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O Brasil na teia viscosa da chantagem neoliberal. Artigo de Luiz Eduardo Soares

O Brasil na teia viscosa da chantagem neoliberal. Artigo de Luiz Eduardo Soares

“Em Labirinto Reacionário, https://www.ihu.unisinos.br/categorias/625431-nota-sobre-a-aventura-golpista-artigo-de-valerio-arcary-2&sa=U&ved=2ahUKEwjc8fiVuuj-AhW-DrkGHTi3BgMQFnoECAcQAg&usg=AOvVaw14BYImuNat-_ORlHCSiRkd” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer” style=”margin: 0px; padding: 0px; list-style: none; color: rgb(252, 107, 1);”>Valério Arcary analisa com agudeza crítica os embates estruturais da sociedade brasileira na última década. Disseca como a Faria Lima encurrala Lula – e aponta meios de reverter o ciclo vicioso do financismo”, escreve Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político, escritor e ex-secretário nacional de segurança pública, em artigo publicado por Outras Palavras, 09-05-2023.

Eis o artigo.

Labirinto reacionário: o perigo da derrota histórica é um livro importante, escrito por um dos principais estudiosos dos desafios políticos contemporâneos, https://www.ihu.unisinos.br/categorias/625431-nota-sobre-a-aventura-golpista-artigo-de-valerio-arcary-2&sa=U&ved=2ahUKEwjX9beLu-j-AhUcI7kGHappDWUQFnoECAIQAg&usg=AOvVaw23VbsKteCMEGrAddmD83Gv” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer” style=”margin: 0px; padding: 0px; list-style: none; color: rgb(252, 107, 1);”>Valério Arcary, cuja maturidade intelectual corresponde à experiência de 49 anos de militância nas lutas populares pelo socialismo. O peso da longa travessia, entretanto – e esse é um dos encantos da obra –, não anula a leveza de quem se recusa a renunciar à esperança. Os capítulos, escritos a um só tempo como intervenções políticas e exercícios reflexivos, mantêm o leitor (relevem o masculino) alerta, mobilizado, inquieto, não raro emocionado e sempre induzido a pensar e repensar com independência e espírito crítico, contemplando o retrato fugaz da conjuntura à luz da história e do horizonte transnacional. Densidade analítica, honestidade intelectual e engajamento coexistem, nos textos de Valério, sem concessões mútuas, o que soaria paradoxal apenas a quem supusesse que envolvimento político-partidário implicasse, necessariamente, negar os processos complexos, cambiantes e contraditórios da realidade social para validar concepções congeladas ou autoritariamente impostas.

Imagem: Divulgação

O pensamento vivo do autor não sacrifica, em nome de compromissos de fé, a indispensável abertura àquilo que, nos fenômenos observados, sendo novo e surpreendente, exige criatividade e flexibilidade, nos planos do entendimento e da ação. De outro modo, não haveria o reconhecimento de erros, as correções de rota, a manifestação de dúvidas e a audácia de indagar, mesmo quando não há respostas. Onde não há dúvida nem admissão de incertezas, não há pensamento crítico. E onde falta reflexão crítica, não há prática política consequente. Portanto, aí está a ousadia maior de um pensador como Valério, cuja estatura como liderança política é inegável e que, ao contrário do que se deveria dizer de muitos postulantes a esse título, merece o adjetivo radical – qualidade que atesta profundidade e consistência, e nada tem a ver com sectarismo.

