por NCSTPR | 05/05/26 | Ultimas Notícias
A Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho condenou três associações empresariais de Santa Catarina a pagar R$ 600 mil de indenização por dano moral coletivo por assédio eleitoral. Em reunião realizada às vésperas do segundo turno das eleições de 2022, os dirigentes das entidades instigaram seus associados a propagar discursos de medo em suas empresas, a fim de influenciar o voto de seus empregados.
“Brasil vai virar uma Venezuela”
A ação civil pública foi apresentada contra a Associação Empresarial e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Caçador e a Associação das Micro e Pequenas Empresas do Alto Vale do Contestado. Nela, o Ministério Público do Trabalho (MPT) relata que as entidades organizaram uma reunião aberta em outubro de 2022 que contou com a participação de seus dirigentes, de vereadores e do comandante da Polícia Militar local, além de empresários e políticos da cidade. O objetivo era estimular os empresários a influenciar seus empregados para que votassem no candidato à reeleição para a Presidência da República.
Segundo o MPT, nos discursos foram ditas frases como a de que o Brasil iria “virar uma Venezuela” e de que “os empregos iriam acabar”. A estratégia seria, num primeiro momento, vender a ideia de um cenário “de fome e anarquia” caso o candidato da oposição ganhasse. O passo seguinte seria usar esse temor para atribuir aos trabalhadores a responsabilidade pelo cenário caótico, que poderia ser evitado “desde que o colaborador seguisse a orientação política empresarial”.
Em defesa, os empresários não negaram a realização da reunião nem o teor dos discursos, mas alegaram que exerciam o direito de expressão e de reunião. Segundo as entidades, o evento foi aberto ao público e fora do ambiente de trabalho, onde foram expostas opiniões pessoais de cunho político.
A Vara do Trabalho de Caçador (SC) rejeitou o pedido do MPT por entender que a conduta dos empresários não caracterizava assédio eleitoral ou abuso de poder com o objetivo de intimidar, coagir ou influenciar o voto dos trabalhadores. O Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (SC) manteve a sentença. Para o TRT, o discurso dos representantes, sem menção a ameaças, retaliações ou constrangimentos aos trabalhadores, está inserido no direito à liberdade de expressão.
O MPT então recorreu ao TST.
“Cada um de nós tem de fazer nosso trabalhozinho”
O ministro Cláudio Brandão, relator do recurso, citou trechos da decisão do TRT em que este registrou que a gravação integral da reunião, juntada pelas próprias empresas, “deixa claro o discurso alarmista dos interlocutores com intuito de discutir medidas a serem adotadas a fim de garantir uma votação favorável a determinado candidato à Presidência, bem como a predileção e opinião política dos seus representantes”.
Nas falas dos interlocutores, “são apontadas como possíveis medidas a fiscalização das sessões eleitorais com o intuito de evitar ‘fraudes nas eleições’ e conscientização das pessoas a fim de votarem, diante do alto número de abstenção, por exemplo”. Um dos presidentes disse que “cada um de nós tem que fazer o nosso trabalhozinho nas nossas empresas, nas nossas casas, nos nossos colégios, ai vai dar certo’”. Outro dirigente, reforçando esse discurso, disse que todo empresário deveria pedir o voto para seus colaboradores, porque, “para onde os empresários pendem, pende o resultado da eleição”.
Prática se enquadra como assédio eleitoral
Na avaliação do relator, com base nesses registros, a conduta das associações foi “abusiva, intencional e ilegal”, com a finalidade de “manipular, orientar ou direcionar o voto dos seus empregados e causar nítido constrangimento”. Segundo ele, esse tipo de prática viola a liberdade política dos trabalhadores e se enquadra no conceito de assédio eleitoral previsto no Acordo de Cooperação Técnica 13/2023 celebrado entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o MPT, sendo uma forma ilegítima de interferência nas convicções individuais.
O ministro lembrou ainda que a Resolução 23.735/2024 do TSE considera o uso da estrutura empresarial para influenciar o voto como ato ilícito trabalhista e abuso do poder econômico. Além disso, o TRT também registrou que os estatutos das associações vedam sua utilização para finalidades político-partidárias.
“Para caracterizar assédio eleitoral, basta a prática de atos de pressão exercidos pelo empregador ou outros, no local do trabalho ou não”, afirmou o Brandão. “O poder diretivo não pode atingir a esfera das liberdades individuais.”
