por NCSTPR | 04/08/26 | Ultimas Notícias
Para analistas, o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá reduzir a taxa básica a 14% ao ano, na reunião que começa hoje e termina amanhã. Não há consenso, contudo, de que o BC siga com a política de redução dos juros este ano.
O Banco Central começa, hoje, o primeiro dia da quinta reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), e o consenso entre analistas do mercado financeiro é de uma redução na taxa básica da economia (Selic) de 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Será o quarto corte consecutivo nos juros básicos do atual ciclo de afrouxamento, iniciado em março.
Para a reunião seguinte, em setembro, ainda há dúvidas se haverá continuidade desse mesmo corte às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais. De acordo com os especialistas, nesta semana, apesar da redução das estimativas do mercado para a taxa Selic no fim deste ano, o Copom não deverá deixar a porta aberta para um novo corte nos juros. A expectativa dos analistas ouvidos pelo Correio é de que o ciclo de cortes dos juros possa ter chegado ao fim nesta semana, apesar dos dados recentes de uma inflação mais frouxa em julho.
Segundo esses especialistas, o espaço para uma nova redução da taxa Selic está cada vez menor diante do aumento das incertezas em relação ao conflito no Oriente Médio e os impactos nos preços dos combustíveis, e também à perspectiva do fenômeno climático El Niño nos preços dos alimentos. Além disso, a política fiscal expansionista do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem intensificado os desembolsos com a aproximação das eleições, também dificulta o trabalho do Banco Central em trazer a inflação para o centro da meta, tanto para o fim de 2027 quanto para o primeiro trimestre de 2028 — o novo horizonte relevante do Copom, antecipado na reunião de junho, quando o comunicado do colegiado deixou o mercado um tanto confuso, inclusive.
Apesar de a inflação oficial ter dado sinais de desaceleração nos dados mais recentes, a perspectiva de piora de pressões inflacionárias para 2027, devido ao impacto do fenômeno climático El Ninõ nos preços dos alimentos devem acender o alerta dos diretores do BC. Os especialistas apontam que está havendo uma desancoragem das expectativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), tanto para 2027 quanto para 2028, que estão se distanciando do centro da meta de 3%, que é o horizonte relevante monitorado pela política monetária.
Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a prévia do IPCA de julho, o IPCA-15, apresentou uma desaceleração de 0,41%, em junho, para 0,06%, em julho, acumulando alta de 4,52% em 12 meses — resultado bem abaixo das estimativas do mercado, que estavam acima de 0,20%. Mesmo com esse dado menor do que o esperado, o economista Fábio Romão, da consultoria 4 Intelligence — que previa 0,17% no IPCA-15 de julho —, prevê o último corte na taxa Selic nesta semana para 14% anuais, devido ao elevado grau de incertezas nos mercados interno e externo. “Por ora, em razão das incertezas que cercam o cenário internacional e doméstico, esperamos que este seja o derradeiro movimento deste ciclo de calibração”, afirmou.
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, também aposta em um corte derradeiro da taxa Selic, para 14% ao ano, na reunião desta semana do Copom, apesar de a inflação de julho apresentar sinais de desaceleração maior do que o esperado pelo mercado. “O nosso cenário-base ainda é esse de um corte de 0,25 ponto percentual, na taxa Selic, para 14% ao ano, e, depois, para, porque a inflação pode reacelerar lá na frente com El Nino e ainda tem os impulsos fiscais do governo e o petróleo que ainda está perto de US$ 85 o barril. Enfim, tem algumas pressões ainda e, como o desemprego está bem baixo, acho que o Copom pode ser mais conservador no curto prazo, e procurar esperar um pouquinho mais para ter mais certeza lá na frente para voltar a reduzir os juros”, explicou.
