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Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

ELEIÇÕES 2022

As regras aplicadas à eleição proporcional de 2022, em relação à de 2018, podem vir a contribuir para aumentar a governabilidade[1], mas, de imediato, pode-se dizer que resultaram na redução da representatividade dos eleitos e da diversidade na Câmara dos Deputados. As mudanças na legislação que impactaram o resultado foram basicamente o fim da coligação nas eleições proporcionais, a cláusula de desempenho e, principalmente, a exigência de votação mínima dos partidos para elegerem parlamentares.

O aumento da governabilidade pode vir a resultar na redução da fragmentação partidária e do número efetivo de partidos: o índice, apurado em razão da quantidade de eleitos por partido, será, a partir de 2023, o menor desde 2007, quando se iniciou o segundo mandato de Lula. A ciência política aponta que, com menos partidos, as relações com o Congresso são mais estáveis e menos sujeitas às barganhas que são a característica do “presidencialismo de coalização”, ou de “cooptação”, que vigora desde a redemocratização.

A primeira mudança, o fim das coligações, ainda que tenha sido substituída pela federação de partidos, teve relativa influência tanto na redução do número de partidos quanto da representatividade dos eleitos para a Câmara dos Deputados. Partidos grandes, que coligados, elegiam parlamentares em quase todas as unidades da federação, com o fim das coligações perderam vagas por não terem formado federação nem atingido pelo menos 80% do quociente eleitoral em alguns estados, outra regra que dificultou a conversão de votos em mandato.

A segunda regra, a cláusula de desempenho, exige que os partidos atinjam pelo menos 2% do eleitorado nacional, com no mínimo 1% em nove unidades da federação, ou a eleição de 11 deputados federais em ao menos um terço dos estados, como condição para ter direito aos recursos do fundo eleitoral e o acesso ao chamado horário eleitoral gratuito. Não se trata propriamente de uma cláusula de barreira, pois não impede que os partidos, mesmo que tenham eleito apenas um parlamentar, possam ter funcionamento parlamentar regular, mas certamente irá forçar que esses partidos promovam fusão ou ingressem em federações partidárias.

Dos 32 partidos registrados no TSE, 23 partidos elegeram deputados federais neste pleito, mas apenas 13, incluindo as federações, atingiram a cláusula de desempenho: PL, PT/PCdoB/PV, União Brasil, PP, PSD, MDB, Republicanos, PSDB/Cidadania, PDT, PSB, PSol, Avante e Podemos. Dos dez restantes, quatro foram salvos por pertencerem a federação partidária (PCdoB, PV, Cidadania, Rede), e seis não atingiram a cláusula de barreira (PSC, Patriota, SD, Pros, Novo e PTB), ficando privado do direito aos recursos do fundo partidário e do acesso gratuito ao rádio e à televisão, o chamado horário eleitoral gratuito.

A terceira, a exigência de desempenho mínimo dos partidos para a conversão de votos em mandato, especialmente pelo sistema de sobras, foi a que mais influenciou, tanto na redução do número de partidos, e, portanto, no potencial aumento da governabilidade, quanto na redução da representatividade dos eleitos pelo Câmara dos Deputados. É que diferentemente de 2018, quando todos os partidos participaram das rodadas de distribuição de vagas pelo sistema de sobras, após ocupadas as vagas pelo quociente eleitoral pleno[2], em 2022 houve a exigência de votação mínima, determinando que somente os partidos que atingissem 80% do quociente eleitoral teriam acesso a vagas distribuídas por esse sistema.

Essa terceira regra, que funciona como uma espécie de cláusula de barreira, contraria os princípios do pluralismo político e da igualdade do voto, pois sua consequência é a exclusão de candidatos bem votados da possibilidade de eleição para a Câmara dos Deputados. A título de exemplo de candidatos bem votados que tiveram sua votação ignorada e ficaram fora da Câmara dos Deputados em decorrência da exigência de 80% do quociente eleitoral, podemos mencionar Rodrigo Rollemberg (PSB/DF), que teve mais que o dobro dos votos do último eleito pelo Distrito Federal. Algo semelhante aconteceu com Garibaldi Alves (MDB/RN), que teve praticamente o dobro dos votos do último eleito pelo Rio Grande do Norte.

