NOVA CENTRAL SINDICAL
DE TRABALHADORES
DO ESTADO DO PARANÁ

UNICIDADE
DESENVOLVIMENTO
JUSTIÇA SOCIAL

Economia solidária e política

Economia solidária e política

A economia solidária como uma “janela de oportunidade”.

Renato Dagnino

Esse texto trata de dois territórios, o da economia solidária e o do mundo da política (da politics e da policy). No primeiro habitam os movimentos populares e os que com ele se solidarizam. Do segundo participam lideranças da esquerda; com sua agenda particular, que decorre de seu projeto político, ao se enfrentarem com outros atores e agendas, influenciam a política pública. Ele trata também de uma ponte que os liga; que há que (quase) reconstruir para permitir que do contato entre os territórios seja possível impulsionar o processo de “reconstrução e transformação do Brasil”.

Ele ressalta a necessidade de assentar pilares (pelo menos um, próximo ao mundo da política) para elevar a ponte que permitirá à esquerda trafegar entre aqueles territórios acima do caudal, bem mais intenso do que se pensava. Com “avolumável” vazão devido à ameaça que a ponte coloca aos objetivos da classe proprietária, ele é também tributário de incompreensões de parte da esquerda.

A realidade está mostrando que o lado do território da economia solidária da ponte subiu de nível. Ao contrário do que ocorreu com o mundo da política, onde a regressão cultural se evidencia no rebaixamento das agendas de política pública (e do próprio discurso) da esquerda.

A ponte terá que ser elevada com um pilar próximo ao lado do mundo da política. Construído com um concreto “envenenado” com um aditivo de esquerda e um ferro de construção com maior compatibilidade entre seus elementos de liga, ele poderá evitar que o caudal aumentado destrua a ponte.

Antes do final deste texto, argumento que essa ponte é imprescindível para fazer com que a economia solidária possa crescer. Por permitir que se corte o nó górdio que historicamente obrigou governos de esquerda do mundo inteiro a se submeterem à lógica da acumulação de capital para implementação medidas socializantes, ela pode garantir governabilidade aos que a defendem. Para isso, para sair do labirinto do capitalismo periférico por cima, chamo a atenção para uma de suas condições pouco aventada nas proximidades desta ponte.

E, concluindo, desnudo o imprescindível ingrediente cognitivo que as trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento poderão adicionar para a construção desse pilar fazendo com que ela possa ocorrer mais celeremente, antes mesmo que o nível do lado da política venha a ter seu nível aumentado.

O território da economia solidária

Inicio minha descrição constatando sua ascensão. A piora das condições de sobrevivência dos mais pobres provocada pela ação da classe proprietária para aumentar o seu lucro (e agravada pela pandemia) fortaleceu os laços de solidariedade que caracterizam o movimento da economia solidária e impulsionam suas ações.

No início, e às vezes, meramente defensivas, elas ganharam organicidade e direcionalidade. A inerente capilaridade e transversalidade da economia solidária e sua capacidade de acolher e encaminhar múltiplas demandas dos mais pobres faz com que ela seja alçada pelo movimento popular como um fato político que lideranças da esquerda estão considerando com crescente atenção.

Algumas, inclusive, têm reconhecido que caso ela tivesse permanecido na agenda governamental quando – vinte anos atrás – ela ocupava um espaço importante na agenda política da esquerda, a inominável derrota que está sendo infligida à classe trabalhadora não teria sido tão grave.

Um fluxo de conscientização, participação e empoderamento frequentemente associado a “pautas identitárias” levantadas pelos mais pobres cresce nas “quebradas” urbanas. Até há pouco situadas (sob diversos aspectos que há que privilegiar, mas que não vou tratar aqui) bem atrás do movimento popular do campo onde existem resquícios de propriedade coletiva dos meios de produção, elas adquirem carecente protagonismo.