Megale reconheceu, contudo, que, como a inflação veio melhor no curto prazo, a probabilidade de mais um corte em setembro aumenta, mas se houver um cenário em que a atividade econômica esteja cedendo aos juros mais altos e a pressão inflacionária esteja diminuindo, apesar dos impulsos fiscais. “Mas acreditamos que no fim, o Copom vai mesmo cortar os juros em 0,25 ponto percentual, e não dar nenhuma sinalização clara e esperar os dados para ver se essa desaceleração da inflação é permanente ou temporária para decidir na próxima reunião”, acrescentou.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, lembrou que o consenso do mercado é de que haverá corte na taxa Selic para 14% na reunião do Copom desta semana e que a grande dúvida vai ser o que o BC vai sinalizar para a próxima. “Apesar de o mercado estar com corte adicional de 0,25 ponto percentual, ainda não está muito claro exatamente o que vai acontecer em setembro, porque estamos falando de um período muito próximo das eleições. A inflação está cedendo nos últimos dias, e isso é uma possibilidade para um novo corte, mas tem um efeito que o BC precisa trabalhar e que não está muito claro que é o El Niño, que está vindo muito forte e vai ter um impacto expressivo na inflação de elementos no ano que vem”, alertou Vale.
O economista lembrou que o Copom vai precisar ter um cuidado adicional na próxima decisão também porque a inflação pode estar cedendo agora, mas, olhando para frente, ainda vai ser muito arriscado continuar reduzindo os juros. “A gente espera que tenha menos tumulto do que foram os últimos comunicados, que foram muito tensos e talvez um pouco mal-elaborados. Talvez, ter um comunicado seja bem mais cuidadoso e mais objetivo, talvez ajude mais a diminuir um pouco das incertezas que estavam no mercado desde a última decisão”, afirmou.
Apesar de ponderar que o BC não deveria cortar os juros, o economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal, também espera redução na taxa básica para 14% nesta semana. Para ele, o BC vai aproveitar que a inflação corrente está caindo para reduzir os juros agora. “E uma questão interessante é que, na reunião de setembro, o último número que o Copom terá para o IPCA de agosto será negativo, por causa do bônus de Itaipu. Então, sim, há uma possibilidade não desprezível de o Copom reduzir os juros em setembro também, inclusive a curva de juros dá uma probabilidade de 57% de isso acontecer”, explicou ele, alertando para um efeito contábil no indicador da inflação oficial que precisará ser levado em conta, justamente às vésperas do primeiro turno das eleições.
“Agora, eu acho que o BC não deveria cortar os juros em setembro. Além das incertezas em relação à política econômica do próximo governo, as expectativas de inflação para 2027 e 2028 estão piorando, mesmo com as de 2026 melhorando o que é uma prova do desconforto do mercado com as indicações do BC”, alertou. “Existe uma regra no bolso dos banqueiros centrais de que não se deve mudar a política monetária próximo de uma eleição majoritária. Agora, isso não está escrito na pedra, tanto que, nas últimas eleições norte-americanas o Fed cortou os juros mais do que o esperado há pouco mais de um mês do pleito”, disse Leal, mencionando um dos motivos para a deterioração das relações entre o ex-presidente do Fed Jerome Powell e o atual presidente dos EUA, Donald Trump.
Diante desse cenário, na avaliação dos especialistas, a queda da Selic em setembro só deverá ocorrer se houver uma piora muito grave no mercado de trabalho e na atividade econômica. Vale lembrar o aumento dos gastos crescentes e os juros elevados seguem pesando no forte aumento da dívida pública bruta do setor público federal – incluindo governo federal, Previdência social, estados, municípios e estatais federais -, que chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto – o maior patamar desde abril de 2021, somando R$ 10,8 trilhões, nível considerado preocupante para um país emergente que paga juros de dois dígitos, que acaba dobrando de tamanho em até sete anos.
Nos Estados Unidos, devido ao aumento das incertezas externas, especialmente com o conflito no Oriente Médio, as apostas são de aumento de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano), que, na semana passada, manteve os juros básicos entre 3,50% e 3,75% ao ano. Por aqui, conforme dados da pesquisa semanal Focus, do Banco Central, a mediana das estimativas do mercado financeiro para taxa Selic no fim de 2026 recuou pela primeira vez desde março, passando de 14% para 13,75%. Contudo, os juros seguem acima de 10% até 2029. A mediana das estimativas para a inflação oficial, medida pelo IPCA, também recuou, passando de 5,12%, na semana passada, para 5,03%, nesta semana, ainda acima do teto da meta, de 4,50%. A mediana das previsões para o IPCA em 2027 e 2028 ficaram estáveis em 4,22% e 3,80%, respectivamente.
