Presidente finge ignorar realidade vivida por milhões de brasileiros, mas diversos indicadores mostram as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país em seu governo
Em tempos de pós-verdade, em que o factual dá lugar às crenças desvinculadas da realidade concreta, Jair Bolsonaro (PL) segue apostando em fake news e inverdades para tentar manter e angariar eleitores. Na entrevista concedida neste domingo (23) à TV Record, um dos temas sobre os quais o presidente buscou contar uma fábula bem diferente do que o povo vive no cotidiano diz respeito à economia.
Mesmo ciente dos graves problemas enfrentados pelo país nessa seara, Bolsonaro disse que o Brasil não entrou em crise durante a pandemia. Conforme dados trazidos pelo Estadão Verifica, a verdade é que “o primeiro ano de pandemia, 2020, registrou quedas históricas do Produto Interno Bruto (PIB) e da bolsa e aumento do dólar”.
Em 2020, o PIB caiu, em média 4,1% em relação a 2019, terceiro pior resultado da história. “O tombo só foi menor do que a retração de 4,35% registrada em 1990, ano do confisco das poupanças pelo governo Collor, que segue marcado com a maior retração econômica anual de que se tem registro, numa série histórica desde 1901 compilada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e a registrada em 1981, em meio à crise da dívida externa, quando o tombo foi de 4,25%”, diz o jornal.
Reportagem da Deutsch Welle do final de setembro apontou que o PIB brasileiro “teve um desempenho fraco no primeiro ano do governo Bolsonaro, e já estava em tendência de queda antes do início da pandemia de Covid-19”.
É sabido, também, que era plenamente possível a tomada de medidas, por parte do governo, para enfrentar os efeitos da Covid-19 tanto do ponto de vista da saúde pública quanto no que se refere às questões econômicas, o que poderia ter não apenas protegido e poupado milhares de vidas como, também, garantido uma retomada da atividade mais rapidamente e com proteção social aos setores mais vulneráveis.
No entanto, não foi isso que aconteceu. E o resultado foi que o Brasil teve um dos piores resultados do mundo no enfrentamento à pandemia, além de lidar com o aumento da fome, da miséria e do desemprego, para ficar apenas em alguns indicadores.
Fome, miséria, desemprego
O desemprego, um dos dados mais concretos a mostrar a realidade do país, chegou a atingir 14,9% em março de 2021 e o rendimento médio dos brasileiros acumulou quedas sucessivas. “Em 2019, foi de R$ 2.471, um real a menos do que o do ano anterior. Em 2020, de R$ 2.386, e no ano seguinte de R$ 2.265, sempre a preços de 2021. Foi o menor valor da série histórica, iniciada em 2012”, apontou a DW.
E claro, quem mais sofreu com essa situação foi a população mais pobre. O estrato dos 5% da população que ganha menos teve uma variação negativa em seu rendimento de quase 34% em termos reais somente entre 2020 e 2021. No mesmo período, entre os 5% e os 10% dos que ganham menos, a queda foi de quase 32% e de 25% quando considerado o início da série histórica em 2012. Já entre os mais ricos ficou em torno de 3,4% entre 2020 e 2021 e no topo da pirâmide, a perda foi de 6,4% nesses mesmos anos.
Conforme apontou o jornalista Jamil Chade, do UOL, tendo como base dados da Organização Mundial do Trabalho (OIT), “em 2019, o número de desempregados no Brasil era de 12,5 milhões de pessoas. Em 2021, a taxa atingiu 14,3 milhões de pessoas e, em 2022, ele chegará a 14 milhões, uma queda apenas marginal”.
A soma desses e outros fatores fez com que, sob o governo de Jair Bolsonaro, a fome atingisse cerca de 33 milhões de pessoas, o que fez com que o país voltasse ao Mapa da Fome. Mas o presidente diz que isso não existe. No entanto, notícias de pessoas recorrendo a ossos e ao lixo para poder sobreviver se tornaram comuns. Além disso, um levantamento feito pela Universidade Federal de Minas Gerais mostrou que somente em 2022, de janeiro a maio, mais de 26 mil pessoas foram registradas em situação de rua no CadÚnico. A estimativa é de que haja 180 mil brasileiros vivendo nessas condições.
Outro dado sentido na pele do povo a cada ida ao mercado é a alta da inflação. De 2018 para cá, o índice dobrou no país. Até agosto deste ano, considerando o período de 12 meses, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) teve uma alta acumulada de 8,73%, enquanto no mesmo período de 2019 o aumento foi de 4,19%.