Destaca-se também um outro contingente deste território que se arregimenta em torno das ações como as que ocorrem em Universidades – incubação, curricularização da extensão etc. – e em organizações da sociedade civil. Entre outras, elas fazem crescer a percepção, impulsionada pela crise ambiental e pela sua mais cruel manifestação (a intencional letalidade da pandemia em nosso país), de que só a solidariedade ativa pode fazer frente à ganância suicida cada vez mais evidente da classe proprietária.

Como a esquerda tem jogado no mundo da política?

Passando para o outro lado da ponte, para o mundo da política, onde meu foco se concentra nas lideranças da esquerda (o ator social ou segmento que me interessa aqui analisar), vejo-as pouco atentas ao que ali vem ocorrendo.

Tenho a impressão de que formam um sistema com um comportamento errático. Algumas de nossas lideranças atuam como aquele que diz à amiga que veio falar de um filme: “não vi e não gostei…”. Sem aprofundar, constato que as forças relacionadas à economia solidária que atuam nesse sistema não têm uma resultante positiva.

Mas como fui adestrado para evidenciar condicionantes mais estruturais, vejo algo que merece consideração. A práxis da esquerda consolidada ao longo de muitas e muitas décadas tem se orientado na defesa dos direitos que o capitalismo do Norte permite aos seus trabalhadores. E na tentativa de amenizar o caráter ainda mais selvagem e predatório que ele assume na periferia.

Entre outros aspectos, como a correta percepção de que a luta dos trabalhadores deve ser global e unitária, a legitimação alcançada pelos êxitos aqui obtidos fez com que a maior parte das lideranças da esquerda não prestasse devida atenção a parcela da classe trabalhadora que é aqui majoritária. Embora evidentemente necessária, sua atenção à dinâmica defensiva circunscrita aos trabalhadores diretamente engajados na produção e consumo capitalistas de bens e serviços, dificultou seu entendimento sobre a economia solidária. Sobre seu potencial de inclusão social e produtiva, sobre seu potencial disruptivo da hegemonia do capital, sobre sua capacidade de contribuir para uma sociedade para além do capital”.

Ele explica, por exemplo, o porquê de situar no ministério do trabalho – um espaço reservado nos Estados corporativos ao embate polido ente patrões e trabalhadores sindicalizados – uma iniciativa cujo objetivo era justamente questionar e buscar alternativas à relação de exploração capitalista. E que deveria, transversalizando mediante uma missão orientada por programa, como se propôs aquela que a precedeu (Fome Zero), a estrutura verticalizada em benefício das políticas que favorecem à classe proprietária.

As lideranças de esquerda e a economia solidária

Em particular, por que é isto que me interessa analisar, vejo as lideranças da esquerda ainda pouco enfronhadas com territórios vizinhos àquele da produção que hoje sobressaem na economia solidária. Entre outros, o arranjo quase financeiro constituído pelos bancos e pelas moedas solidárias que pode vir a competir com o escorchante sistema de agiotagem formado pelos bancos privados e “públicos”. E ser o catalisador de um estilo alternativo de alavancagem da produção e consumo de bens e serviços.

Mais do que isso, vejo que elas continuam focadas nos setores que mais interessavam às alianças que foram se estabelecendo entre as classes proprietárias do Norte e do Sul. E, dentre eles, por razões também compreensíveis, naqueles trabalhadores que, por serem sindicalizados, apresentavam uma condição relativa de partida mais vantajosa para abraçar as causas da esquerda.

Correndo o risco de generalizar, vejo as lideranças da esquerda pouco consciente do que a economia solidária pode contribuir para alavancar o seu projeto político. Segue interpretando-a com a lente keynesiana de seus economistas como uma política compensatória.

Eles até concordam em pô-la no orçamento. Afinal, digo eu, trata-se de uma reivindicação (e até, materialmente falando) de uma “parte” (neste seu duplo sentido) do povo organizado. Aliás, além de politicamente consciente e votante, ela é de longe a potencialmente mais mobilizável para emprestar governabilidade ao um governo de esquerda.