Fonte: CORREIO BRAZILIENSE
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/08/7473157-mercado-aposta-em-novo-corte-na-taxa-selic.html
por NCSTPR | 04/08/26 | Ultimas Notícias
O núcleo duro da força social e eleitoral da extrema direita repousa nos remediados, assalariados ou ‘empreendedores’, não entre os despojados. Assim que a renda permite, as famílias de trabalhadores contratam trabalho doméstico, matriculam os filhos em escolas privadas, compram planos de saúde para seus pais, alugam por uma semana uma casa na praia para férias, compram automóveis e por aí vai: imitam o padrão de consumo da classe média proprietária ou de alta escolaridade em funções executivas.”
O artigo é de Valerio Arcary, professor de história aposentado do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo), publicado por A Terra é Redonda, 01-08-2026.
Eis o artigo.
A defesa do legado governista não será suficiente para frear um bolsonarismo resiliente que cooptou o ressentimento e a visão de mundo da classe trabalhadora média.
“Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas” (Provérbio popular brasileiro).
1.
Nove semanas até o primeiro turno das eleições e nada está garantido. A ligeira vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro nas mais recentes pesquisas de opinião não deve nos iludir. Quem decidiu profetizar uma vitória de Lula em primeiro turno deveria ter mais autocontenção. O autoengano, uma forma de aquietar a mente, é um erro fatal.
Não podemos esquecer a lição mais importante das eleições de 2022, quatro anos atrás: a subestimação da potência e capilaridade de influência da extrema direita é imperdoável. A diferença foi tão estreita que, se a eleição tivesse sido uma ou duas semanas depois, Jair Bolsonaro poderia ter sido eleito. Existe uma margem de incerteza sobre o desfecho eleitoral, porque as pesquisas têm dificuldades variadas em captar a votação do bolsonarismo.
Os perigos que ameaçam a reeleição de Lula são múltiplos. O exemplo do dia é a decisão monocrática de André Mendonça, ministro indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a Polícia Federal a abrir um inquérito oficial para investigar Fábio Luís, o Lulinha, filho de Lula, por suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Muito mais virá. A luta política será de máxima intensidade e devemos nos preparar para tudo.
O mapa político da América Latina desenha um contexto. A extrema direita venceu as eleições presidenciais em 2025 no Equador e na Bolívia, e parlamentares na Argentina. Já em 2026 os aliados de Donald Trump, José Antonio Kast, Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella venceram no Chile, Peru e Colômbia. Este ano se iniciou com uma agressão militar fulminante contra a Venezuela, que culminou com o sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores, algo sem precedentes.
Impossível diminuir o iminente perigo que ameaça Cuba. Os insultos de Javier Milei na Convenção da candidatura de Flávio Bolsonaro sinalizam uma decisão de protagonismo. Não fosse o bastante, seria irrealista diminuir o impacto das futuras intervenções de Donald Trump após o novo tarifaço. Os EUA poderão até contestar a lisura do processo eleitoral se Lula vencer, o que não é um perigo menor.
A guerra cultural nas redes sociais se desenvolve ininterrupta e vertiginosamente. Apostar na regulação das condições de disputa pela Justiça Eleitoral desconsiderando a ameaça de manipulações pela inteligência artificial seria irreparável.
2.
Não deveríamos nunca esquecer que serão eleições gerais. A eleição simultânea da presidência e de governadores, deputados federais e senadores é um fator inescapável na avaliação da conjuntura. Sem palanques regionais fortes, a eleição presidencial é muito mais incerta.
A possibilidade de eleger governadores de esquerda é dramaticamente minoritária: a previsão mais provável se reduz ao Piauí com Rafael Fonteles. Elmano de Freitas, no Ceará, terá uma disputa duríssima com Ciro Gomes, que contará com o apoio do bolsonarismo. Jerônimo Rodrigues ainda está em empate técnico contra ACM Neto na Bahia. O PT terá candidatos próprios em somente dez dos vinte e seis Estados, além do Distrito Federal.
