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ChatGPT atualiza debate sobre uso da inteligência artificial na educação

ChatGPT atualiza debate sobre uso da inteligência artificial na educação

Entrevista especial com Yuri Oliveira de Lima e Pedro Henrique de Castro

A tecnologia pode melhorar ou piorar a educação, e os impactos da IA no ensino devem ser observados do ponto de vista das partes envolvidas, afirmam os pesquisadores

Por: Edição Patricia Fachin | 24 Abril 2023

“Esta é a realidade que vivemos: quando menos esperamos, surge uma tecnologia nova”, disse Yuri Oliveira de Lima, referindo-se ao ChatGPT, um programa de computador que utiliza técnicas de inteligência artificial para entender e gerar textos em linguagem natural, desenvolvido pela OpenAI, um laboratório de pesquisa de inteligência artificial norte-americano, que, em apenas cinco dias, foi acessado por um milhão de usuários.

Segundo ele, “não existem áreas onde as novas tecnologias não sejam ou não serão relevantes, ou nas quais não serão aplicadas” e, portanto, “a educação para o trabalho precisa acompanhar os avanços tecnológicos”. Apesar dessa aposta, sublinha, uma das preocupações relativas às novas tecnologias é o descompasso entre a capacidade de criá-las e “a capacidade de pensar as consequências sociais, éticas, econômicas que essa tecnologia gera”.

No âmbito educacional, pontua, “precisamos usar o ChatGPT (…) mas temos que fazer isso da melhor forma possível, de modo que a utilização possa melhorar o ensino ao invés de piorá-lo”.

A opinião é compartilhada por Pedro Henrique de Castro, para quem a discussão em torno do uso do ChatGPT no ensino “atualiza”, com “contornos e delineamentos contemporâneos”, o debate sobre a função do professor quando o Google passou a ser utilizado como ferramenta de pesquisa. “Ocorreu uma discussão muito parecida com o debate atual, quando a internet começou a se difundir. Quando o Google surgiu, parecia que ia acabar a função do professor, tal como hoje alguns pensamentos podem se apresentar em relação ao ChatGPT e à inteligência artificial. Essa discussão já aconteceu, talvez não com a intensidade e velocidade que vemos hoje, mas já vem acontecendo ao longo dos últimos séculos”, afirma.

Segundo Pedro de Castro, no uso de novas tecnologias de inteligência artificial, dentro do processo de ensino e aprendizagem, perpassa uma reflexão sobre a função da escola e as disputas em torno da formação do currículo escolar. “Atualmente, estamos vivendo a implementação do Novo Ensino Médio – NEM, que vem num discurso muito semelhante de quem é adesista à inteligência artificial. No sentido de que é preciso mudar porque a educação tradicional já não serve, e as práticas didáticas e os itinerários formativos necessitam ser novos, alinhados com o mercado de trabalho, criativos e datados de inovação. Contudo, a resolução que o NEM dá aos nossos alunos e às futuras gerações que vão assumir cargos de trabalho e de poder na sociedade, é, para a grande maioria do ensino público, aula para fabricar bolo de pote”, adverte.

A seguir, reproduzimos no formato de entrevista os principais trechos da conferência virtual sobre ChatGPT e os impactos da Inteligência Artificial na educação, ministrada por Yuri Oliveira de Lima e Pedro Henrique de Castro no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 30-03-2013. A conferência na íntegra está disponível aqui.


Yuri Lima (Foto: Reprodução YouTube)

Yuri Lima é graduado em Engenharia de Produção pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, mestre em Engenharia de Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia – COPPE da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, na área de Gestão e Inovação e foco em Projeto Organizacional e Organização do Trabalho. Cursa doutorado em Engenharia de Sistemas e Computação na mesma instituição. É pesquisador do Laboratório do Futuro da COPPE/UFRJ, onde coordena a linha de Futuro do Trabalho.

Pedro Henrique Castro (Foto: Reprodução | Linkedin)

Pedro Henrique Castro é licenciado e mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e doutor em Educação pela mesma instituição. Leciona na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.

Confira as entrevistas.

IHU – Quais suas projeções sobre o futuro do trabalho a partir do advento de novas tecnologias?

Yuri Oliveira de Lima – Não existe resposta certa para esta questão, mas o futuro da educação e do trabalho são dois temas correlatos. Quando penso no trabalho, penso principalmente na robótica, na inteligência artificial (ou IA) e nas formas como as novas tecnologias irão alterar nosso modo de trabalhar, para além da questão da automação.

Exemplos

O primeiro exemplo é o robô da empresa Moley Robotics, que cozinha. Podemos imaginar, às vezes, que cozinhar é uma tarefa muito criativa e humana, que não seria dominada por uma máquina. Mas, no fim das contas, desde o processo de pegar uma receita até desenvolvê-la, o robô desenvolve um conjunto de passos que são traduzíveis para a tecnologia. Se isso é possível, então pode ser que uma tecnologia venha a fazer isso. Outro exemplo são os robôs de uma empresa americana [Boston Dynamics] que vêm evoluindo ao longo do tempo para poder fazer cada vez mais atividades, como a construção de andaimes.

Atlas Gets a Grip | Boston Dynamics:

Com a inteligência artificial, um dos casos é a sua alimentação com roteiros de filmes e a escrita e gravação de roteiro próprios: a IA escreveu o roteiro, as falas e músicas para um filme. É um exemplo de como a tecnologia pode avançar sobre atividades que dependem da criatividade.

Por fim, os óculos de realidade aumentada permitem a criação de um escritório virtual dentro de casa e exemplificam como a tecnologia pode mudar a forma como trabalhamos. A partir desses exemplos, podemos imaginar como serão as pessoas, os profissionais, quais serão as necessidades de habilidades, formação e educação para esse público.

Revoluções industriais

Para dar uma perspectiva histórica e mostrar que não estamos isolados, é interessante voltarmos ao passado e mostrar o que aconteceu antes deste momento que estamos vivendo, a partir da história das revoluções industriais.

revolução industrial é um momento de intensa mudança nos modos de produção. Quando eles mudam intensamente, a sociedade muda intensamente: a economia, as formas como nos relacionamos, a política. Muita coisa acontece em função disso; não se trata apenas da introdução de uma nova tecnologia. Na primeira revolução industrial, foi produzida a máquina a vapor, em 1760-1840. Várias coisas aconteceram neste período: o surgimento das fábricas, a mudança na forma como as casas e famílias eram organizadas, a produção de itens que hoje consideramos comuns, como uma meia ou um chapéu. Esses itens, antes, eram coisas raras que somente rainhas e reis tinham acesso. Essa revolução gerou uma produção muito grande e uma difusão do consumismo.

Na segunda revolução industrial, a eletricidade é a principal tecnologia implementada, entre 1850-1945. Do ponto de vista da organização da produção, surgem as linhas de produção fordista e taylorista e uma série de mudanças nas empresas e na sociedade em relação à forma como se produz.

terceira revolução industrial, de 1950-2000, corresponde à introdução de novas tecnologias de computação. Computadores que antes ocupavam andares foram, ao longo do tempo, se miniaturizando para caber nos nossos bolsos.

Um processo que mudou ao longo do tempo foi a velocidade com a qual as tecnologias se espalharam pelo mundo e isso é importante para entendermos o ponto que vivemos hoje. Se, na primeira revolução industrial, uma tecnologia com base a vapor levou 120 anos para se espalhar mundo afora, na segunda revolução industrial esse tempo caiu para 44 anos no caso dos carros e, na terceira, a internet, em apenas oito anos, se espalhou pelo mundo – apesar de ainda hoje nem todos terem acesso à rede. Nesse processo, o ChatGPT levou cinco dias para atingir um milhão de usuários. Comparando com as tecnologias anteriores, é uma velocidade muito maior. Isso é algo para refletirmos, porque impacta a forma como trabalhamos, a forma como vamos pensar a educação.