Além do que, e isto talvez seja o decisivo, o problema pode advir do significado de um resultado positivo da defesa que faz a proposta da economia solidária da propriedade coletiva dos meios de produção e da autogestão. Se ele ocorrer, poderá amedrontar a esquerda socialdemocrata que defende a micro e pequena empresa. E ficarão desgostosos aqueles que a veem como colaboracionismo com o capital e como algo que desvia a classe trabalhadora de sua missão revolucionária.

Mas haverá em número crescente os que veem a economia solidária como um socialismo que terá a cara que eles puderem dar a ele. São eles que conseguirão fazer com que ela deixe de ser uma “política social” (aquela que a classe proprietária deveria chamar de antieconômica, dado que diminui o seu quinhão do erário) e passe a ser uma política econômica. Não como aquela do passado (que a esquerda deveria chamar de antissocial, dado que prejudica a classe trabalhadora) e sim como uma política que o inclua o pobre no orçamento como o que ele é, o cidadão mais capaz de tirar o país do atoleiro.

Concluindo este ponto, tendo a constatar que as lideranças da esquerda não têm prestado a atenção devida à proposta que o movimento da economia solidária formula.

Três aspectos da conjuntura

Pelo menos três aspectos da realidade observada no lado da ponte em que se situa o mundo da política deveriam motivar uma inflexão na prática das lideranças de esquerda.

O primeiro, pode ser sintetizado pelo fato de que dos 180 milhões brasileiros em idade de trabalhar somente 30 têm carteira assinada, 10 são funcionário públicos e cerca de 80 nunca tiveram e muito provavelmente nunca terão emprego. E que se isso for permitido, tenderão a ser mantidos pela nossa anoréxica classe proprietária na “economia infernal”.

O segundo aspecto tem a ver com o nível de desindustrialização da nossa economia. E que, é essencial entender para que não nos enganemos, é causada pela avaliação que desde sempre e todos os dias faz a classe proprietária acerca das opções que se apresentam no “mercado” (ou no espaço reservado por ela para a acumulação de capital). As opções rentista, contemporânea, e a agroexportadora, ancestral, são derivadas da sua adaptação, como de costume subordinada ao contexto – já há tempos ultraliberal e até agora de direita – hegemonizado pelos seus parceiros do centro.

O terceiro tem a ver com o fato de que, não por acaso, é o agronegócio a vedete desse movimento de desindustrialização. Mais do que nos setores industriais, que já foram o maior interesse da classe proprietária imperialista, é aí (no comércio e em outros bens primários) que ela hoje está focada. Mesmo quando se observa apenas a aceleração de sua contribuição para o crescimento econômico, o dinamismo potencial de atividades (e segmentos) localizados a montante (equipamentos, defensivos, semente) e também a jusante (alimentos super processados), sua capacidade de captar as multi vantagens de comércio exterior num dos países mais desiguais e fechados do mundo, fica evidente o que tenderá a concentrar o interesse da classe proprietária.

A economia solidária como uma “janela de oportunidade”

A esquerda quando no governo, ao longo da história e em todo mundo, tem-se embretado (auto encurralado) numa armadilha, numa espécie de labirinto que foi sendo construído por eventos como os que mencionei acima.

Para promover as políticas socializantes, que na maior parte dos casos têm-se limitado a medidas compensatórias exigidas em momentos de crise para restabelecer o bom funcionamento da economia, os governos de esquerda têm buscado fazer funcionar a economia e o Estado capitalistas. É assim que têm promovido o crescimento esperado do derrame causado pelas atividades empresariais. Quando mais não seja porque a alocação de recursos àquelas políticas supõe que existam impostos arrecadados mediante um círculo virtuoso que pode ser desencadeado com o subsídio estatal a essas atividades.

Foi demonstrado que nossa estrutura tributária baseada no imposto sobre o consumo faz com que quando o “recurso compensatório” chega aos mais pobres, ele – em grande parte e imediatamente – “volta” ao erário como tributo embutido nos bens e serviços que são comprados. O que não sabemos, mas podemos avaliar, é capacidade da economia solidária para exorcizar esse anátema que acompanha a esquerda e permitir que nosso próximo governo de esquerda possa sair por cima, como se tem que fazer, daquele labirinto.