Estes são apenas alguns dos muitos dados que mostram a situação de penúria vivida pelos brasileiros sob o governo de Jair Bolsonaro. O presidente tenta fazer parecer que a realidade brasileira é diferente, mas a verdade é que há muito tempo o Brasil não enfrentava um quadro de tantas dificuldades, perdas e retrocessos como agora.
A crise econômica gerada pelo desgoverno Bolsonaro vem avançado e, este ano, já deixou 33 milhões de brasileiros passando fome. Não bastasse isso, os efeitos dessa estagnação causaram endividamento recorde entre a população mais pobre do país. Pela primeira vez, os brasileiros endividados nesse segmento ultrapassa 80%.
De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que realiza todos os meses a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), a proporção de endividados entre os consumidores com renda inferior a 10 salários mínimos aumentou 0,4% e atingiu 80,3%, o maior patamar da série histórica da pesquisa.
Em setembro, o total de lares brasileiros com dívidas a vencer chegou a 79,3%, o terceiro aumento consecutivo em 2022.
“Podemos observar que o alto nível de endividamento e os juros elevados afetam, sobremaneira, o orçamento das famílias de menor renda, ao encarecerem as dívidas já contraídas”, diz o presidente da CNC, José Roberto Tadros.
A Confederação diz que a maior parte das famílias que relata estar endividadas, 85,6%, possui contas a vencer no cartão de crédito, que apresentou também a maior alta em um ano.
“Em seguida, entre as que cresceram, vêm as dívidas nos carnês de loja, que representam 19,4% e aumentaram 0,6 p.p. (ponto percentual) no ano, e as no cheque especial, que são 5,2% e tiveram crescimento de 0,6 p.p”, explicou nota da entidade.
Repercussão
Para o líder do PCdoB na Câmara dos Deputados, Renildo Calheiros (PE), a conta é simples: “Sem emprego, inflação nas alturas e diminuição do poder de compra, o endividamento das famílias chegou a 79,3% do total de lares”.
Calheiros diz ainda que é preocupante o fato de o endividamento superar os 80% pela primeira vez entre os brasileiros com renda inferior a 10 salários mínimos. “Precisamos criar empregos dignos, garantir remuneração adequada à população e mudar essa realidade. Não podemos achar normal que mais de 64 milhões de brasileiros estejam negativados”, criticou.
“O governo Bolsonaro foi tão desastroso para o Brasil que mais de 70% das famílias brasileiras estão endividadas. Nas casas onde os trabalhadores ganham menos de 10 salários mínimos piora, o endividamento registrou um aumento para 80%. O Brasil tem jeito! É Lula, é 13!”, afirmou a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA),
A deputada Gleisi Hoffmann (PR), presidente nacional do PT, diz que Bolsonaro e Guedes (Paulo, ministro da Economia) jogaram o povo no endividamento e hoje 64 milhões de pessoas estão inadimplentes, 4 em cada 10 brasileiros. “Com Lula, vamos renegociar a dívida do povo com juros menores, coisa que Bolsonaro nunca quis fazer”, afirmou
“Quem olha pra economia vê o desastre do governo Bolsonaro, que tem reflexos diretos na vida das famílias brasileiras. Vivemos tempos de inflação, desemprego, salário baixo e endividamento. Mas Lula tem as propostas e a experiência necessárias para mudar essa realidade”, observou a deputada Maria do Rosário (PT-RS).
Alinhada ao discurso de Bolsonaro, parte dos pastores coage fiéis em favor do atual presidente e contra Lula, gerando incômodo entre os que discordam dessa posição
O uso da religião por Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores, sobretudo as igrejas evangélicas, tem gerado incômodo também entre aqueles que fazem parte dessas congregações e que discordam desse posicionamento. Isso fica cada vez mais evidente diante de sucessivos relatos de fiéis que deixam igrejas devido ao assédio eleitoral de cunho religioso.
Reportagem do portal UOL demonstra que, se por um lado a imposição do bolsonarismo por parcela considerável de pastores evangélicos e o fanatismo político-religioso excessivo geraram um apoio consolidado de boa parte desse público ao presidente, por outro tem afastado cada vez mais aqueles que discordam da linha adotada.
