Generais do Haiti, ultraliberais, Bolsonaro

Militares, muitos da missão da ONU, e ultraliberais dominam; grupo político vai mal

 

Sergio Moro almoça com uma dúzia de pessoas no restaurantezinho do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em uma espécie de marquise aberta para os gramados que circundam a sede do governo de transição de Jair Bolsonaro.

A dez metros da mesa do futuro ministro da Justiça, duas meninas gritam “Lula livre!”, riem e correm. A mesa de Moro faz cara de desdém. Passam grupos de escolares em visita. Moro acaba de almoçar no Bom Demais, vizinho da Mão Brasileira, loja de artesanatos. 

Passa então Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, a caminho de uma porta lateral do CCBB. É perseguido por um grupo de repórteres em correria estrepitosa.

Guedes, com pressa para a reunião com Bolsonaro, não diz grande coisa. Entram e saem assessores econômicos e parlamentares amigos ou à procura de amizade. Definição sobre a reforma da Previdência?

Por uma hora, parece que morreu de vez a hipótese de aprovar uma reforma de aprovação em tese mais rápida, que aproveite o projeto de Michel Temer, mesmo no início do ano que vem. 

Volta a conversa de reformar e também de refundar logo a Previdência, com a criação do regime de capitalização (de poupança individualizada para a aposentadoria).

É ainda mais difícil de fazer. Se a reforma demora, a confiança econômica tremelica, as taxas de juros não caem. Com juros ainda altos, o preço das privatizações planejadas não sobe; fica mais caro o financiamento privado das obras de infraestrutura, sem o que o crescimento rateia, pois não haverá dinheiro para investimento público.

Logo, porém, ouve-se que a reforma Temer da Previdência não está morta. Que o governo em progresso estudaria maneiras de financiar a Previdência com receitas que não pesem sobre a folha de salários das empresas (outros impostos, talvez sobre transações financeiras). Que estaria definida a desvinculação de benefícios assistenciais do valor do salário mínimo. Verdade? A depender do assessor ou do parlamentar, sim ou não.

O governo de transição não tem coordenação de comunicações, se alguma outra. Como se tem visto, formam-se bolhas de nomeações ministeriais que parecem certas e se desmancham em uma tarde. As bolhas são lançadas e furadas pelos grupos que circundam Bolsonaro, um arquipélago sem balsas ou pontes de ligação.

De menos incerto, há dois centros fortes de poder inegáveis. Os militares e Paulo Guedes. O resto é névoa.
Os militares acabam de levar também o Ministério da Infraestrutura, com o capitão Tarcísio de Freitas, que fez carreira na alta burocracia federal quando saiu do Exército. 

Esteve no Haiti, como tantos no governo Bolsonaro —compreensível, pois os militares devem ter enviado sua elite para a missão da ONU. 

Vão ficar também com o Programa de Parceria de Investimentos, o PPI, central para deslanchar obras de infraestrutura. Por falar nisso, não se sabe se partes dos ministérios da Integração Nacional e das Cidades vão para o ministério de Tarcísio de Freitas.

Guedes levou seu círculo de colegas de universidade, de finança e de conselhos empresariais do Rio para comandar as estatais maiores. Seus vice-ministros na Economia são técnicos de Temer e gente ligada ao Instituto Millenium.

A ordem bolsonarista se compõe por ora de militares, muitos do Haiti, e ultraliberais. Seu comando político, porém, cada vez mais fraco, é só desordem.

 
Vinicius Torres Freire

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

 

Fonte: Folha de S.Paulo, 29 de novembro de 2018.

 

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