Radical é seu compromisso com a verdade, essa busca perene, indissociável da imersão na luta de classes sob inspiração do ideal socialista. É assim que, pessoalmente, vejo sua identificação com o marxismo, cujos conceitos e valores matriciais lhe oferecem referências, sem condená-lo a qualquer doutrinarismo. A fidelidade à teoria marxista, na medida em que é marcada pela https://www.ihu.unisinos.br/noticias/548887-a-heterodoxia-politica-do-papa-francisco-artigo-de-massimo-faggioli&sa=U&ved=2ahUKEwjdt4mZvej-AhUnq5UCHdqLDbEQFnoECAQQAg&usg=AOvVaw0jqBKRvClhrYKceu9NGYPH” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer” style=”margin: 0px; padding: 0px; list-style: none; color: rgb(252, 107, 1);”>heterodoxia transgressora associada à tradição trotskista, soa como o outro nome da liberdade, não seu contrário. Por isso, o autor, assim como busca nos clássicos pistas para compreender o presente, enfrenta-o com desenvoltura inovadora, sem pagar pedágio a leituras esquemáticas. O ambiente em que se movem os textos reunidos no livro passa ao largo do culto fetichista a heróis ou da devoção reificadora a crenças. O ar que se respira, de capítulo a capítulo, é o do corpo a corpo com a realidade dura do labirinto reacionário, preâmbulo do abismo fascista. Face à barbárie, olhada nos olhos com crueza, somos convocados a exorcizar ilusões e resistir. Nesse embate, os conceitos são meios e modos de pensar para agir, são recursos da prática, são eles mesmos prática política, segundo mediações singulares. Nada mais distante da monotonia placidamente onisciente das ortodoxias.

Eis-nos, então, virando as páginas do labirinto para penetrar em seus enigmas, cartografar suas dinâmicas visceralmente iníquas e descobrir, ou melhor, construir saídas. O livro nos leva das imensas transformações a que vêm sendo submetidas a sociedade brasileira e a realidade transnacional, desde a primeira década do século, a 2013, e daí à ascensão da direita, ao golpe contra Dilma, e, na sequência, ladeira abaixo, até as manipulações grotescas e midiáticas da Lava-Jato, a prisão de Lula – excluindo-o das eleições de 2018 –, a imposição da agenda neoliberal, devastando direitos dos trabalhadores, e a miséria regressiva e brutal do bolsonarismo. Termina com a vitória extraordinária de Lula, triunfo que não dissolveu o sabor amargo do veneno: a persistência e a força do fascismo.

Importante registrar que, ao contrário da visão unilateral e simplificadora, bastante difundida, inclusive no campo das esquerdas, a interpretação de Valério sobre as Jornadas de Junho nos oferece um quadro muito mais complexo, multifacetado e dinâmico, refratário ao reducionismo. Os milhões nas ruas brasileiras não foram invenção da direita, manipulada pela CIA, berço do bolsonarismo que chegaria mais tarde ao poder. Longe disso, embora a direita e a extrema-direita tenham estado lá, tanto quanto a CIA e seus acólitos, como seria de se esperar. Estava em cena a disputa, estava nas ruas a luta de classes, por mediações bastante específicas. O futuro não estava lá, pronto, acabado e resolvido. O futuro foi produzido por apropriações do que Junho pôs em circulação e pela canalização das energias precipitadas na movimentação das massas. Equívocos no entendimento do que estava em jogo pavimentaram o caminho e deram tração aos empreendimentos reacionários e fascistas subsequentes.

Haveria muito a dizer sobre a leitura fina e sensível que Valério propõe a respeito de cada etapa desse processo, dialogando sempre com os imperativos da ação política. Contudo, nada substituiria o próprio livro. Por isso, prefiro me deter na apresentação sumária de alguns pontos que me parecem decisivos e mais urgentes, na medida em que tematizam os desafios ainda em curso:

