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CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Conforme o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), “tudo indica” que a CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na semana que vem com um plano de trabalho estabelecido e abertura para elencar os nomes dos convocados para depor. Os partidos podem indicar a partir de quarta-feira (3) os nomes para compor a CPMI.

Além de afirmar que a presidência da CPMI não está definida – o nome mais cotado para a função é o deputado Arthur Maia (União-BA), que sofre rejeição do Planalto -, Lindbergh disse que a Operação da Polícia Federal realizada na quarta-feira (3) vai impactar especialmente na CPMI e que o tenente-coronel Mauro Cid tem que ser um dos primeiros convocados e ter o sigilo telefônico e bancário quebrado.

A Polícia Federal (PF) cumpriu um mandato de busca e apreensão como parte da Operação Venire e apreendeu na manhã da quarta-feira o celular de Jair Bolsonaro. O ex-presidente da República é suspeito de ter falsificado o certificado de vacinação de Covid-19 dele e da família dentro Ministério da Saúde para viajar aos EUA.

Para Lindbergh, Mauro Cid é peça chave na CPMI dos Atos Antidemocráticos porque “fica muito claro que ele era a pessoa que se comunicava diretamente com o presidente da República”. O deputado afirma que Cid era o elo de negociação de Bolsonaro com agentes de extrema direita.

Outra CPI?

O deputado Lindbergh Farias ainda acrescentou que, junto com o deputado Dorinaldo Malafaia (PDT-AP), está discutindo a ideia de colher assinaturas para abrir uma CPI referente à adulteração do certificado de vacinação. No entanto, o objetivo maior é instalar a CPMI a respeito do dia 8 de janeiro.

“Temos que avaliar porque tem a questão das joias, a rachadinha do cartão corporativo do Palácio do Planalto e essa operação da PF. Conforme a quebra de sigilos é feita, muita coisa vai surgindo e tudo me parece conectado”, ponderou o deputado.

Já para o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), o governo está desorganizado e sem base no Congresso e a operação da PF autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF) é uma cortina de fumaça para disfarçar a derrota que o governo teve na Câmara dos Deputados ao não conseguir votar a PL das Fake News. “Operações como essa, para ser muito honesto, vão motivar nós, conservadores de direita, a vestir nossas camisas verde-amarelas e tomar as ruas do Brasil.”

CAIO LUIZ

CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Pressão de evangélicos sobre PL das Fake News foi recado para Lira

No dia da primeira tentativa de votação do mérito do PL das Fake News na Câmara, na última terça-feira (2), o relatório enfrentou seu pico de resistência. Lideranças da Frente Parlamentar Evangélica, da Frente Parlamentar Católica e da bancada da bala se reuniram no Salão Verde para expressar seu descontentamento com o projeto, que acabou tendo sua votação adiada. Em plenário, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ex-presidente da bancada evangélica, revelou que a pressão não se deu por acaso: o alvo do era o presidente Arthur Lira (PP-AL).

A revelação se deu em um desabafo de Sóstenes na tribuna. O deputado criticou Lira por conta de sua fala no dia 28, durante a votação do requerimento de urgência do PL das Fake News, quando o presidente se referiu ao líder do PL, Altineu Côrtes (PL-RJ), como descumpridor de acordos. O líder reivindicava uma votação nominal, enquanto Lira afirmava que o acordo entre os partidos era por uma votação simbólica para a urgência.

A discussão acabou envolvendo o líder da bancada evangélica, Eli Borges (PL-TO), que se juntou ao colega de partido e cobrou um adiamento da votação. Lira respondeu com deboche, também acusando-o de descumprir o acordo pela votação simbólica. “É importante esse posicionamento para a gente saber como se conduz os acordos no plenário. (…) Eu vou saber compreender a grandeza do seu ato de hoje”. Eli continuou cobrando o adiamento, mas foi constantemente interrompido por Lira, que repetia “eu agradeço muito” quando o evangélico tentava falar.

Sóstenes Cavalcante contou que a resposta intensa da bancada evangélica à votação do dia 2 se deu justamente por solidariedade ao seu líder. “Nós vimos vossa excelência cassar a palavra, não deixou continuar falando o líder da frente parlamentar evangélica. Sabe por que não se votou o PL das Fake News? Porque o deputado Eli sequer foi pro seu estado, ele passou o fim de semana em Brasília ligando para deputados para que se colocasse para votar, esse projeto hoje seria derrotado”, exclamou.

