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Direitos trabalhistas de refugiados são tema do programa Jornada

Direitos trabalhistas de refugiados são tema do programa Jornada

No Brasil, há mais de 60 mil pessoas reconhecidas como refugiadas, segundo o Comitê Nacional de Refugiados (Conare). Esses imigrantes enfrentam não apenas o desafio de se adaptar a uma nova cultura, mas também de encontrar um lugar no mercado de trabalho. O quarto e último episódio desta temporada do programa Jornada aborda esse tema.

A venezuelana Aracelys Alvillar, que buscou refúgio no Brasil em fevereiro deste ano, relata a experiência de cruzar a fronteira e as dificuldades que passou até conseguir um emprego formal.

O ministro do Tribunal Superior do Trabalho Alberto Bastos Balazeiro explica quais direitos estão assegurados a pessoas estrangeiras que vivem no país e detalha as garantias trabalhistas daquelas que obtém refúgio.

O porta-voz da Agência da ONU para Refugiados no Brasil Luiz Fernando Godinho também participa do programa. Ele destaca iniciativas de apoio oferecidas por organizações parceiras para a preparação e a recolocação desses profissionais no mercado brasileiro.

No episódio, a empresária Gabriela Furtado Maia ressalta que a contratação de refugiados evidencia a responsabilidade social das empresas e agrega valor para as organizações.

O Jornada é uma produção da Coordenadoria de Rádio e TV do Tribunal Superior do Trabalho. Lançado por temporadas, o programa aborda temas relativos ao mercado de trabalho e aos direitos trabalhistas.

Assista aos episódios da 4ª temporada do Jornada:

Episódio 1 – Pessoas com deficiência e trabalho

Episódio 2 – Futuro do trabalho

Episódio 3 – Mercado gamer

Episódio 4 – Refugiados e direitos trabalhistas

Fonte:  TST – 07/11/2022
Direitos trabalhistas de refugiados são tema do programa Jornada

As negociações salariais de setembro de 2022 melhoram, aponta DIEESE

Cerca de 40% das 450 negociações analisadas até a finalização deste boletim, referentes à data-base setembro, fixaram reajustes acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outras 38% registraram resultados iguais ao índice inflacionário e 22,4%, abaixo dele.

Com 77,6% dos reajustes iguais ou superiores ao INPC-IBGE, os resultados são os melhores das últimas 15 datas-bases. Refletem o impacto da queda dos preços (deflação) ocorrida nos últimos três meses e o efeito das negociações de categorias com maior poder de negociação. Os dados de setembro se assemelham aos de junho de 2022, quando 75,9% dos reajustes foram iguais ou superiores ao INPC.

Confira o documento de análise do DIEESE

Fonte:  Rádio Peão Brasil

https://mundosindical.com.br/Noticias/54268

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Geraldo Alckmin nomeia coordenadores da equipe de transição. Confira os nomes

O vice-presidente eleito, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), divulgou nesta terça-feira (8), os nomes dos coordenadores do gabinete de transição. Alckmin coordena a transição após a escolha do ex-presidente Lula (PT), que iniciará um novo mandato a partir de 2023.

A coordenação Executiva ficará a cargo do ex-deputado federal Floriano Pesaro (PSB-SP). A Coordenação de Articulação Política será da presidente do PT e deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do partido. A coordenação dos Grupos Técnicos ficará a cargo do ex-ministro Aloizio Mercadante, e a coordenação de Organização da Posse será de responsabilidade da futura primeira-dama e socióloga Janja da Silva.

Também foram escolhidos os membros representantes dos partidos na transição, que são os seguintes: o deputado Antônio Brito (BA), pelo PSD; Carlos Siqueira, presidente do partido, pelo PSB; Daniel Tourinho, presidente do partido, pelo Agir; Felipe Espirito Santo, pelo Pros; Gleisi Hoffmann, pelo PT; Guilherme Ítalo, pelo Avante; Jefferson Coriteac, pelo Solidariedade; José Luiz Penna, presidente do partido, pelo PV; Juliano Medeiros, presidente do partido, pelo PSOL; Luciana Santos, presidente do partido, pelo PCdoB; Wesley Diógenes, porta-voz do partido, pela Rede; e o deputado federal Wolney Queiroz (PE), pelo PDT.