  • O maior erro das esquerdas foi a subestimação da extrema-direita. Portanto, se há sempre o risco de cometer erros, que sejam erros novos. Jamais voltemos a subestimar Bolsonaro e a penetração capilar do bolsonarismo na sociedade brasileira, inclusive nas classes trabalhadoras.
  • Além disso, não devemos hesitar em sua qualificação, até porque a questão transcende a esfera teórica e invade a seara política: o bolsonarismo existe como programa político e é neofascista. Não economizemos palavras – aqui vale a redundância em benefício da clareza, por suas implicações políticas: Bolsonaro lidera um movimento político de extrema-direita neofascista.
  • A classe média abraçou em imensa maioria um programa. Na página 335, lemos o seguinte: “O bolsonarismo conquistou capilaridade social e nacional”. E ainda: “…há uma consolidação de apoio programático reacionário à extrema-direita. Não estamos mais em 2018. Dezenas de milhões pensam com a cabeça envenenada pelos fascistas. Infelizmente, o país está fraturado, social e regionalmente. Não se trata de um fenômeno brasileiro.”
  • Lembremo-nos de uma observação relativa ao período pré-eleitoral, mas que permanece válida, como demonstraram as performances patéticas e assustadoras de 8 de janeiro: “Bolsonaro aceitou o terreno da disputa eleitoral [taticamente], mas não renunciou às chantagens golpistas.” (p. 327)
  • Uma tese é central e traz consigo uma constelação de desdobramentos reflexivos e políticos: O projeto neoliberal é inviável “sem atacar as liberdades democráticas”. Diz-nos Valério Arcary sobre o projeto de Bolsonaro: “Busca implantar um regime autoritário bonapartista” (p. 328)
  • “Derrotas históricas podem vir em função de quarteladas, por métodos contrarrevolucionários de ‘guerra civil’ com tanques nas ruas. Mas podem vir, também, pela degradação lenta e gradual do regime democrático-liberal. Foi assim no Peru com Fujimori, nos anos noventa.” (p. 328)
  • “… ainda estamos aprendendo como se faz a luta contra a extrema-direita.” (p. 330). Na página 334, o autor afirma: “É preciso aprender com os erros.” Em outra passagem defende propostas que possam inspirar esperança política, como isenção de imposto de renda para assalariados que ganham até cinco mil reais. (p. 331) A referência é significativa, porque expressa a conexão do autor com a realidade pulsante da vida popular. A luta política, mesmo a mais ambiciosa, se liga ao cotidiano, não necessariamente com palavras de ordem distantes e abstratas, que tantas vezes dividem as forças progressistas em torno de querelas doutrinárias.
  • “Mas nos últimos dez anos, o país mudou.” (p. 331) Pode soar trivial, a constatação, quase um truísmo, mas testemunha o esforço analítico para compreender a história a quente, abdicar de certezas pré-fixadas e esquemas rígidos. Se o país mudou, a ação política de persuasão socialista precisa mudar, até para que se fortaleça e possa ditar futuras mudanças, não apenas responder a elas.
  • Muito relevante é a seguinte postulação, a qual, se adotada pelo conjunto dos chamados cientistas políticos e dos comentaristas midiáticos, provocaria uma transformação profunda, impactando inclusive as condições em que se exerce a hegemonia burguesa no país: “A extrema-direita fascista bolsonarista não é uma corrente política legítima…” (p. 338). Adiante, reitera: “O projeto do bolsonarismo é uma ameaça incompatível com as liberdades democráticas”. Ou seja, o bolsonarismo é inimigo de qualquer ator que se identifique com as liberdades democráticas e não pode ser aliado, em nenhuma circunstância, sob nenhuma justificativa. Essa tese aponta a pusilanimidade criminosa de todos os agentes públicos que participaram do governo Bolsonaro ou de sua coligação eleitoral.
  • Finalmente, alcançamos a conclusão sintética: “A chave da evolução da situação política será uma disputa pela consolidação de uma nova maioria social” (p. 347). Na sequência: “O desafio da esquerda será a luta pela hegemonia entre os assalariados de renda média para construir a unidade da classe trabalhadora” (Idem). Adiante, lemos: “O desafio estratégico será a ruptura com o neoliberalismo e a busca de governabilidade na mobilização operária e popular” (idem). “Ninguém pode prever o que, realmente, será o governo Lula. O mais provável será a busca de uma concertação com as frações burguesas que chantageiam, ininterruptamente, aceitando uma ampliação dos programas de combate à pobreza extrema, mas exigindo responsabilidade fiscal. Ou seja, controle de gastos, aceitando uma nova âncora fiscal, mas com contenção da expansão da dívida pública” (p. 347)