Uma vez identificadas como as “ovelhas desgarradas do rebanho”, essas pessoas acabam sendo retiradas das funções que exercem nas igrejas e hostilizadas pelos mais alinhados ao bolsonarismo. “A gente não consegue ir a uma igreja em que não falem de política no fim do culto, em que não demonizem a esquerda”, relatou uma professora evangélica do Rio de Janeiro que pediu ao site para não ter seu nome revelado.
Outra fiel, que também não teve sua identidade revelada, disse ter sido classificada como “não crente” após ter postado mensagem de apoio a Lula nas redes sociais. Demax Sarmento, de Belém, contou que deixou a igreja batista depois de ouvir uma pregação umbilicalmente alinhada ao bolsonarismo. “Era um discurso de medo, comunismo, fechamento de igrejas, aborto e esses temas. Eu me senti coagido dentro da minha própria comunidade”, disse ao site.
Coação religiosa e bolsonarismo
Não há uma legislação própria para tratar do assédio eleitoral em igrejas e se já é difícil punir patrões que coagem empregados, mais difícil parece ser demonstrar (e ter testemunhas) de casos envolvendo a coação no âmbito religioso, seja pela intimidação, seja pelo sentimento que envolve a relação entre fiel e igreja.
Quando presidia o Supremo Tribunal Federal (STF), ainda em 2020, o ministro Edson Fachin, ao relatar um caso que dizia respeito a esse tema, defendeu que fosse criada uma punição eleitoral focada em candidatos que se aproveitassem da religião para influenciar fieis. A tese, no entanto, acabou sendo rejeitada pela maioria da corte.
“O bolsonarismo, ao se espalhar pela sociedade, vem trazendo o desejo de aniquilação da diferença, mesmo entre aqueles que comungam da mesma fé”, escreveu, em artigo publicado em O Estado de S.Paulo, Vinícius do Valle, doutor em Ciência Política pela USP e diretor do Observatório Evangélico.
Ao falar da suscetibilidade das pautas morais e religiosas às fake news, instrumento central para a consolidação do bolsonarismo também nesse segmento, Valle destacou que o uso intenso desse arsenal pode trazer efeitos colaterais: “ao aguçarem tanto fervores religiosos, identidades e emoções, geram também violência – inclusive nas igrejas. E é preciso dizer que, nesse aspecto, não há simetria entre os lados da disputa. Foi o bolsonarismo que trouxe para o entorno de si uma legião de religiosos e, por eles, disseminou a ideia de que o PT, ‘amigo de ditaduras sanguinárias’, fecharia igrejas, obrigaria as crianças a usar banheiros unissex, liberaria o aborto e ameaçaria a integridade das famílias”.
Em entrevista concedida à Deutsch Welle, o pastor Henrique Vieira apontou: “Quando a fé é capturada por uma lógica fundamentalista, ela se torna um projeto de poder e de imposição, não respeita a individualidade e a diversidade, se apropria do Estado, das leis e de políticas públicas. Esse projeto de poder impositivo, perigoso, violento, antilaico e antidemocrático precisa ser derrotado. Esse projeto é o de determinadas lideranças evangélicas hoje”.
A mais recente pesquisa eleitoral realizada pelo Ipec, divulgada nesta segunda-feira (24), indicou estabilidade entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Entre os votos totais, Lula fica com 50% das intenções de voto, e Bolsonaro 43%: mesma margem atingida na pesquisa anterior, do dia 17. Brancos, nulos e indecisos também permanecem em 7%. Em votos válidos, Lula se mantém com 54%, e Bolsonaro, 46%.
A estabilidade do resultado final é um bom indicador para Lula, que havia sofrido ligeira queda de apoio na pesquisa anterior. Existe, porém, o risco de parte de suas intenções de voto não terem sido contabilizadas: o levantamento começou no dia 22, e foi concluído no dia 24. No dia 23, porém, ocorreu o caso de resistência do ex-deputado Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro e ex-presidente do PTB, a um mandado de prisão.
O episódio teve ampla repercussão nas redes sociais em todos os estados, dividindo opiniões inclusive entre lideranças bolsonaristas. Por outro lado, não foi possível para os pesquisadores observar plenamente seus possíveis efeitos: eleitores que já tenham sido entrevistados antes do incidente e tenham mudado de opinião sobre seus candidatos não tiveram sua mudança registrada.
A pesquisa foi feita com entrevistas presenciais a 3 mil pessoas, espalhadas por 183 municípios. Segundo o Ipec, a margem de erro é de 2%, e o índice de confiança é de 95%.
AUTORIA
LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.
