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A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

A fome é uma “realidade que infelizmente ainda faz parte do nosso mundo, afinal, hoje temos 33 milhões de brasileiros que passam fome, a maioria deles, provavelmente, é de negros e pardos. Convencionou-se chamar isso de ‘insegurança alimentar’, que é o eufemismo cruel para a fome que assola o nosso povo”, constata Régia Agostinho, ao comentar a condição social brasileira atual, já retratada na obra da escritora Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960). Segundo ela, as personagens negras do livro de Carolina de Jesus expressam a “consciência que a própria Jesus tinha de sua condição de mulher negra e favelada e que tinha sido colocada naquilo que ela entendia como o quarto de despejo da grande cidade de São Paulo. No diário, ela fala da abolição e como a nova escravidão seria a fome que a população negra e favelada passava no Brasil de 1960”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a historiadora comenta também a obra da maranhense Maria Firmina dos Reis, que retratou a realidade dos negros no século XIX no romance Úrsula, o primeiro escrito por uma mulher no Brasil, em 1859. “Acredito que a luta de Maria Firmina dos Reis em pleno império escravista contra a escravidão seja também um grito de outra independência. Uma independência que abarcasse também os escravizados e os considerasse cidadãos. Claro que pelas tensões do seu tempo, ela não pede isso abertamente, mas, em seu texto, iguala brancos e negros e os vê como irmãos”, pontua.

Régia Agostinho. Fotografia: Arquivo pessoal

Régia Agostinho é doutora em História pela Universidade de São Paulo – USP e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Ceará – UFC. É professora da Universidade Federal do Maranhão – UFMA.

Confira a entrevista.

Maria Firmina dos Reis foi anunciada como homenageada da 20ª Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP. Quem foi Maria Firmina e o que essa homenagem representa?

Maria Firmina dos Reis é a primeira romancista negra do Brasil. A primeira mulher negra a publicar um romance antiescravista, Úrsula, em 1859. Nesse romance, pela primeira vez na história da literatura brasileira, os personagens escravizados falam sobre e contra a escravidão. Há também no romance uma crítica ao patriarcado no século XIX, onde o personagem Tancredo fala da tirania exercida por seu pai em relação à mãe. A homenagem da FLIP é um reconhecimento merecido à Maria Firmina dos Reis. Mesmo que tardiamente, a autora recebe, agora com essa homenagem, uma visibilidade nacional e internacional de seu trabalho por toda a vida em prol das causas das consideradas minorias, negros e mulheres. Como filha de uma escrava alforriada, Maria Firmina dos Reis deve ter sentido na pele o que seria viver numa sociedade patriarcal e escravista.

Há, ainda, uma certa polêmica no anúncio da homenagem, pois a FLIP é considerada um evento de elite – e acessível para poucos – da literatura nacional. Como a senhora observa essa crítica? Quais os desafios de, no Brasil de hoje, tornar conhecidos personagens tão importantes de nossa história, que são apagados por uma historiografia hegemônica, como o foi o caso de Maria Firmina?

A FLIP vem tentando, ao longo dos últimos anos, se diversificar e se popularizar. Ao fazer uma curadoria coletiva e mais diversificada há uma chance maior de se abarcar autores e leitores outros que não fazem parte do cânone. Claro que ainda há muito a se fazer. No entanto, a homenagem a Maria Firmina dos Reis já se mostra como um passo muito importante para essa democratização da FLIP. A autora com certeza se tornará mais conhecida e acredito que novas edições de Úrsula deverão ser produzidas.

Maria Firmina dos Reis vem alcançando, desde o início do século XXI, um espaço grande nas pesquisas acadêmicas. Essa recuperação de seu legado começou no Maranhão, ainda no século XX, na década de 1970, com a biografia e pesquisa que Nascimento de Morais Filho fez sobre a autora: Maria Firmina: fragmentos de uma vida, de 1975, reunindo textos firminianos e depoimentos de filhos adotivos e ex-alunos e alunas de Reis. Nesse mesmo ano, ele faz a edição fac-similar de Úrsula, assim como lança também em edição fac-símile o livro de poesias da autora, Cantos a beira-mar. Desde então, Maria Firmina dos Reis foi ganhando mais e mais visibilidade e isso tomou uma dimensão nacional quando a editora Mulheres publicou Úrsula em 2004, com o posfácio do pesquisador Eduardo de Assis Duarte, que inclusive estará em uma das mesas da FLIP que homenageará Reis.

