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Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

O cenário mais preocupante é entre as crianças menores, que sofreram com o fechamento das escolas em uma fase essencial para sua formação

Victor Correia

Os efeitos da pandemia da covid-19 na formação de crianças e jovens pode gerar uma defasagem em suas vidas adultas, alerta o Banco Mundial (Bird). Levantamento recente da instituição multilateral mostra que pessoas que tinham menos de 25 anos em 2020, quando a doença se espalhou mundialmente, podem ter uma redução de até 25% em seus rendimentos no futuro.

O cenário mais preocupante é justamente entre as crianças menores, que sofreram com o fechamento das escolas em uma fase essencial para sua formação. No futuro, a defasagem pode gerar inclusive perdas econômicas para os países.

De acordo com o estudo, intitulado “Colapso e Recuperação: Como a pandemia da covid-19 deteriorou o capital humano e o que fazer a respeito”, o deficit de aprendizado atinge especialmente os países de baixa e média renda, sendo o Brasil um dos mais afetados pela perda de empregos dos jovens.

O Banco Mundial destaca ainda que os países precisam investir em políticas públicas para recuperar o atraso, sugerindo ações emergenciais como adequar o ensino ao nível de aprendizagem dos alunos e estimular o acesso dos jovens ao mercado de trabalho.

Janela pequena

No estudo, o Banco Mundial alertou que a janela para mitigar o deficit educacional é pequena, e sugeriu uma longa lista de políticas públicas que devem ser adotadas pelos países. Entre as ações mais urgentes estão o apoio à campanha de vacinação e suplementação nutricional de crianças mais novas, aumentar o acesso à pré-escola e expandir os programas de transferência de renda para famílias vulneráveis.

“As pessoas com menos de 15 anos hoje, ou seja, as mais afetadas pela deterioração do capital humano, representarão mais de 90% da força de trabalho em idade ativa em 2050”, afirma o economista chefe para Desenvolvimento Humano do Bird, um dos nomes que assinam o relatório. “Reverter o impacto da pandemia sobre elas e investir em seu futuro deve ser a prioridade mais alta para os governos. Caso contrário, esses cortes representarão não apenas uma, mas várias gerações perdidas”, acrescenta.

Segundo a pesquisa, entre março de 2020 e março de 2022, a perda estimada na educação de crianças em idade escolar era de um ano de escolaridade presencial, sendo mais acentuada em países da América Latina, com perdas de 1,7 ano. No Brasil, entre 1º de abril de 2020 e 31 de março de 2022, as escolas ficaram parcialmente ou totalmente fechadas por 90% do tempo.

Em países de baixa e média renda, quase um bilhão de crianças perderam, no mínimo, um ano escolar inteiro, sendo que 700 milhões perderam um ano e meio. Como efeito, cerca de 70% das crianças de 10 anos nesses países são incapazes de entender um texto básico, sendo que, antes da pandemia, esse índice era de 57%.

Os dados do Bird são corroborados por indicadores de instituições brasileiras. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostra que a taxa de alunos com dificuldades para ler e escrever saltou de 15,5%, em 2019, para 33,8%, em 2021. O Censo Escolar, divulgado pelo Inep, mostrou ainda que a taxa de abandono mais do que dobrou no ensino médio entre 2020, de 2,3%, para 2021, de 5%. Já os jovens entre 15 e 24 anos sofreram com a falta de acesso ao emprego. O México e o Brasil tiveram a maior queda no emprego dessa população, de 7% e 6%, respectivamente. O número de jovens que não trabalham nem estudam chegou a 22% no fim de 2021. Segundo o estudo do Bird, o desemprego ou baixa remuneração nesse período pode impactar essas pessoas por até 10 anos.

“Fechamento de escolas, lockdowns e interrupções nos serviços durante a pandemia ameaçaram acabar com décadas de progresso na construção de capital humano de várias gerações”, declara o presidente do Banco Mundial, David Malpass.

Deficit pode ser recuperado

Ao comenter sobre o alerta do Banco Mundial (Bird), a professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília Catarina Santos ressalta que não foi apenas a pandemia da covid-19, em si, que causou o deficit educacional do Brasil, mas que os problemas já existentes foram ressaltados por uma situação extrema.

Para ela, as sugestões dadas pelo Bird não são novidade no Brasil, já que apontam para dificuldades conhecidas no sistema educacional e poderiam ter sido resolvida no país “alguns anos atrás”, se houvesse comprometimento do poder público com a erradicação da fome e da melhora na educação. “Não existe a lógica da ‘geração perdida’, porque a possibilidade de aprendizado é ao longo da vida. Esse deficit é consequência do que não fizemos antes, não fizemos durante e não estamos fazendo depois da pandemia. Tem a ver com a falta de ação governamental para resolver a questão.”

A professora destaca que o país já tinha um deficit de educação antes da pandemia. Logo, os que já eram afetados foram os mais impactados pelo atraso no currículo escolar, pois foram justamente os que tiveram menos acesso. “Não garantimos que essas pessoas tivessem um acesso mínimo, de diversas formas. Não garantimos unidades computacionais às escolas, alimentação, e condições de vida às famílias”, critica.