O parlamentar cobrou respeito à frente, e ressaltou o impacto dos deputados evangélicos sobre a tramitação do projeto. “Termino dizendo ao Brasil: sabe por quê o PL das Fake News não foi votado hoje? Porque aqui nesta Câmara tem uma bancada de deputados conservadores de direita, que não vão aceitar censura neste país”, declarou. Ele também conta não ter sido orientado a revelar o interesse da bancada, e que seu objetivo era alertar Arthur Lira sobre a forma como está tratando a oposição.

Lira é um dos principais defensores do PL das Fake News, atuando em parceria com o relator Orlando Silva (PCdoB-SP) desde que o projeto chegou à Câmara, em 2020. Desde 2022, critica abertamente a pressão das big techs sobre a discussão do projeto, e procura angariar apoio para sua aprovação. Ao atacar o projeto, a bancada evangélica consegue atingir diretamente os interesses legislativos do presidente.

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Novo arcabouço fiscal é um pacto pelo emprego

Washington Quaquá*

É difícil agradar a todo mundo. Este parece um clichê, mas se aplica perfeitamente ao cenário econômico brasileiro. De um lado, precisamos de mais investimentos sociais. De outro, é necessário melhorar as contas públicas, deixadas no vermelho. A solução do impasse, como era de se esperar, não teria como agradar a todos. A proposta de arcabouço fiscal do ministro Fernando Haddad (Fazenda) já foi alvo de críticas pesadas até mesmo entre parlamentares da base do governo, que ainda não conseguiram enxergar o que é justo: as regras e medidas fiscais propostas vão na direção certa. Elas são um pacto pelo emprego, o que o Brasil mais precisa para voltar a falar de igual para igual com as grandes nações.

O arcabouço fiscal cria regras para manter as contas públicas sob controle, garantindo mais previsibilidade. Ora, não deveria ser tão difícil reconhecer a importância da estabilidade econômica para a geração de empregos. O Ministério da Fazenda explicou de forma clara, em nota pública, como as duas questões estão correlacionadas: “Quando as empresas têm mais confiança na economia, são mais propensas a investir em novos projetos, expandir suas operações e contratar novos funcionários. O consenso é de que isso pode impulsionar o crescimento econômico do país e gerar empregos.”

Além de turbinar a geração de empregos, o novo arcabouço enterra um passado que o Brasil quer esquecer: o do cruel teto de gastos. Criado pelo governo Michel Temer e aplicado (pero no mucho) na gestão Bolsonaro, o engessamento sufocava o crescimento do país pelo excesso de rigidez. De maneira oposta, a proposta do ministro Haddad estabelece um limite de gastos mais flexível. Ou seja, limita as despesas do governo sem engessar a máquina pública ao ponto de torná-la improdutiva e ineficiente. Diferentemente do teto, o Novo Arcabouço Fiscal garante que as despesas sempre cresçam acima da inflação, ao menos repondo os gastos por habitante. Com isso, assegura o financiamento de programas sociais essenciais e preserva os gastos em áreas prioritárias para o país, como saúde e educação, afastando-as de tentativas de desmantelamento.

Para além das qualidades do novo arcabouço fiscal, é preciso reconhecer o enorme desafio que chegou às mãos de Haddad logo neste início de governo Lula. O ministro fez o máximo esforço dentro do cenário possível, reunindo uma equipe técnica de primeira para consertar os malfeitos da gestão anterior.

Antes de fechar sua proposta, Haddad levou o esboço a todas as praças do governo, como as ministras Simone Tebet (Planejamento) e Esther Dweck (Gestão e Inovação). Falou também com Geraldo Alckmin (Desenvolvimento) e Rui Costa (Casa Civil). Enfim, fez o dever de casa, promovendo um debate amplo antes de levar a proposta à Câmara dos Deputados.

Agora que a proposta chegou à Casa, meu papel e dos demais parlamentares é o de aperfeiçoar ainda mais o texto, mas defendê-lo com vigor e sem medo de desagradar à minoria que ainda não compreendeu – ou não quer entender – a importância do crescimento com estabilidade monetária. Trata-se de uma proposta flexível e realizável, que vai permitir a redução da inflação e da taxa de juros, e atrair investimentos, ou seja, um verdadeiro pacto pelo emprego.