Nesse mesmo ano em que Maria Firmina foi anunciada como homenageada da FLIP, completamos 200 anos do processo de Independência e o Centenário da Semana de Arte Moderna. Como analisa a memória que vem sendo feita desses dois momentos históricos do Brasil? Em que medida a trajetória e a literatura de Maria Firmina dialogam com esses dois episódios de nossa história?

Acredito que a luta de Maria Firmina dos Reis em pleno império escravista contra a escravidão seja também um grito de outra independência. Uma independência que abarcasse também os escravizados e os considerasse cidadãos. Claro que, pelas tensões do seu tempo, ela não pede isso abertamente, mas, em seu texto, iguala brancos e negros e os vê como irmãos.

Sobre a questão da Semana de 1922, penso que os textos firminianos dialogam com a ousadia desse evento. Publicar um texto antiescravista em 1859, mesmo que não se tenha uma ousadia no estilo literário, significa que se tem uma ousadia temática. Foi preciso muita coragem para publicar esse romance no período em que a autora o publicou.

 A senhora vive no Maranhão, mesmo estado de Maria Firmina. Como sua memória é trabalhada na cultura local? Ao mesmo tempo, o cânone maranhense já consegue enxergar o que foi e qual o legado de Maria Firmina?

Eu sou cearense e vivo no Maranhão há 17 anos, desde que passei em concurso público para a Universidade Federal do Maranhão e, desde então, pesquiso a vida e obra de Maria Firmina dos Reis. Quando cheguei em São Luís, já tinha feito uma dissertação de mestrado na Universidade Federal do Ceará sobre Emília Freitas e Francisca Clotilde, autoras cearenses da virada do século XIX para o início do XX, publicando respectivamente A Rainha do Ignoto, de 1899 e A Divorciada, de 1904. Então, eu já tinha interesse por escritoras do século XIX. Quando cheguei em São Luís, fui procurar uma autora oitocentista e encontrei Maria Firmina dos Reis, que naquele momento também era pouco conhecida, isso em 2005, na cidade. Era mais conhecida por pesquisadores e estudantes de História e de Letras. Mas hoje percebo que Reis se transformou numa referência importante da literatura maranhense e nacional. Seus textos são estudados nas universidades e até nas escolas. No entanto, creio que ainda seja preciso ampliar mais sua voz. Fazer com que ela chegue em todas as escolas do Brasil e que ocupe o lugar na literatura brasileira do século XIX.

“Úrsula” é uma das obras mais conhecidas de Maria Firmina. Publicado em 1859, o livro é considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Que universo e perspectivas femininas a autora revela? Qual sua leitura acerca do abolicionismo?

Como historiadora, sempre saliento que Úrsula é um romance antiescravista ou precursor da literatura abolicionista. Concordo com Emília Viotti e Ângela Alonso, que apontam que o movimento abolicionista começa no Brasil em torno de 1860 em diante. Então, Úrsula, eu leio como um romance antiescravista ou precursor. Já o conto A escrava, também de Reis, eu leio como um conto abolicionista, publicado em 1887 na Revista Maranhense, no qual a autora coloca como narradora uma personagem feminina de “sentimentos abertamente abolicionistas”. Então, do ponto de vista do cuidado historiográfico com a temporalidade, eu faço essa separação.

Sobre a questão da perspectiva feminina, gosto de pensar que Reis coloca questões nos seus textos que passaram despercebidas muitas vezes por autores masculinos: o olhar sobre a tirania masculina, a escolha por colocar personagens femininas fortes e falando em seus textos. A preta Suzana, em Úrsula, é um exemplo disso, até mesmo a mãe de Úrsula, que diz para ela fugir do vilão da narrativa. Adelaide, como órfã e pobre tentando galgar posição social. Uma narradora mulher no conto A escrava, assim como a própria história da escravizada Joana, no conto. Reis escolheu muito a perspectiva feminina para contar suas histórias e isso é bastante sintomático sobre seu olhar de mundo.

O romance “Úrsula” vem sendo defendido como precursor do abolicionismo, embora essa insígnia seja usualmente atribuída à poesia de Castro Alves e ao romance “As vítimas-algozes”, de Joaquim Manoel de Macedo. O que essa disputa revela sobre o lugar das mulheres na historiografia brasileira?

