos de uso indevido de algoritmos – como a recente questão dos pagamentos de seguros sociais – seriam mapeados e documentados. Um banco de dados compartilhado de incidentes e riscos reuniria os fatos relevantes a respeito dos aplicativos, seus impactos e metadados. Ter relatórios de incidentes padronizados é apenas um ponto de partida básico para uma melhor governança global e pode reduzir os riscos de falhas de comunicação e corridas armamentistas em torno da IA.
Em segundo lugar, o GAIO poderia organizar um registro de sistemas cruciais de IA – o que também é uma pré-condição básica para uma governança mais eficaz. Ele priorizaria os aplicativos de IA com os maiores impactos sociais e econômicos – aqueles com o maior número de pessoas afetadas, horas de interação e maiores apostas. Idealmente, também definiria regras para fornecer acesso a modelos que permitam a fiscalização. Cingapura já possui um registro de sistemas de IA e o governo do Reino Unido está considerando algo similar, mas em algum momento abordagens semelhantes precisarão tornar-se globais.
Em terceiro lugar, o GAIO reuniria um corpo compartilhado de dados e análises dos principais fatos relativos à IA: gastos, geografia, campos-chave, usos, aplicativos. Existem muitas fontes para isso, mas ninguém as reuniu em formas facilmente acessíveis, e muitas coisas relacionadas ao investimento permanecem sem transparência.
Em quarto lugar, o GAIO reuniria conhecimento global sobre os impactos da IA em campos específicos, por meio de grupos de trabalho que abordam temas como mercados de trabalho, educação, mídia e saúde. Esses grupos coletariam dados e organizariam interpretações e previsões, por exemplo, sobre os efeitos potenciais dos LLMs em empregos e habilidades, o que está se tornando uma questão crucial em muitos países. O GAIO teria como objetivo coletar dados sobre os impactos positivos e negativos da IA, desde o valor econômico criado pelos produtos de IA até os efeitos potencialmente negativos do impacto da mídia social habilitado pela IA na saúde mental e na polarização política.
Quinto, o GAIO poderia oferecer, aos governos nacionais e talvez também como assistência legislativa, opções para regulação e políticas, fornecendo modelos de leis e regras que possam ser adaptadas a diferentes contextos.
Por último, o GAIO poderia orquestrar o debate global por meio de um relatório anual sobre o estado da IA, que analisaria questões-chave, padrões que surgem e escolhas que governos e organizações internacionais precisam considerar. Assim como o IPCC, isso pode incluir um programa contínuo de previsões e cenários, com ênfase particular em tecnologias que podem entrar em operação ou chegar ao mercado nos próximos anos, com base nos esforços existentes, como o índice de IA produzido pela Universidade de Stanford.
Para realizar seu trabalho, o GAIO precisaria inovar, aprendendo com exemplos como o IPCC e a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – mas indo além, inclusive por meio do uso de novos métodos de inteligência coletiva para reunir insumos de milhares de cientistas e cidadãos, o que é essencial para rastrear capacidades emergentes em um campo complexo e em rápida evolução. Além disso, poderia introduzir métodos de denúncia semelhantes aos generosos incentivos do governo dos EUA para que as pessoas denunciem ações prejudiciais ou ilegais.
Para ter sucesso, o GAIO teria que ser legítimo, assim como o IPCC teve que ganhar legitimidade nas últimas décadas. Parte dessa legitimidade pode vir do apoio de governos e parte do endosso de cientistas. Mas muito disso virá da qualidade do que faz e de sua capacidade de manter um foco nítido nos fatos e na análise, mais do que na prescrição, que ficaria nas mãos dos governos. Idealmente, também teria vínculos formais com outros órgãos que têm um papel claro neste espaço, como a União Internacional de Telecomunicações, o Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos, a UNESCO e o Conselho Internacional de Ciência.
A comunidade de IA e as empresas que usam IA tendem a suspeitar do envolvimento do governo, muitas vezes vendo-o apenas como uma fonte de restrições. Mas a era da autogovernança acabou. O que se propõe aqui é uma organização que existiria em parte para os governos, mas com o trabalho principal feito pelos cientistas, aproveitando as tentativas bem-sucedidas de governar muitas outras tecnologias, desde a fertilização humana e a clonagem até armas biológicas e nucleares.
Nos últimos anos, o sistema da ONU tem lutado para lidar com a crescente influência das tecnologias digitais. Criou comitês e painéis, muitas vezes com títulos grandiosos, mas geralmente com pouco efeito. O maior risco agora é que haja uma pluralidade de esforços desconectados, sem que nenhum ganhe força suficiente. A mídia e os políticos foram facilmente distraídos por alegações de risco existencial, e poucos se sentem confiantes para desafiar as grandes corporações, especialmente quando são ameaçadas de cortar seus cidadãos dos benefícios do OpenAI ou do Google.
Portanto, legitimar um novo órgão não será fácil. O GAIO precisará convencer os principais atores dos EUA, China, Reino Unido, UE e Índia, entre outros, de que preencherá uma lacuna vital e precisará persuadir as grandes empresas de que suas tentativas de controlar a agenda, sem qualquer agrupamento de conhecimento e avaliação global, provavelmente não sobreviverá por muito tempo. O argumento fundamental para sua criação é que nenhum país se beneficiará da IA fora de controle, assim como nenhum país se beneficiará de patógenos fora de controle.
A forma como as nações respondem tende a variar. A China, por exemplo, propôs recentemente a proibição de LLMs com “qualquer conteúdo que subverta o poder do Estado, defenda a derrubada do sistema socialista, incite a divisão do país ou prejudique a unidade nacional”. É provável que os EUA desejem o máximo de liberdade.
Mas o conhecimento e a análise compartilhados são certamente a pré-condição para que as nações decidam suas próprias prioridades. Ainteligência artificial não gerenciada ameaça nossa capacidade de pensar, agir e prosperar, tornando potencialmente impossível distinguir a verdade da mentira. Reunir conhecimento de maneira inteligente é a pré-condição para aproveitar melhor os benefícios da inteligência artificial e evitar seus muitos perigos.