Em relação ao dano coletivo, o ministro entende que houve violação a direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana, a liberdade de expressão e o pluralismo político, e esse dano deve ser reparado. Para ele, o assédio eleitoral afeta não apenas os trabalhadores diretamente envolvidos, mas provoca “provoca desequilíbrio na disputa livre e deve ser reprimido com rigor, pois, no fundo, está em jogo a própria existência do Estado Democrático de Direito”.
Dirigentes também foram condenados
De acordo com a decisão, a indenização de R$ 600 mil será dividida em R$ 100 mil para cada associação e para cada um de seus presidentes. O valor será revertido em proveito de órgão público ou de entidade de assistência social, saúde, educação ou profissionalização, sem fins lucrativos e de reconhecido valor e atuação social, a ser indicado pelo MPT.
Cláudio Brandão assinalou que a condenação também tem caráter pedagógico e que esse tipo de conduta “não pode ser opção, tampouco merece ser tolerada pelo Poder Judiciário”.
O TST tem oito Turmas, que julgam principalmente recursos de revista, agravos de instrumento e agravos contra decisões individuais de relatores. Das decisões das Turmas, pode caber recurso à Subseção I Especializada em Dissídios Individuais (SDI-1). Acompanhe o andamento do processo neste link:
Processo: RR-809-24.2022.5.12.0013
TST JUS
https://www.tst.jus.br/en/-/associacoes-empresariais-sao-condenadas-por-estimular-assedio-eleitoral
por NCSTPR | 05/05/26 | Ultimas Notícias
O aumento do número de registros de acidentes de trabalho no Brasil, que, em 2025, atingiu o maior nível da série histórica, reforça os argumentos dos especialistas de que as empresas precisam investir mais em prevenção, enquanto o poder público precisa reforçar os instrumentos de fiscalização.
O Brasil registrou, no ano passado, 806 mil ocorrências e 3.644 mortes relacionadas à atividade laboral, segundo estudo técnico divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em relação a 2020, período de retração das atividades por causa da pandemia de covid-19, o número de acidentes cresceu 65,8%; enquanto os óbitos aumentaram 60,8%.
Para a advogada Fernanda Garcez, especialista e mestre em direito trabalhista, o cenário reforça a necessidade de ampliar medidas preventivas dentro das empresas. “O ponto mais relevante é chamar a atenção das empresas para a necessidade dos procedimentos preventivos para evitar a ocorrência de acidentes de trabalho”, afirma. Segundo ela, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), previsto nas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho, é uma das principais ferramentas para identificar, avaliar e controlar riscos ocupacionais.
Garcez destaca que a aplicação do programa exige análise detalhada das condições de trabalho. “Em uma indústria, por exemplo, é necessário avaliar as máquinas e se debruçar sobre esse plano de gerenciamento de riscos para entender as medidas que efetivamente precisam ser implementadas para a redução desses índices”, diz.
A especialista também aponta mudanças regulatórias em andamento, com ampliação do escopo de avaliação. “A própria NR-1 está sofrendo modificações em que o PGR vai exigir a avaliação dos riscos psicossociais”, afirma.
Na avaliação do professor de direito do trabalho da FGV Direito Rio Paulo Renato Fernandes da Silva, o volume de acidentes registrado no país está associado a fatores estruturais relacionados à prevenção e ao cumprimento da legislação. “Nós somos um dos campeões mundiais de acidentes de trabalho. Isso decorre da falta de cultura jurídica, de cultura social, de prevenção, de descaso com a legislação de proteção, da falta de controles e da falta de atuação dos organismos de controle e dos sindicatos”, afirma.
Segundo ele, o crescimento recente dos casos reforça a tendência de alta observada nos últimos anos. “Antigamente, tínhamos cerca de 670 mil a 750 mil casos. Agora, já passa de 800 mil”, diz. “A legislação existe e é extensa. A responsabilidade pelo cumprimento das normas para garantir um meio ambiente de trabalho adequado, seguro e sadio é da empresa, mas, também, é dever do trabalhador observar essas normas”, complementou.