Longe de mim retirar o mérito das obras citadas, mas vamos à questão. O poema de Castro Alves, Navio Negreiro, de 1869, é publicado dez anos após Úrsula e nele o autor fala sobre os tumbeiros que carregavam os africanos escravizados para o Brasil. Maria Firmina dos Reis fez essa narrativa em 1859, dez anos antes de Castro Alves. Reis coloca na fala de preta Suzana, africana escravizada que veio ao Brasil pelos tumbeiros, uma crítica feroz à desumanidade dessa captura na África e desse translado. Já As vítimas-Algozes, também publicado em 1869, de Joaquim Manuel de Macedo, pode ser lido como um romance abolicionista, sim, mas o autor quer a abolição para livrar os senhores dos maus hábitos dos escravizados, que por conta da escravidão se tornam vilões e, por isso, são vítimas-algozes. A libertação que Macedo requer em seu texto visa mais o bem-estar dos senhores brancos, do que necessariamente uma melhor vida para os escravizados.

Não sei se existe de fato uma disputa entre esses autores, ou entre os pesquisadores destes. Mas o que existe é uma crítica literária que já canonizou Castro Alves e Joaquim Manuel de Macedo. Essa crítica precisa agora voltar os olhos para outros autores e autoras. A homenagem da FLIP deve ajudar nisso. O fato de as mulheres escritoras do XIX não terem sido lidas com mais seriedade, deveu-se à misoginia e à ideia de que o mundo da literatura era masculino e branco. Contrariando a morfologia, no século XIX, a palavra era masculina.

Que representações sobre escravidão e mulheres Maria Firmina apresenta na segunda metade do século XIX? Como tais representações eram recebidas na época?

As mulheres e os escravizados aparecem em Maria Firmina dos Reis como seres pensantes, dotados de humanidade e subjetividades. Os escravos e as mulheres firminianos não são apenas vítimas de senhores verdugos, mas também versam contar a escravidão e a tirania masculina. Se no mundo real em que Reis viveu isso talvez não fosse tão possível, no mundo que Maria Firmina dos Reis inventou, mulheres e escravos tinham voz e vez.

Que conexões podemos fazer entre os negros presentes em “Úrsula”, de Maria Firmina, e em “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus?

Embora, provavelmente, Carolina Maria de Jesus nunca tenha lido Maria Firmina dos Reis, o seu livro Quarto de despejo. Diário de uma favelada (1960) é herdeiro da escrita firminina. Temos mais uma vez aqui uma escritora negra que foi silenciada ao longo dos anos. Claro que a trajetória de Carolina Maria de Jesus é muito mais pesada, visto que estamos falando de uma escritora que escreveu a partir de sua vivência e dos retalhos de livros que encontrava em seu trabalho como catadora. Reis, apesar de dizer que sua formação era quase nula, na verdade, teve alfabetização em casa, passou em concurso público para professora de primeiras letras em Guimarães, vila à época do Maranhão. Reis circulou entre a imprensa local. Teve uma visibilidade local enquanto vivia. Já Jesus se construiu como escritora apesar de sua dura e sofrida vida. Alcançou o sucesso com seu diário, sendo publicada em mais de treze idiomas. Nunca foi, no entanto, considerada pela crítica especializada como uma escritora. Seu texto era visto mais pelo caráter antropológico por ser uma visão de dentro da favela.

O que podemos dizer de como os negros aparecem nas obras das duas escritoras diz respeito à consciência que a própria Jesus tinha de sua condição de mulher negra e favelada e que tinha sido colocada naquilo que ela entendia como o quarto de despejo da grande cidade de São Paulo. No diário, ela fala da abolição e como a nova escravidão seria a fome que a população negra e favelada passava no Brasil de 1960. É uma realidade que infelizmente ainda faz parte do nosso mundo, afinal, hoje temos 33 milhões de brasileiros que passam fome, a maioria deles, provavelmente, é de negros e pardos. Convencionou-se chamar isso de “insegurança alimentar”, que é o eufemismo cruel para a fome que assola o nosso povo. Se Maria Firmina dos Reis ousou sonhar um novo mundo para os escravizados, Carolina Maria de Jesus nos mostrou em 1960 que a abolição veio, mas ela foi e continua incompleta porque não se deram as mesmas oportunidades a negros e brancos após a abolição. A própria trajetória de Jesus mostra isso.

A historiografia dessa segunda década dos anos 2000 tem avançado nos estudos acerca das conexões atlânticas da África com o mundo, especialmente a América. Quais os avanços mais significativos que a senhora observa nesses estudos? Quais são os limites dessas pesquisas ainda a serem ultrapassados?