CORREIO BRAZILIENSE

https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2023/03/5083057-jovens-devem-ter-renda-ate-25-menor-por-causa-dos-efeitos-da-pandemia-na-educacao.html

Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Trabalho escravo no campo: o que dizem trabalhadores, fiscais e pesquisadores sobre o recorde de resgates

837 pessoas foram libertadas em zonas rurais de janeiro a março, maior número para um 1º trimestre em 14 anos. Mais denúncias, terceirização, pobreza e falta de responsabilidade das empresas estimulam essa situação no campo, dizem entrevistados.

 

Por Paula Salati, g1

 

O ano começou com diversas notícias de trabalho semelhante à escravidão na agricultura: na colheita do arroz, cana-de-açúcar e até na uva, o que, até então, não era comum.

 

De janeiro a 22 de março deste ano, 837 pessoas foram resgatadas dessa situação em zonas rurais, 91% do total das vítimas do período.

 

Esse é o maior número para um 1º trimestre em 14 anos e representa uma alta de 112% em relação aos primeiros três meses de 2022.

 

Os dados são do chefe da Divisão de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Escravo (Detrae), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Maurício Krepsky.

Não há uma única explicação para esse aumento.

 

  • O que diz quem fiscaliza: Maurício Krepsky, do Ministério do Trabalho, afirma que os próprios trabalhadores têm denunciado esse tipo de situação, o que não era comum antigamente; por outro lado, ele diz que o número de fiscais em atividade diminuiu nos últimos anos. Muitos se aposentaram, mas as vagas não são respostas desde 2013. Novas contratações são necessárias para montar ações de prevenção e que flagrem o trabalho escravo com antecedência, antes mesmo de as denúncias chegarem, diz;

 

  • O que afirmam os trabalhadores: a Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar) afirma que a reforma trabalhista de 2017 precarizou muito o trabalho rural: a mudança permitiu a terceirização da colheita e do plantio, mas as empresas que surgiram nesse ramo têm colocado os empregados em situações degradantes. E elas não têm sido devidamente fiscalizadas, afirma;

 

  • O que pensa quem estuda o assunto: o aumento da pobreza e da miséria após a pandemia piorou as condições de vida no campo e criou um grande contingente de pessoas disponível para ocupar posições mais precarizadas de trabalho. É o que avalia a advogada e pesquisadora Lívia Miraglia, presidente da Comissão de Enfrentamento ao Trabalho Escravo da OAB-MG e coordenadora da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG;

 

  • Entidades que representam os produtores, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) não responderam a pedidos de comentários do g1 até o fechamento desta reportagem.

Mudança no perfil das denúncias

Maurício Krepsky, chefe da Dtrae do Ministério do Trabalho, afirma que houve uma mudança no perfil das denúncias nos últimos anos.

“A gente percebe que, agora, estamos recebendo denúncias dos próprios trabalhadores”, diz o auditor fiscal.

“Aqueles que têm um telefone com WhatsApp conseguem até mandar um vídeo mostrando ‘olha a situação que estamos aqui’. Esses vídeos vão circulando até chegar na gente ou, às vezes, chegam diretamente”, acrescenta.

Krepsky diz que, no momento do resgate, é função dos fiscais orientar os trabalhadores sobre os seus direitos e apontar o que está errado em determinada relação de trabalho.

“Depois [dos resgates], a gente acaba tendo contato com esses trabalhadores. Muitas vezes, eles vão pra outro lugar fazer a mesma coisa e percebem ‘opa aqui está até pior’, ‘o fiscal disse que isso aqui não é aceito pelo Estado Brasileiro’. Aí ele vai e denuncia o caso'”, diz.

Terceirização e falta de fiscalização

A Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar) avalia que a reforma trabalhista, implementada em 2017, precarizou o trabalho rural, abrindo brechas para situações degradantes de trabalho.

 

Com a reforma, a terceirização da atividade fim das empresas passou a ser permitida. No caso de uma plantação, a atividade fim é o plantio e a colheita.

 

Antes da mudança, as fazendas eram obrigadas a contratar os trabalhadores de forma direta, criando uma relação de maior responsabilidade com eles. Quem saía em busca dessas pessoas eram os “arregimentadores de mão de obra”, também conhecidos como “gatos”.

“A terceirização no meio rural regulamentou o ‘gato’. Esse intermediário cobra das empresas um valor bem acima pela mão de obra e repassa muito pouco para os trabalhadores. E aí geram essas condições de trabalho análogo à escravidão”, diz Santos, presidente da Contar.

Em boa parte dos casos, essas empresas terceirizadas não têm nem faturamento suficiente para realizar contratos com grandes fazendas, pontua Santos.

“As prestadoras de serviço precisam ter condições de pagar esses trabalhadores. A gente sabe que, hoje, ninguém fiscaliza elas”.

Para Lívia, da UFMG, além do Ministério do trabalho, as fazendas precisam fiscalizar melhor os seus fornecedores.

“Como é que uma empresa do agronegócio pode ser ambientalmente responsável sem ser, primeiro, responsável com as pessoas que lhe prestam serviço?”, ressalta.

