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17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

ELEIÇÕES 2022

Dos 32 partidos com registro no Tribunal Superior Eleitoral, 17 sofreram queda na quantidade de votos recebidos, seja nas legendas ou em seus candidatos para deputado federal nas eleições de 2022. A redução no número de eleitores não representa apenas uma diminuição de suas bancadas na Câmara dos Deputados, mas também em complicações para acessar os recursos dos fundos partidário e eleitoral em 2026.

Desses 17 partidos, seis já não obtiveram votos suficientes para formar uma bancada nem nas eleições de 2018 e nem em 2022. São eles o DC, Agir, PMB, PMN, PRTB e o PSTU. Outros dois, o PCB e o PCO, também não formaram bancadas em nenhum dos dois pleitos, mas contaram com um aumento na quantidade de eleitores: o primeiro obteve 73,09% a mais de votos, e o segundo teve um aumento de 110%.

Duro golpe no União Brasil

As demais quedas, porém, atingiram alguns partidos com atuação importante na Câmara. O União Brasil, que chegou a ser o maior partido do país após a fusão dos antigos DEM e PSL, sofreu um duro golpe ao ver seus principais parlamentares migrando para o PL durante a janela partidária. Os dois extintos partidos, que em 2018 somavam 14,7 milhões de votos para a Câmara, receberam pouco mais de 10 milhões após a fusão, representando uma redução de 32% em seu eleitorado.

O PSDB também perdeu uma grande parcela de seus eleitores. O partido já vinha fragilizado das eleições de 2018, quando perdeu o protagonismo na centro-direita da Câmara, e em 2022 sofreu uma queda de 41,68% de votos para deputado. Seu principal aliado, o Cidadania, com quem é federado, já contou com um ligeiro aumento de 5%, permanecendo próximo de 1,5 milhão antes e depois do pleito, enquanto os tucanos que antes contabilizavam 5,4 milhões de votos passaram a ter 3,1 milhões.

AUTORIA

Lucas Neiva

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CONGRESSO EM FOCO
17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

Por defesa à democracia, Amoêdo declara voto em Lula

SEGUNDO TURNO

Em entrevista à jornalista Joana Cunha, da Folha de S. Paulo, o co-fundador do Novo e ex-candidato à presidência da República, João Amoêdo, declarou que pretende votar no ex-presidente Lula (PT) no segundo turno das eleições. Apesar de ainda fazer críticas tanto ao candidato quanto ao seu partido, Amoêdo afirma temer pela continuidade do regime democrático em um eventual segundo turno de Jair Bolsonaro (PL), e que seu voto será uma “redução de danos”. O partido, porém, não viu seu posicionamento com bons olhos.

Amoêdo foi um dos idealizadores do Novo, fundado por setores críticos à gestão de Dilma Rousseff, em especial em suas políticas econômicas e aos escândalos de corrupção revelados ao longo de seu governo. Em 2018, declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno por entender que a candidatura de Fernando Haddad (PT) seria uma retomada do projeto descontinuado com o impeachment, em 2016.

Sem compaixão com o próximo

A partir de 2020, porém, Amoêdo e diversos outros quadros do Novo assumiram postura crítica a Bolsonaro, chegando a defender seu impeachment diante de sua gestão da pandemia. Na entrevista, Amoêdo afirmou que o presidente “confirmou ser não apenas um péssimo gestor, (…) mas também uma pessoa sem compaixão com o próximo”, e que “é um governante autocrático que se coloca acima das instituições”.

A decisão de votar em Lula, ele considera como não sendo um cenário ideal, mas uma garantia para ter “o direito a ser oposição, com eleições regulares, reeleição limitada, instituições minimamente independentes, imprensa livre e segurança para expor minhas ideias”. Apesar de considerar um voto difícil, Amoêdo diz que tentará lembrar dos discursos onde Bolsonaro debochou de vítimas da covid-19.

Sua declaração de voto, porém, não é consenso entre membros do Novo. O candidato do partido à presidência em 2022, Felipe D’Ávila, logo se pronunciou nas redes sociais. Em nota, afirmou que “A declaração de voto de Amoêdo ao Lula é uma traição aos valores liberais, ao partido Novo e a todas as pessoas que criaram um partido para livrar o Brasil do lulopetismo que tantos males criou ao Brasil.  Amoêdo: pega o boné e vai embora. Você não representa os valores liberais”. O ex-candidato anunciou, no dia 2, que votará nulo no segundo turno.