Eu faço parte de um programa de pós-graduação em História na UFMA sobre História e conexões atlânticas. Então, estamos bem antenados com esse debate. É impossível pensar o Brasil sem essas conexões, sem a ligação com a Europa e, principalmente, a África, que por tanto tempo foi negligenciada na historiografia acadêmica. Penso que os avanços já estão na existência de programas de pós-graduação nessa linha. A Universidade Federal do Maranhão também é a primeira e, se não me engano, a única do Brasil a ter um curso de graduação sobre Estudos Africanos. Claro que existem desafios a serem vencidos, principalmente quanto ao fomento dessas pesquisas e programas para que os pesquisadores possam fazer viagens e consultas às fontes do outro lado do Atlântico. Embora muito material esteja na internet, a pesquisa in loco ainda é fundamental. Esperamos que dias melhores venham para a pesquisa no Brasil.

Desde 2008, é obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. Passados mais de dez anos da promulgação da lei que institui essa obrigatoriedade, a senhora considera que os jovens saem da educação básica mais bem formados acerca de nossos antepassados africanos?

Mesmo que várias dissertações e teses atestem que esses ensinos ainda deixam muito a desejar, eu vejo que algum avanço foi feito. Não é o ideal ainda, mas o fato de se fazer uma reflexão anual nas escolas sobre o 20 de novembro já é um passo importante. Talvez seja ainda tímido, mas é melhor do que passo nenhum.

Que mensagem Maria Firmina, no século XIX, deixa à literatura afro-brasileira, especialmente àquela que vem sendo desenvolvida em nossos dias?

Que vale a pena lutar por dias melhores e justiça social. Que mesmo que não colhamos diretamente os frutos dessa luta, as futuras gerações podem fazê-lo e que, apesar de todas as dificuldades, é necessário lutar por uma nação mais justa, solidária e igualitária.

Fonte: IHU
Texto: João Vitor Santos

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/a-fome-e-a-nova-escravidao-entrevista-com-regia-agostinho/

A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

Entre estabilidade e mudança: os rumos da eleição de 2022

O eleitor deixou a renovação de lado e apostou na ordem. A concentração de votos nos 2 principais candidato à Presidência foi a maior desde a volta da democracia. Juntos Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levaram 91,6% dos votos, na eleição que teve menos votos brancos e nulos e mais abstenção da história da Nova República.

Alexandre Sampaio Ferraz*

“O escrutínio majoritário de um só turno tende ao dualismo dos partidos (…) verdadeira lei sociológica (…) o escrutínio majoritário de dois turnos ou a representação proporcional tendem ao multipartidarismo” (Lei de Duverger, 1951)

Os números do primeiro turno se assemelham aos do pleito de 2006, quando Lula disputou a reeleição pressionado pelo escanda-lo do mensalão, contra o atual vice dele na chama, Geraldo Alckmin (PSB). A maior disparidade talvez venha da mancha de soja que tomou o cerrado no centro do Brasil de lá para cá. Na eleição para a Câmara Federal, a taxa de renovação foi de 39%, a menor desde 1989.

A disputa presidencial sempre foi polarizada, com exceção da primeira eleição presidencial em 1989, nos aos seguintes, a disputa se concentrou em 2 grandes competidores pelo cargo máximo, tendo sempre o PT num desses, estruturando a disputa no campo social democrático. Na eleição de 2002, a mais disputada desde então, os 2 primeiros colocados concentraram apenas 69,6% dos votos. E a disputa para saber qual seria o desafiante de Lula, no segundo turno, embolou com Serra, Garotinho e Ciro com votações muito próximas.

A grande mudança no Câmara que assume em 2023, não está na ideologia mais à esquerda ou mais à direita, mas na redução do número de partidos e na concentração partidária promovida pela aprovação da Emenda Constitucional 97/17, no apagar das luzes do impeachment, em 2016. A mudança na Constituição proibiu as coligações nas eleições proporcionais e restringiu o acesso ao fundo partidário e a propaganda gratuita em rádio e televisão aos partidos que atingirem a cláusula de desempenho progressiva.

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Mapa da eleição presidencial (2º turno 2006, 1º turno 2022)

Analisei os impactos desta mudança em artigo publicado no jornal online Nexo1, em setembro e as eleições confirmaram a influência das regras sobre as estratégias e os resultados eleitorais. Nas eleições de 2018, passamos para 30 partidos, com deputado federais eleitos, sendo que 31 elegeram deputados estaduais em alguma das mais de 1 mil vagas nos estados. Após o fechamento da janela partidária, em abril de 2022, sobraram 23 partidos na Câmara. A concentração das cadeiras nos 10 maiores partidos passou de 71%, na eleição de 2018, para 85%. Encerrado o primeiro turno, teremos os mesmos 23 partidos na Câmara, mas se considerarmos que cada federação representa apenas 1 partido, o número cai para 19.