Na área econômica, Geraldo Alckmin também confirmou os nomes dos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida, conhecidos como “pais do Plano Real”, além Guilherme Mello e Nelson Barbosa. Já na área de desenvolvimento social, Alckmin confirmou os nomes da senadora Simone Tebet (MSB-MS), da ex-ministra Márcia Lopes, da economista Tereza Campello e do deputado estadual do PT em Minas André Quintão. Outros nomes devem ser divulgados nos próximos dias.

Confira todos os grupos técnicos:

O anúncio de Alckmin foi realizado no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, onde a equipe deve trabalhar. As nomeações serão publicadas na edição desta quarta-feira (9) do Diário Oficial. A equipe deve trabalhar no segundo andar do prédio.

Geraldo Alckmin e o ex-presidente Lula terão gabinetes individuais. Outros 15 gabinetes serão utilizados por outras autoridades. O espaço ainda conta com quatro salas de reuniões e um ambiente de trabalho para o restante da equipe. O espaço cedido à equipe de transição tem cerca de 3 mil metros quadrados.

AUTORIA

Tércio Amaral

TÉRCIO AMARAL Tércio Amaral. Editor. É jornalista formado pela Unicap, com mestrado e doutorado em História (UFPE). Atuou no Diários Associados como repórter e editor de política. Foi coordenador de comunicação no Ministério da Educação e tem passagem por assessoria de comunicação do Congresso Federal.

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Quantos votos Lula e Bolsonaro receberam em cada município no 2º turno

O Congresso em Foco apresenta, no mapa interativo abaixo, o resultado da votação em segundo turno para presidente da República no Distrito Federal e em cada um dos 5.568 municípios brasileiros em 30 de outubro de 2022.

Na eleição mais disputada da história do país desde a redemocratização, Lula (PT) foi eleito com 60.345.999 votos (50,90% dos válidos), derrotando Jair Bolsonaro (PL), que recebeu 58.206.354 votos (49,10% dos válidos). O mapa também permite a você comparar a votação deste ano com a de 2018, quando Bolsonaro venceu Haddad, por 55,13% a 44,87% dos votos válidos.

Selecione o estado, aguarde alguns segundos para o mapa carregar e passe o cursor por cada município. Também é possível buscar as informações pelo nome da cidade. As cidades marcadas em vermelho foram vencidas pelo candidato do PT no segundo turno, enquanto as de azul deram a vitória a Bolsonaro. Os dados a seguir são do TSE, e a arte, de Thiago Freitas.

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O “bolsonarismo” é um problema maior que Bolsonaro

Quando se abre a porta do hospício, o porteiro deixa de ter importância e a prioridade é acalmar os ânimos dos pacientes que escaparam e colocá-los de volta na ala de internação.

Para poder explicar melhor o tamanho da gravidade do problema que estamos passando, o completo descontrole da situação e os reflexos futuros disso, vou me recordar de um livro que grande parte já teve acesso na época da escola, chamado Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. A maioria que já leu provavelmente teve acesso à versão original lançada em 1970. Em versão recente, Bach resolveu publicar a íntegra do livro, adicionando o quarto capítulo que eu vou explicar adiante. Antes, vamos falar dos três primeiros capítulos e mesmo quem não leu o livro será capaz de entender a intenção do autor e poderemos traçar um paralelo com o que está acontecendo no país.

No primeiro capítulo, uma gaivota chamada Fernão Capelo chega à conclusão de que voar não deveria ser apenas uma forma de se locomover ou disputar restos de comidas dispensadas por pescadores. Seu inconformismo com a limitação imposta ao comportamento das gaivotas faz com que busque realizar coisas que nenhuma outra havia feito, enquanto vive o conflito entre seguir o bando e pertencer ao grupo ou tentar romper barreiras e voar mais rápido, melhor e fazer acrobacias que o permitia buscar alimento em profundidade maior, tendo acesso a peixes melhores. Em determinado momento o grupo, muito tradicional, expulsa Fernão e ele se torna um exilado, sem possibilidade de retorno. Em seu exílio, ele conhece outras duas gaivotas que, assim como ele, buscavam mais e juntos passam a realizar voos que jamais foram imaginados.