Inteligência artificial e o futuro do trabalho – Prof. Dr. Cesar Alexandre de Souza:

quarta revolução industrial é uma grande combinação de tecnologias – bio, nano, computacional, robótica – para criar e impactar todas as áreas de trabalho que conhecemos: da saúde ao direito, passando pela educação.

Em 2018, uma pesquisa que realizamos indicava, segundo o estado da arte da inteligência artificial e da robótica, que o impacto mais importante da tecnologia sobre o trabalho e a educação seria em relação à automação. 60% da força de trabalho do Brasil estaria sob alto risco de automação nas próximas décadas. Cabe pensarmos o quanto isso evoluiu nos últimos cinco anos, desde que essa pesquisa foi feita. Esperava-se que mais de 2.500 profissões fossem extintas, entre elas, telemarketing (99%), operadores de caixas (97%), recepcionistas (96%), assistente de serviços legais (94%), motoristas privados (89%), seguranças (85%).

IHU – O que a tecnologia não era capaz de fazer e tem sido capaz de fazer? Que outras profissões podem ser automatizadas ou substituídas por novas tecnologias?

Yuri Oliveira de Lima – Uma delas é a inteligência social, que significa negociação, comunicação, empatia. Essas eram capacidades que se acreditava que a tecnologia não absorveria tão cedo. Outro aspecto é a criatividade, a capacidade de inovar, de pensar ideias que possam ser concretizadas, como escrever filmes, músicas e melhorar um processo de negócio. Outro aspecto é a recepção e manipulação avançada. O exemplo aqui são os cirurgiões ou artistas que têm que lidar com objetos de uma forma muito minuciosa. Essas eram as áreas em que se imaginava que a tecnologia não atuaria. Nesse sentido, as profissões menos afetadas seriam médicos e cirurgiões (0,42%), gerentes de RH (0,55%), professores (0,74%), enfermeiros (0,9%), engenheiros (1,9%) e advogados (3,5%). Acreditava-se que um conjunto de profissões estariam livres do processo de automação.

É importante destacar o que aconteceu com os professores nos últimos anos. Não vejo um risco de automação muito grande se quisermos manter a qualidade da educação, porque não dá para substituir o professor. Mas o que temos visto no país é uma mudança do próprio modelo de negócios da educação: um avanço cada vez maior da educação a distância, a redução das disciplinas presenciais, que reduz a necessidade de mais professores. Apesar de poucos riscos, o que vimos em estudos que realizamos é que o número de professores no mercado de trabalho diminuiu nos últimos anos, apesar do aumento do ensino superior ter ocorrido durante a pandemia.

Entre as profissões que deixarão de existir e vão continuar existindo, novas profissões irão crescer. Entre elas, destacam-se: psicólogo ciborgue, que pode ajudar pessoas com planos robóticos ou vícios digitais a lidarem com suas realidades; nostálgicos, que são pessoas que criarão realidades virtuais para pessoas que sentem saudades de outras que se foram ou pessoas que sentem saudades de momentos de nostalgia positivos; projetistas de carros autônomos; intérpretes de IA; negociadores de propriedade intelectual; negociador de dados; engenheiros nanomédicos, e outros. A questão da educação é como formar profissionais para essas novas áreas que nem existem ainda.

IHU – O que é o ChatGPT e como pode ser compreendido neste contexto de transformações?

Yuri Oliveira de Lima – O ChatGPT é o mais popular no momento, mas seus correlatos, outras aplicações de inteligência artificial, vêm surgindo ao longo dos últimos anos.

Perguntei para o ChatGPT o que é o próprio ChatGPT e tive uma boa resposta:

“Nada mais é do que um modelo de linguagem desenvolvido pela OpenAI, com base em uma arquitetura de GPT (Generative Pre-trained Transformer) 3.5. Eu fui treinado em uma grande quantidade de dados de linguagem natural e programado para interagir com usuários de forma semelhante a um humano. Em outras palavras, eu sou um programa de computador que utiliza técnicas de inteligência artificial para entender e gerar textos em linguagem natural, com o objetivo de responder perguntas, realizar tarefas e manter conversas com os usuários.”

Ele é programado para conversar como se fosse uma pessoa. É possível fazer uma pergunta a ele ou pedir que faça uma tarefa, como escrever uma carta, um e-mail ou um código de software, que ele vai entender e interpretar. Basicamente, trata-se de um programa que usa inteligência artificial para entender o que as pessoas estão falando e respondê-las. Essa é a ideia por trás do ChatGPT.

Existem várias outras tecnologias que atuam com o próprio GPT3, que escreveu como coautor artigos acadêmicos. Outras tecnologias de inteligência artificial estão recebendo patentes por invenções, softwares estão ajudando programadores a escrever seus códigos. Isso significa que a tecnologia está avançando sobre essas áreas, ajudando as próprias áreas e substituindo profissionais. A Lu do Magalu virou a influenciadora virtual com o maior número de seguidores no mundo em decorrência de uma aplicação de tecnologia; neste caso, uma tecnologia de computação gráfica. Um robô no Japão prepara uma massa em 45 segundos. Esses são exemplos de tecnologias que usam inteligência artificial para fazer uma atividade que poderia ser desenvolvida por uma pessoa, ou uma atividade que poderia ajudar uma pessoa em seu trabalho.

Diferentes usos da inteligência artificial nas organizações – Prof. Dr. Cesar Alexandre de Souza:

IHU – Quais as questões éticas que surgem em decorrência do uso dessas tecnologias?

Yuri Oliveira de Lima – As tecnologias nunca são neutras; são criadas com um propósito. A forma como são criadas define o limite e o potencial de usá-las, sendo que algumas são muito amplas. O Facebook, por exemplo, pode ser utilizado tanto para compartilhar a foto de um cachorro quanto para influenciar uma eleição. As possibilidades são amplas, assim como o ChatGPT tem possibilidades imensas. Adotar ou não essa tecnologia também vai definir como as pessoas serão afetadas. Adotar o ChatGPT em uma universidade ou escola modificará aquela realidade de forma sensível. O modo como utilizamos a tecnologia também pode transformar a intenção original, ou seja, é possível criar uma rede social voltada para um determinado fim e aquele fim ser modificado no meio do caminho. A tecnologia é extremamente complexa e não existe de forma isolada da sociedade; ela tem que ser trabalhada neste contexto.

O que preocupa quem pesquisa o assunto é o descompasso entre a capacidade de criar tecnologias e a capacidade de pensar as consequências sociais, éticas, econômicas geradas, e como acompanhar ou controlar essas tecnologias. Existem exemplos, do ponto de vista ético, que tentam estabelecer instruções para ajudar quem cria ou quem aplica uma tecnologia a fazer isso de uma forma mais correta. Reflexões sobre essas questões demandam mais tempo – se quisermos fazê-lo dentro de uma democracia, participativamente – do que a criação de uma tecnologia, que é algo dependente de empresas com milhões de dólares em investimentos. Um exemplo de discussão democrática é uma carta que várias pessoas assinaram – como o cofundador da Apple [Steve Wozniak] e o professor Yuval Noah Harari – sobre a interrupção de grandes experimentos com inteligência artificial.

IHU – O que podemos esperar disso tudo?