A previsão de Valério está se confirmando. O governo Lula está sob cerco, chantageado pela Faria Lima, a grande mídia e a maioria reacionária no Congresso Nacional, sem mencionar os governos estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e a inacreditável arrogância perversa do Banco Central. A vitória nas eleições foi politicamente gigantesca, mas apertadíssima no número de votos. A sociedade está dividida – fraturada, como diz o autor. A força do fascismo se mantém. Portanto, a hipótese da mobilização popular, embora indispensável, parece insuficiente e distante, sobretudo porque provavelmente dependeria de iniciativas do governo federal em princípio incompatíveis com a política econômica neo-fiscalista adotada. Quão mais o governo cede e recua, mais se afasta dos interesses populares, mais fraco e isolado se torna, menos capaz de mobilizar o apoio popular, mais vulnerável à avidez predatória dos abutres do capital. O círculo vicioso aperta o garrote vil e nenhuma dialética emancipadora parece acenar no horizonte histórico. Claro que uma resenha da obra que irradia esperança não poderia terminar nesse tom sombrio e crepuscular. Pois este adjetivo salva meu empenho em vencer a angústia e o ceticismo: não é a coruja, alçando voo no crepúsculo, que vislumbra o desfecho de um período histórico? A ação política coletiva, sintonizada com os processos em curso, não só no país, pode promover alterações hoje difíceis de prever, reconfigurando a correlação de forças e abrindo picadas inclusive para além dos ciclos eleitorais e das limitações governamentais. Crer nessa hipótese é parte da ação política.

IHU-UNISINOS

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O Brasil na teia viscosa da chantagem neoliberal. Artigo de Luiz Eduardo Soares

“Não há qualquer possibilidade de o ‘arcabouço’ funcionar antes da queda da taxa juros”

“A única saída definitiva seria controlar o Congresso, a partir das próximas eleições. É a maioria do Congresso que pode mudar o presidente do BC e colocar na sua presidência alguém que sirva ao povo, e não aos poderosos. Isso exige uma preparação desde agora. E não será fácil”, escreve J. Carlos de Assis.

José Carlos de Assis lançou recentemente o livro A economia brasileira como ela é (2022), disponível para acesso na Estante Virtual da AmazonAssis também é autor de A razão de Deus (2012), A chave do tesouro (1985) e Os mandarins da República (1984), entre outros. É doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e ex-professor de Economia Política e Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba – UEPB.

Eis o artigo.

Encerra-se hoje, 09/05/2023, o ciclo de quatro debates virtuais promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, sobre o “arcabouço fiscal” proposto ao Congresso pelo ministro Fernando Haddad. Como participei de todas as mesas de discussão, pretendo apresentar um resumo das minhas conclusões a respeito do tema. Preliminarmente, porém, queria lamentar a ausência de “economistas de mercado” nos nossos debates, exceto um, embora vários deles tenham sido convidados.

Essa ausência, eventualmente, é uma confissão de falta de segurança para enfrentar pontos de vista diferentes de seus “fetiches”, já que divulgamos, antecipadamente, os nomes dos participantes do campo progressista, que levaríamos para as discussões, e que pretendíamos e pretendemos ser de alto nível. De qualquer forma, não deixaremos de defender nossas ideias sobre o “arcabouço”, inclusive com críticas honestas a seus pressupostos, embora reconhecendo os limites políticos em que foi traçado.

Primeiro, gostaria de acentuar que não me ocupei muito em discutir as previsões estatísticas da proposta de Haddad relacionadas com o desempenho fiscal indicado pelo governo para os próximos anos. Simplesmente não acredito, como disse num dos debates, em previsões macroeconômicas com pontos decimais. Meu interesse são as concepções econômicas centrais por trás da proposta. E elas são decididamente ruins, pois baseiam-se em premissas absolutamente falsas.

A principal delas é que a causa da inflação é um desequilíbrio entre a expansão da oferta monetária acima do aumento da produção e oferta de bens e serviços físicos (PIB) no mercado. Isso só acontece em situações excepcionais, quando existe um descontrole completo da economia, com reflexos inclusive numa crise cambial em larga escala. É o caso da Argentina atual e o nosso, no passado distante. Em situações normais ou próximas delas, inflação é um desequilíbrio de mercado, ou seja, maior demanda física do que oferta, ou menor oferta do que demanda física.

Para enfrentar esse desequilíbrio, considerando sua origem, há duas saídas: os monetaristas propõem cortar na demanda (consumo), para adequá-la à oferta menor; de sua parte, os desenvolvimentistas, que são a corrente econômica oposta, mas sem voz na grande mídia impressa e na televisão, defendem o aumento da produção (oferta), com o mesmo objetivo.

É claro que a alternativa mais consequente é a segunda. Cortar no consumo ou na demanda significa desestimular os empresários a investirem, a criarem empregos – pior ainda, a estimulá-los a eliminar empregos – e a gerar renda, com efeito no decréscimo do PIB. Já a alternativa proposta pelos desenvolvimentistas pressupõe criar todas as condições possíveis para aumentar a produção, gerando emprego, renda e desenvolvimento sustentável, tendo em vista equilibrar a economia também em seus aspectos ambientais.

