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DO ESTADO DO PARANÁ

UNICIDADE
DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

Somos um continente, uma região, um povo de povos que aponta ao futuro com decisão, afirmou o presidente equatoriano, Rafael Correa, depois de advertir que esta integração latino-americana e a mudança de época não a pára ninguém.
Agora que temos assinado a ata de nascimento da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), ratificamos que somos um povo gigante, povos diversos, que já nunca mais estarão sozinhos e temos traçado nosso destino unitario , assinalou.
Ao concluir ontem à noite a sessão solene da Prefeitura Metropolitana de Quito pelo 477 aniversário de sua fundação, o Mandatário fez um resumo de uns dois mil milhões de dólares investidos pela Revolução Cidadã em obras de benefício social na capital.
Tomara, disse, em próximas sessões solenes possamos falar sem ter que recorrer a cifras para rebater a quem pretendem semear idéias regionalistas visando lhe fazer dano ao governo e ao país.
Este é o novo tempo da Pátria, frisou Correa, precisamos, avançar com sentido de urgência, não podemos nos dar o luxo de perder o tempo nem avançar ao ritmo mais devagar, temos de construir um novo Equador e já temos perdido demasiado tempo.
Estamos construindo esta Pátria Grande que busca seu verdadeiro crescimento apontando ao Sul, enfatizou. Precisamos, precisou , hoje mais que nunca, da unidade integral; a criação de espaços regionais soberanos; uma nova estrutura financeira que não aponte à criação de consumidores globais; e de cidadãos com solidariedade, entrega, compromisso e paixão pela Pátria.
Jamais vamos celebrar a conquista. Não celebramos a morte e desolação, mas junto aos mais remotos habitantes da região do Quito celebramos a quem souberam se levantar contra o despotismo e à gente rebelde capaz de desterrar a déspotas e corruptos, disse.
Celebramos, assinalou, esta cidade conventual, anarquista, ateia, crédula, rebelde, maçom, cristã, todo ao mesmo tempo, e nos orgulha viver aqui rodeados de afeto, conhecimentos, fogo de vulcões, vento de montanhas, som de pica-flores e ares de liberdade.
Temos sangue sábia, milenar , de inga, de mandinga, de moros e cristãos, de árabes, cholos, longos, montubios, chagras, manavas, lojanos, guayaquilenhos, todas as vertentes do carinho, as forças e as vontades de levantar este país, sublinhou o Mandatário equatoriano.
Quito, mestiço no coração ardente da Pátria, celebra a memória de suas raízes, reivindicando ao mesmo tempo àqueles que vieram desde longe, mas não aos que vieram para matar e roubar, senão dos que chegaram para semear um novo abecedário , assinalou Correa.
Estamos construindo um futuro de liberdade, segurança, confiança, um futuro do Bom Viver , solidariedade e alegria compartilhada, levantando sobre nossa memória essa cidade ideal que não existe ainda mas que está já prefigurada nos sonhos de todos os quitenhos, assinalou.
Recordou finalmente a Simão Bolívar, ou esse extraordinário latino-americano que pensava em séculos e olhava em continentes , em cujos sonhos vislumbrava nossa Pátria Grande, de paz e solidariedade, com um sozinho coração imenso em forma de continente.
Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