A redução da representatividade da Câmara dos Deputados pode ser demonstrada pelo expressivo número de votos desconsiderados no pleito proporcional. O total de votos dados na eleição para a Câmara foi da ordem de 109.300.281, sendo 105.127.585 nominais e 4.172.606 nas legendas partidárias, mas a soma dos votos dos eleitos chegou a apenas 60.501.119, praticamente a metade. O número de votos dados aos candidatos nos estados em que os partidos não atingiram 80% do quociente eleitoral chegou a 13.979.918, os quais foram desconsiderados ou jogados na lata do lixo, num completo desrespeito para com esse contingente de eleitores, conforme tabela a seguir. Somente 28 dos 513 deputados se elegeram com seus próprios votos ou atingiram o quociente eleitoral, sendo que os 485 restantes se beneficiaram dos votos dos puxadores de seus partidos ou federações.

Tabela com votos válidos, em partidos e candidatos e descartados

UF Votos válidos Votos dos partidos que atingiram novas regras Voto descartado – partidos que não atingiram as novas regras  % Voto descartado
AP 423.017 159.426 263.591 62,31
RO 869.148 431.610 437.538 50,34
MT 1.730.277 899.444 830.833 48,02
RN 1.869.837 1.002.762 867.075 46,37
AC 434.253 237.558 196.695 45,30
TO 830.140 468.861 361.279 43,52
ES 2.084.430 1.324.538 759.892 36,46
DF 1.607.519 1.029.932 577.587 35,93
RR 291.505 189.314 102.191 35,06
MS 1.356.862 887.851 469.011 34,57
PA 4.521.516 3.102.722 1.418.794 31,38
AL 1.650.763 1.212.439 438.324 26,55
SC 3.969.848 3.092.883 876.965 22,09
SE 1.125.093 882.878 242.215 21,53
AM 1.976.477 1.558.896 417.581 21,13
PI 1.957.483 1.576.962 380.521 19,44
GO 3.440.515 2.810.548 629.967 18,31
CE 5.108.239 4.481.047 627.192 12,28
PE 4.969.863 4.424.556 545.307 10,97
MA 3.706.498 3.351.701 354.797 9,57
PR 6.038.588 5.628.856 409.732 6,79
PB 2.190.544 2.044.882 145.662 6,65
BA 7.958.431 7.516.340 442.091 5,56
MG 11.181.098 10.612.317 568.781 5,09
RJ 8.571.572 8.190.086 381.486 4,45
SP 23.286.943 22.255.034 1.031.909 4,43
RS 6.149.822 5.946.920 202.902 3,30

Fonte: DIAP/TSE

É verdade que os sistemas eleitorais, cuja função é converter votos em mandatos, podem tanto ampliar quanto diminuir o número de partidos, inclusive nos sistemas proporcionais de lista aberta, como o brasileiro, dependendo do modo como se emprega o quociente eleitoral, com flexibilidade ou não. A regra do quociente eleitoral já foi mais rígida. Até as eleições de 2014, exigia-se o quociente eleitoral pleno para converter votos em mandato, porém existia a possibilidade de coligação na eleição proporcional, que vigou até as eleições municipais de 2020. Quem não fazia coligação, entretanto, poderia pagar um preço alto, pois se não atingisse o quociente eleitoral ficaria fora da Casa Legislativa. Por exemplo: na eleição de 1990, o candidato a deputado Federal pelo PDT de Mato Grosso, Dante de Oliveira, teve sozinho mais votos do que todos os eleitos pelo estado, mas não foi eleito porque seu partido não atingiu o quociente eleitoral[3].

De fato, os sistemas eleitorais são constituídos por um conjunto de regras que definem como os eleitores fazem suas escolhas e como os votos são convertidos em mandatos, além de dispor sobre os critérios de apuração, contagem e agregação de votos para efeito de definição dos mandatos. Em linhas gerais, segundo Nicolau (2004), os componentes de um sistema eleitoral, são basicamente três: 1) a fórmula eleitoral (como os votos são computados), 2) a magnitude do distrito (o número de eleitos em cada circunscrição eleitoral), e 3) a estrutura do voto (o modo como os eleitores expressam suas preferências).

Os sistemas eleitorais possuem vários desenhos e podem ser classificados em três grupos: a) proporcional, b) majoritário e c) misto, cada um com suas variações, que podem facilitar ou dificultar a governabilidade, sendo diferentes os objetivos de cada grupo.