O grande obstáculo a esse caminho virtuoso é uma alta taxa de juros. Justamente o obstáculo que a economia brasileira está enfrentando, não propriamente por suas condições estruturais e por dificuldades de acesso a recursos reais e financeiros, em moeda local e em moeda externa, para fomentar a produção e o crescimento, mas pela sabotagem de um único homem, o atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que se apoia em ideólogos do mercado como Armínio FragaPedro MalanEdmar Baixa e outros economistas-financistas.

O argumento dele para justificar a sabotagem é uma evidente mistificação, baseada na ideia de que, para controlar a demanda (e a inflação), é necessário reduzir o déficit público, gerar superávit primário – e, absurdamente, aumentar este último, como quer Armínio. A consequência financeira imediata desejada seria a diminuição da dívida pública bruta. E este é o ponto essencial na discórdia entre monetaristas e desenvolvimentistas, na medida em que os primeiros trabalham com “expectativas subjetivas de mercado” de que uma dívida bruta elevada põe em risco a capacidade de pagamento do Estado, enquanto os desenvolvimentistas consideram a inflação, conforme dito acima, como um fenômeno objetivo de desequilíbrio entre demanda e oferta no mercado real.

Se o foco do problema fossem as “expectativas racionais” dos economistas de mercado, os analistas econômicos deveriam levar em conta não a dívida pública bruta, mas a relação entre aumento da dívida e o aumento do PIB. É que caso o aumento da dívida bruta, determinado pelo valor da taxa de juros, for inferior ao aumento do PIB, não há a menor razão para se supor que, em algum momento no futuro, o serviço que lhe corresponde não seja pago. Haverá sempre maior capacidade de pagamento do que compromissos financeiros a pagar.

Isso se refere não apenas à dívida pública, mas também à dívida do setor privado junto ao sistema bancário. É que bancos não costumam emprestar às empresas produtivas a taxas de juros inferiores à lucratividade que projetam para o futuro. Do contrário, correm o risco de quebrar, junto com suas clientes. Portanto, tudo que se tem que fazer para equilibrar a economia como um todo e manter sua credibilidade junto ao setor privado e investidores externos é manter a taxa de juros num nível abaixo do crescimento do PIB, reduzindo-se a relação dívida/PIB.

Quando se consideram essas relações, percebe-se o quão nocivo é para a economia brasileira a política monetária oposta mantida pelo presidente do Banco Central, com taxas de juros básicas extravagantes de 13,75%, como atualmente. Isso, como dito acima, é um desestímulo à produção e ao aumento do emprego, impedindo sua redução, além de favorecer a quebra da renda e do PIB. E funciona, acima de tudo, como trava aos investimentos sociais e de infraestrutura do Estado, à transição energética e às políticas ambientais que dependem de gastos oficiais financiáveis pelo déficit orçamentário responsável.

Um dos “fetiches” que ataquei no ciclo de palestras da Unisinos foi justamente a obsessão que se tem no Brasil, por parte dos neoliberais e “economistas de mercado”, contra o déficit público e, além disso, pela elevação do superávit fiscal. É da mesma natureza que a ideia de que é a dívida pública bruta, e não a relação dívida pública/PIB, que deve ser considerada para avaliar a capacidade de pagamento das dívidas de um país, pública e privadas.

Naturalmente, o endividamento do Estado não pode ser ilimitado. Ele tem que ser condicionado ao aumento da produção de bens e serviços na economia real, para que oferta e demanda se equilibrem no mercado físico. Uma preocupação adicional é que o investimento a longo prazo da sociedade, considerando Estado e setor privado juntos, deve ser compatibilizado com os investimentos de curto prazo. É aí que o sistema de planejamento público deve funcionar, a fim de equilibrá-los.

Taxas de juros excepcionalmente altas aumentam a relação dívida/PIB, pela incidência delas sobre a dívida bruta. É por isso que não há qualquer possibilidade de o “arcabouço” funcionar antes da queda da taxa juros. Esta é pressuposto da queda inversamente proporcional do PIB, ou seja, do principal indicador de solvência de uma economia. O que estamos fazendo, com superávits primários recorrentes e travas ao investimento público, é simplesmente impedir o desenvolvimento sustentável, que só poderia acontecer com estímulos à demanda e à própria produção.