TRT-RS manda empregador pagar diferenças salariais

OBRIGAÇÃO DO EMPREGADOR
A 3ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul condenou um proprietário rural a pagar diferenças salariais a uma trabalhadora analfabeta que não tinha condições de assinar comprovantes de recebimento. Foi reformada a sentença da juíza Ana Luiza Barros de Oliveira, da 2ª Vara do Trabalho de Caxias do Sul. Segundo os desembargadores do TRT-RS, é obrigação do empregador providenciar registros dos pagamentos. Para eles, a condição de analfabeta, no caso, não justifica a ausência da documentação. A decisão é do dia 13 de setembro. Não cabe mais recurso.
Conforme o processo, a autora ingressou com ação trabalhista para que o vínculo de emprego fosse reconhecido, já que fazia atividades de roça, manutenção e cuidado de animais, na propriedade do empregador. Este, no entanto, alegou que a relação de emprego nunca existiu, e que havia apenas um contrato de comodato, pelo qual a reclamante podia morar em uma casa da sua propriedade, apenas com a responsabilidade da conservação do imóvel no estado em que o recebeu. A juíza de primeiro grau considerou presente a relação de emprego. A decisão foi confirmada pela 3ª Turma do TRT.
Resolvida esta controvérsia, restou o pedido feito pela reclamante do pagamento de diferenças salariais. Segundo os autos, a trabalhadora afirmou que recebia de R$ 50 a R$ 100 mensais, além de um valor semelhante pago em compras de mantimentos. Por sua vez, o reclamado, inicialmente, argumentou que não havia necessidade de pagamento, porque não havia prestação de serviços. Entretanto, declarou que pagava um salário mínimo mensal composto por parcela em dinheiro e parte em alimentação. Disse, entretanto, que não possuía recibos dos pagamentos devido ao fato da trabalhadora ser analfabeta e não ter condições de assinar os comprovantes. A juíza de Caxias aceitou essa versão como a mais verossímil e negou o pleito — o que gerou recurso da reclamante ao TRT-RS.
No julgamento, o relator do acórdão, desembargador João Ghisleni Filho, salientou que, nessas hipóteses, a comprovação de que o empregado não possui o direito alegado fica a cargo do empregador — como previsto pelo artigo 333, inciso II, do Código Civil, e artigo 818 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). De acordo com ele, o fato de a trabalhadora ser analfabeta, com dificuldades até mesmo para se expressar, vivendo praticamente isolada no meio rural, exige que a situação seja adequada à sua realidade, dentro do princípio da proteção ao hipossuficiente, que deve ser seguido pelo direito do trabalho.
‘‘Nessa linha de raciocínio, não é possível concluir que, pelo fato de ser analfabeta, fica dispensado o empregador de comprovar o pagamento dos salários em face de que ela não pode assinar recibos. Outro meio de registro, pagamento ou comprovação deve ser providenciado, o que não foi feito pelo reclamado’’, destacou o julgador.
Em depoimento, a reclamante afirmou, num primeiro momento, que recebia, de fato, um salário mínimo mensal. Quando perguntada sobre como era feito o pagamento, disse que o reclamado fazia suas compras e que dinheiro ela nunca havia recebido. Depois, afirmou receber, às vezes, entre R$ 50 e R$ 100. Para o relator Ghisleni, ‘‘não há como aceitar, portanto, que a reclamante tenha recebido integralmente o salário-mínimo durante o contrato de trabalho’’. Nesse contexto, foram fixadas as diferenças devidas, subtraindo do salário mínimo vigente na época do processo (R$ 465) os valores relativos à alimentação (25%) e de moradia (20%), além da quantia recebida em dinheiro, fixada em R$ 100. O valor restante deverá ser pago mês a mês, durante o período imprescrito do contrato de trabalho. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRT-RS.
Clique aqui para ler o acórdão.
Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