No segundo capítulo, Fernão transcende a outra sociedade, mais evoluída e formada por gaivotas que também tinham como obsessão realizar coisas que jamais foram realizadas. A relação entre os alunos e professores é quase sagrada, chegando ao ponto de ser feito um paralelo com a divindade. Em um dos trechos, o autor destaca: “Você tem de compreender que uma gaivota é uma ilimitada ideia de liberdade, uma imagem da Grande Gaivota”. Fernão, então, percebe o contraste entre a antiga comunidade que ele vivia, que era completamente coercitiva.

Chegando ao terceiro capítulo, que era o último na versão original do livro, o destaque vai para a frase do professor de voo mais antigo desse bando, que diz “continuar trabalhando para amar”. Nessa parte Fernão entende que o processo de evolução está na capacidade de perdoar e o progresso está concentrado na arte de ensinar outros para que possam ver o mundo de uma forma diferente. Assim ele retorna ao plano, reaparece no seu bando e passa a ensinar, depois de superar inúmeras barreiras. Junto com seus discípulos mais próximos, começa a mostrar o caminho de “voar por prazer”, de formas diferentes e criativas e não apenas para cumprir uma metodologia ultrapassada, que antes o deixava insatisfeito, triste e inconformado.

Como eu disse, uma nova edição foi lançada, levando em conta o século 21 e suas particularidades. Segundo o autor, o capítulo estava pronto e ele havia optado por não publicar, com medo da mensagem principal se perder. No entanto, talvez ele não soubesse do crescimento de movimentos políticos e religiosos em todo o mundo e o peso desse novo capítulo na realidade que estamos passando. Sei que a maioria dos leitores teve a oportunidade de ler esse livro na infância e, naquela época, esse último capítulo ainda não estava disponível e, mesmo eu descrevendo adiante o que acontece, deixo o convite para que leiam a nova edição do livro.

No quarto capítulo, lançado posteriormente, Fernão Capelo Gaivota e seus discípulos mais próximos morrem. Mas isso acontece depois de ele ter mudado toda a realidade das gaivotas. Elas passaram a sentir prazer em voar, buscar o voo para além de algo útil apenas à sobrevivência. Novos caminhos foram encontrados, desafios foram superados, novas formas de obter alimento e se comportar no dia a dia.

A semente do trabalho de Fernão havia sido plantada e as gaivotas tinham um caminho a seguir. No entanto, com o passar dos anos, as gaivotas passaram a prestar homenagens daquilo que eles acreditavam que havia sido Fernão. Fizeram uma estátua e deixavam-lhe oferendas. Depois disso, quase que em um altar, passaram a fazer orações, pedidos e iniciaram a total distorção dos ensinamentos de Fernão. Ao invés de executar o que ele havia ensinado, de treinar incansavelmente para melhorar as manobras de voo, inovar e romper barreiras impostas pelos outros, as gaivotas se limitaram a prestar homenagens e pedir para Fernão que as ajudassem a realizar os feitos que dependiam exclusivamente de seus esforços. As falas deixadas pelo mestre eram tiradas do contexto, adaptadas para caberem exatamente dentro daquilo que elas queriam e as gaivotas deixaram de voar como voavam antes. Não existia mais criatividade e liberdade, apenas teorias distorcidas da realidade e dos ensinamentos. Nada, absolutamente nada, do que Fernão havia ensinado era aplicado. Eis que surge uma jovem gaivota que passa a questionar tudo que falavam sobre Fernão e começa a fazer exatamente ao contrário do que as demais gaivotas faziam, iniciando mais uma fase de rompimento de barreiras, assim como Fernão havia feito no passado.

Minha sugestão é que aqueles que ainda não leram esse pequeno livro, que pode ser facilmente consumido em uma tarde, façam a leitura. Aqueles que já leram, podem repetir a leitura, com o acréscimo do quarto capítulo. Mais do que isso, sugiro que coloquem na cabeceira da cama de seus filhos, porque é um livro encorajador e que também mostra o risco de seguirmos algo sem questionar.

Dito isso, quando vejo o comportamento dos últimos quatro anos, somados às eleições e as recentes manifestações de parte da população após a apresentação do resultado das apurações, tomo licença para fazer um paralelo com o livro Fernão Capelo Gaivota.

No livro, fica clara a divisão da população das gaivotas em dois grupos. O primeiro, minoritário, é composto por gaivotas que buscam romper as barreiras por inconformismo da realidade que vivem; no segundo grupo, a maioria massacrante é formada por aves que buscam seguir, à primeira vista, a tradição do ancião e depois passam a seguir Fernão Capelo e as mudanças propostas por ele e no fim, criam uma ideologia distorcida baseada em suas próprias cabeças e conveniência e a seguem de forma que se assemelha a um culto.