Infelizmente, como não se pode, segundo a Constituição, apenas mandar para casa o presidente atual do BCLula terá de conviver com ele pelo menos até metade de seu mandato. O país será altamente sacrificado. Buscar remendos compatíveis com as imposições do mercado não vão resolver de forma definitiva, como faz Haddad, pois são contraditórios. Uma solução intermediária não será apenas a troca de Roberto Campos daqui a um ano e meio, mas a mudança de concepção da política fiscal-monetária no seio do próprio governo. Essa mudança, desgraçadamente, não escapa à influência dos “economistas de mercado”, que controlam grande parte do pensamento econômico do país, que influem na burocracia pública e cujas ideias estão refletidas no próprio “arcabouço”.

A única saída definitiva seria controlar o Congresso, a partir das próximas eleições. É a maioria do Congresso que pode mudar o presidente do BC e colocar na sua presidência alguém que sirva ao povo, e não aos poderosos. Isso exige uma preparação desde agora. E não será fácil.

Centrais sindicais e outras organizações da sociedade civil, como a Conam (Conferência Nacional de Comunidades), movimentos de mulheres, de negros, de homosesexuais – ou seja, movimentos de eleitores onde houver massas –, deveriam tratar desde já de promover uma cruzada para esclarecer a opinião pública sobre os meandros da política econômica. Não se pode esperar isso da grande mídia impressa e da televisão, que são subordinadas ou aliadas ao capital financeiro, o grande beneficiário da política atual de juros altos. É preciso, sim, que o povo eleja representantes parlamentares comprometidos com suas demandas e, sobretudo, conscientes das escolhas que farão.

Do contrário nós, os progressistas, continuaremos discutindo conosco mesmos, sem qualquer possibilidade de influir nos rumos da polícia fiscal-monetária, porque a maioria de nós não tem acesso direto ao povo. Na atual configuração do Congresso, dominado por forças retrógradas, não temos poder político. O próprio presidente Lula terá muito pouco a fazer, enquanto estiver de mãos amarradas no Parlamento, para implementar suas políticas sociais e de desenvolvimento sustentável. Talvez o mínimo a ser tentado por ele próprio será jogar todo o seu capital de credibilidade junto ao povo para mudar a cara do Congresso, agora, por negociações, ou nas próximas eleições, pelo voto!

IHU-UNISINOS

https://www.ihu.unisinos.br/628515-nao-ha-qualquer-possibilidade-de-o-arcabouco-funcionar-antes-da-queda-da-taxa-juros

Sintracom Londrina estreia o programa Sua Vez, Sua Voz!

Sintracom Londrina estreia o programa Sua Vez, Sua Voz!

O programa “Sua Vez, Sua Voz!” estreou recentemente em sua versão adaptada para as redes sociais, depois de mais de 10 anos de sucesso no rádio. Comandado pelo líder sindical e ativista dos direitos trabalhistas Denílson Pestana, o programa é dedicado a discutir e compartilhar informações sobre o mundo do trabalho.

Em sua edição de estreia, Pestana apresentou a festa em comemoração ao dia dos trabalhadores na sede campestre do Sintracom Londrina e a manifestação dos trabalhadores em Memória as vítimas por acidente de trabalho, realizada no dia 28/04/2023. O programa abordará temas como a luta por melhores condições de trabalho, direitos dos trabalhadores, igualdade de gênero e raça no ambiente de trabalho, entre outros assuntos relevantes para quem busca se informar sobre o universo do trabalho.

Sua vez, sua voz trará entrevistas com profissionais de diversas áreas, líderes sindicais e especialistas em assuntos relacionados ao mundo do trabalho. Essas conversas ofereceram insights valiosos e informações relevantes para quem deseja se manter atualizado sobre os desafios enfrentados pelos trabalhadores e as lutas por melhores condições de trabalho.

Com a adaptação do programa para as redes sociais, é possível que um número ainda maior de pessoas se engaje na conversa sobre o futuro do mundo do trabalho. Através de uma abordagem acessível e informativa, o programa busca trazer luz a questões importantes que afetam a vida dos trabalhadores e suas famílias.