A executiva nacional do Novo também criticou a declaração de seu co-fundador. Em suas páginas oficiais nas redes sociais, o partido emitiu o seguinte comunicado:

“É absolutamente incoerente e lamentável a declaração de voto de João Amoêdo em Lula, que sempre apoiou e financiou ditadores e protagonizou os maiores escândalos de corrupção da história.

Seu posicionamento não representa o Partido Novo e vai contra tudo o que sempre defendemos.

A triste declaração constrange a instituição, que se mantém coerente com seus princípios e valores e reforça que Amoêdo não faz mais parte do corpo diretivo do partido desde março de 2020.

Apoiar aqueles que aparelharam órgãos de Estado, corromperam nossa democracia e saquearam os cofres públicos é fazer oposição ao povo brasileiro.

O NOVO sempre foi e sempre será oposição ao lulopetismo e tudo que ele representa”.

AUTORIA

Lucas Neiva

LUCAS NEIVA Repórter. Jornalista formado pelo UniCeub, foi repórter da edição impressa do Jornal de Brasília, onde atuou na editoria de Cidades.

CONGRESSO EM FOCO
17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

Os supersalários de Braga Netto, vice de Bolsonaro, e outros militares

FORÇAS ARMADAS

Candidato à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) repetiu a estratégia de escalar um general como vice, a exemplo do que fizera em 2018, com Hamilton Mourão. Mas, diferentemente da eleição anterior, o novo postulante a vice tem exercido papel discreto na campanha eleitoral. O general Walter Braga Netto (PL) raramente aparece em público ou é citado por Bolsonaro em seus discursos, ao contrário do que ocorre com Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB).

A discrição do ex-ministro da Casa Civil e da Defesa é inversamente proporcional ao contracheque dele. Para o deputado Elias Vaz (PSB-GO), que levantou a lista de supersalários das Forças Armadas, Bolsonaro “esconde” Braga Netto por não ter como explicar os altos vencimentos recebidos pelo companheiro de chapa.

O candidato a vice-presidente pelo PL recebeu R$ 926 mil de salários em dois meses de 2020. “Está claro que Braga Netto não está sendo utilizado na campanha porque Bolsonaro tem receio de se prejudicar com essa questão dos privilégios aos militares. Eles não dão conta de explicar. Até hoje não explicaram”, disse Elias ao Congresso em Foco. O teto do funcionalismo público é de R$ 39,2 mil, remuneração de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Benefício na pandemia

Na avaliação do deputado, o comportamento de Braga Netto e das Forças Armadas de não esclarecer os motivos dos supersalários é inadmissível. “Uma pessoa que quer ser vice-presidente foi beneficiária de um privilégio em plena pandemia”, afirmou o deputado.

O Congresso em Foco procurou o Exército e Braga Netto, por meio da campanha de Bolsonaro, mas não houve retorno até o momento. Este texto será atualizado caso haja manifestação por parte deles.

De acordo com relatório feito pelo deputado goiano, nos meses de março e junho de 2020, além do salário mensal, Braga Netto ganhou uma bolada de R$ 925.950,40. Conforme o detalhamento obtido por meio do Portal da Transparência, na soma dos dois meses, ele recebeu remuneração básica bruta de R$ 492.462,01; R$ 119.996,72 de férias e R$ 313.491,67 em verbas Indenizatórias.

Os pagamentos dos supersalários aos militares não se restringem a 2020. Outro levantamento feito pelo deputado goiano revelou que quase 1,6 mil militares receberam benefícios de mais de R$ 100 mil apenas neste ano. Em junho de 2021, o comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, ganhou o total bruto de R$ 818.902,09.

Nos meses de maio e junho de 2020, o almirante Bento Albuquerque, o então ministro de Minas e Energia, recebeu, além do salário, a soma bruta de R$ 1.037.015,42. Outros militares próximos a Bolsonaro, como o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, e o ex-ministro da Saúde e deputado eleito Eduardo Pazzuello (PL-RJ), também foram beneficiados.