Assim está o cenário político nestes últimos quatro anos. Num primeiro momento, temos a ruptura com o conformismo da vida como estava e a busca de novos horizontes; pequenos grupos iniciam um questionamento que foi tomando proporções gigantescas e, então, paralisaram o país. Na busca por eleger um interlocutor dessa quebra de paradigmas, o Brasil se escorou no discurso de Bolsonaro. Ele, de forma hábil, criou narrativas audíveis ao público que queria cativar e aliado a isso, o absurdo atentado da facada coroou, apesar de trágico, a construção do arquétipo do herói. E brasileiro adora um herói.

Durante o governo, com a insustentabilidade da manutenção do discurso anticorrupção, temas menos importantes e mais polêmicos encobriram a realidade.

Simultaneamente, uma realidade paralela foi se desenhando: teorias da conspiração sobre o sistema, complôs de outros países, supostas fraudes no sistema eleitoral, revolta contra o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, a impossibilidade de governar, teocracia, idiocracia e histórias criadas de luta entre o bem o mal com as mais absurdas colocações tomaram conta das redes em uma distribuição massiva de fake news.

A discussão com os grupos mais extremistas se tornou impossível. Nessa hora, Mark Twain, humorista americano, tem razão ao dizer “Nunca discuta com um idiota. Ele te arrasta ao nível dele e te vence em experiência”. Resumindo, é impossível discutir com algo completamente desarrazoado. Nada na conversa faz sentido e você fica sem saber até como agir numa situação dessas.

Agora, traçando um paralelo do período eleitoral, especialmente após a apuração com o resultado dando a vitória a Lula – com o novo e quarto capítulo do livro que conta a história de Fernão Capelo Gaivota -, temos aqui a mais dura realidade retratada pelo autor Richard Bach: a capacidade da sociedade de distorcer a realidade e criar verdadeiras seitas. Nesse ponto, a criação fica maior que o próprio criador e é justamente esse o risco que enfrentamos. O bolsonarismo é maior que o próprio Bolsonaro e nem ele, caso quisesse, conseguiria controlar o que está acontecendo.

Até o final da semana passada, eu tive estômago para ficar em grupos bolsonaristas. Não consegui mais. Apesar de a tendência normal ser a perda da força nos próximos dias, ainda teremos momentos críticos em que essas ações e discursos estarão acentuados, como a posse do novo presidente, que não será fácil, ou os primeiros números do novo governo, que tendem a não ser tão positivos, tendo em vista o orçamento aprovado para 2023 e uma série de fatores externos. Mas, o mais preocupante, é a possibilidade de declarações de Bolsonaro que ora está em silêncio, ora faz falas que deixam margem para a criativa interpretação dos eleitores e, em outras ocasiões, adota o discurso mais agressivo.

Em cada comportamento, reações das mais variadas aparecem. Em grupos que participei, recebi coisas completamente insanas, mas que deixam claras mais uma vez que o bolsonarismo é maior que Bolsonaro. No período silencioso de mais de 36 horas antes do pronunciamento, áudios relatavam que o futuro ex-presidente estaria preso, sendo refém a mando dos ministros do STF. Ao aparecer na coletiva, com sorriso no rosto, em outros grupos, depoimentos de pessoas se identificando como próximas do governo, dizendo que aquele ar de tranquilidade era justamente para mostrar que o “Capitão tem um plano”. Ao descrever a derrota nas urnas, outro áudio dizia que tudo isso era parte de um plano de Bolsonaro que sendo um ótimo estrategista de guerra, diria que tudo ocorreu como planejado e que, assim que se consolidassem as provas, na posse do novo presidente, ele abriria a “farsa” das eleições e mandaria prender todos os que manipularam as eleições. Um dos mais preocupantes trata de uma convocação em que os eleitores do presidente alegam que ele está cansado e lutou o quanto pôde. Nesse caso caberia ao povo continuar aquilo que ele havia começado. Conseguem perceber a gravidade?