*Deputado federal Washington Quaquá (PT-RJ)

CONGRESSO EM FOCO

CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Câmara aprova texto de igualdade salarial entre mulheres e homens

texto substitutivo ao Projeto de Lei (PL) 1085/23 da relatora e deputada Jack Rocha (PT-ES), que procura implementar medidas de igualdade salarial entre homens e mulheres que realizem o mesmo trabalho, foi aprovado em sessão deliberativa da Câmara dos Deputados na quinta-feira (4).

O texto modifica a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e quer firmar a paridade de pagamentos entre os sexos como obrigatoriedade por parte de empresas com mecanismos de transparência e de remuneração acompanhados de maior fiscalização e multas.

Ao todo, 325 votos foram favoráveis e 36 contrários ao parecer final da deputada, que não sofreu nenhuma alteração. O próximo passo é que o texto seja analisado pelo Senado antes da sanção presidencial. O adiamento da votação do PL das Fake News, na última terça-feira, abriu caminho para que o texto da igualdade salarial fosse a plenário.

Atualmente, as mulheres, que correspondem a mais de 51% da população brasileira, recebem cerca de 77% do salário masculino. Isto é, se um homem ganha R$ 2.555, uma mulher recebe R$ 1.985.

O Poder Executivo é responsável por estipular o protocolo de fiscalização em prol da isonomia salarial entre homens e mulheres. Caso haja diferença entre salários ou discriminação por sexo, raça, etnia, origem ou idade, o empregador desembolsa uma multa no valor de dez vezes o valor do novo salário mínimo, com o valor dobrado caso reincida.

De acordo com Fernando Paiva, advogado trabalhista há 36 anos, a aprovação do texto é uma consequência da criação da Secretaria Geral da Mulher da primeira gestão Lula seguida do Ministério da Mulher e da maior exigência de mulheres em cargos políticos. “Isonomia salarial existe na Constituição e no artigo 461 da CLT. O que o projeto traz é a questão punitiva com mais clareza, bem como a transparência. As empresas com mais de 100 funcionários agora precisam exteriorizar práticas salariais.”

CAIO LUIZ

CONGRESSO EM FOCO
CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Hora de arrumar a casa

Horas depois de Arthur Lira criticar a articulação política do governo, a Câmara impôs ontem ao presidente Lula sua primeira derrota legislativa. Com placar de 295 votos a favor e 136 contra, os deputados derrubaram trechos de decreto presidencial que alterava o marco legal do saneamento. Por exemplo, o que permitia a contratação de empresas estatais sem licitação.

Lira surpreendeu o governo ao mandar incluir o projeto de decreto legislativo na pauta pouco antes de embarcar para os Estados Unidos. No plenário, o líder do governo, José Guimarães (PT-CE), tentou ganhar tempo para negociar, mas o resultado da votação mostrou que o Planalto e seus articuladores falharam. “Acho que isso fica como lição para todos aqui dentro. É um recado? Evidente que é”, admitiu Guimarães.

Lira foi direto ao analisar os problemas políticos do governo e listou alguns dos “culpados” — os ministros Alexandre Padilha (Articulação Política) e Rui Costa (Casa Civil). “Padilha infelizmente é o ministro da articulação política. A cobrança tem que começar por ele, mas se estende à Casa Civil, aos assessores mais próximos do presidente, aos ministros da Esplanada, líderes da Câmara e Senado. É um conjunto que precisa estar andando afinado, senão não toca a letra correta, vai tocar desafinado”, disse, em entrevista à Globonews.

Alguns petistas concordam com a opinião do presidente da Câmara.  Acham que Padilha está distante do Congresso, deveria frequentar mais a Câmara e conhecer melhor os deputados. Criticam a decisão de Lula de entregar três ministérios a um partido como o União Brasil, cujo apoio não se reflete nas votações — a bancada toda votou contra o governo na questão do saneamento. No MDB, que também ocupa três vagas na Esplanada, foram 31 votos a um pela derrubada do decreto de Lula. E no PSD, 20 a sete. A centro-direita decidiu cobrar seu preço.

O governo entra no quinto mês patinando no Congresso, sem votos e em meio a cobranças para liberação de emendas e nomeações para cargos. Lula sabe o tamanho do problema, inclusive alertado por Lira, que esteve no Planalto pouco antes de dar a entrevista. Hoje, a prioridade dos parlamentares é a eleição municipal, essencial para dar aos partidos base de eleitores em 2026, para continuar existindo no mapa político. Querem verbas e poder sobre políticas públicas.