Jornalistas de todo o país, vinculados a diversas redações (incluindo o Congresso em Foco), publicam nesta segunda-feira (24) um manifesto de apoio ao trabalho do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a proliferação de fake news na campanha eleitoral. O manifesto está aberto para receber on line novas adesões, nesta plataforma. Entre lá, deixe sua assinatura e contribua para preservar a democracia em nosso país. Sem ela, o jornalismo independente – tão atacado no Brasil na “era Bolsonaro” – é simplesmente impossível.
Abaixo, o texto do manifesto e os nomes dos mais de 700 jornalistas que já o subscreveram.
“Manifesto de apoio à democracia, ao TSE e à chapa Lula-Alckmin
Como jornalistas com o compromisso ético de perseguir e publicar a verdade, estamos indignados com o grande fluxo de notícias falsas produzidas com o objetivo deliberado de fraudar a decisão livre do eleitor neste segundo turno da disputa presidencial.
Repudiamos toda e qualquer forma de censura e não admitimos que a liberdade de expressão seja distorcida para permitir a prevalência de mentiras na campanha eleitoral. Também vemos com apreensão que concessões públicas de rádio e TV sejam usadas em favor de uma candidatura. Por isso apoiamos o esforço do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para coibir a interferência danosa das fake news nas eleições, respeitados os limites da Constituição e da lei.
Bolsonaro tem uma trajetória associada à violência desde os anos 1980, com o plano de explodir bombas em quartéis que o levou à prisão. Ele e os filhos têm conexões com Adriano da Nóbrega, apontado como miliciano pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ). O clã foi acusado por ex-funcionários de obrigar servidores a lhes entregar grande parte dos salários. Desde os anos 1990 a família comprou 107 imóveis e pagou quase a metade em dinheiro vivo.
Bolsonaro defende a ditadura, a tortura e o assassinato de opositores. Ofende as cidadãs e os cidadãos negros, indígenas, nordestinos e LGBTQIA+. Acha natural sentir atração sexual por meninas de 14 anos. Mostrou-se desumano diante da dor dos brasileiros na pandemia. Foi incompetente na economia e a fome voltou. Desprezou a ciência, o meio ambiente, a cultura e a educação.
Bolsonaro destruiu instrumentos de transparência e de combate à corrupção. Comprou o apoio do Congresso com o orçamento secreto, elevando a níveis inéditos o desvio de recursos públicos. Com o uso ilegal da máquina pública Bolsonaro ilude muitos, mas não os jornalistas dignos desse nome. Daí sua fúria contra nós, dirigida sobretudo às colegas mulheres.
É um presidente que prega abertamente a desobediência a decisões da Justiça e que incentiva a população a se armar, contribuindo assim para enfraquecer as instituições republicanas e estimular a violência.
Nós, jornalistas que defendemos uma comunicação democrática inclusiva e que respeite os valores da diversidade e da igualdade étnico-racial, recomendamos o voto em Lula e Alckmin nesta eleição em que a nossa democracia está em jogo.
Lula já demonstrou suas qualidades como gestor e provou sua inocência após injusto massacre judicial. Nada tem de comunista, como alardeiam seus inimigos. É um conciliador, que conta com o apoio de trabalhadores e da parcela mais lúcida do empresariado e da intelectualidade do país.
Reiteramos o apoio ao TSE e cobramos das grandes plataformas digitais maior empenho no combate às fake news para termos eleições limpas, livres e seguras. Com a ampla aliança conduzida por Lula e Alckmin, reencontraremos a paz, o desenvolvimento e, fundamental para a sobrevivência do jornalismo, teremos a garantia de que a democracia sobreviverá!
Adélia Borges
Admar Branco
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Adriana Castelo Branco
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Vera Durão
Vera Perfeito
Vera Spolidoro
Veruska Yasmim Paião Rocha
Vicente Alessi Filho
Vicente Nunes
Victor Gentilli
Virginia Berriel
Vitor Iório
Vitor Ribeiro
Viviane de Paula Viana
Viviane Finkielsztejn
Vivianny de Matos Santos
Wagner William
Walter Casagrande Júnior
Walter Clemente
Wanda Nestlehner
Wanderlei Pozzembom
Washington Luiz de Araújo
Weiller Diniz
Wilfred de Albuquerque Gadêlha Júnior
Xico Sá
Xico Teixeira
Yacy Nunes
Yvana Fechine
Zilda Cosme Ferreira
Zínia Araripe