“A Alemanha a França e a Inglaterra já possuem leis que proíbem a entrada de produtos de empresas que utilizam mão de obra escrava. Então, se eu quero ser um grande exportador do agronegócio, preciso começar a pensar nisso”, conclui Lívia.

 

De 2016 a 2022, o número de auditores fiscais do trabalho em atividade caiu 21%.

 

“As pessoas foram se aposentando e não teve concurso público para repor. O último concurso foi em 2013”, diz Krepsky, chefe da Dtrae, do Ministério do Trabalho.

“A carreira [de fiscal do trabalho] está minguando. Então, hoje, a gente só faz aquilo que é realmente urgente, as denúncias que chegam. A gente não consegue fazer inspeções de rotina ou de prevenção”, explica.

“Em alguns casos, conseguimos planejar. No plantio e colheita da cebola em Santa Catarina, por exemplo, a gente já sabe que tem um histórico complicado de trabalho escravo. Então, a gente não precisa esperar a denúncia chegar para planejar uma ação fiscal”, explica.

Piora nas condições de vida no campo

Além da reforma trabalhista, o aumento da pobreza no Brasil também estimulou o crescimento de formas degradantes de trabalho, pontua a advogada Lívia Miraglia, presidente da Comissão de Enfrentamento ao Trabalho Escravo da OAB-MG e da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“A crise econômica que a pandemia provocou se refletiu de forma mais incisiva no trabalho rural, onde já existe uma precarização muito forte com a terceirização, quarteirização de atividades”, destaca.

“O aumento de pessoas na linha de miséria forma um grande contingente humano disponível para qualquer tipo de trabalho”, acrescenta. É por isso que os trabalhadores são, geralmente, aliciados em municípios com baixo índice de desenvolvimento humano, diz Lívia.

A pesquisadora também relaciona essa situação com a herança colonial e escravista do Brasil. “Essa herança negativa ainda insiste em nos assombrar. Vivemos ainda uma desvalorização dos trabalhos manuais, dos trabalhos do campo e em um racismo estrutural. […] Os senhores de Engenho da contemporaneidade se julgam superiores a ponto de subjugar um outro brasileiro”, comenta.

Casos recentes têm surpreendido fiscais

Os casos recentes de resgate de trabalhadores no meio rural têm surpreendido os fiscais, tanto pelo tipo de cultivo agrícola, grau de violência e quantidade de trabalhadores resgatados, diz Maurício Krepsky.

Uma das operações mais emblemáticas foi o resgate no cultivo da uva, que envolveu três grandes empresas conhecidas: Aurora, Cooperativa Garibaldi e Salton. No total, 207 homens que prestavam serviço nessas fazendas foram encontrados em situação análoga à escravidão.

“Até então, só tinha ocorrido um resgate no cultivo da uva. Foi no ano passado e de um trabalhador apenas, no município de Quaraí, no Rio Grande do Sul. E, então, chega esse caso com um número anormal de trabalhadores envolvidos e com componentes de crueldade”, destaca o auditor.

Os trabalhadores resgatados nesta operação relataram ter sofrido espancamentos, choques elétricos, tiros de bala de borracha e ataques com spray de pimenta, além de jornadas exaustivas de trabalho.

“Isso [as agressões físicas] não é algo que a gente encontra em todos os casos. Geralmente, nós vemos os trabalhadores submetidos a condições degradantes de trabalho. Não quero dizer que isso é pouca coisa. Isso, por si, só já é uma violação grave de direitos humanos”.

Outro ponto que tem chamado a atenção dele é a quantidade de pessoas encontradas nas operações. Além dos 207 homens na colheita da uva, uma operação em Goiás, em março, resgatou mais de 200 homens em uma lavoura de cana-de-açúcar.

“[Essa quantidade] foge totalmente dos padrões de resgates dos últimos 5 anos. Nos anos 2000, isso era bem comum. Em 2007, por exemplo, houve três casos de resgate de mais de 1 mil trabalhadores, em fazendas de cana. Mas, hoje, mais de 100 trabalhadores já é muito”, observa.

Dados do Ministério do Trabalho mostram, inclusive, que os casos de escravidão moderna na cana-de-açúcar chegaram a cair a partir de 2010, mas voltaram a crescer em 2019. “A gente entende isso como um retrocesso do setor”, destaca Krepsky.

G1

https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2023/03/26/trabalho-escravo-no-campo-o-que-dizem-trabalhadores-fiscais-e-pesquisadores-sobre-o-recorde-de-resgates.ghtml

Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Mercado reduz projeção de inflação para 2023, mas eleva novamente estimativa para o próximo ano

Expectativa de inflação dos investidores supera o teto da meta definido pelo CMN para este ano, que é de até 4,75%. Números foram divulgados pelo Banco Central.

Por Alexandro Martello, g1 — Brasília

Os economistas do mercado financeiro reduziram a estimativa de inflação deste ano, que passou de 5,95% para 5,93% – ao mesmo tempo em que também elevaram, outra vez, a expectativa para 2024.

As informações constam do relatório “Focus”, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Banco Central. Foram ouvidas mais de 100 instituições financeiras na semana passada sobre as projeções para a economia.

Para este ano, a meta central de inflação foi fixada em 3,25% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e será considerada formalmente cumprida se oscilar entre 1,75% e 4,75%.