Já o governo terá de correr para tentar aprovar em tempo hábil sua agenda econômica — especialmente as novas regras fiscais e a reforma tributária. A promessa de Lira de votar o novo arcabouço até 10 de maio pode ser esquecida — ele nem estará no país até lá. No caminho, não faltam obstáculos, especialmente duas CPIs (MST e atos golpistas). Sequer as medidas provisórias que reestruturam a administração pública e recriam o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida foram votadas, por causa do impasse entre Câmara e Senado sobre o rito de tramitação. Perdem a validade no fim do mês.

A derrota do governo, num dia em que todas as atenções se voltavam para novas (e graves) denúncias contra Jair Bolsonaro, agora de fraude no cartão de vacinação, soma-se à retirada de pauta do projeto das Fake News. Dão ao  Planalto uma impressão de fragilidade. Até aqui, porém, os erros políticos não afetaram os índices de popularidade do governo, como mostra a pesquisa Radar Febraban de abril: 52% o aprovam e 38% o desaprovam (10% não sabem/não responderam). Há tempo de arrumar a casa para tentar compatibilizar os interesses do Congresso com os do governo.

AUTORIA

Lydia Medeiros

LYDIA MEDEIROS Jornalista formada pela Universidade de Brasília, foi titular da coluna Poder em Jogo, em O Globo (2017-2018). Atuou ainda em veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, Época e Correio Braziliense. Foi diretora da FSB Comunicações, onde coordenou o atendimento a corporações e atuou na definição de políticas de comunicação e gestão de imagem.

CONGRESSO EM FOCO
CPMI dos Atos Antidemocráticos será instalada na próxima semana

Uberização traz novo controle dos modos de vida e de luta dos trabalhadores, diz pesquisadora

Para Ludmila Abílio, debate de regulação de trabalho em app é propício mas “campo minado”: “as empresas têm lobby forte”.

A entrevista é de Gabriela Moncau, publicada por Brasil de Fato, 01-05-2023.

uberização é muito mais do que a lógica que rege o trabalho em aplicativos, de onde cerca de 1,7 milhão de pessoas tiram a renda no Brasil, segundo o Ipea. Como uma “nova forma de controle, gerenciamento e organização do trabalho”, o modelo impacta todas as profissões e os próprios modos de vida contemporâneos. É o que constata Ludmila Abílio, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho.

Se a dinâmica que faz com que trabalhadores fiquem disponíveis e sejam recrutados só de acordo com a demanda já está em curso há décadas, as plataformas digitais trouxeram uma novidade. Com a gestão do trabalho por meio de algoritmos, conseguem fazer com que a necessidade do trabalhador se engajar permanentemente para “se manter no jogo” produza dados que tornam o gerenciamento daquela força de trabalho cada vez mais eficaz.

No caso dos entregadores, esse “jogo” acontece em um contexto em que as regras – para eles, não para as empresas – são propositalmente nebulosas. O quanto vão ser pagos por corrida, o que faz com que pedidos toquem ou deixem de tocar, qual o motivo do bloqueio no app são exemplos disso – não à toa, sempre aparecem nas demandas de suas greves.

“O trabalhador tenta lidar com essas regras o tempo inteiro, mas ele não tem nenhum poder de negociação, influência e nem de conhecimento sobre o que rege o próprio trabalho dele, então é um exercício permanente de adivinhação”, descreve Abílio.

Se o mundo do trabalho carrega essas entre suas características contemporâneas, as lutas dos trabalhadores de aplicativo também envolvem novas lógicas. Entre elas, na visão de Abílio, que é também professora colaboradora da Sociologia da Unicamp, a organização dispersa, em rede. “Tem a ver com ser multidão”, sintetiza. “E tem uma potência enorme: os motoboys têm um poder quase como o dos caminhoneiros. Eles podem interromper os fluxos”, afirma.

Eis a entrevista.

Você fala da uberização como a forma contemporânea de subordinação e gerenciamento do trabalho e, ao mesmo tempo, chama a atenção que ela não se reduz ao trabalho em plataformas, que tem a ver também com modos de vida. O que é a uberização?

uberização é uma nova forma de controle, gerenciamento e organização do trabalho. Isso envolve uma série de elementos que dizem respeito a como nós, socialmente, estamos sobrevivendo. Como estamos sendo remunerados, as noções de justiça, de dignidade, de saúde, de segurança, como elas estão se organizando nesse dado momento histórico.