Yuri Oliveira de Lima – As posições sobre o ChatGPT são distintas, desde grupos dizendo que não irão bani-lo das escolas e o utilizarão para a aprendizagem, até outros que o veem como uma ameaça. Tanto na imprensa nacional quanto na internacional, o debate está acontecendo e não há respostas para avaliar se o ChatGPT é bom ou ruim; existem formas de analisar essa tecnologia e é isso que estamos fazendo: analisando o impacto da tecnologia sobre os alunos, professores, sobre plágio e assuntos que precisamos repensar do ponto de vista educacional.

Perguntei ao ChatGPT como ele acha que pode ajudar os professores e recebi algumas sugestões. Ele acha que pode ser útil de várias formas:

  • Auxílio na produção de conteúdo: ele pode ajudar os professores a criarem seus conteúdos educacionais e materiais didáticos.
  • Suporte na pesquisa: pode ser ótima ferramenta de pesquisa para encontrar informações relevantes, responder a perguntas ou até mesmo gerar ideias para novas pesquisas.
  • Melhorar a comunicação: quando o aluno envia uma mensagem, o professor pode pedir para o ChatGPT escrever uma resposta para ele.
  • Auxílio na criação de avaliações: pedir para ele escrever uma avaliação sobre a geologia da região sul do Rio de Janeiro.

Essas são possibilidades que o ChatGPT dá, mas ele também diz, a partir de outras perguntas que fiz, que é preciso considerar suas respostas como ponto de partida e não como a chegada final. É algo a se considerar.

Também perguntei como o ChatGPT pode ajudar os alunos. Ele tem algumas sugestões.

  • Respostas a dúvidas: ao invés de fazer buscas no Google, o aluno pode perguntar ao ChatGPT.
  • Auxílio em pesquisas.
  • Auxílio na prática de habilidades, como escrita e leitura.
  • Assistente de estudos: ajudando a lembrar coisas importantes e revisando o material – é possível jogar um texto no ChatGPT e pedir que faça um resumo, inclusive determinar a quantidade de caracteres do resumo, e ele fará.
  • Ensino personalizado: programar para ensinar o aluno de acordo com seu ritmo, avançar em um conceito que ainda não entendeu ou ajudar a revisar o conteúdo para quem ainda não entendeu algo.

Finalmente, perguntei quais os desafios que o ChatGPT e a inteligência artificial impõem à educação. As respostas são várias:

  • O desafio de atualizar constantemente o currículo: se novas tecnologias vão mudando e surgindo, temos que pensar como podemos atualizar o currículo.
  • Treinamento de professores: se a inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente na nossa vida, como os professores vão ensinar IA em sala e como vão usar a IA para ensinar em sala? São duas coisas diferentes.
  • Desenvolvimento de habilidades não técnicas: usar uma tecnologia como o ChatGPT envolve saber fazer uma pergunta e isso implica a capacidade de ser criativo, de saber interagir, de saber se comunicar.
  • Equidade educacional: sabemos que a tecnologia não é acessível para todas as pessoas. Algumas têm acesso à internet rápida e podem usar o ChatGPT, enquanto outras não têm e não vão conseguir usar a tecnologia. Alguns nem vão saber o que é ChatGPT e outros vão usar a tecnologia e se tornar profissionais mais produtivos por conta disso, aumentando a desigualdade.

IHU – Quais os desafios da educação com o surgimento de novas tecnologias?

Yuri Oliveira de Lima – As novas tecnologias não vão parar de surgir e o ritmo tende a se manter acelerado. As pessoas podem escrever quantas cartas quiserem, mas as empresas não vão parar de produzir porque, como sabemos, boa parte disso tudo é movido pelo interesse dos lucros. A ideia do capitalismo é que coisas novas precisam ser criadas para continuarmos comprando; basta ver o iPhone.

Esta é a realidade que vivemos: quando menos esperamos, surge uma tecnologia nova. Nós sabemos que é assim que as coisas vão acontecer e já sabíamos do GPT3 há muito tempo. Então, era previsível que surgisse um ChatGPT. Mas quanto tempo temos para parar, no nosso dia a dia, e refletir sobre esses assuntos? Esse é o desafio.

Não existem áreas onde as novas tecnologias não sejam ou não serão relevantes, ou nas quais não serão aplicadas. Não importa se as pessoas trabalham na área ambiental, da saúde, do direito ou da educação. Todas elas usam tecnologias, serão impactadas e gerarão desigualdades ou vantagens e desvantagens competitivas entre quem usa tecnologia e quem não usa. Se queremos profissionais bem formados, eles precisam trabalhar com as novas tecnologias.

educação para o trabalho precisa acompanhar os avanços tecnológicos, e essa é uma defesa que faço. Creio que precisamos usar o ChatGPT para a educação, mas temos que fazer isso da melhor forma possível, de modo que a utilização possa melhorar o ensino ao invés de piorá-lo.

O impacto da inteligência artificial na educação deve ser observado do ponto de vista de todas as partes envolvidas. Neste caso, costumamos pensar geralmente na relação professor/aluno, mas temos que pensar também como os pais estão envolvidos e impactados. Muitas vezes, o aluno precisa realizar um trabalho em casa, e a questão é como os pais podem ajudar fazendo uso de tecnologias como o ChatGPT e outras. Como a comunidade vai evoluir junto com essas tecnologias? A educação envolve não só a escola, a universidade ou o aluno, mas o ambiente de trabalho, o ambiente onde o aluno vive, a comunidade.

Por fim, a tecnologia pode servir para melhorar ou piorar a educação. Precisamos refletir sobre quem é o dono da tecnologia, quem a está implementando e fazendo ela acontecer. Isso tem muito a ver com o resultado que teremos. Basta observar a questão da educação a distância.

ChatGPT e os impactos da inteligência artificial na educação

IHU – É preciso repensar a educação a partir do advento das novas tecnologias, como ChatGPT?

Pedro Henrique de Castro – A seguir, apresento alguns pontos de uma discussão bastante incipiente, ao menos do ponto de vista educacional. Se formos a uma base de dados como a Scientific Electronic Library Online – SciELO e buscarmos artigos científicos sobre a temática, encontraremos pouca produção em língua portuguesa. Em outras áreas existe mais produção.

Repensar a educação, as práticas didáticas e os currículos não é um assunto novo e, para tal, temos que ter uma noção de perspectiva. No fim do século XIX, [JohnDewey já pensava sobre a necessidade de reformas educacionais. O que as discussões mais atuais fazem é mudar as nuances, os contextos e trazer novos elementos para este processo. Por isso, precisamos ter uma perspectiva ao invés de um alarmismo sobre essas mudanças.

Ocorreu uma discussão muito parecida com o debate atual, quando a internet começou a se difundir. Quando o Google surgiu, parecia que ia acabar a função do professor, tal como hoje alguns pensamentos podem se apresentar em relação ao ChatGPT e à inteligência artificial. Essa discussão já aconteceu, talvez não com a intensidade e velocidade que vemos hoje, mas já vem ocorrendo nos últimos séculos. O ChatGPT atualiza esse debate e traz contornos e delineamentos contemporâneos.

Minha abordagem sobre essa temática busca responder a três perguntas: Qual o papel da educação frente às novas mudanças tecnológicas? Como o currículo escolar será afetado por tecnologias como a IA? Qual será o papel do professor frente a essas mudanças? Na resposta às duas primeiras questões, aparece um pessimismo realista, mas há um papel propositivo, especulativo e positivo nas segunda e terceira questões.

IHU – Qual é o papel da escola na sociedade que está sendo transformada pela tecnologia?