Assim como as boas intenções de Fernão Capelo Gaivota se tornam uma seita, com adorações, discursos distorcidos e teorias relativistas, o Brasil se vê diante de adoradores das teorias criadas durantes os últimos quatro anos. Pessoas com os mais variados níveis e tipos de psicopatias tomaram voz e a pauta que eles acreditam estar defendendo se tornou maior que o próprio nome que a levantou inicialmente. Imaginem o improvável: o país entrando em colapso com confrontos de todas as espécies e Bolsonaro, arrependido do seu comportamento, resolve pegar um microfone e dizer: “Queridos eleitores, reconheço o processo eleitoral. Não há provas de manipulação nas eleições. É tempo de pacificar e peço a todos que se acalmem e se unam num Brasil só, conforme Deus nos ensinou, com paz e união”. Pergunto: qual a chance dos eleitores de Bolsonaro seguirem esse conselho? Nenhuma. No mínimo, vão dizer que o presidente foi dopado ou que ele está com algum parente sendo refém e por isso que ele fez a declaração, ainda reforçando que agora é a hora de aumentar a mobilização e pedir intervenção.

A triste realidade é que esse movimento, perigoso e sem limites, ainda nos acompanhará por décadas e enterrar o nome de Bolsonaro, por mais necessário que seja, não acabará de vez com o mal que ele criou. Do lado de cá, daqueles que não acreditam nas teorias conspiratórias e não sofrem de mania de perseguição, seguimos aprendendo e reaprendendo a combater essa onda que não perdeu a força nem mesmo com a derrota.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

ROBERTO CAMILO É publicitário, empresário, com especializações no IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, London College Of Communication e Leland Stanford Junior University.

CONGRESSO EM FOCO
Direitos trabalhistas de refugiados são tema do programa Jornada

Precarização das relações de trabalho aumenta transtornos mentais

Nem sempre quem sofre de algum tipo de mal-estar psicológico o associa ao ambiente de trabalho. Mas, essa relação é cada vez mais comum e precisa ser enfrentada

por Priscila Lobregatte

O tema da saúde mental ganhou destaque em nível global nos últimos anos, sobretudo devido aos reflexos da pandemia de Covid-19. Mas, há muitos outros elementos que passaram a interferir no campo psicológico e emocional da população. As mudanças radicais ocorridas no mundo do trabalho, que tornaram o ambiente e as relações mais insalubres, e as constantes crises do capitalismo também engrossam o caldo de forte instabilidade e tensão que interfere diretamente no bem-estar psíquico dos trabalhadores.

Pesquisa da Global Health Service Monitor, feita pela Ipsos em 34 países, mostrou que entre 2018 e 2022, a preocupação dos brasileiros com a saúde mental quase triplicou, saindo de 18% naquele ano para 49% atualmente.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 15% dos trabalhadores no mundo têm algum tipo de transtorno mental. As duas entidades emitiram neste ano diretrizes e estratégias relativas à saúde mental no trabalho e defenderam ações concretas em benefício dessa população.

Um dos problemas que têm se tornado comum é a síndrome de Burnout, doença mental ligada ao esgotamento profissional. Segundo o International Stress Management Association (Isma), o Brasil é o segundo país com mais casos deste tipo e de acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho, a síndrome atinge mais de 30 milhões de brasileiros.

“Como as pessoas passam grande parte de suas vidas no trabalho, um ambiente seguro e saudável é fundamental. Precisamos investir para construir uma cultura de prevenção em torno da saúde mental no trabalho, remodelar o ambiente de trabalho para acabar com o estigma e a exclusão social e garantir que os funcionários com problemas de saúde mental se sintam protegidos e apoiados”, disse Guy Ryder, diretor-geral da OIT.

No Brasil, mais de 200 mil pessoas foram afastadas de suas ocupações por transtornos mentais somente em 2021, de acordo com dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Possivelmente, nem todos os casos têm relação direta com  problemas gerados no ambiente laboral — e vale destacar que há muita subnotificação e dificuldade para classificar os transtornos por essa perspectiva. Porém, quem estuda o tema aponta que fatores como pressão, instabilidade, concorrência, assédio, e condições inadequadas para o exercício das funções — além, claro, dos baixos salários — têm efeito extremamente deletério para boa parte dos trabalhadores.