A uberização tem alguns elementos centrais. O primeiro é a transformação das pessoas em trabalhadores sob demanda. Podemos usar um termo que é o trabalho just in time, que tem a ver com o toyotismo, quando falavam na produção just in time, uma grande transformação que vemos mais fortemente a partir dos anos 1970. É quando a produção é organizada de acordo com a demanda, eliminando uma série de riscos e custos, como estoques. Uma coisa é produzir um monte de carros e ter que vendê-los, outra é produzir o carro quando ele já está vendido. É como o Marx já falava n’O Capital: o ideal do capitalista é uma fábrica que funcione sob encomenda. Isso é uma produção just in time.

Então olha a complexidade e perversidade de falar num trabalhador just in time. Ele vive na mesma racionalidade que organiza a produção – só que ele é um ser humano. Então, ele passa a ser um fator de produção que é recrutado e usado quando necessário. Isso quer dizer que grande parte dos riscos e custos que envolvem o trabalho dele, são transferidos para ele próprio.

E aí as plataformas digitais têm um papel importante nisso, porque trazem novos meios tecnológicos e políticos desse gerenciamento. Então, qual é a grande novidade aí? Muita gente já vive sob demanda há muito tempo no Brasil. Mas passamos a ter uma racionalização e uma centralização desse controle. Temos 1 milhão de entregadores, 1 milhão de motoboys, 1 milhão de motoristas subordinados e controlados de forma extremamente eficiente e racionalizada por essas empresas.

O segundo elemento da uberização se refere à informalização. É tornar o trabalhador formal em informal, mas é mais do que isso. Também é um processo em curso há décadas e nós que estamos em home office sabemos do que se trata. É quando as distinções entre o que é tempo de trabalho, o que não é, o que é local de trabalho, o que não é, o que são custos do trabalho, o que não são, se informalizam. Isso também se traduz em uma série de transferências de custos para nós trabalhadores, e também de extensão do nosso tempo e intensificação do nosso trabalho, numa polivalência em que a gente vai combinando um monte de coisas ao mesmo tempo, inclusive coisas da nossa vida reprodutiva.

No caso dos entregadores, essa informalização envolve a perda de clareza mesmo das regras que regem o mundo trabalho. Mas todas as regras. Que chegam até na forma como o trabalho é precificado, como é distribuído para o trabalhador, por que o trabalhador é bloqueado, por que ele é beneficiado. O trabalhador não sabe mais quais são as regras do jogo.

E parece que a mediação é sempre com sistemas, máquinas, algoritmos, não é?

Por meio dessas plataformas, de fato, a gente vê o que chamamos de gerenciamento algorítmico do trabalho. Ele é criado por meios, determinações e critérios humanos. Mas o gerenciamento algorítmico possibilita transformar em dados uma série de elementos do mundo social, que vão sendo combinados para usar aquela força de trabalho sob demanda de forma mais eficaz. O trabalhador tenta lidar com essas regras o tempo inteiro, mas ele não tem nenhum poder de negociação, influência e nem de conhecimento sobre o que rege o próprio trabalho dele, então é um exercício permanente de adivinhação.

Por fim, tudo isso envolve também uma transformação – que não é uma superação. Não é que o Charlie Chaplin desapareceu, aquele modelo disciplinar de um corpo que tem que ser controlado e vigiado externamente, se não ele escapa. Que é o modelo fordista e taylorista, né? Ele continua, mas se combinou com novas formas de gestão do trabalho que transferiu para nós o gerenciamento do trabalho de forma subordinada.

De novo, a figura do home office. Eu sou muito mais produtiva aqui na minha casa, cozinhando, fazendo mil trabalhos, respondendo e-mails, etc., do que se eu estiver num escritório com o gerente me observando. É uma transferência de gerenciamento, mas eu sou mais produtiva porque estou num contexto de desemprego, ameaça e concorrência permanente. Então é demandar de mim um engajamento permanente para eu me manter no jogo.