Ao se inscrever no canal do programa, os espectadores podem se juntar à conversa e participar de uma comunidade engajada em discutir questões importantes relacionadas ao mundo do trabalho. Com a experiência de Pestana e a participação de profissionais e especialistas em diferentes áreas, “Sua Vez, Sua Voz!” promete ser uma fonte confiável e valiosa de informações para quem busca se informar sobre os desafios enfrentados pelos trabalhadores atualmente.

 

O Brasil na teia viscosa da chantagem neoliberal. Artigo de Luiz Eduardo Soares

Produção industrial sobe alinhada às expectativas em março

Número veio apenas 0,1 ponto percentual acima da mediana das apostas

Por Lucianne Carneiro, Valor — Rio

Após recuo em janeiro e fevereiro, a produção da indústria brasileira cresceu 1,1% em março ante fevereiro, segundo a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgada nesta quarta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Em fevereiro, o indicador caiu 0,2% e em janeiro, 0,3%, considerando a série frente ao mês imediatamente anterior. Por um problema no site do IBGE, o dado não estava disponível ao público até a publicação desta nota e foi encaminhado aos jornalistas com atraso.

 

O desempenho de março foi alinhado às expectativas. Ficou levemente acima da mediana das apostas de 32 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, de alta de 1%, livre dos efeitos sazonais. As projeções iam de alta de 0,3% a 3,3%.

 

Na comparação com igual mês em 2022, a produção industrial subiu 0,9% em março. Por essa base de comparação, a expectativa mediana do mercado era de que o indicador tivesse avançado 0,7% conforme levantamento do Valor. As projeções iam de queda de 1% a alta de 3,4%.

 

A indústria ficou estável no resultado acumulado nos últimos 12 meses. No primeiro trimestre do ano, há queda de 0,4% frente a igual período de 2022.

VALOR INVESTE

https://valorinveste.globo.com/mercados/brasil-e-politica/noticia/2023/05/10/producao-industrial-sobe-alinhada-as-expectativas-em-marco.ghtml

O Brasil na teia viscosa da chantagem neoliberal. Artigo de Luiz Eduardo Soares

Uberização “é um absurdo, é inaceitável”, diz Luiz Marinho

“É impensável falar que a Uber pode sair do Brasil, igual foi aventado”, diz o ministro do Trabalho

por André Cintra

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, diz que a regulação de serviços por aplicativos como o Uber é fundamental não apenas para garantir “proteção para uma empresa em relação à outra” e evitar a “concorrência desleal”. Segundo Marinho, é também uma forma de combater a “uberização” do trabalho nessas modalidades, hoje marcadas pela precarização.

Em entrevista ao Poder360, ele diz não acreditar que empresas abandonem o Brasil em caso de regulação. “Não tememos isso porque está crescente o trabalho de novas empresas nesse processo. A própria Uber me disse o seguinte: ‘Olha, o mercado número 1 da Uber no mundo está no território brasileiro’”, disse Marinho. “Então é impensável falar que a Uber pode sair do Brasil, igual foi aventado. Isso não existe em absoluto.”

Para o ministro, melhorar as condições de trabalho é dever dessas plataformas. “A história da ‘uberização’ – virou até sinônimo, é uma empresa – é exatamente a lógica da precarização, da superexploração das pessoas em relação a uma nova tecnologia. Isso é um absurdo, é inaceitável”, afirmou. “O que precisamos é que as tecnologias estejam à disposição da humanidade, favorecendo maior remuneração, maior conforto.”

Ele acrescentou “não ter nada contra as empresas”, mas, sim, contra a uberização. “Não está proibida a rentabilidade, não está proibida a palavra lucro. O que tem que estar proibido é a exploração”, resumiu. “É preciso garantir seguridade social, ou seja, Previdência Social para esses profissionais, mas é preciso ir além. É preciso falar de jornada, para não ter jornada extenuante, para evitar acidente, doença e ter um ambiente saudável nesse trabalho.”

VERMELHO

https://vermelho.org.br/2023/05/07/uberizacao-e-um-absurdo-e-inaceitavel-diz-luiz-marinho/