No primeiro grupo, o propósito é favorecer a diversidade e garantir a representatividade dos diversos segmentos sociais no Parlamento, respeitando-se a proporcionalidade entre o número de votos obtidos e o número de cadeiras preenchidas na Casa Legislativa. A suposição é que o sistema proporcional dificulta a governabilidade, considerando o multipartidarismo exagerado que esse desenho possibilita, especialmente o de lista aberta como o brasileiro. Exemplo disso foi a crise de governabilidade enfrentada no segundo mandato de Dilma Rousseff, quando o número efetivo de partidos chegou a 13,4. Mas, mesmo o índice tendo aumentado nos anos seguintes (chegou a 14 em 2018, e a 16,5 em 2019), isso não se refletiu em uma crise de governabilidade, mas, a partir de 2020, houve uma reorganização partidária e se reduziu para 12,7 em 2022, período em que Bolsonaro precisou aliar-se, explicitamente, ao Centrão, para garantir a continuidade de seu mandato frente aos inúmeros pedidos de impeachment.

No segundo caso, o propósito é favorecer o candidato mais votado, dentro da lógica de que o vencedor leva tudo. A suposição é de que o sistema majoritário facilita a governabilidade em função do enxugamento do quadro partidário, ficando limitado a dois, como nos Estados Unidos. Mesmo nesse caso, porém, a depender do contexto, a governabilidade não é garantida: o descasamento entre as eleições presidenciais e parlamentares pode levar ao que ocorre naquele país, onde o Presidente, frequentemente, governa sem maioria nas casas legislativa. Esse fato se mostrou crítico a partir da eleição de um Congresso com forte presença de conservadores, a partir da Presidência de Donald Trump, e que persistiu com a eleição de Joseph Biden, dificultando a sua gestão.

O sistema misto, por fim, seria a combinação dos dois, com metade das vagas preenchidas pelo sistema majoritário e metade pela lista partidária.

O sistema proporcional, por sua vez, pode ser de lista aberta ou fechada. No sistema de lista aberta é o eleitor, na hora de votar, quem define a ordem na lista partidária, enquanto no sistema de lista fechada é o partido quem determina previamente essa ordem, para efeito de distribuição das vagas a que os partidos têm direito pelo número de votos obtidos. A fórmula de cálculo também varia, de acordo com o modelo adotado.

O fundamental é que o sistema eleitoral, para a eleição proporcional, precisa ser revisto, pois nele existem várias distorções, a começa pelo desrespeito ao voto do eleitor que votou em candidato, mesmo bem votado, mas que pertence a partidos que não atingiu 80% do quociente eleitoral. Se o sistema de lista aberta privilegia o candidato votado e não o partido, não faz sentido candidatos bem votados perderem o direito a vaga para candidatos menos votados, como demonstrado neste artigo. Serve de reflexão para a próxima mudança na legislação eleitoral e partidária.

[1] O aumento da governabilidade decorre da redução do número de partidos na Câmara, facilitando a vida do governante, que terá que negociar com menos agremiações para formar sua coalizão de governo.

[2] Divisão do número de votos válidos (exclui brancos e nulos) de uma determinada circunscrição eleitoral pelo número de vagas na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa ou na Câmara de Vereadores.

[3] É verdade que nessa época o quociente eleitoral era mais alto, porque ainda incluía os votos brancos e nulos, que deixaram de ser considerados a partir da vigência da Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997, com a revogação do parágrafo único do art. 106 da Lei nº 4.737/1965

AUTORIA

Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

ELEIÇÕES 2022

Dos 32 partidos com registro no Tribunal Superior Eleitoral, 17 sofreram queda na quantidade de votos recebidos, seja nas legendas ou em seus candidatos para deputado federal nas eleições de 2022. A redução no número de eleitores não representa apenas uma diminuição de suas bancadas na Câmara dos Deputados, mas também em complicações para acessar os recursos dos fundos partidário e eleitoral em 2026.

Desses 17 partidos, seis já não obtiveram votos suficientes para formar uma bancada nem nas eleições de 2018 e nem em 2022. São eles o DC, Agir, PMB, PMN, PRTB e o PSTU. Outros dois, o PCB e o PCO, também não formaram bancadas em nenhum dos dois pleitos, mas contaram com um aumento na quantidade de eleitores: o primeiro obteve 73,09% a mais de votos, e o segundo teve um aumento de 110%.