Veja os supersalários abaixo. Arraste a barra para ver as tabelas:

Indícios e imoralidade

Elias Vaz: Câmara precisa investigar supersalários de militares e pensionistas. Foto: Agência Câmara

 

“A única manifestação das Forças Armadas foi uma nota pública divulgada na ocasião em que diziam que estava tudo dentro da legalidade, o que é muito pouco. Temos indícios claros de irregularidade e, no mínimo, de imoralidade. É inadmissível haver esse tipo de privilégio dentro da estrutura pública federal”, critica Elias.

O deputado é autor de representação feita ao Tribunal de Contas da União pedindo auditoria detalhada da folha de pagamento das Forças Armadas desde 2019. O documento aponta que a própria Controladoria-Geral da União (CGU) constatou que militares da ativa estão acumulando cargos e funções e recebendo remunerações que extrapolam o teto constitucional.

Segundo a CGU, de 2.770 militares e pensionistas de militares com cargos no governo federal em dezembro de 2020, ao menos 729 tiveram salários acima do teto constitucional, o que resultou na perda de R$ 5,1 milhões aos cofres públicos.

O presidente Jair Bolsonaro patrocinou mudanças legislativas que turbinaram os rendimentos da alta cúpula das Forças Armadas e o seu próprio salário. Um projeto de lei de autoria do governo permitiu que a indenização paga aos militares que são transferidos para a reserva, por exemplo, subisse de quatro para oito vezes o valor do soldo. Em abril de 2021, o governo editou uma portaria que mudou as regras do teto do funcionalismo, beneficiando diretamente Bolsonaro e militares.

Adicional de habilitação

“É importante que a Câmara vá a fundo porque a gente percebe que tem aí um processo de privilégios que precisa ser investigado. Apenas com quem recebeu mais de R$ 100 mil acima do salário em 2020 o impacto foi de mais de R$ 600 milhões sobre a folha de pagamento. O governo tem de explicar a motivação e a base legal de tudo isso”, cobra Elias Vaz.

O deputado também chama atenção para outro artifício que, segundo ele, tem sido utilizado para inflar o contracheque de oficiais: o chamado adicional de habilitação militar. Criado para valorizar as carreiras e aperfeiçoar os militares, o benefício tem sido usado, segundo ele, por oficiais às vésperas de entrarem para a reserva. Segundo Elias, o aumento nos rendimentos pode chegar a 73% em alguns casos.

“A nossa preocupação é que o presidente esteja usando essas benesses como forma de cooptar as Forças Armadas para colocar em prática as ameaças constantes que vem fazendo à democracia”, afirma o deputado. O pagamento do adicional de habilitação a oficiais que em seguida entram para a reserva é objeto de representação apresentada pelo deputado goiano ao TCU. Ele aguarda a volta aos trabalhos da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, interrompidos por causa das eleições, para que seja votado requerimento de sua autoria que cobra esclarecimentos sobre os supersalários de militares da ativa, inativos e pensionistas.

Veja a nota do Ministério da Defesa divulgada quando foram revelados os supersalários dos militares, em agosto:

“Nota de esclarecimento: remuneração de militares e de pensionistas

Acerca de matérias noticiadas por veículos de comunicação, nesta quinta-feira (11.8), que trataram da remuneração de militares e de pensionistas, o Ministério da Defesa esclarece que os valores referem-se à remuneração mensal e a indenizações pontuais e a atrasados. Essas indenizações são relativas ao recebimento de férias não usufruídas ao longo da carreira, ou a outros direitos, que são calculados na ocasião da passagem dos militares para a reserva.

Destaca-se que os totais dos valores individuais, mencionados nas matérias, apresentam incorreções, pois somaram informações simultâneas de contracheque e de Ordem Bancária lançadas no Portal da Transparência.

Cabe ressaltar que as Forças Armadas cumprem, rigorosamente, a legislação que rege o pagamento de seus militares e servidores civis. Os valores são lançados no Portal da Transparência e são submetidos à fiscalização dos órgãos de controle.”

AUTORIA

Edson Sardinha

EDSON SARDINHA Diretor de redação. Formado em Jornalismo pela UFG, foi assessor de imprensa do governo de Goiás. É um dos autores da série de reportagens sobre a farra das passagens, vencedora do prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009. Ganhou duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog. Está no site desde sua criação, em 2004.