A sombra das democraduras

”A União Europeia é o último território no mundo em que a brutalidade do capitalismo é mitigada por políticas de proteção social. Isso que chamamos “estado de bem-estar”, os mercados já não toleram e querem demolir. Esta é a missão estratégica dos tecnocratas que chegam ao centro do governo graças a uma nova forma de tomada de poder: o golpe de Estado financeiro”. O comentário é de Ignacio Ramonet, jornalista e editor do Le Monde Diplomatique, em artigo publicado no sítio Outras Palavras,  07-12-2011. A tradução é de Antonio Martins.
Eis o artigo.
Agora está claro: não existe, no interior da União Europeia, nenhuma vontade política de enfrentar os mercados e resolver a crise. Até há pouco, atribuí-se a lamentável atuação dos dirigentes europeus a sua desmedida incompetência. Mas esta explicação, ainda que correta, não basta, sobretudo depois dos recentes “golpes de Estado financeiros” que puseram fim, na Grécia e na Itália, a certa concepção de democracia. É óbvio que não se trata só de mediocridade e incompetência, mas de cumplicidade ativa com os mercados.
A que chamamos “mercados”? A este conjunto de bancos de investimento, companhias de seguro, fundos de pensão e fundos especulativos (hedge funds) que compram e vendem essencialmente quatro tipos de ativos: moedas, ações, papéis da dívida dos Estados e produtos derivados dos três primeiros. Para ter ideia se sua força colossal, basta comparar duas cifras: a cada ano, as empresas de bens e serviços criam, em todo o mundo, uma riqueza estimada (se medida pelo PIB) em cerca de 45 trilhões de euros. Ao mesmo tempo, em escala planetária os “mercados” movem capitais avaliados em 3.450 trilhões de euros. Ou seja, setenta e cinco vezes o que produz a economia.
Consequência: nenhuma economia nacional, por poderosa que seja (a da Itália é a oitava do mundo), pode resistir aos assaltos dos mercados quando estes decidem atacá-la de forma coordenada, como estão fazendo há mais de um ano contra os países europeus depreciativamente qualificados de PIGS [porcos, em inglês]: (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).
O pior é que, ao contrário do que se poderia pensar, estes “mercados” não são unicamente forças exóticas, vindas de algum horizonte distante para agredir nossas gentis economias locais. Não. Em sua maioria, os “atacantes” são nossos próprios bancos europeus (estes mesmos que foram salvos, com nosso dinheiro, pelos Estados, na crise de 2008). Para dizer de outra maneira, não são apenas fundos norte-americanos, chineses, japoneses ou árabes os que estão atacando maciçamente alguns países da zona do euro.
Trata-se essencialmente de uma agressão de dentro. Dirigida pelos próprios bancos europeus, as companhias europeias de seguros, os fundos especulativos europeus, os fundos europeus de pensão, as instituições financeiras europeias que administram as poupanças dos europeus. São eles que possuem a parte principal da dívida dos Estados1. E que, para defender em teoria os interesses de seus clientes, especulam e obrigam os Estados a elevar as taxas de juros que pagam, a ponto de levar vários (Irlanda, Portugal, Grécia) à beira da quebra. Com o consequente castigo para os cidadãos, que devem suportar medidas “de austeridade” e brutais ajustes decididos pelos governos europeus para “acalmar” os mercados-abutres – ou seja, seus próprios bancos.
Estas instituições, além de tudo, conseguem facilmente dinheiro do Banco Central Europeu a 1,25% de juros, e o emprestam a países como Espanha ou Itália a… 6,5%. Daí a importância escandalosa das três grandes agências de avaliação de riscos (Fitch Ratings, Moody’s e Standard & Poor’s): da nota que atribuem a um país2, depende o nível dos juros que este pagará para obter um crédito dos mercados. Quanto mais baixa a nota, mais altos os juros.
Estas agências não apenas costumam equivocar-se – em particular em sua opinião sobre as hipotecas subprime [de segunda linha] norte-americanas, que deram origem à crise atual – mas desempenham, num contexto com o o de hoje, um papel perverso e execrável. Como é óbvio que todos os planos “de austeridade” de cortes de direitos e ataque aos serviços públicos irão se traduzir em queda do índice de crescimento, as agências baseiam-se nisso para rebaixar a nota do país. Consequência: este deverá reservar mais dinheiro para o pagamento de sua dívida. Dinheiro que precisará obter cortando ainda mais o orçamento. Provocando queda inevitável da atividade econômica e das próprias perspectivas de crescimento. E então, de novo, as agências rebaixarão sua nota.
Este ciclo infernal de “economia de guerra” explica porque a situação da Grécia foi se degradando tão drasticamente, à medida que seu governo multiplicava os cortes e impunha uma férrea “austeridade”. De nada serviu o sacrifício dos cidadãos. A dívida da Grécia baixou ao nível dos “títulos podres”.
Deste modo, os mercados obtiveram o que queriam: que seus próprios representantes cheguem ao poder, sem precisar submeter-se a eleições. Tanto Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia, quanto Mario Monti, presidente do Conselho de Ministros da Itália, são banqueiros. Os dois, de uma maneira ou de outra, trabalharam para o banco norte-americano Goldman Sachs, especializado em colocar homens seus nos postos de poder3. Ambos são, também, membros da Comissão Trilateral.
Estes tecnocratas planejam impor — custe o que custar socialmente e nos marcos de uma “democracia limitada” — as medidas (mais privatizações, mais cortes, mais sacrifícios) que os mercados exigem. E que alguns dirigentes políticos não se atreveram a tomar, por temerem a impopularidade que tudo isso provoca.
 