Duro golpe no União Brasil

As demais quedas, porém, atingiram alguns partidos com atuação importante na Câmara. O União Brasil, que chegou a ser o maior partido do país após a fusão dos antigos DEM e PSL, sofreu um duro golpe ao ver seus principais parlamentares migrando para o PL durante a janela partidária. Os dois extintos partidos, que em 2018 somavam 14,7 milhões de votos para a Câmara, receberam pouco mais de 10 milhões após a fusão, representando uma redução de 32% em seu eleitorado.

O PSDB também perdeu uma grande parcela de seus eleitores. O partido já vinha fragilizado das eleições de 2018, quando perdeu o protagonismo na centro-direita da Câmara, e em 2022 sofreu uma queda de 41,68% de votos para deputado. Seu principal aliado, o Cidadania, com quem é federado, já contou com um ligeiro aumento de 5%, permanecendo próximo de 1,5 milhão antes e depois do pleito, enquanto os tucanos que antes contabilizavam 5,4 milhões de votos passaram a ter 3,1 milhões.

AUTORIA

Lucas Neiva

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CONGRESSO EM FOCO
Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

Por defesa à democracia, Amoêdo declara voto em Lula

SEGUNDO TURNO

Em entrevista à jornalista Joana Cunha, da Folha de S. Paulo, o co-fundador do Novo e ex-candidato à presidência da República, João Amoêdo, declarou que pretende votar no ex-presidente Lula (PT) no segundo turno das eleições. Apesar de ainda fazer críticas tanto ao candidato quanto ao seu partido, Amoêdo afirma temer pela continuidade do regime democrático em um eventual segundo turno de Jair Bolsonaro (PL), e que seu voto será uma “redução de danos”. O partido, porém, não viu seu posicionamento com bons olhos.

Amoêdo foi um dos idealizadores do Novo, fundado por setores críticos à gestão de Dilma Rousseff, em especial em suas políticas econômicas e aos escândalos de corrupção revelados ao longo de seu governo. Em 2018, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno por entender que a candidatura de Fernando Haddad (PT) seria uma retomada do projeto descontinuado com o impeachment, em 2016.

Sem compaixão com o próximo

A partir de 2020, porém, Amoêdo e diversos outros quadros do Novo assumiram postura crítica a Bolsonaro, chegando a defender seu impeachment diante de sua gestão da pandemia. Na entrevista, Amoêdo afirmou que o presidente “confirmou ser não apenas um péssimo gestor, (…) mas também uma pessoa sem compaixão com o próximo”, e que “é um governante autocrático que se coloca acima das instituições”.

A decisão de votar em Lula, ele considera como não sendo um cenário ideal, mas uma garantia para ter “o direito a ser oposição, com eleições regulares, reeleição limitada, instituições minimamente independentes, imprensa livre e segurança para expor minhas ideias”. Apesar de considerar um voto difícil, Amoêdo diz que tentará lembrar dos discursos onde Bolsonaro debochou de vítimas da covid-19.

Sua declaração de voto, porém, não é consenso entre membros do Novo. O candidato do partido à presidência em 2022, Felipe D’Ávila, logo se pronunciou nas redes sociais. Em nota, afirmou que “A declaração de voto de Amoêdo ao Lula é uma traição aos valores liberais, ao partido Novo e a todas as pessoas que criaram um partido para livrar o Brasil do lulopetismo que tantos males criou ao Brasil.  Amoêdo: pega o boné e vai embora. Você não representa os valores liberais”. O ex-candidato anunciou, no dia 2, que votará nulo no segundo turno.

A executiva nacional do Novo também criticou a declaração de seu co-fundador. Em suas páginas oficiais nas redes sociais, o partido emitiu o seguinte comunicado:

“É absolutamente incoerente e lamentável a declaração de voto de João Amoêdo em Lula, que sempre apoiou e financiou ditadores e protagonizou os maiores escândalos de corrupção da história.

Seu posicionamento não representa o Partido Novo e vai contra tudo o que sempre defendemos.