Pedro Henrique de Castro – Temos que entender a função da escola na sociedade. A sociedade ocidental designou a escola como a grande instituição responsável pela educação das futuras gerações. Nesse sentido, precisamos entender que o senso comum quase responsabiliza a escola como a única encarregada pelo sucesso ou pelo fracasso da educação das gerações. Contudo, diversos autores lembram que é preciso pensar em ecossistemas educativos. A escola, sozinha, não salva nem redime os dilemas de uma sociedade. Ela é apenas mais um ator, um ator fundamental, mas não atua sozinha.

Também é preciso ter um pouco de perspectiva. Desde que a Constituição de 1988 estabeleceu a ideia de universalização do ensino, do direito ao acesso ao ensino público, ela trouxe para a escola algo muito importante: pensar a escolarização e alfabetização das futuras gerações como um direito do Estado. Mas a Constituição acabou importando para a escola uma série de dilemas que a sociedade não resolveu. Ela acabou importando uma série de dilemas relacionados à merenda, por exemplo. Há alunos que vão para a escola tendo como principal objetivo se alimentar porque não têm acesso à alimentação fora da escola. Muitos vão para a escola para tomar banho porque o saneamento básico não chegou com qualidade ao seu local de moradia. A escola também enfrenta uma série de desigualdades de oportunidades educacionais, econômicas, sociais e culturais. Então, a escola está em meio a esse grande conflito que a sociedade não resolveu.

O que as novas tecnologias e o ChatGPT trazem para este caldeirão que já é complexo? Elas vão se impondo como uma demanda para a escola. Como vamos lidar com essa realidade e as novas tecnologias? O ChatGPT vai nos atrapalhar ou vai nos ajudar enquanto uma ferramenta para o aluno compreender o mundo? São questões que vão se impondo. Mas, antes de entrarmos nisso, devemos pensar que a educação precisa ser considerada um projeto de Estado.

Se queremos pensar a inteligência artificial na escola, primeiro é preciso ter internet, segundo, que o contexto escolar seja minimamente favorável para que o aluno entre na escola. No Rio de Janeiro, há casos emblemáticos de tiroteios que interrompem as aulas por conta de ações policiais, de troca de tiros entre a polícia, a milícia e o tráfico. Nesse sentido, o ChatGPT é uma metaquestão que só consegue ser entendida à luz de todas essas desigualdades e problemas que nossa sociedade tem.

Para o uso do ChatGPT, é preciso que os professores treinem, participem de processos de formação continuada. Mas como eles participarão disso, se a carreira deles é totalmente precarizada? Se eles precisam correr de uma escola para a outra para ter um salário minimamente digno? Precisamos olhar para essas questões de modo mais complexo. A tecnologia não se dissocia da política. Quem monopoliza a tecnologia? Como ela entra nas escolas públicas, que são as que de fato formam um grande contingente da população brasileira? Essas questões precisam ser colocadas, entendendo que, sozinha, a escola não salva o mundo. Sem ela, tampouco ele é salvo.

Revolução 4.0 e (des)igualdade no Brasil e na América Latina:

IHU – Como o currículo escolar pode ser afetado pelo ChatGPT?

Pedro Henrique de Castro – Primeiro, precisamos entender o que se ensina na escola. O currículo escolar é um campo de disputa e tensões. Quando o próprio ChatGPT tem uma ideia de currículo escolar, é porque existe uma série de atores e agentes disputando o que se ensina e não se ensina na escola. O futuro da educação depende muito da construção do percurso curricular. Ou seja, o currículo escolar não é algo produzido por seres iluminados do Ministério da EducaçãoONGs ou institutos que dizem o que deve ou não ser ensinado. Este é um campo em intensa disputa e tensão para que se estabeleçam o percurso de ensino, um conteúdo e materiais didáticos que farão parte da vida do estudante, inclusive o acesso à tecnologia. Atualmente, estamos vivendo a implementação do Novo Ensino Médio – NEM, que vem num discurso muito semelhante de quem é adesista à inteligência artificial.

IHU – Em que sentido?

Pedro Henrique de Castro – No sentido de que é preciso mudar porque a educação tradicional já não serve, e as práticas didáticas e os itinerários formativos necessitam ser novos, alinhados com o mercado de trabalho, criativos e datados de inovação. Contudo, a resolução que o NEM dá aos nossos alunos e às futuras gerações, aquelas que assumirão cargos de trabalho e de poder na sociedade, é, para a grande maioria do ensino público, aula para fabricar bolo de pote. Esse é o exemplo que o jornal O Globo deu recentemente para mostrar no que o NEM está se transformando. A despeito de toda a argumentação de que mudar o ensino médio é necessário, a resolução foi precarizar os nossos alunos para que eles assumam postos de trabalho precarizados. É preciso pensar à luz de todas essas disputas sobre o que é o currículo escolar e o que não é o currículo escolar.

Um conceito que talvez seja fundamental dentro dessa ideia curricular é entender que os conhecimentos escolares são conhecimentos que precisam figurar dentro de relações sociais concretas que trabalham com a dimensão das transformações que queremos ver nas futuras gerações. Se queremos que o ChatGPT ou as inteligências artificiais sejam ferramentas para os nossos alunos, é preciso que eles figurem no currículo escolar. Mas para que eles figurem de forma qualitativa nesses currículos, todos aqueles dilemas, ou parte substantiva deles, precisam ser minimamente sanados. Do contrário, quem vai ter acesso ao ChatGPT, quem vai ter acesso à inteligência artificial? As escolas economicamente elitizadas – e aí há uma possibilidade de aumento das desigualdades.

Currículo oculto

Existe também a noção de currículo oculto. Ou seja, não é apenas o que está escrito no programa de ensino ou na Base Nacional Comum Curricular – BNCC que será ensinado nas escolas e instituições de educação. O currículo oculto são os rituais, as práticas, as relações hierárquicas presentes dentro de um ambiente de ensino escolar. Isso tudo faz parte do processo educativo. Em uma escola onde há escassez de tecnologia, qual aluno vai ter acesso à tecnologia e qual não vai? Quem decide sobre isso? Essas questões fazem parte do currículo oculto.

Os conhecimentos escolares são importantes para os alunos porque permitem uma compreensão acurada da realidade em que estão inseridos.

IHU – Dominar as inteligências artificiais ou o ChatGPT é importante para o aluno entender a realidade em que está inserido?

Pedro Henrique de Castro – Existe uma defesa da minha parte de trazer essas novas tecnologias relevantes e significativas para os alunos, mas é preciso analisar esse acesso à luz das desigualdades de oportunidades educacionais que temos em nosso país. Do contrário, em vez de um conhecimento relevante e significativo, o ChatGPT só funcionará como um ampliador do abismo das desigualdades entre escola pública e escola privada. O ChatGPT é um direito e um dever da escola. Negar o avanço dessas tecnologias e fazer carta de repúdio não vai funcionar porque a pesquisa sobre essas novas tecnologias não vai parar.

Como usar a nosso favor? Vamos fazer, como fizeram no Rio de Janeiro, uma lei para proibir o uso de celular em sala de aula? Algo completamente inócuo. Ou usaremos o celular como um instrumento pedagógico, contando com acesso universal à internet em nossas escolas? Vamos proibir o uso do ChatGPT ou trazê-lo para dentro da práxis educativa? Talvez a segunda opção seja a que vai permitir o ChatGPT enquanto conhecimento relevante e significativo para todos os alunos, e não para aqueles de determinada classe social.

IHU – Qual o papel do professor nesse processo?