A União Europeia é o último território no mundo em que a brutalidade do capitalismo é mitigada por políticas de proteção social. Isso que chamamos “estado de bem-estar”, os mercados já não toleram e querem demolir. Esta é a missão estratégica dos tecnocratas que chegam ao centro do governo graças a uma nova forma de tomada de poder: o golpe de Estado financeiro. Apresentado, é claro, como compatível com a democracia…
É pouco provável que os tecnocratas desta “era pós-política” consigam resolver a crise (se sua solução fosse técnica, já teria sido adotada). Que se passará quando os cidadãos europeus constatarem que seus sacrifícios são vãos e que a recessão se prolonga? Que níveis de violência os protestos alcançarão? Como se manterá a ordem na economia, nas mentes e nas ruas? Haverá uma tripla aliança entre o poder econômico, o midiático e o militar? As democracias europeias se converterão em “democraduras”?
Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

A sombra das democraduras

”A União Europeia é o último território no mundo em que a brutalidade do capitalismo é mitigada por políticas de proteção social. Isso que chamamos “estado de bem-estar”, os mercados já não toleram e querem demolir. Esta é a missão estratégica dos tecnocratas que chegam ao centro do governo graças a uma nova forma de tomada de poder: o golpe de Estado financeiro”. O comentário é de Ignacio Ramonet, jornalista e editor do Le Monde Diplomatique, em artigo publicado no sítio Outras Palavras,  07-12-2011. A tradução é de Antonio Martins.
Eis o artigo.
Agora está claro: não existe, no interior da União Europeia, nenhuma vontade política de enfrentar os mercados e resolver a crise. Até há pouco, atribuí-se a lamentável atuação dos dirigentes europeus a sua desmedida incompetência. Mas esta explicação, ainda que correta, não basta, sobretudo depois dos recentes “golpes de Estado financeiros” que puseram fim, na Grécia e na Itália, a certa concepção de democracia. É óbvio que não se trata só de mediocridade e incompetência, mas de cumplicidade ativa com os mercados.
A que chamamos “mercados”? A este conjunto de bancos de investimento, companhias de seguro, fundos de pensão e fundos especulativos (hedge funds) que compram e vendem essencialmente quatro tipos de ativos: moedas, ações, papéis da dívida dos Estados e produtos derivados dos três primeiros. Para ter ideia se sua força colossal, basta comparar duas cifras: a cada ano, as empresas de bens e serviços criam, em todo o mundo, uma riqueza estimada (se medida pelo PIB) em cerca de 45 trilhões de euros. Ao mesmo tempo, em escala planetária os “mercados” movem capitais avaliados em 3.450 trilhões de euros. Ou seja, setenta e cinco vezes o que produz a economia.
Consequência: nenhuma economia nacional, por poderosa que seja (a da Itália é a oitava do mundo), pode resistir aos assaltos dos mercados quando estes decidem atacá-la de forma coordenada, como estão fazendo há mais de um ano contra os países europeus depreciativamente qualificados de PIGS [porcos, em inglês]: (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha).
O pior é que, ao contrário do que se poderia pensar, estes “mercados” não são unicamente forças exóticas, vindas de algum horizonte distante para agredir nossas gentis economias locais. Não. Em sua maioria, os “atacantes” são nossos próprios bancos europeus (estes mesmos que foram salvos, com nosso dinheiro, pelos Estados, na crise de 2008). Para dizer de outra maneira, não são apenas fundos norte-americanos, chineses, japoneses ou árabes os que estão atacando maciçamente alguns países da zona do euro.
Trata-se essencialmente de uma agressão de dentro. Dirigida pelos próprios bancos europeus, as companhias europeias de seguros, os fundos especulativos europeus, os fundos europeus de pensão, as instituições financeiras europeias que administram as poupanças dos europeus. São eles que possuem a parte principal da dívida dos Estados1. E que, para defender em teoria os interesses de seus clientes, especulam e obrigam os Estados a elevar as taxas de juros que pagam, a ponto de levar vários (Irlanda, Portugal, Grécia) à beira da quebra. Com o consequente castigo para os cidadãos, que devem suportar medidas “de austeridade” e brutais ajustes decididos pelos governos europeus para “acalmar” os mercados-abutres – ou seja, seus próprios bancos.
Estas instituições, além de tudo, conseguem facilmente dinheiro do Banco Central Europeu a 1,25% de juros, e o emprestam a países como Espanha ou Itália a… 6,5%. Daí a importância escandalosa das três grandes agências de avaliação de riscos (Fitch Ratings, Moody’s e Standard & Poor’s): da nota que atribuem a um país2, depende o nível dos juros que este pagará para obter um crédito dos mercados. Quanto mais baixa a nota, mais altos os juros.
Estas agências não apenas costumam equivocar-se – em particular em sua opinião sobre as hipotecas subprime [de segunda linha] norte-americanas, que deram origem à crise atual – mas desempenham, num contexto com o o de hoje, um papel perverso e execrável. Como é óbvio que todos os planos “de austeridade” de cortes de direitos e ataque aos serviços públicos irão se traduzir em queda do índice de crescimento, as agências baseiam-se nisso para rebaixar a nota do país. Consequência: este deverá reservar mais dinheiro para o pagamento de sua dívida. Dinheiro que precisará obter cortando ainda mais o orçamento. Provocando queda inevitável da atividade econômica e das próprias perspectivas de crescimento. E então, de novo, as agências rebaixarão sua nota.
Este ciclo infernal de “economia de guerra” explica porque a situação da Grécia foi se degradando tão drasticamente, à medida que seu governo multiplicava os cortes e impunha uma férrea “austeridade”. De nada serviu o sacrifício dos cidadãos. A dívida da Grécia baixou ao nível dos “títulos podres”.
Deste modo, os mercados obtiveram o que queriam: que seus próprios representantes cheguem ao poder, sem precisar submeter-se a eleições. Tanto Lucas Papademos, primeiro-ministro da Grécia, quanto Mario Monti, presidente do Conselho de Ministros da Itália, são banqueiros. Os dois, de uma maneira ou de outra, trabalharam para o banco norte-americano Goldman Sachs, especializado em colocar homens seus nos postos de poder3. Ambos são, também, membros da Comissão Trilateral.
Estes tecnocratas planejam impor — custe o que custar socialmente e nos marcos de uma “democracia limitada” — as medidas (mais privatizações, mais cortes, mais sacrifícios) que os mercados exigem. E que alguns dirigentes políticos não se atreveram a tomar, por temerem a impopularidade que tudo isso provoca.
 