A triste declaração constrange a instituição, que se mantém coerente com seus princípios e valores e reforça que Amoêdo não faz mais parte do corpo diretivo do partido desde março de 2020.

Apoiar aqueles que aparelharam órgãos de Estado, corromperam nossa democracia e saquearam os cofres públicos é fazer oposição ao povo brasileiro.

O NOVO sempre foi e sempre será oposição ao lulopetismo e tudo que ele representa”.

AUTORIA

Lucas Neiva

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CONGRESSO EM FOCO
Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

Os supersalários de Braga Netto, vice de Bolsonaro, e outros militares

FORÇAS ARMADAS

Candidato à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) repetiu a estratégia de escalar um general como vice, a exemplo do que fizera em 2018, com Hamilton Mourão. Mas, diferentemente da eleição anterior, o novo postulante a vice tem exercido papel discreto na campanha eleitoral. O general Walter Braga Netto (PL) raramente aparece em público ou é citado por Bolsonaro em seus discursos, ao contrário do que ocorre com Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB).

A discrição do ex-ministro da Casa Civil e da Defesa é inversamente proporcional ao contracheque dele. Para o deputado Elias Vaz (PSB-GO), que levantou a lista de supersalários das Forças Armadas, Bolsonaro “esconde” Braga Netto por não ter como explicar os altos vencimentos recebidos pelo companheiro de chapa.

O candidato a vice-presidente pelo PL recebeu R$ 926 mil de salários em dois meses de 2020. “Está claro que Braga Netto não está sendo utilizado na campanha porque Bolsonaro tem receio de se prejudicar com essa questão dos privilégios aos militares. Eles não dão conta de explicar. Até hoje não explicaram”, disse Elias ao Congresso em Foco. O teto do funcionalismo público é de R$ 39,2 mil, remuneração de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Benefício na pandemia

Na avaliação do deputado, o comportamento de Braga Netto e das Forças Armadas de não esclarecer os motivos dos supersalários é inadmissível. “Uma pessoa que quer ser vice-presidente foi beneficiária de um privilégio em plena pandemia”, afirmou o deputado.

O Congresso em Foco procurou o Exército e Braga Netto, por meio da campanha de Bolsonaro, mas não houve retorno até o momento. Este texto será atualizado caso haja manifestação por parte deles.

De acordo com relatório feito pelo deputado goiano, nos meses de março e junho de 2020, além do salário mensal, Braga Netto ganhou uma bolada de R$ 925.950,40. Conforme o detalhamento obtido por meio do Portal da Transparência, na soma dos dois meses, ele recebeu remuneração básica bruta de R$ 492.462,01; R$ 119.996,72 de férias e R$ 313.491,67 em verbas Indenizatórias.

Os pagamentos dos supersalários aos militares não se restringem a 2020. Outro levantamento feito pelo deputado goiano revelou que quase 1,6 mil militares receberam benefícios de mais de R$ 100 mil apenas neste ano. Em junho de 2021, o comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, ganhou o total bruto de R$ 818.902,09.

Nos meses de maio e junho de 2020, o almirante Bento Albuquerque, o então ministro de Minas e Energia, recebeu, além do salário, a soma bruta de R$ 1.037.015,42. Outros militares próximos a Bolsonaro, como o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, e o ex-ministro da Saúde e deputado eleito Eduardo Pazzuello (PL-RJ), também foram beneficiados.

Veja os supersalários abaixo. Arraste a barra para ver as tabelas:

Indícios e imoralidade

Elias Vaz: Câmara precisa investigar supersalários de militares e pensionistas. Foto: Agência Câmara

 

“A única manifestação das Forças Armadas foi uma nota pública divulgada na ocasião em que diziam que estava tudo dentro da legalidade, o que é muito pouco. Temos indícios claros de irregularidade e, no mínimo, de imoralidade. É inadmissível haver esse tipo de privilégio dentro da estrutura pública federal”, critica Elias.

O deputado é autor de representação feita ao Tribunal de Contas da União pedindo auditoria detalhada da folha de pagamento das Forças Armadas desde 2019. O documento aponta que a própria Controladoria-Geral da União (CGU) constatou que militares da ativa estão acumulando cargos e funções e recebendo remunerações que extrapolam o teto constitucional.