Capitalismo e transtorno mental

Se o problema da saúde mental e sua relação com o ambiente de trabalho ganharam maior espaço no debate público mais recentemente, é fato que há anos a questão vem sendo estudada por especialistas da área. E o estágio atual do capitalismo, que traz a exacerbação da busca pelo lucro, a pressão pela produtividade, a precarização das condições de trabalho, a financeirização irrestrita, entre outros fatores, vem destruindo o psicológico e o emocional da classe trabalhadora.

“A gente tem de pensar que há sempre uma história pessoal que vai encontrar com a história do trabalho. O resultado disso não está definido anteriormente. A questão é que principalmente a medicina — mas também  outras áreas como psicologia, que têm de lidar com esses casos — tende a enxergar só aquela pessoa à sua frente, o que é mais simples porque esses profissionais muitas vezes não têm uma formação para conseguir entender o resto”, explica Alvaro Roberto Crespo Merlo, professor médico-docente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no Serviço de Medicina Ocupacional/Ambulatório de Doenças do Trabalho, que ele ajudou a criar em 1988.

Ele explica que o cenário atual “responde a uma transformação que a organização e os processos de trabalho começaram a sofrer há mais ou menos 15 anos, quando começou a haver a preponderância do capital financeiro. Hoje, todos os processos produtivos estão submetidos a grandes conglomerados e fundos financeiros, que não estão absolutamente interessados no que se passa dentro do espaço de trabalho”.

Merlo lembra que no Ambulatório de Doenças do Trabalho do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, essas transformações ficaram evidentes pelos relatos dos pacientes. “É um mundo onde as pessoas são colocadas em concorrência umas com as outras. As pessoas não têm mais um colega de trabalho, elas têm um competidor ao lado delas”, diz.

Sintomas

Álvaro Merlo destaca que nesse contexto, quando as pessoas sofrem algum tipo de assédio moral ou pressão para manter a produtividade, elas se sentem sós porque não têm com quem compartilhar suas angústias. “Qualquer expressão desse tipo pode ser vista pelo ‘colega’ como fraqueza, como alguém em quem ‘dá para passar a perna e se livrar’. Isso vem acontecendo e isso não é visível. Só consegue enxergar quem está dentro da área. E mesmo as pessoas que estão submetidas a essas condições, muitas não conseguem perceber isso”, aponta.

Neste sentido, muitas vezes não é fácil estabelecer uma ligação entre o sofrimento mental da pessoa e seu ambiente de trabalho. “Dificilmente, quando alguém vai para uma consulta médica nessa área de saúde mental consegue se dar conta do papel do trabalho. Ninguém vai se consultar por causa do trabalho. As pessoas vão se consultar por causa dos seus sintomas”.

Em geral, as principais manifestações apresentadas são tanto físicas quanto emocionais: dores musculares, articulares e abdominais; distúrbios no sono e no apetite; irritabilidade, angústia, ansiedade, tristeza; dificuldades de concentração e de memória, entre outras.

Merlo explica ainda que há ainda muita incompreensão inclusive dentro de casa.“É comum a família dizer: ‘Mas o que você vai fazer? Você vai parar de trabalhar? Olha as pessoas do seu lado, elas estão trabalhando’. A tendência é levar diretamente para uma situação individual”, diz. E por não terem com quem falar, essas pessoas acabam podendo desenvolver um transtorno depressivo e se fecharem. E em casos mais graves, podem ocorrer ideações suicidas.

Conforme orientação contida em cartilha do Clínicas sobre o tema, no atendimento, o que tem efeito terapêutico imediato é o usuário-trabalhador saber que ele não está mais solitário nesta situação, além de se salientar que os sintomas e o sofrimento dele podem ter relação com o trabalho, o que pressupõe uma escuta compreensiva.

Além de ser fundamental que familiares e colegas estejam atentos a sinais que podem indicar um mal-estar psicológico do indivíduo, do ponto de vista mais amplo, é preciso dar mais visibilidade ao problema, demonstrando que não se trata de algo isolado, mas cada vez mais espalhado pela sociedade. “É preciso tornar essa discussão pública, leva-la para a imprensa, sem necessariamente acusar essa ou aquela empresa, mas tentar mostrar para as pessoas que tem uma quantidade enorme de gente hoje num processo de sofrimento desse tipo,  vivendo essa coisa de uma forma solitária e que a culpa não é daquela pessoa”.

Portal Vermelho

https://vermelho.org.br/2022/11/08/precarizacao-das-relacoes-de-trabalho-aumenta-transtornos-mentais/