Saúde e transporte
Entre 2016 e 2025, foram contabilizados 6,4 milhões de acidentes e 27.486 mortes no país. Apesar da elevação nos números absolutos, a taxa de incidência recuou de 29,39 para 17,94 casos por 100 mil trabalhadores, resultado associado à ampliação do emprego formal, segundo o MTE. No período, os acidentes provocaram a perda de mais de 106 milhões de dias de trabalho.
O setor de saúde lidera em volume de ocorrências, com cerca de 633 mil registros na década, especialmente em ambientes hospitalares e de pronto-socorro. Entre as ocupações, técnicos de enfermagem concentram o maior número de acidentes.
Em relação à letalidade, o transporte rodoviário de cargas apresenta os índices mais elevados. A ocupação de motorista de caminhão somou 4.249 mortes no período analisado, o que corresponde a uma média superior a uma por dia.
Regionalmente, o estado de São Paulo concentra mais de um terço do total de acidentes e mortes registrados no país. As maiores taxas de letalidade, porém, são observadas em Mato Grosso, no Tocantins e no Maranhão.
Acidentes típicos seguem como maioria, com 64,6% dos casos, mas os acidentes de trajeto cresceram e já representam 19,3% do total. Registros de acidentes com mulheres também estão aumentando — crescimento de 48% ao longo da década, representando 34,2% dos registros atuais — por causa da presença feminina crescente nos setores de saúde e de serviços.
Igualdade salarial
O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, conforme determina a Lei de Igualdade Salarial, também divulgado nesta semana pelo MTE, aponta que o número de mulheres empregadas no mercado de trabalho formal cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões de trabalhadoras. Apesar dessa ampliação de oportunidades, a desigualdade de renda persiste na estabilidade, as mulheres ainda recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado em empresas com 100 ou mais funcionários.
O recorte racial do estudo demonstra uma expansão ainda mais expressiva entre mulheres negras (pretas e pardas), cuja ocupação subiu 29%, agregando mais 1 milhão de trabalhadoras e totalizando 4,2 milhões. Com a maior inserção, a massa de rendimentos feminina avançou de 33,7% para 35,2%. Contudo, a Subsecretaria de Estatística e Estudos do Trabalho do MTE estima que seria necessário um incremento de R$ 95,5 bilhões nos rendimentos para que a massa salarial se equiparasse à atual proporção da presença feminina no emprego, que é de 41,4%.
“Temos dados positivos, como o aumento do número de empresas com 100 ou mais funcionários, além de outras que estão contratando mais mulheres vítimas de violência e mulheres negras”, afirmou o ministro Luiz Marinho. “A lei não é, simplesmente, olhar o salário, mas a igualdade como um todo, para que mulheres possam ocupar, também, espaços de liderança”, acrescentou.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, disse que as trabalhadoras não precisam provar nada e que são capazes de ocupar todos os espaços. “Queremos a paridade das mulheres também nos espaços de poder, alcançando a igualdade salarial, além de uma igualdade de gênero, raça e etnia”, ressaltou.
CORREIO BRAZILENSE
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/05/7411413-prevencao-e-a-chave-para-frear-os-acidentes-de-trabalho.html
por NCSTPR | 05/05/26 | Ultimas Notícias
Diretora executiva da Oxfam, Viviana Santiago, destaca que é preciso também discutir a informalidade e as condições de trabalho.
A entrevista é de Ana Rosa Carrara e Lucas Salum, publicada por Brasil de Fato.
‘Quem planta merece colher direitos’, campanha lançada pela Oxfam Brasil em parceria com a Contar (Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais), tem como objetivo dar visibilidade da ausência de direitos para a classe trabalhadora do campo.
A iniciativa também cobra que as demandas de trabalhadores e trabalhadoras rurais sejam contempladas no projeto do fim da escala 6×1. A diretora executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, alerta que historicamente, direitos que foram conquistados pela classe trabalhadora urbana tardaram a serem garantidos para quem trabalha no campo.
Durante sua entrevista ao Programa Conversa Bem Viver, aponta que o fim da escala 6×1 no campo pode atingir até 1 milhão e meio de trabalhadoras e trabalhadores rurais que são assalariados, mas há que ter atenção também para o aspecto do trabalho informal no campo.