A União Europeia é o último território no mundo em que a brutalidade do capitalismo é mitigada por políticas de proteção social. Isso que chamamos “estado de bem-estar”, os mercados já não toleram e querem demolir. Esta é a missão estratégica dos tecnocratas que chegam ao centro do governo graças a uma nova forma de tomada de poder: o golpe de Estado financeiro. Apresentado, é claro, como compatível com a democracia…
É pouco provável que os tecnocratas desta “era pós-política” consigam resolver a crise (se sua solução fosse técnica, já teria sido adotada). Que se passará quando os cidadãos europeus constatarem que seus sacrifícios são vãos e que a recessão se prolonga? Que níveis de violência os protestos alcançarão? Como se manterá a ordem na economia, nas mentes e nas ruas? Haverá uma tripla aliança entre o poder econômico, o midiático e o militar? As democracias europeias se converterão em “democraduras”?
Correa: Século XXI é a nova época da América Latina

”Há pessoas que preferem o desemprego a entrar no inferno de um frigorífico”

Os frigoríficos avícolas brasileiros se expandem por todo o mundo e seus produtos chegam cada vez a mais mercados. Enquanto isso, os lesionados e doentes podem ser contados aos milhares no país. Trata-se de ex-trabalhadores e trabalhadoras que sofrem a dor constante de seus membros atrofiados por um modo de produção selvagem e brutal, que num mesmo processo tritura frangos e a saúde dos trabalhadores.

A análise é de Roberto Carlos Ruiz, médico especialista em medicina do trabalho, mestre em saúde coletiva pelaUnicamp, assessor de sindicatos de trabalhadores e da Regional Latino-Americana da UITA (União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação).

A entrevista é de Gerardo Iglesias e está publicada no sítio uruguaio Rel-UITA. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Trabalhar no Brasil pode ser o passaporte para uma doença ou a própria morte.

Sim, pode-se afirmar isso!

Nos últimos anos se notou alguma melhora nessa matéria ou tudo continua igual?