Se confirmado, esse será o terceiro ano seguido de estouro da meta de inflação, ou seja, no qual o IPCA fica acima do teto fixado pelo sistema de metas. Em 2022, a inflação somou 5,79%.

 

Quanto maior a inflação, menor é o poder de compra das pessoas, principalmente das que recebem salários menores. Isso, porque os preços dos produtos aumentam sem que o salário acompanhe esse crescimento.

 

Para 2024, a projeção de inflação do mercado financeiro subiu de 4,11% para 4,13% na semana passada. Essa foi a segunda alta seguida do indicador.

 

A meta de inflação do próximo ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), é de 3% e será considerada cumprida se oscilar entre 1,5% e 4,5%.

 

Para definir a taxa básica de juros e tentar conter a inflação, o BC já está mirando, neste momento, na meta do ano que vem. Isso ocorre porque as mudanças na taxa Selic demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia.

PIB

 

Para o crescimento Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, a expectativa do mercado financeiro avançou de 0,88% para 0,9% na última semana.

 

O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país. O indicador serve para medir a evolução da economia.

Já para 2024, a previsão de crescimento caiu de 1,47% para 1,40%.

 

  • No começo de março, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o PIB avançou 2,9% em 2022, contra uma alta de 5% no ano anterior.

 

Taxa de juros

 

O mercado financeiro manteve a expectativa para a taxa básica de juros da economia, a Selic, estável em 12,75% ao ano para o fim de 2023.

 

Com isso, o mercado financeiro segue estimando queda dos juros neste ano.

 

Para o fim de 2024, a projeção do mercado para o juro básico da economia ficou estável em 10% ao ano.

Outras estimativas

 

Veja abaixo outras estimativas do mercado financeiro, segundo o BC:

 

  • Dólar: a projeção para a taxa de câmbio para o fim de 2023 permaneceu em R$ 5,25. Para o fim de 2024, ficou estável em R$ 5,30.

  • Balança comercial: para o saldo da balança comercial (resultado do total de exportações menos as importações), a projeção continuou em US$ 55 bilhões de superávit em 2023. Para 2024, a expectativa para o saldo positivo recuou de US$ 54,8 bilhões para US$ 52,4 bilhões.

  • Investimento estrangeiro: a previsão do relatório para a entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil neste ano permaneceu em US$ 80 bilhões de ingresso. Para 2024, a estimativa de ingresso continuou também em US$ 80 bilhões.

G1

https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/03/27/mercado-reduz-estimativa-de-inflacao-para-2023-mas-eleva-novamente-projecao-para-o-proximo-ano.ghtml

Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Lula enfrenta semana decisiva junto ao congresso

BRIGA NO CONGRESSO

Abatido por uma pneumonia, que o fez cancelar a viagem que faria neste domingo (26) à China, o presidente Lula ficará em Brasília onde enfrenta uma semana decisiva no Congresso Nacional antes de completar 100 dias de seu terceiro mandato. Além de ter de abrandar a crise institucional instalada entre a Câmara dos Deputados e o Senado em relação ao rito de tramitação de Medidas Provisórias (MPs), Lula tem o texto do arcabouço fiscal para finalizar. Juntos, os dois temas são determinantes para o andamento das estratégias traçadas pelo governo.

Neste momento, Lula vê travada pela briga entre o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e da Câmara Arthur Lira (PP-AL) o andamento de MPs chaves para seu governo. É o caso da que prevê a criação do novo Bolsa Família, de R$ 600. Ainda que o valor já tenha sido depositado nas contas das famílias beneficiadas, é preciso que o Congresso Nacional sacramente a medida em até 120 dias, a fim de que não perca a validade. Ainda há tempo para isso, já que a MP vence só em 30 de abril, mas com as divergências entre Lira e Pacheco, alas do governo já temem correria no último momento.

Lula pretendia conversar com Pacheco no sábado, mas a conversa ainda não ocorreu. Na sexta-feira (24), Lira pediu uma reunião emergencial com o petista, onde manifestou toda sua contrariedade em relação ao rito de tramitação determinado por Pacheco, que inclui a instalação de comissões mista. O presidente da Câmara agora quer uma sessão do Congresso para colocar o tema em discussão e ameaça travar as indicações dos nomes que vão compor o colegiado. Pacheco é contra.

Do lado do governo, o chefe da Casa Civil, Rui Costa, até tentou conversar com aliados sobre as divergências sobre a tramitação das MPs, mas não tem conseguido ser unanimidade nem mesmo entre os colegas. Alexandre Padilha, ministro das Relações Institucionais, é quem tem tomado a linha de conversações. Mas o governo tem esbarrado no preço a pagar pela paz no Congresso. A negociação passa pelas emendas.

Lula também tem arcabouço

Dinheiro, por sinal, é o grande tema que norteia todas as demandas do governo junto ao Congresso Nacional nestes próximos dias. Com a viagem de Lula para a China cancelada, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad deve antecipar a entrega do arcabouço, que deve substituir o atual teto de gastos das contas. O texto já foi levado a Lula, mas o próprio presidente havia adiado para abril a entrega, após o retorno da China. Sem viagem, a expectativa do Congresso é que os detalhes da proposta sejam apresentados o mais breve possível, a fim de facilitar as negociações.