Segundo a CGU, de 2.770 militares e pensionistas de militares com cargos no governo federal em dezembro de 2020, ao menos 729 tiveram salários acima do teto constitucional, o que resultou na perda de R$ 5,1 milhões aos cofres públicos.

O presidente Jair Bolsonaro patrocinou mudanças legislativas que turbinaram os rendimentos da alta cúpula das Forças Armadas e o seu próprio salário. Um projeto de lei de autoria do governo permitiu que a indenização paga aos militares que são transferidos para a reserva, por exemplo, subisse de quatro para oito vezes o valor do soldo. Em abril de 2021, o governo editou uma portaria que mudou as regras do teto do funcionalismo, beneficiando diretamente Bolsonaro e militares.

Adicional de habilitação

“É importante que a Câmara vá a fundo porque a gente percebe que tem aí um processo de privilégios que precisa ser investigado. Apenas com quem recebeu mais de R$ 100 mil acima do salário em 2020 o impacto foi de mais de R$ 600 milhões sobre a folha de pagamento. O governo tem de explicar a motivação e a base legal de tudo isso”, cobra Elias Vaz.

O deputado também chama atenção para outro artifício que, segundo ele, tem sido utilizado para inflar o contracheque de oficiais: o chamado adicional de habilitação militar. Criado para valorizar as carreiras e aperfeiçoar os militares, o benefício tem sido usado, segundo ele, por oficiais às vésperas de entrarem para a reserva. Segundo Elias, o aumento nos rendimentos pode chegar a 73% em alguns casos.

“A nossa preocupação é que o presidente esteja usando essas benesses como forma de cooptar as Forças Armadas para colocar em prática as ameaças constantes que vem fazendo à democracia”, afirma o deputado. O pagamento do adicional de habilitação a oficiais que em seguida entram para a reserva é objeto de representação apresentada pelo deputado goiano ao TCU. Ele aguarda a volta aos trabalhos da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, interrompidos por causa das eleições, para que seja votado requerimento de sua autoria que cobra esclarecimentos sobre os supersalários de militares da ativa, inativos e pensionistas.

Veja a nota do Ministério da Defesa divulgada quando foram revelados os supersalários dos militares, em agosto:

“Nota de esclarecimento: remuneração de militares e de pensionistas

Acerca de matérias noticiadas por veículos de comunicação, nesta quinta-feira (11.8), que trataram da remuneração de militares e de pensionistas, o Ministério da Defesa esclarece que os valores referem-se à remuneração mensal e a indenizações pontuais e a atrasados. Essas indenizações são relativas ao recebimento de férias não usufruídas ao longo da carreira, ou a outros direitos, que são calculados na ocasião da passagem dos militares para a reserva.

Destaca-se que os totais dos valores individuais, mencionados nas matérias, apresentam incorreções, pois somaram informações simultâneas de contracheque e de Ordem Bancária lançadas no Portal da Transparência.

Cabe ressaltar que as Forças Armadas cumprem, rigorosamente, a legislação que rege o pagamento de seus militares e servidores civis. Os valores são lançados no Portal da Transparência e são submetidos à fiscalização dos órgãos de controle.”

AUTORIA

Edson Sardinha

EDSON SARDINHA Diretor de redação. Formado em Jornalismo pela UFG, foi assessor de imprensa do governo de Goiás. É um dos autores da série de reportagens sobre a farra das passagens, vencedora do prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009. Ganhou duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog. Está no site desde sua criação, em 2004.

CONGRESSO EM FOCO
Eleição proporcional de 2022: governabilidade em prejuízo da representatividade

Carestia anula efeito eleitoral do Auxílio Brasil e castiga Bolsonaro

Alta no preço dos alimentos pode fazer a inflação pesar até três vezes mais para as famílias de baixa renda

 

Às voltas com um país em crise, Jair Bolsonaro (PL) ignorou os apelos de sua equipe econômica e turbinou o valor do Auxílio Brasil durante o período eleitoral. De olho no ganho em popularidade que colheu em 2020, logo após a implantação do auxílio emergencial na pandemia de Covid-19, o presidente esperava que o novo benefício fosse seu grande trunfo na campanha à reeleição.

É possível que, com o Auxílio Brasil, reajustado de modo temporário – e eleitoreiro – para R$ 600, Bolsonaro tenha contido a perda de votos para o ex-presidente Lula nas camadas mais pobres do eleitorado. Mas a “redução de danos” não impedirá o presidente de sofrer uma derrota particularmente expressiva entre esses eleitores.