E essa gestão de si, que a gente vai chamar de empreendedorismo de si, na verdade, é assim: você é um trabalhador em que as garantias conquistadas a duras penas, e que se referiam à responsabilização do Estado e do capital sobre a sua vida, se esfumaçaram. E você agora é um empreendedor de si, porque você passa a ser inteiramente responsável pela gestão da sua sobrevivência. E, para o lado da empresa e até do próprio Estado, você se torna uma pura força de trabalho. Então, há uma dissociação de algo que move a relação capital e trabalho, né? E é uma luta histórica a de que o trabalhador não é só força de trabalho, ele é um ser humano. É como se essa dissociação finalmente fosse feita. Por um lado, você é força de trabalho e, por outro, na sua vida, você é um ser humano – se vire para viver como tal.

Como você vê o debate da regulamentação do trabalho em apps?

É complexo e perigoso. A reforma trabalhista reconfigurou a definição histórica e muito bem constituída do que é emprego formal. Mudou o que é considerado o tempo de trabalho. Por exemplo, o tempo que ele anda dentro da fábrica até o posto dele não é mais considerado tempo de jornada de trabalho. Isso parece um detalhe, mas é muito sério, pois estamos reconfigurando a ideia do que é a jornada de trabalho e quem arca com isso.

Os poros do trabalho são aqueles períodos em que o trabalhador está sendo remunerado, que conta como tempo de trabalho, mas que ele não produz. Há uma luta enorme do capital para eliminar esses poros do trabalho e a reforma trabalhista já olha para isso, por dentro da regulação do trabalho formal.

É preciso perceber que o que aparentemente é a discussão da regulação do trabalho de entregadores se trata, na realidade, da regulação da uberização.

Surge um projeto da deputada Tabata Amaral (PSB), chamado “regime de trabalho sob demanda”. Dava nome aos bois. Quase emplacou e parte da esquerda abraçou. E ele fazia essa distinção: o trabalhador teria alguns direitos sociais, mas só seria remunerado pelo tempo efetivo de produção.

Estamos em um campo um pouco minado, porque as empresas têm um lobby fortíssimo e estão muito bem articuladas. E temos também um elemento que não podemos desprezar. Os trabalhadores – apesar de trabalhar 6, 7 dias por semana, mais de 12h por dia – prezam muito a gestão do próprio tempo. Todos nós prezamos. E parte da rejeição de muitos à CLT está relacionada a isso. Não querem voltar à figura que regula e vigia a jornada. Então tudo isso está em questão.

É um momento propicio, importante para se discutir a CLT, o trabalho intermitente, se é necessário pensar em novos modelos, se podemos nos basear em modelos existentes – tudo isso está em disputa. E a gente tem que ter muito cuidado para que o resultado disso não seja uma multidão de trabalhadores MEIs. Ou uma multidão de trabalhadores intermitentes. Que vão seguir sendo ferrenhamente subordinados.

O que te chama mais a atenção nas lutas de trabalhadores de aplicativo no Brasil?

Se você é uberizado e se organiza politicamente, o dia que você faz greve, você não recebe nada. E as empresas ainda vão dar uma série de incentivos para que os outros trabalhem. Então, agir politicamente nessa história demanda muita coisa. É a sua sobrevivência, da sua família. Você é bloqueado, é desligado.

E a gente viu com o breque dos apps, claro, surgiram lideranças, depois os sindicatos aparecem, mas nós sabemos que a organização desse movimento também envolve novas lógicas, que têm a ver com esse formato de rede. Tem a ver com ser multidão. A organização é dispersa. E tem uma potência enorme porque, veja, os motoboys têm um poder quase como o dos caminhoneiros. Eles podem interromper os fluxos.

E as formas de manifestação deles também se apropriaram desses elementos. Então, não é só fazer ato com motocicletas pela Avenida Paulista. É desligar o aplicativo, é incentivar o consumidor a se engajar também, avaliar mal, são novos instrumentos que entram aí. É bloquear os pontos onde as mercadorias saem para circular.

Mas ao mesmo tempo também esse efeito muito duro, porque a gente não sabe, na prática, quais foram as conquistas que esses trabalhadores conseguiram até agora. A gente vem de décadas de ataques muito poderosos às forças sociais do trabalho. E eles estão no meio desse turbilhão. Mas é uma construção que está em ato, a gente está vendo ela acontecer. Para onde ela vai? Isso não está dado.

IHU-UNISINOS

https://www.ihu.unisinos.br/628298-uberizacao-traz-novo-controle-dos-modos-de-vida-e-de-luta-dos-trabalhadores-diz-pesquisadora