Outro assunto elencado por Santiago é a diferença do tempo dedicado aos afazeres domésticos e o trabalho do cuidado, que não é remunerado, entre homens e mulheres. No estudo intitulado “Entre o tempo de trabalho e o tempo de vida”, a entidade revela que mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades, quase o dobro do tempo dos homens, com impacto ainda maior entre mulheres negras. “É por isso que nas recomendações o nosso estudo, a gente demanda que na construção de alternativas, de uma revisão da jornada de trabalho, que ela não se dê fora de uma análise do trabalho reprodutivo, do trabalho de cuidados, que a gente incorpore a dimensão do trabalho de cuidados, para que a gente possa fortalecer as políticas públicas que vão amparar essa diminuição de jornada.”
Entre as ações da campanha está uma coleta de assinaturas para pressionar que a classe trabalhadora rural seja contemplada nas suas demandas dentro do projeto do fim da escala 6×1. A petição pode ser acessada na página da campanha.
Eis a entrevista.
Quando falamos de inviabilização dos trabalhadores, acredito que há mais uma camada de distanciamento dos olhos da sociedade para os trabalhadores rurais. Talvez justamente por não estarem no cotidiano, no dia a dia. A gente consome o fruto do trabalho deles, mas não tem uma dimensão real do que acontece no dia a dia de trabalho no campo.
Excelente, muito bom. Mesmo quando a gente fala dessa coisa do trânsito de carros, a gente está falando de tempo, está falando de deslocamento. E a sensação que a gente tem é: o quanto que a gente perde de tempo de vida no deslocamento pro trabalho. E essa é uma questão que atravessa não só a vida da gente, trabalhadoras e trabalhadores urbanos. Mas pensa que muitas vezes, o trabalhador rural, enfrenta sim esse tempo de deslocamento.
E esse tempo de deslocamento, antes da reforma trabalhista em 2017, esse era um tempo considerado um tempo de trabalho, que é o tempo que o trabalhador está à disposição do empregador. Depois da reforma, esse tempo passou a não ser mais considerado, porque tem a possibilidade de você colocar esse cálculo direto no salário e a gente sabe que isso no primeiro ano de contratação estava rolando, depois disso se perdeu.
Então, esses trabalhadores e trabalhadoras, muitas vezes levam mais de uma hora, mais de duas horas, só para chegarem ao local do trabalho, E tem outra coisa. Esse é o trabalhador que está produzindo riqueza, está produzindo commodity, porque quem produz a alimentação, a gente sabe, está muito mais relacionada à produção familiar.
Então, a gente está falando de trabalhador que produz riqueza e que vive em situações abjetas. Quando a gente pensa no grande nível de informalidade, quando a gente pensa nos impactos da saúde, da saúde mental e como as próprias jornadas de trabalho se organizam.
Eu só não queria deixar passar esse dado que a senhora está trazendo, que a Oxfam colheu, um retrocesso desse tamanho, que é o deslocamento não ser contabilizado no dia a dia do trabalho. Esse é um ponto central pra gente falar aqui
Sim, a gente está falando de um processo de exploração do trabalho. A gente está olhando para as condições de trabalho. A Oxfam tem uma campanha “Quem planta merece colher direitos” e a gente decide com ela, trazer para frente as trabalhadoras e trabalhadores rurais assalariados. Mas a gente sabe que a jornada 6×1 é um aspecto desse trabalho, dessa exploração do trabalho. Tem outros aspectos que a gente vai precisar seguir trabalhando.
Conquistar, por exemplo, o fim das jornadas 6×1, vai impactar na vida de uma quantidade de trabalhadoras e trabalhadores, falando do campo, a gente está falando aí mais ou menos 1 milhão e meio de trabalhadoras e trabalhadores. São aquelas e aqueles assalariados formalizados. Mas a gente tem aí outra coisa, que é o alto nível de informalidade no campo.
Estamos falando de mais de 3 milhões de trabalhadoras e trabalhadores rurais, que são aquelas e aqueles que são informais. A gente vai vendo que a jornada é um aspecto que a gente precisa enfrentar.
Podemos falar das condições de trabalho, trabalhadoras e trabalhadores rurais que estão submetidos às intempéries do clima, que estão trabalhando no sol a pino, ou estão trabalhando na chuva, sobre frio ou calor constante. Então, a gente precisa falar sobre isso. Como é que essa jornada se dá? A gente tem a possibilidade de enfrentar a questão dos EPIs? Esse trabalho, ele está se dando em condições de segurança?