A principal razão para o impacto limitado do Auxílio Brasil é o aumento das despesas básicas, notadamente com alimentos, que impacta justamente os mais pobres. Mesmo com a tendência à deflação no País, a sensação de carestia segue presente no dia a dia das famílias de baixa renda.

A carestia castiga o candidato Bolsonaro porque esse eleitor é mais vulnerável ao encarecimento dos produtos da cesta básica. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a alta no preço dos alimentos pode fazer a inflação pesar até três vezes mais para as famílias de baixa renda.

É o que tem ocorrido desde meados de 2020. Números do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial do Brasil) mostram que, nesse período, o preço dos alimentos cresceu mais do que o conjunto dos produtos e serviços. Em setembro, a inflação geral acumulada em um ano baixou para 7,17%, enquanto a inflação de alimentos segue em dois dígitos: 11,71%.

A campanha eleitoral chegará ao fim sem que Bolsonaro tenha resolvido (ou ao menos enfrentado) efetivamente a carestia e a insegurança alimentar.  Nos últimos três meses, graças à redução no preço dos combustíveis e da energia – que receberam subsídios –, houve deflação no Brasil. Com os alimentos, no entanto, o governo não recorreu a subsídios e só houve registro de deflação em setembro, após alta de 0,24% em agosto.

Assim, mesmo com preços agora em queda, diversos alimentos acumulam inflação de dois dígitos nos últimos 12 meses, conforme o IPCA. O leite, em um ano, ficou 40% mais caro, e o café, 37%. O preço da cebola mais que dobrou, elevando-se em 127%. O macarrão encareceu 20%, e a farinha de trigo, 35%.

A renda extra garantida com o Auxílio Brasil tem sido tragada, acima de tudo, pela inflação de alimentos, o que anula seu efeito eleitoral. Nas casas onde o benefício de R$ 600 chegou, usa-se o dinheiro para repor alimentos recém-cortados e pagar dívidas.

 “A inflação de alimentos, em particular os para preparo no lar, tem impacto direto nas percepções e na confiança dos consumidores, em especial os de baixa renda, que tendem a ‘pensar com o bolso’”, diz Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da Gouvêa Ecosystem. Segundo ele, para os mais pobres a carestia pesa “nas avaliações sobre perspectivas do presente e do futuro próximo com impacto direto nas suas decisões de toda natureza. Especialmente em período de eleições”.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (14) mostra a “vingança” desse eleitor contra o presidente. Conforme o levantamento, Lula, em uma semana, passou de 54% para 58% entre os eleitores que têm renda familiar mensal de até dois salários mínimos (R$ 2.424). Já Bolsonaro oscilou de 37% para 36% – e justo num momento em que o programa tem um número recorde de beneficiários.

Segundo o Datafolha, metade do eleitorado ganha, em média, até dois salários mínimos. A vantagem de Lula sobre Bolsonaro nesse grupo – de 22 pontos percentuais – é muito superior à sua dianteira no conjunto do eleitorado, hoje em cinco pontos (49% a 44%).

A penúltima pesquisa do instituto, divulgada em 7 de outubro, cinco dias após o segundo turno, questionou os entrevistados sobre a relevância de alguns temas para a definição do voto. Para 76%, é importante manter o Auxílio Brasil a R$ 600 – uma demonstração do apoio majoritário a uma espécie de renda mínima.

Porém, os eleitores se revelaram ainda mais preocupados com a redução do desemprego (89%), o combate à inflação (89%) e a defesa dos direitos trabalhistas (91%). Quando o Datafolha pergunta qual dos dois presidenciáveis no segundo turno é “mais preparado” para enfrentar cada um desses desafios, Lula se destaca.

O ex-presidente é visto como o candidato com mais condições de garantir empregos (50%), direitos (55%) e inflação baixa (48%). Na população de baixa renda, esses percentuais saltam, respectivamente, para 57%, 60% e 54%. Não houve auxílio ou qualquer outra medida eleitoreira que tenha feito Bolsonaro superar Lula na preferência dos que mais precisam.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/16/carestia-anula-efeito-eleitoral-do-auxilio-brasil-castiga-bolsonaro/