A relatoria do arcabouço fiscal foi articulada por Lira com o líder do PP na Câmara, André Fufuca (MA), ainda na sexta-feira (17), mesmo dia em que o texto foi apresentado ao presidente Lula. Mesmo alegando confiança na decisão de Lira, o PT demonstrou desconforto com a indicação direta da relatoria ao PP. Agora, o partido vai tentar reverter a decisão.

A ideia do governo Lula é que a nova regra fiscal ajude no controle de gastos públicos, ajudando a estabilizar a dívida pública, sem que haja prejuízo de investimentos e outros gastos considerados prioritários. A proposta será enviada para o Congresso Nacional em abril, juntamente com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O mercado financeiro classifica o arcabouço como necessário para o equilíbrio das contas públicas e até mesmo redução dos juros.

AUTORIA

Iara Lemos

IARA LEMOS Editora. Jornalista formada pela UFSM. Trabalhou na Folha de S.Paulo, no G1, no Grupo RBS, no Destak e em organismos internacionais, entre outros. É mestranda na Universidade Aberta de Portugal e autora do livro A Cruz Haitiana. Ganhadora do Prêmio Esso e participante do colegiado de Inteligência Artificial da OCDE.

CONGRESSO EM FOCO
Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Sobre as crises: o capitalismo ensina, nós não aprendemos

A crise que assistimos agora é igual e diferente à de 2008. Desregulamentação, impulsos tecnológicos, ondas cripto e mudança do papel dos Bancos Centrais alongaram a trilha da busca do capitalismo pela perfeição.

Nathan Caixeta

Aquebra do Silicon Valley Bank e a quase-quebra do Credit Suisse reprisam os episódios de um drama conhecido: a instabilidade da finança capitalista. O capítulo seguinte também é conhecido: as autoridades econômicas vão ao socorro do sistema financeiro para impedir uma ruptura sistêmica do crédito e do gasto. Essa série, exibida nos canais da história moderna, podemos chamar de Capitalismo.

Relendo “Os Antecedentes da Tormenta” de Luiz Gonzaga Belluzzo, senti como é necessário empregar o mesmo espírito crítico que José Carlos Braga invocou certa vez. Por isso, lançarei um olhar sobre a crise a partir de uma perspectiva “Belluzzeana” dos acontecimentos recentes.

Ainda que conhecido nosso drama, Belluzzo insiste que a capacidade inventiva do capitalismo altera a “morfologia da crise”, aprofundando e transformando as conexões entre o crédito, a riqueza financeira e o gasto capitalista – isto é, as raízes da crise.

Quando olhamos para a crise de 2008, a quebra do Lehman Brothers precipitou a deterioração da estrutura de ativos altamente arriscados e securitizados que sustentaram o “efeito-riqueza” durante o boom da economia global entre 2003-07. O sistema de crédito estava comprometido pela orgia entre bancos de depósito, instituições financeiras e agências de classificação de risco.

As regulações haviam sido obliteradas e a crença na autorregulação dos mercados permitiu a tomada de riscos pelos agentes privados sem qualquer parâmetro do envolvimento sistêmico entre as posições de dívida e de alocação dos recursos financeiros. As assimetrias no plano monetário e produtivo espalharam os riscos entre as praças financeiras do mundo, entulhando a responsabilidade de manter a inflação de ativos na grande caçamba da dívida norte-americana.

A denúncia do superaquecimento da economia yankee incitou a subida dos juros e a elevação dos riscos de recessão. A paralisação do crédito veio junto com a destruição dos ativos financeiros ancorados na capacidade de gasto e endividamento de empresas e famílias. A crise se instalou. Sua morfologia estava aprimorada: não se tratava de um risco localizado, mas de uma estrutura altamente conectada cujo centro era Wall Street.

As famílias assistiram suas poupanças serem sugadas pelo redemoinho da deflação de ativos. Trabalhadores perderam seus empregos e as empresas foram afundadas por dívidas impagáveis. A estruturação do sistema financeiro implicava, portanto, um salvamento em massa, missão que os governos compreenderam tardiamente. Os Bancos Centrais e Tesouros Nacionais foram forçados a posição de compradores universais de títulos privados que não valiam nada.

A crise era igual e diferente. A “endemia” de euforia e pânico, própria de uma Economia Monetária da Produção, foi alavancada pela interpenetração do dinheirismo dos capitalistas e a torpeza de políticos e reguladores, elementos de fertilidade para a criatividade financeira.

A crise que assistimos agora é igual. Também é diferente. A desregulamentação persiste, os impulsos tecnológicos, as ondas cripto e a mudança do papel dos Bancos Centrais, de 2008 até então, alongaram a trilha da busca do capitalismo pela perfeição.

As novidades nas manifestações dessa perfeição “imperfeita” estão registradas nos balanços dos Bancos Centrais, abertos para colecionarem novos ativos que não valem nada. Ativos esses empenhados na difusão das tecnologias 4.0, nas astúcias informacionais dos algoritmos que decidem qual ativo comprar ou vender.