CONGRESSO EM FOCO
17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

Carestia anula efeito eleitoral do Auxílio Brasil e castiga Bolsonaro

Alta no preço dos alimentos pode fazer a inflação pesar até três vezes mais para as famílias de baixa renda

 

Às voltas com um país em crise, Jair Bolsonaro (PL) ignorou os apelos de sua equipe econômica e turbinou o valor do Auxílio Brasil durante o período eleitoral. De olho no ganho em popularidade que colheu em 2020, logo após a implantação do auxílio emergencial na pandemia de Covid-19, o presidente esperava que o novo benefício fosse seu grande trunfo na campanha à reeleição.

É possível que, com o Auxílio Brasil, reajustado de modo temporário – e eleitoreiro – para R$ 600, Bolsonaro tenha contido a perda de votos para o ex-presidente Lula nas camadas mais pobres do eleitorado. Mas a “redução de danos” não impedirá o presidente de sofrer uma derrota particularmente expressiva entre esses eleitores.

A principal razão para o impacto limitado do Auxílio Brasil é o aumento das despesas básicas, notadamente com alimentos, que impacta justamente os mais pobres. Mesmo com a tendência à deflação no País, a sensação de carestia segue presente no dia a dia das famílias de baixa renda.

A carestia castiga o candidato Bolsonaro porque esse eleitor é mais vulnerável ao encarecimento dos produtos da cesta básica. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a alta no preço dos alimentos pode fazer a inflação pesar até três vezes mais para as famílias de baixa renda.

É o que tem ocorrido desde meados de 2020. Números do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial do Brasil) mostram que, nesse período, o preço dos alimentos cresceu mais do que o conjunto dos produtos e serviços. Em setembro, a inflação geral acumulada em um ano baixou para 7,17%, enquanto a inflação de alimentos segue em dois dígitos: 11,71%.

A campanha eleitoral chegará ao fim sem que Bolsonaro tenha resolvido (ou ao menos enfrentado) efetivamente a carestia e a insegurança alimentar.  Nos últimos três meses, graças à redução no preço dos combustíveis e da energia – que receberam subsídios –, houve deflação no Brasil. Com os alimentos, no entanto, o governo não recorreu a subsídios e só houve registro de deflação em setembro, após alta de 0,24% em agosto.

Assim, mesmo com preços agora em queda, diversos alimentos acumulam inflação de dois dígitos nos últimos 12 meses, conforme o IPCA. O leite, em um ano, ficou 40% mais caro, e o café, 37%. O preço da cebola mais que dobrou, elevando-se em 127%. O macarrão encareceu 20%, e a farinha de trigo, 35%.

A renda extra garantida com o Auxílio Brasil tem sido tragada, acima de tudo, pela inflação de alimentos, o que anula seu efeito eleitoral. Nas casas onde o benefício de R$ 600 chegou, usa-se o dinheiro para repor alimentos recém-cortados e pagar dívidas.

 “A inflação de alimentos, em particular os para preparo no lar, tem impacto direto nas percepções e na confiança dos consumidores, em especial os de baixa renda, que tendem a ‘pensar com o bolso’”, diz Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral da Gouvêa Ecosystem. Segundo ele, para os mais pobres a carestia pesa “nas avaliações sobre perspectivas do presente e do futuro próximo com impacto direto nas suas decisões de toda natureza. Especialmente em período de eleições”.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (14) mostra a “vingança” desse eleitor contra o presidente. Conforme o levantamento, Lula, em uma semana, passou de 54% para 58% entre os eleitores que têm renda familiar mensal de até dois salários mínimos (R$ 2.424). Já Bolsonaro oscilou de 37% para 36% – e justo num momento em que o programa tem um número recorde de beneficiários.

Segundo o Datafolha, metade do eleitorado ganha, em média, até dois salários mínimos. A vantagem de Lula sobre Bolsonaro nesse grupo – de 22 pontos percentuais – é muito superior à sua dianteira no conjunto do eleitorado, hoje em cinco pontos (49% a 44%).

A penúltima pesquisa do instituto, divulgada em 7 de outubro, cinco dias após o segundo turno, questionou os entrevistados sobre a relevância de alguns temas para a definição do voto. Para 76%, é importante manter o Auxílio Brasil a R$ 600 – uma demonstração do apoio majoritário a uma espécie de renda mínima.