Esta tática obedeceu ao cálculo de tentar neutralizar um alinhamento “nacional e vertical” de alguns partidos do Centrão com o bolsonarismo, em especial no Nordeste, onde em média as pesquisas indicam uma votação em Lula entre 55% e 60% no primeiro turno. Mas a dura e cruel realidade é que, nas atuais condições, Lula não tem maioria no triângulo estratégico do Sudeste. A atual vantagem em Minas Gerais não compensa a diferença a favor do bolsonarismo em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Eduardo Paes está em primeiro lugar no Rio de Janeiro, mas a candidatura de Anthony Garotinho pode alavancar um segundo turno contra Douglas Ruas. A hipótese de uma vitória de Tarcísio de Freitas em primeiro turno não é descartável. No Sul, Lula está atrás de Flávio Bolsonaro em quase todos os Estados. A boa notícia é a vantagem de Juliana Brizola sobre Luciano Zucco e de Manuela d’Ávila sobre Marcel Van Hatten.
Não é sequer razoável duvidar da vantagem que o bolsonarismo vai arrastar no Centro-Oeste, o reduto da influência do agronegócio. Do Norte, a única expectativa da candidatura Lula repousa na aliança com o MDB da família Barbalho. Resumo da ópera: a batalha será duríssima e a indefinição do desenlace não é pequena.
Mas o mais preocupante quando desagregamos os dados das pesquisas é que Flávio Bolsonaro mantém uma preferência, para além da margem de erro, da maioria masculina e, sobretudo, da maioria entre os trinta milhões que ganham além de dois salários mínimos. A extrema direita conquistou posições entre as camadas médias da classe trabalhadora.
3.
Em outras palavras, o povo que vive do trabalho está fragmentado. É uma tragédia, mas uma “divisão” aparta duas parcelas da classe trabalhadora: os remediados e os pobres. Enquanto uma maioria dos mais pobres girou à “esquerda” ao apoiar o lulismo, pelo menos metade dos remediados girou “à direita”.
Na raiz deste processo encontramos transformações sociais profundas. A “crueldade” histórica é que a desigualdade social entre os que vivem do trabalho assalariado diminuiu, porque o piso da extrema pobreza subiu, mas a remuneração das camadas médias de trabalhadores estagnou com viés de queda. A distribuição funcional da renda entre capital e trabalho somente oscilou, sem sair do lugar.
O bolsonarismo é majoritário entre os evangélicos, mas minoritário entre os mais pobres. A percepção desta divisão fica mais enviesada quando integramos a fratura racial na avaliação. A maioria dos remediados não é autodeclarada negra, e a maioria dos mais pobres não é branca. Medo e preconceito envenenam a compreensão deste paradoxo. O pentecostalismo da prosperidade continua crescendo.
Mas a ideia de que o reacionarismo religioso se concentra, essencialmente, na parcela mais pobre do povo não corresponde à realidade. Lula mantém um apoio majoritário entre a população que ganha até dois salários-mínimos, não só na região Nordeste. Há uma correlação entre baixa escolaridade e influência das grandes igrejas evangélicas, mas não há causalidade entre pobreza e bolsonarismo.
O núcleo duro da força social e eleitoral da extrema direita repousa nos remediados, assalariados ou “empreendedores”, não entre os despojados. Assim que a renda permite, as famílias de trabalhadores contratam trabalho doméstico, matriculam os filhos em escolas privadas, compram planos de saúde para seus pais, alugam por uma semana uma casa na praia para férias, compram automóveis e por aí vai: imitam o padrão de consumo da classe média proprietária ou de alta escolaridade em funções executivas.
Não assimilam somente um estilo de vida, mas as ideias de uma visão de mundo: repudiam os impostos porque não usam a educação e a saúde pública, odeiam o Estado porque foram envenenados pela LavaJato de que tudo é corrupção, e abraçam a perspectiva de que na vida social é o “cada um por si mesmo”. A estagnação da mobilidade social e a pressão inflacionária nos serviços empurraram uma parcela dos remediados para o bolsonarismo.