Que ocorreria se esses bens e serviços fossem agenciados e produzidos no “andar de baixo”, pelos mais pobres? Se um governo de esquerda, “bypassando” (parcialmente é claro!) a empresa, evitando “financiar” o seu lucro, impedindo “falhas de mercado” e “externalidades negativas” sociais e ambientais que ela causa, coibindo “imperfeições” como a sonegação e a corrupção (que no nosso caso somam mais do que 10% do PIB), pudesse mobilizar o potencial da economia solidária? Se alocando parte de seu poder de compra (que chega a quase 18% do PIB) às suas redes de produção e consumo. Ele pudesse, inclusive sem passar pelo mercado, proporcionar a satisfação das necessidades coletivas hoje insatisfeitas ou mal atendidas?

Se, sistemática e simultaneamente a uma – inevitável dada a correlação de forças vigente – reindustrialização empresarial, esse governo implementasse uma reindustrialização solidária? Se, junto com a primeira e seu subsídio à geração de emprego e salário, fosse promovida uma outra, baseada no subsídio à geração de trabalho e renda, na propriedade coletiva e na autogestão. Uma reindustrialização que fosse capaz de produzir bens e serviços de natureza industrial com alguma autonomia em relação ao circuito da acumulação de capital, nas redes de empreendimentos solidários?

Um recado às trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento

No início deste texto, me referi ao pilar que deve ser construído próximo ao mundo da política para elevar a ponte. E adiantei que cabia a essas trabalhadoras e trabalhadores a tarefa de adicionar o ingrediente cognitivo que é necessário para fazer com que esse pilar fique pronto antes mesmo que o nível do lado da política venha a ter seu nível aumentado.

Adentro na parte normativa deste texto lembrando que é sabido que as ações que deveriam ocorrer para reverter a exclusão e promover a organização dos excluídos demandam uma inteligência e capacidade de gestão pública (governamental e social) contraditórias com o funcionamento do aparelho do Estado (ou seu caráter de classe). E, também, que elas dependem da escassa existência de pessoas nas instituições a ele adventícias onde são formados os quadros da esquerda.

Essas instituições não têm sido capazes de impulsionar esse processo. Pelo contrário, seguem orientando suas agendas de ensino, pesquisa e extensão no sentido de dar curso às condições cognitivas favoráveis à acumulação do capital.

O fato de que essas instituições, cuja elite hegemoniza a elaboração (formulação, implementação e avaliação) da política cognitiva e onde é ainda significativa a presença das ideias de esquerda, sigam alimentando o mito do derrame na periferia do capitalismo merece destaque. Dado que seguem atuando como se a empresa local, aproveitando as condições favoráveis que consistente e reiteradamente engendram, pudesse promover o desenvolvimento que ambicionam, essas instituições de ensino e pesquisa terminam reforçando o caráter excludente de nossa condição periférica.

A superestrutura político-ideológica do capital, que garante o funcionamento e legitima sua infraestrutura econômico-produtiva, está tão sólida e minuciosamente construída que muitas vezes nem mesmo aqueles que integram essas instituições e compreendem a contradição inerente ao capitalismo, sejam capazes de fugir à sua lógica. A dinâmica da acumulação do capital que atravessa o “seu” Estado é tão forte a ponto de fazer com que seus integrantes de esquerda deem livre curso e até participem de ações contrárias à sua ideologia.

Essa situação, digo de passagem sem aqui aprofundar, contribui para um círculo vicioso que perpetua uma política cognitiva que repele os elementos analítico-conceituais e os instrumentos metodológico-operacionais que poderiam valorizar a proposta da economia solidária. Interrompê-lo depende desses integrantes de esquerda identificados com a economia solidária; mas também depende das lideranças da esquerda que se dispõem a ser governo. Esses dois atores terão que mudar sua cultura institucional e tradição comportamental. O que será facilitado à medida que convivam e se misturem com aqueles, organizados, que estão vindo para atravessar a ponte. Eles têm a responsabilidade e a capacidade de contribuir para construção do pilar cognitivo da ponte.