Seguindo as exigências pelo aumento global das taxas de juros para controle de uma inflação de oferta, os Bancos Centrais, agora, se veem forçados pelos mercados à redução compulsória. Os economistas aprontam seus discursos para tirar Keynes do calabouço. Novos gastos estatais, alheios aos controles de endividamento público, serão exigidos.

A concentração da riqueza que forçou a crise retornará para resolvê-la depois da tormenta. Belluzzo, lembrando Marx, atesta: “as formas concretas realizam os conceitos que as determinam”. O conceito de riqueza financeira, amparada no futuro, é, uma vez mais, realizado pela forma universal da riqueza monetária.

Enquanto isso, nas encostas da liquidação da riqueza velha, o horizonte visível é o mesmo:

“No mundo em que mandam os mercados da riqueza já produzida, os vencedores e perdedores dividem-se em duas categorias: os que, ao acumular capital fictício, gozam de ‘tempo-livre’ e do ‘consumo de luxo’, e os que se tornam dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência. Apresentados como provas da soberania do indivíduo, esses controles suaves e despóticos foram se apoderando das mentes e das almas”.

A construção de novos horizontes requer, talvez, a vacina Keynesiana que os economistas negam, assim como negam o vírus financeiro:

A regulamentação financeira, o controle de capitais especulativos, a partilha da soberania monetária na construção de um sistema monetário “verdadeiramente” internacional, a socialização dos investimentos, a tributação progressiva sobre a riqueza, a utilização do progresso técnico a serviço das necessidades humanas e não como cupido do amor do homem ao dinheiro.

Certamente, a perspectiva Belluzzeana recomenda a vacinação imediata.

Nathan Caixeta é economista pela FACAMP, mestrando em Desenvolvimento Econômico pelo IE/Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC/FACAMP).

Fonte: Brasil de Fato
Data original da publicação: 20/03/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/sobre-as-crises-o-capitalismo-ensina-nos-nao-aprendemos/

Jovens devem ter renda até 25% menor por causa dos efeitos da pandemia na educação

Fé, fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade

Em meio à desigualdade abissal, à volta da fome e à devastação do planeta, muitos se fazem de cegos e repetem o mantra: Deus, Família e Pátria. Por trás de seu delírio, está uma razão cínica.

Ladislau Dowbor

A raça humana é sempre toda ouvidos para um conto de fadas.

Lucrécio, De rerum natura, 50 AC

A insistência em uma ideia enraizada, independentemente de evidências contrárias, é a fonte do autoengano que caracteriza a loucura.

Barbara Tuchman

Acompreensão científica do tema não é complicada. Estamos progredindo firmemente no que foi chamado de catástrofe em câmera lenta. A destruição desta Terra solitária, nosso próprio habitat, avança por meio das mudanças climáticas, redução drástica da biodiversidade, esterilização do solo, poluição da água e do ar, contaminação química, desmatamento e tantos dramas surrealistas como plásticos nos mares, nos rios e em nosso sangue. Temos todos os números, estatísticas e cadeias de causalidade, sabemos o que e quem é/são os responsáveis. E temos todas as informações sobre a catástrofe social, 850 milhões passando fome, dos quais cerca de 180 milhões são crianças, além de 2,3 bilhões em insegurança alimentar e ainda mais com dificuldade de acesso à água potável. Cerca de 2 bilhões não têm acesso à eletricidade, sem falar na inclusão digital. Estamos destruindo nosso ambiente vital, para o lucro de poucos. Para onde foi nossa racionalidade?

Podemos dar de ombros: a pobreza sempre existiu. E fingir que não sabemos: o plástico nos mares nem sempre é visível, a Amazônia está queimando mas longe, e 2050 parece tão distante. Omeletes e ovos quebrados e assim por diante. Mas o fato é que todo esse drama simplesmente não é inevitável e o sofrimento não é necessário. Temos todas as medidas óbvias traçadas na Agenda 2030, 17 metas e 169 objetivos. E temos toda a tecnologia de que precisamos, inclusive o sistema de renda básica já bastante experimentado no Brasil e em outros países. E, claro, temos os meios financeiros. O PIB mundial de 100 trilhões de dólares que estamos alcançando este ano significa que o que produzimos em bens e serviços é equivalente a 4.200 dólares por mês por família de quatro membros. O que produzimos atualmente é amplamente suficiente para garantir que todos tenham acesso às necessidades básicas da família, conforto e dignidade. Claro, podemos nos referir à renda nacional líquida em vez do produto interno bruto, ou adicionar capital fixo acumulado, mas isso não muda o fato básico: estamos destruindo nosso meio ambiente e gerando enorme sofrimento de bilhões, preparando-nos para uma catástrofe ainda maior. para nossos filhos, enquanto temos todos os meios necessários para reverter os dramas. Nossos problemas não são econômicos, no sentido de falta de recursos: são questões políticas e de organização social.