Pedro Henrique de Castro – Precisamos entender quem é o professor. Ele é o especialista no ensinar e no aprender. O que distingue a profissão docente são o ensino e a aprendizagem. Muitos autores dizem que o professor precisa saber lidar com o conhecimento e com o aluno, não só saber profetizar um conhecimento. Até o advento da internet, o professor é visto como um sábio que tem a leitura dos livros e dos conteúdos e que destila seu conhecimento para a turma. Mas isso mudou com a internet e com as tecnologias de inteligência artificial. O docente precisa aprender que não basta apenas profetizar uma aprendizagem. É preciso lidar com a aprendizagem do aluno. O ato educativo não finda em ensinar; ele só se concretiza na aprendizagem do aluno. Isso precisa ficar claro porque o papel do professor, calcado em reprodução e memorização, em tarefas de decorar, será impactado pelo ChatGPT. Essa forma de atuar já não era saudável nas últimas décadas e agora fica muito latente.

IHU-UNISINOS

https://www.ihu.unisinos.br/628045-chatgpt-atualiza-debate-sobre-uso-da-inteligencia-artificial-na-educacao-entrevista-especial-com-yuri-oliveira-de-lima-e-pedro-henrique-de-castro

Nova superintendente do Ministério do Trabalho no Paraná toma posse.

Nova superintendente do Ministério do Trabalho no Paraná toma posse.

Na manhã desta segunda-feira (24), Regina Cruz tomou posse como superintendente do Ministério do Trabalho no Paraná. Regina, que já foi presidente da CUT no Estado e liderou a Vigília Lula Livre em Curitiba, agora responderá diretamente a Luiz Marinho, sindicalista e ministro do Trabalho e Emprego, na coordenação das ações da pasta no Paraná.

A nomeação de Regina Cruz como superintendente representa uma importante movimentação no cenário político e trabalhista do estado, tendo em vista sua experiência como líder de movimentos sociais. Com isso, ela pode agregar uma perspectiva mais engajada na defesa dos direitos trabalhistas e na promoção de melhores relações entre trabalhadores e empregadores.

Representando a Nova Central Sindical de Trabalhadores do Estado do Paraná, esteve presente o companheiro Adriano Carlesso, Vice Presidente do Conselho Estadual do Trabalho (CETER) e Diretor de Assuntos Econômicos da NCST/PR.

ChatGPT atualiza debate sobre uso da inteligência artificial na educação

PL das Fake News terá nova prova de fogo na Câmara

Um ano depois de sua tentativa de aprovação, o requerimento de urgência para votação do PL das Fake News retorna ao plenário da Câmara dos Deputados na quarta-feira (26) por determinação de seu presidente, Arthur Lira (PP-AL). Para o relator, Orlando Silva (PCdoB-SP), o momento de votação se torna mais propício em relação à última tentativa, e as chances de aprovação estão maiores desta vez.

Oriundo do Senado, o PL das Fake News tramita desde 2020 na Câmara. Mesmo contando com amplo apoio de Arthur Lira, seu conteúdo ainda sofreu forte resistência tanto dos grupos de lobby das big techs quanto da base de apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, que alcançou uma vitória pírrica na votação do requerimento de urgência, em abril de 2022: dos 257 votos necessários para aprovação, a urgência recebeu 249, retornando assim ao grupo de trabalho.

Passado um ano, Orlando Silva e Arthur Lira tentam novamente fazer avançar o texto. Desta vez, o relator acredita que o contexto tende em favor da aprovação. “O viés do atual governo é pró-regulação das redes sociais, o anterior era contrário. Além disso, hoje há a lei dos serviços digitais da União Europeia, que é importante órgão regulatório, e antes não havia”, ressaltou ao Congresso em Foco.

O texto também passou por novas modificações, principalmente após a entrega, por parte do governo, de um ofício com uma série de propostas de mudanças. Orlando Silva conta que nem todas as mudanças foram acatadas, mas que foram adotadas as sugestões que aproximam o projeto ao teor da legislação europeia, já defendida pelo presidente Lula em sua campanha eleitoral como um modelo a ser seguido.

Regulação das mídias sociais

Apesar do nome, o PL das Fake News consiste em uma lei ampla que regulamenta a atividade das plataformas de redes sociais, de mensageria privada e ferramentas de busca no Brasil. Além de punir a criação e difusão de fake news, ele estabelece critérios de funcionamento das empresas no ramo, cria mecanismos de controle, entre outras medidas.

O tema é visto com preocupação por big techs, que passam a ser consideradas responsáveis pelo conteúdo que circula em suas plataformas. Com isso, passam a responder por negligências na moderação de conteúdo que venha a propagar desinformação, ferir direitos individuais ou coletivos ou que promova ações violentas. Elas também passam a responder pelas sanções aplicadas a usuários indevidamente penalizados.

O projeto também prevê a ampliação da imunidade parlamentar ao contexto digital, não cabendo sanções contra deputados e senadores por iniciativa própria da plataforma. Sites de buscas e redes sociais também ficariam obrigadas a ressarcir redações de jornais pelo conteúdo oferecido, política que hoje é adotada apenas em uma parcela das plataformas, sem uma legislação que trate dos valores.

Orlando Silva e os demais apoiadores do projeto afirmam que trata-se de uma regulação inevitável, tendo em vista a lacuna jurídica existente na internet brasileira, que carece de leis que tratem da circulação de conteúdo. Parlamentares contrários, em grande parte vindos do PL, já acusam o texto de configurar um cerceamento da liberdade de expressão. Gestores de big techs já alegam que a implementação da lei poderia inviabilizar a gestão de suas plataformas.

Momento de violência

Além do cenário da votação se tornar menos hostil diante da chegada de um modelo já implementado no exterior e do apoio governamental, Orlando Silva ressalta que o conteúdo do projeto ganhou maior importância diante do contexto recente de violência oriunda do ambiente digital. “Acontecimentos como o oito de janeiro ou a violência nas escolas alertam a sociedade para os riscos de se manter o modelo legislativo atual”.

Em plenário, ao anunciar a data da votação do requerimento de urgência, Arthur Lira também chamou atenção para esse aspecto. “Não é justo para esta Casa não ter como investigar quem planta terror na vida dos nossos filhos nas escolas. Não é justo para esta Casa não debater temas de importância, pois nós não teremos a solução desse problema se esse assunto não vier a plenário”, declarou.

AUTORIA

Lucas Neiva
ChatGPT atualiza debate sobre uso da inteligência artificial na educação

Ciclos da vida e da dívida

O envelhecimento das nossas sociedades implica a demanda social por despesas públicas aumentar rapidamente.

Fernando Nogueira da Costa

Charles Goodhart e Manoj Pradhan, no livro lançado em 2020, The Great Demographic Revival, criticam a hipótese ortodoxa de “suavização do consumo” ao longo do ciclo de vida. Supõe ele estar diminuindo, relativa e lentamente, enquanto a idade aumenta. Isso não tem acontecido nas sociedades consumistas ocidentais. Em vez disso, o consumo tende a aumentar nos últimos anos da vida humana pela força dos fatos.

As despesas médicas estão concentradas no último ciclo da vida. Essas despesas e mais as com cuidados com idosos, sejam particulares, sejam como serviço público, se tornarão cada vez mais um fardo maior, na ausência de uma inovação na Medicina no tratamento da demência, ainda não anunciada para qualquer breve futuro.

A dependência física, especialmente a demência, é uma função exponencialmente crescente da idade. Tanto as pesquisas quanto os cuidados com a demência estão subfinanciados pelos Estados nacionais frente à necessidade social premente.

Charles Goodhart e Manoj Pradhan não só levaram isso em consideração, mas também o aumento constante da idade média do casal quando nasce seu primeiro filho. Nenhum artigo de economista discute os efeitos econômicos deste fenômeno de alteração do ciclo de vida.

O peso extra da dependência da população envelhecida é arcada pelas famílias, mas o peso das pensões e dos custos com cuidados médicos tende a aumentar para o setor público. Pior, isso ocorre quando o crescimento real está baixo, reduzindo assim a capacidade tributável sobre valor agregado, ou seja, rendas.