 
Por um lado parece ter havido algumas melhoras, por exemplo, nas questões de biomecânica e ergonomia. Mas o assunto principal, que articula trabalho e doença, está relacionado com a organização do trabalho, que foi eliminando sistematicamente o chamado ‘tempo morto’. Ou seja, o curto tempo que um trabalhador tem para descansar, para refazer seu sistema fisiológico, sem o qual sua saúde fica ressentida.
Diminuem-se as pausas, enquanto o trabalho se intensifica…
Exatamente. Ambas as coisas prejudicam os trabalhadores. Cada vez há menos ‘tempo morto’, tempo em que se podia ir ao banheiro ou simplesmente descansar alguns minutos. Por outro lado, se intensificou o trabalho: tarefas que antes eram feitas por duas pessoas, agora são realizadas por uma. Como diz Alain Wisner, um reconhecido estudioso da ergonomia francesa, “pode-se sentir mais cansaço por uma hora de trabalho intenso do que por quatro de trabalho relaxado”.
Também se pressiona a estrutura psíquica do trabalhador.
No setor frigorífico, por exemplo, à falta de pausas, ao estresse e à intensidade do trabalho, deve-se acrescentar a monotonia das tarefas. Estou falando de verdadeiros guetos de trabalhos repetitivos, nos quais se faz a mesma coisa, exatamente a mesma coisa, durante oito horas.
Assim, enquanto as grandes empresas frigoríficas no Brasil fazem fusões, se recombinam, articulam novas sinergias, o sistema de produção está levando os seus trabalhadores a uma condição de “velhos prematuros”, de pessoas doentes que sofrerão dores intensas pelo resto da vida. Tudo isso afeta, como se pode inferir, o seu sistema emocional. A depressão já é um fenômeno epidemiológico.
O que fazer para mudar esta situação?
O que estamos fazendo. Por um lado, denunciar e dar visibilidade a esta tragédia em nível nacional e internacional, sobretudo naqueles países que são mercados importantes para as nossas carnes. Além disso, como você disse em reiteradas ocasiões, é preciso democratizar o mundo das relações trabalhistas, porque hoje as fábricas e as plantações agrícolas no Brasil são verdadeiros enclaves autoritários.
Neste sentido, não há outra alternativa senão potencializar o trabalho político dos sindicatos. Ou as organizações sindicais fazem frente a este poder econômico emergente, onde as transnacionais brasileiras  na medida que crescem se tornam mais arrogantes, ou as condições de trabalho vão piorar ainda mais.
Que as condições de trabalho sejam melhores ou piores vai depender diretamente da capacidade de organização, denúncia e participação do conjunto dos trabalhadores.
Creio que você toca um tema fundamental: a ditadura continua vigente nas diferentes unidades de produção.
Sim, sem dúvida. É difícil dizer que vivemos em uma democracia quando esta não chegou aos lugares de trabalho. Ali não há discussão, pois não se aceitam as perguntas: a empresa tem todas as respostas às suas próprias perguntas, e não há mais nada.
Por exemplo, as metas de produtividade são marcadas unilateralmente. E são metas desumanas, que em nenhum momento são discutidas com os trabalhadores ou com a representação dos trabalhadores. São aplicadas e ponto final. Essa maneira autoritária de proceder, sem se importar com as consequências, está massacrando as pessoas no setor sucroalcooleiro, onde os trabalhadores morrem de exaustão no canavial. Ou nos frigoríficos, onde os trabalhadores são mutilados pelo resto da vida por conta das lesões ocasionadas por esforços repetitivos.

Como se relata no documentário Carne e osso, se alguém faz a tarefa em 15 segundos, isso é projetado para uma hora e para toda uma jornada, tendo em conta apenas o aspecto da produção, mas não o custo de se manter esse sistema.

Tenho a impressão de que cada vez mais vozes se somam e se articulam para dar visibilidade a este massacre.
Sim, porque as pessoas estão se dando conta do que está acontecendo. E não apenas o movimento sindical, mas também os agentes públicos, inclusive de alguns ministérios e pessoas vinculadas às universidades, professores, etc.
É que no Brasil não podemos continuar produzindo a qualquer preço, a qualquer custo. Temos que pensar no custo-benefício para a sociedade e nos perguntar: será que vale a pena ter esta qualidade de emprego com estes níveis de doença e de mutilação? Vale a penar criar um posto de trabalho que oferece estabilidade de um ou dois anos para uma pessoa e depois, pelo resto da vida, a sociedade toda deve se encarregar de manter essa pessoa?
Por isso, as avícolas têm maiores problemas para contratar trabalhadores…
Exatamente. No Brasil, com um desemprego que beira os 6%, é possível agora optar por um ou outro trabalho. Como bem o assinala Siderlei de Oliveira, presidente da Contag, há empresas que trazem e levam trabalhadores, percorrendo uma distância de 60 e até 80 km. As pessoas que vivem próximas do frigorífico preferem ficar desempregadas a ter que se submeter a esse inferno.