Concluo com o convite, a quem como eu é trabalhadora ou trabalhador do conhecimento, para que ajudem a aproveitar a “janela de oportunidade” que representa a economia solidária para nosso próximo governo de esquerda.

Renato Dagnino é professor no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Economia popular solidária (Tomo editorial).

Fonte: A Terra é Redonda
Data original da publicação: 23/09/2022

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/economia-solidaria-e-politica/

Economia solidária e política

Alexandre de Moraes remete suposto documento do PL sobre urnas para inquérito das fake news

ELEIÇÕES 2022

A mais nova investida dos aliados do presidente Jair Bolsonaro de questionar o sistema eletrônico de votação foi parar no inquérito do processo que investiga fake news para a apuração de informações comprovadamente falsas.

É o que informa o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em nota divulgada na noite desta quarta-feira (28). “O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Alexandre de Moraes, determinou a imediata remessa do documento ao Inquérito nº 4.781/DF, para apuração de responsabilidade criminal de seus idealizadores – uma vez que é apócrifo –, bem como seu envio à Corregedoria-Geral Eleitoral para instauração de procedimento administrativo e apuração de responsabilidade do Partido Liberal e seus dirigentes, em eventual desvio de finalidade na utilização de recursos do Fundo Partidário”, diz a nota. O Inquérito 4.781/DF é o que apura a divulgação de fake news.

Veja aqui a íntegra da nota.

Segundo a nota do TSE, as afirmações contidas nas duas páginas do suposto documento “são falsas e mentirosas, sem nenhum amparo na realidade, reunindo informações fraudulentas e atentatórias ao Estado Democrático de Direito e ao Poder Judiciário, em especial à Justiça Eleitoral, em clara tentativa de embaraçar e tumultuar o curso natural do processo eleitoral”.

Segundo a nota, parte dos “elementos fraudulentos” contidos no tal documento já eram objeto de investigação no inquérito das fake news.

O dcumento, divulgado pelo vice-presidente do PL,  Deputado Capitão Augusto (SP), afirma que uma auditoria no sistema eletrônica indicaria um “quadro de atraso” em relação à implantação de medidas de segurança, o que geraria “vulnerabilidades relevantes nas urnas”. O documento não foi enviado oficialmente ao TSE, mas jogado por Capitão Augusto numa lista de transmissão por whatsapp.

AUTORIA

Rudolfo Lago

RUDOLFO LAGO Diretor do Congresso em Foco Análise. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

CONGRESSO EM FOCO
Economia solidária e política

Os custos de um 2° turno para presidente

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Certamente nas últimas semanas você deve ter ouvido falar em promover o “voto útil” para que a eleição seja finalizada em primeiro turno. Sim, de fato um “tira-teima” é importante, como é importante que o eleitor tenha oportunidade de ter mais tempo para refletir e assim fazer uma escolha melhor. Ocorre que, neste ano de 2022, não estamos vivendo tempos normais. E esta não é uma eleição normal. E nem adianta falar que a culpa é da polarização, pois a tão falada polarização existe desde a redemocratização.

O primeiro custo e certamente o principal deles, no momento, é o aumento da violência e da intolerância política. Sobretudo nesta reta final, acompanhamos diariamente a agressão física e moral, além do ataque a tiros, muitas vezes seguido de morte. E, de um modo muito claro, percebe-se de que lado está a violência: apoiadores de Bolsonaro estão agredindo e assassinando apoiadores de Lula. Daí, perguntamos: segundo turno para quê? Para dar margem à mais violência? Quantos mais terão que morrer?

O segundo custo está relacionado ao aumento de mais tempo a ser dedicado pela nação a um segundo processo eleitoral traumático e à injeção de mais dinheiro público para empurrar uma eleição para o segundo turno onde as chances são praticamente nulas de alteração do resultado eleitoral. Ou seja: salvo a ocorrência de uma hecatombe, Luiz Inácio Lula da Silva será eleito novamente presidente da República. Nenhum analista sério, com base em dados sérios e com os pés na realidade cogita a hipótese de que Jair Bolsonaro seja reeleito. O atual presidente ultrapassa os 40% de rejeição e 50% de reprovação de governo: isso significa um saco de chumbo amarrado nos pés.