Os economistas do mainstream pregam a idade da aposentadoria aumentar à frente da elevação da expectativa de vida, além da generosidade relativa das pensões por aposentadoria ser reduzida. Na maioria das sociedades envelhecidas, há movimento social se revoltando para direcionar a política pública justamente na direção oposta.

As pressões para equilíbrio fiscal por parte dos carregadores dos títulos de dívida pública são tais de modo os países seguirem esse caminho de aumento da idade de aposentar e diminuição das pensões. Isto apesar de ser politicamente impopular.

Os presidentes neoliberais podem atestar isso por não conseguirem logo o pretendido. Os movimentos ascendentes na idade de aposentadoria e os movimentos descendentes na generosidade relativa das pensões serão graduais, mas implacáveis.

Outro problema nos modelos mentais convencionais é todo o investimento ocorrer no setor corporativo, ignorando a necessidade do gasto público com a habitação. Os velhos não se mudam para asilos voluntariamente – e não precisam fazê-lo, caso tenham pagado suas hipotecas em financiamento habitacional. Necessita-se de novas moradias.

O conceito básico de déficit habitacional está relacionado diretamente às deficiências do estoque de moradias, além de englobar aquelas sem condições de serem habitadas em razão da precariedade das construções ou do desgaste da estrutura física. Dentro desses conceitos, elas precisam ser repostas.

Também é considerado como necessidade de incremento do estoque de residências o fator da coabitação familiar não desejada (famílias com pretensão de constituir um domicílio unifamiliar e sem conseguirem), dos moradores de baixa renda com dificuldades de pagar aluguel acima de 30% da renda nas áreas urbanas, dos moradores em casas e apartamentos alugados com grande densidade. Por fim, caso da moradia em imóveis e locais precários e com fins não residenciais, ou seja, domicílios improvisados.

Em uma sociedade em envelhecimento, tende a haver mais agregados familiares e má distribuição do espaço. Por enquanto, o maior número de idosos ainda vivendo separados observa o aumento no número de agregados familiares por jovens viverem mais com os pais, devido ao elevado custo do alojamento separado. Por conta disso, os apelos às reservas financeiras dos pais reduzirão as economias para a aposentadoria.

Por todas essas razões, Charles Goodhart e Manoj Pradhan afirmam os economistas dominantes na mídia neoliberal serem demasiadamente otimistas sobre a força dos futuros índices de poupança pessoal. Pior, o investimento corporativo nas economias avançadas tem sido muito lento nos últimos anos, indicando baixo valor adicionado nos próximos anos.

Dada a alta lucratividade anterior por menores custos trabalhistas e baixíssimos custos de financiamento, no exterior, era de se esperar um investimento muito maior. Em parte, o investimento, assim como a produção, parece ter sido transferido para a Ásia emergente. Nesse caso, somente a redução da globalização (“desglobalização”) trará algum impulso ao investimento doméstico.

Outra parte da explicação para o baixo investimento pode ser a fraqueza do poder de barganha dos trabalhadores ter permitido aos empregadores do setor terciário de serviços aumentar os lucros. Para isso, reduziram as remunerações na “economia sob demanda” [freelance economy], definindo novas relações de trabalho entre empresas e trabalhadores temporários, “urberizados” e/ou “pejotizados”.

Optaram por essa precariedade na relação trabalhista em vez de passar pelo processo mais difícil de aumentar a produtividade dos funcionários. Seria conseguido isso principalmente por meio de investimento em automação e/ou robotização.

Se confirmar o fortalecimento do poder de barganha trabalhista e aumento do salário-mínimo, devido à menor população, isso poderá encorajar o investimento industrial em máquinas e equipamentos para elevação da produtividade. Portanto, Charles Goodhart e Manoj Pradhan não esperam o declínio potencial da força de trabalho (população economicamente ativa) levar a uma queda equivalente no investimento corporativo.

Mas eles compartilham da visão de outra razão para a estagnação dos índices de investimento se refere ao problema de governança corporativa nas economias capitalistas, notadamente na economia de mercado de capitais norte-americana. Dar aos executivos corporativos bônus enormes, se eles conseguirem aumentar as valorizações de ações, em curto prazo, os encoraja a aumentar a alavancagem, emitindo dívidas apenas para recomprar ações, e agir contra a diluição das participações acionárias. Com isso, aumentam de imediato os dividendos distribuídos aos acionistas restantes, em vez de assumir risco em longo prazo com investimento produtivo.

Não resistem à tentação de garantir logo o próprio futuro pessoal. O resultado é um grande aumento nos índices de dívida corporativa, embora as razões para isso sejam distintas dos fatores impulsionadores dos índices de endividamento no passado. Na Ásia ainda há investimentos produtivos, diferentemente das economias ocidentais.

Esse aumento do grau de endividamento se depara agora com as taxas de juros nominais crescentes – e não mais próximas de zero. Os índices de serviço da dívida deixarão de permanecerem baixos, inclusive os encargos financeiros do endividamento público.

No passado recente, dada a inusitada movimentação para alcançar superávit também no setor empresarial, enquanto as finanças pessoais das famílias ricas permaneciam superavitárias, o setor público assumiu um déficit de modo a manter o equilíbrio contábil macroeconômico. Essa contabilidade social ocorria com a renda estagnada.

A Matriz do Patrimônio Financeira mostra os setores liquidamente emprestadores da economia brasileira serem as famílias e o resto do mundo, enquanto os setores liquidamente tomadores são as sociedades não financeiras e o governo. O sistema financeiro apresenta-se em equilíbrio, devido à sua intermediação de recursos.

O envelhecimento das nossas sociedades implica, em simultâneo, a demanda social por despesas públicas aumentar rapidamente. Os gastos com a Previdência Social e a Saúde Pública crescem, enquanto o crescimento dos rendimentos reais para proporcionar a capacidade tributável, de modo os satisfazer, está diminuindo.

No exterior, isso foi obscurecido, nas últimas décadas, por um declínio compensatório nas taxas de juros nominais, deixando os índices de serviço da dívida constantes. Mas agora essas dívidas já cresceram tanto a ponto de os Bancos Centrais não poderem mais aumentar as taxas de juros nominais sem desencadear um colapso financeiro?

Os países ricos ficaram presos em uma armadilha da dívida por conta de as baixas taxas de juros, mais a governança, terem aumentado tanto a dívida a ponto de agora as taxas de juros não poderem mais ser aumentadas muito. O mainstream não vê essa mudança na relação entre a política fiscal e a política monetária. Não percebe a necessidade de rever sua previsão de inflação baixa, assim como de baixas taxas de juros nominais, não dificultar o refinanciamento da dívida e a cobertura financeira dos déficits.

Charles Goodhart e Manoj Pradhan analisam como escapar da armadilha da dívida. Isso deve envolver a redução das vantagens fiscais da dívida sobre o patrimônio e impedir as empresas evitarem impostos usando paraísos fiscais. Provavelmente, também terá de impor algumas novas fontes de impostos, por exemplo, sobre valores de terras improdutivas não geradoras de riqueza e poluentes atmosféricos, como um imposto sobre o carbono. A base tributária sobre a remuneração dos altos executivos corporativos, especialmente os CEOs, também precisará ser reconsiderada nesta privilegiada sociedade de executivos.

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Rede de apoio e enriquecimento (Disponível aqui).