Porém, os eleitores se revelaram ainda mais preocupados com a redução do desemprego (89%), o combate à inflação (89%) e a defesa dos direitos trabalhistas (91%). Quando o Datafolha pergunta qual dos dois presidenciáveis no segundo turno é “mais preparado” para enfrentar cada um desses desafios, Lula se destaca.

O ex-presidente é visto como o candidato com mais condições de garantir empregos (50%), direitos (55%) e inflação baixa (48%). Na população de baixa renda, esses percentuais saltam, respectivamente, para 57%, 60% e 54%. Não houve auxílio ou qualquer outra medida eleitoreira que tenha feito Bolsonaro superar Lula na preferência dos que mais precisam.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/16/carestia-anula-efeito-eleitoral-do-auxilio-brasil-castiga-bolsonaro/

17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

Bolsonaro “bateu no teto” e pode até perder votos evangélicos, diz especialista

Para Vinicius do Valle, diretor do Observatório Evangélico, o “discurso moralista” de Bolsonaro – “esse discurso do medo”, que tomou conta da campanha eleitoral – “já conquistou quem tinha de conquistar”

Com templos em campanha desde março, é improvável que o presidente Jair Bolsonaro (PL) consiga ampliar suas intenções de votos no eleitorado evangélico. “Parece que ele bateu no teto”, afirma o cientista político Vinicius do Valle, diretor do Observatório Evangélico.

Na opinião de Valle, um dos maiores especialistas no tema, o “discurso moralista” de Bolsonaro – “esse discurso do medo”, que tomou conta da campanha eleitoral – “já conquistou quem tinha de conquistar”. Em entrevista ao Valor Econômico, o cientista político projeta que o presidente terá, no máximo, 65% dos votos evangélicos.

“Essa é a minha hipótese – a de que ele (Bolsonaro) já bateu no teto e que quem era suscetível a esse discurso já foi ganho por ele e, portanto, haveria pouca margem de manobra. Eu acho que mais do que 60%, 65% da votação entre evangélicos ele não alcança”, diz.

Ao estudar a relação do presidente com esse segmento mais religioso do eleitorado, Valle concluiu que a discussão moral e religiosa foi a forma como Bolsonaro ganhou parte dos eleitores de baixa renda, tradicionalmente mais próximos à esquerda.  “É um governo mal avaliado em termos econômicos, sociais – e que consegue um diálogo com as famílias de baixa renda a partir do discurso moral para quebrar a hegemonia do discurso econômico.”

A seu ver, o ex-presidente Lula, embora lidere com folga as pesquisas junto ao eleitor que ganha até um ou dois salários mínimos, depende mais das pautas tradicionais da campanha. “Quando a agenda é social e econômica, favorece ao candidato de oposição, ao Lula. Quando a agenda é moral, por estarmos em um país conservador e pela relação de Bolsonaro com líderes religiosos, aí a vantagem é do atual presidente.”

Segundo Valle, o eleitor pobre não é necessariamente conservador. “Mas, nas regiões interioranas e nas periferias, há um tipo de cultura diferente dessa cultura cosmopolita das grandes cidades, mais aberta para um conjunto de ideais no campo progressista. Há uma penetração do discurso religioso nas periferias por vários meios”, afirma.

Nas regiões mais vulneráveis, a igreja se torna uma “uma rede de proteção” onde “circulam bens materiais e simbólicos, vagas de emprego, indicações, ajuda emocional. Tudo isso acaba fazendo com que as igrejas tenham um papel muito importante nesses lugares” e sejam “a principal rede de sociabilidade presente entre as classes populares”.

É como se as igrejas fossem praticamente a única referência mais concreta para esses segmentos da população. “Entre as classes médias, há várias redes – as redes das universidades, dos locais de trabalho. Mas nas periferias a gente tem a rede religiosa como a principal rede de apoio das pessoas”, afirma Valle.

Em contrapartida, a recente ofensiva de Bolsonaro junto aos católicos, com visitas a Aparecida e ao Círio de Nazaré, não deve surtir efeito eleitoral. “A adesão dos católicos a ele (Bolsonaro) tende a ser um pouco menor”, analisa, lembrando, que, no Brasil, prevalecem os chamados “católicos não praticantes”.