O terceiro custo é consequência do que acabamos de explicar. Caso haja um segundo turno, o Brasil verá um dos maiores balcões de negócios já instalados nessa República. Fora a turma do “vira-casaca”, uns cobrarão caro para ficar no barco furado de Bolsonaro e especialmente os que foram candidatos, aproveitarão para encontrar oportunidades de pagar as suas contas de campanha. Por outro lado, outros valorizarão o passe sob o argumento de ajudar na consolidação da vitória de Lula. O que isso significa? Mais figurões na fila para ocupar espaços no governo. Aumentarão assim, os compromissos assumidos por Lula.

Esse comprometimento influenciará no quarto custo que é o da construção da governabilidade, pois, não se tem ideia ainda do tamanho do apoio no Congresso que o presidente Lula terá. Daí, ao invés de um, serão dois custos: Um para bancar a turma do pula-pula que não vive sem governo e o outro para bancar a adesão dos candidatos a presidente derrotados no 1° turno.

O quinto custo então, virá na sequência: o impacto causado na construção e execução das políticas públicas, e no comprometimento da máquina, porque o futuro presidente Lula, depois de eleito mediante mais compromissos assumidos estará mais engessado. Do mesmo modo, o atual presidente Bolsonaro, que está atrás nas pesquisas e já entregou as mãos e os pés ao centrão, entregará o resto do corpo e alma não só seus, mas, do país, em um esforço gigantesco, para tentar, em vão, ultrapassar, o candidato Lula. Ou seja, com a eventual existência de um segundo turno, o Brasil, que tem urgência em reestabelecer políticas públicas responsáveis no meio ambiente, combate à fome, educação, economia, saúde, entre outras áreas, estará adiando por mais um mês a possibilidade de rearrumação da casa. Reaparece assim, mais uma vez, o custo do tempo – ou melhor, da perda de tempo, pois, ao invés de o país já planejar desde já um processo de transição – se é que ele existirá e será pacífico – e na formação de equipes e metas urgentes em cada área de governo, perderá mais um mês com um segundo e traumático processo eleitoral, sem chances de alteração de resultado.

Enfim, caso haja um segundo turno, o resultado da eleição para presidente não será alterado e todos esses custos serão pagos pela nação, seja à vista, ainda no governo Bolsonaro ou a prazo, um pouco mais adiante, no futuro governo Lula.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

AUTORIA

Robson Carvalho

ROBSON CARVALHO Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), é apresentador de TV na Band Nordeste e na TVT, de São Paulo.

Economia solidária e política

Conspiração dos mesários bolsonaristas é fake

O boato que circula nas redes está permeado de informações erradas sobre o trabalho dos mesários no dia da eleição.

Tem sido divulgada na internet uma informação duvidosa afirmando que o “TSE teme que tenha havido inscrição combinada de mesários bolsonaristas” e que a não entrega do comprovante de votação indicaria que o voto do eleitor não foi computado pela urna eletrônica. O texto diz que “mesários bolsonaristas não vão entregar aos eleitores os comprovantes de votação e nem exigir assinatura no livro de registro” com o intuito de alegar que “há mais votos nas urnas do que eleitores confirmados”.

Segundo o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), isso não é verdade. A coligação Brasil da Esperança também tem pedido compartilhamento da informação correta, devido à disseminação do boato em grupos de eleitores de Lula. A conspiração disseminada está coalhada de informações incorretas, como é comum neste tipo de “denúncia”.

Em primeiro lugar, para a Justiça Eleitoral, a posição política do cidadão que é convocado como mesário não deve interferir no exercício da sua função no dia das eleições. As atribuições do mesário são previstas na Constituição Federal e o apoio durante o pleito contribui com o exercício da democracia por toda a sociedade ao garantir a tranquilidade durante a votação.

