O Direito e o emburrecimento seletivo. E crianças não devem ir à escola!

SENSO INCOMUM

 

Por 

Caricatura Lenio Luiz Streck (nova) [Spacca]Bula: Cuidado com o título. Se eu fosse você, leria até o fim e não deixaria, sob hipótese alguma, de ler o post scriptum.

O estimado professor Paulo Ghiraldelli escreveu na Folha de S.Paulo um artigo chamado Emburrecimento seletivo. Com ciúmes, reproduzo partes e aproveito para incluir alguns pitacos.

“Em todo e qualquer país há três tipos de pessoas: os cultos, os ignorantes e os semicultos. A anomia é uma ameaça para aqueles lugares em que os semicultos aumentam de maneira desproporcional. Quem são os semicultos? São os sabichões. São os que xingam um juiz que condenou ou soltou alguém, sem no entanto entender os detalhes técnicos legais pelos quais o juiz agiu. São as pessoas que, por conta de poderem veicular ideias, acham que sabem mais do que sabem. Hannah Arendt (1906-1975) chamou-os de filisteus da cultura. Eles barram a explicação douta, escolar, técnica. Como falam pelos cotovelos, conquistam os ignorantes para a adesão à informação errada”.

Acrescento que no direito brasileiro há muitos ignorantes e, é claro, sobram filisteus. As faculdades são o berço dois tipos. Que acabam fundindo seus horizontes. Além de serem dominantes na advocacia, também assumiram postos importantes nas diversas carreiras jurídicas (já nem se sabe quantas são). Afinal, faculdades tortas e cursinhos Walita existem aos borbotões para fornecer matéria prima para esse desiderato.

Como resultado, milhares de pessoas que nunca imaginaram ser professores acabaram na “cátedra” por causa da explosão do número de faculdades; milhares não imaginariam trabalhar no Estado como juiz, promotor, defensor, procurador, técnicos, etc. — mas, na insistência, passa(ra)m, mormente na modalidade de concursos públicos quiz shows...

Comparando — e aqui adapto o texto de Ghiraldelli “enfiando” meu estilo: enquanto na internet os filisteus dizem que a terra é plana, negros são indolentes, índios são preguiçosos (palavras do candidato à vice presidente da chapa Bolsonaro), vacina faz mal, cigarro faz bem, homossexualidade é aberração, mulher grávida prejudica o rendimento da indústria... no Direito, proliferam coisas como “não há verdades”, “tudo é relativo”, “aplicar a lei é igual a ser positivista”, “Kelsen era um exegeta”, “súmula é precedente”, “princípios são valores”, “pamprincípios são a solução para ‘superar o positivismo’’ (argh), “Direito é o que o Judiciário diz que é”... ufa. Paro por aqui.

Em outro campo, há os palestrantes de auto ajuda — no Direito já os há de há muito — que sabem de tudo, só não sabem que nada ou quase nada sabem. Vejo cartazes de congressos e fico pensando: poxa, esse cara vai falar para mil pessoas? Com essa “cultura” Wiki?

Sintomas. Sintomas. E mais sintomas.

E conclui o brilhante professor Ghiraldelli (de novo, com minhas adaptações de estilo e meu ciúme): Pessoas com saberes técnicos precisam começar a agir de modo menos condescendente com o pseudoculto. Guru político tresloucado que fugiu da escola, youtuber abobado, vereadores que compram medalhas e até dão diploma para jumento (animal), líder religioso vítima de analfabetismo funcional, deputado “ordenando” que sua colega paraplégica ande, tudo em nome “de o Senhor Jesus”, advogado mal formado, advogado que separa sujeito e verbo, professor de direito inculto, membros de carreiras jurídicas que, depois do concurso, nada mais leram (ou leem), gente que acha que o Direito pode ser facilitado, mastigado, cantado, comido com sushi, etc, palestrante que vomita frases banais, palestrantes que cleptam ideias de outros — toda essa gente que trabalha propagando iniquidades e tolices precisa ser combatida por meio do trabalho de quem tem cultura técnica. Quem se engaja nessa luta? As inscrições estão abertas. Deixemos Ghiraldelli brilhar, mais uma vez:

“O Brasil possui gente culta, mas que está se omitindo diante da barbárie. Esse pessoal culto ou está desanimado ou simplesmente não dá atenção para o volume que os semicultos estão fazendo. A qualquer momento veremos candidatos à Presidência não escovar mais os dentes ou ter dificuldade em decorar três palavras para falar em público”.

A qualquer momento, veremos gente do Direito pregar que não há qualquer direito (ups, isso já existe); que tudo é barbárie; e que o Direito é o que cada um diz que é.

Irmanado com o professor Ghiraldelli, digo: precisamos combater os ignorantes e os sabichões semicultos. Antes que eles tomem conta. Maioria eles já são. Só que ainda não sabem. Basta ver e ler o conteúdo das redes sociais e os comentários de sites jurídicos. É de arrepiar. Fossem dentistas, recomendariam a não escovação de dentes e o não uso do fio dental. Afinal, tudo é relativo. Fossem médicos, protestariam contra os remédios. E amaldiçoariam as vacinas, coisa do demo. Assim como gente (de)formada em Direito que acha que existem direitos demais no Brasil.

A ver (neste caso é sem h).

Post scriptum: A luta contra o comunismo e a “culpa” das escolas!

A minha distopia (ler aqui) está perigosamente próxima. Basta ler mais uma das propostas de Bolsonaro: “Contra o comunismo e por economia, Bolsonaro sugere ensino a distância”. Segundo ele, para que as crianças não sejam comunizadas nas escolas, devem ficar em casa e aprender com os pais. E um pouco por EAD. De vez em quando pode ir à escola. Isso tudo gerará economia. Bingo. Nem na minha distopia eu havia pensado nisso. Fui superado. Como se diz em Agudo, terra do Bagualossauro, meu antepassado, meus butiás caíram do bolso. Ou em Espanha: no me pongas cinco pies al gato! For God’s sake.

*Texto editado às 9h44 do dia 9/8.

 

 é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

Revista Consultor Jurídico, 10 de agosto de 2018.

 

Acesso Restrito

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