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Resultados das Eleições para Presidente no Primeiro Turno – Brasil. Fonte: TSE. Elaboração: Alexandre Ferraz

O efeito das mudanças nas regras tem incentivado a reorganização partidária, e já puderam ser sentidos nas eleições de 2020, com a redução do número de partidos que não puderam mais “aproveitar” os votos da coligação para eleger representantes. Após a eleição, os partidos que não atingiram a cláusula de desempenho correram atrás da sobrevivência política para manter o acesso ao financiamento público, o que levou a incorporação do PRP pelo Patriota; do PPL pelo PCdoB; e do PHS pelo Podemos, todas em 2019. Após a janela partidária e a criação do União Brasil, com a fusão do PSL e do DEM, ficamos com 11,7 partidos efetivos antes do pleito de 2 de outubro de 2022.

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Número de partidos efetivos. Fonte: TSE. Elaboração: Alexandre Ferraz

Não tivemos, provavelmente, nenhuma eleição com a mesma regra desde a redemocratização. Na eleição deste ano não será diferente, o Poder Legislativo aprovou a possibilidade da criação de “federações partidárias”, contornando a proibição das coligações em eleições proporcionais (Lei 14.208/21). A aprovação das federações partidárias deu sobrevida às siglas menores e a possibilidade de não ser excluídas do Fundo Partidário, neste ano, o PCdoB e o PV que se federaram ao PT, o Cidadania ao PSDB, e a Rede ao PSol.

A estratégia deu resultado para esquerda, apesar da perda de cadeiras do PCdoB, que passou de 9 para 6, da eleição de 2018 para esta. Já o Cidadania e o PSDB parecem ter caminhado abraçados para derrota, perdendo juntos cerca de 50% da bancada anterior. Mas a pior situação parece ter sido a do DEM e do PFL, que optaram pela fusão criando o maior partido na Câmara, com 81 deputados. O gigante com os pés de barro formado na virada de 2021 elegeu “apenas” 59 deputados, ainda assim formará a terceira maior bancada em 2023.

O pleito disputado no último 2 de outubro de 2022, reduziu a fragmentação levando o número de partidos efetivos para 9,3, considerando cada federação como partido, ou 9,9, se considerarmos cada partido de forma isolada. Voltamos a realidade observada no segundo governo Lula. Mas a manutenção da regra deve concentrar ainda mais o sistema partidário. Após a eleição, o sarrafo para acessar o fundo partidário e a propaganda gratuita em rádio e TV aumenta, junto com a pressão por mais fusões e concentração. Os 2 critérios alternativos passam de 1,5% dos votos validos para 2% em 1/3 dos estados, ou de 9 para 12 deputados eleitos no mínimo, em 1/3 dos estados.2

A concentração deve dar novo tom à relação entre o Poder Executivo e Legislativo, uma vez que reduz o “tamanho do balcão”, podendo facilitar a coordenação, e ao mesmo tempo concentrar mais poder nas mãos das elites partidárias. Os líderes partidários que têm no “Colégio de Líderes” seu fórum mais importante, controlam os principais cargos a serem distribuídos ao longo da legislatura, bem como a distribuições de projetos de lei e o andamento do processo legislativo. O efeito mecânico das regras deve ser contrabalançado pelas forças políticas reais e a movimentação das elites e correntes políticas.

A polarização natural do cargo majoritário, que antes se organizava no eixo PT x PSDB, nunca foi tão ideologicamente demarcada como esta que emerge das urnas. O novo eixo da disputa se consolida entre a social-democracia, representada pela chapa Lula/Alckmin, e a direita conservadora, espelhada na dobradinha Bolsonaro/General Braga Neto.

Neste contexto de disputa e ânimos acirrados, em que as feridas da passagem do autoritarismo para democracia permanecem abertas, não custa lembrar do alerta do cientista político italiano Giovanni Sartori (1976): “A fragmentação do sistema partidário obstrui o funcionamento da democracia se, e apenas se, expressar polarização”.

(*) Economista e doutor em Ciência Política pela USP (Universidade de São Paulo)

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1 https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Reorganiza%C3%A7%C3%A3o-partid%C3%A1ria-os-efeitos-das-mudan%C3%A7as

2 Neste ano, o Fundo Partidário foi de R$ 440 milhões distribuídos entre 24 partidos, e o Fundo Eleitoral de R$ 4,96 bilhões. Diferente do primeiro, restrito aos partidos que superam a cláusula de desempenho, 2% do fundo eleitoral é dividido de forma igualitária entre os partidos com registro no TSE.