Porque a gente está falando de um trabalho que vai se dar no manuseio de agrotóxico, por exemplo. Esse trabalho está protegido? A gente sabe que não. A gente sabe que, na maioria dos casos, não.
Essas jornadas, como é que elas estão se dando? Tem gente que está trabalhando na jornada 12 por 36, na colheita da uva, por exemplo. Então tem tantos outros aspectos do trabalho rural que precisam ser enfrentados para a gente garantir a dignidade das trabalhadoras e dos trabalhadores. A gente entende o enfrentamento à jornada 6×1, mas não é só isso.
Pensando nos projetos de fim da escala 6×1 que estão em tramitação no Congresso, as demandas da classe trabalhadora rural estão contempladas
Pensar a diminuição da jornada de trabalho de 44 para 40 horas e a proibição dessa escala, de 6×1, sim, contempla trabalhadoras e trabalhadores rurais assalariados. Mas o que nós precisamos determinar é que a redação ela também contemple. Porque historicamente, e o nosso estudo vai mostrar isso, as trabalhadoras e trabalhadores rurais vão ficando sempre para trás.
Tem uma conquista para a classe trabalhadora que, na verdade, só vai se materializar na vida de trabalhadoras e trabalhadores rurais décadas depois e a partir de muita luta. Então, mesmo quando a gente tem a criação da consolidação das leis trabalhistas, a consolidação das leis trabalhistas não inclui, no primeiro momento, trabalhadores e trabalhadoras rurais. A gente precisou de décadas de luta.
É só de 1940 para 1988 que a gente vai ter a consolidação do reconhecimento de trabalhador e trabalhadora rural como trabalhadores. A nossa intenção é garantir que a redação final dessa alteração que a gente faz, seja ela via PEC [Proposta de Emenda à Constituição], como a gente tem agora, que ela garanta que isso se estenda para as trabalhadoras e trabalhadores rurais. Que a gente incorpore no texto, por exemplo, questões que fazem com que o trabalho rural esteja muito mais vulnerabilizado, e que se reconheça o fim da jornada 6×1, também estendendo para trabalhadoras e trabalhadores rurais, além de combater a informalidade desse trabalho, que ele se dê numa jornada de 40 horas, 36 sendo o ideal, mas pelo menos de 40 horas, e que garanta o reconhecimento da dimensão regional.
A história mostra que demorou 20, 30 anos para que uma conquista de trabalhadores se equipara-se também aos direitos de trabalhadoras e trabalhadores rurais, mas dessa vez a gente pode fazer ao mesmo tempo e a Oxfam quer que isso aconteça agora.
Tem um dado aqui da Oxfam que eu vou trazer. Mulheres negras dedicam 21 horas semanais para afazeres domésticos e cuidados contra 11 horas os homens. É basicamente a metade, e essa sobrecarga é ainda maior se a gente faz o recorte de mulheres pretas e pardas. O que a gente vê no meio urbano não é nem um pouco diferente do que aparece no meio rural, talvez até mais alarmante e danoso para as mulheres, é isso?
Sim, a grande questão aqui é que a gente tenta construir essa aliança entre trabalhadoras e trabalhadores e dizer assim: “Olha, a gente está falando de um contexto que afeta todo mundo.” As duas principais categorias, as quais a proporção de trabalhadoras e trabalhadores estão trabalhando mais de 40 horas semanais, são os trabalhos no comércio e na agropecuária, ou seja, estamos falando também de trabalho rural. São os trabalhos que mais expandem essa condição das horas.
E imagina, se alguém, no trabalho remunerado já está trabalhando mais de 40 horas semanais, ultrapassando 44 horas semanais, acrescente aí mais 21 horas de trabalho de cuidado não remunerado. O que é que resta de vida para essa pessoa?
É por isso que nas recomendações o nosso estudo, a gente demanda que, na construção de alternativas, de uma revisão da jornada de trabalho, que ela não se dê fora de uma análise do trabalho reprodutivo, do trabalho de cuidados, que a gente incorpore a dimensão do trabalho de cuidados, para que a gente possa fortalecer as políticas públicas que vão amparar essa diminuição de jornada.
Porque as mulheres saindo de uma 6x 1 e indo para o 5x 2, se esse tempo fosse capturado pelo trabalho de cuidado, isso é, tempo para trabalhar em casa. Como é que a gente garante que as mulheres não sejam aprisionadas dessa forma? Que, de fato, na vida das mulheres trabalhadoras e das trabalhadoras rurais não seja mais um dia para trabalho não pago, mais um dia para um trabalho que serve a sociedade inteira, mas que só essas mulheres executam?