“Para eles, não é a visão religiosa que pauta, por exemplo, sua visão política. Os evangélicos são mais pautados pela identidade religiosa, que está mais suscetível à influência do pastor, ainda que não possa ser retratado um grupo homogêneo”, compara. “Os evangélicos são mobilizados enquanto identidade religiosa. O evangélico vai mais ao culto – ele é religiosamente mais engajado.”

Apesar dessas diferenças, o presidente tem pouca margem para ampliar seu eleitorado entre evangélicos e católicos mais conservadores. “A campanha eleitoral dentro das igrejas tem uma intensidade forte desde março. Os pastores estão fazendo campanha eleitoral desde março”, diz. “Isso alimenta uma questão: quem não foi convencido até agora pode ser convencido nesta reta final? Há margem para isso?”

Se Bolsonaro “bateu do teto” entre os evangélicos, fica mais clara a obsessão de sua campanha em avançar no eleitor católico. Mas Valle não descarta o risco de o presidente ser vítima do que ele chama de “efeito bumerangue” – ou seja, o eleitor mais religioso se cansar da exploração eleitoral da fé.

“Esse segmento religioso poderá passar a ter um sentimento de que a religião está sendo usada. Há um cansaço nas igrejas e isso vem sendo notado em diversas pesquisas”, diz o cientista político. “Hoje se percebe que tem uma parcela do eleitoral religioso que fala ‘eu estou indo pra igreja, mas não estou encontrando conforto espiritual, porque estão falando muito de política’”.

Assim, não se pode sequer descartar a possibilidade de Bolsonaro perder um pouco dos votos evangélicos que ele tanto buscou para chegar à Presidência da República. Pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira (10) o aponta com 63% de votos entre os eleitores evangélicos, contra 31% de Lula.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/15/bolsonaro-bateu-no-teto-e-pode-ate-perder-votos-evangelicos-diz-especialista/

17 de 32 partidos tiveram queda de votos para deputados nas eleições

Alexandre de Moraes barra investigações contra institutos de pesquisa

Para presidente do TSE, apurações “parecem demonstrar a intenção de satisfazer a vontade eleitoral manifestada pelo chefe do Executivo e candidato a reeleição”

O presidente Jair Bolsonaro (PL) amargou uma derrota na sua cruzada anti-pesquisa nesta quinta-feira (13), com a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, de suspender as investigações da Polícia Federal (PF) e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre os institutos de pesquisa.

A investigação da PF partiu de pedido de apuração feito pelo ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres. A campanha do atual mandatário havia encaminhado ao ministro um ofício tratando da divergência entre as intenções colhidas pelos levantamentos e o resultado obtido no primeiro turno.

Ao mesmo tempo, o Cade também iniciou apuração a respeito. O presidente da autarquia, Alexandre Cordeiro Macedo, argumentou que teria havido “comportamento coordenado” do Datafolha, Ipec e Ipespe. Bolsonaristas e o próprio presidente têm buscado tumultuar o processo eleitoral ora com questionamentos à lisura das urnas ainda antes do primeiro turno, ora lançando dúvidas sobre os institutos.

Na decisão, Moraes afirmou que apurações deste tipo não caberiam a esses órgãos e sim à Justiça Eleitoral. O ministro apontou que as investigações “parecem demonstrar a intenção de satisfazer a vontade eleitoral manifestada pelo chefe do Executivo e candidato a reeleição” e que tais medidas poderiam caracterizar “desvio de finalidade e abuso de poder por parte de seus subscritores”.

Além disso, Alexandre de Moraes destacou que as apurações da PF e do Cade “são baseadas, unicamente, em presunções relacionadas à desconformidade dos resultados das urnas”, sem que tenham sido mostrados “indicativos mínimos” de “práticas de procedimentos ilícitos”.

Logo após o primeiro turno, diante da diferença entre as intenções de voto e o resultado, as diretoras do Datafolha, Luciana Chong, e do Ipec, Marcia Cavallari, declararam que as pesquisas são fotografias do momento e que não têm a pretensão de prever o que será apurado ao final. Além disso, elas apontaram que tais diferenças resultaram de opções de última hora, que podem incluir o chamado “voto útil”.

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2022/10/14/alexandre-de-moraes-barra-investigacoes-contra-institutos-de-pesquisa/