DIAP

https://diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91178-entre-estabilidade-e-mudanca-os-rumos-da-eleicao-de-2022

A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

Deputados protagonistas saem derrotados das urnas. Veja lista de não reeleitos

Apesar da baixa renovação na Câmara na eleição do último domingo (2), muitos deputados que tiveram protagonismo ao longo desta e de legislaturas ficarão de fora do centro das decisões políticas do Congresso a partir de fevereiro de 2023. Essa é a situação de 192 deputados que tentaram sem sucesso renovar o mandato na Casa, além de outros 57 que buscaram novos desafios políticos.

Entre os que perderam a reeleição estão lideranças como os ex-vice-presidentes da Câmara Marcelo Ramos (PL-AM) e Fábio Ramalho (MDB-MG), os líderes do PSB, Bira do Pindaré (MA); do Solidariedade, Lucas Vergilio (GO); do PTB, Paulo Bengston (PA), e da oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE); e a terceira-secretária da Mesa Diretora, Geovânia de Sá (PSDB-SC).

Veja a nova composição da Câmara

Ainda recém-chegado ao Congresso, Marcelo Ramos virou protagonista em 2019, quando presidiu a comissão especial da reforma da Previdência. Desde então se destacou ao fazer oposição ao governo. Ramos virou vice-presidente da Câmara no início de 2021, mas foi afastado do cargo este ano por ter trocado o PL pelo PSD, assim que o presidente Jair Bolsonaro se filiou ao Partido Liberal. A vaga, decidiu a Justiça, cabia à antiga legenda.

O relator da reforma da Previdência, considerada pela equipe econômica como a proposta mais importante aprovada pelo Congresso na atual legislatura, Samuel Moreira (PSDB-SP), também não conseguiu se reeleger.

A nova composição do Senado

Uma das aliadas mais próximas do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a deputada Margarete Coelho (PP-PI) também fracassou nas urnas. Ela foi relatora do novo Código Eleitoral e da proposta de emenda constitucional que reservava recursos para candidaturas femininas, entre outras proposições importantes para as quais foi designada por Lira.

O deputado Fábio Trad (PSD-MS), que relatou a chamada PEC da Segunda Instância, também não teve votos suficientes para se reeleger.

Essa também foi a situação do deputado Luis Miranda (Republicanos-DF), que tentou se reeleger desta vez por São Paulo. Miranda e seu irmão, um servidor do Ministério da Saúde, sacudiram a CPI da Covid-19, no Senado, ao afirmarem que o presidente Jair Bolsonaro (PL) ignorou as denúncias levadas por ele sobre irregularidades na compra de vacinas. O episódio resultou no pedido de indiciamento do presidente. O caso, porém, foi arquivado pela Justiça.

Ex-líder do governo Bolsonaro, Joice Hasselmann (PSDB-SP) perdeu em quatro anos mais de 1 milhão de votos, ou 99% da votação alcançada em 2018, e ficará sem mandato a partir de fevereiro. Eleita na onda bolsonarista como uma das mais proeminentes figuras antipetistas, Joice rompeu com Bolsonaro após atritos no PSL, quando ambos eram filiados à extinta sigla. Desde então, passou a ser tratada como inimiga pelos apoiadores do presidente.

Importantes nomes da oposição, como o relator do PL das Fake News, Orlando Silva (PCdoB-SP), o ex-líder do Psol Ivan Valente (SP), o ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Vicentinho (PT-SP) e a ex-líder do PCdoB Perpétua Almeida (AC), também não alcançaram votação suficiente para renovar o mandato.

O mesmo insucesso foi vivido pelos líderes das frentes parlamentares do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho (PSB-SP), e da Educação, Professor Israel (PSB-DF), pelo ex-presidente do Cidadania Rubens Bueno (PR) e pelo ex-prefeito de Curitiba e ex-sub-relator da CPI dos Correios Gustavo Fruet (PDT-PR). Nenhum deles se reelegeu.

Na lista abaixo, estão deputados que exerceram mandato na atual legislatura e não continuarão na Câmara a partir de fevereiro, seja porque não se reelegeram, seja porque concorreram a outros cargos. Alguns deputados não reeleitos ainda podem sonhar em exercer o mandato por algum período na próxima legislatura por terem ficado na suplência. Os dados foram obtidos pelo Congresso em Foco por meio da Secretaria-Geral da Mesa.