Então, é quando a gente traz e assegura a implementação de políticas públicas, seja de sensibilização, seja de estruturas dentro das cidades que possam possibilitar que essa mulher, ela não tenha um dia a mais para continuar trabalhando.
Eu já queria aproveitar que a gente está trazendo soluções para mostrar que o cenário é sim danoso e preocupante, mas não é também que estamos largados. Além do trabalho da Oxfam, tantas outras entidades vêm lutando há décadas pela garantia, justamente, de todas essas conquistas. E eu queria falar de entidades como MST [Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais sem Terra], as Ligas Camponesas, e a Contag [Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura], a gente precisa citar essas organizações para dizer porque demorou 23 anos para os trabalhadores rurais serem equiparados, mas eles só foram equiparados por conta dessas mobilizações.
Exato. Eu costumo dizer assim, como diz um samba: “Nem caiu do céu, nem foi das mãos de Isabel”. Tudo o que a gente tem enquanto trabalhadoras e trabalhadores, enquanto população que é sobrevivente, de um país que foi invadido, de território colonizado, vem a partir da luta.
Não é à toa também que a gente lança a nossa campanha “Quem planta merece escolher direitos”, junto com a Contar [Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais], reconhecendo a experiência da Contar, nesse processo de resistência.
Então, trazer a dimensão da resistência, da organização das trabalhadoras e dos trabalhadores é fundamental, inclusive porque as soluções, os caminhos de soluções, nascem, de fato, da experiência. Trabalhadora e trabalhador rural formulam não só na análise do problema, como também nos caminhos de solução.
Queria trazer aqui para entrevista referências culturais, seja de livros, filmes e músicas que nos inspirem e nos ajudem a iluminar essa questão. E eu quero citar também um documentário, aproveitar que estamos nessa semana de centenário do Milton Santos, feito pelo Silvio Tendle, que traz a trajetória dele e a abertura do documentário fala justamente sobre os dilemas da classe trabalhadora.
Os escritos de Milton Santos são muito mais dedicados à população do meio urbano, mas, o relato dele é muito amplo e, sem dúvida alguma, referências importantes para quando a gente olha pro meio da população rural.
Mas aproveito para trazer uma questão, para fechar nossa conversa, justamente sobre a importância de a gente conseguir levantar essas bandeiras de colocar a classe trabalhadora rural no projeto pelo fim da escala 6×1 e qual pode ser a nossa mobilização individual para não permitir que isso escape?
Quero super concordar com o Milton Santos. Eu sou apaixonada [pelo trabalho] e ele foi fundamental para pensar o mapeamento dos territórios, quando a gente pensa na delimitação de territórios quilombolas, o conceito de territorialidade, por exemplo, de Milton Santos. É um pensamento muito poroso, a gente consegue, de fato, aplicá-lo em diversos eventos da vida.
A gente está lançando uma petição, uma campanha pelo fim da jornada 6×1 no campo. Uma maneira muito eficiente [de ajudar] é assinar, porque um volume assinaturas torna incontornável a possibilidade de dialogar com essa petição que vem então ser defendida pelas trabalhadoras e trabalhadores rurais pelos sindicatos, pelas organizações que apoiam o trabalho rural.
Também, se apropriar desses dados, e toda vez que a gente falar do trabalho, a gente falar também em nome das trabalhadoras e trabalhadores rurais quando eles não estejam na possibilidade de fazer essa fala junto conosco. Ou seja, a gente traz as trabalhadoras e trabalhadores conosco, no nosso discurso.
Eu sou pedagoga, eu costumo dizer que quando eu era estudante, a gente sempre fazia aquela coisa: “O professor é meu amigo, me mexeu com ele, mexeu comigo”. E isso seguiu me inspirando na minha vida. Então, o que a gente possa dizer: “O trabalhador rural é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo” e que a gente possa fazer a unidade da luta.
IHU UNISINOS
https://www.ihu.unisinos.br/665455-oxfam-brasil-lanca-campanha-sobre-o-fim-da-escala-6-1-para-a-classe-trabalhadora-do-campo-entrevista-com-viviana-santiago