Um exemplo simples nos ajuda a voltar à Terra. O mundo enfrenta a inflação, e os governos, com forte apoio dos interesses financeiros, estão elevando as taxas básicas de juros, como se as economias estivessem superaquecidas, muito dinâmicas. Mas examine, por exemplo, a energia. A produção e o consumo de petróleo no mundo giraram em torno de 90 milhões de barris por dia nas últimas décadas, notavelmente estáveis. Mas seus preços têm apresentado um comportamento ioiô. Isso é atribuído a “mercados”, mas o fato é que os custos de extração, o volume de oferta e o uso final não mudaram significativamente. Não tivemos que esperar pelo conflito na Ucrânia para especular sobre o petróleo 1

Figura 1. Preço real do petróleo, de janeiro de 1970 a abri de 2022 (dólares corrigidos por barril)

A razão óbvia é que não se trata de “preços de mercado”, que refletiriam variações de oferta e demanda, mas decisões políticas. Estamos diante de formadores de mercado, não de usuários dos mercados. O petróleo é um recurso natural: é extraído, não produzido. E pertence a países, não a corporações. Mas os extratores e comerciantes corporativos decidem sobre os preços. Não é uma questão de custos, mas de poder para aumentar os lucros. No final de 2022, “os lucros das maiores empresas petrolíferas do mundo subiram para quase US$ 173 bilhões, quando a guerra da Rússia na Ucrânia elevou os preços da energia, segundo estimativas de analistas. A britânica Shell e a francesa TotalEnergies relataram lucros para os primeiros nove meses de 2022 de US$ 59 bilhões. As rivais americanas Chevron e ExxonMobil devem reportar ganhos acumulados no ano próximos a US$ 70 bilhões, enquanto os lucros de 2022 da britânica BP podem ultrapassar a marca de US$ 20 bilhões. As receitas acumuladas para os sete maiores perfuradores de petróleo do setor privado durante os primeiros nove meses de 2022 podem chegar a US$ 173 bilhões, de acordo com previsões de analistas coletadas pela S&P Global Market Intelligence e lucros relatados”.2  Os lucros do petróleo na Exxon triplicaram em 12 meses. 3

Como o uso de energia permeia todos os setores, os preços sobem em toda a economia. Muitos governos estão subsidiando os usuários finais, em vez de reduzir os lucros por meio de impostos sobre lucros inesperados. Os preços mais altos pagos pela população alimentam esses lucros mais altos. Os preços não “sobem” do nada, são elevados na origem, seja a que pretexto for. A inflação é uma transferência de dinheiro para o Big Oil, e para grandes intermediários, vazando para vários setores. Devemos ceder o controle dos recursos naturais a especuladores privados? O ex-governo Bolsonaro no Brasil privatizou em grande parte a estatal Petrobrás, em nome do “combate à corrupção” – uma narrativa política polivalente – quase dobrando os preços do botijão de gás e dos postos de gasolina. Foi uma decisão política, e o dinheiro que as famílias têm de pagar é transferido para grandes empresas privadas na forma de dividendos. Existe alguma justificativa científica para lucros gigantescos a partir da extração de um recurso natural? Atribuir o caos a inevitáveis ​​mecanismos de mercado pertence ao que Michael Hudson chamou de “economia-lixo”.

São escolhas políticas. The Economist lamenta que “a cada ano US$ 2,6 trilhões em alimentos sejam desperdiçados – o suficiente para acabar com a fome quatro vezes”. 4  Quatro traders — ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus — controlam a comercialização de 80% dos grãos. Mercados? Eles estão competindo para melhor satisfazer os clientes? A produção brasileira de alimentos está nas mãos deles, produzimos 3,7 quilos de grãos per capita só na safra passada, mas 33 milhões passam fome e 125 milhões são subnutridos. 5 O governo da Índia simplesmente bloqueou as exportações de trigo e arroz, para garantir mais abastecimento de alimentos à população. Uma decisão política que alimenta a população e mantém os preços baixos. O elefante na sala, diante do desastre ambiental e da pobreza explosiva, é que os interesses corporativos e sociais se desintegraram, gerando uma situação insustentável.

O último relatório do UNRISD (Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social) de 2022,  Crises of Inequality: shifting power for a new eco-social contract , apresenta os números do Crédit Suisse sobre a concentração de riqueza, resultado direto da fuga geral de renda e riqueza pelas empresas gigantes:

Figura 2: Distribuição global da riqueza

Para tornar os números claros, 1,2% dos adultos mais ricos do mundo têm 47,8% da riqueza total, US$ 221,7 trilhões. Na base da pirâmide, mais da metade da humanidade, 53,2%, tem apenas US$ 5 trilhões, 1,1% da riqueza total. Para dobrar a riqueza da metade mais pobre da população, bastaria transferir 2,2% dos mais ricos, que eles mal perceberiam. Os números são explosivos e estão piorando rapidamente. O “livre mercado” tornou-se um ralo gigante para uma elite improdutiva, gerando um drama universal. O Relatório do UNRISD afirma o óbvio: “As desigualdades extremas de hoje, a destruição ambiental e a vulnerabilidade à crise não são uma falha no sistema, mas uma característica dele. Somente mudanças sistêmicas em grande escala podem resolver essa situação terrível”. 6