Fonte: A Terra é Redonda
Data original da publicação: 10/04/2023

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/ciclos-da-vida-e-da-divida/

ChatGPT atualiza debate sobre uso da inteligência artificial na educação

Ha-Joon Chang expôs as falácias do neoliberalismo

O economista coreano Ha-Joon Chang escreveu um best-seller crítico da ortodoxia neoliberal. Mas ele está longe de questionar o próprio sistema capitalista.

Ben Selwyn

Ha-Joon Chang é uma raridade no mundo contemporâneo: um professor de economia que é altamente crítico da ortodoxia neoliberal de livre mercado, defende mudanças sociais progressivas, escreve e fala de forma acessível e é muito, muito popular

Os livros de Chang venderam milhões de cópias e ele contribui regularmente para os principais meios de comunicação. Segundo o próprio Chang, seu objetivo não é simplesmente desafiar a ortodoxia do livre mercado, mas também apoiar, por meio de seu trabalho, o tipo de “cidadania econômica ativa” que exigirá “os cursos de ação corretos daqueles em posições de tomada de decisão”.

Embora os socialistas possam aprender muito com o trabalho de Ha-Joon Chang, também precisamos lê-lo criticamente e identificar algumas das lacunas em seu pensamento. A autoproclamada aspiração de Chang é promover uma forma alternativa de capitalismo, mas nosso objetivo deveria ser desenvolver uma alternativa ao capitalismo.

Um tamanho não serve para todos

Grande parte da economia ensinada nas universidades e hoje defendida pelas elites capitalistas adota uma abordagem de tamanho único. Como o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, brincou: “Espalhe a verdade — as leis da economia são como as leis da engenharia. Um conjunto de leis funciona em todos os lugares”.

De acordo com essa perspectiva, livres mercados, comércio livre e interferência política limitada são os ingredientes necessários para permitir que os mercados façam sua mágica, gerando crescimento econômico, empregos e prosperidade em todos os sentidos.

Essa abordagem dominante da economia é abstrata e dedutiva. Baseia-se em pressupostos teóricos, como a noção de livre comércio e seus benefícios, para retratar com precisão e facilitar os processos de desenvolvimento no mundo real. Tal visão de mundo gera um grande grau de arrogância deslocada, como evidenciado pela citação de Summers.

Ha-Joon Chang refuta esse modo de pensar como um exercício moderno de mitologia. Ele enraíza sua própria economia política na análise histórica e institucional, com generalizações teóricas derivadas de casos históricos em vez de teoria abstrata. Sua economia política histórico-institucional é uma lufada de ar fresco quando comparada às teorias abstratas de livre mercado e descoladas da realidade social.

Em seu livro Economics: A User’s Guide, Chang rejeita, em prosa admiravelmente clara, a ideia de que podemos identificar um único conjunto de leis econômicas que regem o mundo. Em vez disso, existe uma ampla gama de pensamento econômico, incluindo o marxismo, que podemos utilizar para entender (e mudar) o mundo contemporâneo.

Variedades do capitalismo

Embora apresente uma crítica efetiva da ortodoxia neoliberal, Chang não está comprometido em transcender o capitalismo, nem pode vislumbrar uma sociedade não capitalista bem-sucedida. Em suas próprias palavras, ele quer explicar o funcionamento do capitalismo para o sistema poder ser “feito para funcionar melhor”.

Os objetivos políticos de Chang derivam, em parte, de sua economia política histórico-institucionalista. Isso é, até certo ponto, uma estrutura intelectual voltada para o passado, pois discute o futuro do ponto de vista do que funcionou no passado.

É também um tanto anti-social, pois desconsidera a centralidade das relações de classe nos processos de desenvolvimento humano. A economia política marxista, por outro lado, está empenhada em decifrar como as forças sociais latentes de hoje – as classes trabalhadoras e seu potencial de ação coletiva – podem gerar uma nova sociedade no futuro.

Embora apresente uma crítica eficaz à ortodoxia neoliberal, Chang não está comprometido em transcender o capitalismo, nem pode imaginar uma sociedade não capitalista bem-sucedida. O objetivo político de Chang – gerar uma forma melhor de capitalismo – e seu modo de economia política também geram fraquezas significativas em sua análise do capitalismo que realmente existe. Em momentos cruciais, ele obscurece a reprodução do capitalismo por meio da exploração do trabalho, como discutiremos mais detalhadamente a seguir.

Outro problema para Chang é o custo ambiental do crescimento econômico. Esta é uma tensão que ele provavelmente não pode resolver em vista de seu compromisso com o desenvolvimento capitalista baseado no crescimento. Uma abordagem marxista da economia pode oferecer soluções para esses problemas prementes.

Contrariando o mercado

Na mitologia neoliberal, os mercados funcionam melhor quando são livres. Se os governos intervirem para regulamentar os negócios, ou se os sindicatos tentarem forçar o aumento dos salários, os mercados deixarão de funcionar de forma otimizada. Os capitalistas transferirão seus investimentos para outro lugar e as pessoas ficarão mais pobres. Como disse Margaret Thatcher: “Você não pode resistir ao mercado”.

Chang destrói essa forma de pensar. Em seu livro 23 Things They Don’t Tell You About Capitalism, ele mostra como os mercados sempre foram regulados pelos Estados. Embora esses regulamentos possam ter sido contestados pelos capitalistas da época, muitas vezes usando argumentos de livre mercado, essa classe acabou aceitando e até apoiando tal regulamentação. O comércio nunca foi livre e nunca será livre, porque os Estados determinam o que pode e o que não pode ser comercializado e sob quais condições.

Veja o trabalho infantil, por exemplo. Na Grã-Bretanha, berço da revolução industrial, o Cotton Mills and Factories Act de 1819 proibiu o emprego de crianças menores de nove anos e limitou a jornada de trabalho das crianças mais velhas — entre dez e dezessete anos — a doze horas. Os oponentes da lei argumentaram que o governo não deveria interferir em um contrato entre trabalho e capital que ambos os parceiros aceitassem livremente e considerassem mutuamente benéfico.

Chang afirma que hoje, mesmo os neoliberais mais radicais se oporiam ao trabalho infantil e apoiariam alguma regulamentação do mercado. Ele argumenta ainda que são políticas e normas sociais, e não uma “lógica de mercado” primitiva, que determinam se as sociedades têm salários e condições melhores ou piores, taxas de investimento e inovação, regulamentação ambiental, assistência médica e assim por diante.

Este é um ponto crucialmente importante contra aqueles que enfatizam as virtudes do livre mercado. No entanto, há algo faltando na conta de Chang. Embora esteja correto ao identificar a regulamentação do salário mínimo como uma questão eminentemente social e política, ele não pergunta por que existem mercados para forçar o trabalho em primeiro lugar. Em 23 Things, Chang não examina a questão de onde ou como o capitalismo emergiu de um mundo de sociedades pré-capitalistas.

Para fazê-lo satisfatoriamente, ele teria que se envolver com o trabalho de historiadores marxistas sobre a transição do feudalismo para o capitalismo. Eles mostraram como os mercados de trabalho com salário livre foram estabelecidos na Europa por meio da expropriação do campesinato e sua subordinação ao contrato de trabalho assalariado, muitas vezes por meios extremamente violentos. Marx chamou essa época de acumulação capitalista primitiva. Chang o ignora.

Dispositivos inteligentes

Dois dos livros de Chang, Kicking Away the Ladder (2002) e Bad Samaritans (2007), desafiam a ortodoxia do livre comércio e do livre mercado conhecida como Consenso de Washington. O autor fornece evidências volumosas para mostrar como os países hoje altamente desenvolvidos usaram toda uma gama de políticas protecionistas e intervencionistas para transformar suas economias.