Mas, infelizmente, é ainda mais complicado. A parcela dos remediados que apoia o bolsonarismo tem ressentimento político contra a esquerda porque acredita que são injustas as massivas transferências de renda para a pobreza extrema. Abriu-se uma brecha entre remediados e muito pobres. A conclusão é que seria um erro exagerar o legado do governo, porque a situação econômico-social não é tão favorável. Desaprovação em empate técnico com aprovação indica que a defesa do legado do mandato não será suficiente.
Fonte: IHU
https://www.ihu.unisinos.br/669188-eleicoes-2026-nada-esta-garantido-artigo-de-valerio-arcary
por NCSTPR | 04/08/26 | Ultimas Notícias
Não é possível ter qualidade de vida se você não consegue ter sono de qualidade, se você não consegue ter uma rotina alimentar de qualidade, se você não consegue descansar.
Divulgado na semana passada, estudo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) mostra que o Brasil registrou 222.139 acidentes de trabalho somente nos cinco primeiros meses deste ano – uma média de 1.471 casos por dia. É o segundo maior índice desde 2023, quando os dados passaram a ser coletados. Desde aquele ano, o país já contabilizou 1,8 milhão de acidentes de trabalho, o que representa mais de 45 mil ocorrências por mês.
Ainda de acordo com a pesquisa, as regiões Sudeste e Sul concentram quase três em cada quatro notificações. Juntas, elas responderam por 1,3 milhão de casos. Cinco estados acumulam 67% de todas as notificações do país: São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina. O estudo também mostra que os homens estão entre as principais vítimas. Mais assustador ainda é a idade: 75% dos acidentes de trabalho no país afetam pessoas de 20 a 49 anos.
Em entrevista à Folha, o presidente da Anamt, Francisco Cortes Fernandes, mostrou a importância desses estudos para definição de políticas públicas que reduzam a ocorrência de acidentes. “Para a medicina do trabalho, esses dados ajudam no planejamento de iniciativas amplas, ou até locais, que atuem diretamente no combate aos riscos que podem comprometer a vida, a saúde e o bem-estar dos trabalhadores e suas famílias”. Só em 2023, no governo Lula, que o Ministério da Saúde passou a exigir a notificação de todos os acidentes de trabalho atendidos pelos serviços de saúde.
Redução da jornada diminui acidentes e doenças
Uma das medidas mais eficazes para reduzir os acidentes laborais está em debate na sociedade – apesar da resistência da cloaca burguesa, da cedência do Senado ao lobby patronal e do silêncio da mídia burguesa. Trata-se da proposta do fim da escala 6 por 1, com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Pesquisa recente do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a atual e desumana jornada praticada no Brasil aumenta em 38% o risco de acidentes e doenças laborais.
Entre outros motivos, porque o cansaço extremo reduz os reflexos e a capacidade de reação mais rápida do trabalhador. Ele também eleva os casos de esgotamento mental e problemas físicos. Em alguns setores, como no transporte e no comércio, os índices de acidentes são ainda maiores devido ao desgaste prolongado. O fim da escala 6 por 1 ajudaria a reduzir esse grave problema – mas a cloaca burguesa pouco se importa com a vida e o bem-estar do trabalhador.
Excesso de jornada e acidentes laborais
Já levantamento feito pela ONG Repórter Brasil no final de 2024 mostrou que, das 20 ocupações campeãs em acidentes de trabalho, 12 também apareciam no topo da lista das 20 profissões com maior carga horária no Brasil. “Há uma relação direta entre excesso de jornada e acidentes de trabalho”, explicou a juíza Luciana Conforti, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra).
“Não é possível ter qualidade de vida se você não consegue ter sono de qualidade, se você não consegue ter uma rotina alimentar de qualidade, se você não consegue descansar. A escala 6 por 1 considera esse corpo como uma máquina de produzir, mas não como um sujeito que merece dignidade e vitalidade”, acrescentou a psicóloga Ana Luísa Araújo Dias, especialista em saúde mental e relações raciais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Fonte: VERMELHO
https://vermelho.org.br/2026/08/03/acidentes-de-trabalho-e-o-fim-da-escala-6×1/
por NCSTPR | 04/08/26 | Ultimas Notícias
Previsão nos juros só aumentava ou permanecia no mesmo patamar desde 2 de março.