Da lista acima, não ficarão sem mandato:

Alan Rick (União Brasil-AC), eleito senador
Beto Faro (PT-PA), eleito senador
Efraim Filho (União Brasil-PB), eleito senador
Hiran Gonçalves (PP-RR), eleito senador
Laércio Oliveira (PP-SE), eleito senador
Professora Dorinha Seabra (União Brasil-TO), eleita senadora
Tereza Cristina (PP-MS), eleita senadora
Celina Leão (PP-DF), eleita vice-governadora
Walter Alves (MDB-RN), eleito vice-governador

Liziane Bayer (Republicanos-RS) – suplente do senador eleito Hamilton Mourão (Republicanos-RS)

Paula Belmonte (Cidadania-DF) – eleita deputada distrital
Bruna Furlan (PSDB-SP) – eleita deputada estadual
Ney Leprevost (União Brasil-PR) – eleito deputado estadual
Santini (Podemos-RS) – eleito deputado estadual

Ainda disputam outro mandato:

Fábio Mitidieri (PSD-SE), candidato ao governo estadual em segundo turno
Marilia Arraes (Solidariedade-PE), candidata ao governo estadual em segundo turno
Onyx Lorenzoni (PL-RS), candidato ao governo estadual em segundo turno
Sebastião Oliveira (Avante-PE), candidato a vice de Marilia Arraes em segundo turno

PL e PT dominarão nova Câmara. Veja evolução partidária desde 1986

Os campeões de voto na Câmara, por estado

AUTORIA

Edson Sardinha

EDSON SARDINHA Diretor de redação. Formado em Jornalismo pela UFG, foi assessor de imprensa do governo de Goiás. É um dos autores da série de reportagens sobre a farra das passagens, vencedora do prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009. Ganhou duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog. Está no site desde sua criação, em 2004.

CONGRESSO EM FOCO
A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

MDB: Simone Tebet com Lula; Michel Temer com Bolsonaro

ELEIÇÕES 2022

O MDB, que no primeiro turno das eleições presidenciais teve como candidata a senadora Simone Tebet, deve anunciar, nesta quarta-feira (5), a liberação dos filiados para que escolham entre as candidaturas do ex-presidente Lula (PT) ou do presidente Jair Bolsonaro (PL). O movimento é parecido com o do PSDB, que liberou os diretórios para a escolha nesta terça-feira (4).

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, a senadora Simone Tebet, que ficou em terceiro lugar na disputa, deve declarar apoio ao ex-presidente Lula. Pelo menos em 10 estados, o MDB já estava apoiando Lula no primeiro turno. Simone Tebet deve fazer seu pronunciamento sobre o segundo turno nesta quarta-feira (5).

“Eu e mais doze já declaramos apoio (a Lula) e a Simone fará o mesmo com duas propostas incorporadas pelo Lula. O Brasil não pode continuar faminto e nesse absurdo autoritário”, afirmou o senador Eunício Oliveira (MDB-CE) ao Estadão.

O movimento inverso deve ser tomado pelo ex-presidente Michel Temer, que deve apoiar Bolsonaro. A decisão de Temer deve ser motivada por duas razões: a primeira é sua relação desgastada com os petistas desde o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. O segundo ponto é que Bolsonaro faz mais gestos ao ex-presidente do que Lula, cuja parte da militância trata Temer como “golpista”.

A relação de Temer com o PT, no entanto, não está totalmente desgastada. O ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula, procurou o ex-presidente, mas ele só daria apoio a Lula caso o partido mude a narrativa sobre o impeachment de Dilma, deixando de lado a tese do “golpe”. Temer viajou para Londres nesta semana e volta ao Brasil até sexta-feira (7), quando tomará sua decisão.

Outro motivo para justificar o apoio de Temer a Bolsonaro é a campanha de reeleição do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Na avaliação do partido, esta disputa tem tudo para ser acirrada. Tanto e que Temer já teria decidido apoiar o candidato de Bolsonaro ao governo no estado, o ex-ministro Tarcísio de Freitas (Republicanos), contra Fernando Haddad (PT), com a tentativa de se aproximar do eleitor bolsonarista.

AUTORIA

CONGRESSO EM FOCO

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A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

Lula precisa de apenas 30% de votos de Tebet e Ciro para vencer

O deputado federal eleito Guilherme Boulos (Psol) avaliou os sinais dados pelo eleitorado de direita e de esquerda, nesta eleição.

O líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e deputado federal eleito por São Paulo, Guilherme Boulos (Psol) avaliou positivamente a votação de Luis Inácio Lula da Silva no primeiro turno, após participar da primeira reunião de coordenação da campanha da Frente Brasil da Esperança do segundo turno.

Ele pondera que Lula ganhou a eleição, com seis milhões de votos, uma margem muito significativa aberta sobre Bolsonaro. De acordo com seu cálculo, Bolsonaro precisa de quase 70% dos votos de Simone Tebet (MDB) e de Ciro Gomes (PDT) para encostar em Lula. “Lula precisa apenas de 30% desses votos para liquidar a fatura e ganhar a eleição. Não podemos tratar uma vitória política do Lula como se fosse uma derrota”, defendeu.

“Quem tem motivo, neste momento, para estar angustiado, preocupado e desesperado, não é quem está nessa reunião, mas esta turma que está no Palácio do Planalto. Porque já houve uma migração de voto útil da direita para Bolsonaro”, afirmou.

Boulos acredita na tendência das demais candidaturas declararem apoio a Lula, antes de saber do anúncio de apoio do PDT e do próprio Ciro Gomes. Ele antecipou que a campanha vai dialogar com o eleitor que optou pela abstenção, que foi recorde, pelo voto nulo e que votou em Simone Tebet e no Ciro Gomes.

“Vamos ter que dialogar com este eleitorado de forma muito humilde e democrática para demonstrar os riscos que o país corre, caso Jair Bolsonaro se reeleja. O que está em jogo não são dois candidatos, dois projetos, mas a democracia contra a barbárie”, apostou ele.

Congresso e orçamento secreto

Boulos também foi ponderado em torno do avanço do PL no Congresso e a eleição de figuras ligadas ao bolsonarismo. “Não é novidade ter uma força conservadora no Congresso Nacional. Mesmo com a vitória da esquerda para a Presidência, nunca chegou perto de ter maioria”, lembrou.

“Tem um lógica clientelista de eleição, que é onde o centrão se cria e se reproduz, numa relação de troca viciada com setores do eleitorado”, analisou.

Da mesma forma que houve uma eleição significativa de bolsonaristas, ele destacou os símbolos “do lado de cá” que devem ser notados, como a eleição de mulheres trans, negras e indígenas. “Tem sopros e sinais de renovação”.

A grande batalha no Congresso, com o presidente Lula eleito, em sua opinião, vai ser acabar com o orçamento secreto, o principal mecanismo clientelista desta eleição. “Essa excrescência está levando os recursos da União para projetos locais e clientelistas, muitas vezes, com esquemas de desvio, em vez das prioridades nacionais”.

Ele não acredita que este mecanismo de orçamento seja necessário para o diálogo com os parlamentares. “Temos Centrão há muito tempo no Brasil, mas isso [orçamento secreto] só tem dois anos”, afirmou.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/04/lula-precisa-de-apenas-30-de-votos-de-tebet-e-ciro-para-vencer/

A fome é a nova escravidão. Entrevista com Régia Agostinho

Datafolha, Ipec e Quaest anunciam novas pesquisas

Levantamentos serão divulgados nesta semana.

A corrida à Presidência da República chegou ao segundo turno com o confronto entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL). Para medir a preferência do eleitorado nesta fase da campanha, três institutos de pesquisa – o Datafolha, o Ipec e a Quaest Consultoria – anunciaram as datas de divulgação das novas sondagens.

Na quarta-feira (5), será divulgada a primeira pesquisa, sob responsabilidade do Ipec e com margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento, contratado pela TV Globo, vai ouvir 2 mil eleitores. O período de entrevista é de segunda-feira (3) a quarta-feira (5).

Um dia depois, na quinta-feira (6), a Quaest divulga os números de sua pesquisa, contratada pela Genial. A coleta também será de segunda a quarta, com 2 mil pessoas e margem de erro de dois pontos, para mais ou para menos.

Já na sexta-feira (7), é a vez do Datafolha, em levantamento para a TV Globo e a Folha de S.Paulo. A amostra será a maior da semana: 2.884 eleitores serão ouvidos de 5 a 7 de outubro. A margem de erro estimada é de dois pontos percentuais.

O Datafolha também fará pesquisas sobre a eleição presidencial em três estados: São Paulo (com 1.806 eleitores), Rio de Janeiro (1.456) e Minas Gerais (1.302) para levantamento da corrida presidencial.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/04/datafolha-ipec-e-quaest-anunciam-novas-pesquisas-para-a-presidencia/