Em cada seção eleitoral, quatro mesários são escalados, além dos fiscais de partido, observadores credenciados pela Justiça Eleitoral, e centenas de eleitores que circulam ao longo do dia. Todos podem e devem fiscalizar a atuação um do outro. Qualquer sinal de coação, boca de urna ou propaganda eleitoral deve ser apontado e denunciado ao juiz eleitoral, pois são crimes previstos na legislação eleitoral, com penas de detenção ou reclusão e pagamento de multas. Essas orientações são passadas aos envolvidos durante a preparação das eleições.

Números

O crescimento gradual de mesários voluntários a cada eleição desde 2016 é resultado de uma grande campanha de divulgação feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e intensificada diante da pandemia de covid-19, inclusive com a participação de uma figura pública e autoridade em saúde como o médico Dráuzio Varela.

O maior crescimento observado foi de 2018 para 2020. Observe:

2016 – 1.762.569 mesários – 360.540 voluntários (20%).

2018 – 1.896.732 mesários – 433.277 voluntários (23%)

2020 – 1.588.060 mesários – 679.546 voluntários (43%)

2022 – 1.820.858 mesários – 862.064 são voluntários (47%).

Comprovante de votação é recibo de quitação

Sobre o segundo ponto da fake news disseminada, o TSE esclarece que assinar o caderno que fica na mesa receptora com os nomes das eleitoras e eleitores de cada seção é necessário quando o eleitor não tem biometria cadastrada ou a biometria não foi reconhecida.  Com a biometria sendo reconhecida, não há necessidade de assinar o caderno.

Além disso, é importante informar que todo mesário é orientado a entregar o comprovante de votação. Eleitoras e eleitores não precisam exigir tal comprovante, porque isso já faz parte da rotina de atividades dos mesários, que são treinados com antecedência pela Justiça Eleitoral.

No entanto, não é o comprovante que garante que o eleitor já votou, é o software da urna. O comprovante é apenas um recibo para o eleitor e não para a Justiça Eleitoral. No passado, esse comprovante era necessário para regularizar outros tipos de documento como passaporte, por exemplo. Atualmente, a certidão de quitação eleitoral disponível para todas e todos no Portal do TSE substitui esse comprovante. A certidão pode ser impressa de forma rápida e fácil na internet, dispensando o eleitorado de guardar tal comprovante.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/09/28/conspiracao-dos-mesarios-bolsonaristas-fake/

Economia solidária e política

Economistas lançam manifesto pelo voto útil em Lula no primeiro turno

Grupo ligado a FGV, Insper e faculdades americanas e britânicas ressalta ter ‘sérias discordâncias’ com o PT, mas consideram governo atual um ‘atraso maior’

O ex-presidente Lula | Foto: Ricardo Stucker/Flickr

Um grupo de economistas ligados a instituições de ensino brasileiras e internacionais defende, em carta-manifesto a favor do voto útil em Lula (PT) no primeiro turno, a fim de que a eleição seja definida já neste domingo (2/10), com a vitória do candidato da coligação Brasil da Esperança.

No texto, integrantes da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Insper, PUC-Rio e universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido, criticam a má gestão de Jair Bolsonaro (PL) em áreas como saúde, pandemia de Covid-19, educação, meio ambiente e segurança pública. No quesito econômico, asseguram que “desmontou-se o orçamento federal e foram criados gastos direcionados a grupos de eleitores e interesses específicos meses antes da eleição” o que consideram “uma afronta às instituições eleitorais”.

O coletivo afirma ainda que apesar das discordâncias a respeito das políticas implementadas pelo governo petista no passado, reconhecem no ex-presidente Lula a única liderança capaz de derrotar o “atraso maior representado pelo atual governo”. E que viabilizar a vitória de Lula já no primeiro turno “parece a resposta mais contundente, segura e efetiva de proteção à democracia no Brasil, aumentando assim o compromisso do futuro governo com políticas que unifiquem o país.”

Confira abaixo a íntegra do documento e seus signatários.