(Folhapress) – Os economistas reduziram a previsão para a taxa de juros pela primeira vez desde março e agora esperam que a Selic termine o ano a 13,75%, uma diminuição de 0,25 ponto percentual em relação ao levantamento da semana passada.
O boletim Focus só apresentava movimento de alta ou estagnação desde 2 de março, quando os analistas avaliavam que a taxa de juros fecharia 2026 a 12%. Depois disso, o número só aumentou ou se manteve nas semanas seguintes até atingir 14% em 22 de junho.
O índice permaneceu neste patamar por seis semanas até ser diminuído nesta segunda-feira (3). O movimento de alta coincidiu com o início da guerra no Irã em 28 de fevereiro, que impactou diretamente o preço dos combustíveis e levou a um aumento da inflação em todo o mundo.
Com isso, o Banco Central passou a adotar uma política mais restritiva e diminuiu a expectativa para cortes maiores na taxa de juros. O Copom (Comitê de Política Monetária) se reunirá a partir desta terça-feira (4) e os economistas ouvidos pelo BC preveem uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, que atualmente está em 14,25% ao ano.
Expectativas de mais cortes
A mudança de perspectiva mostra que o mercado ainda espera mais um corte no mesmo patamar até o final do ano. Já as previsões para os três próximos anos foram mantidas em 12% para 2027, 10,5% para 2028 e 10% para 2029.
O boletim Focus também apontou uma queda na previsão para a inflação deste ano para 5,03%, 0,09 ponto percentual a menos do que no levantamento anterior. É a quinta semana consecutiva de diminuição na perspectiva para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
Já as expectativas para o PIB (Produto Interno Bruto) e para o dólar permaneceram em 1,99% e R$ 5,20, respectivamente.
Por Fernando Narazaki
Fonte: ICL
https://iclnoticias.com.br/economia/economistas-reduzem-previsao-para-juro/
por NCSTPR | 04/08/26 | Ultimas Notícias
O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros não deve ser interpretado apenas como mais um episódio de protecionismo comercial. Ele revela uma mudança estrutural da economia mundial. Se o século XX foi marcado pela geopolítica dos territórios, das matérias-primas e da influência militar, o século XXI passou a ser organizado pela geopolítica da produção, da tecnologia e, sobretudo, do trabalho. Essa transformação altera profundamente a maneira de compreender o desenvolvimento.
Durante décadas, predominou a ideia de que o livre comércio organizaria espontaneamente a divisão internacional da produção, promovendo ganhos para todos. Essa visão está sendo abandonada justamente pelas maiores economias do planeta. Estados Unidos, China e União Europeia mobilizam novamente, de forma intensa e com recursos diversos, políticas industriais, subsídios, crédito público, compras governamentais, controle tecnológico, exigências de conteúdo local e barreiras comerciais para disputar investimentos, fortalecer cadeias produtivas e atrair empregos de alta produtividade.
A competição internacional já não ocorre apenas entre empresas. Ela ocorre entre projetos nacionais de desenvolvimento. O tarifaço contra o Brasil deve ser compreendido nesse contexto.
Sua justificativa econômica é extremamente frágil. Os próprios dados oficiais do governo norte-americano mostram que os Estados Unidos mantêm expressivo superávit comercial na relação com o Brasil, tanto em bens quanto em serviços. Não existe desequilíbrio estrutural que justifique a adoção de tarifas punitivas. O argumento econômico simplesmente não se sustenta. A medida responde, portanto, a uma lógica política.
Ao utilizar o acesso ao mercado norte-americano como instrumento de pressão sobre outro país, os Estados Unidos transformam o comércio internacional em mecanismo de coerção. A mensagem implícita é clara: quem não se alinhar aos interesses estratégicos da maior potência econômica sofrerá restrições comerciais unilaterais.
Essa prática representa um grave retrocesso para a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. A estabilidade do comércio global depende da previsibilidade das regras e do respeito à soberania dos Estados. Quando tarifas passam a ser utilizadas para constranger decisões políticas internas de outros países, substitui-se o direito pela assimetria de poder.
Mas talvez a consequência mais importante seja outra. O tarifaço evidencia que a principal disputa contemporânea não é apenas por mercados. É pelos empregos.