Como afirma o relatório, “nosso mundo está em estado de fratura”. A ciência está aí, sabemos o que está acontecendo, mas os “fatos” permanecem basicamente enterrados em relatórios técnicos, e a população é insuficientemente informada. Mas não é só uma questão de informação. Nas recentes eleições presidenciais no Brasil, nas quais Lula venceu por 1,8%, cerca de metade da população não só aceitou como lutou (e continua lutando) por argumentos como o de que Lula é comunista, que seu governo quer levar as crianças ao homossexualismo, que o mundo quer se apoderar da “nossa” floresta amazônica, e tantos argumentos completamente absurdos, aceitos docilmente por pessoas inteligentes, técnicos com diploma universitário, pessoas normais, não apenas extremistas armados. Nos debates políticos, não discutimos o que é preciso para preservar o meio ambiente, gerar empregos, reduzir a desigualdade ou expandir a escola pública. Para muitos, o tema era “Deus, Pátria, Família”.

Com a prioridade do julgamento moral e dos argumentos religiosos, o nacionalismo berrante, o porte de armas em nome de Jesus e a bandeira nacional espalhada em tantos ombros, estamos diante de pessoas com ódio no olhar, atitudes tão bem apresentadas por Jonathan Haidt em seu  The Righteous Mind [A Mente Moralista]. Com que facilidade as pessoas são tomadas pelo fanatismo, tornando-se inatingíveis pelos argumentos do bom senso, da racionalidade e da ciência. Isso não é particularmente brasileiro, é claro, e estimular as características irracionais que são tão poderosas em todos nós tornou-se uma importante ferramenta política. O mesmo Dio, Patria, Famiglia ressoou na eleição de Meloni na Itália, Erdogan na Turquia, Duda na Polônia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, Netanyahu em Israel, Kristersson na Suécia, para não falar de o discurso doentio de Donald Trump ou os absurdos do Brexit, assim como o discurso de tantos políticos locais. Devemos nos esforçar muito mais para entender racionalmente nossas dimensões irracionais.

Mark Twain ficou muito impressionado com essas questões, pois via a sociedade “tendo guerras o tempo todo, formando exércitos e construindo marinhas e lutando pela aprovação de Deus de todas as maneiras possíveis. E onde quer que houvesse um país selvagem que precisava ser civilizado, eles iam até lá e o tomavam, e o dividiam entre os vários monarcas esclarecidos, e o civilizavam – cada monarca à sua maneira, mas geralmente com Bíblias e balas e impostos. E a maneira como eles exaltaram a Moral, o Patriotismo, a Religião e a Irmandade dos Homens foi nobre de se ver.” (182) 7 Isso é poderoso, e é essencial separarmos o sentimento religioso, a espiritualidade, que encontramos em tantas civilizações, de seu uso político em diferentes estruturas de poder, usando divindades para justificar qualquer coisa, uma tendência que se generalizou com as mídias sociais, algoritmos e as tecnologias de manipulação em escala industrial permitem.

“A razão pode levá-lo a qualquer lugar que você queira ir”, escreve Haidt. (122) 8  Ele qualifica o uso deformado da racionalidade como  pensamento confirmatório ,  raciocínio motivado ou  cérebro partidário . (81, 88) Barbara Tuchman, ao tentar entender  The March of Folly , refere-se à  auto-hipnose , bem como à  hipocrisia . (269, 271) “Os psicólogos chamam o processo de triagem de informações discordantes de ‘dissonância cognitiva’, um disfarce acadêmico para ‘Não me confunda com os fatos’.” (322) 9 Mas o particularmente chocante é a escala em que o mundo corporativo apoia e financia essas manipulações, particularmente claras na esfera republicana dos EUA, mas também no Brasil, trazendo votos e apoio à destruição do meio ambiente, privatizações e fortunas evangélicas.

O fato também é que tantos economistas transformaram mansamente a ciência em justificativa de interesses que sabem serem destrutivos, tantos advogados defendem absurdos, em nome da lealdade de seus clientes, e tantos jornalistas espalham profissionalmente mentiras e ódio com o poder de TVs como a Fox News nos EUA e tantos canais no Brasil. Não estamos apenas caminhando para uma catástrofe sistêmica, estamos perdendo nossa capacidade de lidar com ela, o controle básico do processo de decisão pública. Democracia? Quo Vadis?

Notas

1  UNCTAD –  Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2022  p. 13.
2  The Guardian , 27 de outubro de 2022.
3  Sharon Zhang. Verdade . 28 de outubro de 2022.
4  The Economist, 27 de outubro de 2022.
5  Tereza Campello e Ana Paula Bortoletto (Orgs.). Da Fome à Fome . Ed. Elefante, São Paulo, 2022.
6  UNRISD. Crises de desigualdade: mudança de poder para um novo contrato ecossocial  Genebra, 2022.
7  Mark Twain. A Bíblia Segundo Mark Twain . Touchstone, 1995.
8  Jonathan Haidt. A Mente Justa: por que as pessoas boas estão divididas por política e religião . Pantheon Books, Nova York, 2012.
9  Barbara Tuchman. A Marcha da Loucura: de Tróia ao Vietnã . Random House, Nova York, 2014.

Fonte: Blog do Dowbor
Data original da publicação: 17/03/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/fe-fanatismo-e-lucro-na-pos-modernidade/