“Neste momento crítico da história brasileira, nós, abaixo-assinados/as, economistas que sempre nos posicionamos em favor da estabilidade econômica, do fortalecimento das instituições e da justiça social, nos manifestamos em apoio à candidatura do ex-presidente Lula, já no primeiro turno.

As ações e a inépcia do atual governo causaram um desastre no processo de desenvolvimento institucional e socioeconômico do país, afetando dramaticamente o bem-estar da população brasileira.

O presidente promoveu o desmonte do aparato de fiscalização de crimes ambientais, incentivando o desmatamento acelerado e causando uma grave deterioração do meio-ambiente e a depreciação de nosso capital natural.

A política de saúde foi calamitosa, o governo federal não coordenou os esforços do SUS e a gestão da pandemia contribuiu para dezenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas. O presidente, ainda nesse contexto, demonstrou total falta de empatia com as pessoas que sofriam com a morte de entes queridos pela Covid-19.

Não houve qualquer avanço na política educacional, que passou a ser pautada por ideologia, ocasionando retrocesso no aprendizado de crianças e adolescentes, em particular durante a pandemia e principalmente entre os mais vulneráveis.

A política de segurança pública se pautou por estimular a resolução de conflitos de forma individual e violenta: o acesso a armas de fogo e munições pela população foi extremamente facilitado e buscou-se estabelecer uma salvaguarda para policiais matarem, com a tentativa de aprovação da excludente de ilicitude.

Na economia, desmontou-se o orçamento federal e foram criados gastos direcionados a grupos de eleitores e interesses específicos meses antes da eleição – uma afronta às instituições eleitorais. Apesar da retórica, houve um desmonte da capacidade institucional de combate à corrupção, e várias denúncias envolvendo o atual governo, o próprio presidente e seus familiares não foram esclarecidas.

Por fim, e ainda mais importante, o atual presidente fez e continua a fazer reiteradas ameaças à democracia, agredindo o judiciário, afirmando que não respeitará os resultados da eleição e fomentando um clima de profunda instabilidade e o risco real de ruptura institucional.

Em que pesem sérias discordâncias a respeito de políticas implementadas no passado por governos do PT, reconhecemos no ex-presidente Lula a única liderança capaz de derrotar o atraso maior representado pelo atual governo. Viabilizar a sua vitória em primeiro turno nos parece a resposta mais contundente, segura e efetiva de proteção à democracia no Brasil, aumentando assim o compromisso do futuro governo com políticas que unifiquem o país.

Votamos em Lula em prol da união de um amplo espectro de forças políticas em defesa da democracia, na esperança de que possamos ter um governo para todas e todos os brasileiros.

Amanda de Albuquerque
Bernard Herskovic
Bernardo Silveira
Bruno Giovannetti
Carlos Góes
Carolina Grottera
Cláudio Considera
Claudio Ferraz
Daniel Cerqueira
Diana Moreira
Dimitri Szerman
Emanuel Ornelas
Fernanda Estevan
Filipe Campante
Francisco Costa
Gabriel Ulyssea
Joana Monteiro
Joana Naritomi
João Ramos
José Tavares de Araújo Jr
Laura Karpuska
Laura Schiavon
Marco Bonomo
Marcos Ross Fernandes
Mayara Felix
Octavio de Barros
Otaviano Canuto
Paula Pereda
Paulo Corrêa
Paulo Furquim de Azevedo
Rafael Costa Lima
Raphael Corbi
Ricardo Dahis
Rodrigo R. Soares
Rudi Rocha
Sergio Firpo
Thomas Fujiwara
Tiago Cavalcanti

Afiliações

FGV, George Washington University, Insper, Johns Hopkins University, London School of Economics, PUC-Rio, Princeton, UFF, UFPE, University of British Columbia, University of California – Davis, University of California – Los Angeles, University of California – San Diego, University of Cambridge, University College London, University of Delaware, USP, Yale“

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/09/28/economistas-lancam-manifesto-pelo-voto-util-em-lula-no-primeiro-turno/