Cada decisão sobre tarifas, subsídios, inovação tecnológica, inteligência artificial, transição energética ou reorganização das cadeias produtivas determina onde serão realizados investimentos, onde serão produzidos bens estratégicos e onde estarão localizados milhões de postos de trabalho. O trabalho voltou ao centro da geopolítica.
Durante muito tempo, economistas trataram o emprego como consequência do crescimento econômico. Primeiro cresceria a economia; depois surgiriam os empregos. A realidade atual mostra exatamente o contrário. Países organizam suas estratégias econômicas para disputar capacidade produtiva porque compreendem que ela determina renda, inovação, arrecadação tributária, soberania tecnológica e influência internacional.
Produzir significa dominar conhecimento. Dominar conhecimento significa controlar tecnologia. Controlar tecnologia significa decidir onde estarão os empregos de maior produtividade. Em outras palavras, o trabalho tornou-se um ativo estratégico das nações.
É justamente por isso que o Brasil precisa responder ao tarifaço de maneira muito mais ampla do que uma simples disputa comercial. Naturalmente, o país deve negociar com firmeza, recorrer aos instrumentos multilaterais e manter disponíveis os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica. Não por espírito de retaliação, mas porque nenhuma nação soberana pode aceitar passivamente medidas unilaterais que prejudiquem seus trabalhadores e sua capacidade produtiva.
A reciprocidade, entretanto, deve ser inteligente. Seu objetivo não é ampliar uma guerra comercial nem reproduzir a lógica do confronto permanente. Ela deve elevar o custo político da medida norte-americana, fortalecer a posição negociadora brasileira e preservar, ao mesmo tempo, os interesses da economia nacional.
Mais importante do que responder à tarifa é proteger quem será atingido por ela. Empresas exportadoras precisarão de crédito, financiamento e apoio para diversificar mercados. Trabalhadores precisarão de políticas de preservação do emprego, qualificação profissional e negociação coletiva capaz de construir soluções temporárias sem transformar uma redução conjuntural das encomendas em desemprego permanente. Todas medidas já adotadas pelo Brasil desde 2025 e que agora, mais uma vez, devem ser implementadas, continuadas ou ampliadas.
Entretanto, nenhuma dessas medidas resolverá o problema estrutural. O verdadeiro desafio consiste em reduzir a vulnerabilidade externa da economia brasileira. Um país excessivamente dependente de poucos mercados permanece sujeito às oscilações políticas de seus parceiros comerciais. Uma economia especializada em produtos de baixo valor agregado continuará ocupando posição periférica nas cadeias globais de produção. Uma indústria tecnologicamente frágil terá dificuldade para disputar investimentos, produtividade e empregos qualificados. Por isso, a melhor resposta ao tarifaço não está apenas na política comercial, e está na construção de um projeto nacional de desenvolvimento.
Um projeto que combine reindustrialização, inovação, transformação digital, transição ecológica, fortalecimento do mercado interno, ampliação da infraestrutura econômica e social, educação, ciência, tecnologia e valorização permanente do trabalho.
O desenvolvimento volta a exigir planejamento, exige coordenação entre Estado, setor produtivo e trabalhadores, política industrial, financiamento de longo prazo, exige diálogo social. Sobretudo, exige compreender que o trabalho deixou de ser apenas uma variável econômica para tornar-se fundamento da soberania nacional. Essa talvez seja a principal lição do tarifaço de Trump.
O comércio internacional continuará importante. Mas a grande disputa do século XXI já não ocorre apenas nas fronteiras alfandegárias, ocorre na capacidade de cada sociedade produzir conhecimento, agregar valor, organizar suas cadeias produtivas e oferecer trabalho de qualidade à sua população.
Na nova geopolítica do trabalho, defender empregos significa defender produtividade. Defender produtividade significa defender soberania. E defender soberania significa construir um projeto nacional capaz de decidir, com autonomia, onde o Brasil quer produzir, inovar e trabalhar nas próximas décadas.
Sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, membro do Comitê Diretivo do Observatório do Trabalho Decente do Conselho Nacional de Justiça, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).
Fonte: DIAP
https://www.diap.org.br/index.php/noticias/artigos/93072-a-geopolitica-do-trabalho-e-o-tarifaco-de-trump