Chang mostra como o planejamento estatal pode gerar um crescimento econômico mais rápido e uma diversificação industrial mais eficaz do que as políticas de livre mercado. Para Chang, as políticas industriais e de desenvolvimento do Estado podem abrir caminho para um mundo melhor, não a adesão à mitologia do livre mercado.

Países hoje altamente desenvolvidos lançaram mão de toda uma gama de políticas protecionistas e intervencionistas para transformar suas economias. Por exemplo, os políticos nos Estados Unidos frequentemente proclamam que seu país é um bastião do livre comércio. De fato, como observa Chang, “os EUA tiveram uma das tarifas médias mais altas sobre importações de manufaturados do mundo” entre 1816 e 1945.

Para Chang, o fator determinante para que os países alcancem o desenvolvimento econômico com sucesso é sua capacidade de implantar uma política industrial eficaz. Desde o século XVII até nossos dias, uma série de países usaram a intervenção estatal para transformar suas economias, da Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha ao Japão, Coréia do Sul, Taiwan e, mais recentemente, a China.

Tais políticas incluíram tarifas de importação, subsídios à exportação, investimento público em pesquisa e desenvolvimento, joint ventures apoiadas pelo governo entre capital estrangeiro e doméstico e direção estatal das finanças e controle dos mercados financeiros. Segundo Chang, deveríamos encorajar os países mais pobres a usar as mesmas políticas hoje para promover o desenvolvimento econômico, em vez de pressioná-los a aceitar o Consenso de Washington.

Por que os países ricos de hoje estão argumentando contra a abordagem que adotaram à medida que se desenvolviam? Chang argumenta que Estados ricos e poderosos e suas corporações usam a ideologia do livre mercado como uma estratégia imperial para manter seu próprio domínio no sistema mundial.

O título Kicking Away the Ladder vem de uma obra do economista político alemão do século XIX, Friedrich List. Muito parecido com Chang hoje, List submeteu a ortodoxia liberal dominante de seu próprio tempo à uma crítica contundente. Seu objetivo era ajudar a Alemanha a se industrializar e competir efetivamente com a Grã-Bretanha, a potência econômica e militar dominante da era vitoriana.

Como List escreveu em The National System of Political Economy, de 1841:

É um dispositivo inteligente muito comum que, quando alguém atinge o cume da grandeza, chuta a escada pela qual subiu, a fim de privar os outros dos meios de subir depois dele. Nisso reside o segredo da doutrina cosmopolítica de Adam Smith e das tendências cosmopolíticas de seu grande contemporâneo William Pitt, e de todos os seus sucessores nas administrações do governo britânico. Qualquer nação que, por meio de deveres de proteção e restrições à navegação, elevou seu poder de fabricação e sua navegação a tal grau de desenvolvimento que nenhuma outra nação pode sustentar livre competição com ela, nada pode fazer mais sábio do que jogar fora essas escadas de sua grandeza, para pregar a outras nações os benefícios do livre comércio.

Muito parecido com Chang hoje, List forneceu uma crítica muito eficaz das panacéias do livre mercado defendidas por pensadores como Smith e David Ricardo. List não estava interessado em promover uma sociedade socialista como alternativa ao capitalismo: ele queria formas nacionais de capitalismo mais eficazes. Mutatis mutandis, o mesmo se aplica a Chang hoje. No entanto, esse horizonte político limitado tem sérias implicações para os trabalhadores.

As consequências do desenvolvimento

Chang está no seu melhor em sua crítica à ortodoxia neoliberal. Ele é muito mais fraco e bastante ideológico ao explicar as histórias de sucesso de desenvolvimento de países como a Coreia do Sul. É aqui que seu objetivo de fazer o capitalismo funcionar melhor e sua abordagem da economia política acabam por esconder mais do que iluminar.

Por exemplo, Chang compara a proteção de indústrias nascentes pelos Estados para que possam se tornar globalmente competitivas com o cuidado dos pais com seus filhos. Em Bad Samaritans, ele faz uma pergunta retórica: deve seu próprio filho de seis anos conseguir um emprego, ou deve Chang permitir que seu filho acumule as habilidades e conhecimentos necessários para uma futura carreira na qual ele pode ganhar significativamente mais do que se ele começaria a trabalhar aos seis anos?

Nenhuma pessoa sã discordaria de tal proposição. Mas é um exagero ideológico comparar o cuidado dos pais com os filhos com a política industrial do Estado. Essa analogia oculta o fato de que as políticas industriais exigem a formação de grandes classes trabalhadoras altamente exploráveis ​​para trabalhar em indústrias recém estabelecidas. Sempre foi assim, desde a revolução industrial pioneira da Grã-Bretanha até o estudo de caso sul-coreano favorito de Chang.

Falando ao Financial Times em 2016, Chang fez um comentário bastante bizarro sobre a suposta influência do marxismo na política econômica:

A economia marxista moldou a economia mundial. Os arquitetos dos milagres econômicos do leste asiático em Taiwan, Coréia do Sul e Japão foram todos educados na economia marxista, que vê a industrialização como uma forma de gerar excedentes.

Isso certamente seria novidade para os planejadores de qualquer um desses Estados. Na Coreia do Sul, a ditadura militar foi responsável por intensa repressão e violência contra organizações de trabalhadores e ativistas políticos. Isso tornou possível maximizar a exploração do trabalho. Na década de 1970, os trabalhadores sul-coreanos enfrentaram a semana de trabalho mais longa do mundo, em condições extremamente difíceis.

Uma trabalhadora têxtil descreveu sua vida na Coreia do Sul dos anos 1980, depois que o país já havia experimentado duas décadas de altas taxas de crescimento:

Nossa vida na fábrica é realmente miserável. A nossa existência é confinada e sufocante no trabalho – proibidos de falar com os trabalhadores ao nosso lado, mal alimentada, sem permissão nem para ir ao banheiro quando necessário… somos constantemente atormentados por tuberculose pulmonar, pé de atleta e várias doenças estomacais. As mulheres trabalhadoras têm rostos amarelados e inchados devido à luz solar inadequada. Também somos atormentados por temperaturas de 40°C e pela poeira…  Estamos lutando para nos libertar dessas condições miseráveis.

Chang está correto ao observar que os Estados podem regular o investimento por meio de políticas industriais para gerar crescimento econômico mais rápido e diversificação industrial. No entanto, ele ignora a maneira como esse desenvolvimento geralmente requer extrema exploração dos trabalhadores.

Além do capitalismo

Essa lacuna na análise de Chang dos Estados desenvolvimentistas bem sucedidos decorre em parte de sua versão histórico-institucional da economia política, que minimiza a importância de mudar as relações de classe em processos de mudança histórica. Também decorre de seu projeto político, que é criar uma versão melhor do capitalismo em vez de um sistema socialista alternativo.

A crítica de Chang à ortodoxia econômica atual é muito útil. No entanto, sua análise não visa o capitalismo em si, nem imagina um mundo além dele. Ele parece ver o marxismo como um projeto para a industrialização, e não como uma teoria da emancipação humana da exploração.

O desafio para os socialistas ao se basearem no trabalho de Chang é conceber maneiras pelas quais as classes trabalhadoras do mundo possam usar políticas industriais e de desenvolvimento, não para fazer o capitalismo funcionar melhor, mas como parte da luta para estabelecer uma nova sociedade socialista.

Ben Selwyn é professor de Relações Internacionais e Desenvolvimento Internacional na Universidade de Sussex. É autor de The Struggle for Development (2017), The Global Development Crisis (2014), e Workers, State and Development in Brazil (2012).

Fonte: link
Tradução:
Data original da publicação: __/__/2021

DMT: https://www.dmtemdebate.com.br/ha-joon-chang-expos-as-falacias-do-neoliberalismo/